segunda-feira, 30 de junho de 2008

O mapa do atraso - por André Araújo

1. O sistema de organização do esporte profissional e amador, na mão de cartolas irremovíveis, negociando em beneficio próprio um patrimônio que é da Sociedade.

2. O sistema sindical dos trabalhadores e patrões com a mesma estrutura de 1940, até piorada, com reeleições sucessivas em Federações de industria (como a do RJ, já na 4ª reeleição) e com dirigentes operários há mais de 40 anos no mesmo cargo (José Calixto na Confederação Nacional dos Trabalhadores na Industria).

3. As administrações portuárias e as alfândegas marítimas, um esquema que nem o Regime Militar conseguiu mudar.

4. As Reitorias de universidades públicas, caixas-pretas de arrepiar, circundadas por um anel de fundações-ralos que ninguém controla.

5. Os Detrans de todo o Brasil.

6. O sistema de empresas de ônibus urbanos e seus empresários-bacalhau de concessões viciadas há décadas.

7. As polícias estaduais.

8. O sistema de compras e licitações e seus sólidos esquemas de empresas-vende-tudo e jogo de liminares.

9. Os Tribunais de Contas, resorts de políticos aposentados.

10. Os sistemas municipais de uso do solo e licenciamento de construções e seus "agentes-vistores".

11. A administração dos hospitais públicos, com algumas exceções.

12. A administração da instrução publica fundamental, com poucas exceções.

13. A administração penitenciária.

14. Os cartórios.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Impunes, por enquanto - por Gilberto Nascimento e Rodrigo Martins (Cartacapital)

O delegado Dirceu Gravina sentiu tremores e falta de ar quando indagado, na terça-feira 17, em frente à delegacia de polícia onde trabalha, em Presidente Prudente (SP), sobre suas atividades nos porões do DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo, no início dos anos 70. Gravina, conhecido na época pelo codinome JC, quase perdeu a fala. Ele é citado por ex-presos políticos como um dos mais ferozes torturadores brasileiros no período da ditadura militar no País. Gravina nega. Mas tem motivos para se preocupar.

Passados mais de 30 anos, os generais brasileiros responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos inexplicáveis não foram levados aos tribunais. Mas os agentes envolvidos na repressão política no País ainda temem cobranças pelos crimes que praticaram. Familiares dos mortos e desaparecidos também insistem na aplicação de punições, a exemplo do que ocorreu em países como Argentina e Chile.

Duas famílias, a Silva Telles (com cinco de seus representantes) e a de Luiz Eduardo Merlino, movem processos na Justiça contra acusados de assassinatos e tortura. Agora, o Ministério Público Federal (MPF) também encaminhou ação à Justiça Federal para responsabilizar civilmente torturadores e autoridades da época da ditadura militar no Brasil por crimes cometidos no DOI-Codi paulista, entre 1970 e 1976. A Procuradoria-Geral da República de São Paulo avalia que agentes públicos, “notadamente da União Federal”, praticaram abusos e atos criminosos contra opositores ao regime, “em violação ao princípio da segurança pessoal”.

Ilegalidades ocorridas naquela instituição militar, como as prisões ilegais, torturas, homicídios e desaparecimentos forçados, são consideradas pelo Ministério Público como crimes de “lesa-humanidade”. A ação lembra que o Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou ao governo brasileiro que torne públicos os documentos sobre violações aos direitos humanos no País e responsabilize os autores de todos esses crimes.

A ação tem alvos específicos: os então comandantes do DOI-Codi naquele período, o hoje coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, que vive em Brasília, e o tenente-coronel Audir Santos Maciel, do Rio de Janeiro. Ustra já responde a processos de responsabilização das famílias Telles e Merlino. Caso o pedido do MPF seja aceito, ele e Maciel não poderão mais exercer cargos públicos.

São citados ainda dois superiores de Ustra e Maciel: o comandante do II Exército na época, general Ednardo D’Ávila Mello, e o subcomandante do órgão, capitão Dalmo Cirillo. Ambos estão mortos. Os ministros do Exército, generais Orlando Geisel (de 1969 a 1974), Vicente Dale Coutinho (1974) e Sylvio Frota (de 1974 a 1977), só não integram o processo porque também já faleceram. O mesmo ocorre com os ditadores de plantão Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, assim como o poderoso chefe do Centro de Informações do Exército (CIE) na época, general Milton Tavares de Souza, que depois virou comandante do II Exército. Todos já morreram. Em paz e impunes.

A política de repressão e perseguição ampla “mediante violência” partiu, naquele momento da história do País, da Presidência da República e do Ministério do Exército, avalia o procurador regional Marlon Alberto Weichert, autor da ação juntamente com a colega Eugênia Gonzaga Fávero. Assim, se os responsáveis pelas torturas não tiverem seus nomes execrados publicamente, por não estarem vivos, espera-se, pelo menos, que não continuem dando nomes a escolas, pontes e viadutos pelo País afora. Um dos mais sanguinários policiais do País, o delegado Sergio Paranhos Fleury, do antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social), por exemplo, é nome de rua hoje na cidade de São Carlos (SP). O general Milton Tavares também foi agraciado com um viaduto acima do rio Tietê, em São Paulo. Seu nome está lá estampado.

A ação de Weichert e Eugênia tem o objetivo de impedir que os abusos praticados no passado voltem a se repetir. Subscrita por outros quatro procuradores, ela foi encaminhada e aceita pela Justiça Federal no fim de maio. A Procuradoria pede a devolução para a União de todos os valores pagos em indenizações a 64 familiares de mortos e desaparecidos políticos. São presos mortos no DOI-Codi, reconhecidos oficialmente pelo governo brasileiro no documento Direito à Memória e à Verdade, produzido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. O total a ser devolvido aos cofres do governo, conforme a ação, ultrapassa 9 milhões de reais.

Seis mil presos políticos passaram pelo DOI-Codi de São Paulo, subordinado ao II Exército, então o maior e mais temido centro de tortura do País durante a ditadura. Esse cálculo não é de familiares de presos nem de revolucionários esquerdistas, mas de um militar da repressão, Freddie Perdigão Pereira (morto em 1997), um dos envolvidos no atentado do Riocentro, em 1981 no Rio de Janeiro.

O número oficial de mortos e desaparecidos políticos no Brasil é 376. Mas a Procuradoria da República estima que, em todo o País, mais de 30 mil pessoas tenham sido vítimas da repressão política, incluindo torturas, prisões e diversos tipos de perseguição. A ditadura argentina somou mais de 30 mil mortes. E puniu seus repressores. “O Brasil não teve uma comissão de verdade para identificar os torturadores e afastá-los do exercício de funções públicas. O Exército sonega informações à sociedade brasileira”, observa Weichert.

A corajosa decisão de Weichert e Eugênia deve motivar iniciativas semelhantes pelo País. Outros agentes da repressão devem ser citados em ações autônomas. Novos processos são analisados pelo Ministério Público Federal. O caso do delegado Gravina, por exemplo, pode gerar uma nova ação, se depender da ex-presa política Lenira Machado, de 67 anos, que o denunciou à CartaCapital. Hoje aposentada, Lenira estudava Sociologia na USP em maio de 1971 e militava no clandestino Partido Revolucionário dos Trabalhadores (cisão da Ação Popular), quando foi presa pela equipe do delegado Fleury.

Ela passou dois dias no Dops, no bairro da Luz, em São Paulo, e de lá foi levada para o prédio do DOI-Codi, na rua Tutóia. Ali, foi barbaramente torturada três vezes ao dia, durante um mês e meio. Entre outros, pelo então investigador Gravina, o JC. Pela primeira vez, Lenira fala publicamente sobre as torturas praticadas por Gravina. “Ele, o JC, era o braço executivo do Ustra”, testemunha. “Quando interrogava, gostava dos afogamentos e do fura-poço, um tipo de tortura em que a pessoa fica abaixada com o dedo no chão e andando em círculos. Ao ficar tonta, apanha. Ele perguntava e torturava diretamente.”

Depois de intermináveis sessões de pau-de-arara, espancamentos e cadeira do dragão (espécie de cadeira elétrica, na qual a vítima, durante o espasmo do choque, estica as pernas e bate numa barra de ferro), Lenira teve um deslocamento na coluna e ficou paralítica. Fez um longo tratamento de fisioterapia para voltar a andar. Condenada a cinco anos de prisão, mesmo doente, cumpriu um ano e oito meses, no Presídio Tiradentes, em São Paulo.

No DOI-Codi, as equipes de tortura se alternavam pela manhã, tarde e noite, relata a ex-presa política. “Todos recebiam orientações do Ustra e tinham reuniões diárias com ele para relatar o que extraíam da tortura”, atesta. “Eles usavam codinomes e morriam de medo que a gente soubesse quem eles eram.”

Mas JC era uma figura marcante. Muito jovem (tinha 21 anos naquela época), era bem diferente dos militares e demais policiais civis, diz Lenira. “Ele usava cavanhaque, cabelos compridos e lisos. Era meio hippie”, lembra. Por causa da cabeleira, surgiu o codinome JC, em alusão a Jesus Cristo. Até hoje, o delegado usa um rabo-de-cavalo.

Gravina foi identificado por Lenira quase por acaso. Um parente dela o viu numa reportagem de jornal sobre um suposto vampiro que agia na cidade de Presidente Prudente e mordia o pescoço de adolescentes. O diligente delegado, que odeia ser fotografado e briga com repórteres por esse motivo, apareceu mais do que devia e, assim, ela o localizou.

As sessões de tortura comandadas por Ustra e JC eram sempre embaladas por música clássica. Quando era tocada num volume alto, alguém ali era torturado com requintes de crueldade. Era uma maneira também de evitar que os vizinhos ouvissem gritos. “Como gosto muito de música, consegui desvinculá-las da tortura e não consigo lembrar de nenhuma delas”, afirma a ex-estudante de Sociologia.

Em breve, Lenira deve repetir esses relatos aos procuradores Weichert e Eugênia. “Quem torturou da forma como ele torturou, não é uma pessoa normal. E eu não posso acreditar que ele não continue torturando presos comuns. Faz parte da personalidade sádica dele. Só um sádico sente prazer nisso”, desabafa. “Não posso permitir que isso aconteça novamente.”

O Ministério Público Federal tem a mesma preocupação. “É notório que o uso da tortura e da violência como meio de investigação policial ainda hoje pelos aparatos policiais brasileiros decorre em grande medida dessa cultura da impunidade. A falta de responsabilização dos agentes públicos que realizaram esses atos no passado inspira e dá confiança aos atuais perpetradores”, afirma a ação dos procuradores.

Manter hoje acusados de tortura em cargos públicos é um risco para a sociedade, assegura Weichert. “É preciso reconhecer que a tortura funciona. Uma pessoa que pratica tortura, que se acostumou com isso e exerce a função de delegado, traz um risco para a sociedade”, analisa. “Vamos analisar esse caso, mas ele precisa chegar a nós oficialmente.” A Ouvidoria da Polícia de São Paulo informou não haver denúncias de tortura contra presos comuns envolvendo o delegado.

Mas, na repressão política, a ficha corrida de Gravina é extensa. Altino Dantas Junior, ex-vereador do PT de Santos, acusa-o de ser responsável pela morte no DOI-Codi do preso político Aluízio Palhano Pedreira Ferreira, em 21 de maio de 1971. Dantas enviou uma carta com a denúncia, em agosto de 1978, ao general Rodrigo Jordão Ramos, então ministro do Superior Tribunal Militar (STM), que adotava um corajoso posicionamento contrário às violações aos direitos humanos. “Por volta das 23 horas, ouvi quando o retiraram da cela contígua à minha e o conduziram para a sala de torturas, que era separada da cela forte, onde me encontrava, por um pequeno corredor. Podia, assim, ouvir os gritos do torturado. A sessão de torturas se prolongou até a alta madrugada do dia 21, provavelmente até 2 ou 4 horas da manhã, momento em que se fez o silêncio”, relatou o ex-preso político. “Alguns minutos depois fui conduzido a essa mesma sala de torturas, que estava suja de sangue mais do que de costume. Perante vários torturadores, excitados naquele dia, ouvi de um deles, conhecido pelo codinome JC (cujo verdadeiro nome é Dirceu Gravina), a seguinte afirmação: ‘Acabamos de matar o seu amigo e agora é a sua vez.’”

A violência não parou por aí. O Grupo Tortura Nunca Mais aponta JC como o policial que metralhou os estudantes Alexander José Ibsen Voerões e Lauriberto José Reyes, ambos militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo), em 27 de fevereiro de 1972, numa rua do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. A morte de Yoshitane Fujimori, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), também envolve uma polêmica. Ele teria chegado vivo ao DOI-Codi, em 5 de maio de 1970, conforme JC declarou a outros presos. Depois, apareceu morto.

Casos como esses nunca foram apurados. Para Weichert, incutiu-se no imaginário nacional a idéia de que a Lei de Anistia implica o esquecimento integral de toda a violência ocorrida no País. “Isso não se sustenta nem judicialmente nem sociologicamente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos diz que não se faz reconciliação com esquecimento. Isso pressupõe verdade, transparência e justiça”, acredita o procurador.

O jurista Dalmo Dallari, professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), aponta como uma “contradição gritante” da Lei de Anistia a ampliação do indulto a todos aqueles que estavam a serviço do Estado. “Esses acusados não eram políticos, eram agentes públicos envolvidos em torturas. É uma legislação feita em causa própria, durante um governo ditatorial”, pontua. “É verdade que outros países seguiram pelo mesmo caminho durante um tempo. Era necessário evitar o conflito. Mas a Argentina e o Chile estão punindo seus repressores. Nós, 20 anos após a redemocratização, nem sequer abrimos os arquivos da ditadura. O brasileiro tem uma tradição de conciliação absolutamente exagerada.”

Se mirarmos no exemplo da Argentina, a história do acerto de contas com os repressores por lá é repleta de avanços e recuos na Justiça. Ainda assim, a impunidade não prevaleceu. Até o fim do ano passado, 263 militares e policiais foram presos ou processados pelos crimes cometidos realizados durante a ditadura. Entre eles, estão incluídos os ex-ditadores Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone, ambos em prisão domiciliar.

A Argentina passou por uma primeira ditadura de 1966 a 1973. Mas foi no segundo período ditatorial, entre 1976 e 1983, que a repressão aos opositores políticos foi marcada por uma violência sem precedentes.

Três anos após a redemocratização, os comandantes das quatro juntas militares que governaram o país foram julgados e condenados à prisão perpétua. As punições motivaram uma série de levantes militares. Para acalmar os quartéis, o então presidente Raúl Alfonsín decretou as chamadas “leis de perdão”, que impediram novos julgamentos contra repressores por 20 anos.

Diversos generais, a exemplo de Videla, obtiveram indultos e conseguiram manter-se afastados da cadeia por algum tempo. Em 2005, no entanto, a Suprema Corte argentina, já com vários juízes indicados pelo presidente Néstor Kirchner, derrubou as leis que protegiam os repressores. Centenas de processos contra militares e policiais reapareceram nos tribunais.

No Chile, há divergências sobre o número de vítimas da ditadura comandada pelo general Augusto Pinochet, entre 1973 e 1990. As estimativas variam de 3 mil a 10 mil opositores assassinados. Apesar da elevada cifra, o governo democrático que sucedeu Pinochet não questionou a Lei de Anistia, que perdoava crimes anteriores a 1978. Nem tentou rever as regalias ao ex-ditador previstas na Constituição de 1980. Tanto que, após deixar a Presidência, Pinochet chefiou o Exército por oito anos.

Alvo de mais de uma dezena de processos que não vingaram, por conta dos benefícios de ex-chefe de Estado, Pinochet só foi preso graças ao empenho do juiz espanhol Baltasar Garzón, que acolheu as denúncias de familiares de espanhóis desaparecidos no Chile e abriu um processo contra ele pelos crimes de genocídio, terrorismo e tortura.

Em obediência a um mandado internacional de busca e apreensão expedido pela Justiça espanhola, a Scotland Yard deteve Pinochet em Londres, onde ele permaneceu em prisão domiciliar por 503 dias. De volta ao Chile, o ex-ditador perdeu a imunidade e continuou sob investigação, mas conseguiu se manter afastado dos tribunais por razões médicas. Morreu em 2006 e foi sepultado sem honras de Estado nem declaração de luto oficial. A presidente chilena Michelle Bachelet, presa, torturada e exilada durante a ditadura, recusou-se a comparecer ao enterro.

Apesar da condescendência com Pinochet, nos últimos anos a Justiça chilena iniciou uma série de julgamentos contra militares e policiais que atuaram na repressão. Pouco mais de 20 agentes foram condenados até agora, alguns à prisão perpétua. Mas, em maio, quase uma centena de militares chilenos e antigos oficiais da Dina, o serviço secreto da ditadura, foram presos pelos crimes cometidos sob as ordens de Pinochet.

No Brasil, a situação está muito aquém dos exemplos dos vizinhos do Cone Sul. Até agora nem sequer conseguimos responsabilizar na área cível um único agente de repressão. Que dirá colocá-los na cadeia. A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, por exemplo, insiste há anos na abertura dos arquivos da ditadura.

“Não precisa abrir tudo. Há documentos que podem comprometer a soberania nacional ou provocar incidentes diplomáticos. Como também existem pessoas que não estão dispostas a ver a vida de familiares devassada”, pondera o advogado Marco Antônio Barbosa, presidente da comissão. “Mas é necessário criar um critério justo e claro para revelar alguns documentos e avançar nesse trabalho de resgate da memória”, completa.

Para Barbosa, a punição criminal dos torturadores e assassinos a mando da ditadura ainda é algo muito distante da realidade brasileira. Ainda assim, ele acredita que o processo de responsabilização civil movido pelo MPF pode trazer avanços. “Os comandantes do DOI-Codi não serão presos, mas eles devem ser obrigados a ressarcir o Erário pelas indenizações que foram pagas por conta dos crimes. E o depoimento deles pode ajudar a esclarecer fatos ainda obscuros.”

Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da USP, não poupa argumentos para defender a punição exemplar a todos os que atuaram na repressão política. Autor da representação que levou o MPF a ajuizar a ação civil pública contra os antigos comandantes do DOI-Codi, ele atuou em outros três casos contra a União movidos por familiares de vítimas. Para Comparato, o recente processo “pode abrir caminho para punir tanto os executores como os mandantes dos crimes”.

Embora considere difícil identificar todos os que ajudaram no aparato da repressão, até porque muitos documentos da época continuam sob sigilo de Estado, o advogado acredita ser possível, inclusive, estender esses processos aos colaboradores civis da ditadura. “Os empresários que ajudaram a financiar a repressão também devem ser punidos. É o princípio da co-autoria. E tem muita gente viva gozando dessa impunidade. Os filhos e netos deles têm o direito de olhar nos olhos dos pais e avós e perguntar: vocês foram responsáveis por mortes e torturas?”

A argumentação de Comparato tem relação com uma realidade ignorada por boa parte dos brasileiros. Os militares contaram com o apoio inestimável de setores da classe média e da elite, inclusive no financiamento dos órgãos de repressão. De acordo com um levantamento realizado pelo Projeto Brasil: Nunca Mais, diversas multinacionais, como o Grupo Ultra, a Ford e a General Motors, entre outras, financiaram a Operação Bandeirante (Oban), projeto piloto de repressão que resultou na criação do DOI-Codi (quadro à pág. 29). Entre os doadores, destaca-se a figura do industrial dinamarquês naturalizado brasileiro Henning Boilesen, diretor do Grupo Ultra. Segundo relatos de vítimas, contestados pela família do empresário, ele participava pessoalmente de sessões de tortura e teria, inclusive, emprestado o nome a um instrumento de suplício: a “pianola de Boilesen”, uma espécie de teclado com eletrochoque.

Boilesen tinha trânsito livre na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Quem lhe abria as portas era Theobaldo De Nigris, que presidiu a entidade de 1966 a 1980. Diversos oficiais do Exército admitem que empresários davam contribuições financeiras à ditadura. Mas falam de forma genérica, sem citar nomes. É o caso do general-de-brigada Adyr Fiúza de Castro, que chegou a chefiar o Centro de Operações de Defesa Interna (Codi) do I Exército, no Rio de Janeiro.

Em depoimento para o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getulio Vargas (FGV), depois publicado no livro Visões do Golpe, Castro conta que, em 1964, ficou surpreso ao marchar com uma brigada do interior de São Paulo para uma unidade do Exército no Paraná: “Lá encontrei nada menos que 18 jipes novos em folha, doados pelos industriais de São Paulo”. Mas também há documentos militares, recentemente divulgados, que comprovam que alguns empresários se recusaram a dar dinheiro, a exemplo do industrial José Mindlin, do Grupo Metal Leve.

A honrosa exceção de Mindlin é sempre lembrada pelo jornalista Ivan Seixas, que passou pelas dependências do DOI-Codi paulista em abril de 1971, quando tinha apenas 16 anos. Filho do metalúrgico Joaquim Seixas, militante do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), ele foi levado ao cárcere juntamente com o pai, sob a acusação de terem executado Boilesen, o industrial acusado de contribuir e arrecadar dinheiro para a Oban. Enquanto eram barbaramente torturados, a casa da família foi saqueada. A mãe e os outros irmãos dele também foram presos.

Logo no segundo dia de cadeia, Ivan foi convidado a dar um “passeio” pela rua Tutóia, onde ficava a sede do sombrio DOI-Codi paulista. Surpreendeu-se, diante da banca de jornais, ao ler a notícia de que o pai havia sido morto num confronto com a polícia. “Eles mostraram a reportagem, mas meu pai estava vivo”, conta. Horas depois, a família ainda escutava a voz de Joaquim nos interrogatórios. Somente mais tarde, conseguiram ouvir um diálogo entre dois agentes que confirmou a morte. No processo contra a organização de esquerda MRT na Justiça Militar, há uma foto do cadáver de Joaquim. Para a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, que investigou o caso, há “inequívocos sinais de espancamento e de um tiro na altura do coração”.

Ivan permaneceu por um mês no DOI-Codi, depois foi transferido para outras delegacias e penitenciárias. Ao todo, ficou seis anos preso. “Nesse primeiro mês em que estive lá, não fui torturado pelo Gravina. Ele bem que queria. Veio pessoalmente na cela fazer ameaças, dizer que eu não sairia vivo. Mas ele não podia mexer comigo. Fui capturado por outra equipe. Já o Ustra, conhecido como Tibiriçá, esteve presente na sala. Não batia, mas dava ordens: ‘Põe ele no pau-de-arara, faz isso, faz aquilo’.”

Pelo que passou sua família nos porões da ditadura, Ivan gostaria que o governo e a Justiça brasileira tivessem a mesma postura dos vizinhos argentinos.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Rosa dos ventos - por Mauricio Dias (Cartacapital)

Cabral falou antes

À margem da denúncia de que alguns ex-integrantes da cúpula do poder no Rio de Janeiro, notadamente o ex-governador Anthony Garotinho e o ex-chefe de polícia Álvaro Lins, estariam envolvidos com o crime organizado no estado, foi flagrado mais um delito contra o telespectador, praticado pelo jornalismo da TV Globo.

A segunda edição do jornal local, o RJ/TV, do dia 3 de junho, noticiou que Álvaro Lins, além das acusações de agora, sofreu denúncia da Polícia Federal por “crime eleitoral”. Durante a campanha de 2006, ele teria prometido a 2 mil concursados para a Polícia Civil de que seriam contratados. Álvaro prometia realizar a mágica que os políticos fazem, para cidadãos incautos, antes das eleições. Mas, pelas regras eleitorais, ele teria incorrido no crime de “compra de votos”.

“Se vocês não entrarem para a Polícia Civil, eu rasgo a minha carteira”, disse o candidato, conforme um vídeo gravado pela Associação dos Excedentes do Concurso da Polícia Civil e usado como prova pela PF.

Anteriormente, o vídeo tinha sido usado na representação do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) contra Lins, por quebra de decoro parlamentar. Ninguém deu bola e a denúncia foi engavetada.

O “crime” da Globo foi suprimir trechos do vídeo que mostram outros candidatos na mesma cerimônia: Sérgio Cabral Filho, que foi eleito governador, Francisco Dornelles, eleito senador, e Marcelo Itagiba, eleito deputado federal.

Os candidatos, certamente, não pediram o favor à emissora, mas a Globo tem o vício de comprometer o jornalismo e, aos poderosos, prestar serviços não encomendados.

“Esse é o meu compromisso, de convocar todos vocês. Vamos preencher todas as 2 mil vagas”, disse Cabral.

Eis aí a prova do milagre da multiplicação: 2 mil candidatos para 250 vagas.

Álvaro Lins falou em seguida. Ergueu a mão de Marcelo Itagiba, ex-delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança do governo Garotinho, e chamou a atenção dos concursados para o compromisso assumido por Cabral, ao qual se referiu, premonitoriamente, com governador.

“Vocês ouviram o que o governador falou. É só querer. E ele já assumiu o compromisso. Eu nunca tive um governador pra assumir o compromisso junto conosco. Vocês viram aqui hoje. Nunca aconteceu. É a primeira vez.”

Se há crime no episódio, por que só Álvaro Lins teria transgredido a lei eleitoral? A Globo escondeu isso. Intencionalmente. Mais uma vez.

Andante Mosso


Preconceito de caserna


A punição do sargento do Exército Laci Marinho fede a preconceito.

No processo que tramita na 14ª Vara Federal, em Brasília, há evidências de que Laci sofre perseguição nos quartéis.

Ele denunciou o general Adhemar da Costa por ato administrativo ilegal, praticado quando o oficial comandava a 11ª Região Militar, como retaliação à opção sexual que fez.

O réu, no caso, é o atual Chefe do Centro de Comunicação Social do Exército.

Essa homofobia tem base legal desde os tempos do presidente Eurico Gaspar Dutra, um general carola. Um decreto-lei de 1941, ainda em vigor, torna incompatível o militar que “se corromper moralmente pela prática de atos contrários à natureza”.

Contrário à natureza é pisar na grama.


O alerta de Chávez

Perdida em meio à transcrição do mais recente encontro de Hugo Chávez com intelectuais brasileiros foi encontrada uma observação do presidente venezuelano:

“Até futebol se joga bem agora na Venezuela. Um dia desses poderemos ganhar do Brasil”.

Ele deu também um aviso: Tengan cuidado!

A conversa foi no dia 22 de maio. No dia 6 de junho, o fato se consumou.


Pedra no caminho

De Paulo Vanucchi, Secretário Especial de Direitos Humanos, ao citar algumas conseqüências da queda do Muro de Berlim.

“Uma pedra do muro caiu na cabeça do Roberto Freire e ele ficou à deriva”.

É um exemplo perverso dos efeitos para a esquerda. Principalmente daquela variedade próxima à extinta União Soviética.


Entupimento


Está obstruído o canal de comunicação entre Lula e Tarso Genro.

O ministro da Justiça não esteve no encontro do presidente com alguns intelectuais, em São Paulo, no dia 16.

A ausência foi notada. Não foi sentida.

Gás político

Alguns parlamentares precisam dar um tempo em projetos de lei que entram na área de atuação da Agência Nacional de Petróleo, indiferentes às normas técnicas.

O exemplo mais recente é a proposta de venda “a granel”, como acontece com a gasolina, do GLP e o envasamento de botijões em postos de combustíveis.

A confusão foi tanta que essa “obra”, da lavra do deputado José Carlos Machado (DEM-SE), chegou a ser aprovada por uma comissão do Ministério de Minas e Energia, mesmo depois de a ANP ter emitido nota oficial contra.

Transposição das mágoas

Lula está mesmo muito magoado com dom Ivo Carpio.

No encontro com intelectuais, dirigiu o olhar inquiridor para Leonardo Boff, quando falou da greve de fome do bispo contra a transposição das águas do São Francisco.

“Eu assisti a Brasil e Holanda na casa dele, em 1974”, lembrou.

Para o presidente, o caso com dom Carpio saiu da margem política para a margem pessoal.

A estrela sobe

Aliás, Lula quer se encontrar com a atriz Letícia Sabatella e mergulhar fundo nesse debate sobre o rio São Francisco com ela.

Só falta marcar dia e hora.

Caso de polícia

Uma auditoria encomendada por Wadih Damous, presidente da seccional da OAB no Rio de Janeiro, flagrou um rombo nas contas da Caixa de Assistência ao Advogado (Caarj).

Não é pouca coisa: R$ 60 milhões em dívidas com o plano de saúde, hospitais e laboratórios.

A auditoria deu base ao Ministério Público para pedir a abertura de inquérito na Delegacia de Defraudações.

Ainda é cedo para apontar culpados.

Foi descoberto o roubo de 6 mil caixas de documentos, que eram guardadas descuidadamente no depósito da Caarj, em um subúrbio do Rio.

Cassol e os diamantes - por Leandro Fortes (Cartacapital)

Instalada em uma lojinha de subsolo na zona rural do município de Espigão D’Oeste, em Rondônia, onde negocia a compra e venda de diamantes, Edvaneide Vieira de Oliveira, de 35 anos, foi convocada pela Polícia Federal, há pouco mais de um mês, para depor. Para tal, fez uma viagem a um município próximo, Pimenta Bueno, onde está instalada a base central da Operação Roosevelt, da Polícia Federal, responsável pela repressão ao garimpo e ao comércio ilegal de diamantes na reserva indígena cinta-larga. Aos federais, Edvaneide revelou como e por que foi procurada, em dezembro de 2007, por duas jornalistas interessadas em ligar um procurador da República local, Reginaldo Trindade, a algum tipo de lobby de extração ilegal de diamantes na região. A comerciante contou uma história e tanto.

No depoimento à PF, Edvaneide disse ter sido procurada pelas repórteres Ivonete Gomes e Marley Trifílio, ambas do Rondoniagora, noticiário francamente favorável ao governador Ivo Cassol (sem partido), em dezembro de 2007, para uma “videorreportagem”. Segundo a comerciante, as duas, no entanto, se apresentaram como repórteres do jornal O Estado de S. Paulo e pediram a ela para falar sobre um seqüestro sofrido pelo procurador Reginaldo Trindade no fim de 2007, pelos índios cinta-larga, juntamente com um representante das Nações Unidas, o espanhol David Martín Castro. Os dois foram acusados de ter inventado o seqüestro, conforme a prestimosa denúncia da revista Veja em abril, replicada insistentemente pelo Rondoniagora. O seqüestro foi suspenso depois de uma negociação com o então presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) Mércio Gomes. A campanha difamatória contra os seqüestrados em Rondônia só parou em maio, depois que o Ministério Público Federal (MPF) divulgou uma nota de repúdio ao noticiário.

No depoimento tomado pelo delegado federal Rodrigo Carvalho, Edvaneide de Oliveira afirmou que Ivonete Gomes (“meio gordinha, cabelo com reflexos loiros, comprido”), e Marley (“gordinha, cabelo com reflexos, mais curto”) queriam que ela “inventasse uma história para comprometer algum político, empresário ou autoridade conhecida” e, também, acusasse o procurador Trindade de estar “fazendo lobby para alguma pessoa forte”. Segundo a comerciante, Ivonete revelou ter ido lá “só para isso”. Mais adiante, relatou Edvaneide, a repórter teria apresentado uma lista de nomes para ligar o suposto lobby de Trindade a “alguém muito forte”, mas ela não concordou em referendar nenhum dos nomes. A comerciante acusa as jornalistas, ainda, de terem oferecido dinheiro em troca de um depoimento contra o procurador. “Elas me filmaram sem o meu conhecimento”, denunciou. “O cinegrafista estava com a câmera no colo e (elas) disseram que estava desligada.”

Reginaldo Trindade também foi acusado, com base em um vídeo feito em uma reunião com índios suruís, em 2005, de apoiar a extração ilegal de madeira. Ele nega as acusações (de fato, no vídeo não há sustentação para a acusação) e vê o dedo de Ivo Cassol na montagem de um dossiê contra ele levado a cabo por oficiais da Polícia Militar com a ajuda de um funcionário da Funai, José Nazareno de Moraes, processado pelo MPF por envolvimento na extração ilegal de diamante e madeira da reserva cinta-larga. O documento, uma vez terminado, foi enviado anonimamente para quase 90 órgãos públicos do País, da Câmara de Vereadores de Espigão D’Oeste ao Congresso Nacional, em Brasília. Mais tarde, a Polícia Federal apontou como autora da peça a mesma jornalista Ivonete Gomes, do Rondoniagora. Procurada pela reportagem de CartaCapital, a repórter não foi encontrada nem respondeu a um e-mail com solicitação de entrevista.

O foco no procurador Trindade, personagem central da tal “videorreportagem” produzida pelo grupo de jornalistas do Rondoniagora, é parte de um enredo político montado, segundo a Polícia Federal, para desviar a atenção dos muitos problemas pelos quais passa o governador do estado, Ivo Narciso Cassol, eleito pelo PPS, mas sem partido desde que foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF), por compra de votos, em agosto de 2007, juntamente com o senador Expedito Júnior (PR-RO). A ação do Ministério Público teve a participação ativa de Reginaldo Trindade, inclusive no desdobramento do caso, que resultou em outro processo, por coação e intimidação de testemunhas por parte da dupla Cassol-Expedito. O senador chegou a ser cassado, em abril de 2007, pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Rondônia, mas se mantém no cargo, graças a uma liminar do Tribunal Superior Eleitoral.

Contra Cassol também corre um inquérito, de número 450, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) desde 2004, de autoria do Ministério Público Federal de Rondônia, no qual ele é acusado de se associar a contrabandistas de diamantes para explorar ilegalmente jazidas localizadas na reserva cinta-larga por meio da Companhia de Mineração de Rondônia (CMR), com apoio técnico da Universidade de Viçosa (MG). A PF chegou a essas informações depois de deflagrada, em 2003, a Operação Lince, voltada para a repressão a roubo de cargas e contrabando no Norte e em São Paulo. A investigação ganhou força a partir de abril de 2004, quando 29 garimpeiros foram mortos por índios cinta-larga na reserva Roosevelt, também por conta de conflitos provocados pela extração de diamantes.

De acordo com o inquérito, ainda em tramitação no STJ, o envolvimento de Ivo Cassol com a quadrilha de contrabandistas foi revelado por Marcos Glikas, preso durante a operação policial e apontado como chefe da quadrilha da qual participavam dois policiais federais de Ribeirão Preto (SP), o delegado José Bocamino e o agente Marcos Aurélio Soares Bonfim. Segundo disse Glikas, em depoimento à PF, o governador Cassol foi informado das atividades da quadrilha durante reuniões realizadas em Porto Velho, em março de 2003, na presença da chefe de gabinete, Leandra Fátima Vivian, também presidente da CMR. Como prova desse fato, Marcos Glikas apresentou algumas fotos nas quais aparece em uma reunião com o governador de Rondônia, quando, segundo ele, se tratou da exploração de diamantes na reserva Roosevelt, dos cinta-larga, sem a prévia autorização da União, como manda a lei.

A briga de Ivo Cassol com o procurador Reginaldo Trindade é antiga. Remonta ao período em que o atual governador foi prefeito do município de Rolim de Moura, entre 1996 e 2002. Na época, Trindade era promotor de Justiça na cidade e conduziu uma investigação a respeito de um esquema de fraudes nas licitações feitas pela prefeitura. Então representante do Ministério Público Estadual, o atual procurador da República ingressou com oito ações civis de improbidade administrativas contra Cassol e outros auxiliares dele no município. “Desde então, todo revés que ele sofre credita a mim”, diz Trindade. “Ele me elegeu como perseguidor para posar de vítima e desviar a atenção dos processos que correm contra ele.”

Em uma audiência pública realizada na Assembléia Legislativa do estado, Cassol chegou a chamar o procurador de “psicopata com índole vingativa”. Também tentou representar contra ele no Conselho Nacional do Ministério Público e levantou uma exceção de suspeição, no TRE, para anular o processo de cassação sob a alegação de que Trindade não tinha isenção para investigá-lo. Fracassou nos dois intentos. E ainda colocou na conta de Trindade a prisão do filho, Ivo Junior Cassol, e do sobrinho, Alessandro Cassol Zabott, suspeitos de tráfico de influência dentro do governo estadual. Os dois foram presos durante a Operação Titanic, da PF, no Espírito Santo. “Eu nem sequer participei dessa investigação”, conta Trindade. Procurado por CartaCapital, o governador Ivo Cassol informou, via assessoria, que não daria entrevista.

A situação do governador tornou-se mais grave, no entanto, a partir da denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Sousa, ao Supremo Tribunal Federal, em 3 de agosto de 2007, sobre o esquema de corrupção eleitoral em Rondônia, que agiu em setembro de 2006, às vésperas das eleições. De acordo com o procurador-geral, com base no inquérito aberto pela PF, Ivo Cassol, por meio do comitê financeiro de campanha do PPS, doou 200,5 mil reais para a campanha de Expedito Júnior ao Senado. No mesmo período, Elisângela de Oliveira Moura, funcionária da empresa de segurança Rocha Segurança e Vigilância Ltda., de Porto Velho, munida de uma relação com os nomes de todos os vigilantes contratados pela empresa, propôs a eles votarem na dupla Cassol/Expedito mediante pagamento de 100 reais por cabeça.

De acordo com o relatório da PF, os vigilantes que concordaram em receber a propina eleitoral tiveram os nomes encaminhados para José Robério Alves Gomes, tesoureiro de campanha de Expedito Júnior, responsável pela administração do dinheiro doado por Cassol ao candidato ao Senado. Gomes, então, arregimentou dois auxiliares, os irmãos Sidney e Sidcley de Matos Lima, para percorrerem diversas agências bancárias para depositar os 100 reais na conta dos vigilantes. Sidney, cunhado de Gomes, e Sidcley foram flagrados pelas câmeras de segurança do Banco do Brasil e do Bradesco, na capital rondoniense.

Segundo o procurador-geral, a atuação de Expedito Júnior e Ivo Cassol, além de outra candidata, a advogada Valdelise Martins dos Santos, conhecida por “Val Ferreira”, ficou ainda mais evidente por conta de “manobras realizadas, a fim de obstruir a investigação”. Entre elas, uma farsa montada em torno de Carlos dos Reis Batista, o “Cabo Reis”, cuja candidatura a deputado estadual foi usada para tentar descaracterizar o delito eleitoral. Isso porque, no intuito de legitimar os pagamentos feitos a centenas de eleitores, o atual senador Expedito Júnior, auxiliado pelo empresário Libório Hiroshi Takeda, arrecadou recursos com empresas da região, essas orientadas a efetuar doações para a campanha de Reis. Essas contribuições seriam contabilizadas para substituir a propina, sob a rubrica de “contratação de colaboradores” do candidato-laranja.

Na outra ponta, segundo a denúncia do procurador-geral ao STF, o governador Ivo Cassol iniciou uma campanha de intimidação para impedir a investigação da corrupção eleitoral e aterrorizar as cinco principais testemunhas, os vigilantes Diemison Cruz, Edmilton Pimentel, Jayrisson Oliveira, Ednaldo Mota e Joelson Picanço, todas da Rocha Segurança e Vigilância. Para tal, Cassol determinou à Polícia Civil do estado a instauração de inquérito policial para investigar os delatores do esquema criminoso. Por essa razão, a Polícia Federal instaurou outro inquérito, desta vez, para apurar a coação das testemunhas.

A base dessa nova investigação foi um inquérito estadual instaurado, em 18 de janeiro de 2007, pela Polícia Civil de Rondônia, a partir de uma representação criminal formulada por outro vigilante, Alan Georgio Araújo Bahia, contra uma das testemunhas, Diemison Cruz. Os federais descobriram que a tal representação foi forjada pelo então subsecretário de Segurança Pública do estado, Renato Eduardo de Souza, e pelo delegado Hélio Teixeira Lopes Filho, a mando de Ivo Cassol. Formalmente, o governador determinou a instauração do inquérito, embora soubesse da incompetência da Polícia Civil no caso, “para se defender e investigar os fatos por si só”. Bahia acabou preso pela PF por falso testemunho.

Cassol, no entanto, não desistiu. Destacou os policiais civis Gliwelkison de Castro e Nilton Cavalcante, a pretexto de entregar intimações, para intimidar os vigilantes com ameaças veladas. Segundo depoimento do grupo, os agentes os aconselhavam a “maneirar” ou mudar os depoimentos sobre as propinas de 100 reais pagas pelos comparsas de Ivo Cassol e Expedito Júnior. Em outra frente, iniciou-se uma rotina de rondas ostensivas próximas às residências das testemunhas e, mais adiante, promessas de cargos públicos no governo, dentre eles, de servidor no Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Sem sucesso na empreitada, os policiais decidiram partir para a truculência pura e simples: deram três tiros na casa da mãe do vigilante Ednaldo Mota, a partir de um Fiat Uno vermelho, posteriormente identificado pela PF como veículo à disposição da 6ª Delegacia de Polícia Civil de Porto Velho.

Por meio de escutas telefônicas feitas pela PF, constatou-se que os delegados da Polícia Civil Hélio Lopes Filho e Renato Eduardo de Souza, ambos denunciados pelo procurador-geral Antonio Fernando de Souza, também atuaram para forjar depoimentos de testemunhas favoráveis a Ivo Cassol e Expedito Júnior. Uma delas, Agenor Martins de Carvalho, o “Japa”, era motorista do deputado estadual Euclides Maciel (PSL), então líder do governo na Assembléia Legislativa. Japa também participou das intimidações contra os vigilantes e acabou preso.

Há duas semanas, o STF decidiu investigar Ivo Cassol e o senador Expedito Júnior, além de outras 11 pessoas, por conta da denúncia de compra de votos. No julgamento, o Supremo acatou um recurso da Procuradoria-Geral da República para desmembrar parcialmente os processos, desta maneira alguns acusados serão investigados no STF e outros na Justiça Eleitoral, em Rondônia. Por recomendação do relator do processo, ministro Marco Aurélio Mello, os denunciados deverão ser investigados conforme o foro por prerrogativa de função. O senador será investigado pelo STF, o governador pelo STJ, alguns denunciados pelo TRE e os demais pela primeira instância da Justiça Eleitoral.

Por que o governo Lula perdeu a batalha da comunicação - por Bernardo Kucinski (Agência Cartamaior

E como a Globo definiu a narrativa dominante e única da crise do mensalão. A central de Brasília, dizem jornalistas que trabalharam no sistema Globo, formou uma espécie de “gabinete de crise" com líderes da oposição do qual faziam parte ACM Neto e Paes de Andrade. Fechar a Radiobrás foi o ato síntese de todos os grandes erros na política da comunicação do governo Lula. A análise é de Bernardo Kucinski.



A mídia na era Lula deixou de funcionar como mediadora da política, passando a atuar diretamente como um partido político de oposição. Apesar de disputarem agressivamente o mercado entre si, há mais unidade programática hoje entre os veículos da mídia oligárquica do que no interior de qualquer partido político brasileiro, até mesmo partidos ideológicos como o PT e o PSOL. Todos os grandes veículos, sem exceção, apóiam as privatizações, a contenção dos gastos públicos, a redução de impostos; a obtenção de um maior superávit primário, a adesão do Brasil à ALCA; todos são críticos à criação de um fundo soberano, ao controle na entrada de capitais, ao Bolsa Família, à política de cotas nas universidades para negros, índios e alunos oriundos da escola pública, à entrada de Venezuela no Mercosul e ao próprio Mercosul. Todos criticam o governo sistematicamente, em todas as frentes da administração, faça o governo o que fizer ou deixar de fazer.

Na campanha da grande imprensa que levou Vargas ao suicídio, o governo ainda contava como apoio da poderosa cadeia nacional de jornais Última Hora. Hoje, não há exceção entre os grandes jornais. Outra diferença desta vez é a adesão ampla de jornalistas à postura de oposição, e sua disseminação por todos os gêneros jornalísticos tornando-se uma sub-cultura profissional. Emulada por editores, prestigiada por jornalistas bem sucedidos e comandada pelos intelectuais orgânicos das redações, os colunistas, essa sub-cultura é dotada de um modo narrativo e jargão próprios.

Em contraste com o jornalismo clássico, que trabalha com assertivas verazes para esclarecer fatos concretos, sua narrativa não tem o objetivo de esclarecer e sim o de convencer o leitor de determinada acusação, usando como fio condutores seqüências de ilações. É ao mesmo tempo grosseira na omissão inescrupulosa de fatos que poderiam criar outras narrativas, e sofisticada na forma maliciosa como manipula falas, datas e números. O enunciador dessa narrativa conhece os bastidores do poder e não precisar provar suas assertivas. VEJA acusou o PT de receber dinheiro de Cuba, admitindo na própria narrativa não ter provas de que isso tenha acontecido. Em outra ocasião, justificou a acusação alegando não haver nenhuma prova de que aquilo não havia acontecido.

Trata-se de uma sub- cultura agressiva. Chegam a atacar colegas jornalistas que a ela se recusaram a aderir, criando nas redações um ambiente adverso a nuances de interpretação ou divergências de análise. O meta-sentido construído por essa narrativa é o de que o governo Lula é o mais corrupto da história do Brasil, é incompetente, trapalhão, só tem alto índice de aprovação porque o povo é ignorante ou se deixa levar pelo bolso, não pela cabeça.

Levantam como principal bandeira o repúdio à corrupção. Mas como quase todo o moralismo em política, trata-se de mais uma modalidade de falso moralismo: é o “moralismo dirigido” que denuncia os “ mensaleiros do PT” e deixa pra lá o valerioduto dos tucanos, onde tudo de fato começou, e mais recentemente o escândalo do Detran de Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul onde tudo continua. É “moralismo instrumental”, que visa menos o restabelecimento da ética e mais a destruição do PT e do petismo.

O que poucos sabem é que essa sub-cultura se tornou dominante graças a uma mãozinha da Globo. Quando foi revelada em fevereiro de 2004 a propina recebida dois anos antes por Waldomiro Diniz, sub-chefe da assessoria parlamentar da Casa Civil do governo Lula, a Globo vislumbrou a oportunidade de uma ofensiva de caráter estratégico: cortar o barato do petismo e de sua ameaça de governar o Brasil por 40 anos. Com esse objetivo, mudou o modus operandi do seu jornalismo político. Logo depois das denúncias de Roberto Jefferson, criou uma central de operações, em Brasília, unificando as coberturas de política da TV, CBN e jornal O Globo sob o comando de Ali Kamel, que para isso se deslocou para Brasília.

Em quase todas as campanhas eleitorais os grandes jornais criam uma instância adicional de decisão sob o comando de alguém de confiança da casa, que passa a centralizar toda a cobertura política. A central coordenada por Ali Kamel em Brasília reflete essa passagem de um jornalismo normal para um jornalismo de campanha, apesar de não estar em curso uma campanha eleitoral.

A central de Brasília, dizem jornalistas que trabalharam no sistema Globo, formou uma espécie de “gabinete de crise" com líderes da oposição do qual faziam parte ACM Neto e Paes de Andrade, pautando-os e por eles se pautando. Vários jornalistas faziam parte da operação, cada um encarregado de uma “fonte” da oposição. Tinham a ordem de repercutir junto àquela fonte, todos os dias, falas e acusações, matérias do dia anterior, entrevistando sempre os mesmos protagonistas: Heloísa Helena, ACM Neto, Gabeira, Onix Lorenzoni. No dia seguinte, os jornais davam essas falas em manchete, como se fosse fatos. Assim surgiu todo um processo de construção de um relato da crise destinado a se tornar a narrativa dominante e única.

A VEJA lançara sua própria operação de objetivos estratégicos muito antes. Entre 2003 e 2006, VEJA produziu 50 capas contra Lula , sendo 18 delas consecutivas.

Quando surgiu a fita de Waldomiro Diniz, a revista revelou esse objetivo em ato falho: “Os ares em torno do Palácio tinham na semana passada sabor de fim de governo.”

Na Globo, a operação encontrou resistências internas de jornalistas que ainda lambiam as feridas provocadas pelo falseamento do debate Collor- Lula, e da cobertura da campanha das Diretas Já. Deu-se então a marginalização de Franklin Martins da cobertura política. Esse afastamento teve grande importância porque institui no corpo de jornalistas a sensação de insegurança e o medo, necessários para a imposição da nova ordem. Sua saída foi um baque”, avaliou Luiz Nassif em entrevista a Forum.

Com o vazamento de informações sobre o clima interno de intolerância, em especial uma reportagem de Raimundo Pereira em Carta Capital, e matérias críticas em blogs e no site Carta Maior, a cúpula jornalística da empresa mandou circular um manifesto cobrando lealdade à casa. Três jornalistas que se recusam a assinar foram expurgados.

Da Globo o expurgo respingou a outros veículos da grande imprensa. O último capítulo desse processo foi a não renovação do mandato do Ombudsman da Folha, Mário Magalhães por criticar na internet a forma como a Folha reportou o vazamento dos gastos do governo FHC com cartões corporativos. Apontou falta de transparência por não indicarem as fontes da acusação de que Dilma Roussef foi a mandante, e a falha de não ouvir os causados. No caminho também perdeu seu espaço Paulo Henrique Amorim. Mino Carta, em solidariedade, desligou-se do IG.

Na campanha contra Getúlio a sobre-determinante era a guerra-fria, que desqualificava o nacionalismo e as demandas sindicais como meros instrumentos do comunismo. Hoje a sobre-determinante é o neoliberalismo que desqualifica opções de política econômica em nome de uma verdade única à qual é atribuído o monopólio da eficácia. A unanimidade anti-Lula da grande mídia só tem paralelo na unanimidade pró-neoliberal dessa mesma mídia.

Mas temos um paradoxo. O governo Lula tem mantido religiosamente seu acordo estratégico com o capital financeiro, que é o setor dominante hoje no capitalismo mundial e brasileiro. E apesar do vasto leque de políticas públicas de apoio aos pobres, não brigou com nenhum dos outros grupos de interesses do grande capital. Por que então tanta hostilidade da mídia? É como se a grande mídia agisse por conta própria, pouco ligando para a dupla capital financeiro-capital agrário e na qual se apóia.

É uma mídia governista, ou ”áulica”, na adjetivação de Nelson Werneck Sodré, quando o governo faz o jogo da dependência, como foram os governos de Dutra, Café Filho, Jânio Quadros e Fernando Henrique. E anti-governista, quando os governos são portadores de projetos de autonomia nacional, como foram os governos de Getúlio, Juscelino, que rompeu com o FMI, Jango e agora o de Lula.

Uma mídia que já nasceu neoliberal, muito antes do neoliberalismo se impor como ideologia dominante e organizativa das políticas públicas. Nunca aceitaram o Estado que chamam pejorativamente de “populista”. Em artigo recente na Folha, Bresser Pereira associou diretamente o discurso da mídia contra o populismo e sua inclinação pelo golpe à nossa extrema pobreza e polarização de renda. “Como a apropriação do excedente econômico não se realiza principalmente por meio do mercado mas do Estado, a probabilidade de que facções das elites recorram ao golpe de Estado quando se sentem ameaçadas é sempre grande.” Diz ainda que nossas elites “estão quase sempre associadas às potências externas e às suas elites.” Daí, diz ele ”O que vemos na imprensa, além de ameaças de golpe é o julgamento negativo dos seus governantes...”

A incompatibilidade entre governos populares portadores de projetos nacionais e a mídia oligárquica é de tal ordem que muitos desses governantes tiveram que jogar o mesmo jogo do autoritarismo, para dela se proteger. Getulio criou a Hora do Brasil como programa informativo de rádio para defender a revolução tenentista contra a oligarquia ainda em 1934, quando o regime era democrático, fundado na Constituição de 34. No Estado Novo foi ao extremo de instituir a censura previa através criando o Departamento de Imprensa e Propaganda. (DIP). No em seu retorno democrático, estimulou Samuel Wainer a criar sua cadeia Última Hora.

Estas reflexões, se tem algum fundamento, mostram como foi equivocada a política de comunicação do governo Lula, a começar por não atribuir à comunicação e às relações com a mídia o mesmo peso estratégico que atribuiu às suas relações com a banca internacional. Nem sequer havia um comando único para a comunicação, que sofreu um processo de feudalização. Só na presidência, três feudos disputavam espaço: a Secom, o Gabinete do Porta-Voz e Assessoria de Imprensa. Fora dela, dois ministérios definiam políticas públicas na esfera da comunicação: Ministério das Comunicações e Ministério da Cultura.

Propostas longamente discutidas ainda no âmbito dos grupos de jornalistas do PT, e pelos funcionários da Radiobrás, não foram sequer discutidas. Nesse vazio, o único grande aparelho de comunicação social do governo, o sistema Radiobrás acabou embarcando numa política editorial chamada de “comunicação cidadã”, que tinha como preocupação fundamental e explícita de dissociar-se do governo do dia. O que é pior: despojava a Radiobrás de sua atribuição formal de sistema estatal de comunicação. Isso num momento histórico que exigia, ao contrário, reforçar o sistema estatal de comunicação.

Pouco experiente em jornalismo político, a equipe não conseguiu resolver de forma criativa a contradição entre fazer um jornalismo veraz de qualidade e politicamente relevante, e ser ao mesmo tempo um serviço estatal de comunicação. Com definições opacas, que nada acrescentavam ao que se entende por jornalismo, acabaram desenvolvendo um jornalismo de tipo alternativo, parecido ao que fazem as ongs e movimentos sociais.

A importante mudança do papel da Radiobrás nunca foi discutida no Conselho da Radiobrás. O corpo da Radiobrás chegou a se entusiasmar com a idéia sempre simpática a jornalistas, mas simplória, de deixar de ser “chapa-branca”, mas acabou não havendo muita harmonia entre a nova direção e as bases. Uma apregoada “gestão participativa”, ficou mais no papel do que na prática.

Em minucioso relatório sobre as conquistas da Radiobrás perto do final do primeiro mandato, o presidente do Conselho enumerou os muitos avanços técnicos, mas apontou que a Radiobrás havia criado uma outra missão e outro papel para si, sem discutir essas mudanças previamente com o próprio governo. Também apontou ser falso o debate que contrapõe comunicação de caráter oficial com o direito do cidadão à boa informação.

Mais equivocada ainda foi a proposta de acabar com a obrigatoriedade da Voz do Brasil, formulada pela direção da Radiobrás logo no primeiro ano do mandato de Lula, a partir dos conceitos neoliberais de que o Estado não faz parte da esfera pública e a liberdade de imprensa do baronato da mídia é a própria liberdade de imprensa. A Radiobrás chegou a co-patrocinar no anexo II da Câmara dos Deputados, junto com os Mesquitas um seminário para apoiar a flexibilização da Voz do Brasil.

Essa mesma visão ingênua levou a Radiobrás a adotar como sua e como se fosse a única possível, a narrativa da grande imprensa na grande crise do mensalão, que como vimos foi em grande parte articulada entre o sistema Globo e a oposição. Embora só hoje se saibam alguns detalhes dessa operação, as forçadas de barra no noticiário e nas manchetes eram discerníveis a qualquer jornalista experiente.

Naquele momento, a Radiobrás era o único sistema de comunicação social capaz de criar uma narrativa realmente independente da crise, que sem ser chapa branca também não fosse submissa à articulação comandada pela Globo. Mas quando veio a crise, seu projeto editorial entrou em parafuso. Mais do que isso: a crise traumatizou a direção da empresa que viu ruir a bandeira ética do PT, sob a qual muitos deles cresceram, formaram-se e criaram sua identidade pública. Só um estado catatônico poderia explicar o fato da Radiobrás dar ao vivo e na íntegra o depoimento de Roberto Jefferson de junho de 2005 como se quisesse se colocar à frente do sistema Globo. No momento crucial da crise cortou um discurso de Lula em Luziania, o que nem a Globo fez.

Foi a fase em que manchetes da Agência Brasil rivalizavam com as da grande imprensa na espetacularização da crise e na disseminação de noticias infundadas. Entre essas manchetes está a acusação nunca comprovada do dia de renuncia de Zé Dirceu (16/06/05) : “Ex-agente do SNI diz que Casa Civil está envolvida nas provas dos correios”. E a noticia falsa de que “Miro Teixeira confirmou as acusações de Jeffersson”, dada no mesmo dia 21/06;05 em que até a grande imprensa admitia que Miro Teixeira não havia confirmado essas acusações. Mesmo sem atentar para a dimensão política desse tipo de noticiário, sua fragilidade era incompatível com o padrão que se espera de uma comunicação de Estado.

Outras manchetes meramente reproduziam falas de líderes da oposição: ”Nada poderá restringir nosso trabalho na CPI”, diz líder do PFL (17/056/05) ou “PFL e PSDB alegam que PT violou legislação (22/06/05). A Radiobrás, sem perceber, havia entrado no esquema orquestrado por Ali Kamel. Naquele momento nascia o processo de colonização da comunicação de governo e do Estado pelo ideário liberal-conservador , que acabou levando ao fechamento intempestivo da própria Radiobrás.

Fechar a Radiobrás foi o ato síntese de todos os grandes erros na política da comunicação do governo Lula. Ademais, ao fechar a Radiobrás o governo violou a Constituição que manda coexistirem os três sistemas; público, privado e estatal. E não é à toa que a Constituinte cidadã assim decidiu. Como sabemos, diversas vezes a grande mídia latino-americana apoiou golpes de Estado, algo inimaginável nas democracias dos países centrais. Ter um sistema estatal de comunicação minimamente funcional , com credibilidade e legitimidade junto à população é uma espécie de apólice de seguro contra golpes de Estado.

O governo lidou com a comunicação como se a nossa democracia fosse igualzinha a democracia americana. Mas o que vale para os Estados Unidos da América, pode não valer para o Brasil. O Estado americano não tem uma Radiobrás ou uma Voz do Brasil, porque nunca sofreu um golpe midiático, mas tem a Voice of America, para defender seus interesses imperiais. O Estado brasileiro não contempla interesses imperiais, mas precisa se defender do golpismo e das pressões externas sobre a Amazônia. Por isso precisa de uma Radiobrás e de uma Voz do Brasil.

Que os índios civilizem a Europa - por Cartacapital

Na quarta-feira 18 de junho, o Parlamento Europeu aprovou normas sobre o tratamento a estrangeiros que virtualmente criminalizam a imigração e representam um sério recuo em relação aos direitos humanos que o próprio continente se orgulhava de ter sido o primeiro a formular. Estes, de acordo com essa Diretiva de Retorno, não existem mais: só existem os direitos dos portadores de documentos. Para os demais, foram-se a liberdade de movimento e as garantias contra prisão arbitrária, para começar.

Imigrantes considerados ilegais poderão permanecer em centros especiais de detenção – um eufemismo para campos de concentração – por até um ano e meio, sem julgamento. Até mesmo crianças desacompanhadas podem ser detidas e deportadas. A deportação passa, ademais, a ser acompanhada de proibição de ingresso em países da União Européia (UE) por até cinco anos.

O pacote foi condenado pela própria alta comissária da ONU para Direitos Humanos, a canadense Louise Arbour, ex-promotora do Tribunal Penal Internacional para os crimes de guerra na ex-Iugoslávia e em Ruanda. Críticas ainda mais duras vêm da América Latina, que por tanto tempo acolheu imigrantes empobrecidos da Europa. As chancelarias do Brasil, Argentina e Uruguai também condenaram a medida e o equatoriano Rafael Correa somou-se às ONGs que denunciam as novas regras como Diretiva da Vergonha.

Evo Morales chegou a publicar carta aberta no jornal britânico The Guardian, na antevéspera da votação, para denunciar a injustiça, insensibilidade e egoísmo da proposta, que nega às famílias empobrecidas de imigrantes a proteção e as garantias que a UE exige para suas transnacionais e se declarou eticamente impedido de continuar a negociar com a organização, caso a diretiva fosse aprovada. Na triste Europa de hoje, não há melhores missionários da civilização e dos direitos humanos que os índios.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Globo não quer a independência da África - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=297 - por Paulo Henrique Amorim

Serra é um gênio II - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=295 - por Paulo Henrique Amorim

Serra é um gênio II - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=295 - por Paulo Henrique Amorim

Distribuição de renda melhorou em 5 anos, diz Ipea - por Agência Estado

parcela dos trabalhadores brasileiros que recebe rendimentos mais altos no País teve aumento de 4,9% em seus salários nos últimos cinco anos, enquanto os de menores rendas tiveram elevação de 22% entre 2003 e 2007. Os porcentuais revelam uma melhor distribuição de renda no Brasil entre os assalariados, segundo estudo divulgado hoje pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação pública federal vinculada ao Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

O estudo informa, no entanto, que a participação dos salários no Produto Interno Bruto (PIB) se manteve praticamente estável entre 2003 e 2007. Para o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, isso mostra que outros indicadores de renda - como lucratividade das empresas e juros - cresceram mais nesse período do que os salários. "Isso demonstra a necessidade de políticas que levem a uma participação maior dos rendimentos do trabalho no PIB, como uma reforma tributária com impostos progressivos sobre a renda", defendeu Pochmann.

O presidente do Ipea atribuiu à política de reajuste real do salário mínimo e às políticas de transferência de renda, como o programa Bolsa Família, o fato de os mais pobres terem obtido maiores ganhos de renda que os demais trabalhadores. O estudo informa, por exemplo, que em 2003 o rendimento médio da parcela de assalariados com maior renda era 27,3 vezes superior ao segmento daqueles com menor renda. Em 2007, essa diferença caiu para 23,5 vezes. "Os dados mostram melhora, mas ainda estamos longe de um País menos injusto", afirmou Pochmann.

O levantamento do Ipea foi feito com base em dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que apura a evolução do mercado formal de trabalho em seis regiões metropolitanas - São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador. Essas seis regiões representam, segundo o Ipea, 37,1% do PIB nacional e abrigam 25,4% da população residente. Para Pochmann, essa é uma "boa amostra" para deduzir o que acontece no mercado de trabalho em todo o País.

O PSDB e o analista de Bagé - por Luis Nassif

A Folha refez suas matérias políticas para a segunda edição, depois que foi retirada a chapa de Gilberto Kassab da Convenção do partido. Por isso não sei se o que está no online é o mesmo material do impresso (clique aqui).

No impresso o que se vê é um partido sem rumos, por não ter bandeiras. A relação de queixas recíprocas entre o pessoal de Geraldo Alckmin e de José Serra é típica de donas de casa em crise existencial. Futrica para cá, para lá, naquele ano você não me apoiou, nas eleições seguintes a culpa foi sua.

Mais do que a derrota na convenção, o resultado demonstra a dificuldade de José Serra em articular frentes, em somar. Como se explica que, tendo o governo do estado e a prefeitura, seja derrotado por um político mediano, como Geraldo Alckmin. E tendo um estado praticamente sem oposição, consiga promover esse festival de queixas recíprocas? Como seria essa amarração no âmbito federal?

Não é à toa que a cara do partido, hoje em dia, é Arthur Virgílio, manobrado por Fernando Henrique Cardoso.

São tipicamente sintomas de um partido que perdeu as bandeiras, a mesma situação do PT em 1994. Não se pense em situações estratificadas. A era Lula termina em 2010, é possível que a estabilidade também, em função da crise cambial que se avizinha. Mas o que terá o PSDB para oferecer, como alternativa de poder?

Nesse período todo, o vácuo deixado pelo fim do governo FHC não foi ocupado por ninguém, nem José Serra nem Aécio Neves. Presos ao eterno dilema tucano, o PSDB não soube nem recuperar os valores iniciais - presentes nos primeiros líderes, como Franco Montoro e Mário Covas - nem exorcizar o fantasma de FHC.

A idéia de um partido moderno, sem se prender a dogmas ideológicos, sendo pragmático na busca do bem geral, virou fumaça com a era FHC e seu mercadismo desvairado, seu elitismo extravagante. A rigor, FHC jamais foi capaz de formular um projeto de longo prazo para o partido, como desejava Sérgio Motta. Pegou a bandeira da estabilidade, que estava quicando na área. Deu seguimento ao processo de liberalização da economia sem um plano de vôo, de forma inconsequente, pensando apenas na criação de uma nova super-classe que garantiria a aliança com o partido, eternizando-o.

Com FHC o PSDB perdeu completamente a dimensão das ruas. Tornou-se cada vez mais fechado, mais elitizado, inclusive internamente. Acabaram-se as bases partidárias, reduzidas às disputas estaduais, enquanto a linha do partido era dada por economistas muito mais interessadas em abrir espaço para seus futuros negócios. O partido ficou definitivamente contaminado pelo padrão FHC, tipicamente acadêmico, de driblar a falta de ação com interpretações da história - bonitas, na sua mesmice, e inócuas.

Hoje é um partido rachado em mesquinharias, como a que acomete a política paulista. Não existe mais o toque mágico dos planos econômicos.

Como será esse recomeço? Não vejo por onde. O grande nome do partido, José Serra, até agora foi incapaz de levantar novas bandeiras e continua demonstrando total falta de estratégia política - a derrota para Alckmin na convenção é um sinal complicado sobre sua capacidade de articulação, se eleito presidente, e sua capacidade de avaliação. Como foi incapaz de prever uma derrota desse nível e recuar enquanto era tempo?

Em Minas Gerais, Aécio Neves avança em costuras políticas muito mais eficientes, conseguiu definir uma bandeira forte - a da gestão -, mas sem avançar em outras propostas, a não ser a de não ser um governo de ruptura.

Quando se olha os quadros do partido, o potencial acumulado, dá uma pena danada do desperdício de idéias, de como fica tudo solto, pela absoluta falta de uma liderança de envergadura capaz de juntar conceitos e propostas.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

As obras do morro da providência não vão parar - por PHA

. O PiG e a elite branca – acabo de assistir ao conjunto de editoriais do “Bom (?) Dia Brasil” – não vão levar essa.

. A Justiça, em primeira instância, mandou o Exército sair do Morro.

. Se o Exército sair, vai a Guarda Nacional.

. As obras no Morro não vão parar.

. As obras do PAC no Alemão e na Rocinha não vão parar.

. O Bolsa Família não vai parar.

. O Luz para Todos não vai parar.

. O ProUni não vai parar.

. A distribuição de computadores com banda larga nas escolas públicas, para que os jovens não assistam ao “Bom (?) Dia Brasil” e leiam o Conversa Afiada, não vai parar.

. Para que isso tudo acabe é preciso que a elite branca e o PiG ponham no Planalto o presidente eleito José Serra ou algum tucano de São Paulo.

. O PiG e a elite branca criaram provisoriamente uma nova “crise”: a morte dos jovens no Moro da Providência.

. Uma tragédia.

. Porém, o PiG não vai ganhar essa crise.

. A vida dos pobres vai melhorar.

. Até que os tucanos de São Paulo voltem ao poder.

domingo, 15 de junho de 2008

Entrevista com o presidente Lula - por Jornal do Brasil

Resultado de uma descontraída conversa de quase duas horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
– Cumprirá o mandato até o último dia, e jura que não sonha em voltar à Presidência;
– Entregará ao sucessor documento registrado em cartório com todas as suas realizações;
– Mal consegue disfarçar a torcida pela vitória de Barack Obama nos EUA;
– Diz que não tem candidato escolhido à sua sucessão. Mas também mal-disfarça a preferência por Dilma Roussef;
– O governo não assumirá que tem interesse na aprovação no imposto do cheque pelo Senado, mesmo que isso resulte na sua derrota;
– Criará um fundo para a educação com o dinheiro dos royalties do petróleo;
– Promete neutralidade em relação aos diversos candidatos dos partidos aliados nas próximas eleições municipais;
– Cobrará aumento da produtividade nos assentamentos dos sem-terra.
Marcos Troyjo
Tales Faria
Mauro Santayana
Marcello D’Ângelo

BRASÍLIA– O JB teve uma importância grande na minha atividade sindical. Fui muito ligado ao diretor da Sucursal em São Paulo na época em que começaram as greves do ABC. Era o João Batista Lemos, grande jornalista. O JB tinha cobertura quase privilegiada. Não só pela minha amizade com o Lemos, como também porque o jornal tinha uma sucursal muito forte. Tem até uma história curiosa. Quando estive preso, algumas pessoas me procuraram na delegacia dizendo que “o chefe” queria falar comigo. “O chefe, o chefe, o chefe”. Aí criaram essa história de que era o ministro Golbery do Couto e Silva, o governo. Nada disso. “O chefe” era o Lemos. O pessoal dele que havia levado o recado de que ele, “o chefe”, queria falar comigo. Só isso. Aquele momento era de muita ebulição. Para distribuir um jornalzinho do sindicato você tinha que enfrentar a ira de um coronel, a segurança da Volkswagen cercava o pátio. Para o trabalhador entrar com o boletim do sindicato ele tinha que guardar por dentro da camisa, na barriga, com medo da segurança ver. Hoje, você vai na Volkswagen, você vai na linha de montagem, vai passando jornalzinho para qualquer trabalhador pegar o seu.

O movimento sindical ficou muito mais pragmático?
– Em São Bernardo do Campo as comissões de fábrica funcionam para caramba – 90% dos processos são resolvidos dentro da fábrica. Teve um tempo desses aí que eles tiraram 600 processos da Justiça, fizeram acordo pela fábrica, foram na Justiça com a empresa para retirar o processo.

O senhor diria que o sindicalismo se adaptou aos novos tempos?
– Acho que o sindicalismo teve uma evolução em suas conquistas. Os sindicatos podem transitar nas suas relações com o capital ou mesmo com o governo com mais facilidade. Para fazer uma greve, eu precisava passar uma semana gritando na porta de fábrica. Agora, convoca-se a comissão de fábrica no mesmo dia: “quarta-feira, 8h vamos estar lá”. O sindicalismo atualmente vem ao Congresso Nacional brigar por Imposto de Renda, os funcionários públicos estão aprendendo a brigar por aumento na hora de fazer o Orçamento da União. No meu tempo, qual era a nossa marca registrada? Contestação. Não tinha compromisso com propostas. Só o de protestar. Hoje, e eu participei muito disso na década de 90, o movimento sindical tem que ser propositivo. Na medida em que as fábricas não vão ter mais a quantidade de trabalhadores que tinham – a Volkswagen tinha 44 mil trabalhadores e hoje tem 13 mil – os sindicatos têm que apresentar propostas. Esse negócio de carro flex, por exemplo, tem muito a ver. O sindicato passou oito anos fazendo proposta de renovação da frota.O movimento social não evoluiu da mesma maneira.

O MST lembra muito isso que o senhor está dizendo, que é de se tornar uma máquina de protesto.
– É muito difícil você fazer movimento social, e até sindical, na época em que as coisas estão indo bem. Quando o Fernando Henrique Cardoso fez o Plano Real, fiz uma reunião com os sindicalistas, e disse: não estamos acostumados a trabalhar em época de inflação baixa. Na medida que você tem inflação baixa e que o salário não é o primeiro item da pauta de reivindicações, pode diminuir a força do sindicato. Voltando à questão do movimento social. Na medida em que você tem um governo que atende às reivindicações, que faz as coisas que têm que ser feitas, que decide as políticas em conjunto, o movimento social também precisa avançar. No caso dos sem-terra, na hora que você tem geração de emprego, há menos gente para os assentamentos. Em cinco anos e meio nós desapropriamos 35 milhões de hectares de terras e o governo passado, em oito anos desapropriou 18 milhões de hectares. Chega um momento, quando você assenta 501 mil famílias, que o problema não é mais assentar. Nós tomamos na semana passada a decisão de fazer os assentamentos produzirem mais alimentos. Chegou a hora de dobrar ou triplicar a produtividade das pessoas que estão no campo. Não podemos permitir que fiquem apenas naquela agricultura de subsistência. Precisamos dar condições para produzirem e ganharem dinheiro. As pessoas têm que saber que ganhar dinheiro é bom. E eu acho que isso é que tentaremos fazer daqui para a frente. Obviamente que vamos continuar com os assentamentos, mas eu quero carrear mais recursos para assistência técnica, e para levar tecnologia aos agricultores, financiar mais tratores. Cabe ao governo aumentar o preço mínimo para incentivar a produção. Podemos também aumentar a compra de alimentos da agricultura familiar e distribuir para a merenda escolar e para as pessoas mais pobres. Essa é uma decisão tomada no governo e que vamos implementar. Se você pegar a agricultura familiar, verá que nós temos uma margem de crescimento de produtividade extraordinária.

Se baixassem um pouquinho os juros, isso não ajudaria a aumentar a produtividade?
– Hoje aproximadamente 60% do custo do dinheiro que vai para a produção no Brasil não têm nada a ver com a taxa básica do Banco Central, a taxa Selic. Você tem dinheiro tomado por empresários no exterior com outras taxas de juros, tem todo o dinheiro do BNDES – R$ 90 bilhões este ano – financiado com taxas menores. O grande prejudicado com a Selic é o próprio Estado, porque aumenta a dívida pública. O problema é a inflação. E por que há inflação? Porque algum setor está aumentando o preço. Se ninguém aumentasse o preço, não teríamos inflação. Há setores que estão aumentando porque dependem de matéria-prima internacional, mas isso não explica o caso do feijão, do arroz, que são coisas nossas. No caso do aço, o minério é brasileiro, as siderúrgicas são brasileiras, os salários são em reais, então não há por que acompanhar o preço internacional. Tenho dito tanto para empresários como para agricultores: está na hora de vocês alertarem os setores que estão elevando os preços. E qual é a alegação para aumentar preços? Aumenta a demanda na construção civil, aumentam os preços. Os empresários deveriam ter um procedimento diferente. Na medida em que aumenta a demanda, não precisa aumentar o preço. Vocês vão ganhar mais pelo aumento do volume de vendas.
Qual a certeza com que eu trabalho? Primeiro, acho que resolveremos a questão dos preços dos alimentos. Segundo, a questão da oferta. Precisamos aumentar a produtividade. Temos terra, temos água. Por isso vamos melhorar a produtividade, qualificar melhor nossos agricultores. A segunda coisa importante é que temos mais investimentos sendo aplicados. Nesse primeiro momento o investimento se transforma em consumo. Está sendo construída a usina da ThyssenKrupp no Rio de Janeiro. Ali estão comprando telhas, cimento, ferro, tudo o mais, que aumenta a demanda. Mas se está construindo o pólo petroquímico no Rio de Janeiro. Daqui a algum tempo esse consumo vai virar oferta. E aí é que eu acho que a coisa encontra o equilíbrio, a fim de garantir o desenvolvimento sustentado do país. Trabalho sempre com a idéia de que o Brasil não precisa ficar com o trauma de que não pode crescer mais de 3% e nem o trauma de que precisa crescer 10%. O Brasil precisa ter um crescimento sustentado de 4,5% a 5% durante 10 ou 15 anos consecutivos. Se o Brasil fizer isso nós entraremos no rol dos países ricos.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, propõe a criação do Fundo Soberano para segurar a inflação. Os economistas falam em controlar gastos públicos.– Por que criamos o Fundo Soberano? Porque dá margem de manobra para você ter dinheiro para facilitar investimentos do Brasil no exterior e ao mesmo tempo dá uma margem de manobra com a arrecadação a mais, a fim de não colocá-la no custeio e ter um dinheiro à parte, que pode ser contado até como superávit primário. Fiz questão de elogiar o Mantega e a equipe dele, porque foi uma medida extremamente inteligente. Então, quando as pessoas falam que a máquina gasta muito, eu queria dizer o seguinte: quanto o Franklin Martins (ministro-chefe da Secretaria de Comunicação) ganhava na Rede Globo, ou quanto ele ganhava na TV Bandeirantes? E quanto ele ganha aqui? R$ 10 mil, para trabalhar certamente o triplo do que trabalhava. Ontem recebi o Ricardo Kotscho (ex-secretário de imprensa do Palácio). Está trabalhando num blog. Ele disse que nunca ganhou tanto dinheiro. Ficou três anos aqui ganhando R$ 7 mil. Eu tinha um cidadão da Petrobras, que saiu da Petrobras, chorou aqui nesta sala, grande companheiro. Eu achei que ele ganhava demais – R$ 26 mil por mês. Achei que era um baita de um salário. Ele saiu para ganhar R$ 200 mil por mês com dois anos de pagamento adiantado. E agora já saiu para ganhar R$ 400 mil. Você tem um grau de funcionários de alta qualidade neste país que ganha porcamente. O Estado precisa ter funcionários qualificados, bem remunerados, para dar o retorno para a sociedade. As pessoas perguntam, por que o Hospital Sarah Kubitschek funciona e as pessoas são felizes lá? Porque ganham bem, têm jornada de trabalho integral, não podem trabalhar em outro serviço.
Até 2010, nós estaremos inaugurando e colocando para funcionar 214 novas escolas técnicas no Brasil. É importante lembrar que desde a primeira escola técnica criada por Nilo Peçanha em Campos, em 1909, até 2003, o Brasil construiu 140. Em 93 anos. Nós, em oito anos, vamos construir 214 escolas técnicas. Para construir, eu preciso ter técnicos, preciso ter funcionários. Nós estamos fazendo 12 universidades integradas com outros povos. Estamos fazendo uma latino-americana, estamos fazendo uma para a África (Brasil–África), destinada aos países de língua portuguesa. Se Deus quiser, vamos instalá-la no Ceará, que foi a primeira província do Império a libertar seus escravos. Nós vamos ter um total de 15 novas universidades e por volta de 88 novos campi universitários. Tudo isso precisa de professores e técnicos. Então, não tem remédio.

A aprovação da Contribuição Social para a Saúde (CSS) ajuda a colocar dinheiro em caixa. O governo assumirá que tem interesse no imposto?– Não. Isso será uma decisão do Congresso. Os senadores votarão com sua consciência. Graças a Deus as instituições no Brasil funcionam exageradamente bem.

Como o senhor vê as eleições nos EUA. Torce para alguém?– Não, não posso dizer. O Monteiro Lobato escreveu que um dia haveria uma disputa entre uma mulher e um candidato negro nos Estados Unidos. É o que está acontecendo com o Barack Obama. Eu acho que é uma revolução na cabeça do eleitorado americano. Se Obama ganhar será mostra de grande evolução. Essa é a grande novidade desses últimos 100 anos da História. E Deus queira que, ganhando as eleições, ele possa ter uma política dos Estados Unidos diferente para América Latina.

O senhor o conheceu pessoalmente?
– Não. Mas tem a vantagem que o Mangabeira Unger (ministro de Assuntos Estratégicos) foi professor dele em Harvard. É um companheiro, indiretamente... (risos)

O senhor o congratulou pela vitória nas primárias?
– Não. Até conversei com o Mangabeira, o ideal é esperar pelo final da campanha, para saber qual será a política dele para a América Latina. O que ele já fez com relação ao Brasil, quanto aos combustíveis de fontes renováveis é um passo importante. A meu ver os Estados Unidos deveriam ter um olhar para a América Latina, que não fosse o olhar conspirador. Hoje não existe mais ninguém querendo fazer revolução na América Latina. Hoje todos os países estão participando de programas democráticos. Agora o que acontece é que os Estados Unidos, de um lado, têm a responsabilidade, o Brasil, de outro, tem a mesma responsabilidade, assim como o México, de contribuir para que essa região se desenvolva e possa evoluir em paz. Acho que o novo presidente deveria ter um olhar positivo para a América Latina e espero que tenha. O McCain também fez muitos elogios ao Brasil.
Aqui no Brasil, o senhor acha que vai conseguir eleger a ministra Dilma Rousseff em 2010?
– Eu não tenho candidato.

Mas o senhor declarou há poucos dias que a Dilma está sendo atacada por ser a favorita.
– Não declarei isso. Mas começaram a atacá-la quando disse no Rio de Janeiro que Dilma era a mãe do PAC. Ela trabalha nesse PAC 24 horas por dia, controla todos os investimentos do PAC, fica sabendo se é preto, se é roxo. Ela é quem chama os ministros, que presta contas para mim a cada mês, que presta contas para a imprensa. Depois que eu disse isso, talvez os adversários entenderam que era uma senha. E começaram a atacar.

Estão atacando-a por ser a favorita para ganhar as eleições?
– A minha idéia é construir uma candidatura única da base do governo. Quero juntar todos os partidos. Acho que é plenamente possível. Temos 27 candidatos a governador, 54 candidatos a senadores, vices, cargo não falta para quem quiser disputar. Basta que as pessoas decidam claramente se querem disputar a eleição para ganhar ou se querem fazer aventura de ser candidato a qualquer preço. Eu, particularmente, trabalho com a hipótese de fazer a minha sucessão. Estou convencido que tudo o que estamos fazendo precisa continuar. Eu ainda não tenho candidato, não quero discutir isso. Agora, se você perguntar: “A Dilma tem competência?” Eu digo, tem, sim. Acho que tem pouca gente no Brasil hoje com a capacidade gerencial que a ministra Dilma tem. Agora, entre ter competência gerencial e uma candidatura à Presidência, há uma distância da largura do Oceano Atlântico.

Qual seria o seu legado para o sucessor?
– Vamos esperar 2010. Eu pretendo fazer uma inovação no final do meu mandato. Quero pegar todas as coisas que foram feitas. Cada ministério vai ter que me entregar tudo o que foi feito nesses últimos anos, registrar em cartório e me entregar, que eu quero entregar para o meu sucessor, quero entregar para a imprensa, registrado em cartório. Cada coisa que nós fizemos, cada obra, cada projeto, cada investimento, que é para não apagar a memória. Tudo isso está no computador. Se você entrar no computador hoje, isso aqui, que é um documento especial do presidente da República, se vocês entrarem no site, vocês terão todo dia, renovado todo mês, vocês entrarão no site do governo e terão tudo o que o governo está fazendo. E aí, sim, eu vou ter o legado. Eu vou ter o legado da recuperação da memória brasileira, quero ter isso na minha conta, quero ser o presidente que mais fez escolas técnicas neste país. Quero ser o presidente que no seu mandato fez mais universidades. Tudo isso, que mais melhorou a vida dos trabalhadores brasileiros, que mais estabeleceu relações com a sociedade. Acredito piamente que nós precisamos consolidar a mudança do padrão da relação entre o Estado e a sociedade. Veja uma coisa: na semana passada se criou uma celeuma se eu iria ou não à Conferência Nacional do Movimento GLBT (Gays, lésbicas, bissexuais e travestis). É um absurdo. Você imagina que o preconceito perpassa na cabeça de cada jornalista, a cabeça de cada integrante do governo, a cabeça de cada pessoa, porque o preconceito é generalizado. Você imagina... Eu sou, na história do mundo, o primeiro presidente a ir a uma conferência em que você tem lésbicas, travestis, homossexuais. E eu fui lá e se não tivesse escrito nos cartazes que era GLBT, eu sairia como se estivesse em qualquer outro encontro que não fosse desse movimento. Agora, nós criamos o preconceito. E eu dizia para eles: ninguém tem preconceito quando vocês vão votar. Ninguém tem preconceito quando vocês vão pagar Imposto de Renda. Eu acho o preconceito a pior doença na cabeça do ser humano.

Por falar em preconceito, no Rio de Janeiro o PMDB e o PT romperam a aliança em torno da candidatura do petista Alessandro Molon. Motivo: existia uma grande dificuldade de acordo com o PT no interior do Estado. O senhor não acha que existe um certo preconceito do PT com os partidos aliados?
– Não vamos misturar divergências politico-ideológicas com preconceito. São duas coisas distintas. O PT, como os outros partidos políticos tem os seus defeitos. Todo partido político, do A ao Z, todos gostariam de ter o seu candidato a prefeito, o candidato a vice ser seu, a chapa de vereador ser puro sangue e eleger todo mundo. É bom que isso não seja sempre possível, para que nós possamos ter a cabeça arejada. Mas , infelizmente, não deu certo no Rio de Janeiro entre o PT e o PMDB, embora tenha dado certo em vários outros lugares.

Mas como o senhor vê o caso de Belo Horizonte?
– Sou um crítico do comportamento do PT em relação a Belo Horizonte. Você tem um problema local, que a direção municipal aprovou, a direção estadual aprovou, e a direção nacional parte para cima de uma briga que não é nossa. Ora, o candidato é do PSB, o vice é do PT, não vai ter coligação na chapa de vereadores, onde é que está o Aécio Neves a essa altura, senão apenas apoiando? Qual é o estigma, se nós temos em outros lugares aliança com o PFL e com o PSDB? Na política também quando você cria estigmas contra as pessoas, você começa a perder. Eu ainda acredito que o PT vai voltar atrás no caso de Belo Horizonte.

E no caso do Rio?

– No caso do Rio, o PMDB decidiu ter candidatura própria.
Não posso dizer que não deva ter porque o partido tem o governador do Estado, é forte, pode ter. Agora, o que eles têm que admitir é que o PT também tem que ter candidato. O que eu acho é que se todos tivessem juízo a base do PT se uniria com o candidato a vice e a prefeito, ganharia as eleições e ajudaria a transformar o Rio de Janeiro na Cidade Maravilhosa.

Isso vai fazer com que o senhor tenha que ficar neutro na disputa do Rio?
– Já tomei a minha decisão antes. Eu participarei muito pouco das eleições municipais em todo o país. O presidente da República não vai se meter nas eleições municipais, porque tem muitos deputados concorrendo às eleições. E a glória de quem ganhar vai ser dele, na cidade dele. Vai ter festa, não vou ficar nem sabendo. Mas os que perderem voltarão para cá azedos. E aí eu tenho que conviver com eles mais dois anos. Então eu preciso saber que caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém. Eu preciso governar este país até 2010, com a tranqüilidade que estamos governando agora. Por isso não farei das eleições municipais um cavalo de batalha.

E essa descoberta de petróleo?
– Eu trabalho com o cenário de que o Brasil será o terceiro ou quarto produtor mundial de petróleo. O Brasil não pode se conformar a ser um país exportador de petróleo bruto. Nós precisamos usar essa potencialidade em petróleo e criar uma verdadeira indústria petroleira neste país. Um estaleiro para construir sonda, um estaleiro para construir plataforma, um estaleiro para construir embarcações. Hoje, se a gente tivesse que completar todas as sondas que a Petrobras precisa para começar a trabalhar, a gente não teria condições só com a produção brasileira. Será preciso a gente trazer de fora para que dê tempo de o nosso parque industrial se preparar. Mas essa é uma oportunidade excepcional para a gente desenvolver a indústria naval brasileira. E eu acho que nós precisamos aproveitar esse petróleo, eu não discuti ainda com ninguém o que nós vamos fazer com o petróleo, que pertence à União. As áreas que não foram leiloadas ainda são da União.

O Brasil deveria criar uma nova empresa com monopólio total sobre as novas jazidas?
– Eu na verdade estou pensando seriamente nos investimentos que podemos fazer. Eu sonho com a criação de um fundo para investir na educação neste país. Outra coisa que penso é que o Brasil vive um momento tão excepcional que eu acho que a nossa oposição deveria ser mais construtiva. Achei bom o programa de TV do PSDB. Eles deveriam fazer na prática o que falaram na televisão. Fizeram até em branco e preto para parecer uma coisa antiga. Gostei muito. Mas eu queria que eles assistissem ao programa todo dia quando levantassem de manhã para ir ao Congresso.

O que o senhor achou do depoimento da diretora da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Denise Abreu?

– É como se alguém levantasse pela manhã, fosse fazer um suco de laranja e a laranja não tivesse suco. Ou seja, como é que podem alguns senadores passarem 9 horas naquela conversa com ela, sem nada. Espremiam, espremiam e, nada. O que deu? Qual é o resultado daquilo? Esse caso da Varig foi inteiramente cuidado por um juiz, começou e terminou. Não houve participação do governo, porque o governo não podia fazer nada. Estava na mão do Judiciário. Agora vêm as pessoas e dizem: mas o governo tinha pressa. Lógico que nós tínhamos pressa. A Varig estava quebrada. Todo dia a manchete era sobre o caos aéreo. Vejam o caso do avião de Congonhas. Foi o pior inferno que eu já vivi. De repente, estou sentado na minha mesa e jogam nas minhas costas 200 mortos. E eu acompanhei tudo que se escreveu, acompanhei televisão, mudava de canal toda hora. Era como se o governo fosse o responsável por aquele avião ter caído. Nós não parávamos nem para pensar. E no dia seguinte saiu o vídeo da Infraero mostrando o que realmente aconteceu. As pessoas simplesmente apagam da memória, sem um pedido de desculpas. Ou um "erramos!". Apagam, esquecem. Eu penso que, no Brasil, a imprensa trabalha com traumas. Não tem coisa que magoe mais um jornalista do que ser chamado de chapa-branca. E às vezes o medo de ser chapa-branca faz ele extrapolar os limites do que pode fazer. O telespectador é mais inteligente do que a gente pensa. Ele saca. Tem um apresentador de televisão, que falava mal do governo todo dia. O pessoal ficava incomodado. Eu disse: gente, antes de ser presidente eu fui telespectador a vida inteira. E o telespectador não acredita nem em uma pessoa que só fale bem, nem em uma pessoa que só fale mal. Não acredita. Se você aparecer 20 vezes falando bem do governo, ninguém acredita. Se você aparecer 20 vezes só falando mal, também ninguém acredita.

O senhor ainda se julga de esquerda?
– Eu cada vez sou mais torneiro mecânico. (risos) Nunca gostei de andar com rótulo na testa, que sou isso ou aquilo. Obviamente que todo mundo sabe da minha origem, da minha vida pública, e que eu me considero um homem de esquerda.

E corinthiano...
– Sofri muito quarta-feira à noite.

Mas o senhor não pode falar mal do Sport, porque se quiser ser candidato ao Senado por Pernambuco...

– Só um ato de insanidade me faria deixar sete meses a Presidência da República para ser candidato ao Senado. Este aqui é o cargo mais importante da Federação. Eu levei 12 anos para chegar aqui, por que vou deixar isso aqui para ser candidato ao Senado?

O senhor ainda é jovem...

– Vou deixar a Presidência com 64 anos de idade. Obviamente que para os padrões políticos brasileiros não sou velho. Meu paradigma de longevidade é a Dercy Gonçalves e o Oscar Niemeyer. Quero chegar a essa idade, com o prestígio do Oscar Niemeyer e com a peraltice da Dercy Gonçalves. Eu a vi um dia desses na televisão, ela fala todas as bobagens que um ser humano tem direito. Obviamente que vou deixar a presidência aos 64 anos de idade e que nunca vou desistir da política. Também não quero voltar ao poder, não quero voltar a dirigir o partido, não está mais na minha cabeça. Vou viajar pelo Brasil, gosto deste país, vou conhecer cada vez mais por dentro este país. E não tenho pretensões de dar palpites, quem quer que seja que esteja aqui, não ouvirá da minha boca nenhum palpite sobre qualquer que seja sua decisão. Na minha filosofia, rei morto, rei posto.

Mas nada impede que o senhor volte. O senhor vai ser uma pessoa forte no país, de qualquer maneira.
– Não trabalho com a hipótese de volta. Se eu puder fazer um juramento: pela felicidade do meu filho caçula. Por que eu não trabalho com a possibilidade de voltar? Eu trabalho com a possibilidade de fazer a minha sucessão. Se eu eleger meu sucessor e ficar do lado de fora dando palpite, com poucos meses terei a pessoa que elegi como minha adversária. Como acontece em alguns países e como já aconteceu aqui. Se eu elegi uma pessoa, eu tenho a obrigação moral de ajudar essa pessoa a governar bem. E uma forma de ajudar a governar bem é não dar palpite. Se for consultado, ainda assim, falar em off. Qual é a hipótese de voltar? Se você estiver vivo ainda, se for um adversário que seja eleito. Trabalhar com essa hipótese é no mínimo mesquinharia elevada à quinta potência. Quando você passa por aqui, você tem que ser tão humilde e começar a imaginar que quem sentar aqui tem que fazer o máximo e o melhor que puder fazer, porque só assim o povo brasileiro vai ganhar. Então a gente não pode nunca torcer contra. O meu lema é o seguinte: dia primeiro de janeiro de 2011 eu entregarei a Presidência da República para alguém e vou para a minha casa conviver com a minha família. Não tenho tenho interesse de ser candidato a senador, a governador, a vereador. Nada.

Prezado Sr. Stálin - por Elias Thomé Saliba (Estadão)

Bastidores da batalha diplomática

Prezado Sr. Stálin, de Susan Butler, revela algumas das cenas mais inusitadas da política do século 20




Quem diria que Stálin foi agraciado com o título de 'homem do ano' de 1942, ganhando foto de capa e manchete de 'salvador do mundo ocidental' na revista Time? E que a repentina morte de Franklin Roosevelt, três anos depois, provocaria enorme comoção em Moscou, com uma multidão dirigindo-se para a embaixada americana, homenageando o falecido como um 'grande amigo da Rússia e da paz'? Varridas da memória pelo ambiente pesado da Guerra Fria pós-1945, essas são, entre muitas outras, algumas das cenas mais inusitadas da história do século 20, que certamente invadem a lembrança coletiva após a leitura da correspondência entre Roosevelt e Stálin, organizadas e editadas por Susan Butler.

Escritas entre 1941 (ano do ataque alemão à Rússia) e 1945 (ano da morte de Roosevelt), transmitidas por cabo ou entregues pessoalmente por diplomatas de estrita confiança dos dois governantes, são mais de 300 cartas, extremamente reveladoras da intensa batalha diplomática ocorrida nos bastidores da 2ª Guerra. Bem guardadas pelo sigilo oficial, propositalmente obscurecidas por alfinetarem orgulhos inflados de russos e americanos ou solenemente ignoradas pelos caprichos da memória política - elas retornam agora, quase 60 anos depois, devidamente anotadas, contextualizadas e minimamente preservadas em sua autenticidade no livro Prezado Sr. Stálin . Apesar de todos os protocolos diplomáticos, mensagens cifradas ou parafraseadas por inúmeros mediadores (inevitáveis em tempos de guerra), as cartas foram realmente escritas pelos dois líderes.

Suficientemente realista para confiar em certos momentos e desconfiar noutras ocasiões, Roosevelt revela escrita de estilo ágil, sereno, discernindo caminhos conciliadores - sem, contudo, esconder de Stálin os obstáculos e oposições internas às suas decisões, tanto dos republicanos quanto dos 'isolacionistas'. Já Stálin, descontados os problemas da tradução (a organizadora manteve os erros para mostrar como exatamente Roosevelt leu as cartas), não consegue esconder seu estilo deselegante, truncado - embora meticuloso e preciso apenas nos detalhes de manobras e estratégias militares. Só muito raramente a propalada incontinência verbal de Stálin irrompe nas cartas, quando numa delas - ao insistir com Roosevelt na necessidade urgente do envio de mais aviões - desabafa, em tom quase farsesco: 'A situação singular da aviação soviética é a de dispor de um número mais do que suficiente de pilotos, mas não de aviões!'

Nem sempre foi fácil suportar as interpelações raivosas e duras de Stálin. Churchill só atirava mais lenha na fogueira, provocando: 'O que se pode esperar de um urso senão um rugido?' O próprio Roosevelt perdeu a paciência em novembro de 1944, ao discutir a situação do governo polonês no exílio, embora tenha levado apenas uma semana para recuperar o equilíbrio, mostrando-se devidamente contido já na próxima carta, quando cumprimenta Stálin pelo 26º aniversário do Exército Vermelho. A resposta é extremamente cordial, mas apenas protocolar, pois se sabe que foi precisamente nesta época que Stálin teria dito nos bastidores que 'a gratidão é uma doença dos cães'.

De qualquer forma, as cartas de Stálin, reforçam o ácido comentário de Clement Atlee quando dizia que o ditador desprezava profundamente a linguagem floreada: 'Com Stálin, é sempre um sim ou um não, embora só se possa acreditar nele quando diz não.' As cartas evidenciam ainda quanto a União Soviética precisava urgentemente de toda a ajuda que pudesse obter e, para isso, não interessava fomentar antagonismos com os Estados Unidos. O presidente norte-americano e o ditador nunca estiveram tão próximos: encontraram-se apenas por duas vezes, em Teerã, em novembro de 1943 e em Ialta, em fevereiro de 1945, mas as cartas revelam uma inusitada sintonia entre os dois, que se vislumbra nas pitorescas jogadas de Roosevelt (na organização das duas conferências), para ficar próximo a Stálin, livrando-se das excessivas exigências (e da verborragia) de Churchill - ou usando a personalidade deste último como parte do jogo diplomático.

No geral, é uma correspondência que nada acrescenta nem altera a história da 2ª Guerra. Fornece, contudo, novos ângulos de visão e outras perspectivas, nem sempre agradáveis à nossa amnésia histórica. De material bélico pesado a alimentos e vestuário, as cartas adicionam detalhes espantosos a respeito da enorme ajuda material que Roosevelt conseguiu liberar para a União Soviética derrotar a Alemanha. Muitos viram nesse tópico apenas um resquício da atitude amplamente favorável de Roosevelt em relação à URSS, interpretada, não raro, como ingenuidade de alguém que foi vítima das próprias ilusões. Mas existiram outras alternativas? Algumas cartas deixam clara a decepção de Roosevelt com os acordos de Ialta. Ele sabia, no fundo, que esses nada valeriam, pois o delineamento da Europa do pós-guerra seria determinado não por acordos, mas pela localização real dos Exércitos ocupantes quando da rendição alemã. Entre as muitas crueldades inenarráveis da guerra, o nó diplomático mais delicado foi quando Roosevelt praticamente ignorou o assassinato de mais de 20 mil oficiais poloneses na floresta de Katyn - os quais (depois se descobriu) foram mortos não pelos alemães, mas pelos russos da NKVD.

Por outro lado, Roosevelt mantém no seu horizonte uma noção muito clara de que o espectro de uma aliança germano-soviética ainda era muito recente. Embora cruel e frustrante foi imperioso deixar Stálin com as mãos livres no Leste Europeu, pois a URSS tinha de ser mantida, a qualquer custo, na guerra contra a Alemanha e, mais tarde, contra o Japão. Não foram poucos os biógrafos que 'medicalizaram' a hesitação melancólica de Roosevelt, atribuindo-a à hipertensão, sinusite, bronquite, arteriosclerose, isquemia temporária, além, é óbvio, da semiparalisia decorrente da poliomielite. Mas é muita fisiologia para pouco espírito. Contrariando tais presunções, as cartas revelam que a resignação e a tristeza vinham da dura constatação de que qualquer diálogo com Stálin seria impossível sem uma atenuação - quando não um esquecimento doloroso - das crueldades, genocídios, hostilidades ou suspeitas mútuas.

Schlesinger Jr. argumenta que Roosevelt conseguiu, apesar de tudo, estabelecer padrões para a Europa Oriental, enquadrando Stálin e obrigando-o a romper com o acordo de Ialta para consolidar as posições soviéticas. Foi pouco, mas melhor que nada. Roy Jenkins também argumenta na mesma direção, afirmando que Roosevelt não 'deu' nada a Stálin que ele já não possuísse através da ocupação militar. Com algumas objeções, Isaiah Berlim acompanha o mesmo diagnóstico, enfatizando, nesse sentido, que Roosevelt conseguiu atuar como um farol iluminando o futuro. Para além dos intérpretes, as cartas revelam que Roosevelt conseguiu manter sempre o diálogo e que Stálin nutria uma velada admiração pelo presidente americano. Conseguiu até mesmo que o seu interlocutor aceitasse o tratamento brincalhão, ao chamar Josef Stálin de 'Tio Joe'.

Menos de dez dias depois da morte de Roosevelt, o embaixador russo, Vyacheslav Molotov (que era para Stálin o que Harry Hopkins era para Roosevelt), já seria destratado por Harry Truman: 'Ninguém jamais falou assim comigo', reclamou Molotov; 'cumpra sua palavra e não o tratarei desta maneira', rebateu Truman. Esse diálogo seria inconcebível na presença de Roosevelt. O restante da história é bem conhecido: quatro meses depois da morte de Roosevelt vieram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki - e as cinzas da Guerra Fria manietaram o diálogo e calcinaram as mentes.

Se Roosevelt tivesse vivido pelo menos até o fim do seu mandato, a história seria diferente? O condicional - também chamado pelos historiadores de raciocínio contrafactual - é quase um tabu na lógica histórica e, quando mal conduzido, resulta pernicioso e impertinente. Mas a leitura das cartas fornece perspectivas inquietantes, a respeito das quais cabe ao leitor decidir. 'Durante mais de 60 anos - escreveu E.J. Hobsbawm -, eu e Arthur Schlesinger Jr. não concordamos sobre nenhum assunto, a não ser este: eu compartilhava - e ainda compartilho - de sua admiração por Franklin D. Roosevelt.' E se um personagem tão controverso suscitou a admiração de dois historiadores tão diferentes, é quase certo que ele possuía algum quilate daquela rara grandeza. O que, nos dias de hoje, não é pouca coisa.

Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso: A Representação Humorística da História Brasileira.


Comentário: A capa da Time do "homem do ano" de 1942, "salvador do mundo ocidental", conseguida no blog do Luis Nassif: