terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Por onde ando, sempre as mesmas ideias velhas sobre o Oriente Médio - por Robert Fisk (The Independent)

Fisk "testemunha" a eficácia da propaganda

Robert Fisk, 10/1/2009, The Independent, UK)
http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-wherever-i-go-i-hear-the-same-tired-middle-east-comparisons-1297595.html
Traduzido no blog do Azenha


Tudo depende de onde você mora. A geografia da propaganda de Israel foi inventada para demonstrar que os frouxos – os liberaizinhos que vivem nas nossas cidades seguras, ocidentais – não entendem o horror dos 12 (já agora 20) mortes de israelenses em dez anos, os milhares de Qassams e o inimaginável trauma e o stress de morar perto de Gaza. Esqueçam os palestinenses assassinados.

Viajar pelos dois lados do Atlântico nas últimas semanas tem sido experiência instrutiva (para não dizer estranhamente repetitiva).

Então lhes conto. Eu estava em Toronto. Abri o National Post, jornal de direita, e dei com Lorne Gunter tentando explicar aos leitores como é viver sob ataque dos foguetes palestinenses. "Imagine que você mora em Don Mills, subúrbio de Toronto," escreve Gunter, "e o pessoal de Scarborough – a dez quilômetros dali – dispara praticamente 100 foguetes por dia no seu quintal, na escola dos seus filhos, no supermercado, no consultório do seu dentista..."

Entenderam? Claro que o pessoal de Scarborough são pobres, imigrantes recém chegados – muitos do Afeganistão –, e o pessoal de Don Mills são de classe média, muitos muçulmanos. E, até aí, sem falar em cortar a facão a sociedade multicultural do Canadá, para explicar que Israel tem toda a razão, quando massacra os palestinenses, em resposta aos foguetes.
[NOTA DO VIOMUNDO: O ARTIGO MENCIONADO ACIMA ESTÁ AQUI]

Depois, já em Montreal, passo os olhos no jornal La Presse, em francês, de dois dias antes. E, claro, lá está matéria assinada por 16 destacados intelectuais pró-Israel, escritores, economistas, professores, na labuta para explicar como é viver sob ataque dos foguetes palestinenses. "Imagine por um instante que as crianças de Longueil vivam sob permanente terror, dia e noite, que as lojas, os escritórios, hospitais, escolas, sejam alvo permanente de terroristas que vivam em Brossard." Longueuil, claro, é uma comunidade de imigrantes muçulmanos negros, imigrantes, afegãos, iranianos. Fiquei sem saber quem seriam os "terroristas" de Brossard.
[NOTA DO VIOMUNDO: O MANIFESTO MENCIONADO ACIMA ESTÁ AQUI]

Mais dois dias, estou em Dublin. Abro o The Irish Times e lá está uma carta do embaixador de Israel na Irlanda, dedicado a explicar ao povo da República da Irlanda como é viver sob ataque dos foguetes palestinenses. Já adivinharam? Acertaram. "O que vocês fariam", Zion Evrony pergunta aos leitores, "se Dublin vivesse sob bombardeio de 8.000 foguetes e morteiros..." E assim a coisa vai e vai.
[NOTA DO VIOMUNDO: A CARTA MENCIONADA ACIMA ESTÁ AQUI]

Desnecessário dizer que nenhum dos supracitados jamais pergunta como alguém se sentiria se morasse em Don Mills ou Brossard ou Dublin e vivesse sob ataque massivo, eterno, incansável de jatos supersônicos, tanques Merkava e milhares de soldados cujas bombas e mísseis destroçam, em pedaços, 40 mulheres e crianças à frente de uma escola, assassinam famílias inteiras que dormem em suas próprias camas e que, em uma semana, mataram 200 civis e fizeram 600 feridos.

Na Irlanda, minha explicação preferida para o banho de sangue veio de meu velho conhecido, Kevin Myers. "As mortes em Gaza são, é claro, chocantes, horríveis, indizíveis", chora ele. "Embora nada de compare às mortes que haveria em Israel, se se deixasse o Hamás fazer o que quisesse." Entenderam? A chacina de Gaza justifica-se, porque o Hamás, se pudesse, faria coisa pior... mesmo que não faça porque não pode.

Mas foi Fintan O'Toole, filósofo-em-chefe residente do The Irish Times quem, afinal disse o indizível. "Quando expirará o mandato do vitimismo?", perguntou ele. "Quando, afinal, o genocídio nazista dos judeus da Europa deixará de servir de desculpa, para livrar o Estado de Israel das barras dos tribunais internacionais e das leis regulares da humanidade?"

Passei horas agradáveis, em Derry, onde falei, como conferencista da Cátedra Tip O'Neill da Universidade do Ulster, nas "Conferências sobre a Paz" de 2009.[1] Lá, alguém do público perguntou, exatamente como, no dia seguinte. perguntou um membro da Sociedade Histórica do Trinity College de Dublin, se o acordo de paz da "Good Friday"[2], na Irlanda do Norte – ou, em geral, o recente conflito irlandês – não teria lições úteis, que se pudessem aplicar no Oriente Médio. Respondi que me parece que acordos de paz são fenômenos locais, que não suportam deslocamentos bruscos; e que a idéia de John Hume (meu anfitrião em Derry) – de que tudo seria questão de pactuar-se uma solução e respeitar-se o compromisso – não funcionaria, porque o roubo de terras palestinenses, cometido pelos israelenses na Cisjordânia, é parente mais próximo do assalto à Igreja Católica Irlandesa, no século 17, do que do sectarismo em Belfast.

Mas desconfio, sim, é que a divisão, o 'racha', que já se aproxima da guerra civil, entre o Hamás e a Autoridade Palestinense, tem muito em comum com a divisão entre o Estado Livre da Irlanda e as forças contrárias ao Acordo, que levou à guerra civil irlandesa de 1922-3; que a recusa do Hamás a reconhecer Israel – e os inimigos de Michael Collins, que se recusaram a reconhecer o Tratado Anglo-Irlandês e a fronteira com a Irlanda do Norte – são tragédias muito semelhantes. Que, hoje, Israel está representando o papel que a Inglaterra representou então, quando a Inglaterra usou as forças pró-tratado (Máhmude Abbás) para combater as forças anti-tratado (Hamás).

Terminei a semana num daqueles debates do Serviço Internacional da BBC, com um sujeito do The Jerusalem Post, outro da rede al-Jazeera, um intelectual inglês e um Fisk. Dançamos a valsa de sempre em torno da catástrofe de Gaza. Foi eu dizer que é grotesco comparar os 600 palestinenses mortos e os 20 mortos israelenses perto de Gaza, em dez anos, e os presentes pró-Israel puseram-se a me linchar por sugerir (o que eu não fiz) que só haviam morrido 20 israelenses em todo o território de Israel em dez anos. Claro que morreram centenas de israelenses fora de Gaza em dez anos – mas no mesmo período morreram milhares de palestinenses.

Meu momento preferido aconteceu quando eu disse que jornalistas têm de ter lado; e que o lado dos jornalistas têm de ser o lado dos que mais sofrem. Se me mandassem cobrir o tráfico de escravos no século 18, eu jamais daria destaque, no que escrevesse, à opinião do capitão do navio mercador de escravos. Se me mandassem cobrir a libertação, num campo de concentração nazista, eu não entrevistaria o porta-voz da SS. Nesse ponto, um jornalista do Jewish Telegraph em Praga 'argumentou' que "o exército israelense não é Hitler". Claro que não. Eu não disse que é. Aqueles jornalistas, sim, é que temem que seja.

[1] Sobre isso, ver http://news.ulster.ac.uk/releases/2009/4200.html.

[2] "The Agreement" [O Acordo], também chamado "Acordo da 6ª-feira Boa", ou "Acordo de Belfast", foi assinado em Belfast, numa 6ª-feira, 10/4/1998. Sobre isso, ver http://www.nio.gov.uk/the-agreement

Não houve inflação de demanda, houve inflação de juros - por João Sicsú (Agência Cartamaior)

A “inflação” (aumento) de juros de 2008 não tinha justificativa técnica. Para 2009, há justificativas técnicas evidentes para uma forte “deflação” (redução) dos juros. Crises não são situações para serem enfrentadas com conservadorismo que, neste momento, é sinônimo do cúmulo da moleza: “correr sozinho e chegar em segundo”. Manter juros de dois dígitos em tempo de crise é amar o risco de morrer. A análise é do economista João Sicsu.

João Sicsu

Em 2008, não houve inflação de demanda. Inflação de demanda ocorre quando a capacidade de realizar compras de uma economia é maior que a sua capacidade de produzir o que é desejado. Nessas condições, os empresários elevam os preços diante da impossibilidade de aumentar quantidades ofertadas. Cabe ser observado, contudo, que a identificação de uma situação de inflação de demanda deve ser feita de forma agregada, ou seja, olhando-se o conjunto da economia. Um fato isolado de aumento de preços por aumento de demanda não pode caracterizar uma economia contaminada por inflação de demanda. Aumento de preços em um setor de forma isolada é apenas um sinal de mercado, necessário, que atrai investimentos para aquele nicho.

O que aconteceu recentemente na economia brasileira?

(1) De 2006 a 2008, a taxa de crescimento do investimento foi superior entre 2 e 3 vezes a taxa de crescimento do PIB. Isto significa oferta crescendo mais velozmente que a demanda.

(2) A massa salarial como proporção do PIB vinha caindo de forma acentuada nos últimos anos. Cálculos preliminares indicam um estancamento desta queda no ano de 2008. Em outras palavras, a capacidade de compra dos trabalhadores (demanda) relativamente ao que era produzido pela economia (oferta) estava diminuindo.

(3) Houve a partir de 2004 um crescimento do crédito como proporção do PIB. A trajetória de crescimento tornou-se mais acentuada a partir de junho de 2007. De 2007 a 2008, o crédito para pessoa física cresceu, como proporção do PIB, de 10% para 12,5%. No mesmo período, o crédito para pessoa jurídica mais o crédito direcionado (BNDES, crédito agrícola etc.) cresceu de 20% do PIB para 25%. Isto significa, grosso modo, que o crédito para o lado da oferta crescia a uma velocidade muito maior que o crédito para o lado da demanda.

(4) O nível de utilização da capacidade instalada da indústria (NUCI) atingiu, em 2008, seu nível mais elevado 83,5%. Este foi um sinal positivo e necessário para que novos planos de investimento fossem implementados. Isto não significa, contudo, que a capacidade de produção da indústria estava se esgotando. Cabe ser lembrado que a produtividade do trabalho cresceu aproximadamente 10%, entre 2006 e 2008, uma taxa record. A produção pode ser aumentada quando o NUCI e/ou a produtividade aumentam. O NUCI, analisado isoladamente, não pode explicar absolutamente nada sobre a capacidade de ofertar da indústria.

(5) O saldo em transações correntes tornou-se negativo em 2008. A conta de transações correntes é composta, grosso modo, de duas grandes partes: saldo comercial com o exterior e remessas de lucros e dividendos. O saldo comercial se reduziu drasticamente, mas continua positivo. Isto significa que a economia brasileira exporta parte do que produz. O que tornou o saldo em transações correntes negativo foi um problema estrutural da economia brasileira: a remessa de lucros para exterior de multinacionais é capaz de ser maior que todo o esforço de exportações da economia. Portanto, não é verdadeira a conclusão de que se gasta tanto que se consome tudo que é produzido aqui e ainda compra-se o que é produzido no exterior.

(6) As despesas totais do Governo Federal, como proporção do PIB, têm caído. Em 2006, eram 34,1%, e em 2007, foram 31,5%. Em 2008, as despesas realizadas entre janeiro e novembro totalizaram 25,5%. Sendo assim, o governo tem reduzido a sua demanda em relação à oferta total de bens e serviços da economia.

A inflação que houve em 2008 foi causada principalmente por um choque de efeito passageiro do item alimentos. A inflação de 2008 foi de 5,9%. A inflação do item alimentos foi de 11,1% e a inflação de todos os demais itens foi de 4,4%. Resumo da ópera: se os alimentos tivessem se comportado como os demais preços, a variação do IPCA no ano teria sido inferior ao centro da meta perseguida pelo Banco Central, que é 4,5%. Os preços não subiram em 2008 por excesso de demanda, os números comprovam. O que houve, em 2008, foi “inflação” (aumento) de juros causada exclusivamente por excesso de demanda por sua elevação.

A “inflação” (aumento) de juros de 2008 não tinha justificativa técnica. Para 2009, há justificativas técnicas evidentes para uma forte “deflação” (redução) dos juros. Crises não são situações para serem enfrentadas com conservadorismo que, neste momento, é sinônimo do cúmulo da moleza: “correr sozinho e chegar em segundo”. Portanto, é hora de “deflacionar” (reduzir) rapidamente os juros para que estes alcancem logo um dígito. Manter juros de dois dígitos em tempo de crise é amar o risco de morrer.

(*) João Sicsu é diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea e professor do Instituto de Economia da UFRJ.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Um erro irreparável - por Mino Carta (Cartacapital)

Vamos logo ao ponto: por que CartaCapital, e outros jornalistas, miram em Daniel Dantas? Porque o banqueiro orelhudo é a personagem mais representativa da interferência financeira na política nativa, da corrupção à moda da casa. Há mais figuras na parada, mas não chegam ao nível e à dimensão do nosso heroi, pelo menos por ora.

É neste enredo que entra o delegado Paulo Lacerda, ex-diretor da Polícia Federal, ex-diretor da Abin, enfim desterrado para Portugal, no melancólico e inédito posto de adido da nossa embaixada em Lisboa. A exoneração de Lacerda deu-se na calada das festas de fim de ano, a aproveitar o momento em que o pessoal ergue brindes e troca presentes, e seu afastamento, murmurado em tom anódino, não mereceu maiores reparos da mídia.

Paulo Lacerda, policial conhecido por sua ficha impecável, é quem esteve à frente da PF quando da Operação Chacal, a primeira que visou as falcatruas do orelhudo em 2004. Quatro anos depois, emprestou efetivo da Abin à Operação Satiagraha, aquela que até hoje resulta na condenação de Dantas por corrupção, determinada pelo juiz de primeira instância Fausto De Sanctis.

Por que Lacerda vai para Portugal? Na origem do enredo, uma reportagem da revista Veja anuncia que uma conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres foi grampeada. Conversa, aliás, sem qualquer relevância. Mas o magistrado tonitroa o propósito de “chamar às falas” o presidente da República, como se identificasse nele o responsável pela interceptação ilegal.

Que faz o primeiro mandatário? Convida Mendes à calma e pede tempo para analisar o caso? Pelo contrário, recebe-o imediatamente, em companhia do ministro da Defesa, Nelson Jobim, este que não perde a oportunidade para mergulhar em uniforme de general. Sustenta Mendes, apoiado por Jobim, que o grampo sofrido é obra da Abin e pede a cabeça de Paulo Lacerda. Que de imediato é afastado temporariamente do cargo, a coroar um erro destinado a demonstrar-se irreparável.

O arco-da-velha funde sua palheta em uma única cor, o rubro da vergonha. No entanto, o tempo passa. Prova-se que a Abin não tem condições de grampear quem quer que seja, só pode mesmo rastrear grampos. Há quem diga que Lacerda carrega outra culpa: ajudou o nunca assaz falado delegado Protógenes da Satiagraha. E que culpa seria esta, se não há lei ou regulamentos para condená-la?

A este respeito cabe uma observação. Em novembro de 2007, Paulo Lacerda visitou seu sucessor na direção da PF, Luiz Fernando Corrêa, e foi claro na sua exposição: caso a PF não se dispusesse a oferecer reforços à Satiagraha, ele os forneceria. Por que a questão não foi levantada na ocasião, catorze meses atrás, e só veio à tona depois do encontro do presidente Lula com Mendes e Jobim?

Avolumam-se os porquês, pois contra Paulo Lacerda nada foi apurado. E se algo há que não sabemos, algo escondido nos bastidores, convém explicitá-lo, se o Brasil for de fato um país democrático onde vigora o Estado de Direito. O delegado assumiu aos olhos da opinião pública, em função do seu desempenho e de sua ressonância, uma importância capaz de transcender o seu próprio posto.

É dever do governo explicar, à revelia da mídia que prefere o silêncio em proveito de outras personagens do entrecho, as razões do fim melancólico reservado a um leal servidor do Estado. Caso contrário, justifica-se a suspeita de que as razões da política miúda pesam mais, muito mais, do que a justiça e a ética. E suspeitas mais, de que tudo se faz para evitar, até quando for possível, a relação orgânica entre Daniel Dantas e o poder nativo.

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Réquiem
Na quinta-feira 8 foi concluída a compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi. Um negócio urdido e abençoado nos corredores do Palácio do Planalto, que forçou uma mudança extemporânea das leis em vigor no setor de telecomunicações, e repleto de conflitos de interesses, a começar pela sociedade dos beneficiários com a empresa de um dos filhos do presidente da República. A patranha está selada. E não foi por falta de aviso.

A CPI de Dantas - por Luis Nassif

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/01/12/a-cpi-de-dantas/#more-15851

Gilmar tem um AI-5 na mão e Dantas...- por PHA

http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/?p=3888
http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/?p=3865

Lisboa e Gaza - por Wálter F. Maierovitch (Cartacapital)

Para sintetizar a força da criminalidade dos potentes, a saudosa escritora italiana Camilla Cederna repetia o teor de uma frase mandada grafar pela Máfia siciliana nos muros de Palermo: Chi ha soldi e amicizia va in culo alla Giustizia.

Os poderosos, ainda que usem de métodos mafiosos, têm pouco a temer. A propósito, o presidente Lula afirmara em entrevista, logo depois da reação negativa dos cidadãos em face do afastamento do delegado Paulo Lacerda do comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que ele voltaria ao cargo quando quisesse.

Uma sindicância do Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general Jorge Armando Felix, concluiu não ter tido Lacerda nenhuma responsabilidade pelos fatos noticiados pela revista Veja, ou seja, um “grampo” de conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

Mais ainda: o inquérito policial aberto sobre os fatos ainda carece da prova da materialidade delitiva, isto é, da existência do crime. Isto porque a gravação da conversa mencionada pela revista não foi encontrada: existe apenas a transcrição da interlocução, que pode ser resultado de montagem.

Nesse episódio do “grampo sem áudio”, coube ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, representar o papel do guardião da moralidade. Bem ele que, em livro laudatório, confessou ter fraudado a Constituição ao inserir artigos não apresentados e aprovados aos seus pares deputados.

A fim de pressionar Lula para afastar Lacerda, Jobim fez, durante reunião ministerial, afirmação falsa. Ele sustentou possuir a Abin, da mesma maneira que o Exército, equipamentos sofisticados para promoção de escutas telefônicas.

O pacato general Felix ameaçou resistir, mas preferiu, como se fora um disciplinado cabo-da-guarda, aceitar, embora a contragosto, o afastamento temporário de Lacerda. No início do governo Lula, já tinha sido passado para trás. Apesar de chefe, não pôde escolher o diretor da Abin e aceitou a indicação do delegado de polícia estadual Mauro Marcelo.

Com efeito. Àquela altura do episódio noticiado por Veja, o ministro Gilmar Mendes já havia, pelos jornais, ameaçado “chamar às falas” o presidente da República. Posteriormente, em entrevistas, Mendes deixou claro que jamais aceitaria a volta de Lacerda. Felix capitulou de novo.

Para fechar 2008, um acordo tirou Lacerda da Abin. O ministro Jobim foi mantido, apesar da mentira. Quanto a Felix, este não teve a dignidade de apanhar o boné.

O ministro da Justiça continua também. E a ele coube a missão de promover um atentado contra a inteligência do comum do povo. Lacerda virou adido policial, cargo importante, segundo explicou Genro. Teria ficado melhor, menos escancarado, reverter a sua aposentadoria, para legitimá-lo na função de adido: adido aposentado, só em república bananeira.

Na prática, a saída apresentada pelo ministro da Justiça não atendeu ao interesse público. Mais uma vez, Daniel Dantas saiu vitorioso.

Entre beijar a lona e aceitar a toalha jogada, Lacerda optou, com a consciência em paz pelo dever cumprido, por um exílio em Portugal. Talvez, para se fingir de morto.


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O escritor Amóz Oz, professor de literatura na Universidade Ben-Gurion, concluiu que os conflitos entre israelenses e palestinos não podem ser vistos como uma guerra de religião ou um choque de culturas, como sustentam muitos. Para Oz, trata-se de um conflito pela posse de terras, a ser resolvido por entendimentos e não pela via militar.

Levou tempo para a questão da posse da terra ser percebida pelo ex-premier Ariel Sharon. Ao notá-la, Sharon propôs ao Parlamento e retirou, em 25 de outubro de 2004, mais de 8 mil israelenses assentados em Gaza.

Outro dado que impressionou o até então beligerante Sharon foi a questão demográfica, nesta semana retomada pelo historiador Benny Morris, a mostrar que a entrega de territórios aos árabes e as costuras políticas voltadas a um acordo de paz são fundamentais para Israel.

Morris destacou que 92% da população de Israel se concentra nos centros urbanos. Os hebreus representam 80% dessa população e os restantes 20% são de árabes nascidos em Israel. Segundo Morris, os árabes de Israel têm de quatro a cinco filhos por família, ao passo que os hebreus possuem de dois a três. Nesse ritmo, entre 2040 e 2050, eles serão maioria dentro do território de Israel.

Em 2005, semelhante raciocínio fora desenvolvido por Ariel Sharon, influenciado pelos dados demográficos apresentados pelo professor Sergio Della Pergola, catedrático na Universidade de Jerusalém.

O premier israelense, Ehud Olmert, por duas vezes optou pela militarização. Em Gaza, promoveu, em nome do Estado, crimes contra a humanidade.

Sobvre a crise - por Marcos Doniseti (blog do Nassif)

É verdade que a crise norte-americana não comporta análises simplistas.
Por isso mesmo é que eu pergunto em qual crise anterior que:
1) o sistema financeiro norte-americano quebrou, como ocorreu na atual crise?
2) as 3 maiores montadoras dos EUA tiveram que recorrer à ajuda estatal para não quebrar (o que significa que já quebraram)?
3) 2.600.000 trabalhadores ficaram desempregados num único ano?
4) o Estado norte-americano teve que aprovar um pacote de ajuda de US$ 700 Bilhões (cerca de 5,5% do PIB) para salvar instituições financeiras privadas falidas e especuladores financeiros que acumularam imensos prejuízos?
5) Durante vários anos a taxa de desemprego nos EUA oscilou em torno de 4,5%. Agora, já está em 7,2%. Isso já representa um aumento de 60%. E como a crise ainda está longe de terminar, já se prevê que a taxa poderá atingir os 10%. Além disso, a taxa de desemprego do Brasil, calculada pelo IBGE, é de 7,5% e não de 13,8%.
Além disso, de que adianta aos norte-americanos saber que a taxa de desemprego em outros países é maior? Nada, é claro. O que interessa, para os norte-americanos, é que o desemprego nos EUA está aumentando rapidamente.
As grandes corporações norte-americanas estão em boa situação financeira? bem, diziam isso também dos grandes bancos norte-americanos… Deu no que deu. Sem falar que as grandes corporações dos EUA já tem uma longa tradição de falsificar seus balanços. A Enron e assemelhadas que o digam…
Dizer que a mídia norte-americana é 90% Democrata é equivocado, pois foi essa mesma mídia que divulgou as mentiras do governo Bush sobre o Iraque a fim de justificar a Guerra contra o miserável país do Oriente Médio. E Bush é Republicano, como é do conhecimento de todos.
Além disso, os EUA já estão em guerra (contra os ‘poderosíssimos’ Iraque e Afeganistão) e o seu orçamento militar já passa dos US$ 800 Bilhões anuais, o que representa 6% do PIB.
Portanto, qualquer estímulo econômico que poderia vir do setor bélico já está acontecendo e, mesmo assim, o país enfrenta a sua pior crise financeira e econômica em várias décadas.
E uma guerra mundial, hoje, é inviável, pois seria nuclear e resultaria na destruição de grande parte do planeta.
E o fato de que a economia norte-americana tem capacidade de superar crises com facilidade, não significa que isso irá acontecer agora. E por vários motivos:
1) o déficit externo supera os US$ 800 Bilhões (6% do PIB, o que é altíssimo, até mesmo para um país rico como os EUA) e isso já ocorre há vários anos;
2) o déficit público irá superar US$ 1 Trilhão anuais nos próximos anos. Isso representa 7,7% do PIB/ano, o que é um patamar gigantesco para qualquer país. Na União Européia, por exemplo, o teto para o déficit público é de 3% do PIB anuais. No Brasil, em 2007, o déficit público foi de 2% do PIB. Esse déficit superior a US$ 1 Trilhão/ano já foi anunciado e reconhecido até mesmo por Barack Obama;
3) as estatizações da F.Mac, da F.Mae e de outras instituições financeiras, bem como os pacotes de ajuda econômica e de estímulo à economia, farão com que a dívida pública do país dispare nos próximos anos, o que irá limitar a capacidade de endividamento do Estado norte-americano, sob o risco de provocar uma aceleração da ‘fuga do dólar’, que já está em andamento;
4) grande parte do parque industrial norte-americano foi transferido para o exterior (China, Índia, México, etc). Logo, os pacotes de estímulo econômico podem acabar resultando num aumento dos já imensos déficits comercial e externo, que passam de US$ 800 Bilhões anuais, fragilizando ainda mais a situação financeira do país;
5) o dólar está perdendo espaço na economia mundial, seja como reserva de valor, seja como moeda que é utilizada nas atividades comerciais e financeiras globais. A participação do Euro é cada vez maior, até pelo fato de que a economia européia tem finanças muito mais sólidas do que a norte-americana.
Caso a UE consiga criar uma autoridade política que fale em nome de todo o Bloco, esse processo de substituição do dólar pelo Euro irá se acelerar ainda mais.
E inúmeros países criaram ‘Fundos Soberanos’, que são utilizados, justamente, como mecanismos de fuga organizada do dólar. Até o Brasil já criou o seu. Nem a Gisele Bundchen aceita dólares mais em seus contratos, apenas Euros. Sabe tudo de economia, essa Gisele…
E o fato de que restaurantes estejam cheios não serve como termômetro para dizer que a economia norte-americana vai bem, até porque quem os frequentam são pessoas que integram grupos privilegiados da sociedade, os mais ricos, e que são sempre os que menos sentem os efeitos de uma crise econômica.
São os assalariados e a classe média ‘remediada’ os que são os mais afetados pelas crises e não os mais ricos. Estes, sempre tem ‘gordura’ para queimar, ao contrário das classes ‘menos abastadas’, e podem continuar frequentando seus restaurantes prediletos, mesmo que seja somente para manter as aparências de que estão numa boa situação econômica e financeira.
Todos os dados mais recentes e importantes da economia norte-americana mostram que uma significativa recessão começou no país. As vendas de veículos e de imóveis (2 importantes segmentos da economia dos EUA) despencaram. Nem as vendas do Natal escaparam da crise e também caíram.
Outra coisa: nas crises anteriores, os EUA ainda eram a potência mundial incontestável e não tinham, de fato, nenhum concorrente sério a ameaçar a sua liderança global.
Hoje, no entanto, a China e a Índia (bem com a Rússia, o Brasil e inúmeros outros países emergentes) crescem muito mais do que os EUA e isso irá continuar nas próximas décadas, pois tais países ainda tem um grande potencial de mercado para desenvolver internamente.
A UE continuará o seu processo de expansão. A Rússia já superou o pior momento da crise provocada pela extinção da URSS e está crescendo cada vez mais e atua de forma cada vez mais intensa no cenário internacional, mesmo contra a vontade dos EUA e da UE, como se viu na guerra contra a Geórgia, pela qual nem os EUA e nem a UE nada puderam fazer.
Na América Latina, a influência norte-americana é cada vez menor, com a ALCA sendo abandonada e governos nacionalistas, reformistas anti-imperialistas (Chávez, Evo, Corrêa, Ortega, etc) se consolidando no poder, vencendo todas as eleições.
Até mesmo o governo Lula repudiou a ALCA, denunciou todos os subsídios agrícolas dos EUA na OMC, articulou reuniões entre países latino-americanos das quais nem os EUA e nem o Canadá participaram e dá um apoio decidido aos governos nacionalistas da região.
O recente acordo militar assinado pelo Brasil com a França é outra demonstração desta perda de poder dos EUA na região. E tal acordo foi motivado, em grande parte, pela reativação da IV Frota norte-americana, e visa proteger a Amazônia e o petróleo do pré-sal, principalmente.
Além disso, fica cada vez mais claro a impossibilidade de qualquer vitória norte-americana nas Guerras do Iraque e do Afeganistão, dois dos países mais miseráveis do mundo. Se os EUA não conseguem derrotar o Iraque e o Afeganistão, irão vencer guerras contra quem? a China? a Rússia? a Índia?
Portanto, todos estes dados permitem concluir, sem sombra de dúvida, de que a crise norte-americana é muito mais profunda do que se pensa, de que ela não será superada com tanta facilidade, assim (o que até Barack Obama já admitiu) e que os EUA perdem, cada vez mais, influência e poder no Mundo. E este processo irá se desenvolver durante todo o século XXI.
Os EUA continuarão sendo um país rico e poderoso, mas será apenas mais uma potência em meio a várias outras.
Portanto, a Era em que os EUA diziam ao Mundo o que fazer terminou, gostem ou não os norte-americanos e os seus admiradores.

Entrevista de Chico Oliveira à Agência Carta Maior

"Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização"
Leia a seguir trechos da entrevista de Francisco de Oliveira à Carta Maior:

Carta Maior - A crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o sujeito histórico que ele acreditava ter se esfarelado na história?
Chico de Oliveira - Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico; à rigor, se formos localizá-la seria na incorporação da mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos; novidade esta que influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso; uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.

CM - A essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?
Chico - A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela; ou seja a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da capacidade de realizá-la.

CM - Por quê?
Chico - Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e da Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos EUA é a manifestação disso. De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital na periferia para financiar o Tesouro dos EUA. A China sozinha tem mais de US$ 1 trilhão aplicado em papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local é baixíssimo.

CM - Mas a crise não marca o esgotamento dessa endogamia China/EUA?
Chico - Ela funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitosa aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho urbi e orbe; os assalariados norte-americanos simplesmente não têm fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. Obama teria que elevar brutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente; estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século

(NR – CM levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista da produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveis pela maior parcela da produção global até recentemente, estão sendo desalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia.

A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60, contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21 nos EUA e cerca de US$ 4,50 no Brasil .Resultado: dados compilados pela Comissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não pára de crescer –desde 2001, cresceu 15% nos EUA e saltou em média 8% a 10% ao ano na China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela AL cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para 6,5%).

CM - O que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua manifestação financeira não basta ?
Chico - É isso. A contribuição de Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante num outro momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.

CM - 1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu....
Chico— Uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt; e uma Guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à 29; o ferramental dos anos 30 não dá conta disso.

CM - O receituário keynesiano?
Chico - As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer déficits em conta corrente e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumenal keynesiano necessitaria para ter eficácia atualmente.

CM - Estamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...
Chico - Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o fim da associação China/EUA; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.

CM – Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.

CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico – Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...

CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

CM - Haveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?
Chico - A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon; não sua derrocada, mas um hiato para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais que isso: haveria uma potencial complementariedade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de complementariedade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do buraco...

CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

CM - Logo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

CM – O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?
Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.

CM - E os recursos para esse ciclo de investimentos pesados?
Chico - O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão (NR: os fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de R$ 155 bilhões de reais). Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT desfruta igualmente de massa e representatividade.

CM - Essa é uma agenda para 2010?
Chico - É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns, nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 30 e nos anos 50 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do Psol e do PSTU.

CM – A candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?
Chico - Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má vontade explícita da mídia em relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que é. Ou então, que seja alguém como o Gabrielli, o presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e as variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o operador porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de ponta-de–lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.

CM - Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?
Chico - Serra antes de ser um personagem político é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém, se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória tucana em 2010; aí sim estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Das pedras de David aos tanques de Golias - por José Saramago

     Este artigo foi publicado pela primeira vez há alguns anos. O seu pano de fundo é a segunda intifada palestina, em 2000. Atrevi-me a pensar que o texto não envelheceu demasiado e que a sua “ressurreição” está justificada pela criminosa acção de Israel contra a população de Gaza. Aí vai, portanto. 

DAS PEDRAS DE DAVID AOS TANQUES DE GOLIAS

     Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilónia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro, foram redigidos depois do exílio da Babilónia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redactores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.

     Esta preocupação de exactidão temporal tem como único propósito oferecer à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno David e o gigante filisteu Golias, anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, enorme segundo todas as aparências, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo facto de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que, antes de ir enfrentar-se ao filisteu, apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola.

     Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de facto não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo do pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.

     Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as acções próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronómio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles é já um exercício de facto: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.

     As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba.

sábado, 10 de janeiro de 2009

A paixão perdulária dos EUA por Israel - por Argemiro Ferreira

http://argemiroferreira.wordpress.com/2009/01/08/a-paixao-perdularia-dos-eua-por-israel/

Porque a Febraban peitou o BC - por Luis Nassif

Vamos entender melhor esse embate entre o presidente do Bradesco, Márcio Cypriani, e o do Banco Central, Henrique Meirelles, em torno das taxas Selic.
O conjunto de operações de um banco comercial é muito maior do que aplicar em títulos do governo ou montar operações de IPO. Esse papel cabe à sua Tesouraria ou banco de investimento. O crescimento de um banco comercial depende, em grande parte, do crescimento e da modernização da economia real.
Embora os bancos comerciais tenham sido beneficiários do modelo implantado a partir de 1992 - e consolidado a partir de 1994 - o setor hegemônico do jogo foram os gestores de recursos, atuando de forma independente ou dentro da estrutura maior dos bancos comerciais.
Esse sistema que consolidou o poder ideológico do Banco Central é integrado pelos seguintes personagens:
1. Os gestores de recursos.
2. Economistas, analistas e operadores de mesa, em geral tendo a maior parte de sua remuneração através de bônus de desempenho.
3. Membros dessa comunidade servindo provisoriamente no Banco Central.
A rede de relacionamentos do BC é com esse escalão. Fosse um BC sério, iria buscar o pulso da economia com o Márcio Cypriani, o Abilio Diniz, o Jorge Gerdau, a CUT e a Força Sindical, as Federações estaduais, os grandes atacadistas.
Mas, em vez de falar com o Cypriani, eles falam com o Otávio de Barros; em vez do Fábio Barbosa, com o “professor de Deus”. Os mais seletivos falam com Luiz Carlos Mendonça (que representa o interesse dos gestores).
É um clube fechado, que se autoprotege. A Pesquisa Focus - que visa ascultar as expectativas do mercado - passa ao largo da economia real. Todas as decisões do BC não visam beneficiar os bancos em si, mas a atividade dos bancos diretamente relacionada com arbitragens de taxas, captação de investidores externos.
Os bancos comerciais aceitavam esse jogo porque ganhavam pesadamente com a Tesouraria. Quando retomaram a função de emprestar, acabou o pacto ideológico.
Com a economia ameaçada pela recessão, o risco de inadimplência aumenta substancialmente, criando um círculo vicioso. Selic alta aumenta as taxas de captação, reduz o spread dos bancos e os torna muito mais seletivos na concessão de crédito, espremendo gradativamente os clientes para fora do mercado de crédito. Quanto maior a recessão, maior o aumento da inadimplência.
Para o BC, pouco importa. Nos últimos anos, o BC permitiu a expansão das atividades offshore, fechou os olhos a atividades criminosas - exemplos típicos, os dez anos de lambança de Edemar Cid Ferreira, as aventuras em Foz do Iguaçu, o caso Banestado - e toda análise de juros levava em conta a relação custo x benefício para os gestores de recursos.
O jogo acabou mundialmente. A quebra do sistema americano de bancos de investimento, os bancos suiços sob investigação internacional, a estatização do sistema bancário europeu decretaram o fim do ciclo.
No Brasil, como tudo chega atrasado, ainda se terá que aturar por algum tempo essa poder do BC.

Por Guilherme Silva Araújo
Nassif,
Acho que nesta questão ajudaria resgatar o debate sobre o papel das inovações financeiras e o debate sobre endogenia da moeda. O Banco Central tem se mostrado fundamentalista ao julgar que apenas o instrumento “taxa de juros” é suficiente para controlar os agregados monetários. As inovações financeiras dos últimos quarenta anos deram às instituições financeiras um poder muito grande de criar moeda. Vide o exemplo dos derivativos: Para aumentar sua soma de encaixes reais e o volume de empréstimos, os bancos norte americanos passaram a comercializar tais ativos, comprometendo assim seu capital próprio. Na medida em que as instituições menores começaram a mostrar sinais de que não tinham recursos para pagar os empréstimos, engendrou-se um clima de incerteza porque as maiores tinham créditos a receber das menores. Como todas comprometem seus capitais para elevar seus encaixes reais e o volume de empréstimos, as chances de quebradeira se tornaram evidentes.
Segundo Minsky (Estabilizing an Unstable Economy), o sucesso dos Bancos Centrais em regular a oferta de moeda depende muito mais do marco legal existente do que da taxa de juros. Contudo, devido ao ritmo frenético com que as inovações ocorrem nos mercados financeiros, os marcos legais tornam-se obsoletos muito rapidamente. Neste sentido, os Bancos Centrais são mais eficientes como emprestadores de última instância, ou seja, como agentes normalizadores das expectativas. O BC brasileiro é falho em normalizar expectativas porque julga a taxa de juros instrumento suficiente para controlar a oferta de moeda. em um contexto com sinais de endogenia (tal como ocorre conteporaneamente), mudanças da taxa de juros têm pouco efeito sobre o volume de liquidez, principalmente se os agentes não desejam emprestar.
A reclamação do Bradesco é válida, mas vai falar sozinho. O Bradesco, julgo eu, é um banco que guarda sólidas relações com a economia real, que tem um tino comercial, ao contrário das demais instituições, que direcionaram suas operações para os títulos públicos e outras quasi-moedas. Devido a estas relações, o sucesso do Bradesco depende muito do funcionamento da economia real. Mas não acho que os demais bancos serão solidários, até porque continuam batendo recordes de lucratividade mesmo no atual contexto. Abcs

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Estado policial ou gangster? - por Alexandre (blog do Nassif)

Por Alexandre
Caro Nassif,

Muitos são os sofismas dos discursos relacionados à investigação sobre Daniel Dantas.

Quando o tema é o procedimento investigativo da PF, vale o apego cego à observância do rigorismo formal. O foco nunca é direcionado para as peculiaridades do crime, nem tampouco para a força ou para a astúcia do criminoso; mas, sim, à importância dos chamados “direitos fundamentais processuais”.

Em momento algum há espaço para reflexões sobre a capacidade de o Crime Organizado atuar acima das possibilidades de repressão ordinária do Poder Público. O esforço extraordinário do agente público é rotulado de “messianismo”. Diligência demasiada é, por si, suspeita, e até mesmo recebida como ameaça ao Estado de Direito.

Por outro lado, quando se está diante de uma decisão judicial assentada em estrita observância do rigor formal, impõe-se, então, outra estratégia argumentativa.

De início, as evidências fáticas são minimizadas, quando não ignoradas. Em seguida, há uma confusão intencional de valores. O peso atribuído aos supostos abusos praticados pelo Poder Público (seja por ocasião do uso de algemas, seja em relação às escutas telefônicas ou às prisões preventivas) passa a ser, de súbito, muito maior do que aquele que sempre lhes foi reconhecido. Surge o perigoso Estado Policial.

O foco do debate é deslocado para as estrelas, invocando-se temas universais como o da “liberdade”, o da “dignidade da pessoa humana” e o da “garantia dos direitos fundamentais”. Coisas importantes no mundo jurídico, mas que jamais foram asseguradas em lugar algum, de modo eficaz – ironicamente, uma das razões de tal ineficácia é a própria ingerência do Crime Organizado junto ao Poder Público.

Não se percebe em parte alguma a ponderação dos valores em conflito. Qual a ameaça mais grave: o surgimento do Estado Policial ou do Estado Gângster?

sábado, 3 de janeiro de 2009

A dor palestina

http://www.alaqsavoice.ps/arabic/?action=detail&id=28180

Enquanto isto, os EUA...

Feliz aniversário

Não pude escrever antes, mas aqui vai: foi com muito contentamento e alegria que podemos comemorar o quinquagésimo aniversário da revolução cubana.
Fidel e seus companheiros entraram indelevelmente na história como Homens. Homens com "H" maiúsculo, mesmo.

Por falta de tempo não me estenderei sobre os grandes feitos destes heróis, apenas reproduzirei duas matérias do Estadão, lembrando: o Estadão é o Estadão. É mais de direita que a própria direita.

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,nas-trilhas-da-revolucao,299661,0.htm
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup299667,0.htm

Sobre Israel e a Palestina - por José Saramago

http://caderno.josesaramago.org/2008/12/22/gaza/
http://caderno.josesaramago.org/2008/12/31/israel/


Comentário: Quem, em sã consciência, pode negar que Israel tornou-se um estado bandido?
Parece quererem infligir em outros povos os mesmos sofrimentos que os judeus sofreram ao longo da história.
Que lástima.