domingo, 31 de janeiro de 2016

Pintura surrealista - por Dimitra Milan (site homônimo)


P.S.: a artista já produz essas maravilhas e possui parcos 16 anos de idade!

O sono da memória - por Luis Fernando Verissimo (O Globo)

     Não há problema em publicar o “Mein Kampf” do Hitler, cujos direitos de edição recém caíram em domínio público. O livro interessa a historiadores e estudiosos da psicologia de massa e a qualquer pessoa curiosa sobre o poder das suas ideias, um poder capaz de galvanizar uma nação e mudar radicalmente a sua história. Eu só acho que as novas edições de “Mein Kampf” deveriam vir com um DVD encartado, com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos descobertos em Auschwitz e outros campos de extermínio, no fim da Segunda Guerra Mundial. Cenas terríveis dos esqueletos das cidades bombardeadas e dos milhares de refugiados tentando sobreviver em meio aos escombros, enquanto o mundo ficava sabendo, nos julgamentos dos criminosos, das barbaridades cometidas em concordância com a Kampf do Hitler. Assim, o comprador do livro teria o nazismo como teoria e o nazismo na prática. As ideias e suas consequências.

     Seria bom se as ideias viessem sempre acompanhadas de suas consequências. As pessoas pensariam melhor no que dizem e pregam, para não terem remorso depois. Já se disse que muitas barbaridades teriam sido evitadas no mundo se existisse algo parecido com o remorso antes do fato, uma espécie de remorso preventivo. Não se imagina o próprio Hitler se arrependendo das suas teses e, diante dos horrores que elas desencadearam, dizendo “Ei, pessoal, não era nada disso!”. Está claro que no cerne patológico da pregação de Hitler há uma volúpia de destruição, um desejo secreto de caos que tem tanto a ver com o romantismo alemão quanto com a geopolítica da época. Mas outros não têm o mesmo motivo para desprezarem as consequências. Ou para esquecerem-se delas.

     Naquela famosa legenda de uma gravura do Goya está escrito que o sono da razão cria monstros. Pior que o sono da razão, Goya, é o sono da memória. As pessoas que hoje defendem a volta da ditadura militar no Brasil esqueceram-se de como foi. Esqueceram-se das prisões arbitrárias, das torturas, do terror e dos assassinatos de Estado, da censura, do número de estrelas nos ombros como única credencial para governar. Se não lhes falta memória, lhes falta razão. Ou miolos.


     O Jair Bolsonaro, principal proponente da volta à ditadura, é o deputado mais votado do Rio. Tem uma multidão de apoiadores. E tem mais do que isso: na recente mudança no Comando Militar do Sul, Bolsonaro foi um convidado especial do novo comandante para a cerimônia de posse. Não se sabe se o comandante também é um nostálgico como ele. De qualquer maneira, tenho tido longas conversas com a minha paranoia, tentando acalmá-la.

Patagônia - por Andy Lee (Fotografia - site homônimo)

Quando a inveja do Ocidente vira ódio - por Slavoj Žižek (Folha)

Adams Carvalho
     Quem são os "oito odiosos" do filme de Quentin Tarantino?1 O grupo inteiro – brancos racistas e um soldado negro da União (na Guerra Civil americana), homens e mulheres, agentes da lei e criminosos –, todos os participantes, sem exceção, são igualmente perversos, brutais e vingativos.

     O momento mais constrangedor do filme acontece quando o oficial negro (representado pelo magnífico Samuel L. Jackson) conta a um velho general confederado, em detalhes e com prazer evidente, como matou o filho racista dele, responsável pela morte de muitos negros: depois de forçá-lo a marchar nu sob vento gelado, Jackson promete ao sujeito branco morrendo de frio que receberá uma coberta se lhe propiciar sexo oral. Mas, depois que o sujeito o atende, Jackson descumpre sua promessa e o deixa morrer. Assim, não há mocinhos na luta contra o racismo – todos estão engajados na luta com brutalidade máxima.

     A lição a tirar dos ataques sexuais recentes em Colônia não é estranhamente semelhante à lição do filme? Mesmo que (na maioria) os refugiados sejam de fato vítimas que fogem de países em escombros, isso não os impede de agir de modo desprezível. Tendemos a esquecer que não existe nada de redentor no sofrimento: ser uma vítima na posição mais baixa da escala social não converte você em alguma espécie de voz privilegiada da moralidade e da justiça.

     Mas esse insight geral não basta – precisamos olhar mais de perto para a situação que deu origem ao incidente de Colônia. Em sua análise da situação global após os ataques em Paris, "Notre Mal Vient de Plus Loin" (nosso mal vem de mais longe, editado pela Fayard), Alain Badiou discerne três tipos predominantes de subjetividade no capitalismo global de hoje: o sujeito liberal-democrata ocidental "civilizado", de classe média; as pessoas de fora do Ocidente dominadas pelo "desejo do Ocidente", tentando a qualquer custo imitar o modo de vida dito "civilizado" das classes médias ocidentais; e os niilistas fascistas, aqueles cuja inveja do Ocidente se converte em ódio autodestrutivo mortal.

     No breve ensaio, Badiou deixa claro que aquilo que a mídia descreve como "radicalização" de muçulmanos é fascistização pura e simples: "Esse fascismo é o anverso do desejo frustrado do Ocidente, organizado de maneira mais ou menos militar, seguindo o modelo flexível de uma gangue mafiosa e com colorizações ideológicas variáveis em que o lugar ocupado pela religião é puramente formal".

     A ideologia da classe média ocidental possui duas características opostas: ela exibe arrogância e crença na superioridade de seus valores (direitos humanos e liberdades universais ameaçados pelos "outsiders" bárbaros), mas, ao mesmo tempo, é obcecada pelo medo de que a área sob seu domínio seja invadida por bilhões de pessoas que estão fora dela, que não contam no capitalismo global, pois nem produzem commodities nem as consomem; o medo de seus membros é passar a fazer parte da fileira de excluídos.

     A expressão mais clara do "desejo do Ocidente" são os refugiados imigrantes: o desejo deles não é revolucionário – é o desejo de deixar seu hábitat devastado para trás e viver na terra prometida do Ocidente desenvolvido. (Os que ficam para trás tentam criar em seus países cópias miseráveis da prosperidade ocidental, como as partes "modernizadas" encontradas em toda metrópole do Terceiro Mundo, em Luanda, em Lagos, etc., com shopping centers, cafés que vendem cappuccinos etc.)

     Como para a maioria dos candidatos esse desejo não pode ser satisfeito, uma das opções restantes é a reversão niilista: a frustração e a inveja se radicalizam, dando lugar a um ódio do Ocidente, assassino e autodestrutivo, e e as pessoas buscam a vingança violenta. Badiou vê essa violência como expressão pura da pulsão de morte, uma violência que só pode culminar em atos de (auto)destruição orgiástica, sem qualquer visão séria de uma sociedade alternativa.

     Badiou tem razão ao enfatizar que não há potencial emancipador na violência fundamentalista; contudo, por mais anticapitalista que esta possa se dizer, ela é um fenômeno estritamente inerente ao universo capitalista global, seu "fantasma oculto", na definição do autor. A verdade básica do fascismo fundamentalista é a inveja; mesmo em seu ódio do Ocidente, o fundamentalismo tem raízes no desejo do Ocidente; estamos diante da reversão comum do desejo frustrado em agressividade, descrita pela psicanálise, e o islã apenas fornece a forma para embasar esse ódio (auto)destrutivo.

AMOR-PRÓPRIO

     Esse potencial destrutivo da inveja é a base da conhecida distinção traçada por Rousseau em "Diálogos ou Rousseau Juiz de Jean-Jacques" entre o egotismo, "amour-de-soi", o amor de si mesmo (o amor por si próprio que é natural), e o "amour-propre", amor-próprio, a preferência pervertida por si mesmo em detrimento dos outros, em que a pessoa se concentra não tanto em alcançar uma meta, mas em destruir o obstáculo que se interpõe a ela:

     "As paixões primitivas, todas as quais tendem diretamente para nossa felicidade e cujo princípio é apenas o amor de si mesmo, nos levam a lidar apenas com objetos que se relacionem com elas e são todas essencialmente amáveis e ternas; contudo, quando são desviadas de seus objetos por obstáculos, elas se ocupam mais com o obstáculo do qual querem se livrar do que com o objeto que procuram alcançar, mudando com isso sua natureza e tornando-se irascíveis e odiosas. É assim que o amor de si mesmo, um sentimento nobre e absoluto, converte-se em amor-próprio, ou seja, um sentimento relativo com o qual nos comparamos, um sentimento que exige preferências, cujo prazer é puramente negativo e que não procura encontrar satisfação em nosso próprio bem-estar, mas apenas no infortúnio de outros."

     Assim, uma pessoa perversa não é um egotista, "que pensa apenas em seus próprios interesses". O verdadeiro egotista esta ocupado demais cuidando do que o beneficia para ter tempo de fazer mal aos outros. O vício primário de uma pessoa perversa é preocupar-se mais com os outros que com ela mesma. Rousseau descreve um mecanismo libidinal preciso: a inversão que gera o deslocamento do investimento libidinal do objeto para o próprio obstáculo.

     Isso pode muito bem ser aplicado à violência fundamentalista, independentemente de estarmos falando do atentado de Oklahoma City em 1995 ou do ataque ao World Trade Center em 2001. Em ambos os casos, trata-se de ódio puro e simples: destruir o obstáculo, o edifício federal de Oklahoma City ou as Torres Gêmeas, era o que realmente interessava, e não alcançar a meta nobre de uma sociedade verdadeiramente cristã ou muçulmana – veja-se o que diz Jean-Pierre Dupuy em "Petite Metaphysique des Tsunamis" (Seuil).

     Essa fascistização pode exercer certa atração sobre a juventude imigrante frustrada que não consegue encontrar um lugar próprio nas sociedades ocidentais ou uma perspectiva com a qual se identificar. A fascistização oferece a esses jovens uma saída fácil para sua frustração: uma vida cheia de emoções e riscos disfarçados de dedicação religiosa sacrificial, somada à satisfação material (sexo, carros, armas...) – não esqueçamos que o Estado Islâmico também é um grande empreendimento comercial mafioso, que vende petróleo, estátuas antigas, algodão, armas e mulheres escravas – "um misto de propostas heroicas mortais e, simultaneamente, de corrupção ocidental por produtos", como escreve Badiou em seu livro.

     É desnecessário dizer que essa violência fascista-fundamentalista é apenas um dos modos de violência pertinentes ao capitalismo global e que devemos ter em mente não apenas as formas de violência fundamentalista nos próprios países ocidentais (populismo anti-imigrante, etc.), mas, sobretudo, a violência sistemática do próprio capitalismo, desde as catastróficas consequências da economia global até a longa história das intervenções militares.

IMPOTÊNCIA

     O fascismo islâmico é um fenômeno profundamente reativo no sentido nietzschiano do termo, uma expressão de impotência convertida em raiva autodestrutiva. Assim, ao mesmo tempo em que concordo com o sentido geral da análise de Badiou, considero problemáticas três de suas afirmações.

     Em primeiro lugar, a redução da religião, forma religiosa de niilismo fascista, a elemento secundário superficial: "A religião é apenas uma vestimenta; ela não é de maneira alguma o xis da questão; é apenas uma forma de subjetivação, não o conteúdo real da coisa", escreve Badiou.

     Ele esta totalmente certo quando diz que a procura pelas raízes do terrorismo muçulmano de hoje em textos religiosos antigos (a história de "já estava tudo no Alcorão") é enganosa: devemos, em vez disso, nos concentrar no capitalismo global de hoje e conceber o fascismo islâmico como um dos modos de reação à atração desse capitalismo, através da inversão da inveja em ódio.

     Mas, se vista criticamente, toda religião não é uma espécie de vestimenta, e não o cerne da questão? A religião não é, em seu próprio cerne, uma "forma de subjetivação" do dilema das pessoas? E isso não equivale a dizer que uma vestimenta é, em certo sentido, "o xis da questão", o modo como os indivíduos vivem sua situação? Não há como recuar um passo e, de alguma maneira, ver as coisas de fora, como elas "realmente são".

     Daí advém a identificação, demasiado apressada, de refugiados e migrantes como um "proletariado nômade", uma "vanguarda virtual da gigantesca massa de pessoas cuja existência não é levada em conta no mundo do modo como ele é". Não são os migrantes (em sua maioria, pelo menos), os mais fortemente possuídos pelo "desejo do Ocidente", aqueles que se rendem mais profundamente ao fascínio da ideologia hegemônica?

     Finalmente, a exigência ingênua de que devemos "ir ver quem é esse outro do qual se fala, quem são realmente essas pessoas". "Precisamos reunir seus pensamentos, suas ideias, sua visão das coisas e inscrevê-los, e a nós mesmos, em uma visão estratégica do destino da humanidade", defende Badiou.

OUTRO

     Falar é fácil: esse outro é, como descreve o próprio Badiou, totalmente desorientado, possuído pelas atitudes opostas da inveja e do ódio, ódio esse que em última análise expressa seu próprio desejo reprimido pelo Ocidente (razão pela qual o ódio se transforma em autodestruição).

     Faz parte de uma metafísica humana ingênua pressupor que exista algum núcleo humano "mais profundo" de solidariedade global por baixo desse ciclo vicioso de desejo, inveja e ódio. Não faltam relatos mostrando que muitos sírios constituem uma exceção entre os refugiados: nos campos de transição, eles limpam a sujeira que fazem, comportam-se de modo gentil e respeitoso; muitos deles têm alto nível de instrução e falam inglês, com frequência até pagam pelo que consomem – em suma, são como nós, como nossas classes médias educadas e civilizadas.

     (E eles chegam a tentar criar solidariedade com os europeus nativos: na Eslovênia, a mídia divulgou casos em que imigrantes sírios de classe média entabularam conversas com eslovenos que os estavam ajudando, precavendo-os contra a maioria dos outros refugiados, que descreveram como brutais e primitivos.)

     É comum e bem-visto dizer que os refugiados violentos representam uma minoria e que a maioria deles tem respeito profundo pelas mulheres. Embora isso seja verdade, é claro, devemos, mesmo assim, lançar um olhar mais atento sobre a estrutura desse respeito: que tipo de mulher é "respeitada" e o que se espera dela com esse respeito? E se a mulher for "respeitada" na medida em que (e apenas na medida em que) se enquadrar no ideal da criada dócil que cumpre suas tarefas fielmente, de modo que seu homem possa explodir em fúria se ela sair de seu controle e agir com plena autonomia?

     Nossa mídia normalmente opõe refugiados "civilizados" de classe média a refugiados "bárbaros" de classe mais baixa, que roubam, assediam nossos cidadãos, comportam-se violentamente com mulheres, defecam em público...

     Em vez de rejeitar isso tudo como propaganda racista, devemos munir-nos da coragem para discernir nisso um instante de verdade: a brutalidade, chegando à crueldade total em relação aos fracos, aos animais, às mulheres etc., é uma característica tradicional das "classes mais baixas"; uma de suas estratégias de resistência aos que estão no poder sempre foi uma manifestação apavorante de brutalidade, que visa perturbar o senso de decência da classe média.

CARNAVAL

     Sentimos a tentação de interpretar assim também aquilo que aconteceu em Colônia na noite do Réveillon – como um carnaval obsceno da classe mais baixa, por exemplo, na descrição do jornal britânico "The Guardian":

     "A polícia alemã investiga denúncias de que dezenas de mulheres teriam sido assaltadas e sexualmente agredidas no centro de Colônia durante os festejos do Ano-Novo, em algo que um ministro descreveu como 'uma dimensão de crime inteiramente nova'. De acordo com a polícia, os responsáveis pelos ataques sexuais e numerosos roubos teriam origem árabe ou norte-africana. Mais de cem denúncias foram feitas à polícia, um terço das quais ligadas a agressões sexuais. O centro da cidade se converteu em uma 'zona sem lei': entre 500 e 1.000 homens descritos como bêbados e agressivos teriam sido responsáveis pelos ataques a pessoas que festejavam o Ano-Novo no centro da cidade alemã ocidental. 

     Mulheres relataram terem sido cercadas por grupos de homens que as molestaram e assaltaram. Algumas pessoas atiraram fogos de artifício no meio da multidão, agravando o caos. Uma das vítimas foi violentada. Uma policial voluntária esta entre as mulheres que teriam sido sexualmente agredidas."

     Como se poderia prever, o incidente esta crescendo: mais de 500 mulheres já fizeram denúncias, com acontecimentos semelhantes em outras cidades alemãs e na Suécia; há indicações de que os ataques teriam sido coordenados previamente, e "defensores do Ocidente civilizado" de direita, contra os imigrantes bárbaros, estão revidando com ataques a imigrantes, de modo que uma espiral de violência ameaça ser desencadeada.

     Como era previsível, a esquerda liberal politicamente correta mobilizou seus recursos para minimizar o incidente, do mesmo modo como fez no caso dos abusos sexuais contra crianças em Rotherham, no Reino Unido, um ano atrás. 

     Mas há mais, muito mais: o carnaval de Colônia deveria ser inserido na longa sequência cujo primeiro caso registrado data de Paris na década de 1730, o chamado Grande Massacre dos Gatos.

     Na ocasião, um grupo de aprendizes de gráficos torturou e matou ritualmente todos os gatos que conseguiu encontrar, incluindo o gato de estimação da mulher de seu mestre. Os aprendizes eram literalmente tratados pior do que os gatos por ela adorados, especialmente "La Grise", a gatinha cinzenta favorita dela, como aponta Robert Darnton em "O Grande Massacre dos Gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa", cuja descrição seguimos aqui.

     Certa noite os garotos resolveram corrigir essa situação injusta: jogaram sacos cheios de gatos semimortos no pátio e então os penduraram em forcas improvisadas. Os rapazes deliravam de alegria, de desordem, gargalhando. Mas por que a matança lhes parecia tão engraçada?

     No Carnaval as pessoas comuns suspendiam as regras normais de comportamento e faziam uma inversão cerimonial da ordem social, colocavam-na de ponta-cabeça, numa procissão caótica. O Carnaval era o momento da hilaridade, da sexualidade e da juventude terem as rédeas soltas, e o povo frequentemente incorporava a tortura de gatos em sua diversão brutal.

     Quando zombavam de um marido traído ou de alguma outra vítima, os jovens passavam um gato de mão em mão, arrancando seus pelos para fazê-lo uivar. 

     Chamavam a isso "faire le chat". Os alemães o chamavam de "Katzenmusik", música dos gatos, termo que parece derivado dos uivos dos animais torturados.

     A tortura de animais, especialmente gatos, foi uma diversão popular ao longo do início da era moderna na Europa. O poder dos felinos se concentrava no aspecto mais íntimo da vida doméstica: o sexo. "Le chat", "la chatte", "le minet" significam na gíria francesa a mesma coisa que "pussy" em inglês – a vulva.2 Essas palavras são empregadas como termos chulos há séculos.

     Poderíamos, então, conceber o incidente de Colônia como uma versão contemporânea de "faire le chat"? Como uma revolta carnavalesca dos injustiçados? Não foi o simples desejo de satisfação de homens jovens, privados de sexo –isso poderia ser conseguido de maneira mais discreta, oculta–, foi antes de mais nada uma maneira muito pública de suscitar medo e humilhação, de expor as "pererecas" das alemãs privilegiadas a uma situação de impotência dolorosa. É claro que não existe nada de redentor ou emancipador, nada de efetivamente liberador em tal carnaval – mas é assim que funcionam os carnavais reais.

     É por isso que esforços ingênuos para transmitir informações aos imigrantes – explicando a eles que nossos costumes sexuais são diferentes, que quando uma mulher anda de minissaia em público e sorri, isso não significa um convite sexual etc. – são exemplos de estupidez assombrosa. Eles sabem disso. Eles têm plena consciência de que o que estão fazendo destoa de nossa cultura predominante, mas o fazem precisamente para ferir nossas sensibilidades.

     O que é preciso é mudar essa postura de inveja e agressividade vingativa, e não ensinar aquilo que eles já sabem muito bem.

     A difícil lição a tirar disso tudo é que não basta simplesmente dar voz aos injustiçados do modo como eles estão: para concretizar a emancipação real, eles precisam ser educados – por outros e por eles próprios – para a liberdade.

Notas da tradutora:
1. Embora o filme tenha sido lançado como "Os Oito Odiados" no Brasil, a tradução mais próxima do original seria "os oito odiosos".
2. Em português, um termo assimilado seria "perereca".

SLAVOJ ZIZEK, 66, filósofo e psicanalista esloveno autor de, entre outros, "O Absoluto Frágil" (Boitempo).
CLARA ALLAIN é tradutora.

ADAMS CARVALHO, 36, é ilustrador.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Ilustração - por Vanessa Foley (site homônimo)

Como FHC enganava os outros e a si próprio - por Luis Nassif (Jornal GGN)

     Há um mês estou debruçado, na reta final de uma biografia que estou escrevendo.

     Olhando os guardados, encontrei uma entrevista preciosa com o ex-Ministro Antônio Dias Leite.

     Primeiro, deu um longo depoimento para meu livro. Depois, permitiu-se discorrer sobre o quadro político e sobre a maneira do PSDB e do DEM criar uma oposição consistente ao PT.

     A entrevista foi em janeiro de 2007.

     Dias Leite foi um dos mais interessantes homens públicos brasileiros. Assessorou San Tiago Dantas, quando Ministro da Fazenda de Jango. Foi seu colega na Universidade do Brasil, futura Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) e foi Ministro dos governos militares. Foi também um dos idealizadores do maior projeto industrial brasileiro dos anos 70, a Aracruz Celulose.

     Na época escreveu um livro sobre a economia brasileira. Sua receita para o desenvolvimento:

     - Tem que mostrar com simplicidade as ideias. As pessoas muito especializadas se aprofundam em um ponto só e perdem a visão geral. Esses economistas dessa geração de 40, 50 anos (basicamente os economistas do Real) todos vêm com certezas absolutas. Ciência não é isso.

     Dias Leite trabalhou com Jorge Kafuri, da Ecotec, uma das primeiras consultorias brasileiras, precedendo a Consultec. Kafuri era admirador de Vilfredo Pareto, um dos grandes economistas do século 19, um dos primeiros a estudar o fenômeno da distribuição da riqueza. E gostava de repetir uma máxima de Pareto: "Uma teoria é boa até que se encontre uma outra explicação que explique melhor a realidade".

     - Principalmente, enfatizava Dias Leite, não se pode perder de vista a realidade. Um plano econômico só é bom quando é politicamente viável de fazer.

     Na época, em pleno pós-mensalão, Dias Leite analisava o quadro político com uma dúvida e uma certeza. A dúvida é se o governo Lula degringolaria ou não. A certeza é que seria muito difícil o outro lado se organizar.

     - PSDB e PFL são bichos diferentes, o PMDB também. Se não fizerem coalizões em torno de programas, nada irá para frente.

     Sustentava que Fernando Henrique Cardoso fracassou no segundo governo por causa de compromissos assumidos.

     Quando se preparava para o segundo mandato, FHC encontrou-se em um evento com Dias Leite. O ex-Ministro alertou-o sobre a necessidade de um plano mais organizado. Conversaram por uma hora. Aí pediu que fizesse por escrito.

     - Faça por escrito e desenvolva mais suas ideias.

     Foi feito. Dias Leite mobilizou vários amigos, elaboraram um documento de mais de vinte páginas com conceitos de uma nova estratégia para o Brasil e foi até FHC. Chegando lá, o presidente ligou na sua frente para o Ministro da Fazenda Pedro Malan e pediu que recebesse Dias Leite.

     Dias já o conhecia. Tinha presidido a banca do concurso de Malan. Entregou o trabalho.

     - Nunca mais ouvi falar desse papel, nem do Pedro, nem do FHC.

     A inação administrativa de FHC não tem paralelo na história moderna do país.

     Episódio semelhante ocorreu em pleno "apagão".

     Em determinado dia, recebo um telefone do então governador do Mato Grosso Dante de Oliveira.

     - Quero te passar em primeira mão. Estive agora com o presidente Fernando Henrique e apresentei uma proposta para ele, para enfrentar a crise, que foi aceita.

     Conhecendo o estilo, perguntei se ele tinha certeza de que seria aceita.

     - Total. Na minha frente ele ligou para o Armínio Fraga (então presidente do BC) e disse-lhe para estudar atentamente a proposta que ele enviaria mais tarde.

     Conhecendo o estilo, ousei dar um conselho para Dante: espere algum tempo até ter certeza de que a proposta foi aceita, para não fazer papel de bobo.

     Três meses depois outro telefonema de Dante:

     - Você tinha razão, mas agora foi.

     - Foi como.

     - Na minha frente ele ligou para o Armínio e deu-lhe um esporro por não ter obtido retorno da proposta.

     Ponderei mais uma vez:

     - Você tem certeza de que o Armínio estava no outro lado da linha?

     Era obviamente outro blefe de FHC.

     Quando saiu, FHC leu uma biografia de Franklin Delano Roosevelt e vangloriava-se de uma semelhança com ele: o de falar A para os políticos e fazer B.

     Foi a única semelhança. Do essencial - o New Deal de Roosevelt - FHC não captou nada. Sempre foi um folgazão sem nenhum apego ao trabalho e, mesmo sendo de família de militares que ajudaram na construção da nacionalidade, nunca almejou nada mais do que o brilho fugaz instantâneo.

     Os grandes estadistas até podiam usar o engodo como estratégia para atingir objetivos maiores. Para FHC era apenas o engodo pelo engodo, para reafirmar, para ele próprio, sua esperteza.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Die Scherenschleiferin - Arte digital (Coolvibe)

A quem serve a classe média indignada? - por Marcelo Coelho (Folha)

Cientista político e presidente do Ipea rejeita, em novo livro, interpretações do Brasil como a de Sérgio Buarque de Holanda. Negando a ideia de que jeitinho e corrupção sejam exclusividades nacionais herdadas da colonização, aponta o “racismo de classe” e o abandono dos excluídos como raízes dos problemas do país.
Ilustração: Sérgio Sister
Foto: Marlene Bergamo / Folhapress
     Confusão entre o público e o privado, compadrio, herança católica portuguesa, predomínio das relações pessoais e familiares sobre o sistema de mérito, corrupção. Ao contrário do que em geral se pensa, nada disso é característica exclusiva do Brasil.

     Para Jessé Souza, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), criou-se no Brasil, à esquerda e à direita, um legado de equívocos a partir do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), que merece ser classificado como um verdadeiro “complexo de vira-lata”.

     Para o professor de ciência política na UFF (Universidade Federal Fluminense), que acaba de lançar “A Tolice da Inteligência Brasileira” [Leya, 272 págs., R$ 39,90, e-book, R$ 26,99], a intelectualidade do país tende a idealizar as sociedades capitalistas avançadas, imaginando que em países como Estados Unidos ou França predomine a plena igualdade de oportunidades e a completa separação entre o Estado e os interesses privados. Mas o peso das origens familiares, do capital cultural acumulado ao longo de gerações, das pressões empresariais sobre o poder público está presente, diz ele, em qualquer país capitalista.

     Autor de estudos sobre Max Weber (1864-1920) e Jürgen Habermas, Jessé Souza desenvolve, em “A Tolice da Inteligência Brasileira”, um sofisticado argumento teórico para mostrar de que modo o conceito weberiano de “patrimonialismo” – fundamento das críticas de Raymundo Faoro (1925-2003) à imobilidade do sistema social brasileiro e ao fracasso do capitalismo e da democracia entre nós – não foi originalmente pensado para ter aplicação nas sociedades modernas.

     Ao interesse teórico que marcou o início de sua carreira, Jessé Souza tem acrescentado, nos últimos anos, um intenso trabalho de investigação empírica, do qual resultaram livros como “Os Batalhadores Brasileiros: Nova Classe Média ou Nova Classe Trabalhadora?” (editora UFMG, 2010), e “A Ralé Brasileira: Quem É e Como Vive” (ed. UFMG, 2009).

     O problema da economia e da democracia brasileiras, argumenta Souza, não nasce de supostas deficiências culturais que tenhamos frente aos países desenvolvidos, mas da incapacidade do sistema para integrar um vasto contingente de excluídos, a quem faltam não apenas recursos materiais, mas equipamentos básicos de educação, autoestima e cidadania.

     A lição de Florestan Fernandes, em especial de seu livro de 1964, “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” (ed. Globo), é das poucas que saem preservadas do implacável julgamento crítico de “A Tolice da Inteligência Brasileira”, repleto de palavras duras contra Roberto DaMatta, Fernando Henrique Cardoso e outros mestres do pensamento social entre nós.

Folha – As ciências sociais brasileiras – com influência no discurso da imprensa e das classes médias – têm insistido no conceito de “patrimonialismo”: a prática de tratar bens públicos como se fossem propriedade de uns poucos personagens com acesso permanente ao poder político. Você critica esse conceito, chamando-o de “conto de fadas para adultos”. Poderia explicar?
Jessé Souza – O conceito de patrimonialismo foi contrabandeado de Max Weber sem a menor preocupação com a contextualização histórica que é fundamental em Weber. Acho que isso está bem fundamentado no livro, mas a “incorreção científica” não é a questão principal aqui.
O patrimonialismo só sobrevive como um conceito que quer dizer alguma coisa em um contexto que pressupõe o complexo de vira-lata do brasileiro. Essa é a questão principal. É só porque se imagina, candidamente, que existam países onde não há a apropriação privada do Estado para fins particulares – os EUA para os liberais brasileiros seriam esse paraíso – que se pode falar de patrimonialismo como particularidade brasileira.
Imagine a meia dúzia de petroleiras americanas, que mandavam no governo Bush filho, atacando o Iraque, com base em mentiras comprovadas, pela posse do petróleo. E com isso matando milhões de pessoas e desestabilizando a região até hoje com consequências funestas que todos vemos.
Quer melhor exemplo de apropriação privada do Estado para fins de lucro de meia dúzia sem qualquer preocupação com as consequências? A verdadeira questão é sempre em nome de que e de quem se apropria do Estado: para o lucro de meia dúzia – como foi a regra no Brasil e que é a real motivação do impeachment de hoje – ou para a maioria da sociedade.
Minha tese é a de que, no Brasil, o patrimonialismo serve para duas coisas bem práticas:
1) A primeira é demonizar o Estado como ineficiente e corrupto e permitir a privatização e a virtual mercantilização de todas as áreas da sociedade, mesmo o acesso à educação e à saúde, que não deveria depender da sorte de nascer em berço privilegiado;
2) Serve como uma espécie de “senha” de ocasião para que o 1% que controla o dinheiro, a política (via financiamento privado de eleições) e a mídia em geral possa mandar no Estado mesmo sem voto. Não é coincidência que tenha havido grossa corrupção em todos os governos, mas apenas com Getúlio, Jango, Lula e Dilma, governos com alguma preocupação com a maioria da população, é que a “senha” do patrimonialismo tenha sido acionada com sucesso. Somos ou não feitos de tolos?

A corrupção no Brasil, segundo muitos analistas, teria causas culturais, originadas na tradição ibérica e católica. Qual a sua discordância com relação a essa tese?
Essa versão é falsa. Ela é “pré-científica”, já que examina o fenômeno da transmissão cultural nos termos do senso comum que pensa mais ou menos assim: “Se meu avô é italiano, então também sou”. Depende. A língua comum facilita certas interações, mas o decisivo e o que efetivamente constrói os seres humanos são as influências das instituições, como a família, a escola, a economia e a política.
No Brasil, desde sempre, temos a escravidão como uma espécie de “instituição total” que determinou um tipo muito peculiar de família, de religião, de poder político, de exercício da justiça, de produção econômica, tudo isso muito distinto de Portugal, que desconhecia a escravidão, a não ser de modo muito tópico e localizado.
A Igreja Católica, por exemplo, tinha muito poder e continha o mandonismo dos grandes senhores. Aqui o “senhor de terras e gente” mandava em tudo sem peias. O Brasil desde o ano zero foi, portanto, uma sociedade singular, apesar de colonizada por Portugal. Mas foi a partir desse engano que se criou uma ciência culturalista frágil e superficial, baseada no senso comum que hoje ganha a mente e os corações dos brasileiros de tão repetida por todos.
O mais importante é que essa falsa ciência que constrói o brasileiro como inferior – posto que ligado ao “corpo” como emotividade e sexo, se opondo ao europeu e americano que seriam o “espírito”, intelecto e moralidade distanciada – serve a interesses políticos. Esse racismo pela cultura só substitui o “racismo racial” clássico, mantendo todas as suas funções de legitimar privilégios.
Na dimensão internacional, a intelectualidade brasileira dominante, colonizada até o osso, engole o racismo cultural e torna ontológica a suposta inferioridade brasileira; na dimensão interna e nacional, serve para separar “classes do espírito”, como a classe média “coxinha”, que seria “ética”, posto que escandalizada com o “patrimonialismo seletivo” criado pela mídia, e as classes populares, tidas como “amorais”, posto que guiadas pelo interesse imediato.
Essa espécie de “racismo de classe”, falso de fio a pavio, é o fio condutor do empobrecido debate público brasileiro.

Você é muito crítico com relação a um dos formuladores desse “culturalismo”, Sérgio Buarque de Holanda. As teses de “Raízes do Brasil” foram expostas em 1936. Será que ao menos naquela época a crítica a um Estado sem meritocracia, baseado no favoritismo e nas relações familiares, não era correta?
Eu gostaria antes de tudo de saber onde fica esse país maravilhoso, formado apenas pelo mérito, que não favorece ninguém e onde relações familiares não decidem carreiras. Quem conhecer, por favor, me avise. Eu passei boa parte de minha vida adulta em países ditos “avançados” e nunca conheci um assim. A própria crença de que exista algo assim prova como o racismo e a “vira-latice” tomou conta de nossa alma.
Sérgio Buarque de Holanda é o pai desse liberalismo amesquinhado e colonizado brasileiro. É necessário sempre separar a “pessoa” da “obra” e de seus efeitos sociais, que são o que importa. O liberalismo é fundamento importante da democracia, mas existem várias maneiras de ser liberal, e a nossa maneira é a pior possível.
Buarque criou a semântica do falso conflito que permite encobrir todos os conflitos sociais verdadeiros entre nós e que nos faz de tolos até hoje. A absurda separação entre um Estado demonizado como corrupto e ineficiente e o mercado como reino de todas as virtudes, quando os dois no fundo são indissociáveis, só serve como mote para a meia dúzia que manda no Brasil e controla o dinheiro, a política e a informação via mídia virar o país de ponta-cabeça só para ter mais dinheiro no bolso.
Como não se pode dizer que o que se quer é uma gorda taxa Selic e o acesso “privado” às riquezas brasileiras, como petróleo e ferro, para essa meia dúzia, então diz-se que é para acabar com o “mar de lama”, sempre só no Estado, se ocupado por partidos populares, e sempre seletivamente construído via mídia conservadora em associação com as instituições que querem aumentar seu poder relativo vendendo-se como “guardiãs da moralidade pública”.
É esse discurso que transforma milhões de pessoas inteligentes em tolas. Essa parcela da classe média conservadora é explorada por esse 1% que lhe vende os milagres da privatização brasileira: a pior e mais cara telefonia do globo, por exemplo, campeã de reclamações. De resto, todos os bens e serviços produzidos aqui são piores e mais caros. Mas dessa espoliação da classe média por um mercado superfaturado que vai para o bolso do 1% mais rico ninguém fala.
O filho do “coxinha” quer ter acesso a uma boa universidade pública, e o avô dele, quando está doente e o plano não paga, tem que ir ao SUS para doenças graves e tratamentos caros. Um Estado fraco só serve ao 1% mais rico que pode ficar ainda mais rico embolsando a Petrobras a preço de ocasião. O “coxinha” só é feito de tolo.
A classe média “coxinha” que sai às ruas tirando onda de campeã da moralidade, por sua vez, explora e rouba o tempo das classes excluídas a baixo preço para poupar o tempo do trabalho doméstico e investir em mais estudo e mais trabalho valorizado e rentável.
Luta de classes não é só cassetete na cabeça de trabalhador. É uma luta silenciosa e invisível (para a maioria) que implica monopólio de recursos para as classes privilegiadas e condenações à miséria eterna para a maioria dos 70% que não são da classe média ou do 1% mais rico. A fanfarra do patrimonialismo e da corrupção só do Estado serve, antes de tudo, para tornar essas lutas invisíveis.

Como você vê a obra de Roberto DaMatta nesse contexto?
A obra dele, que reflete fielmente as discussões de botequim de todo o Brasil, foi uma tentativa de “modernizar” Buarque. O mais irritante é que esse pessoal “tira onda” de crítico ao repetir as platitudes do Estado patrimonial e do “jeitinho” como prova da queda ancestral do brasileiro médio para auferir vantagens por relações de conhecimento com poderosos.
A tese central de DaMatta, que se tornou uma espécie de “segunda pele” do brasileiro médio, é a de que a hierarquia social brasileira é fundada no capital social de relações pessoais. Essa seria a peculiaridade brasileira que viria de épocas ancestrais. Desde que a gente reflita duas vezes, essas teses caem como castelo de cartas. Se não, vejamos.
O leitor que nos lê conhece alguém com acesso a relações pessoais com pessoas poderosas sem, antes, ter capital econômico ou capital cultural? Se o leitor conhecer, então DaMatta tem razão na sua tese do jeitinho.
Como desconfio de que o leitor não conhece ninguém assim, então o que DaMatta faz é tornar invisível a distribuição injusta de capital econômico e cultural e, com isso, sepultar qualquer reflexão sobre a origem social de toda desigualdade.
Para completar supõe – no fundo a cândida e infantil crença nos Estados Unidos como paraíso na terra – que existam países onde o capital em relacionamentos não decida previamente a vida da maior parte das pessoas. Teoria mais frágil e colonizada impossível. Mas é ela que faz a cabeça do brasileiro médio hoje.

Ao lado do “culturalismo conservador”, você critica o economicismo de raiz marxista. Quais as suas restrições a esse modelo explicativo?
É que o capitalismo não é só troca de mercadorias e fluxo de capital. É preciso, por isso, superar o economicismo, seja liberal, seja marxista. O capitalismo é também um sistema social e moral que avalia todo mundo e que humilha e despreza uns e enobrece e legitima a felicidade de outros.
É essa hierarquia social “invisível” (mas cuja realidade o estudo empírico pode mostrar) que diz o que é certo e errado, verdadeiro ou falso. O capitalismo é, portanto, um sistema de classificação e desclassificação que predetermina quem ganha e quem perde e legitima esses lugares.
No livro, que resume meus 35 anos de trabalho teórico e empírico sobre esses temas, procurei mostrar que esses sistemas de classificação são os mesmos para Brasil e Argentina, do mesmo modo como atuam na França ou na Inglaterra.
A peculiaridade do Brasil é a tolerância com o abandono da classe dos excluídos que chamo provocativamente de “ralé”. Todos nossos problemas – insegurança, baixa produtividade, serviços públicos de má qualidade – advêm do esquecimento dessa classe.

A corrupção existe em todos os países, você diz. Mas certamente há diferenças de grau entre a Dinamarca, digamos, e o Brasil.
A corrupção é endêmica ao capitalismo. Se corrupção for enganar o outro, então o capitalismo é certamente mais engenhoso que qualquer outro sistema social.
O que outros países como a Dinamarca ou Alemanha não têm é a corrupção “pequena” – a única que o cidadão feito de tolo enxerga no cotidiano – do agente público mal remunerado, como os policiais entre nós. Existem também arranjos institucionais mais ou menos bem-sucedidos.
O Brasil ganharia com o financiamento público de eleições e com uma reforma política que tornasse mais transparente a relação com a economia. É nisso que falta avançar. Mas é preciso mesmo ser muito ingênuo para não perceber que a “grossa corrupção”, a que drena capitais e privilégios para uma pequena minoria, é universal. Dilma tentou comprar essa briga no Brasil, enfrentando o grande capital especulativo. Hoje fica claro que esse pessoal não a perdoou pela ousadia.

Suponha-se que Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta estejam errados ao atribuir a uma particularidade brasileira, a um vício cultural católico português a inexistência de um sistema de mérito real, de uma real impessoalidade do Estado e de uma legítima situação de igualdade de oportunidades no Brasil. Mesmo que essa situação não corresponda à realidade de um país como os Estados Unidos, que esses autores idealizam, será que essa crítica não expressa um desejo de transformação importante? Em vez de anular o valor dessa crítica, poderíamos alargar sua dimensão estendendo-a a outros países.
O único caminho seguro, na vida pessoal ou na coletiva, é a verdade. Não se pode pensar uma sociedade e suas contradições alargando uma concepção falsa desde os pressupostos. Nem há razão para isso.
O livro mostra, creio eu, que é possível um novo caminho para a percepção do Brasil e de suas singularidades. Um caminho que não vise apenas preservar os privilégios absurdos de uma pequena elite socialmente irresponsável, legitimados por uma pseudociência, mas que possa, inclusive, recuperar a inteligência viva dessa mesma classe média que é hoje manipulada a agir contra seus interesses.

Você diz que as classes médias, predominantes nas manifestações de junho de 2013, são feitas de tolas quando compram automóveis com o triplo da taxa de lucro dos países europeus, pagam taxas de juros estratosféricas e usam serviços de celular entre os mais caros e ineficientes do mundo. Mas não teriam razão, do ponto de vista de seus interesses, ao reclamar de impostos que são uma parcela enorme do preço de bens como veículos automotores e geladeiras?
A estrutura de impostos no Brasil tem de ser efetivamente revista no sentido de evitar impostos indiretos em produtos e serviços e atingir mais a renda diferencial, e, muito especialmente, o patrimônio. Desse ponto de vista, ela pode ter um pouco de razão.
Mas o ponto mais importante para a tolice da classe média é que o Estado funciona como arrecadador de impostos, antes de tudo, para bancar e garantir a drenagem de recursos arrecadados da sociedade como um todo para a meia dúzia de plutocratas que manda na economia, na política via financiamento de eleições e na mídia. O pagamento de juros para essa meia dúzia e seus colegas estrangeiros – o único aspecto que ninguém nem sequer pensa em cortar em ocasiões de crise – compromete, por exemplo, o investimento em educação e saúde de qualidade para todos.
O plutocrata vai aos EUA se operar se for preciso e manda o filho estudar em Miami ou na Suíça, como acontece realmente hoje em dia. A classe média que sai às ruas para apoiá-lo precisa do SUS quando a chapa esquenta e só conta com a universidade pública aqui mesmo para o filho. Ao mesmo tempo, paga os serviços e produtos mais caros e de menor qualidade relativa do globo no nosso mercado superfaturado. Esse “extra” também é um imposto que sai da classe média direto para o bolso da elite econômica. Mas dele nunca se fala.
Essa classe média, portanto, é espoliada pela elite por mecanismos tanto de Estado quanto de mercado, e é ela que depois sai às ruas para defender os interesses dessa mesma elite usando o espantalho seletivo da corrupção apenas estatal.
Essa é a real história da tolice pré-fabricada entre nós.
Ilustração: Sérgio Sister
Foto: Marlene Bergamo / Folhapress
O sentimento anti-Estado e pró-mercado tende a ser conservador e perverso no Brasil. Mas não poderíamos acusar a esquerda, em especial o PT, de um excessivo “estatismo”, não no sentido econômico, mas no de considerar que a transformação social poderia vir de uma simples conquista do poder político pelo partido de esquerda? Em vez de privilegiar formas de auto-organização e de capilarização do partido nas periferias, o PT procurou agir “a partir de cima”, e não “a partir de baixo”. Como resultado, vemos nas periferias todo tipo de igrejas evangélicas, mas nenhum núcleo ou sede distrital de partidos políticos. O preço para assumir o poder sem essa organização foi a aliança com os setores mais retrógrados da política brasileira, como Collor, Maluf, os ruralistas e a bancada evangélica. O “estatismo” de esquerda, nesse sentido, não seria uma repetição para pior do populismo? O petismo não seria também um conto de fadas para adultos?
O principal erro do PT para mim foi duplo e reflete sua dependência da narrativa liberal tão importante nele quanto em um partido conservador da elite como o PSDB. Esse foi um dos temas centrais do livro: mostrar que a ideologia liberal amesquinhada dominou também a dita “esquerda”, colonizando a tradição social-democrata ou socialista democrática.
O PT teria que ter criado uma narrativa independente mostrando a importância do passo a passo da ascensão social possível e mostrando as dificuldades também – sem cair, por exemplo, na fantasia da nova classe média, que gerou expectativas desmedidas.
Essa narrativa poderia ter sido uma versão politizada, mostrando a importância da política inclusiva e da “vontade política” para a mobilidade social, de modo a se contrapor à leitura individualista da ascensão social da religião evangélica.
Mas, para isso, teria sido necessário tocar no nó górdio da dominação social no Brasil, que é o papel de “partido político da elite” assumido pela imprensa conservadora desde o golpe contra Getúlio. É ela, afinal, quem chama a classe média moralista e feita de tola às ruas e é ela que manipula seletivamente e a seu bel-prazer o tema da corrupção como única moeda dos conservadores para mascarar seus interesses mais mesquinhos em pseudointeresse geral. É ela quem tira onda de “neutra”, quando apenas obedece ao dinheiro.
O medo desse confronto foi a real causa do que agora acontece. Em uma sociedade midiática, onde toda informação vem de cima para baixo, tem que existir o contraditório, a opinião alternativa, senão o voto do eleitor não é esclarecido nem autônomo, ou seja, rigorosamente, não tem democracia. Nesse sentido estamos mais perto da Coreia do Norte do que da Inglaterra ou da Alemanha. Confiar apenas nos “movimentos sociais” nesse contexto é ingenuidade. Esses movimentos também estão sob a égide do discurso único da mídia conservadora. Essa é para mim a real razão do fracasso relativo do projeto petista.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Fotografia - por Elizabeth Weinberg (site homônimo)

Decálogo da decadência norte-americana - por Fábio de Oliveira Ribeiro (Jornal GGN)

Ato 1

Tea Party, movimento de jovens brancos abastados que se dizem minoria prejudicada pelo fato do Estado garantir direitos a negros, hispânicos e gays. Nos EUA o Estado de bem estar social vem sendo destruído sistematicamente desde Ronald Reagan e a pobreza extrema já atinge dezenas de milhões de norte-americanos. Portanto, é impossível reduzir direitos de quem não tem direitos.

Ato 2

A miopia extrema do Movimento Gay. Os gays norte-americanos não demonstram nenhuma disposição de lutar contra o empobrecimento da população nos EUA. É parecido com o Movimento Passe Livre, que critica a Prefeitura por aumentar as passagens e não reclama do Estado que deixa quase todo mundo sem água.

Ato 3
Homens fortemente armados invadem uma reserva federal no Oregon e o caso não é tratado como terrorismo pelo governo. A incapacidade de impor a Lei dentro do seu território a todos os cidadãos é uma característica dos Estados falidos.
Ato 4
As Forças Armadas dos EUA são colossais, controlam milhares de bases dentro e fora dos EUA e consomem quase todo o orçamento federal. Mas isto não é encarado como um problema. De fato, os dois partidos que comandam o país compartilham os mesmos ideais imperiais e seus líderes estão sempre citando os “pais fundadores” dos EUA para justificar suas ações. Curiosamente, os referidos “pais fundadores” da nação norte-americana temiam mais a existência de Forças Armadas federais permanentes do que a inexistência delas.
Ato 5
Nos EUA o empobrecimento da classe média é um fenômeno que veio acompanhado da explosão da produção e do consumo de armas pelos cidadãos. Em nenhum outro país do mundo ocorrerem tantos massacres como nos EUA, mas os norte-americanos culpam os atiradores e não a facilidade de acesso às armas de fogo.
Ato 6
Obama chorou ao anunciar medidas para controlar a venda de armas, justamente ele que causou milhares de mortes no Oriente Médio (destino privilegiado dos armamentos vendidos com nota pelas empresas norte-americanas e contrabandeados sem nota pela CIA). Franklin Delano Roosevelt não chorou ao anunciar no Congresso dos EUA o ataque japones à Pear Harbour e clamar pela declaração de guerra àquele país. A penetração do “campo político” pelo “campo artístico” é evidente nos EUA, mas raramente os analistas políticos refletem sobre a evidente decadência que isto repesenta.
Ato 7
Os dois principais candidatos presidenciais dos EUA são caricatos. Donald Trump se apoia nos preconceitos racistas e cresce nas pesquisas cada vez que aumenta a altura do muro que diz pretender construir na fronteira do México. O enriquecimento da Califórnia com a mão de obra dos lavradores mexicanos é um fato desprezado ou, pior, ignorado. Hillary Clinton se apresenta como feminista engajada e avó que transborda ternura. Os e-mails dela sobre a Líbia que vazaram do Departamento de Estado revelam que Hillary é uma imperialista fria, astuta, calculista, extremamente cruel e psicótica.
Ato 8
Há anos os EUA diz combater terroristas na Síria, mas durante o mesmo período o Estado Islâmico apenas cresceu e se fortaleceu. Quando a Rússia começou a atacar e destruir com precisão cirúrgica as bases, trens e caminhões petrolíferos dos terroristas, os norte-americanos passaram a defender o terrorismo moderado. Não sem dar total apoio à Turquia, país destino do petróleo sírio que financia os degoladores do Estado Islâmico.
Ato 9
A direita norte-americana chama Obama de socialista porque ele tentou universalizar o atendimento médico gratuito para os norte-americanos que não podem pagar seguros privados de saúde. Em todos os países capitalistas a assistência médica estatal é uma realidade. Sua existência é considerada indispensável pela direita européia, asiática e latino-americana, pois preserva a saúde do trabalhador e garante a estabilidade, o vigor e a rentabilidade do sistema econômico. O uso inadequado e distorcido de conceitos políticos nunca foi considerado uma demonstração de saúde de qualquer regime político.
Ato 10
Os norte-americanos lutaram contra o nazismo durante a II Guerra Mundial e patrocinaram a desnazificação da Alemanha no pós-guerra. Atualmente eles toleram o funcionamento de grupos nazistas dentro dos EUA. Os neo-nazistas norte-americanos tem websites, clubes, fazem passeatas com suásticas, compram e vendem reliquias do III Reich com uma naturalidade que causaria espanto nos soldados norte-americanos que morreram durante o Dia D.

Fotografia - por Elinor Carucci (site homônimo)

A desigualdade social chega a níveis alarmantes - por Antonio Luiz M. C. Costa (CartaCapital)

A concentração de riqueza no mundo é hoje semelhante à da Inglaterra de Charles Dickens ou da França de Victor Hugo
Há mais gente, menos posses e mais dívidas na base da pirâmide
     Em 2013, com O Capital no Século XXI, Thomas Piketty alertou para o crescimento contínuo da desigualdade de riqueza desde a década de 1970, contrária à tendência dos 60 anos anteriores e muito mais acentuada e socialmente relevante que a desigualdade de renda, mais fácil de pesquisar e na qual se concentrava a maioria dos estudos anteriores.

     Na Europa, a parcela detida pelo décimo superior subiu de 60% em 1970 para 64% em 2010 e a do centésimo superior de 21% para 24%. Nos EUA, o décimo superior subiu de 64% para 72% e o centésimo superior de 28% para 34%. Na falta de políticas ativas contra a desigualdade (como, por exemplo, impostos progressivos sobre o capital), esses países retornarão em meados do século XXI a um patamar de desigualdade semelhante àquele do fim do século XIX e início do XX.

     Nesse período, o 1% mais rico (“classes dominantes”, na terminologia de Piketty) detinha metade de toda a riqueza, o décimo superior (“classes superiores”, sendo os não incluídos no primeiro 1% referidos como “classes abastadas”) , quase 90%, enquanto o 50% mais pobre (“classes populares” na terminologia do economista) ficava com meros 5%. A nostalgia chama esses tempos de belle époque, mas poucos, mesmo nos países mais ricos, puderam usufruir de sua beleza.

     O ano de 2010 foi também aquele no qual o banco Credit Suisse publicou o seu primeiro Global Wealth Report (Relatório da Riqueza Global). Naquele ano, os 50% mais pobres dos 4,44 bilhões de adultos possuíam pouco menos de 2% dos ativos mundiais estimados em 194,5 trilhões de dólares, “embora a riqueza esteja crescendo rapidamente para alguns membros deste segmento”, acrescentava esperançosamente o relatório. Os 10% superiores possuíam 83% da riqueza mundial e o centésimo superior, 43%. A riqueza média equivalia a 43,8 mil dólares líquidos. Era preciso possuir 4 mil para deixar de pertencer aos 50% mais pobres, 72 mil para chegar aos 10% mais ricos e 588 mil para o centésimo superior.

Piketty: sem medidas ativas, como imposto
sobre o capital, vai piorar ainda mais. 
     Cinco anos depois, o relatório de 2015, publicado em 13 de outubro, mostra que a concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto o do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial. Apesar do relativo otimismo de 2010, a metade mais pobre dos 4,8 bilhões de adultos ficou ainda mais depauperada: agora possui menos de 1% da riqueza planetária estimada em 250,1 trilhões de dólares, enquanto o décimo mais alto controla quase 90% (87,7%, para ser exato) e o centésimo no topo, exatos 50%. A riqueza média líquida subiu para 52,4 mil, um aumento nominal de 19,6% que se reduz a 9,3% se descontados 9,5% de inflação do dólar nos Estados Unidos em cinco anos, mas os níveis de corte passaram para 3,21 mil (27% mais baixo em termos reais), 68,8 mil (13% mais baixo) e 759,9 mil (18% mais alto), respectivamente.

     Percebeu-se há algum tempo, em vários países, como a limitada recuperação da economia após a crise de 2008 fluiu para os bolsos dos privilegiados, enquanto as classes média e popular ficaram ainda mais pobres pela estagnação (ou mesmo redução) dos salários reais, o aumento do desemprego e o maior endividamento. Na Espanha, por exemplo, o número de milionários em dólares (pelo critério do Capgemini e Royal Bank of Canada, que ao contrário do Credit Suisse, não inclui residência e bens de consumo) cresceu de 127,1 mil em 2008 para 178 mil em 2014, enquanto a renda per capita caiu de 35,6 mil para 30,3 mil, o desemprego subiu de 11% para 26% e a dívida pública saltou de 39,4% para 99,3% do PIB.

     Nos EUA, o 1% mais rico absorveu 95% do crescimento após a crise financeira e o empobrecimento da camada inferior reflete-se até na mortalidade. Em 1960, os 20% de homens com 50 anos mais pobres podiam esperar viver até os 76,6 anos, enquanto, em 2010, esse número caiu para 76,1. No caso das mulheres, a queda foi de 82,3 para 78,3. Enquanto isso, a expectativa de vida para os 20% mais ricos atingiu 88,8 anos para homens e 91,9 para mulheres.

     Na União Europeia, a renda combinada dos dez mais ricos, 217 bilhões de euros, superou o valor total das medidas de estímulo de 2008 a 2010, cerca de 200 bilhões. A novidade do relatório está em oferecer, em números, um panorama sintético dos resultados desse processo na escala do planeta.

     O efeito do crescimento das dívidas na riqueza líquida foi tão importante que resultou no paradoxo de que agora há entre os 10% mais pobres (inclusive os de patrimônio negativo) mais europeus e norte-americanos do que chineses. Nem todos esses vivem na miséria. Alguns, principalmente nos EUA, são jovens cujo patrimônio foi zerado por crédito educativo, hipoteca ou cartão de crédito, mas têm diploma, um padrão de consumo decente e o sonho de um dia chegar ao topo, mas a precariedade da sua situação ficará evidente se tiverem de enfrentar uma crise ou uma doença inesperada.
     Parte do aumento recente da desigualdade está relacionada à valorização do dólar perante a outras moedas do mundo. Quem não vive nos Estados Unidos ou em países de câmbio fixo ficou, só por isso, mais pobre em dólares. Em muitos países, esse efeito é neutralizado ou amenizado pela queda do custo de vida local em moeda estadunidense. Mas quando se refere às relações internacionais de poder e riqueza, esse empobrecimento é real, como constata qualquer brasileiro ao viajar para o exterior, pagar por serviços de internet ou, se está no topo da escala, ao negociar com bancos como o Credit Suisse.

     Para usar a terminologia do banco suíço, o número de adultos na “base da pirâmide” (com menos de 10 mil dólares líquidos) cresceu de 3,038 bilhões (68%) para 3,386 bilhões (71%), sua irrisória fatia no bolo da riqueza mundial caiu de 4,2% para 3% e sua riqueza média, ou melhor, pobreza média, caiu de 2,7 mil para 2,2 mil, um tombo de 26% em termos reais.

     A camada do meio (10 mil a 100 mil dólares) diminuiu de 1,045 bilhão (24%) para 1,003 bilhão (21%), sua parcela caiu de 16,5% para 12,5% e sua riqueza média passou de 30,7 mil para 31,2 mil, ilusão monetária sobre uma queda real de 7,2%. Em 2000, 3,6% dessa camada vivia na China, em 2010, pouco menos de um terço e hoje, 36%.

     Os não milionários da camada superior (100 mil a 1 milhão de dólares) perderam em termos relativos. Seu contingente passou de 334 milhões (7,5%) para 349 milhões (7,4%) e sua participação na riqueza mundial diminuiu de 43,7% para 39,4%. Em tese, não têm do que se queixar: em termos absolutos, sua riqueza média passou de 254 mil para 282 mil dólares, com leve aumento real de 1,3%.

     Compare-se, porém, com o que aconteceu com os milionários: seu número aumentou de 24,2 milhões (0,5%) para 34 milhões (0,7%) e sua riqueza passou de 2,86 milhões para 3,32 milhões, o que significa um aumento real de 6,1%. Sua fatia, já grande, aumentou de 35,6% para 45,2% e passou a ser a maior de todas. A parte do Leão, por qualquer critério. O perfil geográfico desse grupo também se concentrou. Cinco anos atrás, 41% viviam nos EUA, hoje são 46%. Os únicos outros países com ganho perceptível de participação foram o Reino Unido, que ao passar de 5% para 7% tomou o segundo lugar por muito tempo ocupado pelo Japão, a China (de 3% para 4%), a Suíça (de 1% para 2%) e a Suécia (idem). Alguns caíram muito, inclusive Japão (de 10% para 6%), França (de 9% para 5%) e Itália (de 6% para 3%).

     O relatório não faz uma estimativa independente do número de bilionários, mas, segundo a revista Forbes, ele aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais que o triplo. Basta juntar num ônibus os 85 mais ricos (com 13,4 bilhões ou mais, incluídos os brasileiros Jorge Paulo Lemann e Joseph Safra), para usar a imagem do Nobel de Economia Joseph Stiglitz, para igualar a metade de baixo da pirâmide, 3,7 bilhões de seres humanos (2,4 bilhões das quais adultos), cujos patrimônios somados igualam os mesmos 2,1 trilhões de dólares.
     O relatório de 2015 do Credit Suisse inclui também pela primeira vez um estudo da “classe média global” com critérios não diretamente comparáveis ao da pirâmide acima. Esta foi definida como possuidora de riqueza líquida de 50 mil a 500 mil dólares nos EUA em meados de 2015 e valores equivalentes em outros países segundo o poder aquisitivo local do dólar conforme a estimativa adotada pela instituição – por exemplo, de 13,7 mil a 137 mil dólares na Índia, 28 mil a 280 mil no Brasil ou na China e 72,9 mil a 729 mil na Suíça, de forma a obliterar o efeito da variação cambial. Em todo o mundo, 664 milhões se encaixam nessa definição, com um patrimônio total de 80,7 trilhões (32% do total mundial), média de 121,5 mil per capita. Acima deles estão 96 milhões, com 150 trilhões (60% do total), 1,56 milhão por proprietário. As duas camadas juntas detêm, portanto, 92% de todos os bens do mundo.

     É só nos países ricos que esse conceito de “classe média” se aproxima daquilo que Piketty entende pelo termo, ou seja, aqueles cujas posses estão acima da mediana, mas abaixo dos 10% superiores. Nos menos desiguais (Austrália, Cingapura, Bélgica, Itália e Japão) chega a constituir 60% da população ou mais. Mas no contexto mundial soma só 13,9% da população (com outros 2% no topo) e é na realidade mais comparável às “classes abastadas” de Piketty. Isso é verdade também para quase todos os países pobres e emergentes. Qualificam-se como “classe média” 3% dos indianos, 4% dos argentinos, 8,1% dos brasileiros, 10,7% dos chineses e 17,1% dos mexicanos. No Brasil, em especial, essa “classe média” abrange quase toda a camada conhecida pelos pesquisadores de mercado como A2 (3,6%) e a metade superior da B1 (9,6%), ou seja, é a maior parte do que chamaríamos de “elites”. Acima dela, só a classe dominante no sentido estrito, 0,6% dos brasileiros (a camada A1 conta com 0,5%).

     Apesar disso, hoje é a China o país com o maior número de indivíduos na “classe média”: nada menos de 109 milhões, ante 92 milhões nos EUA. Onze outros países têm mais de 10 milhões: Japão, com 62 milhões; França, Itália, Alemanha, Índia, Espanha e Reino Unido, com 20 milhões a 30 milhões; Austrália, Brasil, Canadá e Coreia do Sul, com 10 milhões a 17 milhões.

     Que ninguém se engane: essa “classe média” é uma elite em termos planetários, vive com conforto, tem em geral uma educação superior e é muito relevante como consumidora, talvez também como contribuinte. Porém, do ponto de vista do poder econômico e político e do interesse de grupos financeiros internacionais, são os 29,8 milhões de milionários, no mínimo, que contam.  Aqueles com 5 milhões a 10 milhões de dólares são 2,5 milhões e com 10 milhões a 50 milhões, 1,3 milhão, mas o foco visível do interesse do Credit Suisse está nos ultrarricos com mais de 50 milhões, que cresceram de 81 mil em 2010 para 124 mil em 2015 ou 0,0026% dos cidadãos do mundo. Destes, 59 mil vivem nos EUA (48%), 30 mil na Europa (24%), 9,6 mil (9%) na China e Hong Kong e 1,5 mil (1%) no Brasil. A Suíça tem 3,8 mil nessa categoria, mais que a França (3,7 mil).

     Esses multimilionários são o equivalente aproximado, quanto ao seu número relativo, à classe senatorial da Roma antiga (600 senadores, mais os filhos adultos, em uma população de 60 milhões) ou à alta nobreza titulada nas grandes monarquias europeias do século XVIII (algumas centenas em populações de dezenas de milhões). Os meros milionários podem ser equiparados à classe curial da antiga Roma (mercadores, conselheiros e funcionários municipais) ou à pequena nobreza não titulada da Europa pré-revolucionária, ambas perto de 1% da população da época.

     Conforme Piketty, as grandes novidades do século XX, atribuídas por ele aos choques políticos e econômicos das duas guerras mundiais, foram a redução da participação da classe dominante na riqueza, para cerca de 20% do total em vez dos 50% tradicionais até 1913, e o surgimento de uma  verdadeira classe média, formada por algo como 40% da população e 35% ou 40% da riqueza. Sua parcela é constituída fundamentalmente de residência e bens de consumo e poupanças, representando pouco poder econômico, mas uma razoável segurança. Nas sociedades mais antigas, os 90% inferiores formavam uma massa pouco diferenciada e possuíam 10% ou menos da riqueza social.

     O relatório do Credit Suisse mostra uma sociedade global cada vez mais próxima desses padrões antigos e medievais, e mais distantes daqueles atingidos pelos países mais desenvolvidos nos anos do pós-Guerra. Desde o início da era neoliberal, a riqueza acumula-se cada vez mais no topo, enquanto as maiorias empobrecem em termos relativos e até absolutos. As crises mostraram-se, sobretudo, oportunidades de radicalizar esse processo: para conter as falências em massa que agravariam a crise, valores imensos são mobilizados pelos Estados para financiar os poderosos, cuja incompetência é premiada também com cortes de impostos, salários e direitos trabalhistas, enquanto as massas pagam a conta com um salário congelado ou reduzido e impostos mais altos, quando não perdem o emprego e se endividam ainda mais.

     O crescimento de alguns países emergentes, principalmente a China, foi o único fator importante a contrariar essa tendência geral, ao incorporar camadas maiores da população à “classe média” mundial (apesar de, no caso chinês, isso também aumentar sua desigualdade interna em relação às massas camponesas). Mas esse fator está em desaceleração, ao passo que as pressões para privilegiar ainda mais os ricos e lhes dar maior liberdade de ação estão em alta em quase toda parte e as crises em formação só tendem a reforçá-las.