terça-feira, 18 de abril de 2017
Xadrez da política após o vendaval - por Luis Nassif (Jornal GGN)
Peça 1 – sobre o essencial e os detalhes
1. No epicentro do terremoto relaxe e espere a terra assentar. A realidade nunca é tão ruim quanto parece no olho do furacão.
2. Toda essa movimentação em torno da lista de Fachin tem dois objetivos claros. O atual, é o desmonte do sistema de seguridade social e outras reformas antissociais; o de 2018 obviamente são as eleições.
O que está em jogo é o desenho de país que se terá, o futuro dos avanços civilizatórios das últimas décadas, o destino de milhões de pessoas hoje em dia amparadas pelo sistema de seguridade social.
Esse é o ponto central. O restante são os meios, as táticas políticas.
Peça 2 – sobre o jogo político
O segundo cuidado é entender de que lado estão os principais personagens da Lava Jato:
1. Globo, Procuradoria Geral da República e Lava Jato estão do mesmo lado. Eles são o chicote nos parlamentares para acelerar a reforma da Previdência, a reforma trabalhista, o desmonte da seguridade social. A cenoura é o imenso leilão que ocorre no Congresso.
2. Só é aceita a delação cujo conteúdo corresponder plenamente aos desejos do procurador. Se não concordar com as condições impostas , o sujeito continua preso. Se corrigir as delações depois de solto, o sujeito volta para a cadeia.
3. As delações são a seco, procurador e delator, sem nenhuma espécie de mediação. Os procuradores têm poder absoluto para induzir os delatores e sua intenção maior é colher elementos para reforçar as teses previamente definidas.
4. Delação sem provas não tem valor penal. Mas, politicamente, ajuda a construir a narrativa necessária para insuflar a opinião pública.
5. A qualificação de crime de peculato (aquele praticado por funcionário público) depende de um benefício atrelado a uma contrapartida.
Entendidos esses pontos, vamos ao jogo.
Peça 3 – Lula, Aécio, Serra e Alckmin
O que havia entre Lula e Emílio Odebrecht era uma relação de estreita confiança política e pessoal baseada em um projeto: as empreiteiras seriam a ponta de lança do soft power brasileiro na África e América Latina.
Dentro dessa estratégia, criaram-se inúmeros mecanismos de apoio, ferramentas de políticas públicas utilizadas por qualquer país em estímulo à expansão externa de suas empresas, como financiamento à exportação e ofensiva diplomática.
Aí se entra na zona cinzenta. A partir dessa parceria, o PT passou a ter acesso a um butim no qual já se refastelavam o PSDB e o PMDB. Com a explosão da economia, o butim ficou imenso para todos os comensais.
A prova do pudim, para separar propinas de financiamento eleitoral, é a relação causal: se a cada contribuição correspondia uma contrapartida ou não. Na Petrobras, a relação era nítida. Fora da Petrobras, não.
Nos três casos tucanos – José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves -, por exemplo, há a acusação de pagamento de propinas: o dinheiro correspondia a um percentual das obras em andamento. No caso de Serra, uma propina adicional pelo pagamento à Odebrecht de um dinheiro bloqueado na justiça.
Mais ainda: as delações da Odebrecht confirmam o que já adiantamos aqui do que seria a delação de Léo Pinheiro, da OAS. Na gestão Alckmin, o percentual era de 5% sobre as grandes obras do Estado. Serra entrou e exigiu uma redução no valor das obras. A empreiteiras descontaram da propina. Imediatamente Serra enviou Paulo Preto para renegociar os percentuais de propina.
Constata-se, portanto, que, na cobrança de propinas, a maior garganta era de Alckmin.
Por outro lado, por enquanto ainda não se sabe se o dinheiro recebido por Alckmin foi utilizado para enriquecimento pessoal. Depende do rastreamento dos R$ 10 milhões entregues ao seu cunhado. No caso de Aécio e Serra, há indícios veementes de enriquecimento pessoal. Se abrir as contas dos fundos de Verônica Serra, se levantará o principal mecanismo de lavagem de dinheiro de Serra para atividades pessoais.
No caso de Lula, a intimidade brasileira –descrita nas obras de Sérgio Buarque de Holanda – foi utilizada para pequenos favores solicitados à Odebrecht: a ajuda ao irmão, o apoio ao filho, a reforma do sítio que seria usado por ele.
É evidente que a constatação de favores não engrandece a biografia de Lula. Servirá para um estudo acurado sobre os contrastes entre o maior estadista contemporâneo e os pequenos vícios do cidadão Lula. Mesmo assim, estão a léguas de distância do que se entende por corrupção.
As quantias destinadas ao Instituto Lula tinham objetivo claro. Fora da presidência, Lula mantinha largo prestígio no mundo todo, e em especial na América Latina e África. Qualquer empresa do mundo gostaria de tê-lo como embaixador para esses mercados.
Ora, havia um jogo de interesse comercial nítido e legítimo para quem não dispunha mais de cargos públicos: a Odebrecht apoiava Lula e se beneficiava de seu capital político internacional.
Obviamente, essa narrativa não atendia aos interesses da Lava Jato. Os procuradores trataram, então, de induzir as delações, para estabelecer nexos causais entre decisões de políticas públicas com as contribuições recebidas.
Nas transcrições, fica nítido o prego sobre vinil, a identificação dos cacos incluídos nas delações: Emilio Odebrecht teria concordado em apoiar o filho de Lula, se este ajudasse a quebrar as resistências de Dilma em relação ao próprio filho de Emílio. Ou então, a suposta compra do terreno, que não houve, seria em troca do Refis para o setor petroquímico.
A disparidade de valores é tão grande que soa ridículo. Mas como estabelecer o nexo causal é pré-condição para a delação ser aceita, mesmo sem provas, a maior corrupção do planeta fica reduzida, assim, a miçangas e paetês.
Por exemplo, uma das delações acusa Guido Mantega de ter intercedido junto à Previ, para a capitalização de uma das empresas da Odebrecht, mediante o pagamento de determinado valor ao PT. Na sequência, o mesmo delator diz que não houve, da parte de Guido Mantega, “um pedido de contrapartida especifica em razão do esforço que nos deu junto à Previ, mas a demanda financeira dele já estava atendida pelos valores até então pactuados e controlados por mim na planilha Pós-Itália". Tudo isso na mesma delação.
Mas, durante dias, deixou a direita indignada e a esquerda perplexa, trocando tiros entre si, com total falta de foco.
Peça 4 – sobre Dilma
Em relação a Dilma, é pior ainda. À medida em que vão se juntando as peças, fica claro que o PMDB começou a armar sua conspiração quando Dilma incumbiu Graça Foster de limpar a Petrobras e quando impediu qualquer acordo com Eduardo Cunha.
As delações comprovam que, sob a presidência de Marcelo, a Odebrecht jogava contra Dilma.
Uma das delações confirma pagamento de R$ 6 milhões ao pastor Everaldo, para investir contra Dilma nos embates do primeiro turno. Outra, confirma o pagamento adicional a Aécio, visando derrotar Dilma. Outra, o pagamento a Eduardo Cunha, visando dobrar Dilma. Agora, a confissão de Michel Temer, de que Eduardo Cunha só aceitou o pedido de abertura do processo do impeachment por ter seus interesses contrariados.
No entanto, as manchetes são de que Dilma tinha sido avisado sobre a corrupção da Petrobras. Apenas isso, dando a entender que nada fez.
Dilma caiu paradoxalmente por simbolizar tudo o que a Lava Jato pretende como legítimo: o símbolo máximo do político apolítico que não negocia favores com políticos, com o Congresso, com empresas e com o Judiciário, que não disputa poder no Ministério Público Federal nem no Tribunal Superior Eleitoral, e não levanta uma pena em defesa de seu governo.
Quando ajudou na sua derrubada – divulgando os áudios de conversas dela com Lula – a Lava Jato tinha plena consciência da sua inocência e do envolvimento de seus adversários. Mas foi ela quem foi para a guilhotina se transformando, a posteriori, em uma heroína popular, a anti-Joana D´Arc que, para proteger sua virgindade política, lança todo um projeto nacional à fogueira.
Como entender essa hipocrisia da Lava Jato?
Peça 5 – a Lava Jato e o exercício da hipocrisia
Em dezembro de 2010 (https://goo.gl/WSPglZ) e julho de 2013 (https://goo.gl/LJqSNl) abordei os problemas que haveria para a política com o fim da hipocrisia, decorrente do advento das redes sociais.
Hoje em dia, há uma cartelização e massificação ampla do noticiário produzido pela dobradinha PGR-Lava Jato – mídia. O impacto das denúncias nubla temporariamente outros aspectos do jogo. Com o tempo – e a atuação anti-cartelização das redes sociais – a poeira assenta e os fatos vão se tornando progressivamente mais nítidos.
O desenho que emerge dos políticos mencionados pela Odebrecht é de uma organização criminosa, na qual os principais cabeças – Eduardo Cunha e Michel Temer – atuavam na linha de frente, participando pessoalmente das reuniões em que eram negociadas as propinas.
De outro lado, um segundo grupo que chantageia os chantagistas: se quiserem permanecer no comando do país, terão que entregar as reformas. No caso, as reformas mais antissociais da história, que praticamente acabarão com todo o sistema de seguridade social, condenando idosos pobres à morte antecipada, eliminando a saúde e a educação para os mais vulneráveis, sendo implementada por uma organização política tendo atrás de si o trabuco dos cidadãos de bem.
Há duas armas nas costas dos chantagistas: a imprensa e o Ministério Público Federal.
No impeachment da Dilma Rousseff a hipocrisia tinha um alvo: uma suposta organização criminosa sendo derrotada pelo clamor das ruas e pela aliança de brasileiros íntegros: Aécio, Serra, Aloysio, Alckmin. Para tanto, bastou a Lava Jato e a PGR esconder as evidências contra os “íntegros”.
Agora entra-se em outro terreno. O revólver da mídia e as balas do MPF estão apontados para que os chantagistas entreguem o combinado: antecipar a sobrevivência de idosos pobres, jogar ao mar os vulneráveis, tirando acesso a condições mínimas de sobrevivência, restringir a saúde e a educação para os brasileiros de baixa renda. E, por consequência, expor toda uma nova geração ao crime organizado que, sem investimentos em segurança, conseguirá seu intento de transformar o país em um imenso México.
Até quando o álibi dos justiceiros resistirá a esse segundo tempo?
Peça 6 – o pacto hipócrita
Há uma regra política infalível: excesso de poder leva à corrupção. Ou à antessala, que é a promiscuidade com outros poderes.
Dia desses, a Folha noticiou um suposto acordo entre o PGR Janot e Michel Temer. Segundo as notícias, Janot teria se apresentado para o terceiro mandato - ou para o fim da lista tríplice, desde que fosse indicado alguém do seu grupo para sucedê-lo - valendo-se do álibi Lava Jato. Ele seria a garantia de continuidade da operação. Como não é um argumento que sensibilize particularmente Temer, a grande indagação é o que teria sido oferecido por ele, em troca.
Não se sabe o grau de veracidade da notícia. O que causa estranheza é que imediatamente se pronunciou a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República). Apesar de ser uma entidade de classe, bancada pelas contribuições dos associados, a ANPR foi incapaz de arrancar um desmentido sequer de Janot. Soltou uma nota que é muito mais uma cobrança prévia do que uma defesa (https://goo.gl/xGjJAQ):
“Rodrigo Janot - que outrora presidiu a ANPR - não encerraria sua indelével trajetória no Ministério Público Federal construindo um sucessor em conchavos palacianos. Estes criariam uma crise institucional e uma desconexão entre o PGR e os procuradores - qual ele conheceu na sua juventude ao ingressar no MPF antes da redemocratização do Brasil e a definitiva autonomia do Ministério Público”.
Por outro lado, assim que Temer assumiu a presidência, a ANPR foi a primeira organização a ir ao beija-mão. E, quando da nomeação escandalosa de Alexandre de Moraes para o STF (Supremo Tribunal Federal), a ANPR emitiu uma nota de apoio igualmente escandalosa (https://goo.gl/m5n8nP).
“Jurista de notável saber jurídico, com passagem de mais de uma década pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes intermediou discussões importantes para o país à frente do Ministério da Justiça”.
O Ministério Público Federal é composto por um grupo heterogêneo de procuradores, dentre aqueles de inegável vocação pública e profissionalismo, aos que se encantam com o exercício leviano do poder. Ouso dizer que a maioria é firmemente comprometida com o trabalho e o profissionalismo.
Na cúpula, no entanto, há o mesmo movimento que se observa nos partidos políticos, no Judiciário, um jogo de poder hipócrita, disfarçado nas bandeiras da anticorrupção.
Seria interessante saber como esse fenômeno é analisado pelas lentes do nosso brasilianista de boutique, Ministro Luís Roberto Barroso.
Peça 7 – 2018
Assim que refluir a ofensiva atual, a disputa política se voltará para os fatos concretos da política: a disputa de projetos nacionais em 2018.
Portanto, é hora de arregaçar as mangas e trazer para o centro do jogo os intelectuais, os gestores públicos, as associações empresariais e os movimentos sociais, sindicatos e academia. É hora de começar a discutir o novo Brasil, depois do vendaval.
Como o jornalista mineiro que já sabia de tudo sobre Aécio Neves foi calado - por Joaquim de Carvalho (Diário do Centro do Mundo)
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Marco Aurélio Carone, do Novo Jornal |
Em Minas Gerais, uma das
formas de entender o que representaram os doze anos do governo de Aécio Neves –
sete dele mesmo e cinco de Antonio Anastasia – é conhecer a trajetória do
publicitário Marco Aurélio Carone.
Em 2002, Carone
se candidatou a governador pelo minúsculo PSDC, mas sua missão, segundo ele
conta, não era chegar ao Palácio da Liberdade, mas defender Aécio no
enfrentamento com o ex-governador Newton Cardoso, também candidato.
Aécio ganhou e,
pela atuação de Carone, o partido dele foi recompensado pelo caixa de campanha
de Aécio, e o próprio candidato, alguns anos depois, vendeu o título de seu
jornal, Diário de Minas, o mais antigo do Estado, para um grupo ligado a Aécio
Neves.
Pela venda, o
publicitário diz que recebeu R$ 600 mil. “Queriam comprar o meu silêncio ou
pagar por elogios, mas esse produto não estava à venda”, diz Carone.
Com o dinheiro
da venda do jornal, o ex-aliado de Aécio contratou um dos jornalistas mais premiados
de Minas Gerais, o veterano Geraldo Elísio, o repórter Pica-Pau dos tempos da
rádio Itatiaia e Prêmio Esso de Jornalismo em 1977, com uma reportagem
publicada em O Estado de Minas que denunciou a prática de tortura na Polícia
Militar.
Juntos, eles
mantiveram na internet o Novo Jornal, um site de notícias que, em poucos anos,
se transformou num dos poucos veículos críticos de Aécio e do governo dele e de
Anastasia.
O Novo Jornal
chegou a ter mais de um milhão de acessos num dia, com suas reportagens que
tratavam de escândalos do grupo de Aécio, entre eles a Lista de Furnas.
“O Novo Jornal
foi o primeiro veículo a publicar a perícia da Polícia Federal que comprovou a
autenticidade da lista de Furnas”, conta Geraldo.
Era um tema
recorrente no site, assim como as denúncias de favorecimento do governo ao
grupo de Zezé Perrella, o do Helicoca, e outros que os grandes jornais, rádios
e emissoras de TV de Minas nunca noticiaram.
No início de
2014, já com a pré-campanha de Aécio a presidente da República na rua, Carone foi preso sob acusação de ser o relações públicas de uma
organização criminosa destinada a achacar empresários, denúncia que até agora
não resultou em condenação, mas suficiente para deixá-lo na cadeia durante nove
meses, os três últimos em solitária.
Filho de um
ex-prefeito de Belo Horizonte, cassado em 1964, que depois da abertura chegou a
presidir o conselho de administração de uma subsidiária da Companhia Vale do
Rio Doce, e de uma ex-deputada federal, Carone hoje anda de muletas e tem a
expressão cansada, depois que sofreu um enfarte na cadeia.
Geraldo Elísio,
o editor do Novo Jornal, teve a casa revirada por um delegado e três
investigadores, num mandado de busca e apreensão.
Os policiais
queriam documentos para comprovar a denúncia de extorsão, mas o que
encontraram, e levaram, foi um computador, com os textos de livros que Geraldo
escrevia, entre eles um de memórias.
O advogado Dino
Miraglia, que defendia o homem que entregou a lista de Furnas à Polícia
Federal, Nilton Monteiro, também teve a casa e o escritório revirados, num
mandado de busca cumprido até com o sobrevoo de helicóptero da PM.
O escritório de
um advogado é inviolável, mas nenhuma voz da OAB local se levantou contra a
arbitrariedade.
Depois do
episódio, Dino Miraglia abandonou a causa e também sofreu danos pessoais – a
esposa entrou com pedido de divórcio. Hoje, evita falar sobre qualquer
assunto referente à Lista de Furnas.
O Sindicato dos
Jornalistas do Estado de Minas também não se levantou em defesa do fechamento
do Novo Jornal nem da invasão policial à casa de Geraldo Elísio.
Jornalistas com
quem conversei contam que, na época, até o jornal do sindicato era bancado pela
máquina de publicidade comandada pela irmã de Aécio, Andrea Neves.
Esta é parte de
uma história que comecei a apurar dentro projeto do projeto do DCM sobre a
Lista de Furnas, a famosa lista, que eclodiu num momento em que as denúncias do
mensalão ameaçavam o governo Lula, em 2005.
A lista tem os
nomes dos políticos que receberam dinheiro do caixa 2 formado por um diretor de
Furnas, Dimas Toledo, com a propina paga por fornecedores da estatal. A maioria
é do PSDB, e aparecem na relação Aécio Neves, José Serra e o governador de São
Paulo, Geraldo Alckmin.
“Há duas
maneiras de você calar um delator. Uma é matando, a outra é assassinando a sua
reputação”, disse-me um delegado da Polícia Federal que investigou a lista. “Em
Minas, foi criada uma máquina para destruir a reputação dos denunciantes da
Lista de Furnas”, acrescentou.
No governo de
Aécio, a Polícia Civil de Minas divulgou que a lista era falsa, versão que foi
publicada pela revista Veja. Numa investigação paralela, conduzida pela
Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, a
conclusão foi oposta.
Dimas Toledo,
para não sair de Furnas, pressionou Aécio Neves a negociar com Lula sua
permanência no cargo. Para isso, mandou entregar a lista com sua assinatura e
os valores recebidos por Aécio Neves e por outros políticos.
Desde então, o
portador da lista, Nilton Monteiro, tem amargado períodos alternados de prisão,
embora nunca tenha sido condenado. No total, já passou mais de dois anos preso,
teve o carro incendiado e hoje poucos sabem onde mora.
A principal
acusação é a de que Nilton inventou a lista. Mas dois dos nomes relacionados
ali, que são deputados, confessaram que receberam exatamente os valores
apresentados na relação, e por caixa 2 de Furnas. Um deles, Roberto Jefferson,
fez a confissão em depoimento à Polícia Federal.
Se essas duas
confissões não são indícios suficientes da autenticidade da lista, a assinatura
de quem fez a relação não deixa dúvidas. A Polícia Federal, contrariando a
versão de Dimas Toledo, garante que a assinatura é mesmo do ex-diretor de
Engenharia de Furnas.
Ainda assim, é
possível que alguém duvide, mas aí convém analisar o perfil dos policiais
federais que fizeram a investigação no Rio e contrapô-las ao delegado que
chefiou a investigação em Minas. Os policiais federais concluíram pela
autenticidade da lista. O de Minas, não.
A Justiça
Federal decretou a prisão de quatro empresários, num caso que nada tem a ver
com a estatal Furnas, mas que revela um modelo de apuração policial nos anos de
Aécio à frente do governo mineiro.
Os empresários
são donos de uma empresa de transporte de valores, responsável por abastecer os
caixas eletrônicos de dois bancos no estado. A acusação que levou a Justiça a
decretar a prisão é a de que eles, durante anos, desviavam parte do dinheiro
que deveria ser entregue aos bancos.
Assim como a
Lista de Furnas, houve duas investigações paralelas. A Polícia Federal concluiu
pelo desvio do dinheiro dos bancos e obteve na Justiça a decretação da prisão
dos empresários.
Em Minas, a
investigação começou bem antes. Mas nunca foi para a frente. Quem garante
é o delegado de Minas que concluiu o inquérito, quando trocou o governo do
Estado, em janeiro, e a antiga cúpula da Polícia Civil foi afastada.
A razão do
inquérito ter sido abafado nos anos do governo de Aécio/Anastasia é que,
segundo o delegado que herdou a investigação, havia influência da irmã de um
dos donos da empresa, Renata Vilhena, a secretária de Planejamento de Aécio
Neves que tocou o famoso choque de gestão.
E o que isso
tem a ver com Furnas? O delegado acusado pelo colega de negligenciar a
investigação da empresa de transporte de valores é o mesmo que concluiu pela
“falsidade” da Lista de Furnas e participou do inquérito que levou à prisão do
dono do site Novo Jornal, do lobista e delator Nilton Monteiro e que também
justificou a busca e apreensão na casa do jornalista Geraldo Elísio e do
advogado Dino Miraglia.
Uma polícia sem
apetite para investigar fatos sensíveis ao grupo político de Aécio é o que
explica, em parte, as razões da Lista de Furnas ter se transformado num tema
quase proibido. Você não viu nada disso em nenhum veículo da chamada grande
imprensa. Mas vai ler aqui, em detalhes.
ATUALIZAÇÃO:
Prezado
Jornalista Kiko Nogueira, diretor do Diário do Centro do Mundo,
Em nome do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, venho elogiar a
iniciativa do DCM de publicar uma série de reportagens sobre a Lista de Furnas
e manifestar nossa surpresa pela forma como o Sindicato foi citado na matéria
intitulada “Como as pessoas envolvidas no vazamento da Lista de Furnas foram
caladas”, publicada na quarta-feira 23/9 e assinada por Joaquim de Carvalho.
Diz a matéria:
“O Sindicato dos Jornalistas do Estado de Minas também não se levantou em
defesa do fechamento do Novo Jornal nem da invasão policial à casa de Geraldo
Elísio. Jornalistas com quem conversei contam que, na época, até o jornal do
sindicato era bancado pela máquina de publicidade comandada pela irmã de Aécio,
Andrea Neves”.
O DCM merece
nosso respeito pela qualidade do jornalismo que pratica e cumpre papel
importante ao tratar do assunto em questão, que não vem recebendo a cobertura
devida pela mídia tradicional.
Estranhamos, no
entanto, a citação do Sindicato na reportagem, uma vez que durante todo o
período dos governos Aécio Neves e Antonio Anastasia em Minas Gerais
(2003-2014) ele esteve à frente das denúncias de censura e coerção contra
jornalistas, imprensa e a sociedade mineira. O Sindicato denunciou publicamente
as arbitrariedades e irregularidades cometidas pelos referidos governos e
denunciou-as também ao Ministério Público.
Estranhamos
também o fato de o Sindicato ter sido atacado, por fontes não identificadas, e
não ter sido ouvido para se defender. O repórter teve oportunidade para isso
quando fomos apresentados, no dia 4 de setembro, no gabinete do deputado
estadual Rogério Correia, em Belo Horizonte, e não o fez. Conversamos inclusive
sobre o tema da reportagem e ele não mencionou a acusação publicada.
Sem mais para o
momento, manifestamos mais uma vez nossa admiração e votos de sucesso.
Atenciosamente,
Kerison Lopes
Presidente do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.
Escândalo da Petroquímica de Suape – a ‘Pasadena’ de Temer - por por Mauro Santayana (Revista do Brasil)
Comprar empresa fora – expandindo nossa influência no mundo – é escândalo. Repassar aos gringos empresa brasileira moderna, ao preço de cinco dias de faturamento, é a coisa mais normal do mundo
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Complexo petroquímico de Suape recebeu R$ 9 bilhões em investimentos com potencial de recuperar em dois anos |
Após a derrota de sindicatos – que deveriam ter insistido, em todo o país, com novas ações – o Judiciário acabou autorizando a escandalosa venda da Petroquímica Suape e da Citepe, de Pernambuco, a mexicanos pelo equivalente ao valor de pouco mais de cinco dias de seu faturamento.
Na Petroquímica Suape foram investidos R$ 9 bilhões pela Petrobras. No final de 2015, a dívida da empresa era menos de R$ 2 bilhões, o equivalente, portanto, a apenas dois anos de sua vendas, sua receita líquida cresceu em 19% naquele ano e o seu prejuízo caiu em 35% frente a 2014. Para que vender?
As razões daquele prejuízo, aliás, devem ser procuradas no próprio México. Por meio de um acordo de preferências tarifárias, a empresa que está comprando a refinaria, a Alpek, vende milhares de toneladas de PET ao Brasil sem pagar um centavo de imposto, e é o principal concorrente, em nosso próprio país, da mesma Companhia Petroquímica Suape, obrigando-a a trabalhar com um baixo nível de ocupação de apenas 65% de sua capacidade instalada.
Há perguntas que não querem calar. Por que – se tocar a petroquímica é um mau negócio – nossos hermanitos mexicanos estão comprando a empresa, que, aliás, poderia ter sido negociada com compradores que têm potencial para pagar muito mais, como os chineses, por exemplo? Ou por que não se colocou, a esse preço de ocasião, a empresa para ser vendida em bolsa, diluindo o seu capital e beneficiando, com esse negócio de pai para filho, milhares de acionistas brasileiros?
A primeira e mais óbvia razão para a compra pelos mexicanos é que ela está sendo vendida a preço de banana, por acionistas da Petrobras – como fundos de investimento, por exemplo – que podem comprar ações da Alpek na Bolsa de Valores do México antes, ou logo depois da concretização do negócio, lucrando, junto com os donos da Alpek, uma fortuna de bilhões de dólares na compra da refinaria por pouco mais de 10% do que foi investido no negócio. Vendendo barato, com uma mão, e comprando com a outra, fora do país, um patrimônio que foi levantado com dinheiro de todos os brasileiros e que pertence majoritariamente a toda a população brasileira.
A segunda é que a Alpek e o seu controlador, o Grupo Alfa, não passam, exatamente, por um bom momento – por isso suas ações estão ainda mais "baratas" do que o normal – e precisam produzir boas notícias.
O fundador do grupo Alfa, Armando Garza, morreu na semana passada, e as ações da Alpek já tiveram uma queda de 16% no primeiro trimestre de 2017, com uma baixa de valor de mercado de mais de 5 bilhões de pesos mexicanos.
Os investidores mexicanos estavam preocupados com o futuro das ações devido à debilidade do relatório trimestral da empresa, justamente na área em que pretende se consolidar no Brasil, a de poliéster e de polipropileno, na qual suas vendas retrocederam em 3%, fazendo com que o seu Ebtida (sigla em inglês para Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization; ou "Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização") tenha diminuído em 2016 em 7% com relação ao último trimestre de 2015.
Por tudo isso, a imprensa mexicana comemora ruidosamente em suas manchetes a compra da petroquímica de Suape pela Alpek.
A aquisição aumentará, potencialmente, a produção de ácido PTA pela Alpek em 33% e a de PET em 25% – pagando-se uma mixaria, a metade do valor que era esperado no início pelos observadores.
Calculava-se, na Cidade do México, que a compra poderia sair por um valor mínimo de US$ 600 milhões – só os ativos de Suape valem várias vezes isso. Mas o preço final acabou ficando por pouco menos de US$ 400 milhões, o equivalente a aproximadamente cinco dias de faturamento da Petrobras – por um patrimônio no qual foram investidos, voltemos a lembrar, R$ 9 bilhões, que embute, na prática, o virtual controle do mercado brasileiro de um dos insumos mais usados em nossa economia.
A terceira razão do negócio, e a mais importante para os mexicanos, é – independentemente da situação da Alpek e da Petrobras, que, com crescimento constante de sua produção neste ano, e um aumento no valor de suas ações de 200% nos últimos 12 meses, é muitíssimo melhor do que a do grupo mexicano – é de interesse nacional, por sua natureza geopolítica e estratégica.
O México resolveu controlar a produção de polietileno, um artigo que se usa aos milhares de toneladas por dia, no Brasil – que tem um mercado maior que o mexicano e é o maior da região – para afastar o Brasil como concorrente e controlar o mercado desse insumo, não apenas aqui, no Brasil, mas, em dimensão continental, na América Latina.
Com a entrega da Petroquímica de Suape à Alpek, o mercado brasileiro de PET passa a ficar nas mãos dos mexicanos, que poderão a partir de agora até mesmo fechar, no futuro, a fábrica pernambucana, ou diminuir a sua produção quando lhes der na telha.
Para isso, podem, por exemplo, aumentar as exportações de PET para o Brasil a partir de suas fábricas mexicanas, ou produzir, aqui, no Brasil, com petróleo vindo do México, beneficiando, indiretamente, a Pemex, a companhia estatal de petróleo mexicana.
E regular a oferta em nosso mercado, para aumentar o preço do insumo, estabelecendo um virtual monopólio nessa área.
Cortando a possibilidade estratégica que o Brasil tinha de alcançar a autossuficiência na produção de PET e de produzir aqui mesmo com petróleo nacional, agregando valor ao petróleo produzido pela Petrobras.
Tirando do Brasil a possibilidade que ele tinha, com essa refinaria, de disputar a supremacia, com o beneficiamento direto de nossa crescente produção de petróleo, com os nossos maiores concorrentes nessa área, que são – ou melhor, eram, porque praticamente saímos do negócio depois de gastar bilhões montando essa unidade petroquímica para eles – justamente nossos hermanos do país dos tacos, do Chapolin Colorado e do Speedy Gonzalez, o Ligeirinho.
Os negócios envolvendo a compra, pela Petrobras, da refinaria norte-americana de Pasadena, com um controvertido prejuízo – foram pagos US$ 7.200 por barril de capacidade de processamento, em um ano em que a média de negócios nessa área (11 vendas de refinaria em todo o mundo) foi feita com preço mais alto, de US$ 9.200 o barril) transformaram-se em uma das principais bandeiras da campanha midiota-jurídico-política que levou à derrubada de Dilma Rousseff da Presidência da República.
Não é de se estranhar que a desculpa do governo Temer, de diminuir os prejuízos da construção da Petroquímica Suape – que por maiores sejam, um belo dia se pagariam e começariam a dar lucro –, não desperte neste país cada vez mais canalha e hipócrita a mesma indignação por parte da imprensa e de milhares de carregadores de pato e de batedores de panela. Como cidadãos, na entrega de mão beijada dessa gigantesca refinaria aos mexicanos, restará a todos um prejuízo várias vezes maior do que o primeiro.
Comprar uma empresa lá fora – expandido nossa influência no mundo – é um escândalo. Repassar uma empresa brasileira, muito mais moderna, aumentando o poder de estrangeiros aqui dentro, para gringos, a preço de banana, é a coisa mais normal do mundo.
“As esquerdas perderam votos na periferia quando deixaram de ser esquerdas”, diz pesquisador - por Marina Amaral (Pública)
Em entrevista à Pública, o sociólogo Gabriel Feltran, do Centro de Estudos da Metrópole, comenta a pesquisa que apontou a emergência de valores conservadores entre os moradores das periferias na cidade de São Paulo
Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenador de Pesquisa do
Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador
do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap), o sociólogo Gabriel Feltran pesquisa a periferia de São Paulo desde
2001. É ele quem comenta a pesquisa qualitativa da
Fundação Perseu Abramo, recentemente lançada, sobre o imaginário
social dos moradores da periferia de São Paulo. Uma pesquisa importante,
segundo o professor, mas que não levou em conta a diversidade entre os
moradores da periferia.
De
modo geral, qual a impressão que a pesquisa da Fundação Perseu Abramo causou
para um sociólogo que estuda a periferia de São Paulo como você? Trouxe
surpresas? Ou os resultados já eram esperados?
Um
senhor negro com história operária, um jovem católico e usuário de crack, uma
universitária da USP que participa do movimento hip hop e um pastor evangélico
não pensam a política da mesma forma.
E
todos eles moram numa mesma rua, de um bairro periférico de São Paulo. Mas há
ainda muito mais diversidade ali: um rapaz acabou de sair da cadeia e tenta
retomar a vida, mas é difícil. Uma mãe não tem creche para seus filhos, e todos
dormem em um mesmo cômodo. Um pensa como o patrão, outro não.
Ao
ler a pesquisa, assim, minha primeira vontade foi a de conversar com os
pesquisadores. E eles receberam muito bem essa conversa; são jovens e têm
futuro pela frente. Sendo consequente, não é possível ainda analisar seus
resultados, porque eles ainda não deram conta dessa diversidade e acabaram
homogeneizando demais a interpretação. Por outro lado, a pesquisa é insumo para
um debate importante sobre as mudanças nas periferias da cidade, nas formas de
entender os governos e a política, os valores e o futuro. Ou seja, acho que não
podemos ver as periferias como homogêneas, quando na realidade a
heterogeneidade é crescente. E é, ainda mais nesse período, bem perigoso pensar
que há homogeneidade.
Para Feltran, é perigoso pensar que
as periferias são homogêneas, principalmente em relação ao voto (Foto: Léu
Britto/DiCampana Foto Coletivo)
Professor,
na nossa entrevista anterior, há quase 2 anos (leia aqui), o senhor já
havia deixado claro, por sua experiência como pesquisador, que essa polarização
política – então traduzida por coxinhas X mortadelas – não fazia sentido para o
jovem de periferia. A pesquisa da Perseu Abramo – que se refere a um universo maior,
já que não é restrita à juventude – fez a mesma constatação agora. Por que a
academia e a esquerda institucional, como o PT, ao qual a fundação está ligada,
demoram tanto para compreender esse universo? Como a esquerda se distanciou
tanto dos trabalhadores?
Nas eleições municipais as periferias de São Paulo elegeram a Erundina, o Maluf, o Pitta, a Marta, o Kassab, o Haddad e o Doria. Mas, veja, elas votaram no Lula, majoritariamente, desde 1989.
É evidente, então, que não é um voto ideológico, partidário, no sentido clássico direita X esquerda, que muita gente quis e quer ver. É um voto que concebe o mundo a partir da proximidade, da relação pessoal, da confiança na ética do candidato, um voto próximo e moral. Que por isso sempre esteve muito próximo das igrejas, espaços altamente politizados. E sabemos que a expansão pentecostal é muito mais conservadora que progressista, ao contrário das comunidades de base católicas. Há interesses imediatos que também influenciam o voto, como um emprego público, uma rede de benefícios sociais, uma associação de bairro ligada a um vereador que prometeu melhorias. Há aposta em mudanças, e em serviços que tragam mais bem estar. Há respostas à mídia, à televisão, sobretudo. Mas que também tem um núcleo duro de identificação com o trabalhador, com um líder trabalhador, que não é desprezível. São muitos elementos diferentes, portanto, compondo um voto que, muitas vezes, se analisa no geral porque, ainda hoje, se pensa que as periferias são homogêneas.
As
esquerdas foram perdendo o voto nas periferias, nos últimos anos, quando
deixaram de ser esquerdas. Ou seja, quando perderam proximidade com o que
acontecia no mundo popular. E quando consideraram que essa proximidade, que as
comunidades de base tinham, que as pastorais tinham, que os sindicatos tiveram,
era menos importante eleitoralmente do que televisão e políticas populares, de
melhora do bem estar, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida etc. E ainda
pior, quando perderam a imagem de mudança, de renovação. Quando se tornaram
moralmente iguais aos demais políticos tradicionais.
Não
há espaço vazio em política. Outros grupos, como as polícias militares (que têm
horas de programa diário na TV aberta, dentro das casas das periferias, com
figuras carismáticas como apresentadores), os evangélicos (com suas ações
midiáticas e de base), bem como o empreendedorismo do mercado de trabalho, têm
estado bem mais perto. E estando perto, ganham eleição ali.
É
adequado dizer que a periferia tem a meritocracia como valor? Qual a relação
entre esforço pessoal e necessidade de reconhecimento individual com ter a
meritocracia como ideal? Esse ideal é necessariamente conservador?
A
ideologia do mérito pressupõe que todos podem chegar ao topo, saindo de
diferentes patamares. Que só depende deles. Os programas de TV falam isso o
tempo todo – se insistir, tiver garra, acreditar no seu sonho, você consegue.
Isso é muito dominante hoje no Brasil e, eu diria, menos presente nas
periferias do que nas classes médias e elites. A meritocracia é muito mais geral
como ideologia, atravessa as classes. É uma característica do tipo de
liberalismo que vivemos na América Latina, radicalizado hoje. Pessoalmente,
claro que devemos sempre tentar avançar e conquistar coisas com mérito. Mas daí
a organizar uma sociedade pelo mérito vai uma distância enorme. Porque mesmo se
todos avançarem, ainda assim a desigualdade se mantém a mesma. E sabemos que
quem pode pagar por escola e saúde avança muito mais e muito mais rápido. Ou
seja, mérito como valor político, público, numa sociedade desigual como a
nossa, é motor de desigualdade. Se pessoalmente é um valor digno, politicamente
é sempre um valor conservador.
A
pesquisa coloca como contradição ideológica a convivência entre valores
liberais como empreendedorismo, eficiência de mercado e “consumismo” e uma
prática que valoriza políticas e serviços públicos de qualidade. Isso é um
paradoxo, uma confusão de valores ou uma dificuldade de interpretação dos
pesquisadores sobre a realidade abordada?
É
um paradoxo da vida moderna, sobretudo a liberal. Todos nós queremos direitos
iguais, garantias para uma vida digna, e queremos ser diferentes de todo mundo,
usar um brinco, uma tattoo ou um corte de cabelo original. Queremos amar como
todos, mas que nosso amor seja único. As propagandas de TV são massificadas,
dizendo “você é especial”. Não creio que seja algo das periferias, apenas. Mas
é presente nas periferias mais recentemente, porque a modernização dos modos de
vida nas periferias é mais recente do que nas classes médias brancas.
“As igrejas evangélicas são também
elas muito heterogêneas, não dá para generalizar”, diz Feltran (Foto: Gessé
Silva/DiCampana Foto Coletivo)
De
que forma esses valores supostamente liberais da periferia se combinam com a
rede de solidariedade real que existe nas comunidades periféricas? Até que
ponto a afirmação de valores liberais poderia estar ligada à reprodução do
discurso da mídia ou instituições (escola, igrejas)?
A
combinação desses valores encontrou, no pentecostalismo, um solo muito fértil
de desenvolvimento. Como, em certa medida, também nos valores internos ao
“mundo do crime”, que é uma irmandade e que pensa muito em progresso material.
Não é à toa que ambos cresceram tanto nos últimos 30 anos, nas periferias e
para além delas. Mercados evangélicos e criminais, com seus sujeitos, não
constituem um submundo frente aos valores dominantes, portanto. Eles estão tão
conectados ao que a Globo prega que representam, hoje, uma tendência de se
tornarem dominantes. Ainda que a Globo não saiba disso.
Uma
provocação: quem está mais próximo dos moradores da periferia com quem a
relação é mais horizontal? Partidos, movimentos sociais ou pastores? As igrejas
neopentecostais têm uma relação alienadora com os fiéis, como imagina a
esquerda?
Pastores,
sem dúvida. Os mercados que mais crescem nas periferias, nas últimas décadas,
são os ilegais e os evangélicos, além de serviços e atendimentos. As igrejas
evangélicas são também elas muito heterogêneas, não dá para generalizar. Seu
liberalismo de base, a teologia meritocrática da prosperidade, é muito
conservador; mas elas estão próximas e isso se reconhece. Se as esquerdas não
as disputarem, ao mesmo tempo em que disputarem os espaços políticos
estratégicos hoje com elas, vão perder ainda mais presença nas periferias.
Crédito
da imagem destacada: José Cícero da Silva/DiCampana Foto Coletivo
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