quinta-feira, 30 de maio de 2013

Rangihaeata, Baía de Golden, Nova Zelândia - por Chris Gin (Fotografia - Site homônimo)

Joaquim e seu estilo - por Paulo Moreira Leite (IstoÉ)

Aos poucos, Joaquim Barbosa autoriza o país a identificar um estilo político.

Sabendo do risco de ser adorado pelos conservadores, que tentam enfeitá-lo com o mito de “menino pobre que mudou o Brasil”, agora reproduzido até pela revista Time (se houve tal “menino pobre” nós sabemos quem ele é, como se chama, de onde veio e o que fez, certo?)

Joaquim achou necessário colocar-se como pessoa de esquerda.

Apenas por isso declarou que a imprensa brasileira é de “direita”.

Tempos atrás, fez questão de revelar seu voto em Lula e Dilma, lembram?

Sempre de olho no povão, xingou o Congresso e disse que temos partidos de mentirinha. Como isso é sempre chato e incomoda quem lê jornais, mandou dizer que falou como acadêmico.

O método de Joaquim Barbosa para construir seu próprio mito político já é conhecido. Consiste em quebrar regras de convívio democrático e respeito entre instituições. Depois, dá uma volta sobre o próprio passo.

Quem procura, de uns tempos para cá, conseguir um lugar na turma do gargarejo finge que não vê a coerência em determinados movimentos apenas porque são duplos.
Joaquim disse em tom de crítica:

“O Congresso não foi criado para única e exclusivamente deliberar sobre o Poder Executivo. Cabe a ele a iniciativa da lei. Temos um órgão de representação que não exerce em sua plenitude o poder que a Constituição lhe atribui, que é o poder de legislar.”

Sob a presidência de Joaquim, o Supremo inaugurou uma fase na qual tem feito o possível para diminuir o Congresso e interferir em sua atividade.

O Congresso tentou legislar sobre royalties do petróleo. Foi impedido pelo Supremo. Tentou regulamentar a distribuição de verbas públicas e tempo na TV para partidos políticos – Gilmar Mendes assinou uma liminar. O Congresso quer resolver o que fazer com o mandato de deputados condenados no mensalão, como diz a Constituição. O Supremo manda cassar de qualquer maneira.

Já aposentado, o ex-presidente do Supremo, Ayres Britto, justifica a atuação extrajudicial do STF sem muitos pudores.

Diz que “o experimentalismo” do Supremo se explica pela “inércia do legislador.” Ou seja: com este Congresso lento, sem lideranças (quem sabe preguiçoso e corrupto, não é assim?), o STF se acha no direito de fazer mais do que a lei manda. É a Constituição à moda de Ayres Britto.

Eu acho muito estranho que alguém reclame da omissão do Congresso semanas depois da aprovação de uma lei crucial para o bem-estar do país – a legislação que regula o trabalho doméstico, última herança do regime escravocrata.

Considerando que foi uma legislação criada pelos parlamentares e aprovada por eles, após pressões, manobras protelatórias e ataques de todo tipo, que se prolongaram durante anos, pergunto como alguém pode reclamar do Congresso nesses dias, como se fosse possível esquecer um avanço numa área que se encontrava estagnada desde 13 de maio de 1888.

Ou melhor: entendo perfeitamente porque se fala mal do Congresso por esses dias. Uma pena.

Há outras coisas, também.

Jornalistas que integram a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, que possui tantos profissionais respeitáveis em seu quadro de sócios e dirigentes, resolveram convidar o presidente do STF para uma palestra.

Pergunto se aquele jornalista que deveria chafurdar na lama estará na plateia.

E aquele outro, brother, que ousou perguntar pela serenidade do ministro do STF, e foi advertido que isso era visão de branco?

Podemos imaginar, desde já, o próximo release explicando, mais uma vez, que o ministro falou na ABRAJI como acadêmico, num “exercício intelectual”, numa tentativa de disfarce conhecido, pois poder não faz “análise”, nem “sociologia”, nem “psicologia”.

Poder é poder durante 24 horas do dia.

Se isso fosse verdade, não haveria motivo aceitável para um assessor do STF esclarecer opiniões privadas do seu presidente, concorda?

Não custa lembrar que movimentos temerários de aproximação com posturas autoritárias costumam fazer vítimas entre os companheiros de viagem.

Principal trombone do golpe de 64, Carlos Lacerda não demorou a perder seus direitos políticos. Articulador civil do golpe, o Estado de S. Paulo tornou-se alvo prioritário da censura.

Depois de apoiar centros de tortura, nossos espertalhões de ontem derramam lágrimas de crocodilo quando falam sobre as revelações da Comissão da Verdade.

Aliomar Baleeiro, udenista que foi golpista em 1954, 1956 e 1964, acabou a carreira no Supremo, fazendo arrependidas manifestações a favor os direitos humanos e das liberdades públicas. Tarde demais – mesmo para limpar biografias.

A questão de Joaquim é aqui e agora.

Em maio de 2013, o ambiente em torno do Supremo é outro. O debate sobre embargos irá abrir, necessariamente, uma discussão que ficou abafada durante o julgamento, em torno de falhas e contradições que ajudaram a produzir penas tão severas.

Será difícil repetir aquele ambiente de unanimidade cívica do ano passado.

Mas Joaquim vai tentar.

Ancião beduíno em Omã - por James L. Stanfield (Fotografia - National Geographic)

Onze perguntas para Mia Couto: uma entrevista inspiradora - por Esquerda.net / Buala.org

A forma como os africanos celebram a alegria de viver é uma coisa importante de aprender

"Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de
solidariedade, de abertura e de respeito com os outros".
(Fotografia: Maiqui Maiqui)
E se você tivesse a oportunidade de entrevistar um escritor? Pois os alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, tiveram. E não foi um escritor qualquer. Há duas semanas, os adolescentes estiveram com o moçambicano Mia Couto no auditório da escola. Em duas horas de conversa, os meninos não se intimidaram: fizeram perguntas inteligentes e não deixaram espaço para silêncios constrangedores (a propósito, veja o que o escritor tem a dizer sobre o silêncio na oitava pergunta).

Você lutou pela independência de Moçambique durante a guerra civil. Como a sua vivência como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) marcou o seu trabalho como escritor?
Marcou de várias maneiras. Foi um processo longo, de escolhas, de um certo risco em um dado momento. Foi algo que me ensinou a não aceitar e a não me conformar. É a grande lição que tiro, que também me ajuda hoje a estar longe desse movimento de libertação, que se conformou e se transformou naquilo que era o seu próprio contrário. Mas eu acredito que ser uma pessoa feliz e autónoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você. Isso é algo que resulta do nosso próprio empenho.

Como é ser escritor em Moçambique?
Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava chegando em casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava escondendo. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante entrando na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele me reconheceu. Então ele pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas me conhecem. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.

Essa história é para dizer que, para uma parte dos moçambicanos, a relação com o livro é uma coisa nova. É a primeira geração que está lidando com a escrita, com o escritor, com o livro. Nós, escritores moçambicanos, sabemos que escrevemos para uma pequena porcentagem da população, que são os que sabem ler e escrever. O livro tem uma circulação muito restrita. Mas, mesmo assim, as tiragens dos meus livros em Moçambique giram em torno de 6 mil, 7 mil exemplares, o que é um número alto. Quando comparo com as tiragens que faço no Brasil, posso dizer que o Brasil não vai muito além. O Brasil não lê tanto quanto pensamos. Se contarmos a população inteira do Brasil e apenas aquela que lê e compra livros, veremos que a situação é proporcional à de Moçambique.

O que os escritores fazem para promover o livro em Moçambique?
A Associação de Escritores de Moçambique faz encontros em escolas primárias e secundárias e em fábricas. E aí tentamos fazer alguma coisa. Mas os livros estão muito caros. É o trabalho que escritor faz, mas é uma panaceia, porque o resto não depende do escritor.

Quais são os maiores problemas de Moçambique hoje?
Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichês, de estereótipos. Vocês também têm uma imagem feita fora. A primeira vez que eu vim a São Paulo, há alguns anos, fui protagonista de uma história engraçada. Quando eu estava saindo de Moçambique, disseram-me que São Paulo era perigosíssima, que havia balas perdidas, gente morrendo, e eu comecei a ficar cheio de medo. Uma das minhas filhas me dizia até que eu ia morrer. Na viagem de avião, que dura onze horas, eu vim pensando que era um perigo e que eu seria assaltado. Tinham me dito para tomar cuidado quando chegasse ao aeroporto, porque tinha saído na Globo – lá também temos Globo – que havia falsos táxis que raptavam as pessoas.

E, de fato, eu já estava contaminado com aquela coisa. Quando cheguei, tinha um motorista da minha editora, mas ele não estava usando uniforme e não tinha nenhuma identificação. Eu logo perguntei se ele tinha identificação e ele disse: “Não, eu sou o Pepe”. E foi me conduzindo por um corredor e dizendo que o carro estava lá no fundo. E o carro não era propriamente um táxi. E a ideia de que eu estava sendo raptado começou a soar na minha cabeça. Quando entrei no carro e sentei ao lado do motorista, eu já estava olhando para a frente e pensando “esses são os últimos momentos da minha vida, vou reviver todo o meu passado, como nos filmes”. Até que o motorista pegou algo no porta-luvas. Era uma coisa metálica, para o meu desespero. E ele estendeu essa coisa e disse: “Aceita uma balinha?”. Vocês estão rindo, mas eu não tinha nenhuma vontade de rir, porque balinha lá não quer dizer a mesma coisa que aqui. Quer dizer bala no sentido literal mesmo, projétil de bala. E aí eu só consegui pensar que estava sendo assaltado, que aquele homem ia me matar, mas que era o assassino mais simpático que eu podia encontrar.

Isso é para mostrar como construímos a imagem uns dos outros. A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Eles são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista linguístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam sobretudo os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.

Com sua obra, você conseguiu apresentar a realidade de um país, e até de um continente. Como é a sua relação com Moçambique?
Eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo. Eu tenho duas dificuldades: eu sou de um continente em que os brancos são minoria. Os brancos moçambicanos são minoria. Num país de 21 milhões, os brancos são 10 ou 20 mil. Portanto, eu não poderia ser o representante de qualquer coisa, se é que existe isso de representatividade. E a outra dificuldade é que eu tenho nome de mulher. Agora já não acontece tanto, mas antes, quando eu ia visitar um outro país, muitas vezes estavam esperando uma mulher negra. E eu ficava no aeroporto esperando que alguém viesse falar comigo e nada. Já tive desentendimentos terríveis.

Uma vez fui visitar Cuba e tinham organizado um presente para cada membro da delegação de jornalistas. Voltei com uma caixa de presentes. Na época, vivíamos em guerra. E, na guerra em Moçambique, nós vivíamos em uma situação-limite, não tínhamos nada. Nós saíamos de casa em busca de coisas para comer. Era essa a situação que meus filhos tinham de enfrentar todos os dias. Então eu estava fascinado com aquela coisa de ter ganhado um presente. Quando cheguei em Maputo, abri aquela caixa e eram vestidos, brincos, eram coisas para uma mulher, para a senhora Mia Couto. Então eu não me sinto representante nesse sentido, mas sinto que o fato de seu ser conhecido hoje fora de Moçambique me obrigar a ter uma responsabilidade para com o meu próprio país. Então, quando estou fora, eu tento divulgar a cultura de Moçambique, os outros escritores. Trago livros de escritores moçambicanos e entrego às editoras, para saber se é possível que sejam editados etc.

E com Portugal?
Eu sou descendente, sou filho de portugueses e tenho uma relação com Portugal muito curiosa, porque eu não conhecia Portugal até eu ser adulto. Só fui a Portugal quando eu comecei a publicar meus primeiros livros. E era uma coisa muito estranha, porque a concepção africana de lugar é que o lugar é nosso quando os nossos mortos estão enterrados no lugar. E eu não tenho mortos em Moçambique, infelizmente. Então os meus mortos estão enterrados em algum lugar no norte de Portugal. E eu fui ver esse lugar. Eu queria ver justamente porque queria ter essa relação quase religiosa com o lugar.

O que acontece é que os meus pais imigraram para Moçambique quando eram jovens, tinham 20 anos, e viveram toda a sua vida lá, nunca mais tiveram relação com Portugal. E eles contavam histórias de um país que, ao mesmo tempo que me fascinava, era uma coisa muito distante. O que acontecia é que a minha mãe, ao contar histórias sobre a sua família, seus tios e avós, trazia para mim e para meus irmãos uma presença que nos fazia muita falta, porque todos os meus amigos tinha avós, tios e falavam dos primos. Eu não tinha ninguém. A minha família eram os meus pais e os meus três irmãos. Então o que a minha mãe fazia ao contar histórias era inventar a família inteira. Eu precisava ter um sentimento de eternidade que era conferido por essas histórias que a minha mãe contava. Mas eram quase todas mentira, quase todas eram inventadas por ela.

Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?
Eu não sou a favor. Considero que alguns dos motivos que foram invocados para a reforma ortográfica não são verdadeiros. E acho que é uma discussão com a qual os portugueses, principalmente, ficaram muito nervosos, porque, para Portugal, mexer na língua é uma coisa muito sensível. Algumas pessoas de Portugal acreditam que a língua é a última coisa que eles têm, que é a primeira e última coisa que têm, é um sentimento imperial da sua própria presença no mundo que foi posto em causa. Mas a minha questão não é essa. É que eu sempre li os livros dos brasileiros e nunca tive problema nenhum, nunca tive dificuldade nenhuma. Para vocês, que estão lendo meus livros em português de Moçambique, existe alguma dificuldade particular por causa da grafia? Ou a dificuldade é o resto e essa é a única coisa que não é difícil?

Eu acho inclusive que haver uma grafia que tem alguma distinção, um traço de distinção pode trazer um outro sabor a uma escrita. E os brasileiros conhecem muito pouco de Moçambique, de Angola ou de São Tomé. Às vezes eu ando na rua e tenho uma dificuldade enorme para explicar quem eu sou. Na verdade, isso eu não sei explicar, mas a dificuldade é para explicar de onde eu venho. Quando falo que não sou de Portugal, sempre fica uma coisa difícil. Fazem as perguntas mais estranhas sobre o que pode ser Moçambique, se é um país que fica perto do Paraguai, por exemplo. Então a distância entre nós não é um problema que deriva da ortografia, deriva de outras coisas, de política, de uma falta de interesse, de um distanciamento. Isso não será resolvido mudando o acordo ortográfico.

O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?
Há várias Áfricas e eu estou falando daquela que eu conheço. Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de solidariedade, de abertura e de respeito com os outros. A forma que os africanos têm de se abordar, de saber um dos outros é uma coisa genuinamente autêntica. Quando eu estou cumprimentando alguém, quando estou falando com alguém, eu dou espaço para o outro. Então há uma lição de escutar os outros. Eu nunca falo quando o outro está falando, dou espaço, não tenho medo do silêncio, que é uma coisa que acontece aqui. As pessoas estão conversando, de repente há um silêncio, e isso é um peso, é uma coisa da qual temos que nos libertar, é uma ausência. Na África, essa ausência não existe. Nesse silêncio, há sempre alguém que fala. São os mortos. Por exemplo, a relação com o corpo. É preciso ter tempo para encontrar alguém. Quando eu estou falando com um homem, eu cumprimento com um aperto de mão. Mas o aperto de mão não é igual, tem um ritual. Depois do aperto, a mão fica na mão da outra pessoa. Não tem nada a ver com interpretação gay. A mão fica na mão da pessoa com quem estamos falando, e essa mão não tem peso, é uma mão leve. Porque se fala com o corpo. Temos essa liberdade de poder usar o corpo para dizer coisas que não podem ser ditas pela palavra. São coisas pequenas que nos mudam muito interiormente. É uma capacidade de estar disponível para os outros. E capacidade de ser feliz.

Eu também encontro muito isso no Brasil. Tem a letra de música brasileira que diz “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. Eu acho que isso é, em grande parte, uma herança africana. Isto é para não ficar lamentando a desgraça. Eu acho que, se os europeus vivessem as dificuldades que vivem os africanos, eles seriam muito amargos. Aliás, já são. A forma como os africanos celebram a alegria de viver e o fato de que qualquer momento é um momento de festa, de celebração, de dança, de canto, acho que é outra coisa que é importante aprender. Há uma tolerância profunda. Vocês vão ouvir mil histórias sobre intolerância, e essas histórias também são verdadeiras. O mundo é feito dessa coisa contraditória, mas a verdade é que há uma tolerância muito grande. Essa tolerância nasce de uma coisa. O que eu vou dizer agora é muito importante: a África só pode ser entendida se vocês perceberem que a África tem uma outra religião. Essa África negra tem uma outra religião. Essa religião não tem nome. Não é o candomblé, não é a umbanda, é outra coisa. É uma religiosidade que não se separou das outras esferas do pensamento. Não é um sistema de pensamento. Na África que eu conheço, existem os deuses das famílias. Você tem os seus deuses, eu tenho os meus deuses. Isso significa que eu não estou muito preocupado em te convencer de que existe uma verdade só, que é uma coisa muito típica das regiões monoteístas, que é uma verdade que tem de ser imposta ao outro e o outro tem de seguir esse princípio. Você pode ter a sua verdade, eu tenho a minha, e está tudo certo. Acho que essa é a razão para os africanos terem essa tolerância.

Mas a verdade é que africanos são muito parecidos com todos os outros. Essa ideia de que a África é muito diferente, muito exótica existe só na cabeça de algumas pessoas. Mas há uma coisa que é preciso ser dita. Em uma sociedade que é muito pobre, às cinco da manhã, às vezes eu saio de casa e vejo as pessoas já acordadas, atravessando quilómetros a pé, andando 30, 40 quilómetros para ir à escola, saindo de casa sem o café da manhã e tomando simplesmente uma xícara de chá com muito açúcar para dar energia, para ir para a escola aprender. Eu tenho um prazer enorme de ir às escolas em Moçambique, porque os meninos estão ali com uma fé quase religiosa. Eles estão ali absorvendo, têm os olhos abertos até o infinito, estão completamente ali. Não se ouve uma mosca passando na sala. É um investimento que eles fazem em uma outra esperança, em uma outra crença. É impressionante. Mas há escolas em Moçambique nas quais eu não vou: a escola americana, por exemplo, que é uma chatice. É uma vida feita de facilidades, em contraste com essa vida de conquistas, em que as pessoas têm de sair de manhã e têm de lutar. Às vezes nem tenho coragem de perguntar a esses meninos o que eles fizeram para chegar à escola naquele dia. Muitas vezes o giz é feito com pau de mandioca seca. Às vezes, não há sala. É uma árvore. E não há cadeiras, as pessoas sentam no chão. No entanto, aqueles meninos estão todos os dias ali na escola, assim como os professores. Isso é uma grande esperança. É um universo de gente que sabe que tem de fazer isso para construir uma vida diferente. É uma grande escola.

Como você e as personagens da sua obra dialogam com o mundo contemporâneo, que é marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?
Eu acho que um jogo de construção e desconstrução porque esse mundo que você retrata como sociedade do consumo existe e não existe em Moçambique, porque muitas vezes consumimos muito pouco. Consumimos mais aquilo que é ilusão. Cada vez menos o Estado confere Educação e saúde, e nós temos que conseguir isso por outras vias. Então o que eu procuro fazer nos meus livros é uma coisa que eu posso fazer como escritor. Eu não posso lutar para além desse limite, que é sugerir que há outros caminhos, que é possível sonhar, que não podemos ficar acomodados, resignados. Obviamente eu não posso propor uma tese ou um modelo alternativo nos meus livros, nem saberia fazer isso, mas posso incentivar o gosto, a vontade.

Como você vê os seus personagens no cinema? Como é a visão física deles?
É um estranhamento, porque aquilo que eu criei não tinha voz nem rosto, nem para mim mesmo. Então de repente o personagem tem uma voz. Mas, mesmo que seja a mais bela voz do mundo ou o rosto mais belo do mundo, o fato de ter um rosto e uma voz e não estar aberto e não ter vozes múltiplas é uma perda. Por isso, eu me distanciei. Se participo do filme, é somente para pontualmente dar algum apoio, mas não como alguém que tenha competência para isso, porque eu não tenho. Eu quero que o realizador de cinema faça um produto distante, que é capaz de se soltar, ganhar asas e sair do texto escrito, senão perde como livro e perde como filme.

Você gostou de Um rio chamado tempo, uma casa chama terra, filme baseado em seu livro?
Mais ou menos. O que tinha de dizer já disse ao realizador, que é meu amigo. Gostei, mas não gostei.

domingo, 26 de maio de 2013

Grafismo nas ruas - por Nick Walker (Inspiration Hut)

A classe média suicida - por Fernando Brito (Tijolaço)


Em 1942, jovem filósofo francês Valentin Feldman, integrante da Resistência Francesa, diante de um pelotão de fuzilamento formado por soldados do Governo de Vichy, aliado dos nazistas, gritou para seus algozes, segundos antes de eles dispararem:

- Imbecis, é por vocês que vou morrer!

O comportamento da elite brasileira, por vezes, lembra o daqueles franceses, que, por covardia e interesses pessoais, tornaram-se agentes da dominação hitleriana sobre o país.

O Brasil jamais, em sua história, foi mais um país de classe média como é hoje – não obstante ainda termos uma legião imensa de  excluídos. Parece mesmo irônico que o governo petista viesse a repetir aquela frase com que procurava desqualificar, nos tempos de imaturidade, Getúlio Vargas, apontado como “o pai dos pobres e a mãe dos ricos”.

Ontem, o BC divulgou o salto dos gastos de brasileiros no exterior: US$ 2,1 bilhões em abril de 2013, 17% acima do registrado em abril do ano passado. Nos quatro primeiros meses do ano, passaram de US$ 8 bilhões.

É obvio que tamanha gastança não é feita pelas elites tradicionais, apenas. Grande parte dela provém da classe média que, deslumbrada com seu poder de compra crescente, viaja à Turquia por causa da novela da Globo ou compra enxovais de bebês em Nova York.

Não se está condenando estas pessoas – embora haja coisas bem melhores para motivar viagens – mas apontando a contradição entre o que podem hoje e o que se deixam levar a pensar sobre o governo que sustenta um crescimento econômico que lhes permite o que, antes, não podia fazer.

Mas é impressionante como ela se deixa levar pelo catastrofismo econômico que, há anos e sob as mais variadas formas, os porta-vozes da dominação financeira que subjugou este país impõem através da mídia e daqueles que ela seleciona como “analistas de economia”.

Porque é ele, o mundo das finanças e dos ganhos astronômicos que não perdoa que, em parte, tenha tido de moderar seus apetites sobre a carne suculenta deste país que, antes, devoravam sem qualquer moderação.

Ontem, o Brasil 247 pôs o dedo na ferida: embora a inflação inicie uma trajetória de queda, a economia aumente sua atividade e o IBGE acabe de registrar o menor índice de desemprego para o mês de abril em 11 anos,  a pressão do catastrofismo não dá tréguas.

O 247 vai ao ponto: eles querem é mais juros.

Os juros que, aliás, a classe média paga em seu consumo.

Como os soldados de Vichy, eles seguem o que os colaboracionistas da dominação lhes ordenam. E nem percebem que são ordens, acham que é mesmo aquilo o que pensam.

Felizmente, também como na França ocupada, eles são minoria, como provam as pesquisas de opinião sobre a popularidade do Governo Dilma.

Mas são os que têm voz, pelos meios de comunicação.

Porque nós, os que defendemos uma trajetória de libertação e avanço deste país, não falamos. E, quando falamos, nos fixamos muito mais na crítica às concessões que a política obriga um governo progressista a fazer.

E, sob este clima, toda sorte de oportunismos se espalha: os marinismos, as chantagens parlamentares do PMDB, a dança com que Eduardo Campos se oferece como alternativa à direita, desfalcada de um José Serra que afunda – atirando, aliás – e um Aécio Neves que não decola.

E, tal como naquela França do pré-guerra, não vão faltar figuras como a de Pierre Laval, que passou de socialista a expoente da direita e um dos maiores colaboradores dos alemães.

Se não entendermos que teremos, nas eleições do ano que vem, de enfrentar corações e mentes desta classe média ascendente com o máximo de solidez possível na base de apoio ao Governo progressista, estaremos correndo sérios riscos.

Isso, de maneira alguma, significa deixarmos de pensar o que pensamos e combater desvios – políticos e pessoais – do poder.

Mas, também, e jamais, esquecermos que a luta que se trava é maior e mais, muito mais, importante e vital.

É pelos direitos do povo brasileiro – mesmo os de sua classe média  – de viver melhor, num país livre, que não mais será escravo de ninguém.

Duelo de Magos - por Ilich Henriquez (Arte digital - Coolvibe)

O novo ministro do STF defende a reserva de mercado da mídia - por Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

A escolha de Barroso não é exatamente animadora.

O novo ministro tem muita proximidade com a Globo

Se alguém tivesse que dar uma instrução ao novo integrante do STF, Luís Roberto Barroso, seria mais ou menos assim: “Amigo, observe tudo que seus companheiros fazem com atenção. E depois faça o oposto.”

Barroso substitui uma pequena calamidade chamada Ayres Brito. O maior legado de Ayres Brito foi privar a sociedade brasileira do direito de resposta na mídia em casos de calúnia e difamação.

Depois, ele conseguiu entender que não havia conflito de interesses na relação justiça e mídia e fez um sofrido prefácio para o livro – a esta altura completamente morto, dados os novos fatos – de Merval Pereira sobre o mensalão.

Seria de supor que Dilma, depois da barbeiragem espetacular na escolha de Luiz Fux, tenha sido mais cuidadosa ao optar por Barroso.

Mas uma visita ao blog de Barroso não chega a ser exatamente animadora. Para começo de conversa, ele foi advogado da Abert, a associação de empresas de rádio e televisão que obedece ao comando da Globo.

Logo, suas relações com a Globo estão, desde já, sob suspeita de promiscuidade.

Isso fica claro num artigo que está em seu blog, e que ele escreveu exatamente para o Globo, em 2011. Nele, defendeu, com argumentos bisonhos, a manutenção de reserva de mercado para as empresas jornalísticas brasileiras.

É a chamada pataquada.

Considere.

“A primeira questão a ser enfrentada diz respeito ao fato de que as empresas genuinamente brasileiras que atuam nesse mercado não podem ter mais de 30% de capital estrangeiro, por imposição constitucional. Admitir-se empresas com 100% de capital estrangeiro fazendo jornalismo ou televisão no Brasil não apenas viola a Constituição como cria uma competição desigual. Imagine se um jogo de futebol em que um dos times devesse observar as regras tradicionais e o outro pudesse pegar a bola com a mão, fazer faltas livremente e marcar gols em impedimento. A injustiça seria patente.”

Ora, por que as regras seriam diferentes? Por que qualquer empresa estrangeira de mídia no Brasil poderia pegar a bola com a mão? A legislação de mídia seria a mesma, como acontece com qualquer outro ramo.

Nos anos 1990, o Brasil se livrou da reserva de mercado para automóveis, com ganhos expressivos para os consumidores, que se livraram das carroças caríssimas.

As novas fábricas que se instalaram no país, como a Fiat ou a Toyota, viveram desde o primeiro instante sob as mesmíssimas regras das demais montadoras.

Se essa lógica patética valesse, estaríamos sob reserva de mercado em todas as áreas. Você talvez estivesse condenado a ter um laptop da Itautec.

Mas Barroso foi adiante em sua insana cavalgada a favor do atraso.

“Existem (…) razões mais substantivas para que as regras sejam mantidas e respeitadas. O Brasil é um país cioso de suas tradições culturais, que  incluem uma belíssima música popular, o melhor futebol do planeta, novelas premiadas mundo afora e cobertura jornalística acerca dos fatos de interesse nacional.

Entregar o jornalismo e a televisão ao controle estrangeiro poderia criar um ambiente de surpresas indesejáveis. No noticiário e na programação, teríamos touradas ou jogos de beisebol. Ou, quem sabe, de hora em hora, entraria em tela cheia a imagem do camarada Mao, grande condutor dos povos. Como matéria de destaque, uma reportagem investigativa provando que Carlos Gardel era uruguaio e não argentino. Pura emoção. À noite, um documentário defenderia a internacionalização da Amazônia.”

Raras vezes foram ditas tantas estupidezes num só parágrafo. Raras vezes uma situação de inaceitável privilégio foi defendida com tamanha pobreza de argumentos.

Um homem que escreve essas coisas – que deveriam ter efeito desqualificador em qualquer escolha – ter chegado ao STF mostra quanto é baixo e primário o nível do sistema judiciário brasileiro, e quanto é frágil o critério de opção dos governos.

Comentário
Com relação às nomeações de Dilma e Lula pra o STF, eu simplesmente não tenho mais esperança nenhuma.

sábado, 25 de maio de 2013

Fotografia - por Masterok (Mishkablack)


Os dez anos que mudaram o Brasil - por Eric Nepomuceno (Carta Maior)

Instalado formalmente em outubro de 2003, a dez meses da chegada de Lula da Silva à presidência, o programa Bolsa Família, vítima de boatos nos últimos dias, beneficiou até agora um pouco mais de 50 milhões de pessoas e ajudou a mudar a cara do país.

O Bolsa Família, de longe o mais amplo programa de transferência de renda da história brasileira, completa dez anos. Instalado formalmente em outubro de 2003, a dez meses da chegada de Lula da Silva à presidência, beneficiou até agora um pouco mais de 50 milhões de pessoas e ajudou a mudar a cara do país. São dois os requisitos básicos para aceder ao benefício: ter uma renda familiar inferior a 35 dólares por integrante da família e que as crianças frequentem uma escola pelo menos até completar o ensino fundamental.

Se no primeiro ano o programa chegou a três milhões e 600 mil domicílios brasileiros, faltando pouco para completar uma década alcança 13 milhões e novecentos mil em todo o território do país. Considerando-se a média de quatro integrantes por família, se chega a 52 milhões de pessoas, uma população superior a da Argentina. Quase meio México.

O orçamento destinado ao Bolsa Família em 2013 é de doze mil e 500 milhões de dólares, com um valor médio de 35 dólares por membro da família beneficiada. É pouco, certamente. Mas, para os que se beneficiam, é muitíssimo. É a salvação.

Atualmente 45% dos inscritos originalmente em 2003 continuam se beneficiando do Bolsa Família. São 522 mil famílias que jamais deixaram de receber a ajuda do governo. Não existem dados oficiais sobre os demais 55% que inauguraram o programa, mas considera-se que a maior parte deles alcançou outras fontes de renda que, somadas, superam o mínimo determinado para que recebessem o subsídio.

Há registros que mostram que, em dez anos, um milhão e 700 mil famílias – 12% do total que receberam benefícios nesse tempo – desistiram voluntariamente do benefício, por haver obtido ingressos superiores aos 35 dólares por cada um de seus integrantes, o piso mínimo permitido para que se solicite o Bolsa Família.

Vale reiterar: o valor destinado a cada família pode parecer pouco. Na verdade, é pouco. Mas para os que viveriam eternamente condenados a um estado de pobreza aguda e absoluta se não fosse pelo programa, é a salvação.

As conclusões de todos os estudos dedicados a analisar os efeitos do Bolsa Família são unânimes em assegurar que contribuiu de maneira decisiva para reduzir as imensas brechas e desigualdades sociais que sempre foram uma das chagas mais visíveis do país.

Quando foi implantado, o programa foi alvo de críticas furibundas da oposição e dos grandes conglomerados de meios de comunicação, que o reduziam a um mero assistencialismo sem maiores efeitos. Hoje admitem, a contragosto, o papel essencial do Bolsa Família, o mais visível de todos os programas sociais dos governos de Lula da Silva e agora de Dilma Rousseff, para aliviar as agruras de famílias vulneráveis assegurando que, pelo menos seus filhos, tenham acesso mínimo a serviços de educação e saúde.

Contrariando a tese que dizia que a transferência de renda através de programas do Estado iria perpetuar a miséria (a crítica mais ouvida há dez anos era a seguinte: se recebem dinheiro do governo, para que trabalhar?), o resultado obtido até agora indica o contrário.

Para receber o benefício, as crianças têm que frequentar a escola, onde recebem atenção da saúde pública. Deficiente, insuficiente, é verdade. Mas melhor que nada. Passados dez anos, muitos dos filhos das famílias amparadas pelo programa agora vivem por sua própria conta, escolarizados e com chances concretas no mercado de trabalho.

As estadísticas indicam que 70% dos beneficiados com mais de dezesseis anos de idade conseguiram trabalho, contribuindo para aumentar a renda familiar.

As famílias mais numerosas e que vivem em condições de miséria, recebem benefícios superiores à média, que é de uns 300 dólares mensais. A proposta é complementar à renda familiar até alcançar níveis mínimos. Os que têm filhos em idade escolar têm que comprovar que as crianças vão à escola. Algumas famílias chegam a receber 650 dólares por mês, dependendo do número de filhos menores. Costuma acontecer, em áreas de miséria extrema, que um casal tenha oito, nove, dez filhos. Em tais casos, a sobrevivência de todos depende diretamente do que recebem do Bolsa Família.

Passados esses dez anos não há lugar para nenhuma dúvida: o perfil da pobreza mudou radicalmente no país. Muitas casas de pobres foram ampliadas, receberam telhados novos, passaram a ter pisos de cimento ou cerâmica. São casas muito humildes, mas que contam com refrigerador, lava roupa, televisores e, em muitos casos, com um computador com conexão à Internet popular (a preços muito baixos, subsidiados).

E saltam à vista, então, algumas das incongruências típicas, talvez inevitáveis, desta etapa de transição entre miséria e pobreza, ou entre diferentes perfis de pobreza. Há casas de barro, sem esgoto e em condições sanitárias muito precárias, ostentando antenas parabólicas de televisão. Outras contam com luz elétrica muito precária, mas têm telefone celular. Funciona mal, é verdade. Mas às vezes funciona.

Há casas com piso de terra, sem água potável nem torneiras, com o banheiro fora como há meio século, mas com televisão. Em alguns estados brasileiros, o analfabetismo é de tal maneira crônico, que impede até a instalação de indústrias que gerariam emprego e esperança de futuro.

Sim, é verdade, a miséria e a humilhação persistem, mas agora persistem de maneira menos contundente, menos permanente. Já não é como uma sentença eterna, um destino de vida.

Por muito tempo cientistas políticos, sociólogos, antropólogos e um montão mais de ólogos continuarão discutindo as bondades e as falhas de um programa destinado a redistribuir renda, através do Estado, aos desamparados de sempre. Continuar-se-ão debatendo os prós e os contras do assistencialismo de Estado. E, enquanto isso, 52 milhões de brasileiros terão ludibriado um futuro cruel e passando da humilhação e da miséria à pobreza digna.

Comentário
É bom frisar os que sempre foram contrários ao bolsa-família (um programa incontestavelmente bem sucedido): Globo, PSDB, DEM, Estadão, e demais conservadores em geral. 
Em resumo, sempre foi contrária ao bolsa-família a parte (mais) putrefata da sociedade.

Fotografia em templo budista - por AFP / Yahoo!

Malásia – Devoto budista deposita moeda em pote na frente de estátuas de Buda, como oferenda em templo da cidade de Kuala Lumpur.

Cláudio Lembo: “A crise é o poder Judiciário” - por Bob Fernandes (Terra Magazine)

Cláudio Lembo (PSD) foi secretário municipal em São Paulo quatro vezes, candidato a vice-presidente de Aureliano Chaves em 1989, vice-governador e governador de São Paulo. Nesta conversa, Lembo aponta a "falta de debate ideológico" como causa da violência em uma sociedade onde se trava uma luta entre os que podem e os que não podem "consumir com exagero". Para o ex-governador, "a crise é poder o Judiciário", que "se intromete indevidamente no Legislativo a todo momento". Lembo entende ser o PSDB "um partido reacionário como a antiga UDN", um partido "sem raízes na sociedade" e crê "na vitória de Dilma em 2014 no primeiro turno". Lembo diz que José Serra será "candidato a presidente", mas ironiza:

- (…) o povo não quer, aí é um problema entre o Serra e o povo. Me parece que há aí uma situação difícil, ele terá problemas muito graves e terá que procurar um psicólogo para resolver isso, porque povo e Serra não se casam.

Bob Fernandes: Governador, na sua história política o senhor foi da Arena, PFL, DEM, partidos conservadores no espectro político, ou, para usar um termo ideológico clássico, da direita. Quando o senhor era governador de São Paulo, à época dos ataques do PCC (maio de 2006), o senhor foi cobrado, instado a reagir com dureza, com violência até, e o senhor ali reagiu de forma contrária, atacou a elite, chamou-a de “elite branca, reacionária, que produziu a miséria.”. Ali houve uma ruptura sua? Que tipo de ruptura?
Cláudio Lembo: Primeiro psicológica, e da minha parte, e segundo com a sociedade em si, principalmente com a elite que não percebe a realidade brasileira. O que está se vivendo é uma guerra civil. Numa sociedade com exagero consumista como a nossa há quem se revolte… Quando não há uma luta ideológica há uma luta como a que estamos vendo nas ruas de São Paulo, isso no fundo é ausência de ideologia, quando havia ideologia havia conflito de ideias, hoje não há conflito de ideias, há um conflito de consumidores, os que não têm capacidade de consumo agem de todas as maneiras possíveis e agridem… Teríamos que educar, as televisões não deveriam ser usadas para educar para o consumo, mas não, cada vez querem que se consuma mais, quem não tem capacidade para ser consumidor, agride… É aí que eu vejo um conflito entre a elite e a sociedade como um todo…

O senhor tem escrito nos últimos dias, se referido à “crise”. Onde, especificamente, o senhor percebe, localiza a crise?
A crise hoje está no poder judiciário. Se no passado eram militares que criavam crises, às vezes eram alguns políticos que criavam crises, hoje é o poder judiciário… O legislativo como um poder popular, com legitimidade popular, tem agido dentro dos parâmetros de um congresso, de um parlamento, agora os de cargos vitalícios, os ministros do Supremo, dos tribunais superiores, mesmo as cortes locais passam a ter uma visão aristocrática e acham que podem tudo e falam tudo equivocadamente e sem saber…
Há uma intromissão indevida do judiciário a todo momento  no parlamento. Param processos legislativos, agem criando normas, dizendo que há paralisia do legislativo. Não há paralisia no legislativo, o legislativo não é uma fábrica de salsicha. Uma lei para ser feita tem que haver grandes debates, fazer audiências públicas, um grande confronto com a sociedade, ouvir a sociedade… Agora, um homem sozinho em seu gabinete em Brasília dá um despacho e viola toda a…

O senhor está se referindo a Gilmar Mendes há algumas semanas…
Ele e o outros, os onze, hoje só são dez. agem, às vezes, um pouco abruptamente.

Há uma semana, em um texto, o senhor elogiava abertamente o ministro Joaquim Barbosa
É verdade, eu elogiei, ele tinha feito, dito coisas interessantes, mas essa semana acha que ele escorregou… ele não podia chamar os partidos brasileiros de partidos de brincadeira, de brinquedo… Se são de brinquedo, estes brinquedos foram concebidos pelo Supremo Tribunal Federal. Os políticos cortaram na própria carne criando a cláusula de barreira, ou seja, diminuindo o número de partidos de acordo com os votos que obtivessem… Quem criou o brinquedo foi o Supremo Tribunal Federal (ao liberar) não foram os políticos de mandato popular. Portanto, precisam tomar mais cuidado, ele e todos os demais, quando falam com a sociedade, senão criam um sentimento de hostilidade, ilegítimo, e de algo que não é real, não é verdadeiro.

Corrupção.  O que sempre se vê é a oposição do momento, o governo do momento, a mídia, tratando de maneira focal, localizada. Como o senhor percebe a corrupção?
A corrupção não é desse ou daquele partido, todos os partidos têm corruptos no seu interior e a sociedade também tem corruptos. A corrupção tem que ser combatida, e eu diria  a você que a legislação brasileira é boa para combater a corrupção…a lei de responsabilidade fiscal é notável, a lei de improbidade administrativa é notável. Estão em vigor no Brasil há 20 anos e tem sucesso. Portanto, hoje a corrupção é combatida.

O problema então é que haveria uma “justiça de classe”, assim como há a medicina, a saúde, a educação de classe?
Eu acho que sim. Só olham o parlamento, só olham os políticos e não olham a generalidade da sociedade. Isso é mau.

É um país de corruptos sem corruptores?
Não é um é país de corruptos. É um país como todos os demais países. A Espanha é assim, Portugal é assim, os Estados Unidos são assim… E hoje se combate a corrupção, tem mecanismos de transparência que combatem a corrupção. O que há é uma deformação dos meios de comunicação, que não percebem com clareza as situações que deveriam reconhecer, universalizam coisas muito específicas, o que é mau.

Sucessão presidencial no ano que vem. Quem estará com chances na reta da largada?
Uma previsão muito difícil um ano antes, mas acho que a presidente Dilma tem condições de ganhar no primeiro turno.

E o ex-governador e hoje senador Aécio Neves, eventualmente Eduardo Campos, governador de Pernambuco, talvez José Serra?
O PSDB não terá condições ainda de eleger um presidente da República, o traço do PSDB hoje é um traço rançoso, é o traço de um partido reacionário, que tomou o espaço da antiga UDN, que era um partido que não tinha raízes no povo, com a sociedade. Então não acredito que o governador Aécio, hoje senador, possa se eleger presidente da República… mas, poderá acontecer. E o Eduardo Campos, primeiro, é de um estado que está um pouco isolado do jogo político nacional, em segundo lugar ele é muito jovem e, terceiro, acho que ele foi um pouco assoberbado, avançou antes da hora, quis se lançar nacionalmente, mas era cedo.

Há notícia de que a presidente Dilma teria a certeza de que ele será candidato no ano que vem…
É possível, ela tem mais informações do que eu que estou aqui na planície… ou ela está dizendo isso para queimá-lo… Mas não acredito que ele seja candidato porque os próprios correligionários estão se revoltando contra a posição dele.

E o ex-governador José Serra, que a gente não sabe se será candidato a senador, a presidente?
Não, ele é candidato a presidente. Não tenho dúvida de que o José Serra quando nasceu foi batizado e foi dito a ele: “Será presidente da República”. Agora, o povo não quer, aí é um problema entre o Serra e o povo. Me parece que há ai uma situação difícil, ele terá problemas muito graves e terá que procurar um psicólogo para resolver isso, porque povo e Serra não se casam

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Fotografia editada - por Hank Morgan (Bulged)

Perguntas do senado do Dr. Barroso - por Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada)

O senhor acha que o artigo 52, Inciso X da Constituição é inconstitucional ?

Com a indicação da Presidenta Dilma, cabe agora proceder-se à sabatina no Senado, para homologar a escolha.

O que costuma ser, apenas, um ritual, embora a indicação de Gilmar Dantas (*) – a mais maldita das heranças de Fernando Henrique – tenha sido polêmica, sob a pressão moral e intelectual de um artigo do professor Dalmo Dallari.

Para que a sabatina no Senado possa revelar à opinião pública as ideias que o professor Barroso levará à Corte, o ansioso blog sugere um conjunto de perguntas, especialmente à inoperante bancada do PT – clique aqui para ler o artigo do professor Wanderley sobre o cerco à Presidenta Dilma.

Por exemplo:

O senhor considera o Golpe de 1964 um “mal necessário” ?

Os partidos brasileiros uma mentirinha ?

O senhor anistiará a Lei da Anistia ?

O senhor acha que o Brasil deveria rasgar a adesão à Carta dos Direitos Humanos da OEA ?

O senhor votará fora dos autos ?

O senhor gosta dos holofotes da Globo ?

O senhor votará de olho na câmera da Globo instalada pela TV Justiça, a tempo de sair no jornal nacional ?

O senhor é favor de fechar a TV Justiça ?

A festa dos seus 60 anos será no Golden Room do Copa, financiada pelo advogado Sergio Bermudes ?

O senhor tem algum parente que trabalhe no escritório do Dr Bermudes ?

O senhor tem algum parente candidato a desembargador, ministro ou qualquer outro posto na Magistratura ?

O senhor tem alguma parente que mantenha atividades profissionais advocatícias em torno do Supremo, mesmo que não seja a serviço do dr Bermudes ?

Quando vai a Nova York, o senhor se hospeda no apartamento o Dr Bermudes na Quinta Avenida ?

Apesar de ter sido advogado de Daniel Dantas, o senhor legitimará a Operação Satiagraha, prestes a ser submetida ao plenário pelo presidente Barbosa ?

O senhor daria HCs Canguru, mesmo depois de assistir a essa histórica reportagem do jornal nacional ?

O senhor manterá negócios particulares, ainda que na área de educação à distância, depois de ministro ?

O senhor pretende reforçar o salário de ministro com aulas na escolinha do professor Gilmar ?

O senhor acusará a Presidenta que o nomeou do crime de “gigantismo” ?

O senhor vai à noite de autógrafos do Ataulfo Merval de Paiva (**) ?

O senhor acha que o domínio do fato dispensa prova ?

Que “provas tênues” bastam para condenar ?

Que a “verdade é uma quimera” ?

O senhor toca guitarra em público ?

Troca de gravatas para a Globo ?

A Visanet é estatal ?

O senhor acha o Genoino ladrão ?

O senhor acha que Genoino é quadrilheiro, ou que ele entrou na quadrilha só para pegar o Dirceu ?

O mensalão foi provado, ou, como o Neymar, ainda está por provar-se ?

Se o mensalão para comprar deputados não invalida a Reforma da Previdência, que mensalão é esse – como se perguntou o Mauricio Dias ?

O senhor acha que o professor Luizinho, líder do PT na Câmara, levava grana, todo mês, para votar no PT ?

O senhor acha que coligação de partidos deve acabar no momento em que se realiza a eleição, com o pregou o Big Ben de Propriá ?

O senhor condenaria alguém se a única “prova” contra ele fosse uma entrevista muitas vezes desmentida do Thomas Jefferson à Folha (***) ?

O senhor considera o Thomas Jefferson um Herói da Pátria ?

Nos seus julgamentos o senhor rasgará pareceres do Tribunal de Contas da União ?

Considera que o Duda não tem direito à dupla jurisdição ?

Que o artigo 52, Inciso X da Constituição foi abduzido pelo Gilmar e pelo Eros e se tornou “inconstitucional” ?

O senhor acha que é o Barbosa quem deve cassar o Genoino ?

Ou a Câmara, por voto aberto ?

O senhor reconhece a plenitude da liberdade de expressão, tal qual a histórica decisão do Ministro Celso de Mello, em ação de Daniel Dantas, seu ex-cliente, contra o ansioso blogueiro ?

O senhor acusará um repórter de “chafurdar na lama”?

O senhor considera o Presidente Lula “um safo” ?

O senhor concorda com o Ministro Pertence que, ao se referir ao MP, disse “criei um monstro”?

O que o senhor entende por “soberania popular” ?

O senhor será um juiz apartidário, ou expressará suas inclinações politicas no PiG (****) e nos votos ?

Por fim, o senhor acha que o Brasil tem que ser governado pelo Supremo ?

Em tempo: o PT elegeu algum senador ?

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Sabor da morte - por Przemek Nawrocki (Arte digital - Behance)

Salvador da pátria - por Leandro Fortes (CartaCapital)

Joaquim Barbosa durante seminário jurídico em março
Ninguém pode negar ao ministro Joaquim Barbosa o direito à crítica. Nem o direito de estar certo - o que, aliás, acontece até com um relógio quebrado, duas vezes ao dia.

O Brasil tem, sim, partidos de mentirinha montados sobre interesses muito distantes das urgências coletivas e moldados apenas para projetos de poder de curto prazo. E é fato, também, que a dinâmica da engenharia política do Congresso Nacional é quase que exclusivamente bolada para atender as demandas do Poder Executivo.

Barbosa está certíssimo.

Agora, ninguém pode ser ingênuo de imaginar que o presidente do STF falaria isso para uma plateia de estudantes, durante um evento gravado, sem saber da imediata repercussão que se seguiria. Foi um risco bem calculado para desagradar o governo e o PT, como desagradou, alfinetar a OAB e deixá-lo disponível no mercado eleitoral de 2014.

Barbosa aposta, justamente, na despolitização do debate e coloca-se na manjada posição do homem do povo contra os políticos profissionais, do herói de toga do mensalão pronto a libertar Sodoma de seus vícios sociais abomináveis, aquele que virá nos redimir. Assim, nada presta: nem os advogados, nem os juízes, nem o Congresso Nacional, nem o governo, nem, em última análise, o País. Talvez seja por isso que ele prefira ir à praia em Miami.

Barbosa, o juiz implacável e irascível, é um Frankenstein criado pela mídia que, apesar dos esforços, ainda não está totalmente controlado. Cometeu, recentemente, o erro de agredir verbalmente um repórter de O Estado de S.Paulo e, em seguida, pagar a viagem de um repórter de O Globo para fazê-lo ouvir, em Costa Rica, que a imprensa brasileira é de direita - com direito a matéria no Jornal Nacional e tudo.

Normalmente, as Organizações Globo não perdoam esse tipo de deslize. Mas as opções para 2014 estão cada vez mais escassas. José Serra, de alternativa, virou um estorvo. Aécio Neves é uma dessas falsas incógnitas. Apesar da pele morena e dos dentes ultrabrancos, ainda é somente uma máquina de clichês antipetistas carente, urgentemente, de um upgrade. Para elegê-lo, será preciso um esforço logístico e financeiro 100 vezes maior do que o utilizado nas eleições de Fernando Collor, em 1989, e Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998.

Resta Barbosa, o homem que, perigosamente, diz o que lhe vem à telha. E qualquer um que já tenha vivido uma eleição presidencial sabe exatamente o desastre anunciado que isso representa.

Comentário
Joaquim Barbosa é um tresloucado, uma metralhadora giratória - que eventualmente acerta. No meio de muitas asneiras que proferiu, ele até disse coisas boas, como na discussão com Gilmar Mendes, quando disse que a imprensa era de direita, quando falou dos partidos de mentirinha, etc.
Porém, JB ataca para todos os lados - e quando erra, como no caso do julgamento da ação penal 470, acaba cometendo erros terríveis.
Ele cumpriu o papel que a direita esperava que ele cumprisse. Conseguiram que em sua sanha inquisidora ele condenasse quem eles gostariam. Agora, o encanto esta se desfazendo (diversas vezes alertei aqui no blog e em outros que isto ocorreria). Ele volta a ser o personagem problemático, arrogante, boquirroto, errático, inconstante que é. Já não presta mais para os donos do poder, que o usaram e agora o legarão a latrina.

Ilustração criativa - por Mia Araújo (Cruzine)

André Singer X Fernando Branquinho: Afinal, quem está com a razão? - por Marcos Doniseti (Guerrilheiro do Entardecer)

Investimentos produtivos (em infra-estrutura, por exemplo) são essenciais
para se manter o crescimento econômico e as políticas de distribuição de renda.
Dois textos que li neste final de semana procuraram analisar a aprovação da MP dos Portos. O primeiro foi escrito pelo respeitado e íntegro cientista político André Singer. O outro texto é de autoria do engenheiro e blogueiro Fernando Branquinho.

Entre os dois, concordo muito mais com a interpretação do Branquinho. E os motivos disso é o que eu explicarei na sequência.

Enquanto André Singer afirma que a aprovação da MP dos Portos acelera o processo de liberalização que começou nos anos 1990 (durante os governos Collor-Itamar-FHC) e que isso acabará por enfraquecer o papel do Estado na economia do país, Fernando Branquinho parte de uma perspectiva distinta.

Como o Branquinho mostrou em seu texto, todas as medidas que o governo Dilma tomou, de 2012 para cá, foram no sentido de se estimular o INVESTIMENTO PRODUTIVO. Basta ver a redução da taxa Selic que tivemos, para o menor nível da história, e as medidas tomadas para estimular a produção (como a redução de impostos, elevação de alíquotas de importação, desoneração da folha de pagamento, entre outras) e que ele cita em seu texto.

Isso demonstra, a meu ver, que Dilma fez, de fato, uma aliança política com o CAPITAL PRODUTIVO e colocou o capital especulativo de lado. Daí a fúria da Grande Mídia e da trinca PSDB-DEM-PPS, que são justamente os porta-vozes do capital financeiro no Brasil hoje, contra o seu governo desde que ela adotou essa política pró-investimento produtivo. E vejam quem elogiou a aprovação da MP dos Portos: Firjan, Abdib, ou seja, setores empresariais que dependem e vivem de PRODUÇÃO, de CONSUMO e não de Especulação.

E porque Dilma faz isso? Porque virou 'privatista'? Penso que não, com todo o respeito que tenho pelo André Singer.

Ela faz isso porque se o Brasil não retomar um processo de crescimento econômico mais forte, as políticas de distribuição de renda que foram responsáveis pela reeleição de Lula e a vitória dela, em 2010, irão para o Beleléu. E todo esse arranjo político-econômico-social-institucional que sustenta o governo dela (e que manteve o de Lula em pé também) irá desmoronar rapidamente.

Aliás, é justamente por isso que a oposição demotucana e midiática fez de tudo para impedir a aprovação da MP dos Portos, vive falando que a inflação alta irá voltar, que a Petrobras quebrou, que estamos próximos de um racionamento de energia novamente (como fez neste início de 2013), que o governo iria confiscar o dinheiro da caderneta da poupança, entre inúmeras outras asneiras totalmente desprovidas de fundamento.

Construção das usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio
são fundamentais para o Brasil continuar crescendo.
Lula matou a charada quando disse, na cerimônia de lançamento do livro sobre os 10 anos de governo do PT, que todo esse barulho midiático visa impedir que se façam investimentos produtivos no Brasil.

Sem estes investimentos, o crescimento do país irá cessar.

E com isso, as melhorias econômicas e sociais deixarão de acontecer.

Daí, adeus governo Dilma e Aécio será eleito Presidente em 2014 ou Dilma sofrerá um processo de Impeachment caso se reeleja, pois o seu governo perderá popularidade rapidamente e o governo de coalizão que a sustenta irá desmoronar (com todos os ratos abandonando o barco do mesmo rapidamente).

Daí, as forças progressistas dificilmente voltarão a governar esse país, pelo menos por uns 30 anos, tal como previu Jorge Bornhausen quando estourou a chamada 'crise do Mensalão' (inexistente, mas que quase derrubou o governo Lula), em 2005.

Portanto, estimular o investimento produtivo e retomar o crescimento num ambiente de inflação controlada e de contas públicas e externas equilibradas é essencial para que se possa dar continuidade às políticas distributivas e de fortalecimento do Estado que foram colocadas em prática durante estes 10 anos de governos Lula-Dilma.

Do contrário, aguentem o FHC, Aécio, Roberto Freire, Álvaro Dias, Beto Richa, Marconi Perillo e cia. mandando no país novamente.

Alguns críticos dizem que essa análise repete a famosa 'visão etapista' rumo ao Socialismo do PCB dos anos pré-Golpe de 1964. Mas discordo inteiramente dessa avaliação.

Penso que isso que vemos acontecer atualmente no Brasil não tem nada a ver com as teses do PCB de antigamente, mas é algo mais prático, mesmo, que é a necessidade de se manter o crescimento econômico para poder viabilizar a continuidade das políticas de distribuição de renda, de fortalecimento do Estado e de crescente inserção do Brasil no cenário mundial (vide a força cada vez maior da Unasul e as vitórias do Brasil na FAO e na OMC).

Sem crescimento econômico, nada disso será possível. E para ter crescimento é preciso ter investimentos produtivos e jogar a especulação financeira no lixo, que é exatamente o que o governo Dilma está fazendo neste momento.

Portanto, entendo que essa MP dos Portos irá contribuir para o crescimento do país, para o que os investimentos produtivos são fundamentais e a sua aprovação consolida a aliança política entre o governo Dilma e o capital produtivo do país.

Além disso, o fato concreto é que o Estado brasileiro, sozinho, não dá conta de fazer todos os investimentos necessários em infra-estrutura (Energia, Transportes) e na área social  (Educação, Saúde, Habitação, Transportes Coletivos urbanos, Saneamento Básico, etc) de que o país necessita.

Aliás, quero lembrar uma coisa, que a Maria da Conceição Tavares sempre falou: O crescimento do Brasil no chamado período Desenvolvimentista (1930-1980) se deu graças à combinação de três fontes de recursos: o Capital Público, o Capital Privado Nacional e o Capital Estrangeiro (de origem pública externa até o governo democrático de Vargas e de origem privada no governo JK).

Portanto, nunca fomos uma economia de tipo soviético, fortemente burocratizada, onde o Estado controla tudo e faz tudo. O Brasil cresceu tanto, depois de 1930, justamente porque usou destas várias fontes de recursos. Tivesse apelado apenas para o capital público (como defendem certos críticos mais 'esquerdistas' do governo Dilma) e seu ritmo de crescimento econômico teria sido muito menor, sem dúvida alguma.

O governo democrático de Vargas (1951-1954) sucumbiu, em grande parte, porque não conseguiu acelerar o crescimento da economia e tampouco melhorar o padrão de vida da população, sofrendo com inflação elevada, arrocho salarial e problemas sérios nas contas externas do país, embora tenha criado a Petrobras, o Monopólio estatal do Petróleo e o BNDES, que muito contribuíram para o desenvolvimento do país nas décadas seguintes, o que acontece até os dias atuais, aliás.

Entendo que JK foi quem melhor soube fazer esse arranjo político, econômico, social e institucional na história brasileira, pelo menos no século XX. E um dos motivos principais para o seu sucesso, na área econômica e social, foi justamente o fato de que o mesmo apelou para várias fontes de recursos (público, privado nacional e externo) a fim de fazer os investimentos produtivos necessários ao rápido desenvolvimento do país.

O sucesso econômico de JK foi fundamental para que ele terminasse o governo com elevados índices de popularidade, sendo que ele era, inclusive, o grande favorito para vencer a eleição presidencial de Novembro de 1965, caso a mesma não tivesse sido cancelada pela Ditadura Militar.

Mesmo tendo promovido um rápido crescimento da economia brasileira e
sendo muito popular, JK enfrentou três tentativas de Golpes de Estado
em seu governo (na posse, em 1956 e em 1959). 
Logo, não foi à toa que JK foi o único Presidente da República, antes de FHC, que foi eleito democraticamente e que entregou o cargo para um sucessor eleito diretamente pelo povo, mesmo enfrentando um ambiente de crescentes turbulências internas, políticas e sociais, e também externas (exemplo: a Revolução Cubana aconteceu em 1959, durante o seu governo).

E mesmo assim, durante o seu mandato (1956-1961), tivemos o maior crescimento da história do Brasil até então (média de 7% ao ano; a produção industrial aumentou 10,7% ao ano). A política econômica de JK deu tão certo que até a Ditadura Militar (de forma muito mais repressiva e concentradora de renda do que o governo JK, é claro) copiou o seu modelo econômico, a partir do governo Costa e Silva.

E mesmo assim, não custa lembrar que JK, mesmo sendo um político centrista e moderado e sendo muito popular, enfrentou três tentativas de Golpes de Estado: em 1955, para impedir a sua posse na Presidência da República, e também em 1956 (Revolta de Jacareacanga) e em 1959 (Revolta de Aragarças), que foram duas tentativas de derrubá-lo do governo.

Com certeza, tais tentativas golpistas teriam tido chance muito maior de sucesso caso o governo JK tivesse fracassado na sua política de promover um acelerado processo de crescimento econômico do país.

Penso que os governos de Lula e Dilma, de certa maneira, promovem uma política econômica e social na linha de um Neo-Desenvolvimentismo 'à la JK' com uma tonalidade social mais significativa, pois eles puderam adotar uma série de políticas de distribuição de renda que melhoraram as condições de vida dos trabalhadores assalariados, dos mais pobres e dos miseráveis.

Se isso der certo, as mudanças econômicas e sociais poderão se aprofundar. Mas se esse arranjo político-econômico-social-institucional fracassar, aguentem o FHC e os demotucanos mandando no país por mais uns 20 anos, pelo menos.

O fato concreto é que esse arranjo responsável pela elevada popularidade dos governos Lula e, agora, de Dilma, está interligado.

Uma coisa afeta a outra.

Assim, um processo de estagnação econômica teria sérias repercussões sociais e políticas. Em um ambiente de crise econômica e social a oposição neo-udenista (Grande Mídia e PSDB-DEM-PPS) teria muito mais chances de vitória, sem dúvida alguma, na eleição presidencial de 2014.

E é justamente por isso que tais segmentos retrógrados fazem de tudo para convencer a população e os investidores de que o Brasil está perto de afundar numa crise terrível, seja devido à inflação alta ou a um inevitável racionamento de energia.

E é claro que tais profecias apocalípticas não se cumprem, mas elas acabam por assustar os empresários que, assim, deixam de investir, e a população, que poderá deixar de consumir. E sem investimentos e sem consumo, o país não crescerá, mergulhando numa recessão que irá gerar aumento do desemprego, da pobreza e da miséria. E é claro que isso derrubaria fortemente a popularidade do governo Dilma.

E se esses segmentos golpistas-oposicionistas tentam dar Golpe de Estado mesmo com a presidenta Dilma tendo 79% de aprovação pessoal, imaginem o que aconteceria se ela tivesse apenas uns 20 ou 25% de popularidade? Seu governo seria derrubado em uns 2 ou 3 meses, no máximo.

No momento, Dilma tem 79% de aprovação e segundo a pesquisa Datafolha mais recente ela já está com 64% dos votos válidos.

No momento, o povo brasileiro ignora toda essa baboseira da oposição e da Grande Mídia sobre 'corrupção, apagão, inflação alta', pois sabe que isso não tem base alguma na sua realidade, estando mais preocupado em comprar casa nova, viajar para o exterior, trocar de carro, adquirir aparelhos de TV, tablets e celulares novos.

Alguns críticos desse modelo, aos quais eles chamam de 'lulo-dilmo-petista', afirmam que o mesmo estaria com os dias contados, mas o fato concreto é que já se fizeram avaliações desse tipo, em momentos de muito maior gravidade do que a atual, e elas não se confirmaram, muito pelo contrário.

A aprovação pessoal de Dilma está em 79%, mas é claro que isso depende muito da manutenção do crescimento econômico, da estabilidade econômica e da continuidade das melhorias nas condições de vida da população. Senão...
Em Dezembro de 2008, por exemplo, um economista chamado Nildo Ouriques (supostamente um marxista) afirmou que o governo Lula tinha acabado, em função da crise que estava acontecendo naquele momento. Ele disse, entre outras coisas, que as reservas internacionais do país iriam virar pó em 20 dias, que o dólar voltaria para o patamar de R$ 4, que a inflação iria disparar, que o governo Lula teria que recorrer ao FMI e que as suas políticas sociais (como o Bolsa Família) teriam que ser abandonadas.

Em vez disso, aconteceu exatamente o contrário do que Nildo Ouriques previu.

Lula enfrentou e derrotou a crise e, como resultado, sua popularidade saltou de um patamar de 55% (antes da crise) para algo como 85% (pós-crise). E o Nildo Ouriques nunca veio a público, que eu saiba, reconhecer o brutal erro de avaliação que cometeu e nem porque nada do que ele falou, de fato, aconteceu.

O fato concreto é que já temos um excesso de Zés do Apocalipse fracassados neste país que nunca conseguem fazer uma análise minimamente realista da situação e que também não conseguem acertar uma previsão sequer .

Assim, reafirmo: O Brasil não afundou em 2008 e tampouco irá afundar agora.

Inclusive, já temos uma série de dados que comprovam que a economia brasileira voltou a crescer de forma mais rápida em 2013.

Segundo o Banco Central, o crescimento anualizado do PIB brasileiro no 1o. trimestre de 2013 atingiu 4,2% (1,05% sobre o trimestre anterior), a inflação despencou (O IGP-DI da FGV já mostrou deflação em Abril) e a Petrobras captou US$ 11 bilhões no exterior (se quisesse, ela poderia ter captado US$ 40 bilhões, que foi o valor ofertado para a empresa brasileira). Até o superávit comercial voltou no mês de Maio, acumulando US$ 1,1 bilhão até o momento.

Assim, quem apostar no fracasso do país irá quebrar a cara novamente, tal como já aconteceu em outros momentos.

Quem viver, verá.


Links:

André Singer - Estranho nacionalismo:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/andresinger/2013/05/1280821-estranho-nacionalismo.shtml

Fernando Branquinho - Revolução Capitalista de Dilma provoca Golpismo da Direita:

http://blogdobranquinho.blogspot.com.br/2013/05/revolucao-capitalista-de-dilma-provoca.html

Mídia brasileira afugenta investimentos, diz Lula:

http://www.advivo.com.br/blog/implacavel/midia-brasileira-afugenta-investimentos-afirma-lula

Crescimento econômico no governo JK:

http://www.projetomemoria.art.br/JK/biografia/3_balanco.html

Superávit comercial de Maio já chega a US$ 1,1 bilhão:

http://www2.planalto.gov.br/imprensa/noticias-de-governo/balanca-comercial-do-brasil-tem-superavit-de-us-1-104-bilhao-nas-duas-primeiras-semanas-de-maio

IPEA aponta que déficit habitacional caiu 12% em 5 anos:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=214005&id_secao=1#.UZgoil62XE8.twitter

IGP-DI tem deflação de 0,06% em Abril:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/05/igp-di-tem-deflacao-de-006-em-abril-apos-alta-em-marco-fgv-1.html

Prévia do PIB mostra crescimento de 1,04% no 1o. trimestre de 2013:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/05/previa-do-pib-tem-crescimento-de-104-no-primeiro-trimestre.html

Petrobras faz captação de US$ 11 bilhões no exterior:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=2&id_noticia=213656

As previsões furadas do economista Nildo Ouriques:

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2009_07_19_archive.html

Caçador de demônios - por Admira Wijaya (Arte digital - Coolvibe)

O discurso golpista de Serra – por Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

Serra é hoje um Lacerda sem carisma e sem talento — graças a Deus.

O discurso de Serra na convenção do PSDB é uma mistura de obtusidade, má fé e cinismo.

Serra se transformou num Lacerda: fala obsessivamente em “riscos à democracia”, como se não fossem atitudes como a sua o maior risco à democracia.

Por ter carisma, por ser brilhante em sua maldade, e porque as circunstâncias eram outras, Lacerda levou o Brasil à ditadura militar.

Porque não tem carisma, e nem brilho, e por serem outras as circunstâncias, Serra apenas conduzirá a si próprio ao desprezo amplo, geral e irrestrito de brasileiros de boa fé – petistas ou não.

Lacerda, porque não conseguiu a presidência nas urnas, quis chegar a ela pelos tanques militares.

Serra também fracassou nas urnas, mesmo sob apoio maciço da imprensa que o PT “quer calar” – uma afirmação que apenas dificulta, malandramente, uma discussão vital para a sociedade: a regulamentação da mídia.

Temos uma situação de monopólio de três famílias, lideradas pelos Marinhos, e isso é uma calamidade para a democracia porque elas defendem seus próprios interesses disfarçados de interesses públicos.

Não fosse a internet, que dá espaço a outras vozes menos comprometidas e menos viciadas, o quadro seria ainda pior.

Importante notar que Serra vem sendo amplamente beneficiado pela mídia do jeito que é – e mesmo assim não conseguiu se eleger sequer prefeito de São Paulo.

O que é bom para Serra é ruim para o Brasil, porque ele põe na frente apenas aquilo que favorece a ele, a ele e ainda a ele.

Serra fala também em ‘aparelhamento’ do Estado, como se ele  próprio não aparelhasse tudo que caiu nas suas mãos.

Ora, por causa de Serra, a família de Soninha tem excelentes posições em São Paulo, sem concurso público, e ela própria foi brindada com a sinecura do Conselho de Administração da Cetesb – e ele vem falar em ‘aparelhar’?

Serra sempre usou sua posição pública para alavancar a carreira e os negócios de sua filha Verônica, e vem posar como se fosse Mujica?

Era presumível que, depois de ser rechaçado fortemente pelos eleitores, Serra se retirasse com dignidade da política.

Mas não.

Seu apego doentio ao poder impediu renovação no PSDB, obrigado por causa disso a tratar o veterano Aécio como se fosse uma promessa, um fato novo.

Seus gestos mesquinhos, sua fala hipócrita, sua megalomania napoleônica desprovida de fatos nos quais se sustentar sem cair no ridículo – lamentavelmente teremos que aguentar isso por mais tempo do que deveríamos e gostaríamos.

Comentário
E pensar que o Brasil correu o risco de ter uma desgraça dessas como presidente. ¡Ufa!