sábado, 27 de outubro de 2018

O antipetismo é uma doença que cega

Como todo sectário, o antipetista vive em uma realidade paralela, em um delírio alucinado, tentando fazer com que a realidade se encaixe em seus tortuosos raciocínios – e não o contrário.
Quando ele se depara com uma notícia como esta1, que apenas atesta um fato incontestável, ele trava. A partir daqui, não há nenhum argumento racional que ele possa contrapor – terá de xingar, ou caluniar, ou distorcer de alguma maneira a realidade para que ela se enquadre em seu desvario.

Em 2003, quando o PT assumiu o poder, o Brasil era a 15ª economia mundial. Com este partido no poder, o Brasil chegou a 6ª posição. Estes são os fatos, não é uma questão de opinião, o Brasil avançou durante o governo petista – e muito.
Erros foram cometidos, é claro que sim e a lista não é pequena: Palocci, Meirelles, Joaquim Levy, alianças espúrias, nomeações de PGR e tribunais, desvios éticos etc.
O que não muda o fato de que os governos petistas mais acertaram do que erraram, e que nosso país avançou muito no período – se não tivesse avançado, por óbvio, uma matéria dessas não seria possível.
E temos de ler e escutar rematados ignorantes falarem que o PT “destruiu” o Brasil. Destruiu o que, cara pálida? Qual é a base comparativa para uma afirmação incoerente dessas? Destruiu em relação a que? A quem? Como muito bem apontou Bakunin, os fatos têm primazia sobre as ideias – e é fato que uma afirmação dessas não tem base epistemológica alguma. Se o PT tivesse destruído o Brasil, como teríamos avançado da 15ª para a 6ª maior economia do mundo? Isto não faz nenhum sentido.
E não é só este dado, claro. Para lembrar um fato paradigmático, em dezembro de 2014, último mês do primeiro mandato da Dilma e o último mês em que ela conseguiu minimamente governar, o desemprego no Brasil era de 4,3% – o menor da história.
O que os antipetistas fanáticos não tem a grandeza moral e/ou capacidade intelectual de admitir é que o declínio de nosso país se deu quando eles se conformaram em um movimento raivoso, acéfalo, furibundo contra o PT e seu governo. Aí sim as coisas desandaram.

Capitaneados por estes guardiões da ética, da moral e dos bons costumes que são Aécio Neves, Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, os manifestoches amarelos e seus representantes políticos e jurídicos não aceitaram o resultado das urnas. Conciliados dentro de um grande e poderoso arco que representa tudo o que há de mais putrefato e funesto em nossa sociedade, o antipetismo conspirou, sabotou, interditou, inviabilizou e por fim golpeou o governo da Dilma.
É inacreditável que (os eleitores de Aécio) não vejam que foi o próprio movimento que puxaram que levou o país à decadência. Basta ver o resultado econômico precedente (que é inquestionável), como o prova o avanço do Brasil em relação à outras economias do mundo.
Ao invés de os antipetistas admitirem o equívoco, não, eles avançam – é como a pessoa que chega a beira do abismo e, ao invés de retroceder, tomasse a resoluta decisão de seguir avançando.
Em seu sectarismo alucinado, eles seguem afirmando que o PT destruiu o Brasil, que é responsável por nossas mazelas, que é um antro de corrupção etc. E o eleitor de Eduardo Cunha, Bolsonaro e Aécio Neves, pasmem, não só não vê contradição alguma em seus escolhidos, como ainda quer tutelar os outros sobre corrupção – é algo tão contraditório que beira a insanidade.
Estes delírios absurdos de responsabilizar o PT por tudo de ruim não somente são desmentidos por matérias como esta, como se tornam ainda mais graves quando se sabe que há mais de dois anos este partido está fora do poder.
Em um fetiche que não é outra coisa senão um caso psiquiátrico, imersos numa estupidez que não aprende e não descansa, os fanáticos antipetistas seguem em seu delírio, vinculando o atual estado do país ao PT – partido que é oposição.
E há de se destacar não se pode falar que está se votando no Bolsonaro preconizando uma mudança, afinal o partido dele foi o que mais votou favoravelmente ao governo Temer este ano, superando o próprio MDB (!)2.


Ao longo desta porca campanha, pacientemente temos que escutar os mais rematados ignorantes, sujeitos absolutamente iletrados, que nunca leram um livro relevante na vida – que aliás não só não leram, mas na verdade sequer sabem quem são formuladores da ordem de Caio Prado Jr., Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Gilberto Freire, Milton Santos, Nelson Werneck Sodré, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Hollanda etc. (isto pra me ater a autores brasileiros) – se julgando os papas da política. Exatamente por não lerem, não estudarem, não se dedicarem com afinco ao conhecimento, acham que sabem tudo.
E deve-se deixar claro que ser iletrado não tem absolutamente nenhum vínculo com ter curso superior ou não, porque conheço inúmeras pessoas formadas absolutamente ignorantes, pessoas que ao longo de sua graduação inteira não leram sequer um livro em sua integralidade – que dirá um destes livros “formadores” do Brasil.
Este misto de ignorância, agregado ao ódio cultivado pela mídia ao longo de mais de dez anos, faz com que seus eleitores menosprezem o caso JBS com os R$ 200 mil depositados na conta particular de Bolsonaro, a funcionária fantasma Val, seu filho ameaçando fechar o STF, o auxílio-moradia tendo casa pra “comer gente”, a presença por mais de dez anos no partido do Maluf (o PP, partido com o maior número de acusados na Lava-jato), os evidentes crimes eleitorais feito via mensagens de whatsapp, o fato de sua ex-esposa ter tido de fugir para outro país porque ele a ameaçava, os riscos evidentes que sua candidatura promove contra nossa democracia – os porões da ditadura vêm ressurgindo de maneira indubitável3 –, o  líder da Ku Klux Klan lhe prestando apoio, a presença cristalina que representa o apoio de figuras como Edir Macedo, Silas Malafaia, Magno Malta etc.
Bolsonaro vive em uma campanha de ódio, baseado sempre em ser contra – e nunca em proposições – porque não tem preparo, discernimento ou clareza para solucionar nenhuma das mazelas que nos acometem. Ao contrário, como todo fascista, Bolsonaro sempre está atrás de algum fantasma que justifique suas loucuras. Ele, por exemplo, diz defender o ensino à distância desde o ensino fundamental. Por que? Para combater o marxismo (?!).
“— Conversei muito sobre ensino a distância. Me disseram que ajuda a combater o marxismo. Você pode fazer ensino a distância, você ajuda a baratear. E nesse dia talvez seja integral”4.
E esta não é uma frase infeliz, dita em um momento de descuido. Como ele mesmo disse, “conversou muito” sobre o assunto.
Este é o nível do sujeito que podemos eleger como presidente da república.
Estamos na iminência de preterir um professor doutor da maior universidade da América Latina, fluente em quatro idiomas, autor de livros e artigos, para escolhermos um energúmeno que precisa fazer uma cola de três palavras na mão para conseguir articular um discurso.
Para dispensar maiores análises, fazemos um pequeno compilado de suas ideias, evidenciando a tragédia que estamos na iminência de cometer:

“(Os gays) Não vão encontrar sossego. E eu tenho imunidade pra falar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho”.5

““Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.”6

“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.”7

“Se um casal homossexual vier morar do meu lado, isso vai desvalorizar a minha casa! Se eles andarem de mão dada e derem beijinho, desvaloriza.”8
 
 “Jamais iria estuprar você, porque você não merece… vagabunda!”9 – fala que reiterou dias depois10.

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre…”11

“Maioria é uma coisa, minoria é outra… minoria tem que se calar, se curvar à maioria, acabou…”12

A cantora Preta Gil o perguntou:
“- Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?
- Ô, Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente (família negra) como lamentavelmente é o teu.”13

“Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher.”14

“Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual a essa raça que tá aí embaixo, ou como uma minoria que tá ruminando aqui do lado.”15

“Se o filho começa a ficar meio gayzinho... leva um couro, ele muda o comportamento dele.”16

“Como eu estava solteiro na época, esse dinheiro do auxílio moradia eu usava pra comer gente.”17

“Eu vou dar carta branca para a polícia matar.”18
 
Em diálogo com Alexandre Frota:
“- Se você quer me ver presidente um dia, eu quero te ver ministro da Cultura. Já imaginou, cara?”19

“Essa tara por diploma superior não pode existir.”20

“Ninguém quer saber de jovem com senso crítico.”21

Sobre a chegada de refugiados:
“A escória do mundo está chegando ao Brasil”.22

“Espero que o mandato dela (Dilma) acabe hoje, infartada, com câncer ou de qualquer maneira”.23
  
Em um mundo normal, poderíamos nos perguntar porque falas tão desequilibradas de uma pessoa que não nutre absolutamente nenhuma empatia por aquilo que não seja igual a si mesma, não espantam seus eleitores. Ninguém com o mínimo de bom senso elegeria para presidente da república um sujeito insano, desequilibrado e arrogante, que não tem absolutamente nenhuma condição psicológica e intelectual de lidar com o contraditório, que não tem capacidade de administrar sequer um condomínio. Mas podemos acabar elegendo-o – porque o antipetismo é uma doença que cega.


1: PIB do Brasil ultrapassa o do Reino Unido e país se torna 6ª economia do mundo. O Globo, 26/12/201.
2: PSL de Bolsonaro foi o mais fiel a Temer neste ano. UOL, 25/07/2018.
3: Coronel que ofendeu Rosa Weber afronta comandante das Forças Armadas. Jornal GGN, 23 de outubro de 2018.
4: Bolsonaro defende educação a distância desde o ensino fundamental. O Globo, 07 de agosto de 2018.
6: Bolsonaro: "prefiro filho morto em acidente a um homossexual". Terra, 11 de junho de 2011.
7: Apoio de FHC à união gay causa protestos. Folha de São Paulo, 19 de maio de 2002.
8: Bolsonaro: "prefiro filho morto em acidente a um homossexual". Terra, 11 de junho de 2011.
18: Nos EUA, Jair Bolsonaro oferece promessas vagas para empresários e “carta branca para a polícia matar”. The Intercept, 10 de Outubro de 2017.
19: Bolsonaro diz que quer Alexandre Frota ministro da Cultura em vídeo. O Globo, 28 de março de 2018.
20: Bolsonaro diz que jovem brasileiro tem "tara" por formação superior. UOL, 28 de agosto de 2018.
21: Ninguém quer saber de jovem com senso crítico, diz Bolsonaro em Vitória. Folha de São Paulo, 31 de julho de 2018.
22: Bolsonaro chama refugiados de “escória do mundo”. Exame, 22 de setembro de 2015.
23: Idem 22.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Fotografia - por Daniel Olah (Unplash)

A Caixa de Pandora de nossos dias



Na mitologia grega, no princípio não era a Palavra, mas sim a história do casal Gaia (que personificava a Mãe-terra) e Urano (que personificava o céu), sendo que estes praticavam uma espécie de incesto das deidades, já que Urano também fora criado por Gaia.
Urano tinha receio de ser substituído no trono por algum de seus filhos com sua consorte, por isto, fazia com que Gaia reinserisse seus filhos em seu útero (na terra). Ao fazê-lo ele acabava torturando-a, pois os seres queriam sair de seu corpo e ela sentia dores atrozes por mantê-los, já concebidos, dentro de si.
Em razão disso, Gaia insuflou seus filhos a lutarem contra a atitude cruel de seu progenitor. Cronos, o mais obstinado deles e o único que aceitou participar da conspiração, armado de uma foice oferecida por sua própria mãe, saiu da terra e decepou o pênis de seu pai Urano no momento em que ele copularia mais uma vez com ela.
Este gesto explica, dentro da mitologia grega, a separação existente entre o Céu e a Terra – que tão bem podemos ver quando olhamos para um horizonte distante: os consortes foram cindidos pelo golpe lancinante de Cronos.
O sangue profícuo que verteu de Urano deu origem a diversos seres fabulosos, porém, Urano profetizou que também um dos filhos de Cronos viria a derrubá-lo.
Por conta disso, Cronos passou a sempre devorar seus filhos logo depois de seu nascimento. Isto durou muito tempo, até o dia em que sua consorte, Reia, auxiliada por Gaia, protege Zeus e impede que ele seja morto, fazendo com que Cronos devore uma pedra ao invés do infante.
Salvo por tal gesto, anos depois Zeus e outras divindades gregas batalham contra os Titãs (do qual Cronos era líder) e os derrotam, conseguindo ainda resgatar seus irmãos devorados (com algumas acepções da lenda dizendo que eles foram vomitados, e com outras dizendo que foram resgatados depois de Zeus eviscerar seu pai).
A mitologia grega alcunha tal conflagração de Titanomaquia.
Porém, a história não acaba aí, muito ao contrário. Dois Titãs irmãos, Prometeu e Epimeteu, não lutaram a favor de Cronos – eles se aliaram a Zeus. Como recompensa por tal gesto, Zeus permitiu que os dois irmãos criassem as primeiras criaturas que viveriam na Terra. Epimeteu criou os animais, dando a cada um uma forma que pudesse sobreviver, um tipo de proteção para resistir à vida na Terra – tanto atributos morais (tais como força, astúcia e coragem) como físicos (asas, garras, carapaças etc.). Prometeu despendeu um tempo maior em sua concepção, mais complexa e intrincada, invenção esta que seria o homem – moldando-o através do barro e da água. Porém, ao finalizar sua obra, ele observou que seu irmão já havia despendido todas as habilidades e formas de proteção nos outros animais. O homem não tinha garras, visão aguçada, força física invejável ou outro predicado de destaque. Desta maneira, ele solicitou a Zeus que pudesse conceder ao homem o fogo, dando assim a sua criação algum tipo de proteção. Temendo que os homens ficassem tão poderosos quanto os deuses, Zeus negou o pedido, porém, Prometeu desobedeceu a ordem. Apanhou um caule de nártex, aproximou-se da carruagem do Sol e o incendiou. Trouxe esta tocha e entregou o fogo à humanidade, dando assim a possibilidade de o homem dominar o mundo e suas criaturas.
Por essa desobediência, Prometeu foi castigado a permanecer preso no monte Cáucaso por 30.000 anos. Durante o dia uma gigantesca águia comia seu fígado e, à noite, ele se regenerava, permanecendo nesta tortura por muito tempo (o Titã depois veio a ser liberto por Hércules, em outra história que não cabe aqui).
Como podemos observar, a mitologia grega por vezes relembra uma novela mexicana, tamanha a quantidade de caprichos, vinganças, traições e vaidades.
Nesta história, por exemplo, Zeus não guardou sua retaliação apenas contra Prometeu, mas também a desferiu contra a raça humana, que até então vivia livre de todos os males, trabalhos árduos ou tonitruantes enfermidades – também se assemelhando muito ao paraíso cristão. A mando de Zeus, Hefesto e Atena criaram a primeira mulher, Pandora, que foi feita para se parecer com a graciosa deusa Afrodite. Pandora recebeu diversos dons de todos os deuses: além da beleza, também a paz, a bondade, a generosidade etc.
Zeus Olímpio a enviou de presente para Epimeteu e, a despeito de seu irmão tê-lo alertado para nunca aceitar presente dos deuses, ele não resistiu aos encantos de Pandora e resolveu se casar com ela.
Como presente de casamento de sua criação, Zeus enviou de presente uma caixa, advertindo Pandora, entretanto, de que ela nunca deveria abri-la (algo assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal, que também existia só para não ser utilizada). Pandora, que tinha uma curiosidade inata, resistiu algum tempo até que, por fim, não suportou mais e abriu a caixa – desobedecendo assim a ordem dos deuses e, por isso, acarretando uma grave punição, em ideia também similar a do Jardim do Éden.
Se os deuses haviam dado diversos atributos positivos a Pandora, cada um deles também havia depositado alguma coisa maléfica dentro da caixa (ou do vaso, a depender da versão) que Zeus posteriormente veio a dar de presente.
Ao abri-la, Pandora libertou toda a sorte de desgraças que acomete a humanidade, nelas inclusas a inveja, o ódio, a dor, a pobreza, a guerra, a ganância, a morte etc.
Pandora tentou rapidamente fechar a caixa, porém, depois de conseguir fazê-lo, ouvia apenas um pedido de súplica vindo de lá de dentro. Epimeteu refletiu que não havia nada pior que poderia sair e, resolveu abri-la. De fato, a última coisa que lá estava era a esperança, que ele então deixou que saísse.
Nietzsche, em seu eterno pessimismo, observou a esperança como mais um dos males contidos dentro da caixa, mais uma punição dos deuses – pois ela faria com que os homens, a despeito das agruras, continuassem a sofrer na expectativa de que algum dia as coisas melhorariam.
Entretanto, a maioria das pessoas que se debruçaram sobre o mito observaram na esperança algo de positivo, pois ela nos impede de desistir e nos dá forças para lutar contra os males que advêm inevitavelmente em nossas vidas.
E se em um país tão grande como o Brasil podemos observar no segundo turno das eleições presidenciais (presidenciais, gente, pelo amor de Deus), um candidato que sequer se esforça para disfarçar sua mediocridade intelectual, sua arrogância pretensiosa, seu farisaísmo religioso, suas contradições aberrantes, seus preconceitos vigorosos, podemos fazer uma analogia com nosso tempo presente. Se fosse utilizar uma metáfora cristã, poderíamos afirmar que nosso país se aproxima neste momento de abrir as comportas do inferno.
Mas aproveitando do antigo mito grego, podemos inferir que estamos na iminência de abrir outra caixa de Pandora.
E desta vez, sequer a esperança restará para nos apegarmos.