sábado, 25 de fevereiro de 2017
O mito do 'investidor estrangeiro' – por André Araújo (Jornal GGN)
Alan Greenspan, o "maestro" do
Federal Reserve System por 18 anos, passava horas na banheira lendo
estatísticas da economia real: geladeiras, yougurt, pneus, caminhões, pão de
hambúrguer, todos dados da vida das pessoas lhe interessam. Tinha especial
fixação por telhados, quantos telhados foram vendidos na semana (nos EUA a
construção se faz por conjuntos e não por peças). Era por estes indicadores que
Greenspan tirava o pulso da economia que importava. Greenspan, que está com 90
anos, proporcionou o maior período contínuo de prosperidade dos EUA no
pós-guerra, embora lhe atribuam culpa da crise de 2008, decorrência exatamente
do excesso de confiança nessa prosperidade longa demais.
No Brasil, no oceano de ignorância sobre
economia que domina a grande mídia, os únicos indicadores valorizados são os de
câmbio e bolsa. Os comentaristas da Globonews são os mais rasos, para eles a
economia se resume em câmbio e bolsa e, nesta última, o que interessa é o
mítico "investidor estrangeiro". O padrão se repete em outras mídias,
como a Jovem Pan, onde sua comentarista só conhece câmbio e bolsa, a economia
se resume nisso. Na Globonews o comentarista Donny di Nuccio, a qualquer observação
sobre economia, replica "Ah, mas a bolsa subiu". Pronto, esta é para
eles TODA a economia. Na FOLHA de 19 de fevereiro de 2017, pag.A 23, um artigo
"Mercado especula melhor nota do Brasil" mostra esse viés de
considerar o mercado financeiro como único indicador da economia brasileira.
No passado longínquo do início da mídia
econômica no Brasil, com o jornal Observador Econômico e Financeiro, a revista
BANAS, os temas eram a produção de café, de cana, de aço, de cimento, de
tijolos, de telhas, cacau, de sisal, de construção de rodovias, usinas,
aeroportos, havia comentaristas especializados em agropecuária, como Mario
Mazzei Guimarães, comentava-se com detalhes e atenção a produção de carne e de
leite, de tubos de ferro e de concreto para saneamento, de tecidos de algodão,
de farinha de trigo. Economia é isso e o Brasil só crescerá quando esses
fatores voltarem a ser o centro da economia como foram nos anos, em que o
Brasil cresceu e se tornou a 5ª economia do mundo, saindo de um País
essencialmente agrícola para um país industrial no pós-guerra.
A partir do Plano Real e com o domínio dos
"economistas de mercado" sobre a política econômica, fixou-se que a
única coisa que faz andar a economia é a bolsa e, nesta, o "investidor
estrangeiro", se ele não aparecer afunda a economia, se ele trouxer
dinheiro para cá, está tudo indo bem na economia. Esse mítico "investidor
" é o único que os "economistas de mercado" conhecem, os fundos
de investimento estrangeiros tipo BlackRock, Fidelity, Templeton que operam no
Brasil via parceiros daqui e com isso garantem empregos para alguns desses
"economistas de mercado", eles são as únicas fontes de informação da
mídia conservadora, que é quase toda a imprensa, rádio e tv.
Ao usar exclusivamente essa régua, os comentaristas
esquecem da enorme "economia real" do País, onde está o crescimento,
o emprego, a produção e o dinamismo do processo que faz as famílias
sobreviverem e ter perspectivas de futuro para seus filhos.
Ao comentar câmbio e bolsa, os
comentaristas da mídia oficialista tampouco aprofundam a informação. O dólar
está caindo quando devia subir? Porque? Onde está a análise? Nunca vi nesses
comentaristas qualquer menção ao centro do problema do câmbio, a política
cambial do Banco Central, que é a de intervenção "suja" (não
declarada) e que em 2016 foi o motivo central para a derrubada do dólar, a um
custo estratosférico, só no primeiro semestre de 2016 os swaps cambiais deram
perda de R$ 207 bilhões ao Banco Central, mais que todo o déficit do orçamento federal
que os "economistas de mercado" consideram o maior problema do
Brasil. Sobre esse custo monumental nunca ouvi um mísero comentário dos
jornalistas de economia da grande mídia, em primeiro lugar porque não
correlacionam cotação do dólar com política cambial e, em segundo, se conhecem
o "background" não convém comentar porque isso seria uma crítica ao
Banco Central, que eles respeitam como o Vaticano da moeda, infalível e
inatingível.
Não comentam, ou só falam marginalmente,
do "carry trade", dinheiro emprestado nos EUA a 2% ao ano e aplicado
aqui em títulos do Tesouro a 13%, além do lucro do diferencial de juros. Desde
que começou a gestão da atual equipe econômica, esse tipo de especuladores
levou para casa também o lucro cambial fantástico, dólar que entra a 3,60 e
volta a 3,10 graças à generosidade do Banco Central, mas quem e porque comanda
este espetáculo? Aguardam-se análises dos comentaristas da grande imprensa.
Muita coisa que circula no mercado por alguma razão a imprensa não reporta e são
fatos importantes da economia.
Além da atuação catastrófica do Banco
Central para empurrar o dólar para baixo visando "trazer a inflação para o
centro da meta" há outro personagem que os comentaristas da Globonews
veneram: o "investidor estrangeiro". Quem é ele?
O "investidor estrangeiro" é o
mesmo personagem mítico que na Itália devastada pela miséria no imediato
pós-guerra via no "turista americano". Nos escombros de Nápoles, um
"turista americano" era visto como salvador do almoço do dia. A mesma
cafonice impera na fala dos comentaristas ignorantes de hoje. Veem no
"investidor estrangeiro" a salvação do Brasil sem realmente saber que
é esse Mandrake que é tão reverenciado como fiel da balança da nossa estagnada
economia.
O "investidor estrangeiro" de
hoje, adorado pela Globonews, é um fundo especulativo da pior espécie que entra
e sai da bolsa e das apostas em juros e índices, é o mais destrutivo tipo, o
mais deletério, o mais inútil dos personagens em uma economia em desintegração
de seus reais fatores de crescimento, o investimento privado nacional das
pequenas e médias empresas que anseiam por crescer e que tem hoje tais
limitações que muitas definham e morrem, para essas o BNDES abre linhas de
crédito que só uma carta de fiança do Banco Rothschild pode atender em termos
de garantia, higidez de balanço e certidões fiscais.
Tampouco chama a atenção a falta do
fundamental investimento público, primeira vítima do ajuste fiscal "à
outrance" e cuja falta é uma das causas da recessão.
Fundos abutres e especulativos cujo modelo
universal é o padrão Soros (Quantum Fund) são hoje o arroz com feijão da bolsa
brasileira, é para eles que se pratica toda política cambial, não é para o
exportador de soja, de frango e de carne bovina, o alvo a agradar é o fundo
especulativo de Nova York, fundos esses que produziram 49 bilionários na lista
da revista FORBES, que vivem exclusivamente de especulação e o Brasil é um dos
seus territórios preferidos porque garante saída livre sem questionamentos, o
capital entra e sai como um turista do Carnaval carioca. Uma porta rotatória
que gira sem parar.
Quando entra o "investidor
estrangeiro" fundo especulativo, soltam rojões, mas quando sai "boca
fechada", não é notícia. O mercado de câmbio no Brasil é inteiramente
livre, entra e sai como e quando quiser, o investimento financeiro pode sair no
mesmo dia em que seus donos decidem, bastam cliques de botão de computador. Já
o investimento produtivo, em fábricas, não pode sair rápido e fácil, é preciso
vender os ativos, fazer caixa para depois remeter, isso leva meses ou anos.
Então o investimento produtivo é sólido, é o que interessa ao País, por isso a
separação conceitual entre o financeiro e o produtivo é fundamental, nada disso
é sequer de leve noticiado e muito menos analisado. A conexão do
"sistema" Banco Central + mercado financeiro (uma coisa só) é
exclusivo com Wall Street e não com os polos de economia produtiva dos grandes
países.
O "investimento direto no País"
IDP, tratado com tapete vermelho, quem é ele?
Quase todo IDP que chega é para COMPRA de
empresas no Brasil, não é para novas fábricas, usinas ou shoppings. A razão?
Como a economia está em recessão, causada pela política monetária recessiva do
BC, o preço dos ativos no Brasil caiu muito, os empresários nacionais estão
vendendo suas empresas e negócios, além de venda de concessões, privatizações e
demais ativos, muitas vezes para pagar dívidas, como os das empreiteiras alvos
da Lava Jato, que estão vendendo bens acumulados ao longo de décadas. O BC e
seus porta vozes na mídia comemoram essas entradas que têm um efeito econômico
perverso, esses IDP serão base futura de remessas de dividendos e lucros, o
chamado PASSIVO EXTERNO do País, soma dos IDP mais dívida externa pública e privada
mais contratos de leasing que são outra forma de passivo. O estoque registrado
no BC já chega perto de UM TRILHÃO DE DÓLARES, um valor tão grande como o da
dívida pública interna, todo esse passivo exige serviço de juros, dividendos,
lucros ou parcelas de leasing, uma hipoteca sobre o País que exige cada vez
divisas para remessas.
A conta de "serviços" está
ficando perigosamente alta e nela estão as remessas de juros, dividendos,
leasing e royalties. Em 2016, todo o saldo da balança comercial, US$ 45
bilhões, não foi suficiente para pagar as remessas, ainda faltaram US$ 24
bilhões, que foram cobertos pelas entradas do investimento direto, mas isso
significa vender a casa para pagar o almoço. O IDP entra e forma base de novas
remessas futuras e o valor dele é gasto para sempre, estamos trocando ativos do
País por despesas que nunca mais voltam, quando entra o IDP tudo é festa, mas
depois ele serve de motor para novas remessas eternas.
Ao contrário do período pré-Plano Real, o
BC não informa ao público, embora sejam números disponíveis para especialistas,
qual é o passivo externo, qual é a dívida pública externa e a dívida privada
externa do País. NINGUÉM COMENTA esses dados cruciais, muito mais importantes
do que quanto gasta turista no exterior no mês, dado de escassa relevância a
não ser para mostrar que o dólar está barato demais e está sendo esbanjado nos
outlets de Miami.
O que importa são DADOS MACRO do passivo
externo, que ninguém comenta e são esses os dados importantes e não números
pontuais mensais disto ou daquilo.
A dívida externa pública, que inclui
Petrobras, BNDES e Banco do Brasil e as demais estatais, mesmo sem garantia
formal, a dívida externa de estatal implica em responsabilidade implícita da
União, a dívida pública privada também afeta o risco País pois se um grande
banco ou corporação privada deixa de pagar um compromisso de imediato acende
luz vermelha sobre todo o risco País, hoje a DÍVIDA EXTERNA PRIVADA é
considerável, são esses os dados cruciais da economia MACRO e não o que os
brazucas gastam em Miami em Janeiro ou o que os estrangeiros gastam aqui no
Carnaval, temas muito comentados em toda a mídia como se isso fosse de enorme
importância.
E o exemplo dos dólares da China para
pagar a compra da CPFL e da ENEL italiana para pagar a compra da CELG, entradas
recentes, não geram um único emprego no Brasil, ao contrário, quem compra
geralmente faz um enxugamento no quadro do pessoal. Mais ainda, essas compras
exigirão remessas já em 2018, um ativo que até então não gerava gasto externo
de divisas, agora passa a ser fonte de remessa.
Tampouco se informa o RETORNO de capital
investido, só o que entra, pode até haver déficit na conta de investimentos do
exterior, o que não se explicita para chamar a atenção apenas para a entrada e
não para a saída de capital com o intuito de demonstrar a "confiança na
política econômica", operação que conta com toda a colaboração da mídia
apoiadora da máxima "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente
esconde". Sem essa visão global não vale nada dizer o que entrou em
Janeiro.
Para mostrar a montanha de equívocos que
se informa a população, a agência Fitch, uma das três agências globais de
rating, já anunciou que pode rebaixar a nota do Brasil, que já está dois graus
abaixo do nível de investimento, "porque a economia não cresce". Isso
é revelador! E não adianta desqualificar as agências, quando deram grau de
investimento se soltaram rojões na Av. Faria Lima em SP e na Rua Dias Ferreira
no Leblon, catedrais dos "economistas de mercado" e suas gestoras de
fortunas, a "turma da bolsa".
A Standard & Poor´s também mantém
o viés negativo, não se impressionam com resultados mensais. Com todas as
vitórias cantadas em prosa e verso pela mídia mistificadora como porta voz da
equipe econômica, as agências não se deixam enganar, "onde está o
crescimento?" As agências têm um olhar de longo prazo sobre a estabilidade
do País, uma mega recessão com enorme desemprego mostra instabilidade política
e social futura ou o BC acha que só tratar da inflação é suficiente?
Todo esse foco no "investidor
estrangeiro" quase 100% de fundos e não de empresas da produção é um vício
inacreditável da mídia brasileira. Porque não se interessam no crescimento ou
fechamento das milhares de médias empresas do interior, são essas que realmente
empregam gente, que geram riqueza sólida, que dão lastro à economia e que podem
tirar o pais da recessão, não é o fundo BlackRock e nem o fundo Templeton,
esses compram ações velhas que acham baratas visando vendê-las daqui a seis
meses e levar o lucro de volta, não criam um mísero emprego e nem tem essa
vocação.
Boa parte do investimento que entra é
especulativo, a economia não cresce, o PIB de 2016 vai registrar queda de,
4,3%, em cima de 3,8% de 2015, não adianta as vanglórias do BC, podem enganar
os daqui, mas não engana os de fora. O Brasil não cresce por causa da política
recessiva do BC, para as agências de rating não adianta nada "a inflação
no centro da meta", se outros fatores centrais da economia indicam
problemas de maior dificuldade de solução com a retração do PIB e o altíssimo
desemprego, maior entre todos os países BRIC.
O que vale é crescimento com ou sem
inflação, esse é o valor real do mundo real, fora das planilhas, é o crescimento
que atrai capital ótimo e dinamizador, aliado do País a longo prazo.
O investidor que secularmente fez o
crescimento brasileiro não é o estrangeiro. O Brasil se desenvolveu realmente
de 1930 até 1980, 50 anos, quando o crescimento médio foi o maior do mundo
entre todos os países. O Brasil cresceu pelo seus empreendedores que
construíram fábricas, mesmo com inflação e déficits enormes do orçamento
federal, nasceram linhas de ônibus interestaduais, fazendas de café, cana,
soja, gado, armazéns beneficiadores de grãos, empresas engarrafadoras de gás de
cozinha, fábricas de doces, de bebidas, de massas, retíficas de motores,
indústrias mecânicas, de material elétrico, fiação e tecelagem de algodão, de
seda, cerâmicas, olarias, fábricas de enxadas e arados, sem falar do imenso
parque automotivo, que inclui tratores, do parque de bens de capital, foi daí
que surgiu o crescimento e os empregos do Brasil, de suas grandes empreiteiras
que fizeram o maior parque hidroelétrico do mundo, da Petrobras em expansão
permanente de 1955 a 1990.
O capital estrangeiro foi sempre subsidiário,
importante, mas nunca o eixo da economia brasileira, me referindo ao capital de
produção, o capital financeiro, esse que a mídia gosta, jamais foi bom para o
Brasil, aliás foi um aspirador de dinheiro para fora do Brasil.
Hoje a mídia econômica se esfrega nesse
"investidor estrangeiro", roupa dentro da qual se disfarçam também
muitos brasileiros que usam pessoas jurídicas de paraísos fiscais para ter
maior proteção para seu capital aqui, portanto parte desse "investidor
estrangeiro" é brasileiro disfarçado, um fato perfeitamente conhecido do
mercado mas que a mídia tradicional jamais menciona, talvez porque alguns de
seus personagens se enquadram no modelo.
A coluna econômica da grande imprensa só
terá algum valor quando seus comentaristas começarem a falar de tijolos e
azulejos, de produção de leite, de venda de pneus e de sapatos, esquecendo a
miséria intelectual de "câmbio e bolsa" que vale tanto como palpite
de jogo de futebol de 3ª divisão e principalmente quando deixarem de ser meras
correias de transmissão de mensagens do boletim Focus e de suas "bocas de
varal", os "economistas de mercado" sempre à disposição para
entrevistas, do meio dia à meia noite, repetindo os mesmos bordões acríticos e
dentro de uma cartilha ensaiada.
Uma nova cruzada do Ministro da Fazenda
para se viabilizar como candidato à Presidência em 2018 espalha a noção de que
"a recessão acabou" (entrevista de 22/02/2017 na Globonews) o que é
um delírio, uma recessão de três anos não acaba em um mês, faltou avisar as 12
milhões de famílias dos desempregados que já podem ir correndo fazer compras de
novas Tvs. Uma recessão acaba quando o desemprego cai de 12% para 5% e não há
sinal algum de que isso esteja ocorrendo, MERCADO FINANCEIRO não é balizador de
começo ou fim de recessão e é esse o único que o Ministro da Fazenda conhece,
mas parece que o Ministro está conseguindo convencer alguns jornalistas de que
sua fantasia é real, mesmo com os índices de popularidade do Governo em níveis
baixíssimos.
O debate de economia no Brasil precisa
sair dos blogs corajosos e entrar na mídia tradicional, economia é hoje o
fenômeno mais importante da vida da população que tem o direito de ser melhor
informada sobre a realidade e não ouvir narrativas montadas sobre o nada.
O psicanalista das massas – por Andrea Dip (Publica)
Pouco a pouco, as lonas
pretas vão se abrindo sobre as estruturas de bambu e ferro, formando as tendas
que passam a abrigar colchões, cadeiras e um fogão. Pessoas que saem do
trabalho reduzem a velocidade dos passos, curiosas para saber o que interrompe
o trânsito na movimentada esquina da avenida Paulista com a rua Augusta – no
coração de São Paulo – naquele fim de tarde de 15 de fevereiro. No pequeno
carro de som, Chico Buarque e Racionais MC’s convivem com funks conhecidos em
versão de luta – “A militância me deu onda”. A trilha anima cerca de 20 mil
pessoas que saíram caminhando do largo da Batata ou da praça da República,
debaixo do sol forte, e agora ocupam a calçada em frente ao escritório paulista
da Presidência da República. A principal reivindicação é a retomada da faixa 1
do programa federal Minha Casa Minha Vida para famílias com renda de até R$
1.800 por mês, mas eles também gritam “fora, Temer” e protestam contra as
mudanças nas reformas trabalhista e da Previdência.
À frente do ato, está o
coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme
Boulos, que sobe e desce do carro de som, intercalando palavras de ordem no
microfone com negociações com a PM. Quando está no chão, o líder conversa com
militantes que conhece pelo nome, provenientes de caravanas vindas de ocupações
de toda a cidade. Cumprimenta, bate um papo rápido, dá instruções. Quando está
no alto, imposta a voz e se dirige à multidão na primeira pessoa do plural:
“Para todos aqueles que desacreditaram da nossa luta, para o sr. Michel Temer,
para todos aqueles que estão incomodados, o nosso recado é direto e reto: daqui
não arredamos pé até ter nossa conquista nas mãos. Não tem arrego: ou negocia,
ou não vai ter sossego”.
Boulos tem voz de comando,
mas suja os sapatos visitando uma a uma as ocupações do movimento. Um estilo
tradicional de líder de movimento social que quase não se vê mais, como observa
a doutora em ciências sociais e pesquisadora Esther Solano: “Nós vivemos um
momento de vácuo de lideranças de esquerda. Nesse contexto, acredito que o
Guilherme Boulos é a maior liderança de movimentos sociais agora. Porque faz
uma ponte entre os movimentos sociais e o institucional, em um momento em que
não há mais essa conexão que era tão presente nos primeiros anos do governo
Lula”.
Também de Frei Betto,
experimentado na mobilização popular, o homem tem a admiração. E a bênção:
“Guilherme Boulos é uma das mais jovens e promissoras lideranças de movimentos
sociais brasileiros. Dotado de boa formação ética e intelectual, fez uma opção
radical, evangélica, pelos mais pobres, concentrando sua atividade no segmento
da população sem acesso ao direito de moradia. Modesto, despojado, inteligente,
Boulos pôs a sua vida a serviço dos direitos humanos fundamentais definidos
pelo papa Francisco, os três T: teto, terra e trabalho”, diz.
O fato é que Boulos tem
conseguido chamar atenção para a causa que abraçou. A ocupação dos sem-teto na
Paulista segue firme há mais de uma semana e aumenta a cada dia com a
participação de outros movimentos sociais, shows de cantores famosos, aulas
públicas. O caldo está em ponto de fervura e não só em São Paulo, mas por todo
o país, em lugares onde a mídia por vezes não chega. Prestes a completar 20
anos, o MTST duplicou de tamanho nos últimos quatro anos e hoje conta com cerca
de 35 mil famílias em todo o país e uma crescente lista de espera para
participar das ocupações. Em 2016, a Câmara dos Deputados teve de reconhecer
sua importância – contra muitos gostos – e o homenageou com a Medalha do Mérito
Legislativo. Também ganhou uma coluna em um dos principais jornais do país, a
Folha de S.Paulo.
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Negociação com a PM na manifestação de 15 de fevereiro, que deu início à ocupação na Avenida Paulista (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública) |
Sem romance
“Tudo bem. Eu te dou a
entrevista e topo que faça meu perfil, mas com a condição de que não entre
muito na minha vida pessoal. Não vou falar ‘meus gostos’, essas coisas. E sem
romancear demais. Vamos conversar e ver no que dá”, acedeu finalmente um desconfiado
Guilherme Boulos, após alguns dias de conversas e negociações por telefone do
que seria esse perfil, mais focado em sua trajetória de luta – que considera a
parte interessante de sua vida.
Para o público, o homem,
hoje com 34 anos, nasce aos 15, quando, vindo de uma família de classe média de
São Paulo, filho de pais médicos professores da USP, se envolveu com o
movimento estudantil da União da Juventude Comunista, conheceu o MST e depois o
MTST, seu destino. Apaixonou-se pela legitimidade da bandeira. Diz: “A luta por
moradia no Brasil foi certamente a principal luta urbana, para além do
movimento sindical. Nós tivemos um processo de formação das cidades que nunca
assegurou esse direito. E que isso continue a ser uma questão em 2017 não é
qualquer coisa. O Brasil tem quase 90% da população urbana, está entre as dez
economias do mundo, é um país com uma indústria importante. Que as pessoas
tenham que se organizar pra lutar pra ter um teto, para ter o direito básico de
morar, é uma tragédia. Isso faz da luta por moradia algo muito legítimo, dá uma
potência muito significativa, como poucas outras. Esse conjunto de elementos me
levou a ver uma importância e me aproximar do MTST”.
A chuva que cai forte sem
trégua na lona da barraca de madeira na ocupação “Povo Sem Medo”, na divisa de
São Paulo com Embu das Artes, nos obriga a falar mais alto. Foi ali que ele
quis marcar nossa conversa. As roupas molhadas e cheias do barro da subida do
morro onde 1.300 pessoas reivindicam um pedaço de chão são uma pequena amostra
dos ossos desse ofício ao qual ele se dedica com razão e emoção desde 2002. E
uma prova de resistência necessária para os que pretendem conhecer Boulos: é na
peregrinação pelas ocupações que se revela o sentido de sua liderança.
“O Guilherme é o nosso
norte, é uma referência pra periferia. Porque ele traz para as pessoas a
perspectiva de alcançar seus direitos. Na sua fala informativa, na forma de
liderar. E não é uma liderança que ele queira, as pessoas entregam pra ele. Ele
pra nós é sem dúvida nosso ponto de referência maior”, me disse a militante
Jussara Basso, na Nova Palestina, enquanto caminhamos pela ocupação que é uma
das mais antigas de São Paulo, com mais de três anos, e provavelmente é a maior
da América Latina, com 4 mil famílias. Maria, moradora da Nova Palestina, que
vive com o marido e três filhos, acrescenta: “Ele é um cara que enfia o pé no
barro pra andar junto com a gente. Não é porque é liderança que não chega aqui,
não quer saber dos acampados. Eu aprendi muito com ele, com a forma dele lutar.
Ele não precisava estar lutando, mas faz isso pelo próximo. Eu aprendi com ele
e repito que, enquanto estiver sem teto na rua, eu vou estar lutando. Mesmo
quando eu conseguir minha moradia. Meus filhos também”.
Boulos é alvo de adoração
mas também de ódio. O rapaz que deixou a casa de classe média aos 20 anos para
morar em uma ocupação do MTST (A Carlos Lamarca, em Osasco) incomoda muita
gente. A militância nunca impediu seus estudos, ele é formado em filosofia e,
embora poucos saibam, é psicanalista. Casado com uma militante, dedica seu
conhecimento ao movimento social, desafiando a especulação imobiliária que
empurra a população pobre para as bordas da cidade, agindo na contramão do que
se espera dos mais aquinhoados e despertando mais ressentimento. O conhecimento
transferido ao movimento social também é uma arma que assusta.
Guilherme Boulos foi
portador de uma novidade no movimento de moradia: a análise de conjuntura como
prática semanal. “Isso sem dúvida permite o crescimento e a formação política
dos quadros do MTST. Essa prática é comum a todos os movimentos que tiveram
origem no MST, como o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens], Levante
Popular da Juventude, a Consulta Popular”, explica a urbanista, ativista e
professora da Faculdade de Arquitetura da USP Ermínia Maricato. “Grande parte
dos movimentos de moradia, na luta, que é natural, por resultados, deu
prioridade à ação institucional quando não claramente clientelista. O MTST foge
dessa limitação e por isso tem inovado bastante. Destaque-se ainda a coragem de
Boulos e seus seguidores, que é notável”, diz.
Apesar do bombardeio de
opiniões, Boulos se mantém sereno. Sua maior preocupação, diz, não é com a
própria pele: “Se eu ouvir a Jovem Pan, vou sair convencido de que sou um
calhorda e não presto! Os blogs da Veja, os editoriais do Estadão… Eu
coleciono!”, brinca. “Há um processo de desmoralização que não é só contra mim,
é sobre as lideranças de movimentos sociais. Eu não deixo de dormir por isso.
Diria até que num certo sentido ser atacado por tipos como esses é um atestado
de caminho correto. Mas uma coisa é as pessoas mexerem com você, te atacarem.
Alguém que se dispõe a estar na linha de frente de um movimento social tem que
se preparar psicologicamente pra esse tipo de ataque. Outra coisa é começarem a
atacar sua família, sua casa. Aí entra num patamar mais complicado. É
importante se preservar.”
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“Ele é um cara que enfia o pé no barro pra andar junto com a gente”, diz a militante Maria sobre Boulos (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública) |
O que não o impede de ser,
além de xingado, preso. A última detenção foi no 17 de janeiro passado, quando
participava das negociações durante uma reintegração de posse extremamente
violenta de um terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. A
ocupação nem era do MTST, ele foi chamado para ajudar na negociação. A prisão
foi política?, pergunto. Ele acena afirmativamente com a cabeça. “Não foi a
minha primeira prisão, já fui preso algumas vezes, quase todas em desocupações.
A penúltima foi na do Pinheirinho, respondo processo até hoje.” Responde a
quantos processos? “Respondo a alguns”, desconversa. E segue adiante: “Você tem
um sistema de criminalização dos movimentos sociais no país que é feito
historicamente e que, no último período, tem se acentuado. Qual a melhor
maneira de criminalizar? Você desmoralizar primeiro. Por exemplo, o que estão
fazendo com o Lula, com a figura dele. Desumaniza, desmoraliza, depois se
prenderem, se matarem, vai ter aplauso. O processo de desmoralização do
movimento social está a todo vapor. ‘Movimento social é vagabundo’, ‘movimento
social quer boquinha’, ‘movimento social quer favores e privilégios’. A
criminalização nasce de uma desmoralização brutal que vem principalmente da
mídia. Porque, quando você fala ‘esse cara não presta’, se ele for linchado em
praça pública, você não está nem aí, ele merece. A criminalização pode ser
judicial, pode ser física, prender, espancar, matar. E pode vir com processos
judiciais. Aí não podemos deixar de mencionar a lei do terrorismo aprovada pela
Dilma. A biografia dela vai estar manchada por isso. ‘Ah, excluiu movimento
social, tirou as piores partes’, mas, meu amigo, no fim das contas, a caneta
que vale é a do promotor, a do delegado. E qual é a mentalidade de delegado e
promotor nesse país?”, questiona.
E conta uma história de
arrepiar mesmo para quem conhece a violência policial constante nas ocupações.
“Pouca gente sabe disso, mas a desocupação mais violenta que eu já presenciei
ocorreu em 2004 ou 2003 em Osasco. As pessoas moravam lá há um ano e meio mais
ou menos, e a polícia chegou sem aviso prévio, entrou, arrancou as pessoas dos
barracos na porrada. Me lembro de uma cena que me marcou muito, que foi uma
senhora bem forte, bem grande, que não queria sair da casa dela. E foram cinco
policiais, pegaram ela, derrubaram no meio da lama. Estava uma chuva como a de
hoje. Deram uma gravata nela. E um menino, o filho dela de 12 anos, gritando
‘mãe, mãe’. Pegaram o menino e algemaram. Assim começou essa desocupação. Ela
terminou com a polícia juntando todos os pertences das pessoas, botando
gasolina e queimando. Foi brutal. As pessoas saíram, não tinham pra onde ir,
tentei fazer uma assembleia, pra tentar organizar as pessoas pra sair. Quando
eu comecei a reunião, a polícia jogou uma bomba no meio da reunião. Eu fui
preso nesse dia, outros dirigentes foram presos. As pessoas não tinham pra onde
ir. Tentamos por as pessoas em um ônibus e ir pra uma outra área, mas a polícia
foi pra essa outra área, pegou as pessoas, colocou em caminhões-baú, atravessou
a divisa de Osasco, deixou as pessoas na lateral da Marginal Pinheiros. Largou
lá. Hoje, depois de dez anos, as pessoas que continuaram conseguiram suas
casas. Mas aquilo foi… Eu nunca tinha visto uma barbaridade daquelas”, conclui
com a voz embargada.
Boulos não é alinhado ao
PT nem poupa críticas a Dilma Rousseff, mas se destacou como uma das figuras
mais proeminentes nos protestos contra o impeachment e depois nos atos “Fora
Temer”, quando ficou conhecido para além da sua atuação no MTST. Para ele, o
Brasil vive agora um “golpe continuado”. O militante, porém, não acredita que
foram as manifestações do lado contrário, pedindo o impeachment, que derrubaram
a presidente. “Sim, as manifestações contra a Dilma foram maiores [dos que as
contrárias ao impeachment] por uma série de razões, até porque com o apoio da
Globo fica tudo mais fácil. Mas eu não acredito que as manifestações foram
decisivas. Foram um fator, mas você tinha um bloco de poder muito forte, que
pegava a elite brasileira mais atrasada, os ranços da casa-grande, que soube
trabalhar isso muito bem na classe média urbana, o grande poder econômico, o
Judiciário, o escroque do Eduardo Cunha na presidência da Câmara. Tudo isso
levou à vitória do golpe. Foi a vitória de um programa de rapinagem nacional. O
tripé do governo Temer, que é a emenda constitucional e o teto de gastos, que é
uma “desconstituinte” que liquida com a capacidade de investimento social do
Estado; a reforma da Previdência que querem aprovar – e quem mora nesse
acampamento não vai se aposentar, já que a expectativa de vida na maioria da
periferia de São Paulo não ultrapassa os 65 anos – e a reforma trabalhista, que
é de uma ousadia inacreditável. Nós tivemos 21 anos de ditadura militar e nem
os milicos ousaram mexer na CLT. Nós entramos na era do escárnio, não há mais a
maior pretensão de esconder ou manter as aparências. Essa etapa já foi. Se
deixar essa galera até 2018, vão revogar a Lei Áurea”, diz.
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Em janeiro, Boulos foi detido durante reintegração de posse na zona leste de São Paulo. Para ele, a ação foi política (Foto: José Cícero da Silva) |
Sobre o papel da esquerda,
que anda calada, acrescenta: “A esquerda organizada no Brasil está pagando o
preço do que deixou de fazer nos últimos 20 anos. Se dependesse de qualquer
dirigente de movimento social, esse governo tinha sido arrancado do Planalto
pelo colarinho. O problema é o seguinte: a esquerda perdeu no último período
base social, capilaridade social. Não basta você ter compreensão da gravidade
do que está acontecendo, não basta ter ideias boas do que deve acontecer, ter
um bom programa pra enfrentar o golpe, uma denúncia convincente. Você precisa
ter força social, você precisa ter gente na rua. A história é movida por isso,
não pelas boas ideias. E a esquerda deixou de fazer trabalho de base. Por que o
PT conseguiu gerar um caldo social, expressar e representar um caldo social a
ponto de construir um fenômeno político como construiu independente do que se
deu depois? Porque estava ali, nas comunidades eclesiais de base, no
sindicalismo, nas ocupações urbanas, nas ocupações rurais, uma militância
pisando no barro, subindo os morros, dialogando com o povo, ouvindo o povo”.
Esquerda lacaniana
Quando fala em ouvir o
povo, Boulos não se refere apenas ao convívio por meio da militância. Em 2002,
na Argentina, enquanto acompanhava o pós-Argentinazo – grande levante popular
causado por uma crise política, econômica, social e institucional que derrubou
cinco presidentes –, ele se aproximou do movimento Piquetero e participou de
grupos de reflexão com militantes que haviam sido marcados por uma tragédia que
ficou conhecida como Massacre de Avellaneda, quando dois jovens foram
assassinados pela polícia da província de Buenos Aires enquanto participavam de
um protesto contra o fechamento de uma ponte ao sul da capital federal. O
massacre, que deixou 33 feridos, foi televisionado e mostrou os policiais
arrastando os corpos dos jovens pelo chão. “Agora imagina as feridas que ficaram,
para além das feridas físicas, nas pessoas que participaram disso”, questiona.
“Nestes grupos de
reflexão, que aconteciam em bairros da periferia da Argentina, psicanalistas
trabalhavam os aspectos subjetivos e a elaboração desses efeitos”, conta.
“Aquilo foi extraordinário. Ver o que esse encontro da psicanálise com a
periferia é capaz de gerar. Ali tinha ao mesmo tempo formação de sujeito, um
elemento de elaboração de sofrimento, empoderamento. Tudo isso me seduziu e me
levou a ter um interesse maior pela psicanálise”, explica com empolgação.
“Depois fui estudar, me formei em uma escola lacaniana e hoje dou aula em um
curso de especialização que tem foco na psicanálise, mas não clinico, não tenho
consultório. A psicanálise é muito elitizada hoje no Brasil, infelizmente.”
O conhecimento da
psicanálise enriqueceu a militância. Seguindo uma tendência abraçada por novos
filósofos e pensadores como Vladimir Safatle e o esloveno Slavoj Zizek, Boulos
diz que começou a pensar o movimento social sob um novo viés, não só como massa
em movimento, mas a partir do vínculo, do que aproxima as pessoas. “Eu concluí
há pouco um mestrado com esse tema. Como em ocupações de terra as pessoas
estabelecem vínculos que permitem que elas deem saltos subjetivos, é muito
frequente você ouvir relatos de pessoas que estavam em sofrimento psíquico
atroz e que, vindo para as ocupações, criaram um círculo de relações sociais,
um espaço de reconhecimento, um resgate de autoestima de gente que estava
pisada, humilhada por essa máquina de moer carne que é a vida urbana. Hoje as
pessoas estão em multidão, mas sozinhas. E as histórias familiares são
dramáticas para as pessoas pobres no país. São crivadas de sofrimento, às vezes
de abusos, as das mulheres em especial. E claro que a ocupação não é o paraíso
na terra, mas é um lugar em que se pode construir um espaço de convivência.
Isso tem muito a ver com a psicanálise.”
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“Entramos na era do escárnio, não há mais a maior pretensão de esconder ou manter as aparências”, afirma Boulos (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública) |
Para o psicanalista e
professor do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker, Boulos é “o que
se pode chamar de representante brasileiro da esquerda lacaniana”. Ele explica
que muitas tendências da esquerda encontraram em Lacan uma espécie de renovador
da crítica da ideologia e um teórico potente das relações de poder. “Ao mesmo
tempo a teorização do laço social entre psicanalistas feita por Lacan oferece
subsídios que inspiram uma reflexão crítica sobre o funcionamento do poder em
movimentos sociais.”
O entusiasmo com a
psicanálise é a face menos conhecida do homem que insiste em se resguardar.
Mais sobre a vida pessoal dele é difícil arrancar. Temos um trato, afinal.
Entre raios, trovões e a chuva que não arreda naquela casinha de madeira, o
militante/professor/psicanalista/filósofo prefere falar de futuro. Do nosso
futuro: “Se o Temer ficar até 2018 e não houver reação popular, a gente vai ver
a dilapidação do que restou. Ou vamos por um caminho que pode empurrar o país
pra convulsão social. Não descarte a possibilidade de vermos algo que não
acontece por aqui desde os anos de 1990, que são os saques, o povo saqueando.
Porque grande parte da população assistiu o golpe pela TV por entender que
aquilo era uma briga entre partidos políticos. E ela pode fazer diferença no
jogo e se enxergar como protagonista com o avanço brutal do desemprego, o
arrocho salarial, a iminência de colapso dos serviços públicos. No ano passado,
1,7 milhão de pessoas saíram dos convênios médicos e foram para o SUS, no
momento em que o SUS está com contingenciamento de recursos. Isso é explosivo,
vai dar colapso. Falência dos estados, polícia sem receber, ataque aos direitos
trabalhistas, à aposentadoria. A chance de isso gerar um caldo de reação
popular espontânea, para além dos movimentos sociais, está dada e é real. Eu
não duvido de que ainda vamos presenciar uma explosão de gente nas ruas ainda
esse ano.”
Se Boulos estiver certo, o
governo que pise ligeiro. Como diz o bordão, tantas vezes repetido nas
manifestações populares, “quem não pode com formiga não atiça o formigueiro”.
*Colaborou Guilherme
Peters
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
O desmonte do Brasil avança a passos largos – por Roberto Amaral (ramaral.org)
A arrecadação federal
despenca, a indústria definha e o desemprego galopa, enquanto o governo Temer
se desfaz do patrimônio nacional
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Pedro Parente, presidente da Petrobras, já pode comemorar a queda de nossas reservas para o nível de 2001, após a venda de ativos e a contração dos investimentos em exploração e produção de óleo |
A cada dia que passa, a cada medida que
adota, o governo Temer mais assume, agora sem rebuços, seu projeto mesquinho de
desestruturação do País, por meio do desmantelamento do Estado e da
desconstrução da economia nacional, a serviço de interesses internacionais e do
rentismo. A política recessiva, o neoliberalismo, o monetarismo arcaico não são
fins em si, mas instrumentos de que se vale o situacionismo para destruir o que
ainda sobrevive de projeto de desenvolvimento.
A arrecadação de tributos federais teve
uma queda de 3% em 2016, em comparação com 2015, e o declínio não foi maior
graças ao ingresso dos 46,8 bilhões de reais advindos da receita extra de
impostos e multas da repatriação de recursos ilegais de brasileiros no
exterior. Posta de lado essa receita, a queda sobe para 6%. Na comparação entre
dezembro de 2016 e dezembro de 2015, a queda foi de 1,19%. A retração no início
de 2017 superou 10%, mantendo a expectativa de contração no ano.
Dessa forma, a arrecadação cai pelo
terceiro ano consecutivo e retorna ao nível de 2010. As principais quedas se
dão entre os maiores empregadores de mão de obra, a saber, no comércio, na
construção e na indústria, cujo faturamento caiu 12,1% em comparação com o ano
passado.
E o ajuste fiscal?
Enquanto a receita míngua, crescem as
despesas. As contas do governo ficaram no vermelho pelo terceiro ano
consecutivo, com um déficit primário de 154,255 bilhões em 2016, o maior rombo
desde 1997, resultado do aumento de despesas na ordem de 7,2% em 2016 sobre
2015.
A estimativa de crescimento de 0,5% do PIB
foi revisada pelo Fundo Monetário Internacional para 0,2%, e pode ser ainda
menor, enquanto a dívida das famílias cai na proporção em que sobe o gasto com
seu pagamento. O crédito encolhe, o peso dos juros sobe de 41% (média de 2014)
para 48% (novembro de 2016) e a taxa média dos juros ao consumidor chegou a
71,9% no final do ano passado. A contração da economia até 2016 chegou a 9%.
Os reflexos nas vendas do comércio de
varejo são visíveis e imaginável é a queda das encomendas à indústria, com seu
rol de consequências que começa com o desemprego, crescente. Já chegou a 15% e
pode, até o final do ano, atingir 20%. Só no ano passado foram eliminados três
milhões de empregos com carteira assinada, o que significa três milhões de
famílias de trabalhadores no desespero.
Os Estados, já em crise, enfrentando
quedas crescentes de receita, são, ainda, apenados pela União com a cobrança de
uma dívida pelo menos discutível.
Na impossibilidade de privatizar de uma só
vez a Petrobras, o governo cuida de fragilizá-la ao limite de renunciar às
expectativas do Pré-sal, a maior descoberta de petróleo do planeta nos últimos
30 anos. Parte para a venda fatiada, na bacia das almas, de ativos
valiosíssimos de nossa maior empresa, como campos do Pré-sal e outros, de
gasodutos, da Liquigás, de sua indústria petroquímica e tudo isso por que o
projeto de destruição da estatal visa a reduzi-la à condição de mera produtora
de óleo bruto, o que pode ser levado a cabo em pouco tempo.
À irresponsável venda de ativos soma-se a
contração dos investimentos em exploração e produção de óleo, e assim o
senhor Pedro Parente, presidente da
estatal, já pode comemorar a queda de nossas reservas para o nível de 2001. A
atual direção da Petrobras, criminosamente, praticamente abandonou a atividade
de exploração (perfuração de novos poços para ampliar reservas), o que fará com
que, em pouco tempo, nosso mercado interno venha a ser atendido
majoritariamente pelas petroleiras estrangeiras.
Fica cada vez mais claro que o grande
objetivo é o desmonte do Brasil qual o conhecemos e a entrega de nosso
patrimônio, construído com tanto sacrifício e ao longo de tantos anos, a grupos
internacionais que avançam sobre todos os setores da economia brasileira,
principalmente nos setores vitais, da indústria de um modo geral, do comércio,
da educação e da saúde. Coerente com essa política verdadeiramente de terra
arrasada, o governo pretende entregar a empresas estrangeiras o controle do
tráfego aéreo nacional (o que comprometerá até a aviação militar e os
deslocamentos de nossas autoridades).
Pretende liberar a aquisição integral das
empresas brasileiras de aviação a empresas estrangeiras e a política de ‘céus
sem fronteiras’ que permitirá a empresas estrangeiras explorar a aviação
comercial doméstica, quando nossas empresas encolheram 5,47% no ano passado, o
pior desempenho desde 2003.
Às empresas estrangeiras é liberada a
captação de fundos públicos, o que contraria a lógica da atração de capitais
estrangeiros, pois, por suposto, viriam eles aumentar a nossa capacidade de
investir. Se nem mais capital têm de trazer, virão simplesmente abocanhar fatia
crescente do capital privado nacional, acelerando, com a ajuda governamental, a
desnacionalização de nossa economia. Pari
passu é autorizada a instalação de 21 Zonas de Processamento de Exportação
(ZPES) sem cobrança de contrapartidas, ao lado de concessões de serviços
públicos sem a exigência de conteúdo local.
Enquanto isso, segue o esforço da maioria
parlamentar, guiada pelo Planalto, visando à destruição da Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT), à perversa precarização do trabalho em meio à recessão
e ao desemprego, e a reforma da previdência que só cuida de prejudicar quem
mais dela depende, o assalariado.
O governo que assim comanda a economia
brasileira, permanentemente na corda bamba, sem credibilidade, carente de
legitimidade e apoio popular, cuida do dia a dia sem saber se terá amanhã, pois
pode e deve ser alcançado pelas delações dos executivos da Odebrecht,
recentemente homologadas pela presidente do STF.
Se salvar-se dessa ameaça, saída
improbabilíssima, o ainda presidente pode ter seu mandato cassado como
consequência da eventual impugnação pelo TSE das contas da campanha de 2014,
embora as chicanas jurídicas do ministro Gilmar Mendes, aquele que não disfarça
sua condição de militante partidário e, agora conselheiro do presidente que
mais tarde julgará, tenta ora desvincular as candidaturas Dilma-Temer, ora
prorrogar ao máximo o julgamento. Enseja ao presidente a renovação de duas ou
mais vagas no plenário, inclusive a substituição do relator, o que lhe daria
absoluto controle da Corte.
Festeja-se a homologação das delações, mas
é de lamentar a manutenção do sigilo, que só contribui para fortalecer
suspeições difusas que são utilizadas para toldar o ambiente já de si tenso
após tanta espera. O recurso ao sigilo, ademais, contraria o principio basilar
da transparência, segundo o qual a publicidade deve ser a regra e o sigilo a
exceção, e só tem servido para o ‘vazamento seletivo’ manipulado nas entranhas
dos inquéritos e seus agentes.
Pelo que se comenta em todos os bastidores
da política e dos templos da Justiça, a delação dos executivos e do principal
acionista da Odebrecht é grave demais, para os destinos da República e da Lava
Jato, pelos seus aspectos intrínsecos, civis e criminais. De igual modo é
importantíssima pelos suas evidentes implicações políticas e consequências
institucionais, para ser tratada às escondidas, abrindo espaço para suspeições.
A homologação e o sigilo foram anunciados
quando estávamos nas vésperas da eleição das mesas diretoras do Senado Federal
e da Câmara dos Deputados que definirá, ademais, a linha sucessória da
Presidência da República, podendo eleger futuros réus da Lava Jato.
O que está posto à toda evidência é que a
conjuntura aponta para uma crise político-institucional potencializada pela
crise econômico-social. Neste momento, os partidos precisam de nitidez
ideológica afirmada em sua fidelidade a princípios e programas.
Vencida pela reação sempre enérgica de sua
brava militância, a bancada do PT na Câmara tende a ficar onde deve e de onde
não pode sair, ou seja, na oposição ao governo títere. Precisa cumprir o
papel – se puder fazê-lo – de
aglutinador, sem veleidades hegemonistas, dos partidos de oposição (PDT, PCdoB,
Rede e PSol) num bloco parlamentar de resistência ao desmonte do Estado e da
economia nacional.
Do movimento social, sindicatos à frente,
a conjuntura exige capacidade de ação,
mobilização permanente, dando sustentação, impulso e vigor à oposição parlamentar. É hora de ampliar
nossos espaços e cuidar de alianças táticas – inclusive com o capital
produtivo, que os poucos vai descobrindo o erro que cometeu com a solidariedade
ao impeachment.
Em tais circunstâncias, a superação da
crise passa por entendimento que antecipe a eleição direta de novo Presidente
da República. Este sim, ungido pelo voto popular, e só nesta condição, terá
legitimidade para dar rumo ao País.
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