segunda-feira, 12 de março de 2018

Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos” – por Jan Martínez Ahrens (El País)

Prestes a fazer 90 anos, acaba de abandonar o MIT. Ali revolucionou a linguística moderna e se transformou na consciência crítica dos EUA

Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da  vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos.
Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demônios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano (editora Bertrand Brasil), ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riqueza e poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro.
Preparado para o ataque.
— O senhor se considera um radical?
— Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.
— Defina-se ideologicamente.
“As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária. O resultado é uma mistura de aborrecimento e medo”
— Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso... isso é anarquismo.
Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilômetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo.
O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.

Pergunta. Vivemos uma época de desencanto?
Resposta. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.

P. E assim surgem as fake news (os boatos)?
R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?

P. Nem mesmo nos veículos de comunicação?
R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.

P. Mas há alguns muito críticos, como The New York Times, The Washington Post, CNN…
R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.

P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia?
R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.

P. Ele voltará a ganhar?
R. É possível, se conseguir retardar o efeito letal de suas políticas. É um demagogo e showman consumado que sabe como manter ativa sua base de adoradores. Também joga a seu favor o fato de que os democratas estão mergulhados na confusão e podem não ser capazes de apresentar um programa convincente.

P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders?
R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower [presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular.

P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?
R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?

P. Então o neoliberalismo triunfou?
R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.

P. O que o senhor descreve soa a Orwell.
R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.

P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?
R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.

P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo?
R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.

P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.
R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.

P. O senhor teme o nacionalismo?
R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.

P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?
R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar [democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.

P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.
R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…

P. Ainda tem esperanças?
R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.

Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Turista observando as montanhas - por Foter (Fotografia)

O golpe de 2016 e seu estudo nas universidades - por Maurício Abdalla (Le Monde Diplomatique Brasil)

O clamor irracionalista da nova direita
O espernear do momento da “nova direita” brasileira são os cursos sobre o golpe de 2016 que começam a ser ministrados em várias universidades públicas do país, motivadas pelo fato de o Ministro da Educação ter tentado coibir a iniciativa do professor Luiz Felipe Miguel, da UnB, de ofertar uma disciplina optativa sobre o tema no curso de Ciência Política. A reação não é surpreendente, dadas as características que compõem o perfil desse grupo social que se formou no processo de construção do golpe. A propósito, essa própria direita deve ser objeto de análise teórica nos cursos.
Não estamos falando de um grupo social mais ou menos orientado pelas elaborações de pensadores e lideranças que, consoantes e coerentes com os princípios do liberalismo, por convicção, apresentam ideias dentro dos parâmetros da racionalidade discursiva e dialógica. Esses – que ainda devem existir, mas estão silenciosos, provavelmente recolhidos em algum recôndito social – seriam capazes de apresentar suas proposições e análises com lógica e consistência, tornando-as passíveis de entendimento e crítica. Certamente reconheceriam os argumentos contrários e tentariam refutá-los ou reinterpretá-los para adequá-los ao corpo teórico que utilizam ou aceitá-los como elementos que modificam suas próprias convicções teóricas. Não temeriam o contraditório e tampouco usariam subterfúgios para censurá-lo ou silenciá-lo. Procurariam derrubá-lo na argumentação racional.
A nova direita, ao contrário, não apresenta esses traços de racionalidade. Sua própria conformação é paradoxal: corruptos com discurso anticorrupção, “intelectuais” sem estudo, líderes sem liderança, pornográficos moralistas, pretensos filósofos, sociólogos e cientistas políticos sem formação acadêmica (cujo aprendizado se deu apenas pelas redes sociais, blogs e sites de institutos ideológicos), juventude ativista “revolucionária” bancada por institutos vinculados à mega-indústria de petróleo estadunidense, grupos “independentes” financiados por partidos políticos, etc.
Seus elaboradores são: jornalistas que se arrogam a capacidade de fornecer a opinião correta sobre a totalidade dos assuntos e que se submetem a tudo para fazer o jogo dos donos das empresas de comunicação; historiadores (amadores ou diplomados) para os quais importa mais o destaque pessoal e a polêmica que o colocará em evidência do que a relevância dos fatos históricos e sua complexa interpretação teórica; jovens que aprenderam a usar adjetivos e frases de efeito e se tornaram colunistas de revistas e jornais, convencidos de sua capacidade de elaboração de algum pensamento só porque descobriram a arte do ilusionismo com palavras; filósofos autodeclarados que decoram a história da filosofia e a misturam com seu discurso ideológico raivoso e, muitas vezes, desconexo, para dar impressão de que aquela tem alguma coisa a ver com este e criar a imagem pública de intelectual sério; e outras figuras idiossincráticas.
Não raras vezes, esses ideólogos apenas copiam e colam frases e truísmos que recolheram de blogs, think tanks liberais e meia dúzia de livros. Quando se propõem a argumentar, despejam coisas que, de tão distantes de qualquer fenômeno real, tornam-se a tal ponto sem sentido que não estão “sequer erradas”. Sua contestação se torna impossível não por serem solidamente formuladas, mas por serem desprovidas de qualquer sentido criticável. Tais afirmações se misturam com outras com mais sentido, mas colocadas fora de contexto, e outras flagrantemente falsas. Tudo vem em pacotes e submetê-las a um debate crítico é como jogar pingue-pongue com o adversário lançando milhares de bolinhas ao mesmo tempo – e, entre elas, algumas bolas de barro.
Tente pensar uma forma de, em poucas palavras, refutar a afirmação (existente) de que “a Rede Globo é de esquerda porque defende os traficantes, as mulheres e homossexuais, protege o Lula e está a serviço da implantação do comunismo no Brasil”. (Se duvida disso e tiver paciência, vá ao Google e faça uma busca com as palavras “Rede Globo de esquerda”).

A nova direita e o golpe de 2016
Por sua própria força e capacidade de elaboração e formação de opinião os ideólogos da nova direita jamais exorbitariam o círculo limitado de seguidores que já possuíam no passado ou teriam leitores suficientes para justificar sua contratação como colunistas ou blogueiros de algum veículo de comunicação de massa. Ocorre que, na estratégia do “golpe suave” é necessário criar uma opinião pública contrária ao governo que se quer derrubar e a tudo que a ele se relacione. Se os fatos reais e os motivos racionais são insuficientes para tanto, cria-se um sentimento, uma disposição social motivada por falsas notícias e pela criação do ódio irracional a ideias e grupos sociais. Trata-se da colocação em prática do que Bernays ensinou aos donos do poder na primeira metade do século XX:
Palavras, sons e imagens fazem pouco a não ser que sejam as ferramentas de um plano profundamente pensado e de métodos cuidadosamente organizados. Se os planos forem bem formulados e um uso adequado é feito deles, as ideias veiculadas pelas palavras se tornarão realmente parte e componente das pessoas. Quando o público está convencido da veracidade de uma ideia, ele seguirá para a ação. As pessoas traduzem uma ideia em ação sugerida pela ideia mesma, seja ela ideológica, política ou social¹.
Para os verdadeiros planejadores e protagonistas da derrubada do governo eleito no Brasil, o momento pedia não intelectuais de direita, formuladores ou expositores do pensamento político e econômico liberal. Não seria a discussão acadêmica de alto nível que iria fortalecer suas intenções espúrias. Até porque, os governos eleitos do PT não deixavam nada a desejar ao pensamento liberal moderado, sendo passíveis de crítica teórica muito mais à luz do pensamento de esquerda.
O que precisavam era de cães raivosos prontos para o ataque sem questionamento das razões, pois o que estava em jogo eram apenas ganhos monetários e financeiros, desejos de apropriação do patrimônio nacional (em particular as reservas do pré-sal), impunidade na prática de corrupção, direito de enriquecer sem prestar contas à Justiça, ao Estado e à sociedade. O plano não se justificava racionalmente: deveria ser executado ou por meio da irracionalidade da violência ou com a permissão da população pela deformação da subjetividade social.
Para tanto, projetaram e usaram as figuras esquisitas que se tornaram os modeladores da opinião da nova direita. São pessoas refratárias ao pensamento contrário ou mesmo diferente. Não concordar com eles faz o dissidente ser imediatamente identificado com um campo de pensamento, partido ou figuras públicas, ainda que a pessoa não tenha absolutamente nenhuma relação com isso – e sobre ela pesará uma quantidade tão grande de adjetivos depreciativos que apenas a defesa das desqualificações e dos termos pejorativos tomará todo o tempo que poderia ser dedicado à discussão do que houvesse de substantivo no debate.
Como é de se imaginar, os formadores de opinião da nova direita rejeitam a teoria e o estudo cuidadoso e científico dos fenômenos sociais. São, portanto, inimigos dos intelectuais e da academia. Para eles, professores universitários, cientistas políticos, historiadores, sociólogos, filósofos, etc. são apenas um grupo de esquerdistas formados conjuntamente em algum galpão clandestino, que leram dois ou três livros e que têm o projeto comum de perverter a cabeça da juventude para propósitos de “estabelecer o comunismo no país” (mas nunca esclarecem o que isso seja).
Deliberadamente ou por acreditarem mesmo no seu ilusionismo e na sua capacidade de pensamento artificialmente valorizada, os ideólogos da nova direita se sentem mais gabaritados para definir o que a universidade deve ou não ensinar do que os pesquisadores e professores, doutores e mestres, que dedicam sua vida ao trabalho acadêmico e ao estudo aprofundado e metódico de seus campos de conhecimento. É como se um prestidigitador amador, tendo comprado uma maleta de mágica pela Internet, se exaltasse tanto com seus truques banais a ponto de acreditar possuir realmente poderes mágicos.

O estudo do golpe nas universidades federais
Quando a academia se debruça sobre um tema não significa que ela detém a verdade completa sobre ele ou mesmo que chegue a resultados que são obrigatoriamente aceitáveis e incontestáveis. Pelo contrário, o mundo acadêmico precisa ser criticado na pertinência e nas conclusões de suas pesquisas, comparando-as com as demandas sociais, e na sua relação com outros tipos de saberes não sistemáticos detidos pelos povos que não estão no ambiente das universidades.
Porém, ela se caracteriza por submeter o objeto de seu estudo a um rigor metodológico e à análise de profissionais com formação, credenciados, capacitados e concursados para o exercício da função. Se há profissionais que não exercem bem suas obrigações, isso é comum a todas as instituições e deve ser tratado como exceção. As universidades públicas ainda são as principais referências de pesquisa no país e estão à frente de todas as demais em qualidade de ensino.
Se várias universidades resolveram colocar o tema “O golpe de 2016” como objeto de reflexão e ensino, é porque o assunto é digno de ser abordado de maneira científica, metódica e sistemática. Os que possuem outra concepção dos acontecimentos de 2016 também têm autonomia para criar disciplinas e cursos que analisem a realidade sob outra ótica.
A atitude de censura e a reação raivosa do ministro da educação são absolutamente justificável: é claro que alguém que ocupa ilegitimamente um ministério da República, membro de um partido que perdeu as eleições presidenciais e que, portanto, nunca teria cargo no governo em condições de normalidade, jamais ficaria confortável com a exposição de sua vergonha em público, principalmente com razões que superam as propagandas do Governo e os discursos fracos dos ideólogos da nova direita. O problema é o titular da pasta da Educação ignorar as prerrogativas do sistema público de educação e os pilares constitucionais do ensino universitário – cujo conhecimento seria o mínimo esperado de alguém que ocupa aquele ministério.
As universidades devem analisar criticamente e sob diversos aspectos a narrativa de “impeachment constitucional”, pois este só se justifica em caso de crime de responsabilidade. São um fato político digno de estudo e pesquisa (para a ciência política, direito, filosofia social e política, sociologia, psicologia social, linguística, etc.) as motivações declaradas dos deputados federais na votação da admissibilidade do impedimento. O objeto da acusação simplesmente desapareceu sob os votos dados em nome da família, de Deus, das igrejas, do filho, da esposa, etc. Qual a constitucionalidade de um processo que se desvia do objeto da acusação para punir o acusado em nome de coisas abstratas?
Fenômeno mais intrigante se deu no Senado Federal, responsável pela destituição definitiva da presidente eleita. Alguns senadores admitiram ter votado a favor do impedimento sem crime de responsabilidade.
“Rose de Freitas [senadora do PMDB-ES] já adiantou o voto favorável ao impedimento da presidente Dilma Rousseff, mas não devido às chamadas pedaladas fiscais. Neste caso, Rose não vê crime de responsabilidade, mas defende a saída de Dilma do Poder” (A Gazeta, 22/04/2016)
“Senador vota pelo impeachment, mas diz que não há crime de Dilma. Em vídeo, Acir Gurgacz [senador do PDT-RO] diz que não vê crime de responsabilidade no caso. ‘Falta governabilidade para a presidente voltar a governar’, justificou.” (Portal G1, 31/08/2016)
“Na nota, Telmário [Mota, senador do PTB-RR] afirma que Dilma não cometeu crime e que o impeachment foi aprovado por causa da perda de apoio político da petista. ‘Considero que a presidente Dilma não foi afastada pela pratica de crime algum, mas sim por posturas políticas adotadas, que não foram capazes de conquistar uma base de apoio congressual minimamente favorável ao seu governo’, diz o texto assinado pelo senador”. (Portal Uol, 31/08/2016)
Ora, se não estamos no parlamentarismo, a aprovação da destituição da presidente legitimamente sufragada em uma eleição, posteriormente julgada legal pelo TSE, sem que houvesse crime de responsabilidade é uma manobra de tomada do poder por meios não legais. O próprio Ministério Público Federal emitiu parecer afirmando não ser as “pedaladas fiscais” crime de responsabilidade – porém não se manifestou sobre o resultado do processo parlamentar. Permitiu que a Constituição fosse desrespeitada, segundo sua própria interpretação, mas não agiu em defesa da lei.
Mais ainda, se de fato, para o parlamento, as “pedaladas” passam agora a ser crime de responsabilidade passível de cassação de mandato, por que não se criou uma cascata de cassações de governadores que praticam o mesmo ato com frequência?
Para esse tipo de destituição de uma mandatária eleita (independente da avaliação que se faça de seu governo) não há outro nome na literatura a não ser “golpe de Estado”. Um golpe não se caracteriza pelo meio utilizado para ser colocado em prática (se usa o Exército, o Judiciário ou o Parlamento). O que o define é o fato de grupos minoritários se apropriarem do poder sem respeitar a decisão da maioria e os mecanismos institucionais e jurídicos que garantem o Estado de direito.
O fato de o golpe anticonstitucional ter tido maquiagem de constitucionalidade não é um acaso. Tal tipo de ação tem sido a nova estratégia de intervenção das potências do Ocidente (lideradas pelos EUA) na política de países que estão sob seu interesse – como revela a história recente de países como a Geórgia, Síria, Egito, Jordânia, Honduras, Paraguai, Venezuela, etc. O termo que vem sendo utilizado para defini-la é “Golpe Suave”, uma estratégia sistematizada, estudada e publicada e, cada vez com mais frequência, aplicada em vários países do mundo.


Estudar essa nova estratégia de destituição de governos no mundo contemporâneo é condição fundamental para o entendimento de geopolítica, geoeconomia e das novas configurações do poder no mundo Globalizado. Por isso, deve ser estudada de maneira acadêmica, ou seja, de forma metódica e sistemática nos ambientes universitários e ser também tratada como objeto de ensino em diferentes campos do saber. Entender sua aplicação no Brasil é condição para se entender o próprio país.
Quem é contrário a que esse estudo seja feito nas universidades deve contentar-se em entender o país por meio de blogs de internet, think tanks liberais, “memes” de Facebook e leituras dinâmicas de textos de meninos cujo conteúdo não consegue ultrapassar adjetivos, falsas analogias e frases de efeito. Mas não se pode querer retirar o direito de quem quer estudar o Brasil com mais seriedade e responsabilidade.
Os elaboradores da nova direita e seus seguidores vêm atacando as universidades públicas acusando-as de ser um local de formação de ideias contrárias à sua ideologia de direita difusa. Mas, o fato das universidades serem o lugar onde mais se estuda, pesquisa e debate com profundidade e, ao mesmo tempo, o local em que a nova direita reconhece que suas ideias são rechaçadas não é uma coincidência.
Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

[1] BERNAYS, Edward L. A engenharia do consentimento. (Tradução e introdução de Daniel C. Ávila). Transformações em psicologia. Vol. 3, nº 1, 2010.