segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Eduardo Cunha precisa ser afastado - por Aldo Fornazieri (Jornal GGN)


     Nessas alturas dos acontecimentos está claro que Eduardo Cunha não se afastará da presidência da Câmara dos Deputados, mesmo que passe da condição de investigado para a condição de denunciado. Numa democracia decente ele não poderia ter ficado num dos mais importantes cargos do Estado, mesmo na já grave condição de investigado. Provavelmente, um político nas suas condições e suspeições sequer chegaria a ocupar tão relevante cargo. Aqui, ele chegou ao poder pela  conjunção de interesses hipócritas, unindo em torno de si setores de bancadas dominados pelo oportunismo político e as bancadas da oposição, dominadas pelo espírito de vendeta política e por uma inescrupulosa irresponsabilidade institucional. Mantém-se no poder pela junção de tudo isto e pela total falta de decência da bancada do PT.

     Integrantes da bancada do PT já haviam praticado os indigestos atos de louvação de Cunha na instalação da CPI da Petrobrás, numa vergonhosa seção de beija-pés do presidente da Câmara, quando ele já estava na condição de denunciado. Agora, o líder da bancada petista, Sibá Machado, vem a público e declara que não vê motivos para o afastamento de Cunha. Em termos partidários, somente as bancadas do PSOL e PPS se manifestaram de forma inequívoca pelo seu afastamento.

     Em apenas seis meses no comando da Câmara, Cunha se ergueu na condição de homem acima da lei. Violou o regimento da Câmara, humilhou colegas, agrediu os princípios constitucionais do Estado laico, ignorou ritos e procedimentos legislativos consagrados, mandou aprovar matérias que ferem direitos, encaminhou uma reforma política que representa um retrocesso e se choca com os reclamos da sociedade brasileira, desestabilizou a ordem econômica ao patrocinar a aprovação de pautas que oneram o Estado no momento em que o mesmo precisa conter gastos e se instituiu como senhor da decisão se haverá ou não encaminhamento do processo de impeachment da presidente Dilma.

     Depois de tudo isto, agora o noticiário veicula que parlamentares e membros da CPI estão agindo em nome de Cunha para intimidar testemunhas e depoentes, na Operação Lava Jato. Que a CPI se reduziu a um mero instrumento de defesa e de coação política e pessoal em benefício de Cunha, não resta dúvida. Não é a isenção investigativa que impera nessa Comissão. Não se trata de um instrumento que quer buscar a verdade das coisas. Não é um recurso usado para coibir a corrupção e para aconselhar medidas com vistas a melhorar a eficácia do Estado. Pelo contrário, esta CPI está a serviço do acobertamento da corrupção, da manipulação de interesses políticos escusos, da degradação da nossa precária democracia.

O STF e a Sociedade não Poderão Omitir-se

     Afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara é uma demanda do que resta de dignidade do nosso sistema político. Afastar Cunha é uma demanda de justiça. Afastar Cunha é uma exigência moral do nosso tempo para que não seja coberto de opróbrio ainda maior nas páginas futuras da história. Nessas circunstâncias, o STF não poderá omitir-se no momento em que Cunha for denunciado. Deverá afastá-lo, impedindo que um dos mais importantes poderes da República seja maculado por tal situação inaceitável. A sociedade também não poderá omitir-se. Terá que exigir, seja através de entidades representativas, seja através de manifestações individuais nos mais variados ambientes em que isto é possível, que Cunha se afaste da presidência da Câmara. Já existem razões suficientes, mesmo antes da denúncia, para que se estabeleça a exigência de seu afastamento.

     E dos partidos e dos políticos, o que esperar destes? Com as raras e honrosas exceções, não se pode esperar nada, absolutamente nada, a não ser a vergonhosa omissão de uns e a criminosa conivência de outros. Os partidos e os políticos deveriam saber que eles já não têm crédito e legitimidade junto a sociedade; deveriam saber que já não são ouvidos; que já não são respeitados e que não merecem confiança e fé.

     Alguns desses políticos, de quase todos os partidos, enleados nas teias da corrupção, podem até escapar do julgamento da justiça. Os omissos e coniventes podem até escapar do julgamento das urnas. Na sua arrogante pavonice, podem até acreditar que são depositários de admiração. Mas deveriam saber que são causadores de repugnância.

     Julgam eles que a sociedade ignora o mal ao poder público que eles representam? Julgam eles que a sociedade não sabe dos seus privilégios, das suas omissões e da sua incompetência? Pensam eles que não serão vistos, no futuro, como destruidores da dignidade da política e como cúmplices de um Estado que apodreceu pela corrupção? Sim, e mesmo assim, acreditam que poderão continuar por muito tempo enganando o povo, com sua perpetuação no poder, com as benesses e com os privilégios.

     Mal sabem eles – partidos e políticos – que do ponto de vista do juízo histórico, estão sentados no banco dos réus. Mal sabem eles que o juízo da história não será complacente e que eles já estão e serão condenados com penas severas e duríssimas. Uns porque não tiveram limites em sua corrupção; outros, porque assumiram o figurino dos oportunistas, dos omissos e dos coniventes. Não pensem os políticos atuais que poderão se evadir do juízo da história, protegidos pela noite promíscua e escusa de Brasília.

     Pensar que o atual sistema político e partidário, que tem em Eduardo Cunha um de seus ícones, possa mudar e remediar-se, é algo pueril. Num momento em que os apelos revolucionários caíram em desuso, só restam à sociedade dois caminhos para sair do atual beco sem saídas da política brasileira: apelar para que a sociedade civil se mobilize, se organize, cobre e participe; e apoiar as instituições do Estado, principalmente o Ministério Público, o Judiciário, a Polícia Federal e a Receita Federal, entre outras, para que radicalizem o processo de sua republicanização.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

domingo, 2 de agosto de 2015

Vida abaixo de zero - por Joey L (Fotografia - National Geographic)

Picadinhas

O cara que inventou o casamento era muito loco, tipo, “te amo tanto que quero envolver deus e o governo”.
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Não é possível que não aconteceu nada na bíblia em agosto pra não ter um feriado sequer.
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Eu tiraria tanto 10 se voltasse ao maternal agora. 
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A foto que reúne Paulinho, Eduardo Cunha e Aécio no palanque ainda é a mais completa tradução do momento político. 
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"Deseja iniciar o Windows Normalmente?" Não, hoje to a fim de iniciá-lo com a abertura do chaves.
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Abrir várias vezes a geladeira não faz aparecer comida, diz estudo.
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Datena ainda não concede licença para a PM matar. Só dá uma boa cobertura. 
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Não crie expectativas, crie maturidade. Porque se tudo der errado, pelo menos você não vai ficar enchendo as redes sociais com indiretas.
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A única coisa que as pessoas têm em comum é que estão todas caminhando em direção à morte. (Bob Dylan) 
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"Nossa aliança é com o povo", diz Aécio Neves, E corre para o abraço de Luciano Huck, Alexandre Accioly e Ronaldo naquela ilha de Angra. 
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"Ou todos vamos para Miami ou restaure-se a moralidade". (Catta Preta) 
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- Nossa, quanto tempo a gente não se fala.
- Sim, por favor não estrague isso.
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FHC disse certa vez que se acha melhor que Kennedy num debate. Mas pelo sim pelo não, nunca debateu nada como ninguém. Apenas se debate. 
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Confesso que sobre política não tenho bagagem pra 5 mins de conversa, mas se quiser falar sobre misto quente senta aí q vou buscar meus slides. 
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Jornalismo investigativo no Brasil é sustentado por vazamentos da PF e do MP. E só. (Viomundo) 
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"Nenhuma folha cai da arvore sem o consentimento de Deus". Imagina deus todo enrolado lá na firma: "pqp tem 9.000 folhas pra liberar hj até as 16h.
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João Dória e sua Lide dão apoio a Cunha, mais perdido que Robinson Crusoé sem Sexta-Feira e sem smartphone numa ilha deserta. 
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Fim de semana é uma espécie de mini ano novo: você faz vários planos e termina dizendo que o próximo vai ser melhor.
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Olavo de Carvalho é um homem generoso, sempre pronto a dar ideias luminosas que transformam seus seguidores em monstros. 
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Quinta-feira e eu já tô mais morto que o time do Vasco.
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Gente é sério, já tamo em 2015. Quando é que a gente vai decidir que o futuro já chegou e começar a usar roupa prateada?
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Aeroportos já viram mais beijos sinceros do que casamentos. Paredes de hospitais já ouviram mais preces sinceras do que igrejas.
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Cony está se enrolando mais para explicar por que chamou a figura benigna de Ghiggia de filha do puta do que para negar que pediu o Golpe em 64. 
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Não gosto de pensar antes de falar. Prefiro surpresas.
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Paulistanos de bem jogam tachinhas nas ciclofaixas. Essa cidade não merece um Datena, merecem vários Datenas prefeito.
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Fim de semana divino, sol, piscina, frutas no pé, fui chupar uma jabuticaba mas era um besouro, mas tudo bem, Deus esta no comando.
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Não esquecer: uma das razões pela qual as ferrovias foram destruídas após 1964: os ferroviários eram uma das categorias mais organizadas, tinham sindicatos fortíssimos. 
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Bom dia pra quem não torce para o Vasco.
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- Pq você não responde no grupo do whats?
- Pq eu silenciei ele por 1 ano
- E pq você silenciou por 1 ano?
- Pq não dá pra silenciar pra sempre.
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Roberto Marinho virou o general civil do golpe porque Julio Mesquita Filho gostava tanto de farda que queria governar no lugar dos militares.
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Se dou o celular pra minha mãe tirar uma foto minha, é certeza de que vai sair um vídeo comigo dizendo "é o botão da frente, mãe".
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Dilma foi à TV e anunciou que adotará medidas do programa do Aécio, as quais jurou que não aplicaria – ‘nem que a vaca tussa’. Daí os eleitores de Aécio foram para a varanda bater panela e xingá-la, porque ela decidiu implementar… a plataforma na qual haviam votado. Ato seguinte, aqueles que a chamavam de ‘Coração Valente’ ocuparam as redes sociais para defendê-la e apoiar a sua coragem… de abraçar um programa contra o qual eles haviam sufragado. Confere? (Alvaro Bianchi)
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- Qual o lugar mais inusitado q você já fez sexo?
- Eu fazer sexo já é inusitado, né?
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Jesus tem um plano para sua vida, mas é da TIM.
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Ricardo Teixeira admite ser alvo de apuração nos EUA e ataca Hawilla. É notícia que deve render reportagem de uns 5 minutos no JN. Aguarde. 
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Se o Schumacher não acordou naquele 7x1 ele não acorda nunca mais...
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Vacina contra raiva atrasa, pode ficar só pra 2016. E o deputado Laerte Bessa circula sem focinheira no Congresso. 
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Meu objetivo no rodízio é ver o dono do restaurante lá atrás chorando.
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Marta agora é moça do tempo: "Dias melhores virão". 
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Faltam 315 dias, 10 horas e 50 minutos pra fechar os portões do Enem. Não se atrasem.
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Poucos sabem mas os faraós eram sepultados com os braços cruzados sobre o peito porque acreditavam que o mundo espiritual era um toboágua.
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-Queria ser igual a Gisele
-Linda, magra e rica?
-Não, me aposentar aos 34 anos.
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Entusiastas da candidatura do Datena à Prefeitura bem que podiam convidar Marcelo Rezende para vice e compor a chapa Medo, Pânico e Terror. 
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"100% JESUS". Cara, então tecnicamente você é Jesus.
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Os jornalões continuam devendo aquele perfil com o vida e obra de Eduardo Cunha, criado quando PC Farias ainda era Paulo Gasolina. 
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- O senhor gostaria de fazer o cartão C&A?
- Sim
- Como senhor?
- Quero fazer o cartão.
- Não brinca comigo, senhor.
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O problema dos coxinhas nem é a arrogância, o preconceito, o analfabetismo político, o fascismo, o problema é quando ficam de quatro, eles não conseguem mais levantar. (Marcius Cortez) 
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Será que no fundo do mar as conchas dormem de pessoinha?
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Rolling Stones confirmam escala da turnê "Eu nasci há 10 mil anos atrás" em SP em fevereiro de 2016. 
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Desculpa a demora, minha intenção era nem ter respondido.
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Se um assaltante é espancado por dez pessoas até morrer, não significa um criminoso a menos, mas sim dez a mais.
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Mais rápido que a luta das mulheres só mesmo as minhas férias.
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Severino Cavalcanti está rindo de orelha a orelha. De repente, perto de Eduardo Cunha, virou um exemplo de honestidade. 
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- Que horas são?
- Não sei, sou de humanas.
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A Polícia Federal do Paraná comprovou que Serra é tarja preta. Tem efeitos colaterais e só pode ser vendido com receita médica. 
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Dá pra perceber que a mulher do GPS fica puta da vida quando você não entra na rua que ela fala só pelos 10s de silêncio que fica no carro.
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Eu vim enviado a este planeta destinado a suflê.
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Inexplicáveis os editoriais furibundos dos jornalões contra Eduardo Cunha. Eles não o amavam tanto? 
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Toda vez que eu entro num avião, eu olho pras pessoas pensando: esse é o pessoal que vai ser meu amigo numa ilha deserta?
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Marco Polo Del Nero precisava visitar um primo da irmã da avó e não compareceu à reunião da Fifa. 
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Eu tenho uma teoria que escorpião não existe, aquele bicho lá é um tanque de guerra biológico que as formigona mais brava pilota.
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Os gregos ficaram com nada do empréstimo que lhes chegou. Do jeito que FHC e o FMI gostavam. 
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"Gata, seu pai é caminhoneiro?".  "Não, pq?". "É que parece que um caminhão passou em cima da sua cara... um caminhão de produtos de beleza de tão linda que você é".
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Gente milionária paga a gente rica para que diga a classe média que a culpa é da gente pobre. 
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Certa vez me deitei numa rede para descansar e acabei caindo no chão – mal sabia eu que se tratava de uma rede de mentiras.
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Vamos dormir porque amanhã a vida não vai se fracassar sozinha.
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Quanto mais perto da instrução, mais longe da Globo o cidadão .
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- Pra mim, o cara que tem que chegar.
- Quando você tá com fome, você vai até a geladeira ou espera alguma atitude dela?
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Reabertura da embaixada americana em Cuba ainda depende de aval do Manhattan Connection .
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Às vezes eu fico pensando, será que os gifs descansam quando a gente não ta olhando pra eles?
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Quando agosto chegar ninguém precisa explicar que cachorro louco é o Eduardo Cunha. 
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- Você precisa achar um rumo na sua vida. 
- Não tô achando nem o carregador do meu celular.
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Queria uma namoradinha hoje pra botar a boca na barriga dela e fazer barulho de peido.
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Joaquim Levy: “Reduzimos a incerteza dos investidores para sustentar o crescimento”. Faltou esclarecer se crescimento da inflação, da dívida, do desemprego, da perda salarial ou da queda de produção, que são os únicos crescimentos ao alcance de vistas sinceras, no Brasil de Levy e Dilma. (Janio de Freitas)
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Odeio quando vou passar no detector de metais e tenho que tirar minha havaianas com prego.
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Como faz pra formatar a vida?
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Nem tudo está perdido. Eduardo Cunha ainda conta com Kim Kataguiri. 
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Às vezes eu to no facebook e há uns textos enormes, eu me sinto num grande Enem.
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Imagina, o Hércules tira uma foto do leão de Neméia, posta no face e coloca a legenda "começando os trabalhos".
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O Senado brasileiro tem algo em comum com o Senado de certa época da Roma Antiga: um cavalo branco com mandato. 
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- Qual a forma de pagamento? 
- Sofrida.
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- Procon, qual sua reclamação? 
- Minha operadora é péssima 
- Qual o seu plano? 
- Trocar de operadora.
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É dura a vida dos jornalões. Lá vão eles arrumar outro Cunha pra chamar de seu. 
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Coisa difícil de entender é mulher, elas dizem que acham nerd bonitinho, mas quando veem minha cama em formato de batmóvel vão embora.
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- Eu queria aumentar a velocidade da minha internet. 
- Qual o seu plano? 
- Me aposentar antes dos 50.
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O fato de eu ser um achacador que comanda dezenas de bestas quadradas no Congresso é culpa da sociedade". (da cria dileta do PC Farias) 
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Passou das seis abas abertas no computador e de duas conversas simultâneas eu já me sinto um operador de voo.
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Eu como macho fico triste com a notícia da cura gay, pq se os gay bonito virar hetero, daí não há chance pra nós com cara de trabalhador rural.
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Para os padrões de Eduardo Cunha 5 milhões de dólares não é propina. É apenas um sinal. 
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Um partido comunista só pra gays cujo hino é COMUNA DEEEEEEUSA.
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"Samsung Galaxy S5 por apenas R$ 1.699,00". Abrindo o Aurélio pra ver se a definição de "apenas" foi trocada na última reforma ortográfica.
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Das profundas do inferno PC Farias amaldiçoa o destino cruel de seu ex-office boy Eduardo Cunha: "Belzebu, o que estão fazendo com meu guri?" 
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Cara entra no açougue: “Me ve 10 kilos de acém? A cem quilômetros por hora, vai passando todo dinheiro, isso é uma assalto, otários”.
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Instituto Millenium pede imediata sessão de exorcismo em Francisco. 
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As únicas oportunidades que eu nunca perco na vida são de fazer drama e de reclamar, porque de resto eu perco tudo, sim.
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O PSDB é tão obsoleto que Carlos Sampaio e Cássio Cunha Lima andam se apresentando como membros da Juventude Integralista Tucana. 
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O jeito mais eficaz de matar uma barata é sair correndo e deixar q deus decida a hora dela.
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Jogadores do Vasco visitaram um orfanato hoje pela manhã: "É de cortar o coração ver aqueles rostos sem esperança", disse Lucas, de 6 anos.
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Papa pede perdão pela matança de índios na América. Já pensou o poder de demarcar as terras indígenas nas mãos de Cunha e Renan? Haja sangue. 
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Adoro fazer compra online, eu encho meu carrinho até uns 8 mil reais e cancelo a compra.
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Situações onde o ser humano se solta das amarras da sociedade e vira bicho:
- fome extrema
- sede letal
- vício em crack
- jogo de mímica
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Lendo os "analistas" de economia do patropi você até esquece que a China tem reservas de 5 trilhões de dólares. 
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Um animal que eu tenho muito medo é o extratossaurus bancarius.
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Eu acordo tão gato de manhã que não bocejo: eu mio.
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Será que a Veja, no alto de sua burrice, não lançou meio que oficialmente a candidatura de Romário para a prefeitura do Rio?
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- Quando você trabalhar e tiver sua casa, você assiste a galinha pitadinha na hora que você quiser.
Meu pai falando com a neta.
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Galera, não tragam ebola pro Brasil. Eu tô numa fase da minha vida que não dá mesmo pra ter ebola agora.
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Aécio seria eleito papa se a eleição fosse hoje, afirma Ibope.
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Imagino meus filhos falando aos filhos deles: "essa é receita da sua avó". Aí mostra um hambúrguer e um copo de nescau.
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Com Russomano, Datena e João Doria Jr no páreo, acho que Donald Trump podia muito bem se candidatar a prefeito de São Paulo.
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Quando assistir filme 3D com alguém: na cena que um objeto voa na direção da tela, dá um tapa na cara do amiguinho e grita “eu também senti!”.
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Band News: Globo cai pro Z4 e Petrobras ainda sonha com vaga na Libertadores.
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Esbarrei no celular e mandei um SMS pra ex dizendo "quero muito te ver". Daí mandei outro "ardendo no inferno", pra disfarçar o constrangimento.
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Coligação Salve Geral: PSDB + PCC.
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Desejo vida longa a minha bateria.
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Já perceberam que os primeiros 18 anos da sua vida são uma versão beta e depois você tem que pagar pra viver?
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Sugestão pra Band caso o Datena seja eleito: um programa com vários ex-prefeitos de SP reclamando da gestão dele diariamente.
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Me recuso a encontrar o valor de x, pq acho que o x deve mostrar seu valor através de suas atitudes.
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Ao vivo: Comandante Hamilton jogando panfleto do Datena...
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Aliás, falando em gif, eu imprimi um esses dia. Não ta mexendo, certamente a impressora esta com defeito.
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O cara vê na propaganda um óculos de um preço, chega na loja é outro: isso se chama ilusão de ótica. 
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Economia: Especialistas dizem que situação ainda precisa ficar muito ruim antes de piorar
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Vou ali, fazer um pouso foçado na cama da minha vizinha. Volto depois de ver a caixa preta.
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By Buzzfeed, Zombozo Kropotkin, Sensacionalista.com, Palmério Dória e adicionais.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Fotografia em preto e branco - por Martin Stavars (site homônimo)

Por quem rosna o Brasil - por Eliane Brum (El País)

     Diante da ruína da autoimagem no espelho, o país parece preferir máscaras autoritárias a enfrentar a brutalidade da sua nudez

     Essa pode ser uma das explicações possíveis para compreender o esgarçamento das relações, a expressão sem pudor dos tantos ódios e, em especial, o atalho preferido tanto dos fracos quanto dos oportunistas: o autoritarismo. Esvaziado de ilusões e de formas, aquele que precisa construir um rosto tem medo. Em vez de disputar democraticamente, o que dá trabalho e envolve perdas, prefere o caminho preguiçoso da adesão. E adere àquele que grita, saliva, vocifera, confundindo oportunismo com força, berro com verdade.

     O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), relacionado na delação premiada da Operação Lava Jato ao recebimento de 5 milhões de dólares em propina, teria dito a aliados:“Vou explodir o governo”. Tanto ele quanto o apresentador de programa de TV que brada que tem de botar “menor” na cadeia, quando não no paredão, assim como o pastor que brada que homossexualidade é doença são partes do mesmo fenômeno. São muitos brados, mas nenhum deles retumba a não ser como flatulência.

     Num momento de esfacelamento da imagem, o que vendem os falsos líderes, estes que, sem autoridade, só podem contar com o autoritarismo? Como os camelôs que aparecem com os guarda-chuvas tão logo cai o primeiro pingo de chuva, eles oferecem, aos gritos, máscaras ordinárias para encobrir o rosto perturbador. Máscaras que não servem a um projeto coletivo, mas ao projeto pessoal, de poder e de enriquecimento, de cada um dos vendilhões. Para quem tem medo, porém, qualquer máscara é melhor do que uma face nua. E hoje, no Brasil, somos todos reis bastante nus, dispostos a linchar o primeiro que nos der a notícia.

     Ainda demoraremos a saber o quanto nos custou a perda tanto dos clichês quanto dos imaginários, mas não a lamento. Se os clichês nos sustentaram, também nos assombraram com suas simplificações ou mesmo falsificações. A ideia do brasileiro como um povo cordial nunca resistiu à realidade histórica de uma nação fundada na eliminação do outro, os indígenas e depois os negros, lógica que persiste até hoje. Me refiro não ao “homem cordial”, no sentido dado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu seminal Raízes do Brasil, mas no sentido que adquiriu no senso comum, o do povo afetuoso, informal e hospitaleiro que encantava os visitantes estrangeiros que por aqui aportavam. O Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção na letra dos sambas para perceber que a nossa era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma.

     O futebol continua a falar de nós em profundezas, basta escutar a largura do silêncio das bolas dos alemães estourando na nossa rede nos 7X1 da Copa das Copas, assim como o discurso sem lastro, a não ser na corrupção, dos dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mas, se já não somos o país do futebol, de que futebol somos o país?

     Tampouco lamento o fato de que “mulata” finalmente começa a ser reconhecido como um termo racista e não mais como um “produto de exportação”. E lamento menos ainda que a suposta existência de uma “democracia racial” no Brasil só seja defendida ainda por gente sem nenhum senso. Os linchamentos dos corpos nas ruas do país e o strip-tease das almas nas redes sociais desmancharam a derradeira ilusão da imagem que importávamos para nosso espelho. Quando tudo o mais faltava, ainda restavam os clichês para grudar em nosso rosto. Acabou. Com tanto silicone nos peitos, nem o país da bunda somos mais.

     Quando os clichês, depois de tanto girar em falso, tornam-se obsoletos, ainda se pode contar com o consumo de todas as outras mercadorias. Mas, quando o esfacelamento dos imaginários se soma ao esfacelamento das condições materiais da vida, o discurso autoritário e a adesão a ele tornam-se um atalho sedutor. É nisso que muitos apostam neste momento de esquina do Brasil.

     É também isso que explica tanto um Eduardo Cunha na Câmara quanto pastores evangélicos que pregam o ódio para milhões de fiéis e apresentadores de TV que estimulam a violência enquanto fingem denunciá-la. Estes personagens paradigmáticos do Brasil atual formam as três faces de uma mesma mediocridade barulhenta e perigosa, que se expressa por bravatas diante das câmeras. Numa crise que é também de identidade, forjam realidades que possam servir ao seu projeto de poder e de enriquecimento para abastecer a manada. Esta, por sua vez, prefere qualquer falsificação ao vazio.

     Para estes personagens tão em evidência, quanto mais medo, melhor. Inventar inimigos para a população culpar tem se mostrado um grande negócio nesse momento do país. Se as pessoas sentem-se acuadas por uma violência de causas complexas, por que não dar a elas um culpado fácil de odiar, como “menores” violentos, os pretos e pobres de sempre, e, assim, abrir espaço para a construção de presídios ou unidades de internação? Se os “empreendimentos” comprovadamente não representam redução de criminalidade, certamente rendem muito dinheiro para aqueles que vão construí-los e também para aqueles que vão fazer a engrenagem se mover para lugar nenhum. Depois, o passo seguinte pode ser aumentar a pressão sobre o debate da privatização do sistema prisional, que para ser lucrativo precisa do crescimento do número já apavorante de encarcerados.

     Se há tantos que se sentem humilhados e diminuídos por uma vida de gado, porque não convencê-los de que são melhores que os outros pelo menos em algum quesito? Que tal dizer a eles que são superiores porque têm a família “certa”, aquela “formada por um homem e por uma mulher”? E então dar a esses fiéis seguidores pelo menos um motivo para pagar o dízimo alegremente, distraídos por um instante da degradação do seu cotidiano? Fabricar “cidadãos de bem” numa tábua de discriminações e preconceitos tem se mostrado uma fórmula de sucesso no mercado da fé.

     A invenção de inimigos dá lucro e mantém tudo como está, porque, para os profetas do ódio, o Brasil está ótimo e rendendo dinheiro como nunca. Ou que emprego teriam estes apresentadores, se não tiverem mais corpos mortos para ofertar no altar da TV? Ou que lucro teria um certo tipo de “religioso” que criou seu próprio mandamento – “odeie o próximo para enriquecer o pastor”? Ou que voto teria um deputado da estirpe de Eduardo Cunha se os eleitores exigissem um projeto de fato, para o país e não para os seus pares? Para estes, que estimulam o ódio e comercializam o medo, o Brasil nunca esteve tão bem. E é preciso que continue exatamente assim.

     Se o governo Lula, na história recente do país, fundou-se sobre um pacto de conciliações, para compreendê-lo é necessário também decodificá-lo como um conciliador de imaginários. Lula, o líder carismático, foi muito eficiente ao ser ao mesmo tempo o novo – “o operário que chegou ao poder” num país historicamente governado pelas elites – e o velho –, o governante “que cuida do povo como um pai”. A centralização na imagem do líder esvazia de força e de significados o coletivo. Do mesmo modo, a relação entre pais e filhos alçada à política atrasa a formação do cidadão autônomo, que fiscaliza o governo e concede ao governante, pelo voto, um poder temporário.

     Mas a ideia mais sedutora do governo Lula, em especial no segundo mandato, era a possibilidade de incluir no mundo do consumo milhões de brasileiros e reduzir a miséria de outros milhões sem tocar no privilégio dos mais ricos. Este era um encantamento poderoso, que funcionou enquanto o Brasil cresceu, mas que, qualquer que fosse o desempenho da economia, só poderia funcionar por um tempo limitado num país com acertos históricos para fazer e uma desigualdade abissal. Enquanto o encanto não se quebrou, muitos acreditaram que o eterno país do futuro finalmente tinha chegado ao futuro. O Brasil, que valoriza tanto o olhar estrangeiro (do estrangeiro dos países ricos, bem entendido), leu-se como notícia boa lá fora. A Copa do Mundo aqui foi sonhada para ser a apoteose-síntese deste Brasil: enfim, o encontro entre identidade e destino.

     Não foi. E não foi muito antes dos 7X1. Essa frágil construção simbólica, que desempenhou um papel muito maior do que pode parecer na autoimagem do Brasil e nas relações cotidianas da população na história recente, exibiu vários sinais de que se quebrava aqui e ali, vazando por muitos lados. Sua ruína se tornou explícita nas manifestações de junho de 2013, protestos identificados com a rebelião e com a esquerda, apesar da multiplicidade contraditória das bandeiras. Quem acha que 2013 foi apenas um soluço, não entendeu o impacto profundo sobre o país. A partir dali todos os imaginários sobre o Brasil perderam a validade. Assim como os clichês. E a imagem no espelho se revelou demasiado nua. E bastante crua.

     O Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado. Entre tantas realidades simultâneas, este é o país que lincha pessoas; que maltrata imigrantes africanos, haitianos e bolivianos; que assassina parte da juventude negra sem que a maioria se importe; que massacra povos indígenas para liberar suas terras, preferindo mantê-los como gravuras num livro de história a conviver com eles; em que as pessoas rosnam umas para as outras nas ruas, nos balcões das padarias, nas repartições públicas; em que os discursos de ódio se impõem nas redes sociais sobre todos os outros; em que proclamar a própria ignorância é motivo de orgulho na internet; em que a ausência de “catástrofes naturais”, sempre vista como uma espécie de “bênção divina” para um povo eleito, já deixou de ser um fato há muito; em que as paisagens “paradisíacas” são borradas pelo inferno da contaminação ambiental e a Amazônia, “pulmão do mundo”, vai virando soja, gado e favela – quando não hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio.

     Este é também o país em que aqueles que bradam contra a corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é nosso.

     Neste Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT), acuada por ameaças de impeachment mesmo quando (ainda) não há elementos para isso, é um personagem trágico. Vendida por Lula e pelos marqueteiros na primeira eleição, a de 2010, como “mãe dos pobres”, ela nunca foi capaz de vestir com desenvoltura esse figurino populista, até por sinceridade. Quando tenta invocar simbologias em seus discursos, torna-se motivo de piada. O slogan de seu segundo mandato –“Brasil, Pátria Educadora” – não encontra nenhum lastro na realidade, virando mais uma denúncia do colapso da educação pública do que o movimento para recuperá-la. Parece que os marqueteiros tampouco entendem o Brasil deste momento e seguem acreditando que basta criar imagens para que elas se tornem imaginários. O próprio Lula parece ter perdido sua famosa intuição sobre o Brasil e sobre os brasileiros. Em suas manifestações, Lula soa perdido, intérprete confuso de um Brasil que já não existe.

     Agora que já não contamos com os velhos clichês e imaginários, a crueza de nossa imagem no espelho nos assusta. Diante dela e de uma presidente com a autoridade corroída, cresce a sedução dos autoritarismos. Nada mais fácil do que culpar o outro quando não gostamos do que vemos em nós. Em vez de encarar o próprio rosto, cobre-se a imagem perturbadora com alvos a serem destruídos. Aqueles que encontram nesta adesão aos discursos autoritários uma possibilidade de ascensão, esquecem-se da lição mais básica, a de que não há controle quando se aposta no pior. Só há chance se enfrentarmos conflitos e contradições com a cara que temos. É com esses Brasis que precisamos nos haver. É essa imagem múltipla que temos de encarar no espelho se quisermos construir uma outra, menos brutal.

     O que o governo Lula adiou, ao escolher a conciliação em vez da ruptura com os setores conservadores, está na mesa. Há várias forças se movendo para encontrar uma nova acomodação, que evite o enfrentamento das contradições e das desigualdades. É pelas bandeiras da reacomodação que as ruas foram ocupadas em 2015 pelo que alguns têm chamado de “nova direita”. Esta, se adere à novidade da organização pelas redes sociais e aparentemente se coloca fora dos esquemas tradicionais da política e dos partidos, talvez seja menos “nova” do que possa parecer nas questões de fundo.

     A próxima manifestação, marcada para 16 de agosto, é acompanhada com atenção pelos políticos e partidos tradicionais que conspiram pelo impeachment da presidente eleita. Os manifestantes de 2015 gritam contra a corrupção, mas basta escutá-los com atenção para compreender que gritam para deixar tudo como está. E, se possível, voltar inclusive atrás, já que uma parte significativa parece ter se sentido lesada por políticas como a das cotas raciais e outros tímidos avanços na direção da reparação e da equidade. A redução da maioridade penal, assim como outros projetos conservadores em curso, são também exemplos de uma resposta autoritária – e inócua – para o esgarçamento crescente das relações sociais e para a violência.

     Há muito barulho sendo produzido hoje, como o próprio discurso de Eduardo Cunha em cadeia nacional (17/7), para desviar o foco do grande nó a ser desatado: não haverá justiça social e igualdade no Brasil sem tocar nos privilégios. Muita gente bacana ainda segue acreditando no conto de fadas de que é possível alcançar a paz sem perder nada. Não é. Quem quiser de fato reduzir a violência e a corrupção que atravessa o Brasil e os brasileiros vai ter de pensar sobre o quanto está disposto a perder para estar com o outro. É este o ponto de interrogação no espelho. É por isso que o som ameaçador dos dentes sendo afiados cresce. E cresce também onde menos se espera.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com

Fotografia manipulada - por Marcela Bolívar (site homônimo)

O Papai Noel de Levy – por Laura Carvalho (Folha)

     Pela alegria das nossas crianças no Natal, é hora de defender o sim à redução da meta fiscal

     Para os que fizeram as contas, não dá para dizer que a inviabilidade da meta fiscal que havia sido anunciada por Joaquim Levy às vésperas do Natal passado veio como surpresa, pois o ministro se esqueceu de combinar com o PIB o seu grande plano de ajuste.

     Com um crescimento projetado de menos 2% em 2015, e uma queda na arrecadação da União de 2,87% no primeiro semestre, nem o mais épico dos ajustes nos levaria ao tal superavit de 1,1%.

     Ao contrário, um esforço fiscal que vá além das medidas já aprovadas, que já somam 1,9% do PIB, só aprofundará a recessão e, assim, a queda nas receitas. Mas esse círculo vicioso, ou espiral descendente, já é velho conhecido de gregos e troianos.

     Com esse cenário, só defendia a manutenção da meta quem acreditava que o comportamento exemplar do ministro da Fazenda ainda lhe traria de presente a volta do otimismo e a retomada do crescimento. Para esses, é melhor pedir que tirem as crianças da sala e contar logo: Papai Noel não existe. Pior, o bom comportamento de Levy aos olhos dos guardiões da austeridade tampouco trará presentes surpresa dos papais investidores.

     Aqui na Terra, empresário só investe quando precisa ampliar a capacidade produtiva para atender ao crescimento esperado nas vendas. É por isso que as medidas fiscais recessivas e o baixo crescimento projetado só contribuíram para fazer despencar a confiança dos investidores, que, depois de uma pequena recuperação no fim do ano passado, já caiu mais de 20% no primeiro semestre, segundo o Índice de Confiança da Indústria do Ibre-FGV.

     Mas então por que a maior parte dos empresários clamou tanto por esse ajuste, inclusive quando apoiou os candidatos da oposição, que –diga-se de passagem– perderam as últimas eleições?

     O que as fábulas ortodoxas não costumam revelar é que um dos efeitos da austeridade é o aumento da taxa de desemprego, que por sua vez já está servindo para pôr fim ao crescimento real dos salários e ao processo de redistribuição de renda que marcou os governos do PT.

     Só resta então um motivo para que o ministro Levy tenha insistido por tanto tempo na manutenção de uma meta fantasiosa. E não é o de manter a credibilidade, pois, para isso, mais vale um ajuste na mão do que dois voando. É sim o de conseguir aprovar o maior número de medidas de arrocho até lá, espantando o verdadeiro Papai Noel dos lares brasileiros. E no final sempre dá para alegar que a política só fracassou porque não lhe concederam no Congresso tudo aquilo que queria.

     O problema é que o arrocho salarial pode ser uma maçã envenenada. De acordo com o chamado Paradoxo de Custos, se um único empresário reduz o salário dos seus empregados, consegue aumentar seus lucros. Mas, se o nível geral de emprego e de salários cai, a renda da população diminui, e assim também as vendas de todos eles. De que adianta obter uma parcela maior de uma receita menor? A lição é que um ajuste assim não beneficia nem os trabalhadores nem o setor produtivo.

     Pela alegria das nossas crianças no Natal, é hora então de defender, junto com o não à redução da maioridade penal, o sim à redução da meta fiscal. Infelizmente vai ter muito parlamentar trocando essas bolas. Poucos tão bem-intencionados quanto o ministro da Fazenda. Mas de boas intenções...

LAURA CARVALHO, 31, é professora do Departamento de Economia da FEA-USP com doutorado na New School for Social Research (NYC).

Fotografia - por Chris Gin (site homônimo)

Repactuação do desenvolvimento ou crise permanente? - por Saul Leblon (Carta Maior)

     A genialidade neoliberal é vender como ciência uma geringonça ideológica em que o acelerador do ajuste aciona o freio da economia e faz a sociedade capotar.
     
     O derradeiro laço com a esperança hoje no Brasil passa pela constituição de uma frente nacional progressista e democrática, capaz de repactuar as bases do seu desenvolvimento. 

     A alternativa a isso, o arrocho neoliberal, aplicado nos últimos seis meses, resultou em esférico fracasso.

     Não é uma crítica. São fatos.

     Erroneamente abraçada pelo governo Dilma, que delegou a atual transição de ciclo econômico a um centurião dos mercados, a estratégia adotada acumulou um passivo digno da palavra desastre.

     O ministro Joaquim Levy não apenas deixou de entregar o que prometeu, como aprofundou desequilíbrios existentes e criou outros novos.

     A inflação não caiu, ao contrário. 

De uma taxa de 6,4% em 2014, saltou para 8,9% em 12 meses até junho. 

     Uma taxa de juro sideral acionada para controlá-la, fez explodir o serviço da dívida pública.

     Em uma sociedade marcada pela postergação de programas urgentes, como a construção de creches e de casas populares, caso da terceira etapa do Minha Casa, Minha Vida, criou-se uma bolsa rentista equivalente a 7,5% do PIB em 12 meses, para pagar juros.

     É transferência de renda direto na veia do mercado financeiro.

     Só no primeiro trimestre, lembra o economista Amir Khair, enquanto o governo economizava R$ 18 bi em direitos trabalhistas e na previdência social para reforçar o superávit, 'as despesas com juros atingiriam R$ 85 bilhões'. 

     São dezenas de Lava Jatos canalizadas gentilmente aos endinheirados brasileiros, fazendo a dívida bruta aumentar em R$ 227,8 bilhões, apenas no primeiro trimestre.

     Pode piorar.

     A taxa de juro real (acima da inflação) projetada para os próximos 12 meses é de explosivos 9%. 

     Nada se iguala a isso na face da terra.

     Insista-se: não são os gastos com o funcionalismo, os programas sociais ou a execrável roubalheira da Lava Jato, mas o custo do dinheiro fixado pelo BC que está bombando o déficit público que se pretendia reduzir.

     Hoje ele é de 6,4% do PIB.

     Superior ao de 2014 (6,2%), utilizado então como argumento pela mídia & mercados para induzir a Presidenta reeleita a fazer o que, assustada, acabou concedendo: terceirizar o manejo da economia aos doutores em equilíbrio macroeconômico. 

      ‘Para corrigir a desastrada gestão do ‘lulopopulismo’, bradavam os assertivos rapazes e moças da crônica financeira.

     Passados seis meses de dura terapia, a credibilidade do lacto purga, e a de seu laboratorista, faz água por todos os lados.

     É impossível ajustar contas públicas promovendo recessão, como manda o figurino neoliberal, pelo bom motivo de que a arrecadação pública se esvai com ela e o arrocho para compensar as perdas agrava a sua causa.

     A genialidade neoliberal é vender como ciência uma geringonça ideológica em que o acelerador do ajuste aciona o freio de mão da economia e faz a sociedade capotar.  

     Para reordenar uma transição de ciclo de desenvolvimento, como é o caso, é necessário recorrer à negociação democrática capaz de organizar os mercados, sobretudo os mercados financeiros, e não entregar o destino a eles.

     A redução da meta fiscal nesta quarta-feira dá a medida do rigor científico: o novo superávit previsto caiu de R$ 66 bi para pouco mais de R$ 8,5 bi. Com boas chances de chegar ao final do ano com um déficit de R$ 17 bi...

     Fosse Mantega o jóquei desse cavalo de pau embriagado, as manchetes e o colunismo isento estariam convocando a ocupação do país pelas agências de risco.

     Como o arquiteto da obra é um quadro de confiança das fileiras, as manchetes dissimulam a octanagem do tropeço.

      ‘Profundidade da crise surpreende’; preparava o campo o Estadão, na manchete de domingo.

      ‘Queda da receita impede superávit’, admitia o Valor da 4ª feira, abstendo-se da relação causal entre uma coisa e outra.

     Os Marinhos, em campanha contra as ditas pedaladas fiscais, no O Globo desta 5ª feira, pasmem, até elogiaram a redução do superávit –‘dá credibilidade’.

     Assim por diante.

     A vertiginosa realidade é que o aperto no crédito e no investimento – com corte de gastos e elevação simultânea das taxas de juros, jogou a economia num buraco ainda mais fundo do que já se encontrava. 

     A recessão, segundo o consenso do mercado, vai derrubar em 2% o PIB este ano. 

     Se nada for feito, continuará a chutá-lo no chão em 2016.

     Será inédito: desde os anos 30, o país não sofre dois anos seguidos de queda real do produto.

     O que avança de fato – e nisso Levy foi bem sucedido em relação aos objetivos implícitos – é a contração do mercado de trabalho, que expeliu  111 mil empregos em junho. 

     Não só. 

     O salário já cresce abaixo da inflação em 12 meses (7,5% contra 8,7% do INPC até maio).

     Significa que os ganhos obtidos na última década começam a ser tomados de volta pelo capital, com impactos sabidos na demanda e no comércio.

     O pano de fundo de um comércio internacional em que as commodities se mantêm em plano inclinado, faz o resto.

     Apesar desvalorização de 30% do Real em 12 meses (necessária, diga-se, para recuperar a competitividade da indústria aqui e no exterior) o reequilíbrio das contas externas está sendo puxado mais pela queda das importações –leia-se, pela recessão – do que pelo vigor dos embarques.

     É a purga sem cura.

     Ela replica em ponto pequeno o saco sem fundo de arrocho e crise de que tem sido vítima a sociedade grega há sete anos, por exemplo, sob os auspícios dos levys de lá (FMI, BCE e Bruxelas).

     Mutatis mutandis, a sociedade se torna refém do mesmo desastre autopropelido que se instala como força de ocupação.

     As premissas do ‘saneamento’ fiscal e financeiro são idênticas em todas as latitudes. Por isso as populações atingidas sofrem o efeito do mesmo fracasso. E, da mesma forma, veem-se diante do imperativo equivalente: assumir o comando do seu destino, ou sucumbir ao moedor de carne sem fim.

     O arrocho na Grécia já devorou 25% do PIB; agravou a mortalidade infantil, dobrou as taxas de suicídios; jogou 25% dos assalariados no desemprego e 38% da população na pobreza; obrigou o país a privatizar boa parte do patrimônio – como Serra quer fazer agora com o pré-sal. Mesmo assim, a dívida pública saltou de 120% para 170% do PIB nos últimos anos.

     Não por conta de gastos adicionais.

     Foi a retração dramática do numerador, a bancarrota produtiva, que desorganizou de vez a sociedade, reduzida a um pasto de engorda de bancos e especuladores.

     Lembra algo?

     Projeções indicam que o destino reservado ao povo grego – a persistir o enjaulameto financeiro – é o de viver como refém dos credores até o final do século.

     A vigilância prevista nas cláusulas do empréstimo recente, de 86 bi de euros, estende-se por 32 anos, dilatáveis por mais 20, com uma década de carência. 

     O Estado grego só poderá emitir dívida de forma soberana, depois de pagar 75% do débito. Corre o risco de ingressar no século XXII como protetorado de bancos e especuladores, que participaram ativamente na gênesis do desastre, durante a farra neoliberal no século XX.

     O colapso da receita ortodoxa no Brasil permite rever pontos cardeais do governo Dilma, antes que um longo prazo semelhante se esboce por essas bandas. 

     Para tanto é preciso politizar os dados de uma equação que a lógica dos mercados se mostrou insuficiente para resolver.

     Uma primeira pergunta de fundo se impõe:

      ‘Como pudemos regredir tanto em tão pouco tempo?’ 

     Um bom começo é confrontá-la com uma segunda indagação pertinente: 'Como é que pudemos supor avançar, ou mesmo reter conquistas,  sem providenciar  a contrapartida de resistência democrática à ofensiva que viria – como de fato veio?'

     A trinca aberta pela inexistência desse suporte, a negligência deliberada em construí-lo nas mais diversas instâncias – das organizações de base à quebra do monopólio das comunicações – redundou no divórcio explicitado agora no agravamento da crise.

     O fosso é proporcional à virulência do que se busca descarregar nos ombros da sociedade para saciar os apetites dos interesses rentistas. 

     O déficit de democracia emerge assim como a mais importante variável de uma transição de ciclo histórico, que a malandragem neoliberal quer resumir a uma exclusiva conta de chegar fiscal.

     Em que medida o fracasso rotundo favorece a retificação de curso?

     Depende.

     O país só reverterá a espiral conservadora se as fileiras progressistas forem capazes de superar sectarismos e hesitações para promover uma repactuação democrática do passo seguinte do desenvolvimento.

     Em vez dos circuitos puros, uma negociação de linhas de passagem feita de metas, concessões, salvaguardas, ajustes e escalonamentos de ganhos e perdas entre diferentes setores. 

     Sem ilusões, porém.

     É preciso juntar mais do que os iguais para compor a alavanca capaz de ultrapassar o arrocho embutido na atual correlação de forças.

     Conquistar a credibilidade e o consentimento de amplas faixas da população –inclusive de setores da classe média e do empresariado produtivo – requer um programa de reerguimento econômico distinto da rudimentar receita que desabou.

     Não há muito tempo a perder, porém.

     As opções disponíveis são duas: repactuação democrática do desenvolvimento ou um novo estirão de impasse e ‘ajuste’. 

     Uma crise permanente à moda grega. Ou o desassombro de politizar as escolhas do desenvolvimento.