segunda-feira, 9 de junho de 2014

Fotografia - por B. Anthony Stewarth (National Geographic)

Picadinhas

Tem gente no facebook que é fake. Fakedói.
*
No meu tempo não tinha essa safadeza toda – disse minha avó, que tem 10 filhos.
*
Fluminense diz que adoção de Balotelli foi irregular e toma lugar da Itália na copa.
*
No meio desta palhaçada de “vai ter copa” e “não vai ter copa”, eu fico pensando: e a festa junina? Gente, festa junina tem que ter.
*
Olhei para aquela Gata e disse: Te desejo tudo de bom – inclusive eu.
*
Quem ganhará o pique-esconde, Edward Snowden ou Belchior?
*
Consegui comprar 10 ingressos pra Final da Copa. Podem começar a bajulação.
*
Em um universo paralelo, os gatos também postam fotos de humanos nas redes sociais.
*
O ser humano é tão complexo que consegue fazer guerra em nome de Deus e promover a paz em nome da Fifa.
*
Brasil é um país muito complexo: tem o complexo do Alemão, o complexo penitenciário de Bangu e o complexo de vira latas.
*
SP: Sistema de abastecimento de água padrão PIPA.
*
Manifestação por melhoras no transporte que depreda ônibus é como um protesto contra a fome que joga comida fora.
*
Passarinho criado em gaiola acha que voar é doença.
*
Massa: Correu como nunca e bateu como sempre.
*
Coletivo de aposentado: plateia do Silvio Santos.
*
Piada Pronta: "Gramado é o destino mais popular para fugir da Copa".
*
Interrompa meu sono que eu interrompo sua vida!
*
Todo mundo é contra alguma coisa. Eu sou a favor de tudo. Porque isso é contra ser contra.
*
Folha: SP – Bares de Higienópolis já preparam decoração da copa para eleitores infantis paulistas torcerem pelos EUA.
*
Programação da GLOBO para os próximos dias:

Neymar Rural
Bom dia Neymar
Neymar Esporte
Neymar Hoje
Vale a pena ver Neymar
Neymar notícias
*
As aparências enganam, é verdade. Mas a sua me dá um medo...
*
- Traz um café pra mim?
- Na xícara?
- Não, joga no chão e vem empurrando com o rodo.
*
Absurdo o Anelka não ser convocado pela França pra Copa, tá jogando muito no Atlético-MG!
*
Parem as rotativas! Capitão Thiago Silva define perfil de Felipão: "um cara muito doce".
*
Dormir o suficiente, boas notas, vida social. Você só pode escolher dois deles, é claro.
*
Não sei onde eu to indo, mas sei que eu to no meu caminho. (Raul Seixas)
*
Há esperanças! 
Folha: "Corinthians elogia torcedores por não depredar Itaquerão".
*
Não desanima não galera. Aproveita que já esta na fila e fica esperando abrir venda para a copa do mundo de 2018 na Rússia.
*
Para amenizar a fila, Fifa vai apresentar agora um talk-show com Fernanda Young entrevistando Geraldo Thomas e José Maria Eymael.
*
Por que não te calas? Até os elefantes festejam a renúncia de Juan Carlos.
*
A alegria da dupla Galvão Bueno e Patrícia Poeta com a Copa é mais artificial que uma perna de pau.
*
Aposto todos os meus livros de que muitos dos que estão no site da FIFA comprando ingressos, postavam "não vai ter copa" no Facebook há um mês.
*
Pra conseguir ingresso pra copa você tem que juntar 3 rótulos de Nescau é mandar para caixa postal 738376 SP. #ficaadica.
*
Poderia ser pior, imagina se a musiquinha de espera para comprar ingressos no site da FIFA fosse do Djavan...
*
Pelo jeito vou ter que vencer a promoção da Coca-Cola que te leva com tudo pago para todos os mundiais até você morrer.
*
Ivan Carlini merece os vereadores de Vila Velha, e os vereadores de Vila Velha merecem Ivan Carlini.
*
Max Filho foi visto em uma banca do Centro de Vila Velha trocando figurinhas da Copa. Isso significa que, se até o Max Filho esta a favor, é porque vai ter Copa mesmo.
*
Alô, José Sarney! V. Exa. não acha o rei Juan Carlos meio apressadinho demais?
*
Carga tributária brasileira fica na 32ª posição no mundo. Mas não éramos os primeiros?! Até nisso estamos ficando pra trás?!
*
Resposta: 
-Bomba nuclear
-Apocalipse Zumbi 
-Peste Negra
Pergunta:
O que pode ser pior que uma segunda-feira?
*
O Jornalismo na TV aberta tem um único objetivo: impedir o debate real e importante, tanto nacional quanto mundial.
*
"Uma erva natural não pode te prejudicar". Então esfrega urtiga no rabo pra ver se não te prejudica.
*
Sempre digo a verdade, mesmo quando minto. (Scarface)
*
Todos precisamos de alguma desculpa para continuar respirando. (Ferréz  - Deus foi almoçar).
*
Sondada para vice de Aécio, ex-conselheira da OGX, Ellen Gracie é denunciada por crime contra o sistema financeiro nacional junto com Malan.
*
Homens se comunicam insultando uns aos outros, mas não é verdade. Mulheres se comunicam elogiando umas as outras, mas também não é verdade.
*
Quando você esta feliz, aprecia a música, mas quando esta triste, entende a letra.
*
Da serie curiosidades: Suas lembranças não são sempre confiáveis. As coisas de que nos lembramos são frequentemente alteradas por nossas emoções.
*
Questões relevantes no noticiário nacional: "Neymar encontra Bruna Marquezine"; "Filho de Marcelo dá show"; "Parreira leva netos a treino".
*
Lance: O único jeito do Flamengo não levar mais gol é se retirando de campo.
*
Esta aconteceu numa padaria na Mata da Praia no final da tarde de quarta passada, com um marido, ao telefone, tentando justificar a ausência de casa. “Amor, não cheguei ainda porque está tudo engarrafado com a chegada da seleção da Austrália” (o time só chegou perto das 21h).
*
No Masp, mais um protesto em vão contra a Copa reúne 50 pessoas. A Folha ficou desolada.
*
É impressão minha ou Noé exagerou no número de antas que colocou na arca?
*
Verdade que o Carioca 2015 vai ser disputado entre abril e dezembro?
*
O processo de galvãobuenização do Luís Roberto é irreversível.
*
Wanderlei Silva está fugindo do UFC mais do que o Fluminense foge da série B...
*
O alto Q.I do Roger é um alto Quociente de Ignorância.
*
Eu falo para um monte de amigos que essa rivalidade Brasil x Argentina é inventada pela voz oficial do futebol brasileiro e ninguém acredita.
*
Estadão: Sabesp não investe porque tem que mandar dividendos aos acionistas estrangeiros. Que não querem saber se em SP falta água ou não.
*
Serra mandou jornalista amigo levantar a questão do pó nas centenárias páginas do Estadão. E Aécio põe a culpa no "submundo da web". Pode isso, Arnaldo?
*
Folha: Em pior cenário, água do Cantareira pode acabar em outubro. Em melhor cenário, em cinco meses.
*
O Globo: Eduardo Campos busca apoio da classe artística e de Marina Silva.
*
Editor chega à redação com dois baldes de gelo: "O que temos pra esfriar hoje sobre o Cantareira?".
*
A CNBB não gosta da Copa, mas o Francisco gosta. Ué?!
*
Taxista: "a Dilma não manda nada, quem manda é o Lula e ela obedece!" 
Eu: "antes eram o ACM e o FMI que mandavam e o FHC obedecia. De certa forma, progredimos”.
*
Eu sou tão fácil, mas tão fácil, que o Vasco troca dez passes CERTOS e eu já fico assanhado.
*
No fundo mesmo eu só desejo a felicidade de todo mundo. Gente feliz não enche o saco!
*
Recordista de rejeição, FHC vai receber convite do PSDB pra dar outra volta ao mundo durante a campanha eleitoral.
*
Quarenta e quatro por cento não salvam Alckmin de si próprio.
*
Eduardo e Marina formam um casal perfeito: quando um chega o outro sai.
*
A reivindicação dos metroviários que fez Alckmin perder estribeiras, volante, tudo: combate à corrupção, com demissão e confisco dos bens e cadeia para todos os corruptos e corruptores envolvidos nas denúncias de cartel no Metrô.
*
Jair Bolsonaro é Aécio desde criancinha.
*
Manuel Cunha Pinto, diz que Alckmin vai pedir licença à Alstom e ao Robson Marinho pra liberar a catraca.
*
Marina está ficando meio sem ambiente no PSB.
*
Hierarquia da notícia é isso: Folha reserva um "pirulito" no Cotidiano para informar que Cantareira pode secar até outubro.
*
Rappa puxa vaia a Dilma e ganha contrato da Natura. Uma mão lava a outra. E as duas, a bunda.
*
Pensar demais apodrece a ação. (Roberto Freire, psicanalista)
*
Como é que Fernando Barros e Silva foi se comportar como jornalista em pleno Roda Viva?!
*
A Copa no Brasil tem de cara uma vantagem sobre a da África do Sul: a ausência de vuvuzelas.
*
A força do hábito: Folha admite em manchete do caderno da Copa que o Itaquerão melhorou, mas...
*
Quando um candidato precisa dizer que não vai acabar com os direitos trabalhistas, como Aécio hoje no Estadão, é porque vai acabar com eles.
*
Andréa Neves preparou um estoque de lenços umedecidos para limpar a baba dos entrevistadores no beija mão de Aécio no Roda Viva.
*
Folha convoca Uri Geller pra entortar garfos, facas e os números do IBGE.
*
"Netos? Melhor não tê-los sem sabê-los." (Miguel Arraes)
*
Chefe da junta militar que assumiu o governo na Tailândia afirma que o país terá eleições em 15 meses ou 15 anos.
*
Todo mundo falando do avanço dos extremistas no novo Parlamento Europeu, mas quem decide mesmo na UE são os oito diretores do Banco Central, que não têm cara.
*
O que você viveu ninguém rouba. (Gabriel García Márquez)
*
Aécio Neves ocupou uma diretoria da Caixa Econômica Federal no governo José Sarney, lembra a Piauí. Não está na revista que seu antecessor era Jorge Murad, que disse ao passar o cargo: "Parece pouco, mas é uma maravilha". Ali começou a carreira política do desafortunado neto de Tancredo Neves.
*
O redator põe o ponto final no texto em que a Folha informa que a falta d'água em São Paulo controlou a inflação, e dá uma sonora gargalhada.
*
Galvão Bueno ameaça com um berro eterno: "Tenho contrato até 2019".
*
Repara bem no que não digo. (Paulo Leminski)
*
É tão fácil falar de saudade, eu mesmo falo o tempo todo. Difícil é bater na porta e dizer que não deu pra esperar. (Bruno Fontes)
*
A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil ser felizes é porque sempre julgam o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será. (Marcel Pagnol)
*
Recebi muitas cartas de pessoas que diziam que meus livros salvaram suas vidas. Mas não escrevi para isso, escrevi para salvar a minha própria vida. (Charles Bukowski)
*
Fiquei de cama. Peguei um amor fortíssimo. (Sinhá)
*
Amor ao próximo é a única religião em que se deveria aceitar fanáticos. (Sérgio Vaz)
*
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.
(Paulo Leminski)
*
O homem é uma fêmea imperfeita. (Elizabeth Gould Davis)
*
Não me acostumo com esse mundo de coisas caras, pessoas baratas, e sentimentos em liquidação. (Ita Portugal)
*
O discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. (Roland Barthes)
*
Um povo ignorante é um instrumento cego de sua própria destruição. (Simon Bolívar)
*
By Zombozo Kropotkin e Palmério Dória, com adicionais.

Ilustração - por Anna Dittmann (Site - homônimo)

Imprensa e jornalismo: nada a ver – por Luciano Martins Costa (Observatório da Imprensa)

     Por mais arriscado que seja fazer diagnósticos em situações de alta complexidade, pode-se afirmar que o motor da sucessão de tumultos que assola o Brasil desde o ano passado é a desinformação.

     Já se afirmou aqui que pior do que a mentira é a meia-verdade, e pode-se comprovar essa assertiva com a observação do processo pelo qual a imprensa brasileira tem contribuído para a construção do mau humor coletivo que vai se espalhando de forma avassaladora pela sociedade.

     O processo é clássico e seu exemplo maior continua sendo a estratégia de comunicação que Joseph Goebbels desenvolveu na Alemanha nos anos 1930 e que em uma década fez com que a insanidade de um pequeno grupo de ativistas contaminasse o país onde a modernidade havia plantado suas raízes no século anterior.

     No entanto, é preciso fazer uma retificação importante no paradigma central da propaganda nazista: a frase segundo a qual "uma mentira contada mil vezes torna-se verdade" ganha certa contemporaneidade se dissermos que "uma meia-verdade repetida duas vezes torna-se verdade".

     Se o leitor ou leitora afeto à visão crítica dos acontecimentos fizer uma visita ao noticiário dos últimos doze meses, vai observar que o estado de espírito negativo que contamina o Brasil não decorre de um efeito colateral do noticiário: é o propósito central da atividade da imprensa hegemônica.

     Certamente, há espaço suficiente nessa afirmação para a suspeita de que o observador pode estar sob influência de teorias conspiratórias, mas a leitura dos jornais nesse período indica claramente o desenvolvimento de uma campanha com objetivo de destruir a autoestima dos brasileiros.

     Este observador foi conferir essa hipótese com uma fonte qualificada de um dos maiores jornais brasileiros, assentada em posição de mando na área comercial, e ouviu uma queixa surpreendente: disse o informante que a agenda negativa está prejudicando o próprio jornal, ao produzir um estado de pessimismo que desestimula os anunciantes.

     O jornalismo praticado nas redações é nocivo ao negócio jornal.

     Não seria a primeira vez que a imprensa, como sistema corporativo, estaria agindo contra seus próprios interesses de longo prazo.

A desinformação como tática

     Se a direção dos jornais considera apropriado cultivar uma crise social, com grandes riscos de detonar no rastro dela uma crise econômica, é porque entende que, se a tática for bem sucedida, haverá um ganho para o negócio no futuro próximo, com uma mudança radical no modelo econômico.

     Fora dessa possibilidade, resta a alternativa de pensar que a imprensa enlouqueceu.

     Ora, atuar de forma nociva contra o modelo que ampliou o mercado interno e deu alento ao mercado publicitário só pode ser entendido como uma forma de suicídio, como apontou o executivo citado acima.

     A disputa eleitoral em curso é considerada pela imprensa hegemônica do Brasil como "a mãe de todas as batalhas", porque dela pode brotar o presidente ideal para os padrões das grandes empresas de comunicação.

     Mesmo que isso signifique reverter o avanço das conquistas sociais que se iniciaram com a estabilização da moeda, em 1994, e se consolidaram com as políticas oficias de distribuição de renda, os jornais insistem nesse processo.

     Ainda no perigoso atalho que corta as complexidades envolvidas nessa questão, pode-se afirmar que a imprensa, como sistema corporativo, já não faz jornalismo.

     Faz uma política menor, característica dos lobbies, exatamente igual à prática do "é dando que se recebe", celebrizada pelo falecido deputado Roberto Cardoso Alves e formalmente condenada pela própria imprensa.

     Portanto, toda análise que se fizer daqui para frente precisa deixar claro que, ao se observar a imprensa, não se esta necessariamente analisando o jornalismo.

     Quando o sistema da comunicação abandona o pressuposto da objetividade para atuar como lobby, mesmo às custas de suas necessidades e interesses de longo prazo, pode-se dizer que houve uma ruptura entre jornalismo e imprensa.

     O núcleo tático desse procedimento é a imposição de meias-verdades, que produzem a desinformação geral; a desinformação estimula protestos, crises, decisões equivocadas de investidores, e − o mais grave − descrença no sistema democrático, como aconteceu na Alemanha nazista.

Fotografia - por Reuters-Yahoo!

Cavite, Filipinas – Família enterra uma criança na areia durante celebrações do Domingo de Páscoa nas Filipinas.

P.S: a cara do menino é ótima.

Taxa de câmbio e projeto de desenvolvimento - por João Sicsú (Ipea)

     A taxa de câmbio é um elemento-chave de um projeto de desenvolvimento. Essa constatação é fundamental: além de ser essencial para auxiliar o esforço de crescimento econômico, a administração cambial deve ser compreendida como um instrumento nevrálgico que deve fazer parte de um projeto de desenvolvimento. A macroeconomia e seus preços básicos, isto é, juros e câmbio, podem definir os rumos de uma sociedade, se esta caminhando em direção ao progresso ou ao atraso.

     Em relação à taxa de câmbio, já foi percebido que existe uma tendência forte à sua valorização nos países em desenvolvimento, devido às possibilidades econômicas que caracterizam esses países. Tais economias podem ser exportadoras de itens básicos, podem ser atrativas para o investimento direto estrangeiro ou podem ainda ter ativos financeiros atraentes. Portanto, essas economias podem sofrer de doença holandesa ou de outras enfermidades cambiais valorizativas.

     Embora uma taxa de câmbio competitiva seja um elemento muito importante de um projeto de desenvolvimento, porque pode abrir mais um mercado demandante de produtos domésticos, cabe ser mencionado que o mercado interno se diferencia do externo porque o primeiro pode ser estimulado por meio de políticas fiscais, monetárias, de socialização da riqueza e de elevação da renda; enquanto o segundo depende, quase que exclusivamente, de variáveis que não estão sob o controle doméstico, como o crescimento da economia mundial. Embora o canal de demanda externa deva ser fortemente utilizado em um projeto de crescimento, dentro de uma visão keynesiana-desenvolvimentista de redução de incertezas, o mercado interno, que pode ser estimulado por políticas governamentais, deve ter um papel de grande destaque dentro de um projeto de crescimento com desenvolvimento.

     Uma taxa de câmbio competitiva é resultado de vontade política que deve ser expressa em decisões e ações governamentais. Uma taxa de câmbio de equilíbrio de mercado é uma taxa não competitiva, embora represente as forças conjunturais e estruturais presentes em economias que buscam o desenvolvimento. Uma política cambial adequada ao desenvolvimento é exatamente aquela que se confronta com as forças conjunturais que contribuem para o baixo crescimento e, simultaneamente, se opõe às forças estruturais que promovem o atraso.

     Uma taxa de câmbio competitiva é aquela que estimula a industrialização mais sofisticada, que possui densidade tecnológica. Sendo assim, uma política industrial de desenvolvimento e absorção de tecnologia deve complementar uma política de administração de uma taxa de câmbio competitiva. Isto se faz necessário porque o preço cambial é apenas uma das variáveis que pode estimular a industrialização sofisticada; outras variáveis como, por exemplo, custos locacionais devem ser também observadas e, então, necessitam de políticas correspondentes para enfrentá-las.

     A estratégia de sofisticação da indústria que seja capaz de tornar empresas competitivas no mercado internacional é necessária porque torna a sociedade proprietária de vasto conhecimento, o que lhe oferece flexibilidade para refazer planos de desenvolvimento. Países que produzem apenas itens básicos ou semibásicos (que não possuem tecnologia) estão fadados a participar de uma única via de inserção internacional que os condena ao atraso. Tal inserção é aquela em que, por exemplo, exportam grãos verdes de café para países que não plantam sequer um pé de café, mas se tornaram os maiores exportadores de valores do produto após selecioná-lo, processá-lo, embalá-lo... enfim, agregam valor com uso de tecnologia. Países detentores de conhecimento possuem estratégias flexíveis de desenvolvimento. Em outras palavras, países desenvolvidos estão sempre se desenvolvendo porque descobrem novas oportunidades e têm conhecimento para aproveitá-las. Países atrasados, quando descobrem novas oportunidades, são obrigados a "arrendá-las" aos desenvolvidos, aumentando ainda mais a distância que os separa em termos de desenvolvimento e qualidade de vida.

     A industrialização sofisticada competitiva no mercado internacional e abastecedora do mercado interno cria um ambiente para uma oferta mais igualitária de oportunidades e para uma distribuição menos injusta da renda e da riqueza. A industrialização deve ser formalizada, isto é, deve ser contabilizada do ponto de vista ambiental, social e econômico pelo Estado, gerando mais arrecadação de impostos visando à universalização de oportunidades, mais garantias e direitos trabalhistas, salários maiores compatíveis com a produtividade mais elevada e relações sócio-ambientais sustentáveis.

     Mas como deve ser feita a administração de uma taxa de câmbio competitiva, industrializante? Um regime cambial deve ser estabelecido, isto é, regras, políticas, metas, objetivos e instrumentos devem ser organizados para esse fim. Mas, em primeiro lugar, as taxas que remuneram ativos financeiros domésticos devem ser suficientemente baixas para que a avalanche de recursos financeiros internacionais não invada a economia brasileira, promovendo uma pressão cambial valorizativa.

     Além disso, o Banco Central deve formar reservas para enxugar o mercado de divisas e para que tenha moeda estrangeira em volume suficiente, para evitar desvalorizações abruptas em momentos de elevação do risco. Demandas internas por moeda estrangeira devem ser criadas: uma sugestão são estímulos fiscais à compra de máquinas e equipamentos importados. Políticas de regulação do movimento financeiro internacional devem ser estabelecidas para residentes e não-residentes. Assim como devem ser criados impostos sobre a exportação de itens básicos.

     Esse é um dos caminhos factíveis rumo à superação de barreiras conjunturais e estruturais que valorizam a taxa de câmbio e condenam a economia ao crescimento moderado e ao atraso. Um regime cambial administrado, estável e competitivo, ao lado de um orçamento equilibrado, com pleno emprego e de juros muito baixos, formam o tripé de um genuíno modelo keynesiano-desenvolvimentista.

domingo, 8 de junho de 2014

P57 - por Nick (Arte digital - coolvibe)

Edward Snowden, o criminoso mais procurado do mundo - por Noam Chomsky (Esquerda.net)

     Nos últimos meses, recebemos aulas instrutivas sobre a natureza do poder do Estado e as forças que impulsionam a sua política. E sobre um assunto intimamente relacionado: o sutil e diferenciado conceito da transparência. O poder não se deve expor às claras. Edward Snowden converteu-se no criminoso mais procurado por não entender esta máxima essencial.
Foto de ubiquit23

     A fonte da instrução, como é óbvio, é o conjunto de documentos relativos ao sistema de vigilância da Agência Nacional de Segurança (NSA, pelas siglas em inglês) dado a conhecer pelo valoroso lutador pela liberdade Edward J. Snowden, habilmente resumidos e analisados pelo seu colaborador Glenn Greenwald no seu novo livro No place to hide (Sem lugar para se esconder).

     Os documentos revelam um projeto notável destinado a expor ao escrutínio estatal informação vital a respeito de todas as pessoas que caem nas garras do colosso - à partida, de todas as pessoas integradas na moderna sociedade eletrónica.

     Nada tão ambicioso foi imaginado pelos profetas distópicos que descreveram sombrios mundos totalitários.

     Não é de pouca importância que o projeto esteja a ser executado num dos países mais livres do planeta, e em radical violação da Carta de Direitos da Constituição dos Estados Unidos, que protege os cidadãos de "perseguições e capturas sem justificação" e garante a privacidade das suas "pessoas, domicílios, documentos e pertences".

     Por muito que o tentem os juristas do governo, não há forma de reconciliar estes princípios com o assalto à população que revelam os documentos de Snowden.

     Também vale a pena recordar que a defesa dos direitos fundamentais à privacidade contribuiu para desencadear a Revolução Americana. No século XVIII, o tirano era o governo britânico, que reclamava o direito de imiscuir-se no lar e na vida dos colonos americanos. Hoje, é o próprio governo norte americano que reclama esta autoridade.

     A Grã-Bretanha mantém a postura que impulsionou a rebelião dos colonos, ainda que em escala mais limitada, pois o centro do poder deslocou-se no que respeita aos assuntos mundiais. O governo britânico pediu à NSA para "analisar e reter todos os números de telefones móveis e faxes, mensagens de correio eletrônico e direções IP de cidadãos britânicos que capture na sua rede", reporta o The Guardian a partir de documentos fornecidos por Snowden.

     Os cidadãos britânicos (como outros clientes internacionais) ficarão, sem dúvida, felizes por saberem que a NSA recebe ou intercepta de maneira rotineira roteadores, servidores e outros dispositivos computacionais exportados desde os Estados Unidos para poder implantar instrumentos de espionagem, como assinala Greenwald no seu livro.

     Conforme o colosso satisfaz as suas visões, cada toque numa tecla pode ser enviado às cada vez mais amplas bases de dados do presidente Obama em Utah.

     O constitucionalista da Casa Branca parece decidido a demolir os fundamentos das nossas liberdades civis também noutros campos. O princípio da presunção de inocência, que remonta à Carta Magna, há 800 anos, foi condenado ao esquecimento há muito tempo.

     Recentemente, o New York Times relatou a "angústia" de um juiz federal que tinha que decidir se permitia ou não que alimentassem à força um prisioneiro sírio em greve de fome em protesto contra o seu encarceramento.

     Não se expressou "angústia" alguma sobre o fato de o homem estar há 12 anos preso em Guantánamo sem ter sido julgado, uma das muitas vítimas do líder do mundo livre, que reivindica o direito de manter prisioneiros sem acusação e de os submeter a torturas.

     Essas revelações induzem-nos a investigar mais a fundo a política do Estado e os fatores que a impulsionam. A versão normal que obtemos é que o objetivo primário dessa política é a segurança e a defesa contra inimigos.

     Essa doutrina sugere de imediato umas quantas perguntas: a segurança de quem e a defesa contra que inimigos? As respostas são ilustradas de forma dramática pelas revelações de Snowden.

     A polícia deve assegurar a segurança da autoridade estatal e das concentrações do poder doméstico, e defendê-los contra um inimigo muito temido: a população nacional, que se pode converter num grande perigo se não é controlada.

     Desde há muito tempo entende-se que ter informação sobre o inimigo é essencial para o controlar. A esse respeito, Obama tem uma série de distintos antecessores, ainda que as suas contribuições tenham chegado a níveis sem precedentes, como hoje sabemos graças ao trabalho de Snowden, Greenwald e uns quantos mais.

     Para defender o poder do Estado e o da economia privada do inimigo doméstico, essas duas entidades devem manter-se ocultas – enquanto que, em contraste acentuado, o inimigo deve estar por completo exposto à autoridade do Estado.

     Esse princípio foi explicado, de forma muito lúcida, pelo intelectual político Samuel P. Huntington, que nos ensinou que o "poder se mantém forte quando permanece na sombra; exposto à luz, começa a evaporar-se".

     Huntington acrescentou uma ilustração crucial. Nas suas palavras, "é possível que tenhamos que vender (a intervenção ou outra ação militar) de forma a que se crie a impressão errônea de que estamos a combater a União Soviética. Isso é o que os Estados Unidos têm feito desde a doutrina Truman", no princípio da Guerra Fria.

     A perceção de Huntington sobre o poder e a política do Estado era ao mesmo tempo precisa e visionária. Quando escreveu essas palavras, em 1981, o governo de Ronald Reagan empreendia a sua guerra contra o terror, que cedo se converteu numa guerra terrorista assassina e brutal, primeiro na América Central, mas que depois se estendeu bem mais além para o sul de África, Ásia e Médio Oriente.

     Desde esse dia em adiante, para levar a violência e a subversão além fronteiras, ou aplicar a repressão e violação de garantias individuais dentro do país, o poder do Estado procurou criar a impressão errônea de que combatemos os terroristas, ainda que existam outras opções: barões da droga, mulás loucos empenhados em ter armas nucleares e outros ogros que supostamente nos querem atacar e destruir.

     Ao longo do processo, o princípio básico persiste. O poder não se deve expor às claras. Edward Snowden converteu-se no criminoso mais procurado por não entender esta máxima essencial.

     Em suma, deve existir transparência plena para a população mas nenhuma para os poderes que se devem defender desse horrível inimigo interno.


Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

Fotografia - por Leszek Bujnowski (Bar Bukowski)

Caçando blogueiros - por Paulo Moreira Leite (Istoé)

     Quem impede o debate sobre a democratização dos meios de comunicação força o jogo na sombra de verbas públicas

     Vamos falar da substância das coisas. A caçada a blogueiros simpáticos às conquistas criadas no país depois da posse de Lula, em 2003, iniciada com a investigação sobre um suposto “bunker” do PT na prefeitura de Guarulhos, deve ser visto como aquilo que é.

     Uma tentativa autoritária de silenciar vozes que divergem do monopólio político da mídia.

     Sei que essa frase parece panfleto esquerdista, mas não é.

     Num país onde 141 milhões de eleitores foram transformados em reserva de mercado de uma mídia monopolizada pelo pensamento conservador, a internet tornou-se um espaço de resistência de uma sociedade contraditória e diversificada. Todo mundo – direita, esquerda, centro, nada, tudo, xixi, cocô – está ali.  

     Vamos combinar. Hipocrisia demais não funciona. Truculência também não. 

     Até para ter um pouco de credibilidade, sem traços claros de ação eleitoral, a denúncia contra blogueiros deveria ser acompanhada pela exposição pública da contabilidade dos grupos de mídia que loteiam cada minuto de sua programação e cada centímetro quadrado de suas páginas com milionárias verbas de publicidade federal, estatual, municipal – sem falar em empresas estatais.

     Estamos falando de serviços de mendicância publicitária, de caráter milionário.

     Seguido o método empregado em Guarulhos, seria didático exibir cada cifrão ao lado de cada pacotão de texto e fotos, concorda? Teríamos bom circo por meses e meses. 

     Tentar criminalizar blogueiros pela denúncia de gastos públicos – uns caraminguás, pelos padrões de mercado – é um esforço que apenas trai uma visão contrária à liberdade de imprensa, típica de quem não aceita diversidade nem contraponto, mas apenas elogios e submissão. É o pensamento único em método linha dura e capa de falso moralismo. Apesar do escândalo, é uma denuncia verbal-investigativa. Nada se provou de ilegal. 

     Nós sabemos qual é a questão de fundo.

     Enquanto não se aceitar o debate sobre democratização dos meios de comunicação, que poderia permitir uma discussão pública, às claras, expondo imensos interesses econômico e políticos em conflito, como se fez em vários países avançados do capitalismo, o jogo nas sombras será inevitável. Isso porque as pessoas precisam receber informações, falar, conversar, dar opiniões. Elas concordam, discordam, rejeitam e querem mais.

     Não adianta adiar a chegada de um novo grau de democracia e civilização. Ela transborda. Na agonia do regime de 1964, quando a imprensa amiga dos generais chegava a proteger a ditadura por todos os meios – inclusive derrotas eleitorais eram transformadas em vitória – os governadores de oposição financiavam novas publicações, sem ranço e sem comprometimento. Enquanto isso, até jornais alternativos, de faturamento menor do que a quitanda da esquina eram alvo de uma devassa permanente por parte da ditadura. Empresários privados eram pressionados a saber quem ajudar – e a quem negar ajuda. 

     Aparelhismo? 

     Os últimos anos mostraram – e os blogueiros expressam isso – que o país não cabe nos limites mentais, políticos, culturais, do ideário conservador. Quer mais, quer diferente e por três vezes disse isso nas urnas. A internet e os blogueiros expressam isso. Têm este direito. 

     Alguma dúvida? 

     Este é o debate.

Comentário
Por coerência, qualquer veículo de comunicação que critica a publicidade oficial em blogs, deveria declarar-se impedido de receber verba pública de qualquer ordem.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Fotografia - por Tim Laman (National Geographic)

Barbosa saiu do STF para não cair do pedestal - por Antonio Lassance (Carta Maior)

     Barbosa deixou o STF para não descer do pedestal. Sem o mensalão, sua vida na Suprema Corte acabou. Não tem mais razão de ser. É ladeira abaixo.

     A pergunta mais importante sobre Joaquim Barbosa é a mesma que Marx expressou em "O 18 Brumário de Luís Bonaparte": é preciso refletir sobre as circunstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar um papel de herói.

     Joaquim Barbosa tem muito em comum com o ex-presidente Jânio Quadros.

     Ambos renunciaram aos cargos que eram o ponto máximo que cada qual almejou em sua carreira. Jânio largou a Presidência da República. Barbosa abdicou de seu trono no Supremo.

     Jânio fez sucesso falando em acabar com a corrupção e tratando os políticos, genericamente, como bandidos - a principal vítima foi o presidente Juscelino Kubitschek. Barbosa fez algo muito parecido. Só não empunhou a vassourinha.

     Jânio isolou-se politicamente. Depois que renunciou, só se falava de quem assumiria em seu lugar. No caso, era João Goulart, tratado como um perigo.

     Barbosa saiu e seu futuro substituto na presidência do STF, Ricardo Lewandowski, é alvo de mil e uma hostilidades.

     Barbosa deixou o STF para não descer do pedestal. Sem o mensalão, sua vida na Suprema Corte acabou. Não tem mais razão de ser. É ladeira abaixo.

     Barbosa brigou e isolou-se de praticamente todos os seus pares e de todos os seus apoiadores.

     A ojeriza é seu principal currículo. A desmoralização de tudo e de todos foi seu principal discurso e uma maneira fácil de conseguir muitos adeptos.

     Nunca alguém em uma posição tão qualificada foi tão bom martelo para os golpes dos que se interessam não em mudar a política, mas simplesmente em desqualificá-la.

     Para juízes, advogados e membros do Ministério Público, Barbosa começou como uma boa promessa e terminou como uma grande decepção.

     Eles o consideravam sangue novo no Supremo. Era alguém que poderia levar adiante causas importantes e, muitas vezes, esquecidas.

     Barbosa saiu do STF virando as costas para essas grandes causas. Nem mesmo aquelas que seriam óbvias para alguém com sua origem tiveram seu entusiasmo.

     A demarcação de terras quilombolas e indígenas, por exemplo, continua intocada. É uma obra inacabada sobre a qual Barbosa não moveu uma palha.

     A demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, objeto de uma decisão do STF em 2009, só teve seu acórdão publicado quatro anos depois - mesmo assim, sem que fosse considerada como regra geral a ser aplicada a outros casos.

     Tribunais de todo o país aguardam, há anos, decisões sobre um número recorde de processos que dependem do STF. Um legado da gestão Barbosa foi o de transformar o STF no gargalo supremo da Justiça brasileira.

     A AP 470, considerada por alguns como seu "grande legado" e, por ele mesmo, como ponto alto da história do STF, sequer estabeleceu critérios para se tratar casos homólogos, como o mensalão do PSDB e o do DEM.

     O legado da AP 470 se resume a meia dúzia de presos, e não a qualquer avanço no combate à corrupção. Sequer firmou-se um critério de julgamento para casos futuros. Portanto, não é exemplo de nada.

     Barbosa tratou seus pares a pontapés; generalizou acusações contra advogados e juízes, como se todos fossem maçãs podres; mandou jornalistas chafurdarem no lixo.

     Tudo isso atraiu a atenção e até o entusiasmo de quem não gosta de advogados, juízes, jornalistas e políticos. Mas o que trouxe de construtivo para o País? O que gerou de mudança? Absolutamente nada.

     Barbosa é tão importante para a história do País quanto um Jânio Quadros. Arrogância, destempero verbal e o gosto por tratar quem quer que seja como corrupto podem até angariar simpatia, mas até hoje não trouxeram qualquer contribuição efetiva para mudar a política.

     Pouco importa o destino de Barbosa. A única dúvida relevante que fica é a mesma que Marx expressou em "O 18 Brumário de Luís Bonaparte": é preciso refletir sobre as "circunstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar um papel de herói”.

Antonio Lassance é cientista político.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Escultura em livro - por Su Blackwell (Jornal GGN / Blog do Nassif)

O torturador é covarde por natureza - por Mauro Santayana (Rede Brasil Atual)

     O guerreiro luta por uma causa. O torturador se distingue pela ausência de riscos. O torturado sempre está desarmado. O torturador brinca com o medo do outro, porque não consegue enfrentar o seu

     O que é a tortura? Como um ser humano pode conceber usar o corpo de outro ser humano, que possui a mesma pele, a mesma boca, os mesmos dentes, os mesmos ossos, os mesmos cabelos, os mesmos bilhões de neurônios, para punir-lhe com dor, desespero e medo? A convenção das Nações Unidas, de 1984, contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanas ou degradantes, define a tortura como “qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou terceira pessoa tenha cometido, ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza; quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionário público ou outra pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação”.

     São muitos os que buscam atribuir a tortura à natureza humana, como fazem com a guerra e outros crimes. Mas existe um enorme abismo entre quem luta e o torturador. O guerreiro luta por uma causa. Está sujeito a morrer por uma fonte de água, a carcaça de uma presa recém-abatida, por sua mulher e seus filhos. O combatente atávico que existe em cada um de nós sabe dos riscos que corre, em defesa de suas circunstâncias, de suas ideias, de sua condição. Pode morrer ou ser ferido em batalha.

     O torturador se distingue pela ausência de riscos, de coragem. O torturado sempre está desarmado, ou amarrado e indefeso, frente a ele. O torturador brinca com o medo do outro, porque, dentro de si mesmo, não consegue enfrentar e encarar o próprio medo. Ele é covarde por natureza, é movido pelo mal e o sadismo, e por sua fraca e abjeta personalidade. Ele não precisa de uma ideia, de uma razão.

     “A finalidade do terror é o terror. O objetivo da opressão, a opressão. A finalidade da tortura é a tortura. O objetivo da morte é a morte. A finalidade do poder é o poder. Você está começando a me entender?” explica, a um prisioneiro, um personagem de George Orwell, no livro 1984. Os torturadores são, antes de tudo, psicopatas. Dependendo do momento da história, irão torturar em nome de Deus, de uma bandeira, um uniforme, uma ideologia, uma religião. Use a roupa que usar, ocupe seja que cargo, o torturador não passa de criminoso vulgar.

     Uma sociedade que abomina assassinos, ladrões, corruptos, estupradores, não pode aceitar conviver, em seu seio, com torturadores. Até mesmo porque o torturador quase sempre é, também, assassino, ladrão, corrupto e estuprador. A diferença entre a tortura e a lei é a mesma que existe entre a barbárie e o progresso. Aceitar a tortura como inerente à condição humana é o mesmo que negar que um povo, um Estado, uma nação, a humanidade possam evoluir.

     Dostoiévski dizia que a melhor forma de medir o grau de civilização de um país­ era conhecer, por dentro, suas prisões. Nesse aspecto, a situação no Brasil é vergonhosa. Não apenas com relação às condições e superlotação de nossas cadeias, mas pela forma como nossa sociedade convive com a tortura e o torturador.

     O brasileiro médio é falso, hipócrita e leniente com relação à tortura. As mesmas pessoas que se revoltam com o vídeo feito por uma vizinha, mostrando uma mulher espancando um cachorrinho na área de serviço, se regozijam quando veem um menino ou menina de 7, 8 anos – morador de rua e muitas vezes, já dominado pelo crack – ser agarrado pela orelha, e tomar uma surra de policiais ou seguranças. Param, a caminho do trabalho, para deleitar-se.

Corações e mentes

     O agente do Estado, no Brasil, formado em uma longa tradição autoritária, que vem desde os capitães do mato, e dos diferentes hiatos ditatoriais de nossa história, acha que tem direito de vida ou morte sobre o suspeito. Isso está fartamente demonstrado não apenas nos milhares de casos de mortes por “auto de resistência”, mas também pelo que ocorre com os presos, muitos sem sequer terem passado por julgamento, no interior de nossas prisões. O mesmo vale para o outro lado da moeda.

     Da mesma forma que um policial corrupto espanca, humilha e ameaça matar a mãe ou a filha de um suspeito, para saber – em interesse próprio – onde está escondido o produto de um assalto ou a droga recém-chegada, a violência extrema tem sido praticada, também, pelas novas gerações de marginais, que torturam e matam famílias, crianças e idosos, para tentar saber onde está um punhado de reais. Como controlar essa corrente de estupidez?

     Um bom começo, do ponto de vista do Judiciário, seria perder o pudor de usar a lei e condenar alguém pelo crime de tortura. Raramente alguém que comete latrocínio com extrema violência tem a sua pena acrescida por tortura. É como se condenar alguém por esse crime fosse proibido, ou ela não existisse em nosso dicionário.

     Nos portais e redes sociais ela nunca é citada por quem a defende. Ninguém, referindo-se a um suspeito, escreve ou afirma “tem de torturar esse cara”. Para que fique tudo mais íntimo e corriqueiro, banalizado, usam-se expressões como “tá precisando é de couro”, “se fosse meu filho, dava uma de criar bicho”, “comida de preso é paulada”, “pendura que ele canta”, “tinha que cortar na borracha” e outras do gênero.

     A presidenta Dilma Roussef lançou, no último 12 de dezembro, o Sistema Nacional de Enfrentamento à Tortura, que prevê a instalação de um mecanismo autônomo que, por meio de peritos, terá autorização prévia para entrar em penitenciárias, instalações militares, delegacias, instituições de longa permanência de idosos, instituições de tratamento de doenças psíquicas ou similares, para constatar a existência de possíveis violações de direitos humanos nesses locais. Trata-se de importante iniciativa, considerando-se que o Brasil é signatário da Convenção Internacional Contra a Tortura desde 1989, e que, em 500 anos de história, é a primeira vez que a Nação está encarando, de forma direta, essa abominável questão.

     Mas a verdadeira batalha não se dará apenas com a fiscalização do que está ocorrendo nas prisões, que poderia avançar com a instalação de delegacias de direitos humanos em todo o país. Ela será travada nos corações e mentes da população brasileira.

     Não podemos nos considerar civilizados enquanto milhares de brasileiros defenderem a execução ilegal e a tortura como método de punição e investigação. Não podemos nos considerar civilizados enquanto juízes estabelecerem jurisprudência atribuindo à vítima de tortura o ônus de provar que foi torturada. Esse paradigma, estabelecido na ideologia escravocrata e repressora de parte considerável de nossa sociedade, só poderá ser alterado a partir do ensino, em todas as escolas, desde o primeiro grau, dos direitos e deveres consubstanciados na Constituição brasileira, atendo-se estritamente ao seu conteúdo, para não dar à direita fascista motivo para combater a iniciativa.

     Só quando ensinarmos nossos filhos e netos que o mero ato de um policial espancar um manifestante, em uma situação de protesto – ou manifestantes espancarem um policial desarmado – é ilegal; que extrair dor de outro homem, mulher, criança, indefeso, humilhando-os, transformando-os, pelo medo, em animais ­irracionais, que gritam, sangram e choram, segundo a vontade de seu torturador, é crime abjeto e condenável, poderemos começar a mudar, de fato, a mentalidade a propósito da tortura, sua imagem e paradigmas, em nosso país.