quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Arte digital - por Inspiration Hut

Na Suíça, uma seleção brasileira de negócios- por Fernando Vives (De Olho na Copa – yahoo)

O Brasil de Mano Menezes entrou em campo nesta terça-feira bem na Suíça, na minúscula cidade de St. Gallen. O estádio tem capacidade para 19 mil pessoas e nem lotou: 15 mil almas testemunharam o jogo da seleção brasileira contra a Bósnia que, se é um time de um nível bem fraquinho, vá lá, ao menos é um fraquinho aceitável - lembrando que Ricardo Teixeira já fez a camisa mais tradicional do futebol enfrentar Estônia, Gabão, Tanzânia e outras seleções obscuras em estádios dignos de romances de realismo fantástico.

Em campo, jogadores que foram crianças nos primeiros anos da gestão de Teixeira na CBF. Alguns, como Neymar, já nasceram sob o escrutínio futebolístico do manda-chuva. E alguns desses foram para a Europa sem antes estabelecerem qualquer vínculo com os clubes brasileiros, como Dani Alves, David Luiz, Marcelo e Hulk. Vê-los em campo pela seleção causa a mesma reação que assistirmos jogos de seleções europeias: um certo distanciamento, como se não fosse a gente que estivesse representado com aquela camisa amarela e verde. E, ressalta-se, isso não é culpa deles. É um problema que a CBF deveria ao menos minimizar ao menos há 20 anos, com a diáspora se intensificou.

Outro fato, essa ainda mais exótico, foi a convocação de Ronaldinho Gaúcho - ou o que sobrou dele. O Gaúcho que encantou o mundo ficou para trás, já faz cinco, seis anos. Foi bem esquisita essa convocação do camisa 10, com aquele jeitão de cláusula de contrato para o amistoso ao estilo "se convocarem o Ronaldinho, pagamos U$ xxx a mais". Foi isso mesmo? Seria a primeira vez? Suspeitas anteriores já ocorreram. E a CBF segue com a boca trancafiada sobre o assunto.

Acabei acompanhando só os melhores momentos do amistoso, vitória do Brasil, 2 a 1, com gol contra nos instantes finais. Os jogadores tinham aquela feição de quem estava lá cumprindo uma chata obrigação sem muito sentido, num lugar que não tinha nada a ver com o Brasil, nem com a seleção, nem com os clubes deles, nem sequer com o próprio futebol - a Suíça está para a modalidade assim como o chocolate está para o Brasil.

O amistoso contra a Bósnia foi um retrato fiel da gestão Ricardo Teixeira à frente da CBF: deve ter rendido uns bons tostões para o cofre da entidade, mas foi opaco, sem carisma, sem qualquer relação com a paixão que é a essência do futebol. Uma seleção brasileira de negócios. Saia da entidade semana que vem ou daqui a 20 anos, é esse o legado que ele deixou ao futebol brasileiro.

Pouca coisa pode ser tão triste para quem gosta de futebol quando este cenário. Nesse ritmo, ver jogo do Brasil em copa do mundo causará uma comoção similar a ver programa de pesca na tevê durante a madrugada. Parabéns, Teixeirão.

Comentário
De fato, o Brasil esta perdendo a Copa do mundo a olhos vistos.
Outra coisa que impressiona é a capacidade de alguns vilões do Brasil se manterem impunes. Ricardo Teixeira é um deles.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sakura 2010

 Guwashi999

Tribunal da Inquisição - Medíocres Torquemadas - por Mauricio Dias (CartaCapital)

Acuado
As igrejas, sempre de costas para o futuro, continuam intolerantes às renovações. No tempo do domínio católico no Ocidente, os contestadores de falsas verdades eram atirados à fogueira, amaldiçoados pela Inquisição, que não dava trégua a supostas heresias.

Nos dias de hoje, impotentes para ditar condenações capitais, os inquisidores ordenam aos fiéis a punição de políticos que defendem propostas dissidentes à doutrina que pregam. O aborto e a defesa da homofobia são os exemplos mais gritantes. E irritantes. Em reação, eles promovem nas eleições a "queima" de votos dos hereges e, com isso, cerceiam a liberdade do eleitor e intimidam os candidatos.

Assim agem os pregadores das igrejas evangélicas. São os novos inquisidores.

Essa réplica tardia e infeliz do Tribunal de Inquisição materializou-se no Congresso, onde foi depor o ministro Gilberto Carvalho, na terça-feira 15 de fevereiro. Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, viu-se forçado a expiar publicamente "pecados" cometidos aos olhos da poderosa bancada evangélica, transformada em braço executivo de diversas igrejas religiosas.

"O pedido de desculpas, de perdão, não foi pelas minhas palavras, e sim pelos sentimentos que provocaram", disse o ministro.

Qual foi a heresia? Gilberto Carvalho, durante o Fórum Social Mundial, manifestou preocupação política com os evangélicos: "A oposição virou pó (…) a próxima batalha ideológica será com os conservadores evangélicos que têm uma visão de mundo controlada pelos pastores de televisão".

Carvalho é católico fervoroso, mas também é militante político. Petista. Em razão do cargo, não foi cauteloso, embora tenha falado ingênuas obviedades. Não pregou o cerceamento de qualquer manifestação religiosa. Mas foi o suficiente para despertar a ferocidade adormecida da Frente Parlamentar Evangélica, na qual se destaca o senador capixaba Magno Malta, que, entre outras ofensas, chamou o ministro de "irresponsável".

Um parlamentar ateu presente ao encontro fechado à imprensa descreve assim o ambiente naquele dia: "Os olhos dos senhores parlamentares disparavam chispas de fogo, ódio, raiva e intolerância diante daquele enviado do Maligno que se tornara ministro (…). O clima era pesado. Aquela reunião e a Inquisição têm tudo a ver. Tenho certeza que não exagero. O problema para eles era não poder acender a fogueira. Restavam-lhes as línguas de fogo, prontas a queimar o demônio pecador".

Serelepe, o deputado Anthony Garotinho, ex-governador do Rio e evangélico atuante, também se destacou na ocasião. Sem sucesso, tentou forçar o ministro a assinar um documento desmentindo as declarações publicadas, mas diferentes do que falou, garantiu Gilberto Carvalho. O inquisidor fez, pelo menos, uma declaração expressiva e inteiramente adequada ao ambiente criado.

"O perdão está para a Igreja assim como a anistia está para a política", comparou Garotinho.

Igreja e política. O desempenho de Garotinho aproximou ainda mais aquela reunião no Congresso do espírito obscurantista assumido pelos evangélicos. Nesse sentido, fazem uma repetição tardia do catolicismo primitivo.

Os votos dos evangélicos, arma que usam no processo político, talvez não sejam eleitoralmente decisivos. São muitos, é certo. O suficiente para acuar candidatos em busca de votos. Com eles acuaram Dilma e Serra, na eleição de 2010, e transformaram a competição em espetáculo para exibição de medíocres Torquemadas.

Rio Suave - por Hamed Saber (Fotografia)

Entrevista com Ciro Gomes (PSB), ex-ministro da Fazenda - por Kennedy Alencar (É notícia)

http://www.redetv.com.br/jornalismo/enoticia/?247241,Ciro-Gomes-PSB-ex-ministro-da-Fazenda
http://www.redetv.com.br/getVideo.aspx?cdVideo=247250&autostart=1
http://www.redetv.com.br/getVideo.aspx?cdVideo=247254&autostart=1

Comentário
Não vejo nenhum candidato viável com a capacidade de formulação, com a ideologia e a postura do Ciro Gomes para suceder a Dilma em 2018.
Suas análises são primorosas - e é uma pena que ele não componha o atual ministério do governo federal.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O último discurso de "O Grande Ditador" - por Charles Chaplin


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Os tucanos se bicam - por Marcos Coimbra (CartaCapital)

Como se dizia antigamente, com os amigos que têm os tucanos não precisam de inimigos. Dia sim, outro também, seus líderes se atacam e se acusam, expondo, sem qualquer comedimento, as desavenças em público.

O protagonista do capítulo mais recente foi ninguém menos que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Justo o presidente de honra da legenda, a quem, imagina-se, estaria confiado o papel de “sábio estadista”, de eixo de equilíbrio entre seus grupos e facções. Se, aos 80 anos, FHC continua a atiçar as fogueiras, imagine do que são capazes seus correligionários (e o que ele próprio fazia quando era mais jovem).

Semana passada, ele aproveitou a oportunidade de uma entrevista à edição eletrônica da revista inglesa The Economist para falar coisas extraordinárias. Os velhos bordões a respeito de seus governos – na linha do “fui eu que fiz tudo de bom que hoje existe” – estavam lá, mas em meio a algumas novidades.

Foi, provavelmente, a mais explícita manifestação sobre José Serra e suas tentativas de chegar à Presidência. Em uma avaliação cruel e sem meias-palavras, colocou no colo do ex-candidato a responsabilidade pelas derrotas. E deixou claro seu temor de que Serra volte a representar o PSDB em futuras eleições presidenciais.

(É possível que a franqueza do ex-presidente tenha uma explicação prosaica: ao que parece, preferiu dar a entrevista em inglês. Embora FHC se orgulhe de conseguir se expressar muito bem nesse idioma, nunca é a mesma coisa que falar em português. Fogem as palavras para os eufemismos e os circunlóquios. As coisas   ficam mais duras: pão é pão, queijo é queijo.)

Não que fizesse revelações. A história de como Serra tornou-se candidato em 2002, por exemplo, era conhecida. Mas não havia sido contada por FHC ou outra autoridade peessedebista: a “tensão” entre os pré-candidatos do governismo de então, o modo como Serra se impôs sobre eles, sua vitória “inconvincente”. Diz FHC que seu “candidato natural” seria Mário Covas, se a fatalidade não o tivesse levado um ano antes. Serra foi apenas quem sobrou (depois de eliminar seus concorrentes), mas não conseguiu “convencer” o eleitorado. Ou seja, a vitória de Lula – e o início do ciclo petista no Planalto, que não dá sinais de que terminará em 2014 – nada tem a ver com o julgamento desfavorável de seu governo. A culpa é de Serra.

Como é ele, também, a explicação da derrota em 2010. Sua “arrogância” o impediu de formar alianças, seu “isolamento” o levou a conduzir uma campanha onde “erros enormes” foram cometidos. Perguntado se teria sido possível ao PSDB vencer Dilma, apesar do endosso de Lula, disse que sim. Desde que o candidato não fosse Serra.

O fascinante na formulação é que ele nunca se considera responsável pelo que faz o partido que preside. O presidente da República era ele em 2002, mas, como estava “cansado de exercer a liderança política” – e “não apenas por generosidade” –, resolveu lavar as mãos. Em 2010, achava que Serra não era a melhor opção, mas ficou quieto (ou não conseguiu fazer nada para impedi-lo de, outra vez, se arrogar o direito de ser candidato).

Essa liderança que não lidera conflita com a autoimagem que tem. Sem qualquer modéstia – e pouca visão da realidade –, FHC acha que ele e Lula são “os dois únicos líderes” brasileiros dos “últimos 20 anos” (o que entende ser pouco para “um país tão grande”).

Como se houvesse qualquer semelhança entre as trajetórias de ambos: sem três ou quatro acidentes (a morte de Tancredo, o fracasso de Sarney, o impeachment de Collor, o desaparecimento de Covas), FHC não existiria (ou seria muito menor do que é), enquanto Lula continuaria a ser Lula, pois não precisou do acaso – e nem de um Plano Real – para chegar aonde chegou. Fernando Henrique diz que o PSDB tem de “reorganizar a hierarquia da liderança” (o que, em tucanês, quer dizer definir quem manda no partido), pois ninguém surgiu para ocupar o lugar que tinha. Quanto a si mesmo, explica que “tomou a decisão (…) de abrir espaço”, pois, na altura da vida em que está, “perdeu a vontade” de liderar.

A entrevista reflete o clima em que vive o PSDB. Seu presidente de honra divide, em vez de somar. É magnânimo na repartição das responsabilidades pelas derrotas, mas avaro na reivindicação dos sucessos. Acredita que cabem (somente) a Serra as culpas pelas decepções recentes. Parece ter de Geraldo Alckmin uma opinião nada elevada, nem ao menos o considerando um ator na próxima sucessão presidencial.

Quanto a Aécio, foi enfático ao dizer que é o “candidato óbvio” do PSDB em 2014, mas, perguntado se teria condições de ganhar, tergiversou. Repetiu a trivialidade de que ele tem “algum apoio” em Minas, mas que será obrigado a brigar com Serra para se tornar candidato. Não disse sim, nem sequer que poderia vencer.

Com lideranças desse tipo, é impossível que um partido esteja bem.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.

Senhor do carisma pop (entrevista com Tales Ab’Sáber) - por Mônica Manir (O Estado de São Paulo)

Para psicanalista, Lula encarna um produto midiático que pode ser perfeitamente redesenhado


Estado: Lula tema da Gaviões da Fiel é a representação máxima de seu carisma pop?
Tales Ab’Sáber: Já faz muito tempo que as escolas de samba puxam uma asa para o discurso oficial, às vezes de forma vendida, às vezes de forma comprada. Já teve escola fazendo o Maranhão, que era um jeito paralelo de falar do José Sarney. É um movimento das escolas de tentar se colocar à altura dos poderes da sociedade. Então não surpreende que uma delas eleja o Lula como tema, considerando o sucesso e a intensidade recente do personagem. Agora, é claro que existe um vínculo muito especial e pouco pesquisado do Lula com o Corinthians.

Estado: O que foi pouco pesquisado?
Tales Ab’Sáber: A cidade tinha um estádio pronto, um estádio tradicional, um estádio grande, um estádio bom. Como isso foi abandonado para construir do zero um outro estádio? É evidente que é uma decisão econômica, de bons negócios, e isso fala muito do nosso momento. Se é racional, se não é racional, todas as discussões desaparecem diante do fato de que algumas pessoas vão enriquecer com isso. É uma história mal contada. No futuro a gente vai saber como é que o presidente, de algum modo, teve uma agendinha pro Corinthians. Isso está sendo coroado agora, no carnaval.

Estado: Em que medida a falta de barba e talvez um prejuízo na voz afetam o carisma do ex-presidente?
 Tales Ab’Sáber: Acho que, no Brasil, houve uma mudança do nível do carisma. Ele funciona agora como uma marca, um brand forte, tal qual a Coca-Cola. Funciona sozinho, não precisa de esforço para se reproduzir. O governo Lula e as forças que se congregaram em volta acabaram por transmutar a posição de um carisma pessoal, popular, para um carisma midiático, algo semelhante à propaganda. Se houver uma perda significativa na voz, isso é muito sério pro Lula. Sua voz é uma singularidade do seu corpo. Agora barba, signos assim, podem ser perfeitamente redesenhados, como se redesenha uma mercadoria de ponta, sem perder nada. O pacto desejante ao redor dele é muito grande.

Estado: Só por causa do carisma?
Tales Ab’Sáber: Não só. É também pela facilidade de conciliar contradições, de colocar na mesa inimigos que não se relacionariam em nenhum outro lugar. Lula é o conciliador da direita com a esquerda, o popular com o capital. Essa figura política é muito importante, esse lugar ele não perde. O mensalão foi, paradoxalmente, o grande golpe do acaso a favor do Lula. Aquela foi uma crise muito grave, botou o governo em risco, mas acabou por diminuir a potência do PT e liberar o poder do seu líder, que era o presidente. Ele precisava ficar protegido e, ao mesmo tempo, negociar uma possível anistia para o mensalão. Um ano e meio antes, Lula era uma figura simbólica. Com a queda do José Dirceu e toda a estrutura do partido, entrou como articulador do seu próprio governo.

Estado: A crise econômica global ajudou também.
Tales Ab’Sáber: Sim, houve uma mudança do significante que vem do todo. O capitalismo regrediu e o Brasil continuou na mesma. Podia ter acontecido antes ou depois, embora não tenha sido por acaso o fato de estarmos protegidos nesse cenário. O sistema financeiro era forte; a China era um guarda-chuva para o País porque comprava e compra grande parte dos nossos produtos; e íamos vender petróleo. O capitalismo está regredindo agora, mas daqui a cinco anos pode crescer pelo Brasil. Isso é a estrela do Lula. Ele tem sorte para que todas essas coisas aconteçam para ele.

Estado: Ao mesmo tempo, tentou três vezes a Presidência e não conseguiu. A estrela ainda não estava no ponto?
Tales Ab’Sáber: O que permitiu ao PT chegar ao poder foi a adesão aos parâmetros do capitalismo contemporâneo. Com isso ele ocupou as funções históricas do PSDB, cuja base social, o capitalismo financeiro brasileiro, aderiu ao projeto petista. Além disso o PT agregou, por meio do Lula, a ideia de que a grande massa de excluídos brasileiros está incluída via mercado. Lula conseguiu um pacto de aceitação da classe trabalhadora da gestão capitalista da sua existência. Para tanto, as pessoas precisavam acreditar que estavam ganhando algo, mesmo que fosse pouco mais do que ganhavam. A integração é simbólica. Aí está o carisma no sentido mais forte. As pessoas acreditavam que estavam num processo de integração por amor a ele. Do ponto de vista crítico, essa integração é mínima. A vida dos brasileiros continua horrorosa, as pessoas continuam acordando às 4 da manhã para pegar um ônibus lotado, para ganhar muito pouco, para não ter perspectiva alguma de educação, para morar em lugares horríveis. Mas todas essas mazelas estão suspensas por um horizonte de que está acontecendo alguma coisa. Tem um psicanalista, o Donald Winnicott, que diz que a mãe precisa ser suficientemente boa para o bebê. Ela não é infinitamente boa, nem perfeitamente boa. Ela é boa o suficiente no trabalho difícil de ajudar o filho a crescer. Poderíamos dizer que o governo Lula foi suficientemente bom para uma integração capitalista brasileira. Bom o suficiente. Nem bom demais, nem bom de menos. Isso é raro no Brasil. Essa é a obra de Lula, mais do que o Bolsa-Família.

Estado: O Obama, quando eleito, tinha uma popularidade altíssima, que regrediu nos últimos tempos. Foi apenas o acaso da crise do capitalismo do mundo?
Tales Ab’Sáber: Não dá para comparar o estágio atual de desenvolvimento dos dois países nem sua estrutura política. O Brasil inventou esse presidencialismo de coalizão, que tende a trazer todos os pequenos partidos e os de centro para dentro do governo. O PT era fortemente crítico a esse jogo fisiológico da política brasileira. Ele viria para modernizar e racionalizar isso daí. Cedeu em toda a linha, cedeu à tradição brasileira.

Estado: E continua cedendo, aceitando uma maior proximidade com o PSD?
Tales Ab’Sáber: O PSD quer o poder, porque esses partidos são partidos de poder. É muito diferente dos EUA. Lá o Obama enfrenta uma oposição ferrenha, irracional, antissocial, que chega a ser delirante. E, nessa luta ferrenha do partidarismo, o Obama perdeu força porque não conseguiu operar bem essa linha. Lá é branco e preto, lá tem que vencer o inimigo. Ele não conseguiu forças pra isso, então congelou o governo por um bom tempo. Só que os americanos são muito pragmáticos. Querem que o Obama faça, é responsabilidade dele achar um modo de resolver isso. Aqui quase toda a oposição é a favor do governo.

Estado: Como avalia o momento do PSDB, com a indefinição quanto às prévias para escolher um candidato à prefeitura de São Paulo?
Tales Ab’Sáber: Essa insolidez do PSDB tem origem lá trás, quando as bases sociais do PSDB migraram para o projeto petista-lulista. Isso ficou claro quando banqueiros vieram do primeiro para o segundo turno dizendo que, para eles, tanto fazia a vitória do Lula ou do Alckmin, que não importava mais o teatrinho do passado em relação ao PT. Importava a eficácia do partido em mobilizar o capitalismo contemporâneo. Ali o PSDB acabou. O PSDB nunca teve enraizamento social ligado a movimentos sociais, não conseguiu se infiltrar na federação como o PMDB. O PSDB era o partido que modernizaria o capitalismo brasileiro e que serviria como tampão para evitar a chegada ao poder do PT. Como o PT virou o horizonte de modernização do capitalismo, a necessidade política do PSDB se desfez. Hoje o PSDB é um monte de cacique sem estrutura, sem força política, lutando para ver se se sustenta como um símbolo vazio.

Estado: A candidatura de José Serra poderia reverter esse processo?
Tales Ab’Sáber: Olha, daria para fazer um livro sobre o Serra também. Neste momento, o Serra precisa assumir que é uma liderança importante e desarticuladora. Sempre foi. É uma tendência autoritária dele se impor a todos os debates. O que o Lula tem de agregador, ele tem de ataque às ligações. Ao mesmo tempo, é o herdeiro da confiança da elite conservadora paulistana, que agora não tem objeto em que depositar sua esperança a não ser ele. De algum modo, o PSDB está refém do Serra. O partido não tem alternativa, não dá para vir com o neto do Mario Covas, que é um moleque. É muito patética essa tentativa de construir um Chalita na última hora.

Estado: Falando em Gabriel Chalita, como classificar o carisma dele?
Tales Ab’Sáber: Esse é um grande sedutor. A carreira dele é a construção de mecanismos de sedução. O Chalita era um professor do Colégio Santa Cruz quando tentou ser vereador. Depois foi professor da PUC, onde quase virou reitor. É um demagogo, mas um neodemagogo, um demagogo pós-moderno. O Lula tem carisma, mas sempre representou forças reais, como representava Getúlio Vargas. O suicídio do Getúlio foi uma ação carismática com um gesto sobre o próprio corpo. Mesmo que sobre a morte, ele barrou o processo político que estava acontecendo. E aí a gente vê o tipo de compromisso que o Max Weber fala que o líder carismático tem. Ele empenha sua existência, chama o jogo para si, é o cara. E o Chalita? É um tipo Jânio, só a sua própria voz.

Estado: Por que ele seduz?
Tales Ab’Sáber: O Chalita é o menininho falso brilhante de classe média. Ele escreveu 60 livros. Seria um gênio, se um livro dele prestasse. Foi secretário de Educação do governo Alckmin, uma barbaridade. Um moleque sem lastro técnico nenhum dirigindo a Universidade de São Paulo, a Unicamp, e não houve reação a isso. Aí você vê como essas figuras conservadoras são fortes em São Paulo. Ele é uma mistura de radialista, animador e falso intelectual, que no entanto funciona perfeitamente. O Lula tem muito medo dele. O Lula vê que a demagogia dele é eficaz.

Estado: E que símbolo é o Fernando Henrique?
Tales Ab’Sáber: O Fernando Henrique foi negado pelo tucanato durante todo o governo Lula, não por acaso. No fim do governo Fernando Henrique, ele era um passivo muito grande para o PSDB, se configurando uma figura antipopular porque o País ficou anos parado, sem crescimento. Os marqueteiros tinham pesquisas dizendo: "O Fernando Henrique tira votos". Então ele tinha que ser deixado de lado porque a ideia era levar o Serra para o segundo turno para que o PSDB não sumisse naquela hora. Houve um momento de pânico. Depois disso, a própria Dilma fez um gesto de recuperar o Fernando Henrique, talvez como figura histórica, como diferenciação dela em relação ao Lula, na mesma linha do afastamento do imbróglio diplomático com o Irã. São gestos fáceis, que não significam nada, até pela avaliação de que o PSDB está estraçalhado. Com o esvaziamento do tucanato, o Fernando Henrique volta como uma coisa bem brasileira, que o Machado de Assis chama de medalhão, uma pessoa acima do bem e do mal, embora o livro A Privataria Tucana mostre que os tucanos não estão assim tão acima do bem e do mal. Aliás, se o Serra for mesmo o prefeito, espero que esse livro finalmente venha à tona. Os políticos não querem tocar nisso porque é provável que toda a política brasileira esteja funcionando assim hoje. É isso que é aderir incondicionalmente ao capitalismo.

Estado: O Lula volta em 2014?
Tales Ab’Sáber: Tem que lustrar a bola de cristal. Não sei. Depende muito do seu estado físico. Parecia que o mandato da Dilma seria um tampão para a volta do Lula, mas, se o governo dela estiver indo bem, talvez não haja necessidade disso. Acho que o Lula é um político de horizontes mais amplos, não necessariamente precisa estar no governo, desde que esteja produzindo um projeto político.

Estado: Ele não precisa dos holofotes?
Tales Ab’Sáber: Acho que precisava até chegar à Presidência. O fato de não ter flertado com o terceiro mandato abriu uma perspectiva mais ampla do que a mera política de estar no poder. No momento está jogando para a conquista da prefeitura de São Paulo, fazendo um movimento de renovação que os outros partidos não fizeram. Ele escolheu a Dilma, neófita, por um motivo que parece técnico. Do mesmo jeito escolheu o Haddad, um tipo de quadro de que o PT não gosta porque não vem das bases operárias, não vem da gestão cotidiana do partido. Curioso que o Haddad seja um pouco semelhante à Marta. É um cara que tem ligações com a universidade, um especialista, um professor, foi escolhido a dedo para ganhar esse povo que resiste ao PT em São Paulo. Vão atacá-lo porque roubaram uma prova do Enem? Não é culpa do MEC roubarem uma cópia do Enem. Foi um crime comum, um caso de polícia. O Haddad não conseguiu dizer isso. Ele passou recibo, aceitou como se fosse uma coisa do ministério. Nesse sentido, mostra que não é um político muito hábil.

Estado: No fim do livro você escreve que a homogeneidade cultural prepara a homogeneidade política. Tudo está junto e misturado?
Tales Ab’Sáber: Tudo é a mesma coisa. Isso é uma péssima notícia política para o tucanato. Ele não faz mais diferença. Perfume francês, falar inglês e ter passado por Harvard seis meses? Pode ser o Kassab também. Todos os políticos querem inflar a economia, inserir mais gente no consumo, e vai criando este mundo em que mesmo as pessoas de vanguarda não suportam a vanguarda. Não suportam a negatividade. O Brasil está muito fechado nisso. O centro do capitalismo, por causa da crise, perguntou que mundo é este. No Brasil, não. Aqui, o mundo é este. No centro do capitalismo se sabe que o capitalismo não entrega inteiramente o seu bife. Cria-se toda essa cultura de fetichismo e uma hora isso acaba. Puf! E aí as pessoas podem passar dez anos num inferno. Já se pergunta se esse é o melhor jeito de a humanidade viver, com tanta riqueza, com tanta tecnologia. Mas isso vai demorar muito tempo para se transformar numa teoria crítica de transformação. Vai se fazer uma nova rodada de todo poder ao mercado, de todo poder ao dinheiro, com tudo o que isso tem de doença.

Estado: Se o mundo não acabar neste ano.
Tales Ab’Sáber: Se isso não destruir o mundo antes.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Serra tem a unidade do ódio - por Brizola Neto (Tijolaço)

 A tucanagem paulistana não está em pé de guerra, como algumas notícias de jornal poderiam fazer crer. Gemidos, ranger de dentes, mas logo estarão convivendo com o inevitável, do qual quiseram escapar.

Serra, candidato, será a solução natural da direita.

Não há, entre seus quadros, alguém que a traduza tanto o ódio, o despeito, o inconformismo com o que a elite vê a “gentalha” que passou a ser importante no Brasil.

O que a candidatura Serra tem a oferecer a São Paulo, além disso? Um ano e alguns meses de “gestão” até que ele vá, como um fantasma que arrasta as correntes de sua maldição, candidatar-se a Presidente, outra vez. Aliás, um curto tempo em que estará mais ocupado em sabotar Aécio do que com a cidade?

Serra só pode oferecer o ódio e por isso sua cabia tentar evitar sua candidatura.

O ódio nunca é revolucionário, embora a raiva estar presente nas revoluções e às revoluções seja um desafio contê-la. Mas o ódio tem um nível de premeditação e egoísmo que só o reacionário alcança, porque quer impedir e não aceitar.

Qualquer candidato de esquerda, tem de conceder, transigir, abranger, incluir para representar a São Paulo cosmopolita e polibrasileira.

Tem de ser o avanço, o sim.

Serra tem de ser o candidato do passado, do “não”.

Serra, e nenhum outro, pode expressar isso tão plenamente.

Ele é o mal em estado puro e vai arrastar, na sua partida, “almas” que em torno dele gravitaram e que não lhe podem escapar, vencendo ou perdendo. Estão, as forças de direita, todas com eles, mas muitas delas loucas por escapar-lhe.

Porque Serra é um vórtice, não uma fonte; um inverno, não uma primavera. Um destruidor, não um construtor.

Ao contrário de Lula, alguém consegue imaginar Serra estendendo a mão a um adversário? Construindo um caminho comum com alguém, uma nova alternativa?

Serra será o candidato dos que odeiam. Um candidato da carranca, do rancor, da tristeza, da treva.

Contra o qual a alegria e luz podem ser, se o compreendermos e fugirmos do sectarismo, podem ser invencíveis.

“Perdendo o mundo”: o declínio dos EUA em perspectiva – por Noam Chomsky (Carta Maior - Aljazeera)

Aniversários significativos são comemorados solenemente – o do ataque japonês à base da Marinha norteamericana de Pearl Harbor, por exemplo. Outros são ignorados, e podemos sempre aprender importantes lições que eles nos dão de como é possível seguir mentindo adiante. Na verdade, agora.

No momento, estamos errando em não comemorar o 50° aniversário da decisão do presidente John F Kennedy de promover a mais assassina e destrutiva agressão do período pós-Segunda Guerra: a invasão do Vietnã do Sul, e depois de toda a Indochina, deixando milhões de mortos e quatro países devastados, com perdas ainda crescentes causadas pela exposição do país aos carcinogênicos mais letais de que se tem conhecimento, que comprometerem a cobertura vegetal e a produção de alimentos.

O primeiro alvo foi o Vietnã do Sul. A agressão depois se espalhou para o Norte, e então para a sociedade remota do nordeste do Laos, até finalmente chegar ao rural Camboja, que foi bombardeado de tal maneira que chegou ao nível impressionante de ser alvo de todas as operações aéreas aliadas da região do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo as duas bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. Aí, as ordens de Henri Kissinger estavam sendo obedecidas – “qualquer coisa que voe ou se mova”; uma rara convocação para o genocídio na história.

Pouco disso tudo é lembrado. A maior parte desses massacres é escassamente conhecida para além dos estreitos círculos de ativistas.

Quando a invasão teve início, há cinquenta anos, a preocupação era tão pouca que havia poucos esforços de justificação; dificilmente iam além do impassível apelo do presidente de que “estamos nos opondo, ao redor do mundo, a uma conspiração monolítica e brutal que opera principalmente em meios disfarçados de expansão de sua esfera de influência” e se a conspiração consegue realizar seus objetivos no Laos e no Vietnã, “os portões estarão amplamente abertos".

Em outro lugar, ele alertou em seguida que “as sociedades leves, complacentes e autoindulgentes estavam para ser varridas para os escombros da história [e] só a força... pode sobreviver”, neste caso refletindo a respeito do fracasso da agressão e do terror estadunidenses para esmagar a independência cubana.

Quando os protestos começaram a crescer, meia dúzia de anos depois, o respeitado historiador militar e especialista em Vietnã Bernard Fall, nenhum pacifista, previu que “o Vietnã como uma entidade histórica e cultural... está ameaçada de extinção... [enquanto]... a sua área rural literalmente morre sob as explosões da maior máquina militar jamais em operação numa área deste tamanho”. Ele estava, mais uma vez, referindo-se ao Vietnã do Sul.

Quando a guerra acabou oito horrendos anos depois, a opinião dominante estava dividida entre aqueles que a descreviam como uma “causa nobre” que poderia ter sido vencida com mais dedicação e o extremo oposto, os críticos, para quem se tratou de “um erro” que se provou altamente custoso. Por volta de 1977, o Presidente Carter chamou pouca atenção quando explicou que “não havia dívida” nossa com o Vietnã porque “a destruição foi mútua”.

Há lições importantes em tudo isso para hoje, mesmo deixando de lado os fracos e derrotados que são chamados para responder por seus crimes. Uma lição é que para entender o que está acontecendo devemos buscar não apenas criticar os acontecimentos no mundo real, frequentemente dispensados pela história, mas também aquilo em que os líderes e a opinião da elite acreditam, mesmo que com tintas de fantasia. Outra lição é que, ao lado dos frutos da imaginação fabricados para aterrorizar e mobilizar o público (e talvez acreditados por aqueles enganados pela própria retórica), há também planejamento geoestratégico baseado em princípios que são racionais e estáveis em longos períodos, porque estão enraizados em instituições estáveis e na agenda destas. Isso também é verdade no caso do Vietnã. Eu voltarei a isso, só destacando aqui que os elementos persistentes na ação estatal são geralmente bastante opacos.

A guerra do Iraque é um caso instrutivo. Ela foi vendida para um público aterrorizado com as ameaças usuais da autodefesa contra uma formidável ameaça à sobrevivência: a “única questão” que George W. Bush e Tony Blair declararam foi se Saddam Hussein iria encerrar o seu programa de desenvolvimento de armas de destruição em massa. Quando a única questão recebeu a resposta errada, a retórica do governo mudou rapidamente para o nosso “anseio por democracia”, e a opinião pública educada seguiu devidamente o curso; o de sempre.

Mais tarde, à medida que a escalada da derrota no Iraque se tornou difícil de esconder, o governo quietamente concedeu o que estava claro para todo mundo. Em 2007-2008, a administração anunciou oficialmente que um acordo final deve assegurar a permanência de bases militares dos EUA e o direito de operações de combate, no país, e deve privilegiar os investidores estadunidenses na exploração de seu rico sistema energético – demandas que mais tarde foram relutantemente abandonadas diante da resistência iraquiana. E tudo ficou bastante escondido da maioria das pessoas.

Padronizando o declínio americano

Com essas lições em mente é útil dar uma olhada ao que é destacado na manchete dos maiores jornais de política e opinião, hoje. Peguemos a mais prestigiada das publicações do establishment, Foreign Affairs. A manchete estrondosa da capa de dezembro de 2011 estampava em negrito: “A América acabou?”.

O artigo da capa pedia “corte de gastos” nas “missões humanitárias” no exterior, que estavam consumindo a riqueza do país, para impedir o declínio americano, que é o maior tema nos discursos do ambiente de negócios, que frequentemente vem acompanhado do corolário de que o poder está mudando para o Leste, para a China e (talvez) a Índia.

Agora os principais artigos são a respeito de Israel e Palestina. O primeiro, de autoria de dois altos oficiais israelenses, é intitulado “O Problema é a Rejeição Palestina”: o conflito não pode ser resolvido porque os palestinos se recusam a reconhecer Israel como Estado Judeu – então em conformidade com a prática diplomática padrão: estados são reconhecidos, mas não seus setores privilegiados. A demanda é dificilmente outra coisa que um novo dispositivo para deter a ameaça de solução política para os assentamentos ilegais que minaria os objetivos expansionistas israelenses.

A posição oposta é defendida por um professor estadunidense tem o título “O Problema é a Ocupação”. No subtítulo se lê: “Como a Ocupação está Destruindo a Nação”. Qual nação? A de Israel é claro. Ambos os artigos aparecem com o título, em cache: “Israel sitiado”.

A edição de janeiro de 2012 lança ainda outro chamamento para o bombardeio do Irã, agora, antes que seja tarde demais. Alertando contra “os perigos da dissuasão”, o autor sugere que “céticos com relação à ação militar falham em avaliar o verdadeiro perigo que um Irã com armas nucleares imporia aos interesses dos EUA no Oriente Médio e além. E em suas previsões sombrias imaginam que a cura pode ser pior do que a doença – quer dizer, que as consequências de um ataque estadunidense ao Irã seriam tão ruins ou piores do que se o país conseguisse levar a cabo suas ambições nucleares. Mas essa é uma suposição falsa. A verdade é que um ataque militar visando a destruir o programa nuclear iraniano, se for feito com cuidado, poderia significar para a região e para o mundo uma ameaça muito real e melhorar dramaticamente a segurança nacional dos Estados Unidos no longo prazo”.

Outros argumentam que os custos seriam altos demais e no limite alguns chegam a dizer que um ataque [ao Irã] violaria o direito internacional – como o fazem os moderados, que regularmente fazem ameaças de violência, em violação à Carta das Nações Unidas.

Vamos rever cada uma dessas preocupações dominantes

O declínio americano é real, embora a visão apocalíptica reflita a percepção bastante familiar da classe dominante de que algum controle menor ou total implica o desastre total. A despeito desses lamentos piedosos, os EUA persevera como poder dominante mundial por larga margem, e não há competidores à vista, não apenas em dimensões militares, a respeito das quais os EUA reina supremo.

A China e a Índia registraram crescimento rápido (embora altamente desigual), mas permanecem países muito pobres, com problemas internos enormes não enfrentados pelo Ocidente. A China é o maior centro industrial do mundo, mas majoritariamente como uma linha de montagem para as potências industriais avançadas em sua periferia e para as multinacionais ocidentais. É provável que isso mude com o tempo. A indústria em regra provê as bases para a inovação e a invenção, como vem ocorrendo às vezes, na China. Um exemplo que impressionou os especialistas ocidentais foi a tomada chinesa da liderança no mercado crescente de painéis solares, não apenas com base na mão de obra barata, mas no planejamento coordenado e, crescentemente, na inovação.

Mas os problemas que a China enfrenta são sérios. Alguns são demográficos, reportados na Science, o líder dos semanários estadunidenses de divulgação científica. O estudo mostra que a mortalidade caiu bruscamente na China durante os anos maoístas, “principalmente um resultado do desenvolvimento econômico e das melhorias nos serviços educacionais e de saúde, especialmente ao movimento de higiene pública que resultou num golpe drástico à mortalidade por doenças infecciosas”. Esse progresso acabou com o início das reformas capitalistas no país, há 30 anos, e a taxa de mortalidade desde então tem aumentado.

Além disso, o crescimento econômico chinês recente contou substancialmente com um “bônus demográfico”, uma grande população em idade economicamente ativa. “Mas a janela para o uso desse bônus pode fechar logo”, com um “impacto profundo no desenvolvimento”: “o excesso de mão de obra barata, que é um dos maiores fatores de condução do milagre econômico chinês não estará mais disponível”. A demografia é apenas um dos muitos problemas sérios pela frente. No que concerne a Índia, os problemas são ainda mais graves.

Nem todas as vozes proeminentes anteveem o declínio americano. Na mídia internacional, não há nada mais sério e respeitável que o Financial Times. O jornal recentemente dedicou uma página inteira às expectativas otimistas de que nova tecnologia para extrair combustível fóssil norteamericano pode fazer com que os EUA se torne energeticamente independente, mantendo, portanto, sua hegemonia por um século. Não há menção ao tipo de mundo que os EUA comandará nesse acontecimento feliz, mas não por falta de evidência.

Quase ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia reportou que, com o aumento rápido das emissões de carbono dos combustíveis fósseis, o limite de uso seguro será atingido por volta de 2017, se o mundo continuar no atual curso. “A porta está fechando”, disse o economista-chefe da AIE, e em muito breve “fechará de vez”.

Pouco antes, o Departamento de Energia dos EUA informou que as imagens mais recentes das emissões de dióxido de carbono, com “a elevação para o maior índice já registrado”, chegaram num nível mais elevado do que os piores cenários antecipados pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC). Isso não é surpresa para muitos cientistas, inclusive os do programa do MIT para mudança climática, que por anos alertou que os prognósticos do IPCC eram conservadores demais.

Esses críticos das previsões do IPCC receberam virtualmente atenção pública nenhuma, ao contrário dos grupos de negadores do aquecimento global, que são apoiados pelo setor corporativo, juntamente a imensas campanhas de propaganda que tem levado os americanos para fora do espectro internacional dessas ameaças. O apoio das corporações também se traduz diretamente no poder político. A denegação é parte do catecismo que deve ser entoado pelos candidatos republicanos na ridícula campanha eleitoral em curso, e no Congresso eles são poderosos o suficiente para abortar até investigações sobre o efeito do aquecimento global, deixando de lado qualquer ação séria a respeito. Numa palavra, o declínio americano pode talvez ser interditado se abandonarmos a esperança pela sobrevivência decente, prognóstico também bastante real, dado o equilíbrio de forças no mundo.

“Perdendo” a China e o Vietnã

Deixando de lado essas coisas desagradáveis, um olhar de perto para o declínio americano mostra que a China na verdade joga um grande papel nele, tanto como o jogava há 60 anos. O declínio que agora gera tanta preocupação não é um fenômeno recente. Ele remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tinha metade da riqueza do mundo e dispunha de níveis globais de segurança incomparáveis. Os estrategistas políticos estavam naturalmente bastante conscientes dessa enorme disparidade de poder e pretendiam mantê-la assim.

O ponto de vista básico foi apresentado com admirável franqueza grande documento de 1948. O autor era um dos arquitetos da Nova Ordem Mundial da época, o representante da equipe de Planejamento Político do Departamento de Estado dos EUA, o respeitado estadista e acadêmico George Kennan, um pacifista moderado, dentre os estrategistas. Ele observou que o objetivo político central era manter a “posição de disparidade” que separava a nossa enorme riqueza da pobreza dos outros. Para alcançar esse objetivo, advertiu, “nós deveríamos para de falar de objetivos vagos e... irreais, como direitos humanos, a elevação do padrão de vida e a democratização”, e devemos “lidar com conceitos estritos de poder”, não “limitados por slogans idealistas” a respeito de “altruísmo e o benefício do mundo”.

Kennan estava se referindo especificamente à Ásia, mas as observações dele se generalizam, com exceções, aos participantes do atual sistema de dominação global dos EUA. Ficou bastante claro que os “slogans idealistas” deveriam ser apresentados, sobretudo, quando dirigidos aos outros, inclusive às classes intelectualizadas, das quais se esperava que os disseminassem.

O plano de Kennan ajudou a formular e a implementar a tomada de controle dos EUA do Hemisfério Oeste, do Extremo Leste e das regiões do ex-império britânico (incluindo os incomparáveis recursos energéticos do Oriente Médio), e o quanto foi possível da Eurásia, sobretudo seus centros comerciais e industriais. Esses não eram objetivos irreais, dada a distribuição do poder. Mas o declínio foi então definido de vez.

Em 1949, a China declarou independência, um evento conhecido no discurso do Ocidente como “a perda da China” – nos EUA, com algumas recriminações amarguradas e o conflito interpretativo a respeito de quem tinha sido o responsável por essa perda. A terminologia é reveladora. Só é possível perder o que em algum momento se teve. A assunção tácita era que os EUA tinham a China, por direito, juntamente à maior parte do resto do mundo, tanto como os estrategistas do pós-guerra pensavam.

A “perda da China” foi o primeiro grande passo do “declínio americano”. Foi o que teve grandes consequências políticas. Uma delas foi a decisão imediata de apoiar o esforço francês de reconquista da sua ex-colônia da Indochina, para que esta também não fosse “perdida”.

A Indochina mesma não era motivo de preocupação maior, a despeito das afirmações de suas riquezas naturais por parte do presidente Eisenhower e outros. A preocupação maior era antes com a “teoria do efeito dominó”, a qual é frequentemente ridicularizada quando os dominós não caem, mas permanece um princípio regulador da política, porque é bastante racional. Para adotar a versão Henri Kissinger dele, uma localidade que cai fora do controle pode se tornar um “vírus” que irá “contagiar”, induzindo outros a seguirem o mesmo caminho.

No caso do Vietnã, a preocupação era que esse vírus do desenvolvimento independente pudesse infectar a Indonésia, que de fato é rica em recursos. E isso pode levar o Japão – o “superdominó”, como o proeminente historiador da Ásia John Dower chamava – a “acomodar” uma Ásia independente como seu centro tecnológico e industrial num sistema que escaparia do alcance do poder dos EUA. Isso significaria, com efeito, que o EUA tinha perdido a fase Pacífico da Segunda Guerra, na qual lutou para tentar impedir que o Japão estabelecesse uma Nova Ordem na Ásia.

O modo de lidar com um problema desse é claro: destruir o vírus e “inocular” aqueles que podem ser infectados. No caso do Vietnã, a escolha racional era destruir qualquer esperança de desenvolvimento independente bem sucedido e impor ditaduras brutais nos arredores. Essas tarefas foram levadas a cabo com sucesso – embora a história tenha sua própria astúcia, e algo similar ao que foi temido desde então tenha se desenvolvido no Leste da Ásia, a maior parte para consternação de Washington.

A vitória mais importante das guerras da Indochina deu-se em 1965, quando um golpe de estado militar, com o apoio dos EUA, liderado pelo general Suharto significou crimes massivos comparados pela CIA aos de Hitler, Stalin e Mao. A “assombrosa matança massiva”, como descreveu o New York Times, foi acuradamente reportada nos meios dominantes, e com euforia desenfreada.

Foi um “brilho de luz na Ásia”, como observou o comentarista liberal James Reston, no Times. O golpe encerrou as ameaças à demoracia ao demolir o partido político de massas, dos pobres, estabelecendo uma ditadura que registrou as piores violações aos direitos humanos no mundo, e deixou as riquezas do país abertas aos investidores ocidentais. Poucos questionaram que depois de tantos horrores, inclusive a quase genocida invasão do Timor LesteSuharto ter sido bem recebido pela administração Clinton, em 1995, como “nosso tipo de cara”.

Anos após os grandes eventos de 1965, o Conselheiro para Assuntos de Segurança Nacional de Kennedy e Johnson, McGeorge Bundy refletiria que teria sido sensato acabar com a guerra do Vietnã a tempo, com o “vírus” virtualmente destruído e, o principal, o dominó solidamente no lugar, no esteio de outras ditaduras apoiadas pelos EUA pela região.

Procedimentos similares são rotineiramente seguidos em outros lugares. Kisssinger estava se referindo especificamente à ameaça da democracia socialista no Chile. Essa ameaça acabou em outra data esquecida, que os latino-americanos chamam de “O Primeiro 11 de Setembro”, que em violência e efeitos nefastos excedeu em muito o 11 de Setembro comemorado no Ocidente. Uma ditadura viciosa foi imposta ao Chile, como uma parte da praga de repressão brutal que se espalhou pela América Latina, chegando até a América Central, nos anos Reagan.

Esse vírus tem gerado preocupações profundas aqui e ali, inclusive no Oriente Médio, onde a ameaça de um nacionalismo secular tem consternado os estrategistas britânicos e estadunidenses, induzindo-os a apoiar o fundamentalismo islâmico a opor-se a isso.

A concentração da riqueza e o declínio americano

Mesmo com essas vitórias, o declínio americano continuou. Por volta de 1970, a parte da riqueza do mundo dos EUA saltou para 25%, basicamente onde está hoje, concentração ainda colossal, mas bastante inferior àquela de fins da Segunda Guerra. Nessa época, o mundo industrial era “tripolar”: a base norte americana, dos EUA, a europeia, da Alemanha, e a do Leste da Ásia, já a região industrial mais dinâmica, naquele tempo com base no Japão, mas hoje incluindo as ex-colônias japonesas de Taiwan e o Sul da Coreia, e mais recentemente a China.

Nesse período o declínio americano entrou numa nova fase: a do declínio autoinfligido. Desde os anos 70 tem havido mudanças significativas na economia dos EUA, à medida que estrategistas, estatais e do setor privado, passaram a conduzi-la para a financeirização e à exportação de plantas industriais, levada a cabo em parte pelo declínio da taxa de lucro na indústria doméstica. Essas decisões deram início ao círculo vicioso no qual a riqueza se tornou altamente concentrada (dramaticamente nos 0,1% da população), levou à concentração de poder político, e então a uma legislação que o levou adiante, no que concerne à tributação e outras políticas fiscais, à desregulação, às mudança nas regras da administração corporativa - o que permitiu imensos ganhos para os executivos - e por aí vai.

Enquanto isso, para a maioria, os salários reais foram majoritariamente estagnados e ao povo só restou aumentar a carga de trabalho (muito além da europeia), a dívida insustentável e as repetidas bolhas, desde os anos Reagan; criando riquezas de papel que desapareceram inevitavelmente quando a bolha estourou (e os perpetradores foram resgatados pelos contribuintes). Em paralelo a isso, o sistema político foi cada vez mais fragmentado, enquanto ambos os partidos mergulharam cada vez mais nos bolsos das corporações, com a escalada do custo das eleições (os republicanos ao nível do absurdo e os democratas – agora majoritariamente os “ex-republicanos moderados” – não ficaram muito atrás).

Um estudo recente do Instituto de Política Econômica, que tem sido a maior fonte de dados respeitáveis sobre o desenvolvimento, intitula-se Failure by Design [no contexto, algo como Fracasso por Ecomenda]. A frase “by design” é acurada. Outras escolhas eram certamente possíveis. E como mostra o estudo, o “fracasso” tem um corte de classe. Não há fracasso para os “designers”. Longe disso. Antes, as políticas fracassaram para a imensa maioria, os 99% na imagem dos movimentos Occupy – e para o país, que tem declinado e irá continuar a fazê-lo, sob essas políticas.

Um fator que o explica é a transferência das plantas industriais. Como ilustra o exemplo do painel solar, mencionado acima, a industrialização tem a capacidade de promover as bases e o estímulo para a inovação, levando a estágios mais avançados de sofisticação na produção, no design e na invenção. Isso, também, está sendo terceirizado, o que não é um problema para os “mandarins do dinheiro”, que cada vez mais mandam na política, mas é um sério problema para o povo trabalhador e as classes médias, e um desastre real para os mais oprimidos, os afroamericanos, que nunca escaparam do legado da escravidão e de sua mais feia consequência, cuja magra riqueza desapareceu virtualmente depois do colapso da bolha imobiliária, em 2008, originando a mais recente crise financeira, a pior até agora.

(*) Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. É o maior linguista do mundo e um dos mais, senão o mais rigoroso e consequente anarquista vivo.
Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:
http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/02/2012215773268827.html

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Nani sobre a privatização dos aeroportos


A coalizão governamental e as questões de propriedade - por Maria Inês Nassif (Carta Maior)

Se a política se reduzisse a uma disputa eleitoral entre PT e PSDB, tudo seria mais simples. Mas a vida, definitivamente, não é um Fla-Flu. O país está num momento em que a radicalização na base da sociedade está apartada dos dutos de representação política. Se, do ponto de vista da democracia formal, o governo federal, nas mãos de uma presidenta de esquerda eleita pelo voto direto, tem o controle da maioria do Congresso Nacional e o apoio de quase todo o espectro político-partidário, a ação que resulta disso tem severas limitações nas bases da sociedade.

Do lado de lá de qualquer política de distribuição de renda e terra, de saúde pública, de moradia popular, existem sempre barreiras a serem transpostas na base da sociedade. Qualquer política de redução de privilégios se encontra e conflita com setores tradicionais acostumados a eles - não necessariamente de oposição ao governo federal - e com enclaves regionais onde o poder de aparelhos públicos e privados de ideologia se impõem aos setores mais fragilizados da população pela força e por decisões de uma Justiça excessivamente ligada ao status quo. Contraditoriamente, em algum momento pode se somar aos grupos hegemônicos locais a ação de determinados setores do governo federal, já que a enorme coalizão a nível institucional confere uma grande multiplicidade a um aparelho público federal que teoricamente deveria ser a representação dos setores à esquerda da sociedade.

A polarização, fora do período eleitoral, não é simplesmente entre PT e PSDB. A direita está longe de se restringir ao PSDB; a esquerda está distante de ser representada simplesmente pelo PT.

Os atores políticos, institucionais e não-institucionais, estão perdidos numa realidade bipartida, onde a mediação institucional entre setores, interesses e frações de classe é cada vez mais ineficiente. Existe um descompasso entre representação democrática e poder econômico, entre partidos políticos e interesses da sociedade civil - e, até por conta dos demais descompassos, essas contradições estão cada vez mais evidentes nas questões que envolvem propriedade. Essa afirmação não nega a realidade de uma desigual e histórica disputa por terras, rurais e urbanas, no país. Apenas a aponta como alvo de excessivas ações sobrepostas do aparelho de Estado - União, Estados, municípios, Justiça e polícia - que resultam em vitórias dos setores conservadores e provocam reações públicas que, por maiores que sejam, têm seu poder reduzido por uma Justiça pouco sensível a questões que envolvem o reconhecimento do uso social da propriedade.

Quando os partidos políticos perdem o seu poder de mediação, a tendência é a de que, regionalmente, se articulem com mais facilidade os agentes de uma política tradicional que sobrevive sem necessariamente estar dentro de um partido, uma Justiça conservadora dos rincões do país - cuja ação têm sido legitimada por tribunais superiores que, ou reiteram os direitos de propriedade concentrada, ou lavam as mãos diante de uma decisão discutível de juízes locais –, governos locais ligados a esses interesses e um aparelho policial de origem autoritária (a Polícia Militar é uma invenção da ditadura de 1964-1985) que impõe os interesses desses setores de forma truculenta.

Pinheirinho não está só. Antes, houve Cracolândia. Na semana passada, uma força policial de 200 homens fardados desalojou os trabalhadores rurais das comunidades Novo Paraíso e Frederico Veiga, no Tarumã, na periferia de Manaus, pela quarta vez. Derrubaram, como das vezes anteriores, as suas casas, e os pequenos agricultores estão ao relento nos terrenos onde plantam suas roças e criam pequenos animais. E literalmente cercados pela polícia. Na quinta-feira, a polícia paulista simplesmente botou na rua 400 moradores que haviam invadido um prédio na esquina da Ipiranga com a São João, na capital paulista. Nos últimos anos, as favelas paulistanas arderam em chamas, uma desocupação indireta resolvida pela prefeitura com uma bolsa-aluguel que cada vez tem menos utilidade, uma vez que os terrenos desocupados pelos expulsos são integrados ao círculo da especulação imobiliária, e a alta demanda de aluguéis para a população de baixa renda se encontra com uma baixíssima oferta que eleva o preço dos imóveis aos céus.

Isso, sem falar nas lutas históricas pela terra em todos os rincões desse país, que se tornam mais desiguais quanto mais se moderniza a grande propriedade rural, que passa a dispor de meios particulares “legais”, as empresas de segurança (que no passado se chamavam jagunços, desempenhavam a mesma função mas matavam à margem da lei).

A presidenta Dilma Rousseff acumula condições altamente favoráveis na política institucional. Nas eleições de 2010, somados os eleitos pelo PSDB, DEM, PSOL e PPS, a oposição dispunha de apenas 21% da Câmara dos Deputados. Criado o PSD, a oposição ficou reduzida a 19% da Câmara. Nas eleições municipais, dada a ampla base de apoio do governo, vai ser um massacre. Essa realidade coloca inclusive a hegemonia tucana do PSDB paulista em profunda crise. Se não acontecer uma crise política, ou econômica, ou ambas, de graves proporções, o DEM será condenado à extinção em outubro e o PSDB vai chegar perto disso.

Todavia, junto com uma base excessivamente ampliada, o partido com mais potencial de crescimento nessas eleições, o PT, é o partido que acumula mais dificuldades de mediação com a sociedade. A ação política junto ao aos setores que teoricamente representa fica extremamente limitada pela coalizão que dá suporte à presidenta Dilma Rousseff no plano institucional. De alguma forma, as tentativas de reaproximação do partido com os movimentos sociais, e a retomada de algumas bandeiras originais do partido, como democratização dos meios de comunicação e redução da jornada de trabalho, que aconteceram já na gestão do deputado Rui Falcão na presidência da legenda, é um reconhecimento do esgarçamento do poder de mediação do PT junto aos setores menos privilegiados. Resta saber se essas tentativas vão sobreviver a eleições que serão o palco de disputa de todos os partidos da base aliada do governo federal.

O que move o partido-imprensa - por Gilson Caroni Filho (Carta Maior)

Merval Pereira, Miriam Leitão, Sardenberg, Eliane Catanhede, Dora Kramer e outros mais necessitam ser analisados pelo que são: intelectuais orgânicos do totalitarismo financeiro. O conteúdo de suas colunas representa a tradução ideológica dos interesses do capital financeiro.

A leitura diária dos jornais pode ser um interessante exercício de sociologia política se tomarmos os conteúdos dos editoriais e das principais colunas pelo que de fato são: a tradução ideológica dos interesses do capital financeiro, a partitura das prioridades do mercado. O que lemos é a propagação, através dos principais órgãos de imprensa, das políticas neoliberais recomendadas pelas grandes organizações econômicas internacionais que usam e abusam do crédito, das estatísticas e da autoridade que ainda lhes resta: o Banco Mundial (BIrd), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC). É a eles, além das simplificações elaboradas pelas agências de classificação de risco, que prestam vassalagem as editorias de política e economia da grande mídia corporativa.

Claramente partidarizado, o jornalismo brasileiro pratica a legitimação adulatória de uma nova ditadura, onde a política não deve ser nada além do palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão das pequenas diferenças que os distinguem para melhor dissimular a enormidade das proibições e submissões que os une. É neste contexto, que visa à produção do desencanto político-eleitoral, que deve ser visto o exercício da desqualificação dos atores políticos e do Estado. Até 2002, era fina a sintonia entre essa prática editorial e o consórcio encastelado nas estruturas de poder. O discurso "modernizante" pretendia - e ainda pretende - substituir o "arcaísmo" do fazer político pela "eficiência" do economicamente correto. Mas qual o perigo do Estado para o partido-imprensa? Em que ele ameaça suas formulações programáticas e seus interesses econômicos?

O Estado não é uma realidade externa ao homem, alheia à sua vida, apartada do seu destino. E não o pode ser porque ele é uma criação humana, um produto da sociedade em que os homens se congregam. Mesmo quando ele agencia os interesses de uma só classe, como nas sociedades capitalistas, ainda aí o Estado não se aliena dos interesses das demais categorias sociais.

O reconhecimento dos direitos humanos, embora seja um reconhecimento formal pelo Estado burguês, prova que ele não pode ser uma instituição inteiramente ligada aos membros da classe dominante. O grau maior ou menor da sensibilidade social do Estado depende da consciência humana de quem o encarna. É vista nesta perspectiva que se trava a luta pela hegemonia. De um lado os que querem um Estado ampliado no curso de uma democracia progressiva. De outro os que só o concebem na sua dimensão meramente repressiva; braço armado da segurança e da propriedade.

O partido-imprensa abomina os movimentos sociais os sindicatos (que não devem ter senão uma representatividade corporativa), a nação, antevista como ante-câmara do nacionalismo, e o povo sempre embriagado de populismo. Repele tudo que represente um obstáculo à livre-iniciativa, à desregulamentação e às privatizações. Aprendeu que a expansão capitalista só é possível baseada em "ganhos de eficiência", com desemprego em grande escala e com redução dos custos indiretos de segurança social, através de reduções fiscais.

Quando lemos os vitupérios dos seus principais articulistas contra políticas públicas como Bolsa Família, ProUni e Plano de Erradicação da Pobreza, dentre outros, temos que levar em conta que trabalham como quadros orgânicos de uma política fundamentalista que, de 1994 a 2002, implementou radical mecanismo de decadência auto-sustentada, caracterizada por crescentes dívidas, desemprego e anemia da atividade econômica.

Como arautos de uma ordem excludente e ventríloquos da injustiça, em nome de um suposto discurso da competência , endossaram a alienação de quase todo patrimônio público, propagando a mais desmoralizante e sistemática ofensiva contra a cultura cívica do país. Não fizeram- e fazem- apenas o serviço sujo para os que assinam os cheques, reestruturam e demitem. São intelectuais orgânicos do totalitarismo financeiro, têm com ele uma relação simbiótica. E é assim que devem ser compreendidos: como agentes de uma lógica transversa.

Merval Pereira, Miriam Leitão, Sardenberg, Eliane Catanhede, Dora Kramer e outros mais necessitam ser analisados sob essa perspectiva. É ela que molda a ética e o profissionalismo de todos eles. Sem mais nem menos.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

sábado, 4 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Trevas e luz no STF

Para não deixar passar em branco, gostaria de destacar aqui os ministros do Supremo Tribunal Federal que, em decisão muito relevante para o país, decidiram manter os poderes do CNJ para investigarem juízes, não os transferindo para as sabidamente corporativas corregedorias.
Aliás, uma coisa singular: A AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), que ingressou com o pedido com o intuito evidente de acobertar a corrupção, teve há pouco tempo como presidente, Paulo Medina, juiz cassado exatamente pela venda de sentenças. Por aí vamos vendo a integridade desta instituição.

Os juízes que votaram a favor das trevas, do encobertamento, da corrupção, do corporativismo, são: Ricardo Lewandowski, Celso de Mello, o relator Marco Aurélio de Melo, e o presidente da Corte, Cezar Peluso, que felizmente se aposenta compulsoriamente ano que vem, e podemos dizer que já vai tarde. Além destas decepções, talvez a mais dorida seja a de Luiz Fuz, recentemente nomeado pela presidente Dilma – e já mostrou a que veio.

Por outro lado, votaram a favor da luz, da justiça, da integridade e da imparcialidade: Ayres Britto, Joaquim Barbosa (voto óbvio), Rosa Weber, Cármen Lúcia, José Antonio Dias Toffoli (também voto óbvio, mas por motivo menos nobre: ele vai aonde a mídia quer que ele vá) e, por fim, Gilmar Mendes, o próprio. Há de se ressaltar quando um personagem tão deletério toma postura positiva. Vai entender.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pinheirinho e a luta por um país digno - por Miguel do Rosário (O Cafezinho)

Ao classificar a reintegração de posse de Pinheirinho como uma barbárie, Dilma marcou uma posição muito clara e incendiou o debate. No Estadão e na Folha de hoje, temos artigos furiosos do jornalista José Neumanne e do senador tucano Aloysio Ferreira Nunes, ambos defendendo a ocupação e acusando o PT de disseminar “mentiras” sobre o caso.

A tentativa de atribuir todas as críticas ao episódio Pinheirinho ao PT é um grande erro do PSDB. Janio de Freitas e Ophir Cavalcante (presidente da OAB), são petistas ou pessoas ingênuas e vulneráveis à propaganda petista? Não. O presidente da OAB é um conservador. Jânio de Freitas, um colunista da velha guarda cujas décadas de história lhe garantem uma rara posição de independência na grande imprensa. E todos denunciaram duramente a violência institucional em Pinheirinho, e a anteposição do direito à propriedade ao interesse social e ao respeito à dignidade humana.

O sofrimento das famílias do Pinheirinho não é uma mentira. Não é invenção do PT, e as denúncias não são delírios. Há depoimentos registrados, e o testemunho das pessoas deve ser respeitado. Quando um ex-presidiário pilantra vende uma história surrealista de que pretendia pegar 8 bilhões de reais junto ao BNDES, ganha mais de 6 minutos no Jornal Nacional, só porque a denúncia poderia prejudicar Dilma. Quando temos seis mil pessoas denunciando um crime, com existência de vídeos, fotos e depoimentos gravados, o JN prefere se calar, porque não quer prejudicar o governador Geraldo Alckmin.
Esse esforço para desqualificar o debate, caracterizando-o apenas como uma guerrinha entre verdade e mentira, demonstra a falta de argumentos para justificar uma grave violação dos direitos humanos e o tratamento degradante contra cidadãos brasileiros.

O artigo de Neumanne traz inúmeras falácias sobre o “império da lei” e da “propriedade privada”. Não venham com essa história. Não usem a Constituição para justificar uma barbárie. Um dos Princípios Fundamentais de nossa Carta Magna é de que a República tem como fundamento “o respeito à dignidade humana”. Logo a seguir, no capítulo que trata dos Direitos Fundamentais, a Constituição afirma que:

III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XXIII – a propriedade atenderá a sua função social;

Nem o PSDB nem a imprensa estão levando à sério a repercussão do caso Pinheirinho, e com isso cometem um terrível equívoco. O Brasil não suporta mais esse tipo de violência e quando a perplexidade, a tristeza e a indignação emocionada se amainarem, serão substituídas por um tipo de sentimento de revolta frio, objetivo e racional. A luta política num sentido amplo, digno e democrático, converterá o sofrimento dos moradores de Pinheirinho em força e determinação. Movimentos sociais funcionam em linha com uma lógica cruel, mas necessária. Quando as coisas estão bem, perdem força – daí a acusação de que são cooptados pelo governo. No entanto, o objetivo do movimento social não é durar para sempre e sim resolver os problemas que lhes deram origem. Eles recebem um profundo estímulo, por outro lado, na proporção em que aumenta o desespero.

A oposição conservadora deu à militância uma raison d’etre. Mostrou a todos que o caminho ainda é longo e a luta, dura.

Pedro Rios, um jovem militante político, acorrentou-se em frente à sede da Rede Globo, no Rio, e decretou greve de fome por tempo ilimitado, até que a emissora dê ao tema a importância que o tema merece. Confira os vídeos do jovem feitos no local, onde expõe seus argumentos.

A blogosfera segue o caminho inverso e está acompanhando de maneira cada vez mais próxima as consequências trágicas da desocupação forçada e destruição das casas de Pinheirinho.

Ao contrário dos defensores da reintegração, que tentam transformar o caso em mero proselitismo eleitoral, blogueiros, militantes e ongs de direitos humanos vem botando a mão na massa e fazendo alguma coisa de concreto, recolhendo depoimentos dos moradores. Muitos vídeos estão sendo produzidos, como se pode ver nesse post do blog Hum Historiador.

A ONG Justiça Global, junto com outras organizações, produziu um relatório preliminar, que será enviado à ONU e à OEA, onde constam várias denúncias de abuso de direitos humanos em Pinheirinho.

Está sendo realmente muito irônico ver a imprensalona brasileira cobrar duramente a presidente Dilma que se manifeste sobre a situação de direitos humanos em Cuba. Folha, Estadão e Globo publicam hoje várias entrevistas com dissidentes cubanos, que falam dos problemas vividos em seu país. Ou seja, os dissidentes cubanos têm muito mais voz na imprensa brasileira do que cidadãos brasileiros. Os mesmos jornais não deram destaque a nenhum depoimento das vítimas de Pinheirinho, ou quando o fizeram, não lhe emprestaram apoio editorial. Nem fizeram nenhuma cobrança ao governador Geraldo Alckmin.

Direitos humanos, pelo jeito, só valem para Cuba, não para Pinheirinho.

Fascismo emergente esmaga solidariedade - por Marcelo Semer (Terra Magazine)

Moradora carrega pertences na reintegração de posse de Pinheirinho, em São José dos Campos 
(Foto:Reinaldo Marques/Terra)

Meses atrás, manchetes de grandes jornais davam conta de que cem mil presos iam sair das cadeias da noite para o dia com a nova lei das prisões.

A fotografia de uma delegacia em Goiás nesta semana, com detentos jogados ao chão e algemados na parede por falta de vagas dá bem o retrato do embuste que foi a criação dessa expectativa.

Mas o discurso do medo teve lá a sua serventia. Como diz o escritor Mia Couto, "Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas".

Esse discurso elevado propositadamente à enésima potência tem servido para legitimar, se é que o verbo pode se adequar a hipóteses tão dramáticas, a política de ordem e disciplina que vem pouco a pouco se instalando em corações e mentes.

A forte repressão, policial e jurídica, à marcha da maconha; a tropa de choque contra estudantes na USP; a polícia na linha de frente da saúde pública, na Cracolândia; o abrupto despejo de milhares de almas em Pinheirinho.

Como drogados, estudantes rebeldes, famílias inteiras foram submetidas a doses de dor e sofrimento em nome do restabelecimento da ordem. Afinal, onde ficaria o respeito à propriedade privada e à decisão judicial?

Mas será que um terreno de um milhão de metros quadrados vazio por décadas, ao lado de milhares de pessoas que não têm onde morar, também não seria por si só uma violação da ordem?

Com o apoio de um certo terror midiático, que busca convencer que o fim do mundo está na próxima esquina, as políticas de estado vão sendo paulatinamente subordinadas a decisões bélicas -é basicamente disso que se trata quando a PM prepara por meses a inteligência de suas intervenções.

Acontece com frequência incomum na São Paulo atual, mas não apenas nela. Militarização e repressão tem se espalhado por outros cantos do país.

A supervalorização da ordem desconsidera, sobretudo, a solidariedade, fundamento dos principais objetivos de nossa República.

Eles ainda estão lá perdidos no art. 3º, da Constituição e lidos hoje parecem pouco mais do que contos de fada: "construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos...".

Se isso tudo que está no coração da Lei Maior não vale nada, como ensinar ao povo que a lei deve ser cumprida? Com a força e pronto.

O pior de tudo é que nossa experiência recente ensinou que a solidariedade, além de justa, produz efeitos colaterais irrenunciáveis.

As políticas de transferência de renda vitaminaram uma considerável ascensão social e revigoraram o mercado interno consumidor, importante para amortecer o peso da crise mundial.

É preciso apostar mais nas pessoas e não menos. Emancipar o povo fará do Brasil um país muito melhor -sacrificá-lo, o devolverá ao passado, não à modernidade que tanto se apregoa.

Afinal, privilegiar a ordem sem solidariedade é investir na mera dominação. Usar a polícia para tutelar a propriedade privada é coisa que se faz no país desde a escravatura. Mas a supervalorização da ordem que se vê hoje pode ir além do que o tradicional predomínio do mais forte: é um passaporte para o fascismo.

Um jornalista da Rede Record chorou em plena produção da reportagem quando viu uma criança de dois anos, chupeta na boca, sentada sobre um tijolo de sua casa despedaçada em Pinheirinho, talvez sem entender o que acontecia.

Também foi impossível ver a imagem do preso goiano deitado e algemado na parede e não se lembrar da amarra de um animal indócil.

Quiçá possamos ser um pouco reféns dessas imagens que nos perturbam e nos comovem.

Para além dos cálculos e dos códigos, dos cassetetes e dos tratores, existem vidas esperando ser simplesmente consideradas.

Por quanto tempo vamos ignorá-las?


Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.