sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Entre o ruim e o pior

E entre o Playboy que governa Minas Gerais diretamente das praias do Rio de Janeiro, e o Exterminador do presente, o PSDB ficará com o último.
Agora, as lideranças da alcatéia, digo, do partido, lutam para que o mauricinho aceite ser candidato a vice, formando então, segundo dizem, uma chapa “puro-sangue”.
Porém, de puro, esta chapa não tem nada.

A contrarrevolução jurídica - por Boaventura de Sousa Santos (Leitura Global)

Está em curso uma contrarrevolução jurídica em vários países latino-americanos. É possível que o Brasil venha a ser um deles.

Entendo por contrarrevolução jurídica uma forma de ativismo judiciário conservador que consiste em neutralizar, por via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo das duas últimas décadas pela via política, quase sempre a partir de novas Constituições.

Como o sistema judicial é reativo, é necessário que alguma entidade, individual ou coletiva, decida mobilizá-lo. E assim tem vindo a acontecer porque consideram, não sem razão, que o Poder Judiciário tende a ser conservador. Essa mobilização pressupõe a existência de um sistema judicial com perfil técnico-burocrático, capaz de zelar pela sua independência e aplicar a Justiça com alguma eficiência.

A contrarrevolução jurídica não abrange todo o sistema judicial, sendo contrariada, quando possível, por setores progressistas.

Não é um movimento concertado, muito menos uma conspiração. É um entendimento tácito entre elites político-econômicas e judiciais, criado a partir de decisões judiciais concretas, em que as primeiras entendem ler sinais de que as segundas as encorajam a ser mais ativas, sinais que, por sua vez, colocam os setores judiciais progressistas em posição defensiva.

Cobre um vasto leque de temas que têm em comum referirem-se a conflitos individuais diretamente vinculados a conflitos coletivos sobre distribuição de poder e de recursos na sociedade, sobre concepções de democracia e visões de país e de identidade nacional.

Exige uma efetiva convergência entre elites, e não é claro que esteja plenamente consolidada no Brasil. Há apenas sinais nalguns casos perturbadores, noutros que revelam que está tudo em aberto. Vejamos alguns.

- Ações afirmativas no acesso à educação de negros e índios. Estão pendentes nos tribunais ações requerendo a anulação de políticas que visam garantir a educação superior a grupos sociais até agora dela excluídos.

Com o mesmo objetivo, está a ser pedida (nalguns casos, concedida) a anulação de turmas especiais para os filhos de assentados da reforma agrária (convênios entre universidades e Incra), de escolas itinerantes nos acampamentos do MST, de programas de educação indígena e de educação no campo.

- Terras indígenas e quilombolas. A ratificação do território indígena da Raposa/Serra do Sol e a certificação dos territórios remanescentes de quilombos constituem atos políticos de justiça social e de justiça histórica de grande alcance. Inconformados, setores oligárquicos estão a conduzir, por meio dos seus braços políticos (DEM, bancada ruralista) uma vasta luta que inclui medidas legislativas e judiciais.

Quanto a estas últimas, podem ser citadas as “cautelas” para dificultar a ratificação de novas reservas e o pedido de súmula vinculante relativo aos “aldeamentos extintos”, ambos a ferir de morte as pretensões dos índios guarani, e uma ação proposta no STF que busca restringir drasticamente o conceito de quilombo.

- Criminalização do MST. Considerado um dos movimentos sociais mais importantes do continente, o MST tem vindo a ser alvo de tentativas judiciais no sentido de criminalizar as suas atividades e mesmo de o dissolver com o argumento de ser uma organização terrorista.

E, ao anúncio de alteração dos índices de produtividade para fins de reforma agrária, que ainda são baseados em censo de 1975, seguiu-se a criação de CPI específica para investigar as fontes de financiamento.

- A anistia dos torturadores na ditadura. Está pendente no STF arguição de descumprimento de preceito fundamental proposta pela OAB requerendo que se interprete o artigo 1º da Lei da Anistia como inaplicável a crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos praticados por agentes da repressão contra opositores políticos durante o regime militar.

Essa questão tem diretamente a ver com o tipo de democracia que se pretende construir no Brasil: a decisão do STF pode dar a segurança de que a democracia é para defender a todo custo ou, pelo contrário, trivializar a tortura e execuções extrajudiciais que continuam a ser exercidas contra as populações pobres e também a atingir advogados populares e de movimentos sociais.

Há bons argumentos de direito ordinário, constitucional e internacional para bloquear a contrarrevolução jurídica. Mas os democratas brasileiros e os movimentos sociais também sabem que o cemitério judicial está juncado de bons argumentos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um catálogo do curioso e bizarro - por Umberto Eco (The New York Times - link Terra magazine)

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4132308-EI12929,00-Um+catalogo+do+curioso+e+bizarro.html

Políticas ambientais e palpites - Blog do Nassif

Três presidenciáveis sendo que dois são aliados. Eu estranharia se o Serra e a Marina concordassem com a Dilma.

“COP-15
Marina e Serra discordam de teses de Dilma na conferência sobre clima em Copenhague
Publicada em 14/12/2009 às 22h20m

Chico de Gois – enviado especial

COPENHAGUE – O Bella Center, em Copenhague, local onde ocorre a maioria das reuniões para discutir as mudanças climáticas , aqueceu nesta segunda-feira o debate entre os três pré-candidatos à Presidência que, de forma distinta, participam da Conferência da ONU. O resultado do primeiro dia em que os três estiveram sob o mesmo teto foi a concordância de posicionamento entre o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a senadora Marina Silva (PV-AC), que trocaram amabilidades, contra as teses adotadas pela ministra da Casa Civil e chefe da delegação brasileira, Dilma Rousseff, que esteve em várias reuniões e nem se encontrou com os oponentes frente a frente.
Marina e Serra, por exemplo, defenderam que o Brasil deveria contribuir com US$ 1 bilhão, em dez anos, para os países pobres poderem atingir suas metas de redução de emissão de gases de efeito estufa. Serra disse numa entrevista coletiva que considera que, caso o Brasil agisse dessa forma, daria um exemplo aos desenvolvidos, que poderiam se sentir constrangidos e agir da mesma maneira.
- O Brasil deveria contribuir com recursos para este fundo ambiental mundial. Esta contribuição terá um significado simbólico importante para os países desenvolvidos – defendeu Serra.
Mais tarde, ao ser perguntada sobre a proposta dos opositores, Dilma manteve-se firme e disse que o Brasil não deve entrar nessa discussão.
- Um bilhão de dólares não faz nem cosquinha. Os valores estão em torno de US$ 120 bi, US$ 150 bi, e tem valores de até US$ 500 bilhões. O que acho complicado é que a gente só faça gesto. O que a gente tem de fazer são medidas reais, concretas, comprometidas. Temos de ter cuidado, senão vamos cair em propostas fáceis e puramente mercadológicas. Aqui estamos tratando de coisas sérias, que é a proteção do meio ambiente.
Marina defende criação de fundo internacional
(…)”
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2009/12/14/marina-serra-discordam-de-teses-de-dilma-na-conferencia-sobre-clima-em-copenhague-915213135.asp

Comentário

Bem ou mal, o governo brasileiro apresentou uma proposta que mudou as expectativas de resultados da reunião de Copenhague.Há uma lógica, uma estratégia, que pode ser defendida ou criticada.
Assumiu metas de redução do carbono e defende a tese da diferença de tratamento entre desenvolvidos e emergentes – a fim de obrigar os desenvolvidos a bancar a redução do carbono dos emergentes.
Serra montou um aparato publicitário para se apresentar em Copenhague – que incluiu a compra de patrocínio em redes sociais voltadas para o tema. Consegue espaço na velha mídia, como se fosse um personagem central do jogo. E tudo o que faz é questionar um ponto – o Brasil deveria bancar R$ 1 bi – sem analisar a estratégia geral, sem formular uma política alternativa, sem definir um ponto de vista sistêmico.
Apenas um palpite.

Por Alexandre Leite

“Apenas um palpite.”
É pior que palpite Nassif.
Trata-se de aceitar, numa negociação envolvendo mais de uma centena de atores, com centenas de interesses diferentes, a primeira proposta vinda de quem tem menos ‘moral’ para propor alguma coisa.
O mundo em desenvolvimento quer colocar essa gente na parede e não ser emparedado.
Se for para aceitar esse US$ 1 bi … , que seja no último dia … e não no primeiro. Até lá, muito CO2 vai passar por debaixo da ponte.

Comentário meu:
Acho injusto a postagem contra o Serra.
Seria extremamente injusto dizer que ele nada faz contra o aquecimento global que não aproveitar da cúpula em Copenhague para passear, ou propor factóides destinados tão e unicamente a se opor ao governo brasileiro – sem absolutamente nenhuma visualização sistêmica do problema ambiental e das propostas discutidas no fórum.
Ao contrário, o senhor Serra atua, sim, a favor do meio ambiente do mundo. Basta que observemos as enchentes que seu governo deixa acontecer em São Paulo. Ao permitir a criação de ilhas artificiais com as enchentes, há uma maior quantidade de água espalhada pela superfície do planeta, com consequente menor aquecimento do globo terrestre.
Podemos lembrar ainda que Dubai gastou muito mais para conseguir feito similar (a construção de ilhas artificiais). Esta é apenas mais uma das tantas demonstrações do “choque de jestão” da administração tucana no governo de SP.

Secretário-adjunto de Estado dos EUA diz que relação entre Brasil e Irã é bem-vinda – por Eliane Oliveira (globo. com)

BRASÍLIA – As relações entre Brasil e Irã são bem-vindas, afirmou nesta segunda-feira o secretário-adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental dos Estados Unidos, Arturo Valenzuela, que qualificou de equivocada a interpretação de que seu país condenaria a aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Mahmoud Ahmadinejad. Segundo ele, os EUA vão continuar encorajando países a pressionar o Irã a cumprir as normas estabelecidas pela Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea).
- O Brasil tem o direito de ter relações com o país que quiser, é soberano. Damos as boas vindas ao interesse do Brasil em fazer com que o Irã entenda que é importante cumprir as determinações da Aiea – disse Valenzuela.
Ele lembrou que o presidente dos EUA, Barack Obama, defende um diálogo aberto e de cooperação com todos os países, inclusive com aqueles com os quais tem posições diferentes.
- O objetivo é continuar o diálogo com o Irã, mas o Irã tem que assumir sua responsabilidade e seus compromissos na Aiea – afirmou.

Comentário: se até a globo publica uma reportagem destas é porque as relações entre EUA e Brasil REALMENTE vão bem...

Intelectuais - por Umberto Eco (The New York Times - link em Terra magazine)

Recentemente se iniciou um debate na Itália a respeito dos termos pejorativos como culturame - lixo intelectual - novamente em uso depois de décadas. Os políticos empregam estes termos para desacreditar os intelectuais da oposição.
Se estou bem lembrado, culturame foi um termo cunhado por Mario Scelba, Ministro italiano do Interior nos últimos anos da década de 1940, que só acreditava na lógica dos cassetetes da polícia.
Spiro Agnew, vice-presidente de Richard Nixon, falava dos esnobes decadentes, o qual remete aos velhos seminários fascistas que riam dos escritores ou dos intelectuais que falavam com sotaque espanhol a respeito dos poetas românticos.
Uma expressão semelhante em inglês é eggheads (cabeças de ovo). Durante os conflitos políticos do pós-guerra, os intelectuais de direita ressuscitaram a expressão inocentes úteis, que foi como Vladimir Lênin chamou os intelectuais que simpatizavam com a esquerda.
Todos esses termos reforçam a ideia de que o desprezo em relação aos intelectuais é uma característica da direita. A consequência é que não existam intelectuais de esquerda, porque todos os intelectuais são da oposição.
Por definição, um intelectual sempre está em oposição a algo; inclusive os que apoiam a direita podem opor-se a ela em muitas questões. Houve grandes intelectuais conservadores, inclusive alguns reacionários. Reacionário não é palavrão - como nos dias de Peppone e de Dom Camilo nos romances de Giovanni Guareschi a respeito de um povoado italiano no pós-guerra - porque muitos intelectuais e artistas já sonharam com a volta a uma ou outra tradição, a um ou outro regime do passado.
Um reacionário não é apenas um fascista. Dante - um importante intelectual - era um reacionário, e mesmo atualmente existem muitos escritores que não fazem outra coisa a não ser criticar a modernidade, a tecnologia e as utopias revolucionárias.
Recentemente a direita italiana identificou como seus "heróis" intelectuais pessoas que eram de esquerda por definição - caso (talvez de forma justa) do intelectual italiano Pier Paolo Pasolini, uma vez que defendia um estado pré-industrial da natureza.
Poucas pessoas fora da Itália, e talvez até dentro dela, lembram-se das especulações ocorridas nos anos 1960 a respeito do nascimento de uma cultura de direita. Havia inclusive uma revista chamada La Destra (A Direita).
Alguns editores como Borghese desenterraram uma obra sem importância de Adolf Hitler e se rebaixaram a publicar Spiro Agnew (chamado no seu tempo de o vice-presidente mais reacionário dos Estados Unidos, o homem que diz em voz alta aquilo que Richard Nixon apenas sussurra).
A Rusconi Books publicou muitos representantes do pensamento de direita. Essas obras - desde o japonês Yukio Mishima e o escritor italiano Giuseppe Prezzolini até o escritor e político italiano Panfilo Gentile - redescobriram uma verdadeira "grande" filosofia reacionária como a de Joseph de Maistre, diplomata francês da era pós-revolucionária considerado um precursor do fascismo.
Para encontrarmos escritores de renome que eram ou são de direita, conservadores ou reacionários basta olhar ao nosso redor.
Podemos encontrar escritores fascistas ou antissemitas como Louis-Ferdinand Celine ou Ezra Pound. E inimigos clássicos da modernidade como o austríaco e historiador de arte Hans Sedlmayr, o filósofo Martin Heidegger ou o intelectual galês René Guénon.
Se olharmos os catálogos dos editores ditos democráticos, podemos encontrar tentativas da esquerda de revindicar para si alguns escritores de direita, como acontece com Ernst Junger ou com Oswald Spengler. Estes escritores de direita não serão também culturame?
O certo é que pensamos na direita como algo homogêneo. Inclusive nestes círculos achamos intelectuais que os reconhecem como seus pares, mas por serem intelectuais não rotulam os seus opositores como culturame ou esnobes decadentes.
Outros - criaturas do sistema da política de farda, lacaios dos políticos, interessados apenas no poder ou no dinheiro - nunca leram o suficiente para saber que existem os intelectuais de direita. Apenas enxergam os de esquerda, principalmente quando estão na oposição.
Para essas mentalidades limitadas, intelectual é sinônimo de opositor. Como o comandante da Luftwaffe (força aérea alemã), Hermann Goering, quando ouvem falar de cultura levam as mãos às suas armas.
Embora a comparação com Goering seja duvidosa, a linha de pensamento surge na obra de teatro nazista "Schlageter", por Hanns Johst: "Wenn ich Kultur hore ... entsichere meinen Browning". Mas aqueles que lançam mão das suas armas não sabem nada a respeito da origem da citação. Não leem; simplesmente não leem.

Umberto Eco é filósofo e escritor. É autor de "A Misteriosa Chama Da Rainha Loana", "Baudolino", "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucault". Artigo distribuído pelo The New York Times Sybdicate.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O legado de 1989 nos dois hemisférios - por Noam Chomsky (The New York Times)

O mês de novembro marcou o aniversário de eventos definitivos que ocorreram em 1989: "O ano mais importante para a história desde 1945", descreveu o historiador britânico Timothy Garton Ash.
O ano que "mudou tudo", ele escreveu. As reformas de Mikhail Gorbachev na Rússia e sua "renúncia animadora ao uso da violência" levaram à queda do muro de Berlim no dia 9 de novembro - e à libertação do Leste Europeu da tirania russa.
O mérito é merecido e os eventos são memoráveis. Mas outras perspectivas podem dar nova luz aos eventos.
A chanceler alemã Angela Merkel ofereceu uma dessas perspectivas - involuntariamente - quando nos incitou a "usar esse exemplo de liberdade para superar os muros do nosso tempo".
Uma das formas de seguir o ótimo conselho da líder alemã é derrubar o muro monstruoso, maior ainda o que o de Berlim, erguido em território palestino, violando as leis internacionais.
A existência do Muro da Cisjordânia é justificada por questões de "segurança" - o argumento mais utilizado para justificar ações de governos ultimamente. Se a preocupação fosse realmente a segurança, o muro seria construído ao redor da fronteira e seria indestrutível.
O objetivo dessa monstruosidade, construída com o apoio dos EUA e a cumplicidade da Europa, é permitir que Israel tome posse de uma porção valiosa de terras palestinas e os principais recursos naturais da região, negando à população natural da ex-palestina uma existência nacional viável.
Outra perspectiva dos acontecimentos de 1989 foi sugerida por Thomas Carothers, acadêmico que trabalhou em programas de "melhorias democráticas" na administração do ex-presidente Ronald Reagan.
Depois de consultar seus relatórios, Carothers concluiu que todos os líderes norte-americanos até então foram "esquizofrênicos" em seu apoio à democracia, limitando-se apenas àquelas que estivessem de acordo com a estratégia dos EUA e seus objetivos econômicos, como aconteceu com os satélites soviéticos, mas não com os estados clientes dos EUA.
Essa perspectiva é dramaticamente confirmada pela recente comemoração dos eventos de novembro de 1989. A queda do muro de Berlin foi amplamente celebrada, mas poucos souberam do que aconteceria na semana seguinte: No dia 16 de novembro em El Salvador, seis intelectuais latino-americanos respeitados, padres jesuítas, foram assassinados, além da cozinheira e sua filha, pelo batalhão Atlacatl, com armas fornecidas pelos Estados Unidos e treinado no renomado centro de treinamento especial do exército americano, o JFK Special Warfare School.
O batalhão já possuía um currículo sangrento, que começou em 1980 com o assassinato do Arcebispo Oscar Romero, conhecido como "a voz de quem não tem voz".
Durante a década de 1980, a administração Reagan declarou a "guerra contra o terror", mas um terror parecido se estabelecia na América Central. Um reinado de tortura, assassinatos e destruição na região deixou centenas de milhares de mortos.
O contraste entre a libertação dos satélites soviéticos e a destruição completa da esperança dos países clientes dos EUA é chocante e irremediável - especialmente quando alargamos nossa perspectiva dos fatos.
O assassinato dos intelectuais jesuítas trouxe um fim derradeiro para a "teologia da libertação", a volta do cristianismo que teve suas raízes modernas nas iniciativas do Papa João XXIII e o II Concílio do Vaticano, que ele inaugurou em 1962.
O Concílio "inaugurava uma nova era na história da Igreja Católica", escreveu o teólogo Hans Kung. Os bispos latino-americanos adotaram a "opção preferencial pelos pobres".
Portanto, os bispos renovaram o pacifismo radical dos Evangelhos, que haviam sido postos de lado quando o Imperador Constantino estabeleceu o cristianismo como a religião do Império Romano - "uma revolução" que em menos de um século converteu "a igreja perseguida" em uma "igreja perseguidora", de acordo com Kung.
Os padres latino-americanos, após a retomada do Vaticano, levaram adiante a mensagem dos evangelhos, juntamente com freiras e voluntários, aos pobres e perseguidos, incentivando valores comunitários e encorajando-os a tomar o destino nas próprias mãos.
A reação a essa heresia foi a repressão pela violência. Em meio ao terror e à morte, os praticantes da teologia da libertação eram os alvos principais.
Entre eles, há seis mártires da igreja cuja execução há 20 anos é hoje comemorada com um silêncio arrebatador e tristeza indiscutível.
No mês passado em Berlim, os três presidentes mais envolvidos com a queda do muro, George H. W. Bush, Gorbachev e Helmut Kohl, discutiram de quem é o crédito.
"Eu sei que Deus nos ajudou", disse Kohl. George H.W. Bush elogiou os esforços do povo da Alemanha Oriental, que "por muito tempo foram privados de seus direitos divinos". Já Gorbachev sugeriu que os Estados Unidos precisam ter sua própria Perestroica.
Não há dúvidas sobre a responsabilidade pela demolição da tentativa de recuperar o ensinamento do Evangelho na América Latina na década de 1980.
A Escola das Américas (rebatizada depois de Instituto para a Cooperação de Segurança do Ocidente) em Fort Benning, no estado americano da Geórgia, que treina oficiais latino-americanos, anuncia orgulhosamente que o Exército Americano ajudou a "derrotar a teologia da libertação" - com a ajuda, não esqueçamos, do Vaticano com suas expulsões e excomunhões.
A cruel campanha para reverter a heresia colocada em prática pelo Vaticano recebeu uma expressão literária incomparável na parábola de Dostoievsky do Grande Inquisidor em "Os Irmãos Karamazov".
No conto, que se passa em Sevilha na "mais terrível época da Inquisição", Jesus Cristo aparece repentinamente na rua, "suave, inabalável e, ainda assim, por mais estranho que possa parecer, todos o reconheciam" e eram "atraídos a ele de forma irresistível".
O Grande Inquisidor "clama aos guardas que o levem" para prisão. Lá ele acusa Cristo de chegar para "nos impedir" de continuar a tarefa de destruir as ideias subversivas de liberdade e comunidade. Nós não o seguiremos, diz o Inquisidor a Jesus, apenas Roma e a "espada de César". Queremos comandar a terra sozinhos para que possamos ensinar aos "fracos e vis" que "eles só serão livres quando renunciarem sua liberdade a nós e se entregarem". Então eles se tornarão temerosos e assustados e felizes. E amanhã, diz o Inquisidor, "eu vou queimá-lo".
No final, no entanto, o Inquisidor resolve ceder e "soltá-lo aos becos escuros da cidade". O prisioneiro vai embora.
Os alunos da Escola das Américas não foram capazes da mesma piedade.

P.S: fonte - terra magazine

Serra: com o programa Esportes Fluviais, enchente não é problema é solução! - por bye, bye, Serra

http://byebyeserra.wordpress.com/2009/12/12/serra-com-o-programa-esportes-pluviais-enchente-nao-e-problema-e-solucao/

O autismo de Arruda - por Leandro Fortes (Brasília, eu vi)

Eu era repórter da Zero Hora, em Brasília, e presidente do Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto, em setembro de 1992, quando Fernando Collor de Mello foi afastado do cargo por decisão da Câmara dos Deputados e, em seguida, exilou-se na biblioteca da Casa da Dinda, no Setor de Mansões do Lago Norte da capital federal. Setorista no Palácio do Planalto, acompanhei a agonia de Collor desde as primeiras denúncias, centradas na vida e na obra de Paulo César Farias, o PC, até a derrocada do primeiro presidente eleito depois de 21 anos de ditadura militar. De tudo que se passou naqueles tempos, o que mais me interessou foi a fase de Collor na biblioteca da Casa da Dinda. A fase do autismo.
O trauma do afastamento (o impeachment só seria votado, dois meses depois, em novembro) havia tornado a personalidade de Collor ainda mais estranha. Diariamente, ele acordava cedo, se vestia impecavelmente de paletó e gravata, se fazia acompanhar de assessores e seguranças e, então, atravessava a rua para ir à biblioteca. Isso mesmo: o cômodo não ficava na Casa da Dinda, mas numa casa menor, em frente à residência do presidente. Todo santo dia, um Collor soturno, com olhar vidrado e andar robótico, fazia aquela travessia surreal em direção a um poder imaginário. Lá, sentava em frente a uma mesa de reuniões de madeira maciça e colocava em frente a si um daqueles aparelhos elétricos antigos que matavam insetos. Por quase dois meses, quando finalmente renunciou antes de ser cassado, o presidente do Brasil fingia governar o país em meio a consultas solitárias de títulos aleatórios de livros da família ao som de pequenos estalos provocados pela eletrocutação de moscas e muriçocas. Enquanto o mundo se desmoronava a seu redor, Collor vivia, como um autista, num universo próprio e impenetrável. E dele, ao que parece, nunca mais emergiu.
Essas impressões sobre o atual senador Collor me vieram à cabeça depois de ouvir o pronunciamento do governador José Roberto Arruda, no momento em que ele anunciou sua desfiliação do DEM. Arruda virou um espectro humano desagradável, e mesmo para jornalistas experientes não deixa de ser penoso se defrontar com a manifestação física da degradação moral de um político caído em desgraça. Desmoralizado e abandonado pela raia miúda que com ele se locupletou dos maços de dinheiro que fazem a festa no Youtube, Arruda parece ter entrado naquela fase autista de Collor. Ao falar à imprensa, não estava se dirigindo ao mundo real, mas a uma existência virtual projetada em outra dimensão. Arruda decidiu que o importante agora é continuar governando o Distrito Federal e tocar as mais de mil obras em andamento, levantadas em toda parte, com vistas aos 50 anos de Brasília, a serem comemorados em 21 de abril de 2010.
Em primeiro lugar, José Roberto Arruda não governa mais o Distrito Federal. Sua última ação administrativa foi, digamos assim, a ordem dada à Política Militar para atacar, com cavalos, cães e cassetetes, dois mil manifestantes que estavam pacificamente no Eixo Monumental de Brasília. Lá, como ilustração da anarquia que virá, um coronel PM de cabelos brancos partiu como um babuíno enfurecido para cima de um estudante e rasgou-lhe a camisa. Filmado, ordenou aos PMs que jogassem gás de pimenta nos olhos dos cinegrafistas. Arruda, ao que parece, estava na residência oficial, decidindo se contratará a cantora pop Madonna ou a banda irlandesa U2 para abrir os festejos do Cinqüentenário.
Arruda não tem mais nenhum partido em sua base de sustentação e, agora, não faz parte de nenhuma sigla partidária. Em duas semanas, perdeu 12 secretários e seis administradores regionais (das cidades-satélites e do Plano Piloto). Na Câmara Legislativa, metade dos 24 deputados distritais está envolvida no Mensalão do DEM. Arruda, que costumava inaugurar até creche de boneca, não tem mais coragem de colocar o pé para fora de casa.
Vai para o Palácio do Buritinga, sede do governo, em Taguatinga, escondido pelos vidros fumê de carros oficiais, mais ou menos como Collor atravessava a rua para mergulhar no mundo encantado da biblioteca do avô.
Entrou, definitivamente, na fase do autismo. E com ele, o DEM. O Ex-PFL, ao que parece, acredita mesmo que, ao se livrar de Arruda, irá também se livrar da pecha de partido atrasado, reacionário e corrupto.

Morre o criador dos genéricos - Serra decreta século de silêncio - por bye, bye, Serra

http://byebyeserra.wordpress.com/2009/12/11/serra-e-os-genericos-o-grande-embuste/

Morre o verdadeiro autor da lei dos genéricos, Jamil Haddad - por Paulo Henrique Amorim

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=24093

Governo federal homenageia Serra pela compra de armas em Bizâncio - por blog Bye, bye, Serra

http://byebyeserra.wordpress.com/2009/12/09/governo-federal-homenageia-serra-pela-compra-de-armas-em-bizancio/

Telefônica de Espanha usa Inquisição para calar blogueiro - por Paulo Henrique Amorim

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=24164

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Israel, o muro da vergonha - por Ellen Cantarow, Tom Dispatch (link site do Azenha)

Ouve-se muito sobre a violência no conflito Israel-Palestina, mas raramente se ouve contar a história da determinada e longa resistência não-violenta, presente e muito importante, de muitas vilas palestinas, contra o roubo de suas terras. O que aqui escrevo é meu depoimento sobre o que vi numa dessas vilas na Cisjordânia.

Nunca, desde que começou a ocupação da Cisjordânia por Israel em 1967, o roubo de terras palestinas e o impedimento do acesso às fontes de água pareceram mais chocantes do que depois de terras e água passarem a serem usados exclusivamente para construir “o muro” – construção iniciada em 2002. Enorme, complexo, de várias caras e formatos, o muro é construção dramática, de quase oito metros de altura, com torres de vigilância ocupadas por soldados, com cercas eletrificadas instaladas na parte superior, e que se estende por enormes distâncias.

Em 2004, a Corte Internacional de Justiça (ICJ) declarou “ilegal” o muro; Israel ignorou completamente a sentença. Hoje, o muro ondula por mais de 280 km na Cisjordânia, envolvendo todas as principais colônias e várias colônias menores, todas exclusivas para judeus (e que são colônias, não são ‘assentamentos’). Quando estiver todo construído, o muro terá cercado 85% da população de colonos judeus da Cisjordânia – processo de anexação de facto de fatias significativas de território ocupado pela primeira vez em 1967. Aí está o sonho da “Grande Israel” sionista, rapidamente convertido em arquitetura e pedra. Do ponto de vista dos palestinos, o muro é como um monumento ao roubo de terras e água.

Jayyous, com população de 3.500 habitantes, é uma das vilas palestinas cujo acesso à água é impedido pelo muro israelense, inserida no nordeste montanhoso da Cisjordânia, com a cidade palestina de Qalqilya a oeste. O cenário é dos mais belos do Mediterrâneo, espécie de mistura, digamos, da Toscana e de partes da Iugoslávia, com inúmeros sítios arqueológicos e ruínas romanas. E é uma das regiões mais férteis da Cisjordânia. Ali sempre cresceram nogueiras, laranjeiras, limoeiros e oliveiras, além de hortaliças – sempre em torno de Jayyous e suas muitas fontes de água subterrânea e poços. Os aqüíferos da região de Jayyous e Qalqilya, de fato, são um dos principais tesouros da Cisjordânia. As terras que pertencem à vila de Jayyous e à cidade de Qalqilya são lindeiras da fronteira israelense de antes de 1967, a chamada “Linha Verde ?.

Antes de haver o muro, os mercadores de Qalqilya mantinham comércio regular com os israelenses dos dois lados da fronteira; e os agricultores de Jayyous trabalhavam suas terras ao longo de toda a Linha Verde. Hoje, o monstruoso muro de concreto cerca Qalqilya completamente, fazendo lembrar os campos de prisioneiros e os ghettos de outros tempos. Jayyous vive segregada de suas terras férteis pelo muro, na modalidade que se pode classificar de “barreira” – um sistema de cercas de ferro, arame farpado e patrulhas militares, usuárias exclusivas das estradas exclusivas para judeus e controladas por soldados israelenses.

4.000 pés de oliveiras e limoeiros foram arrancados, ali, para dar lugar ao muro. Todos os poços da vila e 75% da terra estão hoje confiscados por trás do muro, isolados no lado oeste – o lado ‘israelense’ – do muro. Uma pequena colônia exclusiva para judeus, chamada Zufim, está instalada no coração do que, antes, foi a riqueza dos habitantes de Jayyous. Israel tem planejada a construção de 1.500 novas moradias nessas terras confiscadas da vila. As novas unidades destruirão a única estrada pela qual os agricultores de Jayyous ainda podem entrar e sair de suas terras; antes, havia seis estradas. Israel já bloqueou cinco. Os novos prédios bloquearão a última.
Sharif Omar Khalid, mais conhecido na região como Abu Azzam, 65 anos, lutou durante toda a vida para preservar as terras de Jayyous. Em 1980, com outros agricultores representantes de vilas na Cisjordânia, fundou o Comitê de Defesa da Terra [ing. Land Defense Committee], uma das 18 organizações que hoje conduzem a campanha “Parem o Muro” [ing. Stop the Wall]. Dotado de inabalável otimismo, Khalid contabiliza como vitória uma decisão da Suprema Corte israelense, de abril de 2006, que obrigou os israelenses a deslocar o muro, afastando-o dos limites sul da vila. A decisão devolveu aos proprietários palestinos 11% da terra de Jayyous – 750 dunams [1 dunam = 1.000 m2] dos 8.600 que o muro confiscou.

O muro lá permanece, e também permanece um dos componentes essenciais do muro: a “passagem agrícola”. Há duas nas terras de Jayyous – uma para o norte; outra para o sul. Praticamente todos os agricultores da vila são obrigados a usar a passagem norte. Mantida aberta por dois períodos de 45 minutos (um pela manhã, outro no final da tarde), a passagem é, de fato, um bloqueio controlado por soldados israelenses que leva a uma estrada também controlada por soldados israelenses.

Mas para usar a passagem, transitar pela estrada controlada por soldados e ir dali às suas terras, os agricultores de Jayyous tem de exibir uma “autorização para ‘visitantes’”. Desde 2003, Israel decretou que os agricultores são meros ‘visitantes’ nas terras nas quais vivem e plantam há gerações. Obter essas autorizações é processo praticamente sem fim, que começa pela comprovação da propriedade da terra. Abu Azzam é um dos maiores proprietários de terra da vila; seu título de propriedade é antigo, de várias gerações, do tempo em que a Jordânia ocupou a Cisjordânia. Conhecido ativista contra o muro, várias vezes a autorização de passagem lhe foi negada; até que a Suprema Corte de Israel garantiu-lhe um passe permanente, no qual se registra que o portador não representa “ameaça à segurança de Israel”. Mas o passe ‘permanente’ tem criado problemas extra a Abu Azzam, na odisseia diária para entrar e sair de suas terras.

O Portão do Inferno

Vi uma “passagem agrícola”, pela primeira vez, em 2004, nos limites da vila de Mas’ha, no norte da Palestina. Terrível. Imensas garras de aço, pintadas de amarelo-ocre, que rangiam ao abrir, por especial obséquio das forças israelenses de ocupação; permaneciam abertas por cerca de 30 minutos, de madrugada e no início da noite. Entre uma abertura e outra, as garras permaneciam cerradas, e ninguém passava, nem para um lado nem para o outro; quem estivesse fora de casa, lá tinha de ficar por todo um dia ou uma noite; alguém que precisasse sair de casa para atender a alguma emergência, lá era detido, por um dia ou uma noite; e os campos ficavam sem irrigar (a irrigação é feita depois do por do sol), se o agricultor não chegasse a tempo de encontrar abertas aquelas garras rangentes.

Cada vez que o portão de Mas’ha era aberto, um agricultor solitário, Hani Amer – cujas terras ficaram cercadas pelo muro por três lados – conseguia visitar uma parte de seus campos. Dos dois lados do portão havia rolos de arame farpado e um fosso, ambos paralelos, contínuos, a perder de vista. Depois do fosso, mais arame farpado. E, depois, uma “estrada militar”, exclusiva para veículos militares que patrulhavam as fronteiras de um ‘mundo árabe’ do qual se supunha que viria o apocalipse sobre a “Grande Israel”.

Depois da estrada militar, mais arame farpado e outro fosso, antes que Hani Amer pudesse, afinal, chegar aos seus campos.

Mas, para saber o que realmente significa a ‘passagem agrícola’, é preciso passar pelo menos uma noite inteira, como eu passei, com um agricultor de Jayyous, em tempos de colheita. Acordamos – ele, sua esposa e eu – às 5h30 da manhã, tomamos um copo do forte café árabe, comemos pão com geleia de frutas do pequeno pomar que restava junto à casa, e saímos, montados no pequeno trator branco, enferrujado, sacolejando pela estrada de pedras. Depois, claro, paramos numa longa fila de outros agricultores, junto ao portão.

Vejam hoje, então, no nascer de mais um dia do 42º ano de ocupação israelense, em frente àquele monstro de aço amarelo, como cenário de filme de terror, que eles continuam a chegar, como sempre: um vem de trator; outro, em lombo de burro, carregado de instrumentos de colheita e sacos; vão chegando e a fila vai crescendo. Os rolos de arame farpado lá estão, como sempre; e há os fossos e há a estrada militar, e, assim, lá continuam os mesmos muros que aprisionam, há tanto tempo, o povo palestino. Vejam os soldados que andam lentamente e destravam lentamente os portões, acintosamente sem pressa; as garras se abrem e imediatamente são substituídas por soldados pesadamente armados que convertem a abertura em ponto inexpugnável de controle; e, mesmo isso, só por alguns momentos, a cada manhã e a cada fim de tarde.

Enquanto esperava, olhando em volta do trator de Abu Azzam, em outubro passado, lembrei de como era a colina do outro lado da estrada, há algumas décadas, quando eu trabalhava como correspondente na Cisjordânia. Toda a região era percorrida pela linha branca das muretas de pedra que demarcavam os terraços onde, há séculos, cresciam oliveiras, cujas folhas soavam como sininhos ao vento, e a folhagem verde-escura das vinhas e dos pomares. A expansão da ‘Grande Israel’ e seu estilo Califórnia-de-ser-e-viver, eram então, no máximo, itens do sonho sionista. Hoje, estão em toda a Cisjordânia, sonho nenhum, dura realidade; claro que não havia muro, nem ‘estrada militar’ nem, é claro, “passagem agrícola”.

Hoje, lá estão, os agricultores e seu burro, seu trator, seus apetrechos de trabalho, e aproximam-se das garras amarelas do monstro. E passam por elas. E um a um passam pelo arame farpado e pelo fosso e entram na estrada militar; então param o trator ou o burro, desmontam e apresentam documentos a um impassível soldado israelense. O soldado, cuja retaguarda é protegida por outros dois soldados, vira-se e grita para outro soldado invisível dentro de uma torre de controle, em hebraico, todos os números e nomes que haja no documento que tem em mãos. Pensem no que há de estoicismo e coragem naqueles agricultores que aceitam o ritual que Israel impõe, porque sabem que, por hora, não há alternativa. E não esqueçam de pensar que aqueles homens e mulheres passam por tudo aquilo exclusivamente para poder fazer uma coisa: colher suas olivas plantadas por eles em terra sua.

Antes disso, cada um tem de parar na estrada, cabeça baixa ou olhos arregalados, à espera de que seu destino seja decidido, por aquele dia; então, se a passagem é permitida, passa-se. E há mais arame farpado e outro fosso, até que – finalmente – chega-se a alguma coisa que bem poderia ser liberdade, mas não é. O agricultor pode, afinal, subir a colina com seu trator ou seu burro. E pode então começar a trabalhar na colheita das próprias olivas, nas próprias oliveiras, plantadas em sua própria terra; para chegar até ali, muitas vezes, o agricultor palestino já perdeu várias horas de trabalho. E esse tormento é diário.

Ao mesmo tempo, considere os colonos israelenses e os soldados israelenses, cuja única regra, na obsessão de tudo controlar e de não deixar passe livre a nenhum agricultor palestino, converte em pesadelo a milenar faina de colher olivas. Colonos da colônia israelense de Zufim já destruíam plantações de oliveiras em Jayyous em 2004. (Algumas árvores foram queimadas; outras foram arrancadas para ser vendidas em Israel; e o esgoto da colônia envenenou e matou outras inúmeras oliveiras naquela área.)

Uma semana depois de minha visita, segundo o jornal Haaretz, colonos judeus outra vez “entraram em confronto com palestinos que colhiam olivas na Cisjordânia”. Os colonos judeus atacaram os agricultores palestinos porque “os palestinos ali reunidos ameaçam a segurança da colônia e as covas de onde oliveiras foram arrancadas podem servir de esconderijo para terroristas.”

Em outro ponto da mesma região, as forças de segurança de Israel acompanharam grupos de colonos judeus que invadiram uma vila palestina para promover “pequena manifestação” contra a colheita das olivas. (O exército de Israel é hoje dominado em todos os escalões, dos mais altos aos mais baixos, por colonos expansionistas ultra-religiosos, para os quais “todo colono é soldado e todo soldado é colono”.) E também há notícias de que em outro ‘posto avançado’ (nome que Israel dá às primeiras instalações de novas colônias), denominado Adi Ad, colonos judeus fundamentalistas arrancaram “dúzias de oliveiras”. Agora, enquanto escrevo, continuam a chegar mensagens e e-mail que testemunham inúmeras outras ações semelhantes a essas.

Várias vezes, desde outubro, o exército de Israel impôs toques de recolher na vila de Jayyous – punição coletiva por demonstrações semanais contra o muro promovidas pelos moradores mais jovens da vila. Na maior parte dos casos, o toque de recolher foi imposto depois de os agricultores já estarem nos olivais e não chegou a impedir a colheita diária. Mas os demais habitantes de Jayyous foram punidos. Punição coletiva – represália contra todos, por ações de alguns – é considerada crime de guerra, nos termos da Convenção de Genebra de 1949.

Não parar!

“Israel é um Estado que enlouqueceu”, observou Raja Shehadeh, advogado e escritor palestino, quando, um dia depois de visitar Jayyous, narrei-lhe a cena a que assistira na ‘passagem agrícola’. Aquela específica barreira de aço e garras, aqueles específicos agricultores, aqueles específicos soldados israelenses convertidos em instrumentos vivos da banalização do mal – tudo isso faz pensar em alguma específica modalidade de loucura tão simplória quanto brutal, de que ainda se alimenta a “Grande Israel”. Documentarista holandesa que entrevistou alguns colonos judeus na Cisjordânia relata um eloquente fragmento de diálogo: “Qual é seu sonho?” – perguntou ela a um dos colonos judeus. “Meu sonho”, respondeu ele, “é que meus netos digam, algum dia, olhando essa terra: aqui, antigamente, viveram árabes.”

Na véspera da manhã em que todos saímos em direção ao muro e à passagem, Abu Azzam levou um visitante alemão para conhecer a prensa local na qual diariamente ele e outros agricultores descarregam a colheita diária de olivas. A visão das olivas de Jayyous andando por uma esteira em direção à prensa, para emergir numa torrente de garrafões de plástico cheios de azeite foi visão de alegria e sucesso. Crianças corriam e riam pelo pátio de piso escorregadio, comendo pedacinhos de pão molhados no azeite dourado, recém-prensado. Que tipo de loucura humana pensaria em infligir tormento eterno àquele tipo de comunidade tradicional de trabalho pacífico?

Depois, Abu Azzam contou-me sobre seus anos de ativista político, o casamento, os filhos. Preso pelos jordanianos por pertencer ao Partido Comunista, e depois por Israel por sua luta para defender os olivais de sua vila, diz que sua ideia fixa é prosseguir. “A verdade é que não temos escolha” – diz ele, com um sorriso e um dar de ombros.

Lembra de quando, em outubro de 2003, o muro ainda em construção, funcionários israelenses tentaram subornar os ativistas de Jayyous, oferecendo-lhes 650 autorizações que dariam passe livre a vários agricultores para chegar às suas terras. Mas o “Comitê de Defesa da Terra” decidiu “em decisão conjunta” não usar os passes. Aceitá-los seria reconhecer o muro e todo o sistema de sequestro e roubo de propriedade que o muro implica. Os soldados israelenses, então, mantiveram fechado o portão; isso, no auge da colheita de olivas, goiabas e mexericas. Abu Azzam e outros agricultores palestinos abriram brechas nas cercas e conseguiram chegar aos pomares, mas “sem um trator, sem uma mula, sem carrinhos, sem tudo. Só nossos braços e pernas e cabeças.”

Em seguida, mais prisões. Os agricultores decidiram acampar nos pomares e não voltar às casas na vila. “Minha mulher ficou furiosa” – lembra Abu Azzam. “Telefonou-me, dia 21 de outubro, perguntando “Estamos divorciados? Você abandonou a família?” e eu respondi “Estou resistindo”. E ela: “Resistindo? Enquanto as goiabas, os pepinos, os tomates apodrecem no pé?” Respondi: “Estamos na nossa terra. Só isso já é resistência.”

Desde 2003 Abu Azzam e outro agricultores de Jayyous continuam obcecadamente a resistir em suas terras. A determinação de continuar o cultivo dos 3.250 dunams que restam, dos 8.050 dunams de antes de Israel roubar-lhes a terra, de não afastar-se dali, é, só ela, ato de resistência. Na Palestina, chamam-se “samid” esses que tomaram a decisão de “apenas ficar”. A palavra significa “perseverante” e, também, ‘cabeça-dura’ e “obcecado” – e é tradução eloquente da antiga modalidade de resistência palestina não-violenta.

“Vocês têm tantos problemas”, disse a Abu Azzam. “Não pensam em partir?” Ele sorriu como se tivesse pena de mim. “Toda a nossa vida é um problema. Não quero viver como refugiado. E sou contra a emigração promovida à moda dos israelenses.”

Desde 2008, os mais jovens em Jayyous têm feito manifestações junto ao muro. Um dos líderes – Mohammed Othman – foi preso pelos israelenses no outono passado, quando desembarcou de volta de uma viagem à Noruega onde fez várias palestras. Continua preso, sem qualquer acusação formal e sem saber quando será solto.

Os líderes dos movimentos de jovens de Jayyous também enviaram cartas a altos funcionários dos governos da Noruega e de Dubai, pedindo que as empresas desses países deixem de investir nas empresas de propriedade do bilionário descendentes de emigrantes do Uzbequistão e nascido em Israel Lev Leviev. Com isso, Jayyous une-se a ampla campanha internacional contra empresas que negociem com as companhias de Leviev. É enorme conglomerado, muito diversificado, que inclui minas de diamantes em Angola, propriedades imobiliárias em Nova York e empresas construtoras que constroem colônias nos Territórios Palestinos Ocupados (inclusive em Zufim). Em março passado, Barak Ravid, repórter do jornal israelense Haaretz, noticiou que a embaixada britânica em Telavive “suspendera negociações para alugar um andar na Torre Kyria, empreendimento imobiliário africano-israelense, porque havia informações seguras de que a empresa construtora [de Leviev] estava envolvida na construção de colônias exclusivas para judeus.” Também a Oxfam rompeu inúmeros contratos, sempre pela mesma razão.

Dia 9/9/2009, um mês antes de minha chegada, a Suprema Corte Israelense outra vez aprovara pedido para alterar o traçado do muro, com a correspondente devolução de mais 2.448 dunams aos proprietários originais, de Jayyous. “Resultado de sua luta?” – perguntei a Azzam. “Resultado da luta de Jayyous,” ele respondeu. “Somos um grupo da resistência palestina.”

Para ver o muro, invisível na mídia ocidental, clique aqui.

Marginal Tietê: o erro anunciado - Carta das entidades envolvidas na luta contra a Ampliação da Marginal.

Esse texto é uma breve explicação sobre a tentativa de impedir que bilhões de reais dos cofres públicos fossem gastos com mais uma obra viária de eficiência e benefícios questionáveis, sem discussão popular. Possivelmente, conterá informações que jamais chegariam maciçamente à sociedade através da grande mídia.
Em meados do ano de 2008, surgiram as primeiras informações, ainda não oficiais, sobre um projeto de ampliação da quantidade de pistas na Marginal do Rio Tietê.
Como se sabe, a Marginal do Tietê é uma das mais importantes vias que integra a imensa malha rodoviária do país, não apenas porque é acesso para o abastecimento da cidade de São Paulo, a maior do país, mas, ainda, porque é passagem obrigatória para cargas provenientes ou destinadas aos maiores e mais importantes portos do Brasil.
Além disso, a Marginal poderia ser lembrada pelas enchentes que ocorriam com mais freqüência na década passada, e que originavam uma situação caótica, seja pela impossibilidade de tráfego na região, seja pelo desalojamento e morte de famílias que viviam em situação de risco.
Nada, porém, pode ser mais representativo desta imensa estrada urbana que a lentidão no tráfego, decorrente dos quilômetros de congestionamento diário, que tornam sacrificante a necessidade – inafastável para alguns – de circular por suas vias.
Diante dessa realidade, a Marginal do Tietê passa a ser emblemática para a compreensão de qual destino está sendo firmado à nossa cidade: se rumamos à tentativa de reverter equívocos urbanos e ambientais ou insistimos num modelo de conflito entre equilíbrio ambiental e vivência urbana.
Por essa razão, as intervenções urbanas propostas para a região do Rio Tietê não podem ser consideradas apenas sobre um enfoque: não apenas para solução dos problemas viários de imobilidade, nem, tampouco, para agasalhar propostas ambientalistas radicais de apartá-lo do acesso humano.
Assim, ao tomar conhecimento do projeto de ampliação das Marginais, a sociedade civil organizada, especialmente arquitetos, urbanistas, engenheiros, geógrafos, ambientalistas e lideranças de movimentos sociais atuantes em diversas áreas, passaram a dialogar sobre os impactos do projeto e sua eficiência.
Foram meses de estudos sobre o projeto, denúncias – e comprovações – de falhas no processo de licitação, até que foi iniciado o licenciamento ambiental (tudo isso em tempo recorde, como houvesse pressa para a entrega da obra).
O Estudo de Impacto Ambiental é precário na análise dos impactos ambientais e medíocre quanto aos impactos urbanístico-sociais. Não considerou seriamente o respeito ao patrimônio cultural, subestimou os danos ambientais diretos e os impactos nas áreas de influencia e dissimulou a realidade sobre a impermeabilização do solo na região (valendo-se de valores e parâmetros incompatíveis).
Pior ainda: o Estudo de Impacto Ambiental previu textualmente a desnecessidade de desapropriações para atividades comerciais ou habitacionais, em postura repulsiva e desidiosa com as centenas de famílias cuja remoção foi anunciada amplamente, até pelo Governo do Estado, além de atividades comerciais e esportivas como clubes que serão “rasgados”para a passagem das novas faixas.
Sobre esse tema, cabe um reforço: embora o estudo de impacto ambiental tenha previsto que não haveria desapropriações, o valor para tais iniciativas ultrapassou R$ 40 milhões. Não haveria, pois, alguma falha?!
Apesar das falhas ora apontadas – e tantas outras constantes de parecer elaborado pela Associação dos Geógrafos do Brasil – o procedimento de licenciamento ambiental foi concluído favoravelmente à realização do empreendimento.
Para tanto, foram exigidas compensações ambientais de altíssimo custo – aos bolsos dos contribuintes, claro -, o plantio de centenas de milhares de árvores a construção de uma ciclovia – não urbana, mas em um parque próximo -, entre outras exigências e recomendações que, conforme se verá adiante, não bastarão para esconder a nocividade do empreendimento.
Incoerentemente, é a compensação ambiental, com a criação de um parque, que vai acarretar a maior parte de desapropriação de famílias, e a construção de ciclovias que vai acarretar a supressão de milhares de árvores.
Essas “compensações” – que, efetivamente, nada compensam – fizeram com que o valor do empreendimento dilatasse exponencialmente. Eram R$ 850 milhões, passaram a ser R$ 1,3 bilhões e, até ultimas informações, nós, cidadãos do Estado de São Paulo, devemos assistir a R$ 1, 86 bilhões se esvaindo para custar uma obra de eficiência duvidosa – no mínimo.
Tudo isso aconteceu sorrateiramente, como fosse a população destinatária passiva deste ou qualquer empreendimento. Aconteceu de maneira obscura, sem publicidade prévia, sem convocação expressiva e, portanto, sem legitimidade.
Foram todos surpreendidos – apenas os que circulam pela região – com tratores nos canteiros e árvores históricas, robustas e vivas resumidas a raízes sem vida.
Diante dessa absurdez, aqueles mesmos cidadãos que buscavam dialogar, realizaram atos públicos in loco, manifestando através de faixas, cartazes e vozes a barbaridade anunciada.
Em resposta, o Governo do Estado de São Paulo, avesso ao diálogo, passou a investir vultosamente em propagandas que tinham sempre uma mesma finalidade: convencer os desinformados sobre a eficiência, sustentabilidade e necessidade das obras.
Foram milhões de reais aplicados na elaboração de campanhas publicitárias, criação de página na internet e todos os meios disponíveis para maquiar um empreendimento impróprio.
Desde sempre buscou o Governo desqualificar aqueles que se opunham à obra. Por vezes associando-os a Partidos Políticos, por outras questionando sua capacidade técnica.
Não restava outra alternativa, pois, senão a propositura de uma Ação Judicial para tentar suspender o empreendimento, pelo menos até que as dúvidas sobre riscos e benefícios fossem sanadas. E foi o que aconteceu.
No final do mês de julho de 2009, os representantes das entidades ingressaram com a Ação Civil Pública e aguardavam a decisão sobre o pedido de liminar, para suspender as obras. Infelizmente, apenas semanas depois houve a decisão que denegou o pedido, sob o argumento de que a Justiça não pode intervir nos atos do Poder Executivo – ainda que abusivos.
O Ministério Público foi chamado a se manifestar – conforme determina a legislação – e, em petição sintética e concisa, opinou favoravelmente à concessão da liminar, essencialmente fundado no principio da precaução, já acenou para que houvesse certeza sobre os riscos do projeto e suas eventuais remediações.
Além disso, a juíza responsável, em aparente desconhecimento do conteúdo do processo, fundou-se na ausência de documento que indicasse a insuficiência do Estudo de Impacto Ambiental (não nos esqueçamos que havia um Parecer da Associação dos Geógrafos Brasileiros juntada no mesmo dia)!
Foi, certamente, uma decisão infeliz e – preferimos acreditar – ressentida de conhecimento aprofundado sobre o processo, que já contava com 9 volumes e milhares de folhas.
Dos diversos predicados que foram atribuídos aos representantes das entidades que lutavam voluntariamente por essa causa, ressaltam-se os de fanáticos, malucos, oportunistas, desocupados e conspiradores.
Mesmo a Promotora de Justiça Maria Amélia Nardy Pereira, que apenas cumpria função atribuída por lei, foi alvo de grosserias, que tiveram seu ponto mais baixo com a acusação de ser oportunista, contida em texto do “jornalista” Reinado Azevedo, cujo título levava o nome “Veja bem, Maria Amélia,” em referência à Promotora.
Desamparados pelo Judiciário e com poucas possibilidades de concorrer com a truculenta publicidade da obra, só cabia aos representantes das entidades aguardar para que a tragédia anunciada se concretizasse. E, creia-se – pensávamos ter de esperar mais tempo.
Nos primeiros dias do mês de setembro, uma chuva incomum para o período (mas não para o verão), causou estragos em toda a cidade e região metropolitana, inclusive com a morte de pessoas. O Rio Tietê transbordou, as vias – sem drenagem – encheram de água, e a cidade parou. A resposta explicativa das nossas autoridades veio: culpa da natureza!
Por fim, o último sinal de que o lunatismo tinha um receio fundado: ontem, dia 08 de dezembro de 2009, o Rio Tietê transbordou – pela segunda vez em 3 meses – e, mesmo onde não houve transbordamento, o acúmulo de água resultante da impermeabilização das pistas, redundou no alagamento das faixas e sua interdição!
Diante de todos os fatos, é de se notar que se opor a mais essa obra viária bilionária não é uma questão de fanatismo ambiental ou de oportunismo partidário. Não se limita a discutir se a melhor opção é essa obra ou outra, se vamos plantar mais ou menos árvores, se outra obra de canalização ou aprofundamento de calha deveria ser feita, mas sim o rumo que a cidade toma.
O que buscamos, sobretudo, é difundir o questionamento sobre nosso modelo de cidade já saturada, na qual as discussões mais importantes estão em torno do trânsito caótico – como se todas as outras dificuldades que nos assombram fossem secundárias (saúde, educação, varrição de ruas, corrupção, moradia etc.).
Cada vez que aceitamos calados investimentos públicos em sentido diferente do que precisa nossa cidade, a cada enchente, cada desmoronamento, cada via obstruída e, principalmente, todo o trânsito que engessa a cidade, tem efeitos muito sérios, inclusive do ponto de vista econômico.
Quanto custa uma mercadoria parada? Quanto custa um caminhão entravado? E as casas completamente destruídas pelas águas!? Quanto custa todo o estoque de um dia no CEAGESP[1]? Quanto custa a vida de um filho? E a vida de quatro filhos soterrados no barraco situado em área de risco – e que cuja remoção foi negligenciada pelo Poder Público?
Nossa proposta é que esse debate sobre o rumo da nossa cidade esteja constantemente nos meios de comunicação, nas escolas, nas rodas de conversa. Para tanto, estamos à disposição, inclusive para debater com nossos governantes quais as prioridades para que nossa cidade seja cada vez mais saudável – e cada vez mais nossa.
[1] Em razão da chuva no dia 08/11/09, toneladas de frutas e legumes foram desperdiçados pela enxurrada que invadiu as dependências do CEAGESP.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Zéserra garante emprego de Arruda e o lança candidato a seu vice - por Bye, bye, Serra

http://byebyeserra.wordpress.com/2009/11/28/zeserra-garante-emprego-de-arruda-e-o-lanca-candidato-a-seu-vice/

O Jornalismo irresponsável - por Luis Nassif

Watergate tinha dois repórteres espertos – Bob Woodward e Carl Bernstein – e um editor memorável – Ben Bradlee – que filtrava todas as informações e só permitia a publicação daquelas confirmadas por pelo menos três fontes. Até hoje Bradlee é um dos símbolos do bom jornalismo e exemplo para jornalistas de todas as partes do mundo. O caso Watergate foi citado pelo comentarista Ronaldo Bicalho e ressalta a importância da apuração jornalística.

O escândalo divulgado pela Folha na sexta-feira – um artigo de um dissidente do PT, César Benjamin – acusando Lula de ter currado um militante do MEP no período em que esteve preso no DOPS, é um dos mais deploráveis episódios da história da imprensa brasileira. E mostra a falta que fazem pessoas da envergadura de Bradlee.

***

Qualquer acusação, contra qualquer pessoa, exige discernimento, apuração. Quando o jornal publica uma acusação está avalizando-a.

Quando a acusação é gravíssima e atinge o Presidente da República – seja ele Sarney, Itamar, FHC ou Lula – o cuidado deve ser triplicado, porque aí não se trata apenas da pessoa, mas da instituição. Qualquer acusação grave contra um Presidente repercute internacionalmente, afeta a imagem do país como um todo. Se for verdadeira, pau na máquina. Se for falsa, não há o que conserte os estragos produzidos pela falsificação.

***

A acusação é inverossímil.

Na sexta conversei com o delegado Armando Panichi Filho, um dos dois incumbidos de vigiar Lula na cadeia. Ele foi taxativo: não só não aconteceu como seria impossível que tivesse acontecido.

Lula estava na cela com duas ou três presos. A cela ficava em um corredor, com as demais celas. O que acontecesse em uma era facilmente percebida nas outras.

Havia plantão de carcereiros 24 horas por dia. E jornalistas acompanhando diariamente a prisão.

Não havia condições de nenhum fato estranho ter passado despercebido. Panichi jamais ouviu algo dos carcereiros, dos presos, dos jornalistas e do delegado Romeu Tuma, seu chefe.

***

Benjamin não diz que Lula cometeu o ato. Diz que ouviu o relato de Lula em 1994, em um encontro que manteve em Brasília com um marqueteiro americano, contratado pela campanha, mais o publicitário Paulo de Tarso Santos e outras testemunhas.

Conversei com Paulo de Tarso – que já fez campanha para FHC, Lula – que lembra do episódio do americano mas nega que qualquer assunto semelhante tivesse sido ventilado, mesmo a título de piada. E nem se recorda da presença de Benjamin no almoço.

***

E aí se chega à questão central: com tais dados, jamais Ben Bradlee teria permitido que semelhante acusação saísse no Washington Post.

Antes disso, colocaria repórteres para ouvir as tais testemunhas, checaria as informações com outras fontes, conversaria com testemunhas da prisão de Lula na época. Praticaria, enfim, o exercício do jornalismo com responsabilidade.

A Folha não seguiu cuidados comezinhos de bom jornalismo. Não apenas ela perde com o episódio, mas o jornalismo como um todo.

É importante que leitores entendam: isso não é jornalismo. É uma modalidade especial de deturpação da notícia que os verdadeiros jornalistas não endossam.

Serra é chegado em um rabo de palha - por Bye, Bye, Serra

http://byebyeserra.wordpress.com/2009/09/28/serra-e-chegado-em-um-rabo-de-palha/

O desespero da Folha é pior do que a mente de Benjamim - por Renato Rovai (blog do Rovai)

Cesar Benjamim é uma mente doentia. Alguém que inventa histórias e constrói tramas para desqualificar aqueles com os quais por muitas vezes teve longo relacionamento.

Para quem não se lembra, esse é o sujeito que “denunciou” Emir Sader quando a editora dele não foi escolhida para fazer um trabalho que o sociólogo coordenava.

Era amigo de Sader por muito tempo, mas como seus interesses comerciais não foram atingidos, decidiu acusá-lo publicamente de corrupto.

Este Cesar Benjamim também é o mesmo que trabalhou no programa de governo de Garotinho quando imaginava que aquele poderia ser o candidato do PMDB à presidência da República.

Era um dos “cérebros” do ex-governador na construção de um programa nacionalista.

Mas como a candidatura do ex-governador não emplacou pelo PMDB, este mesmo Cesar Benjamim se filiou ao PSol e saiu candidato à vice-presidência da República na chapa de Heloísa Helena.

Provavelmente porque passou a achar que Garotinho não era mais o caminho a verdade e a vida. Mas sim HH.

Não foi só do PT, partido ao qual foi filiado, que saiu atirando. Também tretou com Garotinho e com o PSol. Benjamim não é só craque em produzir inimigos. É especialista em delação pública sem provas.

Se alguém com um currículo desses procurasse seu jornal para denunciar o presidente da República de ter tentado enrabar (vamos usar o português claro) um jovem nos dias em que era preso político, o que você faria? Publicaria o artigo?

E se essa mente doentia ainda citasse nominalmente uma única pessoa como testemunha, o que você faria? Não ouviria a testemunha e publicaria o artigo?

Cesar Benjamim é uma pessoa sem caráter, um psicopata da política. Pessoas assim existem. E vivem buscando jornais para acusar seus adversários. Jornais, em geral, as ignoram.

Por isso, neste episódio, o que mais me assusta é ver a Folha valer-se de uma mente insana para tentar atingir a reputação de alguém a quem se contrapõe politicamente.

Se a direção deste jornal considera isso válido para atingir seus objetivos, por que não sustentaria um golpe para derrotar esses mesmos adversários políticos?

A iminente derrota da oposição em 2010 e a falta de perspectiva política desse grupo nos próximos anos estão levando a uma radicalização midiática que não é só nojenta. É preocupante.

É bom os partidos da base do governo ficarem atentos a isso.

Roubanel: Sarkozy avisou Serra sobre risco de desabamento - por Bye, bye, Serra

http://byebyeserra.wordpress.com/2009/11/21/rouboanel-sarkozy-avisou-serra-sobre-risco-de-desabamento/

Uma despedida para FHC - por Leandro Fortes (Brasília, Eu Vi)

Fernando Henrique Cardoso foi um presidente da República limítrofe, transformado, quase sem luta, em uma marionete das elites mais violentas e atrasadas do país. Era uma vistosa autoridade entronizada no Palácio do Planalto, cheia de diplomas e títulos honoris causa, mas condenada a ser puxada nos arreios por Antonio Carlos Magalhães e aquela sua entourage sinistra, cruel e sorridente, colocada, bem colocada, nas engrenagens do Estado. Eleito nas asas do Plano Real – idealizado, elaborado e colocado em prática pelo presidente Itamar Franco –, FHC notabilizou-se, no fim das contas, por ter sido co-partícipe do desmonte aleatório e irrecuperável desse mesmo Estado brasileiro, ao qual tratou com desprezo intelectual, para não dizer vilania, a julgá-lo um empecilho aos planos da Nova Ordem, expedida pelos americanos, os patrões de sempre.Em nome de uma política nebulosa emanada do chamado Consenso de Washington, mas genericamente classificada, simplesmente, de “privatização”, Fernando Henrique promoveu uma ocupação privada no Estado, a tirar do estômago do doente o alimento que ainda lhe restava, em nome de uma eficiência a ser distribuída em enormes lucros, aos quais, por motivos óbvios, o eleitor nunca tem acesso.
Das eleições de 1994 surgiu esse esboço de FHC que ainda vemos no noticiário, um antípoda do mítico “príncipe dos sociólogos” brotado de um ninho de oposição que prometia, para o futuro do Brasil, a voz de um homem formado na adversidade do AI-5 e de outras coturnadas de então. Sobrou-nos, porém, o homem que escolheu o PFL na hora de governar, sigla a quem recorreu, no velho estilo de república de bananas, para controlar a agenda do Congresso Nacional, ora com ACM, no Senado, ora com Luís Eduardo Magalhães, o filho do coronel, na Câmara dos Deputados. Dessa tristeza política resultou um processo de reeleição açodado e oportunista, gerido na bacia das almas dos votos comprados e sustentado numa fraude cambial que resultou na falência do País e no retorno humilhante ao patíbulo do FMI.
Isso tudo já seria um legado e tanto, mas FHC ainda nos fez o favor de, antes de ir embora, designar Gilmar Mendes para o Supremo Tribunal Federal, o que, nas atuais circunstâncias, dispensa qualquer comentário.
Em 1994, rodei uns bons rincões do Brasil atrás do candidato Fernando Henrique, como repórter do Jornal do Brasil. Lembro de ver FHC inaugurando uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la. Numa tarde sufocante, durante uma visita ao sertão pernambucano, ouvi FHC contar a uma platéia de camponeses, que, por causa da ditadura militar, havia sido expulso da USP e, assim, perdido a cátedra. Falou isso para um grupo de agricultores pobres, ignorantes e estupefatos, empurrados pelas lideranças pefelistas locais a um galpão a servir de tribuna ao grande sociólogo do Plano Real. Uns riram, outros se entreolharam, eu gargalhei: “perder a cátedra”, naquele momento, diante daquela gente simples, soou como uma espécie de abuso sexual recorrente nas cadeias brasileiras. Mas FHC não falava para aquela gente, mas para quem se supunha dono dela.
Hoje, FHC virou uma espécie de ressentido profissional, a destilar o fel da inveja que tem do presidente Lula, já sem nenhum pudor, em entrevistas e artigos de jornal, justamente onde ainda encontra gente disposta a lhe dar espaço e ouvidos. Como em 1998, às vésperas da reeleição, quando foi flagrado em um grampo ilegal feito nos telefones do BNDES. Empavonado, comentava, em tom de galhofa, com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, das Comunicações, da subserviência da mídia que o apoiava acriticamente, em meio a turbilhão de escândalos que se ensaiava durante as privatizações de então:
Mendonça de Barros – A imprensa está muito favorável com editoriais.
FHC – Está demais, né? Estão exagerando, até!
A mesma mídia, capitaneada por um colunismo de viúvas, continua favorável a FHC. Exagerando, até. A diferença é que essa mesma mídia – e, em certos casos, os mesmos colunistas – não tem mais relevância alguma.
Resta-nos este enredo de ópera-bufa no qual, no fim do último ato, o príncipe caído reconhece a existência do filho bastardo, 18 anos depois de tê-lo mandado ao desterro, no bucho da mãe, com a ajuda e a cumplicidade de uma emissora de tevê concessionária do Estado – de quem, portanto, passou dois mandatos presidenciais como refém e serviçal.
Agora, às portas do esquecimento, escondido no quarto dos fundos pelos tucanos, como um parente esclerosado de quem a família passou do orgulho à vergonha, FHC decidiu recorrer à maconha.
A meu ver, um pouco tarde demais.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Brasil dá de ombro nos EUA no palco diplomático - (Brazil’s President Elbows U.S. on the Diplomatic StageBy) - por ALEXEI BARRIONUEVO, no New York Tim

BRASÍLIA —A ambição do Brasil de ser um jogador mais importante no palco diplomático internacional está colidindo de frente com as tentativas dos Estados Unidos e de outros poderes ocidentais de controlar o programa nuclear do Irã.Luiz Inácio Lula da Silva,o presidente do Brasil, vai receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na segunda-feira, em sua primeira visita oficial ao Brasil. A visita é parte de uma estrategia mais ampla do sr. da Silva para participar do aparentemente intratável mundo da política do Oriente Médio, e se segue a visitas nas últimas duas semanas do presidente de Israel, Shimon Peres, e de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina.
Mas a visita recebe críticas de legisladores e ex-diplomatas daqui e dos Estados Unidos, que dizem que poderia enfraquecer as tentativas ocidentais de pressionar o Irã sobre seu programa nuclear e consequentemente esfriar as relações do Brasil com os Estados Unidos e danificar a sua crescente reputação como um poder global.
Autoridades brasileiras dizem que o objetivo da visita é fortalecer relações comerciais entre os dois países e ajudar a trazer paz ao Oriente Médio.
"Isso faz parte do Brasil projetar seu papel e se fortalecer como um jogador global", disse Michael Shifter, vice-presidente do Diálogo Interamericano, um grupo de pesquisa em política de Washington. "E parte disso tem a ver com o Brasil mandando uma mensagem a Washington de que vai negociar com quem quiser negociar".
Além da disputa nuclear, críticos no Brasil e nos Estados Unidos dizem que a recepção do sr. da Silva ao sr. Ahmadinejad legitima o iraniano apenas cinco meses depois do que a maior parte do mundo vê como sua reeleição fraudulenta, seguida pela repressão brutal de dissidentes.
"A visita oficial é um erro grosseiro, um engano terrível", diz o deputado Eliot L. Engel, democrata de Nova York, presidente do Subcomitê do Hemisfério Ocidental da Câmara dos Representantes. "Ele é ilegítimo com seu próprio povo e o Brasil agora vai dar a ele um ar de legitimidade num momento em que o mundo está tentando evitar que o Irã tenha armas nucleares. Não faz sentido e mancha a imagem do Brasil, francamente".Relações entre os Estados Unidos e o Brasil já estão tensas depois que o governo do sr. da Silva criticou os Estados Unidos pela forma como lidou com a crise em Honduras e pela crescente presença militar americana na Colômbia.
Mas a abertura do sr. da Silva para o Irã é consistente com a política de engajamento do presidente Obama e o governo Obama diz estar otimista de que o encontro não vai danificar e poderia até reforçar as tentativas em andamento em Washington e junto a poderes europeus para lidar com o Irã.
"Esperamos que todos nossos amigos e aliados entendam que esse é um momento crítico para o Irã", Ian C. Kelly, porta-voz do Departamento de Estado, disse na quinta-feira. "Esperamos que o Brasil jogue um papel construtivo para fazer com o Irã faça a coisa certa e cumpra suas obrigações internacionais".
Celso Amorim, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, disse que o sr. da Silva estava encorajado por líderes ocidentais, inclusive o presidente Obama, a buscar "diálogo aberto e direto" com o Irã, em particular na questão nuclear.
"Foi dito e reiterado que era do interesse das nações ocidentais que o Brasil tivesse boas relações com o Irã", Amorim disse em uma entrevista.
Autoridades brasileiros disseram que o sr. da Silva tentaria vender ao Irã os benefícios de um programa nuclear do estilo brasileiro, que constitucionalmente é limitado a usos civis.
Mas o sr. Amorim deixou claro que o Brasil não vê seu papel como o de carregador de água para o acordo pelo qual o Irã exportaria a maior parte de seu urânio enriquecido para processamento em combustível nuclear."Não estamos aqui para convencer o Irã a aceitar alguma proposta", ele disse. "O Brasil está interessado na paz".Desde sua eleição em 2002, o sr. da Silva tem buscado cimentar o domínio do Brasil como líder diplomático e econômico da América Latina, usando o poder econômico do Brasil para reforçar sua política externa.
Seu governo também faz lobby por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e se tornou uma voz respeitada nos debates sobre o aquecimento global. Em meses recentes, acrescentou a diplomacia no Oriente Médio a seu portfolio.
O Brasil não é um estranho na região. A companhia nacional de petróleo, Petrobras, está ajudando o Irã a desenvolver seus campos de petróleo e os dois países tiveram 2 bilhões de dólares em comércio em 2007, a maior parte em exportações de comida do Brasil, disse o sr. Amorim.
O Brasil fez parte da força de paz das Nações Unidas no Egito depois da crise do canal de Suez em 1956 e está envolvido no Oriente Médio desde então, disse David Fleischer, um professor de política da Universidade de Brasília.
"O Brasil está começando a se dar contra do peso que tem", o sr. Amorim disse. "Não foi o Brasil que foi em busca do Oriente Médio, foi o Oriente Médio que veio em busca do Brasil".Autoridades brasileiras dizem que o objetivo central da iniciativa do sr. da Silva no Oriente Médio é melhorar as relações entre Israel e os palestinos e eles acham que o Irã é um jogador chave para resolver o conflito.
Sucesso nessa tentativa "realmente colocaria o Brasil no mapa e poderia colocar Lula na fila para o Nobel da Paz", disse o sr. Fleischer.Mas seria difícil escolher algo mais difícil ou polarizador do que isso. Muitos críticos não acham o sr. Ahmadinejad – que negou o Holocausto, pediu que Israel seja varrida do mapa e apoia milícias anti-Israel – uma força construtiva no Oriente Médio.
Mais de 1.500 pessoas protestaram contra a visita este mês em São Paulo, cidade que tem a maior comunidade judaica do Brasil e um protesto similar aconteceu domingo no Rio de Janeiro. Outro está previsto para Brasília na segunda-feira.
Não é apenas Israel que desconfia do sr. Ahmadinejad. O sr. Abbas, líder palestino, disse depois de um encontro com o sr. da Silva no Brasil, na sexta-feira, que tinha pedido a ele que pressionasse o Irã a romper com o Hamas, o movimento islâmico radical que controla Gaza.
Mas tanto o sr. Abbas quanto o sr. Perez pediram ao Brasil que se engajasse no processo de paz do Oriente Médio. "O Brasil, como um país importante, e o presidente Lula, como um líder respeitado, podem ter um papel importante", o sr. Abbas disse ao jornal Folha de S. Paulo.
Alguns analistas políticos e autoridades estadunidenses dizem que em seu esforço para validar suas credenciais como estadista, o sr. da Silva está marchando em seu próprio ritmo, em vez de cooperar com aliados para obter objetivos geopolíticos mais amplos.
"Quando o Brasil se torna mais relevante nos debates sobre mudanças do clima e em fóruns econômicos mundiais não vai ser capaz de criticar abertamente ou antagonizar os grandes poderes sem pagar um preço político", disse Christopher Garman, um analista do Grupo Eurasia, uma consultoria de risco político em Nova York. "Os definidores da política brasileira não podem mais fazer o bolo e comê-lo".Mas um sucesso diplomático calaria as críticas.
"O Brasil deveria esperar críticas por receber Ahmadinejad, com certeza", disse Julia E. Sweig, uma especialista em América Latina do Conselho de Relações Exteriores. "Mas se puder jogar um papel moderador – o que Washington claramente espera – na questão nuclear, pode certamente lidar com seus críticos".

Publicado originalmente no site do Azenha

O profundo ódio de classe no Brasil - por Luiz Carlos Azenha

Francamente, acho estranho que um filme sobre a vida de um presidente da República consiga atrair tanto esculacho: é dramalhão, é tosco, é ruim.
Tudo indica que eu não vá ver, por não ter paciência com o tema. Mas começo a gostar do filme pelos críticos que ele atraiu!
"Lula, o filho do Brasil", é ficção roliudiana, se entendi bem. Apenas um filme. Qualquer semelhança com personagens da vida real é mera coincidência. Mas toca colocar repórter para investigar a relação de gente remotamente ligada ao filme e o governo. Logo vão descobrir algum carrinho de pipoca em que o pipoqueiro vende maconha e vão culpar o filme por isso. Vão dizer que "Lula, o Filho do Brasil", incentiva o tráfico de drogas. Que incentiva o subperonismo. Que provoca lavagem cerebral. Que incentiva a caspa e o chulé.
Eu sabia da existência do ódio de classe no Brasil. Mas nunca imaginei que poderia chegar a esse ponto. Eles não só odeiam o Lula. Eles odeiam qualquer coisa que passe perto do Lula. Não basta dizer que foi tudo sorte, foi tudo por acaso, que os oito anos de Lula foram apenas continuação de FHC, que Lula apenas esquentou a cadeira para José Serra. É preciso matar, salgar e enterrar. Se os pobres brasileiros odiassem os ricos tanto quanto os ricos odeiam os pobres, o Brasil viveria um banho de sangue. Em não sendo assim, ficamos restritos a este espetáculo de manifestações explícitas e implícitas de preconceito de classe.
O filme pode até ser ficção grotesca. Mas provocou algo mais grotesco ainda, por ser real e revelador. Essa gente precisa, urgentemente, de um divã.

Navegante conta uma história sobre pedágios no interior paulista – por Paulo Henrique Amorim

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=22581

Rodrigo Vianna: A riqueza da Confecom - por Rodrigo Vianna

Passei o fim-de-semana na Assembléia Legislativa de São Paulo, a acompanhar a etapa paulista da Conferência de Comunicação (Confecom)*. Foi um processo ríquissimo. Lá não estavam só jornalistas e empresários de comunicação. Não. Parece que a sociedade brasileira (ou, ao menos, seus setores mais organizados) despertaram para um fato: a comunicação é assunto importante demais para ser deixado nas mãos (apenas) dos jornalistas. Ainda bem.

Como em todos os Estados, houve escolha de delegados pelos três setores: sociedade civil, setor governamental e setor empresarial (hipocritamente chamado de "sociedade civil empresarial").

Na semana passada, escrevi aqui que os grandes empresários (ligados às "teles" e ao grupo Bandeirantes) tentaram dar um golpe: queriam excluir pequenos e micro empresários da delegação que vai a Brasília - http://www.rodrigovianna.com.br/forca-da-grana/tim-oi-e-telefonica-querem-dar-golpe-na-confecom-elas-ja-entraram-para-o-pig-vamos-reagir .

Só que os pequenos fizeram barulho, bateram o pé, ameaçaram ir pra Justiça... E aí as "teles" recuaram. Na última hora (pressionadas pelo governo Lula, é bom dizer), aceitaram que os pequenos tivessem 20 representantes. As"teles" e a Band ficaram com 64 representantes.

Interessante notar: São Paulo foi o único Estado (até agora) que elegeu representantes empresariais não-alinhados com o grande capital. Uma vitória estratégica. Por que?

Pelo regimento da Confecom, qualquer proposição, para ser aprovada na etapa nacional, em Brasília, precisará cumprir dois requisitos: votos de metade mais um do total de delegados e (atenção!) pelo menos um voto em cada setor representado (empresarial, sociedade civil e govenamental).

Os 20 micro e pequenos empresários eleitos por São Paulo, portanto, poderão ter um papel decisivo. Certamente, muitos deles vão votar ao lado dos movimentos sociais ("sociedade civil), o que pode determinar um resultado mais avançado para a Conferência.

Mas, quando falei que o processo que assisti em São Paulo foi riquíssimo, referia-me a outra coisa. Terminadas as negociações entre os empresários (eu participei nesse campo, no lado dos "pequenos", evidentemente), fui acompanhar as plenárias da sociedade civil. Ali, havia movimentos de moradia, psicólogos, sindicalistas, gente ligada ao Hip Hop, a turma do movimento negro, quilombolas, feministas, associações de rádios comunitárias... Até jornalistas havia!!! Todo mundo louco pra debater e criticar a comunicação que se faz no Brasil.

O mais incrível: no meio desse caldeirão de idéias e tendências, o pessoal da sociedade civil de São Paulo (eram mais de 500 inscritos) teve maturidade para eleger uma chapa única de 84 delegados que irão à Brasília em dezembro - tudo na base de negociação, exaustiva.

Vi movimento de mulheres aceitando ceder delegados para determinada corrente sindical. Vi uma intensa capacidade de negociação, e um respeito impressionante pelas diferenças.

É algo novo no Brasil.

Um veterano (mas animadíssimo!) militante que acompanhava a plenária a meu lado observou: "esse processo não existe em lugar nenhum da América Latina. É típico do Brasil."

Interessante observar isso. Na Venezuela, por exemplo, tudo parece mais "politizado". Só que tudo depende da figura de Chavez. Se ele resolve enfrentar a mídia, aí os chavistas partem pro confronto. Parece (pra quem já esteve lá, e eu estive) muito mais "emocionante".

O processo no Brasil é mais pactuado, com menos enfrentamento. Em compensação, não precisamos de um líder a apontar o caminho. Não. Plenárias como as que eu assisti em São Paulo ajudam a formar dezenas de militantes que - por anos e anos - estarão combatendo por mudanças, por democracia. Cada um a seu modo. Sem centralismo. Novos "lulas" podem surgir de assembléias como a que acompanhei...

Talvez, as coisas sejam mais lentas assim. Mas acho que devemos (os brasileiros) nos sentir orgulhosos. Do nosso jeito, estamos construindo instâncias muito ricas.

Bem, mas isso tudo não significa que a política passe longe da Conferência. Não. Ao contrário.

Concluídos os debates sobre Comunicação, na sessão de encerramento da etapa paulista, foram apresentadas várias moções (de apoio ou repúdio), sobre temas variados: do apoio à Palestina à memória de Zumbi dos Palmares.

Mas, adivinhem qual moção teve mais apoio? A que condenava o governador José Serra por não ter convocado a etapa paulista da Conferência. Sim! Serra, prestando um serviço aos grandes grupos de mídia que fugiram da Conferência (Globo, Abril, Folha e outros), preferiu se fingir de morto. A Assembléia Legislativa é que teve de convocar a etapa paulista.

Neri: classe média é maioria, desigualdade diminui e o Brasil já decolou – por Paulo Henrique Amorim

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=22576

As vantagens de um Irã nuclear - por Aetius Romulous, “Speaking Freely”, no Asia Times Online

É possível que o Irã esteja construindo “a bomba”. O Irã, assim, seria a segunda potência na Região a possuir a bomba, e certamente seria a primeira de uma rápida sequência de Estados regionais com o dinheiro e os talentos necessários para comprar a bomba. Além disso, essa proliferação de Estados com bomba é função da economia e, como tal, inevitavelmente, não será contida por nenhum tipo de medida racional.
De fato, “a bomba” propriamente dita é apenas mais uma ficha do jogo de barganha entre os Estados-bomba já estabelecidos, que a usam para obter vantagens na direção do que realmente lhes interessa, a saber... o petróleo.
O Paquistão tem várias bombas atômicas e é um dos Estados-nação mais instáveis do mundo. Tem a bomba porque seu arquiodiado rival, a Índia, tem seu próprio kit de bombas. Israel tem um saco de mais de 200 bombas, nenhuma das quais é controlada de modo algum por seja lá quem for. É segredo. Os EUA têm bombas. Milhares de bombas. Os EUA são o único Estado que, até hoje, detonou duas bombas sobre cidades habitadas, e, não bastasse, têm vários sacos de bombas, da melhor qualidade, espalhadas pelo território de seu Estado-vassalo, o Iraque. Há montanhas de bombas atômicas no Oriente Médio, tantas, que a quantidade tornou irrelevante a evidência de que só uma delas, detonada, já faria todo o serviço de derreter até os ossos todo o mundo Ocidental.
Todas as bombas que realmente existem no Oriente Médio – ou em qualquer parte do mundo, em terra, mar ou ar, ou ainda mais acima, no espaço sideral – pertencem a Estados de tecnologia muito avançada, donos das imensas quantidades de riquezas necessárias para projetar, construir, esconder e manter uma arma de custo inimaginável. Exceto o Paquistão e a Coreia do Norte, que simplesmente acharam caminho até a bomba pela porta da cozinha e são os convidados mais mal vestidos da festa. Como manda a natureza do nosso sistema econômico global, onde riqueza é poder, a marcha atual do progresso rapidamente gerará mais e mais nações emergentes as quais, dentro de algum tempo, serão suficientemente ricas para também ter “a bomba”.
Já temos a primeira bomba muçulmana no Paquistão, a primeira bomba sionista em Israel, e bem poderemos ter, em breve, a primeira bomba persa. Está faltando – não demorará, e alguém verá – uma bomba árabe, para completar o conjunto. A Turquia precisará da bomba e, logo, logo, terá dinheiro para comprar uma. Então haverá uma cadeia ininterrupta de Estados-bomba que se se estenderá do Estreito de Taiwan ao Canal de Suez, cobrindo todas as principais religiões, culturas e modalidades de governo e política. Será um autêntico “cinturão-bomba”. Pobre África! Também dessa vez ficará excluída. Nada de bomba p’ra vocês!
Quero dizer, então, que há sacos e sacos de bombas na região mais instável do planeta, e tudo faz crer que se reproduzirão rapidamente. O Irã tem todo o direito de ter sua bomba. Afinal, considerado o grande quadro, que diferença faz? E daí, se o Irã tiver sua bomba? A verdade é que, com o Irã sem bomba, a coisa lá fica ainda um pouco menos estável do que com o Irã com bomba; e um pouco, na era nuclear, é muito.
Que as nações sintam-se compelidas a enterrar quantidades gargantuais da produtividade de seus cidadãos para produzir bombas, é efeito das lições que aprenderam no tempo em que foram tratadas como peões sem qualquer valor, na era de ouro da Guerra Fria. O dinheiro fala; e nada representa mais claramente a voz do dinheiro, que a bomba. Como escamas coloridas, um sinal de “Material radiativo” é indicador, para todos, de que qualquer deslize no plano das ações e movimentos terá consequências terríveis.
Longe de ter ensinado ao mundo que a bomba é terrível máquina do Apocalipse, a Guerra Fria só ensinou que a bomba é excelente instrumento de defesa. Embalada em medos e perigos de futuros desconhecidos, uma ogiva nuclear é ameaça terrível. Detonada, já não vale coisa alguma; porque a bomba se autoconsome, ela também, na destruição geral, mútua, aritmeticamente garantida, de tudo e todos.
Para ter alguma serventia, uma ogiva nuclear tem de encontrar, contra ela, ameaça grave. Até a bomba precisa de inimigos. O fracasso de não poder responder com catástrofe equivalente à catástrofe provocada por uma bomba torna racional o emprego da bomba. Querem um mundo estável, bem estável? Entreguem uma bomba ao Irã. Deem. Mandem entregar. Entreguem lá. Esse simples gesto fará sumir de todas as mesas de negociação, não apenas a bomba iraniana, mas todas as demais bombas. Uma montanha de armas de ataque serão, todas, imediatamente convertidas em armas de defesa.
A coisa chama-se “Teoria dos Jogos” e é item essencial do Manual do Proprietário de bombas. Uma série perfeitamente racional de equações matemáticas que regem a idade atômica, desde o tempo em que os físicos jogavam pôquer. Uma análise de sistema do conjunto de decisões que têm de ser tomadas pelos proprietários de bombas para maximizar a própria posição, sem jamais somar mais que 21. A “Teoria dos Jogos” prevê que a superioridade nuclear depende do que o outro sujeito esteja pensando sobre você. E impõe a exigência de que os dois lados sejam capazes de impor ameaças verossímeis, críveis, cada ameaça com consequências que todos os jogadores saibam que, com certeza, não estão incluídas entre seus interesses de longo prazo. A destruição mútua garantida depende do equilíbrio e paridade entre as ameaças feitas e recebidas de cada lado. Sem essa paridade, o desequilíbrio torna praticamente garantida e inevitável a detonação da bomba atômica, em circunstâncias nas quais, se houvesse paridade entre as ameaças, nada aconteceria.
Essa foi e ainda é uma doutrina norte-americana. Mesmo assim, acabou por servir de coluna central da arquitetura básica da contenção na idade atômica. Quando os norte-americanos lutam para demonstrar que um Irã nuclear seria péssimo para todos, eles mesmos entendem perfeitamente a irracionalidade do argumento. Os norte-americanos alertam para o fato de que a bomba iraniana será usada contra Israel, e que essa seria a única razão pela qual o Irã deseja ter a bomba. Israel responde que o Irã tem de ser contido porque seria “ameaça existencial” (contra a existência de Israel) e a bomba, de fato, marcaria o fim daquela existência, dentre outras.
Todos sabem, é claro, que as coisas absolutamente não são assim. Todos sabem que, se os iranianos tiverem a bomba (apenas uma; duas bombas, no máximo), evidentemente não a dispararão, uma contra Israel, a outra contra os EUA. A detonação da bomba, sempre de só uma bomba, a primeira e única, não teria efeito sobre o inimigo que se compare ao castigo-retaliação que o Irã sofreria como resposta à decisão de usar a bomba. Nada disso interessa ao Irã. O mesmo raciocínio explica também por que o Irã há 600 anos não invade país algum e mantém sua civilização há milhares de anos. Os iranianos não são idiotas.
Então, por que tanta conversa fiada?
O Irã tem petróleo. O Irã é o quarto maior exportador do mundo de óleo cru, o que lhe vale a carteirinha de membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP [ing. Organization of Petroleum Exporting Countries, OPEC] que bombeia um excedente de 2,5 milhões de barris/dia de gororoba translúcida, leve e preta. A reserva iraniana de cru de excelente qualidade é a terceira maior do mundo. O Irã controla também o Estreito de Hormuz, pelo qual flui 40% do óleo de todo o ocidente, e está na rota de bola de profundidade que chega até Ras Tanura, principal ponto de exportação de petróleo da Arábia Saudita.
O Irã é suficientemente rico para construir sua bomba, porque o Irã tem petróleo. O Irã é uma ameaça ao suprimento de petróleo para o ocidente, tanto quanto outros players árabes que são tradicionais inimigos dos persas. O Irã está localizado praticamente na outra calçada em relação ao Iraque, quer dizer, bem próximo do quintal dos EUA. Israel está localizado praticamente na rua ao lado, em relação ao Irã, quarteirão-cenário de cinco mil anos de história entre persas e judeus.
O Iran vive deitado sobre verdadeiro mar da mercadoria de mais alto valor estratégico para o mundo, e cercado por interesses ocidentais mal-intencionados – todos eles Estados-com-bomba. Então, o Irã quer a bomba. A sério.
O Irã vende 16% de seu petróleo exportado, para a China, cerca de 411 milhões de barris/dia, e aumentando; e é a segunda maior fonte de petróleo cru para a China, perdendo, só, para a Arábia Saudita. A China precisa de petróleo em quantidades jamais antes imaginadas, para fazer andar seu crescimento, e está vasculhando o mundo à procura de flores não contaminadas por ideologia política. A China está comprando a África, bem aí, sob o nariz dos tolos querelantes da Guerra Fria, e não tem cachorro seu nas pistas das velhas corridas do Oriente Médio. Precisa de petróleo e ponto. Para comprovar, investiu mais de 100 bilhões de dólares no Irã.
A China considera o Irã como novo amigo num mundo ex-insular. E amigo carente é amigo no qual se pode confiar. A China enfrenta suas próprias ameaças regionais, uma das quais a Índia, outro desses inimigos de tipo tradicional que fazem pirar as sensibilidades ocidentais. Um Irã amigo da China, nadando em petróleo, é excelente trunfo para empurrar a Índia a partir de um outro ponto de apoio. A China, é claro, tem a bomba.
A Índia também tem a bomba, mas também é outro dos grandes centros de progresso mundial. A Índia precisa tanto de petróleo quanto a China, e pelas mesmas razões; e importa praticamente a mesma quantidade de petróleo, do Irã, que a China. Um terço das exportações iranianas de petróleo vão diretamente para as economias em super-desenvolvimento, de China e Índia. Não bastasse, o Iran re-importa, na forma de gasolina refinada, boa quantidade do petróleo que exporta para a Índia, o que faz do negócio um modelo de arranjo perfeitamente estabilizado e estupidamente lucrativo para todos os envolvidos.
Para ambos, China e Índia, uma bomba iraniana significaria segurança para seus recursos e investimentos petroleosos. Sem bomba iraniana, China e Índia terão de tomar algumas atitudes em relação a ameaças que pesem sobre seu fornecedor de petróleo – exatamente o que já estão fazendo hoje. Sempre ajuda ter uma bem-defendida fonte de petróleo que também tem interesse em defender o próprio preço. Ter acesso ao petróleo é uma coisa; ter dinheiro para comprar é outra.
A Rússia não quer que o Irã tenha bomba. A Rússia está na posição difícil de líder mundial tanto em matéria de bomba quanto em matéria de petróleo. Tem muito, tanto de bombas quanto de petróleo. Ao vender apoio tecnológico ao Irã para o seu programa nuclear para fins “civis”, os russos estão tocando os negócios em várias frentes. Se o Irã construir a bomba, haverá instabilidade no curto prazo, o que incidiria favoravelmente sobre os preços do petróleo russo, do qual os russos têm de cuidar, porque aquele petróleo mantém em movimento a agenda econômica progressista dos russos. Não bastasse, a Rússia tem meios para controlar a velocidade e os objetivos do desenvolvimento nuclear iraniano – fato que os estadistas norte-americanos evidentemente não ignoram, mas todos os jornais e televisões ignoram completamente.
Para a Rússia, a bomba iraniana é moedinha de barganha perfeita para usar com vistas a obter, extraídos dos norte-americanos, segurança geográfica e mercados abertos. Mas se os iranianos querem uma bomba, pensam os russos, ok, a Rússia poderá ajudar. É bom negócio e amplia a área de influência dos russos no Oriente Médio, justamente nas regiões nas quais os EUA foram hegemônicos.
Ao mesmo tempo, a Rússia partilha as mesmas preocupações dos EUA em relação à proliferação de armas nucleares. É absolutamente essencial para os ex-inimigos na Guerra Fria conseguir conter qualquer aumento no número de países equipados com bomba atômica. Russos e norte-americanos já enfrentam cada vez mais dificuldades financeiras para construir e manter imensos – e absolutamente inúteis – arsenais atômicos. (A Teoria dos Jogos exigia número sempre crescente de armas, para que não perdessem o valor e o efeito de contenção.)
É difícil determinar o momento em que acabou a teoria e começou a insanidade, mas os líderes atuais, nos EUA e na Rússia, já entenderam que, quanto mais cada um reduza seus arsenais, em ritmo que não perturbe o equilíbrio, mais cada um conseguirá economizar tempo, dinheiro e preocupações. O aumento no número de Estados-bomba tende a manter artificialmente alto o piso da ameaça nuclear; e devorará os bilhões de dólares cuja economia já está prevista nos orçamentos.
É difícil decidir quem precisa mais de petróleo, se os EUA ou a China. E cada um aborda a questão a partir de um ponto. A China está usando em silêncio suas indústrias estatais tamanho-Golias para consumir todos os recursos do planeta necessários para empurrar seu futuro. Pode fazer isso, porque o capitalismo não tem potência para deter o consumo de recursos controlado pelo Estado. Ao mesmo tempo, os EUA têm fracassado nas tentativas de empregar seus superpoderes e sua invencível máquina militar para influenciar as principais fontes acessíveis de petróleo leve que há no mundo.
Viciados em petróleo, dependentes químicos, os EUA só contam com a força do ‘livre mercado’ para obter algum (fraco) controle sobre os suprimentos futuros. Os EUA carecem não só de petróleo mas, também, de preços politicamente previsíveis para aquele petróleo, para assim proteger sua economia e o dólar norte-americano que depende da economia dos EUA.
Os EUA têm arsenal de bombas e tecnologias ‘de-bomba’ que já cresceram a tal ponto que qualquer investimento do arsenal e das tecnologias sempre dará mais prejuízo que lucros. Basta que alguém dê só uma espiadela na direção do botão detonador, e uma explosão nuclear termal fará voar pelos ares todos os lares norte-americanos. Gasolina a sete dólares o galão. O custo da indústria da guerra já se aproxima do trilhão de dólares/ano e é perfeitamente inútil para proteger o mais valioso patrimônio estratégico, do ponto de vista dos EUA: o petróleo de que os EUA precisam e que não têm.
Os EUA são amigos dos sauditas e dos israelenses, e cada um desses é inimigo jurado de morte pelo outro. Os EUA cedem equipamento militar e estendem seu guarda-chuva nuclear também sobre os sauditas, em troca de petróleo. Os sauditas precisam dessa proteção contra seus vizinhos, o falecido grande Saddam Hussein e seu Estado Islâmico herético; e os temidos persas. O guarda-chuva norte-americano, contudo, é perfeitamente inútil contra uma Israel armada até os dentes com bombas próprias.
Israel está compreensivelmente cada dia mais nervosa face à realidade geográfica que herdou dos britânicos em 1948. Israel importa absolutamente tudo que valha alguma coisa, inclusive petróleo. E Israel está plantada sobre o patrimônio imóvel mais irracionalmente criado e defendido de toda a história do mundo. Por sorte, ataques sem bomba atômica já se comprovaram castigos eficazes mais de uma vez; de fato, muitas vezes. Isso, porque o castigo nuclear contra ameaça existencial pode lançar no inferno, simultaneamente, vários dos principais aliados de Israel, em escala infernal que aumenta sempre. Uma resposta nuclear iraniana contra a sempre agressiva Israel terá efeitos e ramificações de que nem a melhor Teoria dos Jogos jamais cogitou. Ninguém, absolutamente ninguém, está em posição de imaginar o que Israel fará se for atacada por bomba atômica iraniana. Não haverá depois.
E o que fará a China, sobre seus investimentos no Irã? E a Índia? Como o Paquistão reagirá à Índia? O que farão os russos – sentar e assistir ao show, enquanto o preço de seu abundantíssimo petróleo alcança as planícies desabitadas da estratosfera? E o que farão os norte-americanos? Quem sabe? E, ainda mais importante: quem quer descobrir? Ninguém.
A única saída segura para os EUA, do impasse em que se meteram, é dar a bomba ao Irã. É solução racional, a única solução racional para o problema. É muito provável que o Iran consiga fazer a própria bomba; se quiser, pode recorrer ao apoio dos russos. Um Irã nuclear restaurará o equilíbrio e devolverá a paridade à insanidade da jogatina nuclear. Todos os envolvidos voltarão a ter de encarar a mesma consequência racional para suas decisões de política exterior. Se for desenvolvido com apoio dos EUA, o programa nuclear iraniano poderá ser vacinado contra uma muito provável e muito real ameaça israelense.
Ficarão inutilizadas algumas das tradicionais ferramentas regionais que o Irã usa, como o Hizbóllah no Líbano. Se os EUA garantirem a bomba ao Irã, ficará assegurado o suprimento de petróleo para China e Índia, com a vantagem de que será contida a expansão da influência russa sobre o Irã, o qual – atenção! – está localizado exatamente entre o Iraque e o Afeganistão. Os EUA oferecerão armamentos em troca da estabilidade do mercado de petróleo. Assim, todos ganham.
Claro que nada disso será feito desse modo, e por razões que todos conhecemos intuitivamente, as quais ninguém precisa (nem consegue) explicar. Simplesmente não acontecerá assim. O que acontecerá será diferente, outra coisa. Acontecerá algo insustentável e desigual, solução que deixará aberto um buraco tamanho-Versailles. Apesar da situação desesperadora em que vive o planeta Terra, porque crescimento ilimitado exige devoração ilimitada de recursos escassos, várias decisões desencadearão várias ações, que têm mais, muito mais, a ver com dogma, religião e nacionalismo, do que com algum realismo racional.
É sempre assim. Hoje, se acrescentaram ao sempre-assim a Teoria dos Jogos da Guerra Fria e centenas de ogivas nucleares. Eca! [ing. Ugh!]


Comentário: sou contrário a existência de armas de fogo. De qualquer porte, por quem quer que seja – especialmente governos, de qualquer especie.

P.S: análise estava no site do Azenha