Sobre o debate, ainda tenho mais o que comentar. Parece-me que os presidenciáveis, excetuando o Plinio, padeceram por uma completa, uma absoluta desfaçatez.
Marina não poderia ser alcunhada mais brilhantemente do que de ecocapitalista. Ah, sim, o desenvolvimento deve ser sustentável, ah, sim, a geração de empregos deve contemplar o respeito ao meio ambiente, ah, sim, o crescimento econômico não pode ocorrer prejudicando a natureza, ah, sim, é possível conciliar estas duas forças antagônicas, ah, sim, papai Noel manda lembranças.
Serra defendeu a reforma agrária, políticas sociais, e até se referiu num tom favorável aos sindicatos. Ah, claro, é um ótimo negociador, um grande democrata, acredita mesmo na negociação sindicato-patrão: os cassetetes da PM paulista contra os professores que o digam.
Dilma já segue o caminho inverso. Não defendeu causas progressistas, causas trabalhistas, parece que seu passado é vinculado não a esquerda, mas ao atraso. A sua recusa em defender as 40 horas semanais de trabalho deu simplesmente nojo. Nojo. Defende somente o governo Lula. Passou ao largo minimamente deste governo, ela se esquiva, se esconde.
É um grave erro grave ela abandonar sua ideologia em nome de uma conjuntura político-eleitoral. Sobre o que ocorre com a Dilma, relembro-me de um adágio de Ralph Waldo Emerson: “É uma lição que a história ensina aos homens sábios: de confiar em idéias, e não em circunstâncias”. O pior de tudo, mesmo é se ela de fato passou a acreditar nas barbaridades que está defendendo, como a independência do BC.
Talvez devido à proximidade com Palocci (este demo-tucano infiltrado no PT), ela vai se direcionando cada vez mais para a direita.
A incrível explicação de Dilma e Serra, de que o tempo de 40 horas semanais não pode ser aplicado em todo o Brasil devido às diferentes condições sócio-econômicas em cada região, mais parece uma explicação da teoria da relatividade. Como explica a teoria, o tempo não é constante, pode variar em determinadas condições. Porém, para estes candidatos, o que faz o tempo contar diferente são as regiões onde ele é contado (e não o aumento da velocidade a valores magnânimos, como explica a teoria). As 40 horas da região sul são diferentes das 40 horas da região nordeste. ¿Como explicar uma loucura destas?
Porém, se para Einstein a única coisa que não varia é a velocidade da luz, para estes dois candidatos, o que não parece variar é a sua completa submissão, sua completa subjugação ao capital.
Plinio venceu o debate não só porque, em minha opinião, tem uma ideologia mais favorável, isto é particular, varia de cada um pra cada qual, não o considero vencedor por isto.
Venceu o debate incontestavelmente porque foi o único que não fingiu, não inventou, não escamoteou. Disse a que veio, o que pensava, o que sentia. Isto, sem recorrer aos arroubos moralistas-direitistas da sua colega de partido Heloísa Helena.
Plinio é um rebelde com causa, ou, para usar palavra fora de moda, um revolucionário. E o que é melhor, um revolucionário que não se esconde.
Os outros três, com suas carapuças, suas máscaras, eram meros embusteiros, meros atores que representaram o tempo todo. Uns estiveram melhor no palco, outros nem tanto (¡precisam decorar melhor as falas!). De qualquer modo, o pecado não foi este. O pecado é que não foram espontâneos, e não foram, porque somente representavam.
Uma lástima.
P.S: como tudo leva a crer que a Dilma será eleita, é com extrema preocupação que observo a importância de Palocci em sua campanha. O governo Lula só começou, de fato, depois que este tucano saiu do governo e os desenvolvimentistas ocuparam o ministério da fazenda. ¿Dilma – e o Brasil, por conseguinte – vai perder quantos anos com o quebrador de sigilos bancários?
domingo, 8 de agosto de 2010
Lembranças de Plinio, um lutador – por Rodrigo Vianna (Escrevinhador)
O Plinio (PSOL) entrou no radar dos tuiteiros e da imprensa em geral, depois da boa atuação no debate da “Band”. Foi como se o Plinio tivesse sido descoberto agora. Engraçado isso.
O candidato a presidente pelo PSOL, aos 80 anos, é das poucas lideranças (com a incômoda companhia de Sarney, talvez) que já faziam política partidária antes de 64, e seguem na ativa até hoje. Plinio era deputado pelo velho PDC (Partido Democrata Cristão) antes do golpe. Apoiava Jango, foi cassado na primeira lista depois do golpe.
Não tenho simpatia pelo PSOL, mas gosto muito do Plinio. Peço licença para algumas reminiscências. Eu o conheci pessoalmente em 88. Plinio tinha disputado a vaga de candidato do PT a Prefeito de São Paulo, com apoio da ala majoritária do partido (Lula e Dirceu incluídos); era considerado um “moderado”. Acabou derrotado por Luiza Erundina, tida como “radical”. O que fez? terminada a prévia, correu pro comitê de Erundina e declarou apoio aberto, total. Ao contrário de setores majoritários do PT, que torciam o nariz pra Erundina, Plinio foi leal durante a campanha (como Brizola faria com Lula em 89), e parceiro durante o difícil mandato de Erundina na Prefeitura.
Guardo daquela época ótimas lembranças. Uma delas é a dedicatória que Plinio fez no exemplar da “Constituição Cidadã” que acabava de ser aprovada, e que eu ganhara de meu pai. ”Para o Rodrigo, a certeza de que, se lutarmos bastante, viveremos em um país bem melhor”, escreveu ele – que ajudara a redigir a nova Carta como deputado constituinte.
Plinio seguiu lutando. Costumava reunir muita gente em reuniões aos sábados, para debater a “Conjuntura Nacional”. Muitas aconteciam nos fundos de igrejas em São Paulo. Plinio tinha o apoio da velha guarda da esquerda católica (que logo depois seria dizimada por Ratzinger). Mas havia também o pessoal jovem, recém-saído da universidade e sem qualquer vínculo com a Igreja, alguns que tinham até certa ligação com o PCB (como esse que escreve).
No fim dos anos 80, Plinio e Chico Whitaker (então vereador pelo PT) alugaram uma casa na Barra Funda em São Paulo (a “casa da rua Marta”), onde reuniam jovens economistas, cientistas políticos, jornalistas, historiadores, sindicalistas e militantes em geral. A idéia era formular propostas para o debate interno no PT e na esquerda. Lembro bem que o Plinio achava um equívoco formulações de petistas que, naquela época, apostavam na formação de “conselhos populares” (sovietes?!) para substituir o poder das Câmaras Municipais e assim criar o embrião de uma nova “institucionalidade”.
Para ele (e eu concordava), era coisa de gente fora da realidade: “isso só se faz em conjunturas revolucionárias; no Brasil, a luta atual é pra melhorar a democracia”, dizia. Mas, aos poucos, o Plinio mudaria.
Em 90, virou candidato ao governo de São Paulo. E lá fui eu ajudar na campanha. A ala majoritária do PT não se esforçou muito, e ele teve cerca de 10% dos votos. Plinio já começava a mostrar uma característica que só se aprofundaria nos anos seguintes: um certo desânimo com a política puramente institucional, e a aposta no fortalecimento dos movimentos sociais. No segundo turno pra governador em 90, sobraram Fleury (PMDB) e Maluf (PDS). Plinio defendia voto nulo. A turma que se reunia na rua Marta reagiu. Nunca vi aquilo. O velho militante teve que engolir jovens militantes a dizer que era necessário votar em Fleuy, sim, para derrotar o “inimigo principal”.
Lembro de uma jovem amiga, arquiteta e muito inflamada, dizendo que Plinio estava sendo sectário, míope. Ele só franzia a testa, como faz até hoje nos momentos de gravidade. Mostrou grandeza porque ouviu tudo calado. Mas no dia seguinte saiu na imprensa que ele pessoalmente pregaria voto nulo – sim! Acabei votando no Fleury no segundo turno (será que o Plinio é que estava certo?).
O velho militante católico, moderado, caminhava para a esquerda. Sairia do PT quinze anos depois, seguindo os mesmo passos de Erundina e Chico Whitaker. Ao longo dos anos, Maluf – ex ”inimigo principal” – virou aliado do governo Lula em alguns momentos. Fleury sumiu. Acho que está no PTB (partido que também compôs a base de Lula).
Plinio se aprofundou nas questões sociais. Venceu um câncer, e seguiu a militar pela Reforma Agrária. Passei anos sem falar com ele (eu estava tentando ganhar a vida, trabalhando feito louco como jornalista, distante dos debates). Até que em 2005 nos reencontramos: eu era repórter da Globo, e ele candidato a presidente do PT, durante a crise pós-Mensalão. Bem-humorado, interrompeu a coletiva no meio da rua, pra dizer: “esse aqui, olha, já trabalhou comigo, agora está aí na Globo…” Falou sem ódio, bem-humorado. Eram os fatos.
Em 2006, uma boa surpresa: quando saí da Globo, de forma tumultuada, recebi centenas de telefonemas de apoio e solidariedade. Um deles me emocionou especialmente. Era Plinio: “Olha, Rodrigo, eu já tô meio velho mas sigo por aqui, se precisar de mim sabe que não fujo da briga”. Fiquei surpreso, e grato. Essas coisas a gente não esquece. Gosto de quem não foge da briga, e mais anda de quem é capaz de fazer isso sem agressividade desmedida. É o caso do Plinio.
Nos últimos anos, retomamos algum contato: em entrevistas na “Record News”, em festas na casa de amigos comuns. Há 40 anos de diferença separando Plinio e esse humilde escrevinhador. Mas há uma ligação afetiva que não se desfaz.
Não concordo com tudo o que ele diz. Acho que a esquerda deveria reconhecer os avanços da era Lula. Deveria partir disso para construir uma alternativa melhor, e não atacar o legado de Lula. Por essa razão, provavelmente, não votarei nele dessa vez. Mas minha admiração e meu respeito pelo Plinio são irrevogáveis.
Quando eu o vi brilhar sozinho, no chato debate da “Band”, relembrei todas essas histórias. E, sozinho na sala de casa, vibrei comigo mesmo: “dá-lhe, Plinio!” Já passou da hora de alguém escrever a biografia do Plinio, um lutador, um cristão socialista que ama o Brasil.
O candidato a presidente pelo PSOL, aos 80 anos, é das poucas lideranças (com a incômoda companhia de Sarney, talvez) que já faziam política partidária antes de 64, e seguem na ativa até hoje. Plinio era deputado pelo velho PDC (Partido Democrata Cristão) antes do golpe. Apoiava Jango, foi cassado na primeira lista depois do golpe.
Não tenho simpatia pelo PSOL, mas gosto muito do Plinio. Peço licença para algumas reminiscências. Eu o conheci pessoalmente em 88. Plinio tinha disputado a vaga de candidato do PT a Prefeito de São Paulo, com apoio da ala majoritária do partido (Lula e Dirceu incluídos); era considerado um “moderado”. Acabou derrotado por Luiza Erundina, tida como “radical”. O que fez? terminada a prévia, correu pro comitê de Erundina e declarou apoio aberto, total. Ao contrário de setores majoritários do PT, que torciam o nariz pra Erundina, Plinio foi leal durante a campanha (como Brizola faria com Lula em 89), e parceiro durante o difícil mandato de Erundina na Prefeitura.
Guardo daquela época ótimas lembranças. Uma delas é a dedicatória que Plinio fez no exemplar da “Constituição Cidadã” que acabava de ser aprovada, e que eu ganhara de meu pai. ”Para o Rodrigo, a certeza de que, se lutarmos bastante, viveremos em um país bem melhor”, escreveu ele – que ajudara a redigir a nova Carta como deputado constituinte.
Plinio seguiu lutando. Costumava reunir muita gente em reuniões aos sábados, para debater a “Conjuntura Nacional”. Muitas aconteciam nos fundos de igrejas em São Paulo. Plinio tinha o apoio da velha guarda da esquerda católica (que logo depois seria dizimada por Ratzinger). Mas havia também o pessoal jovem, recém-saído da universidade e sem qualquer vínculo com a Igreja, alguns que tinham até certa ligação com o PCB (como esse que escreve).
No fim dos anos 80, Plinio e Chico Whitaker (então vereador pelo PT) alugaram uma casa na Barra Funda em São Paulo (a “casa da rua Marta”), onde reuniam jovens economistas, cientistas políticos, jornalistas, historiadores, sindicalistas e militantes em geral. A idéia era formular propostas para o debate interno no PT e na esquerda. Lembro bem que o Plinio achava um equívoco formulações de petistas que, naquela época, apostavam na formação de “conselhos populares” (sovietes?!) para substituir o poder das Câmaras Municipais e assim criar o embrião de uma nova “institucionalidade”.
Para ele (e eu concordava), era coisa de gente fora da realidade: “isso só se faz em conjunturas revolucionárias; no Brasil, a luta atual é pra melhorar a democracia”, dizia. Mas, aos poucos, o Plinio mudaria.
Em 90, virou candidato ao governo de São Paulo. E lá fui eu ajudar na campanha. A ala majoritária do PT não se esforçou muito, e ele teve cerca de 10% dos votos. Plinio já começava a mostrar uma característica que só se aprofundaria nos anos seguintes: um certo desânimo com a política puramente institucional, e a aposta no fortalecimento dos movimentos sociais. No segundo turno pra governador em 90, sobraram Fleury (PMDB) e Maluf (PDS). Plinio defendia voto nulo. A turma que se reunia na rua Marta reagiu. Nunca vi aquilo. O velho militante teve que engolir jovens militantes a dizer que era necessário votar em Fleuy, sim, para derrotar o “inimigo principal”.
Lembro de uma jovem amiga, arquiteta e muito inflamada, dizendo que Plinio estava sendo sectário, míope. Ele só franzia a testa, como faz até hoje nos momentos de gravidade. Mostrou grandeza porque ouviu tudo calado. Mas no dia seguinte saiu na imprensa que ele pessoalmente pregaria voto nulo – sim! Acabei votando no Fleury no segundo turno (será que o Plinio é que estava certo?).
O velho militante católico, moderado, caminhava para a esquerda. Sairia do PT quinze anos depois, seguindo os mesmo passos de Erundina e Chico Whitaker. Ao longo dos anos, Maluf – ex ”inimigo principal” – virou aliado do governo Lula em alguns momentos. Fleury sumiu. Acho que está no PTB (partido que também compôs a base de Lula).
Plinio se aprofundou nas questões sociais. Venceu um câncer, e seguiu a militar pela Reforma Agrária. Passei anos sem falar com ele (eu estava tentando ganhar a vida, trabalhando feito louco como jornalista, distante dos debates). Até que em 2005 nos reencontramos: eu era repórter da Globo, e ele candidato a presidente do PT, durante a crise pós-Mensalão. Bem-humorado, interrompeu a coletiva no meio da rua, pra dizer: “esse aqui, olha, já trabalhou comigo, agora está aí na Globo…” Falou sem ódio, bem-humorado. Eram os fatos.
Em 2006, uma boa surpresa: quando saí da Globo, de forma tumultuada, recebi centenas de telefonemas de apoio e solidariedade. Um deles me emocionou especialmente. Era Plinio: “Olha, Rodrigo, eu já tô meio velho mas sigo por aqui, se precisar de mim sabe que não fujo da briga”. Fiquei surpreso, e grato. Essas coisas a gente não esquece. Gosto de quem não foge da briga, e mais anda de quem é capaz de fazer isso sem agressividade desmedida. É o caso do Plinio.
Nos últimos anos, retomamos algum contato: em entrevistas na “Record News”, em festas na casa de amigos comuns. Há 40 anos de diferença separando Plinio e esse humilde escrevinhador. Mas há uma ligação afetiva que não se desfaz.
Não concordo com tudo o que ele diz. Acho que a esquerda deveria reconhecer os avanços da era Lula. Deveria partir disso para construir uma alternativa melhor, e não atacar o legado de Lula. Por essa razão, provavelmente, não votarei nele dessa vez. Mas minha admiração e meu respeito pelo Plinio são irrevogáveis.
Quando eu o vi brilhar sozinho, no chato debate da “Band”, relembrei todas essas histórias. E, sozinho na sala de casa, vibrei comigo mesmo: “dá-lhe, Plinio!” Já passou da hora de alguém escrever a biografia do Plinio, um lutador, um cristão socialista que ama o Brasil.
"Ninguém vai destruir minha relação com a sociedade" - por Carlos José Marques, Delmo Moreira, Mário Simas Filho e Octávio Costa (Istoé)
“Fico feliz em saber que ninguém quer fazer campanha falando mal de mim”
Antes de iniciar a conversa com ISTOÉ, o presidente Lula mostrou que estava disposto a dar uma entrevista reveladora. “Vamos combinar o seguinte: podem fazer qualquer pergunta, por mais inconveniente que pareça”, disse ele ao ocupar a cabeceira da comprida mesa de reuniões no seu gabinete improvisado no Centro Cultural Banco do Brasil. “Vamos adotar o seguinte: é probido proibir”, afirmou.
E assim foi. Animado, coloquial e bem-humorado, Lula falou por quase duas horas com a equipe de ISTOÉ, sem recusar nenhum tema proposto. Em dois momentos mostrou um especial estado de espírito. Primeiro um largo sorriso quando recebeu de um assessor, durante a entrevista, os dados da última pesquisa Sensus/Ibope que dava 10% de vantagem à sua candidata Dilma Rousseff sobre o oposicionista José Serra. Pouco depois, o presidente ficaria com o olhos marejados quando falava dos principais legados que julga deixar para o País: “Hoje os pobres sabem que podem chegar lá.”
ISTOÉ – O sr. deixa o Planalto como o presidente mais popular da história do País. Como pensa em administrar esse patrimônio depois de sair do governo?
Luiz Inácio Lula da Silva – O meu medo é tomar uma atitude precipitada sobre o que eu vou fazer. Montar alguma coisa e depois de seis meses descobrir que não era aquilo. Então, eu acho que alguém que deixa o mandato, como vou deixar, numa situação graças a Deus muito confortável, tem que dar um tempo de maturação. Preciso de um tempo, quem sabe quatro, cinco, seis meses. Tem que deixar a Dilma construir um governo que seja a cara dela, do jeito dela, e eu ficarei no meu canto, curtindo o fato de ser um ex-presidente da República.
ISTOÉ – Isso é possível, presidente?
Lula – O Felipe González (ex-primeiro-ministro da Espanha) contou-me uma história que eu faço questão de repetir. Ex-presidente é que nem aquele vaso chinês que você ganha de presente. Você não sabe onde colocar o ex-presidente. Ele passa a ser incômodo se não se tocar que é um ex-presidente. Essa é a parte mais séria da história. Quero dar um tempo maior. O que eu pretendo fazer? O acúmulo de acertos nas políticas sociais que nós tivemos no Brasil precisa ser socializado. Eu quero socializar essas políticas com os países da América do Sul, do Caribe, com os países africanos. Eu já tenho muitos convites de países africanos para ir lá e mostrar a ideia e o que nós fizemos. Mas é para ir lá com tempo, para ir a campo.
ISTOÉ – O sr. fará as caravanas internacionais, então?
Lula – Eu não sei se serão as caravanas como as que eu fazia aqui no Brasil. Mas pretendo construir uma equipe de companheiros que acumularam oito anos de experiência no governo e 30 anos de experiência enquanto oposição, para que a gente tente colocar em prática, junto aos governantes dos países mais pobres, as condições de eles terem uma política de desenvolvimento social.
ISTOÉ – É preciso ter um cargo para isso, como o de presidente do Banco Mundial?
Lula – Não. É só a vontade política.
ISTOÉ – Mas vários governantes falam de seu nome para ocupar um organismo internacional multilateral. O que o sr. acha disso?
Lula – Tenho companheiros que falam, olha Lula você vai para a ONU. Eu tenho uma ideia diferente. Acho que a ONU é uma instituição que tem que ser dirigida por um burocrata, que tenha a consciência de que ela é subordinada aos presidentes dos países. Porque se você coloca alguém lá, que, por coincidência, tenha mais força que alguns presidentes, haverá, no mínimo, uma anomalia. Você fica com uma instituição criada para servir os países com gente mandando mais. Imagine se a moda pega e os ex-presidentes americanos resolvem ser secretário-geral da ONU.
“Quando Dilma veio para a Casa Civil percebi que eu estava
diante de um animal político não trabalhado”
“Devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a dor que sente o paciente, ele manejava a economia com a maestria que um economista não teria”
ISTOÉ – Mas o sr. recusaria um convite nessa direção?
Lula – Eu recusaria. Recusaria essa coisa de Banco Mundial. Eu tenho consciência do seguinte: tenho 64 anos e quando deixar a Presidência vou ter 65 anos, logo ainda tenho uma contribuição política para dar ao País. Eu sonho com a construção de uma frente ampla no Brasil. Juntar as forças políticas aqui, construir um programa comum, fazer a reforma partidária, que acho que é uma condição sine qua non para a gente poder mudar em definitivo o Brasil. Temos que fazer a reforma partidária. Isso não é coisa de presidente da República. Isso é coisa dos partidos políticos. E eu, de fora, pretendo ajudar o meu partido a organizar os outros partidos em torno da ideia da reforma política.
ISTOÉ – O projeto de um instituto para irradiar essas ideias também está em curso?
Lula – Também está em conta. Mas agora estou com a minha cabeça voltada para o seguinte: tenho mais cinco meses de governo. Tem muita coisa para acontecer, e sabe do que eu tenho medo? Eu sou muito amante do futebol e o que eu jamais faria como técnico é marcar um gol, correr para a retranca e ficar esperando o adversário vir para cima de mim. Então, tenho muito trabalho pela frente. Quero trabalhar até o dia 31 de dezembro. Tenho agenda até o dia 29 de dezembro, tenho agenda no dia 28 de dezembro, eu quero ter agenda até o último dia de trabalho. No dia que eu entregar a faixa para quem for eleito presidente da República, aí sim...
ISTOÉ – Presidente, pelas pesquisas atuais, há uma grande chance de o sr. entregar a faixa para a ex-ministra Dilma Rousseff. A que o sr. atribui o êxito de Dilma? Foi graças ao empenho do sr.? É o perfil dela?
Lula – Acho que há um conjunto de valores. Primeiro, é preciso ter muita humildade para pedir para o povo votar na Dilma. Um voto é um direito livre e soberano de cada cidadão, mas, como eu passei por aqui oito anos e sei como funciona isso, sinto-me na obrigação de dizer ao povo quem eu entendo que poderia dar continuidade àquilo que nós estamos fazendo. Esta é a primeira coisa com que nós temos que ter todo o cuidado. A segunda coisa é a seguinte: um governo que tem 76% de bom e ótimo nos últimos cinco meses de mandato, um presidente da República que tem 86% de bom e ótimo e se colocar regular vai a 98%, 97% em alguns Estados, é um governo com forte possibilidade de fazer a sucessão. Tem uma aliança política muito forte. Tem muitos candidatos a governador apoiando a ministra Dilma. Ela está muito bem preparada, não tem hoje no Brasil ninguém mais preparado do que a Dilma, do ponto de vista de ter o Brasil na cabeça.
ISTOÉ – Mas o sr. construiu sua candidata do zero, não é, presidente?
Lula – É por isso que nós preparamos o PAC 2. Porque eu poderia deixar para ela preparar em janeiro. Mas o que eu quis na verdade foi, primeiro, definir as obras prioritárias para o Brasil com os governadores e os prefeitos, colocar dinheiro tanto no orçamento quanto na LDO. Então quem começar a governar não vai ter que encher a bola. A bola vai estar cheia e o cara vai começar jogando. Eu acho que a Dilma está extremamente preparada e madura politicamente. Acho que a vantagem da Dilma é que ela não tinha pretensão. Acho que jamais passou pela cabeça da Dilma que ela seria escolhida candidata a presidente da República.
ISTOÉ – E na cabeça do sr. qual foi o primeiro momento?
Lula – O primeiro momento que me veio na cabeça foi quando eu, na Favela da Rocinha, no Rio, disse que ela era a mãe do PAC. Ali, na verdade, eu estava começando a preparar.
ISTOÉ – O sr. chegou já chegou lá com a ideia de fazer essa declaração?
Lula – Foi na hora, em função do clima, que eu falei. E foi importante naquele momento.
ISTOÉ – Muita gente pensava que sua candidata seria a Marina Silva, que, pelo histórico, era considerada o Lula de saias. Por que a Marina Silva não foi a sua escolha?
Lula – Quando a gente vai escolher alguém para ser presidente da República, essa pessoa tem que ter um acúmulo de qualidades, e não apenas um pouco de qualidades. A Marina é minha companheira de 30 anos. Vocês jamais ouvirão da minha boca uma palavra ou uma vírgula que possa falar mal da Marina. Um ano antes de deixar o governo, a Marina pediu demissão. Eu não aceitei a demissão dela por conta da Dilma Rousseff. A Dilma e o Gilberto Carvalho me pediram para convencê-la a ficar. Ela ficou mais um ano, até que quis sair. Até hoje não me explicou por que saiu do PT e eu não fui tomar satisfação do motivo por que ela saiu.
“De vez em quando adoto uma máxima do Chico Buarque:
tem que ouvir o ministério do que vai dar merda”
“O parlamentarismo não dará certo, como não dará
certo uma cooperativa se você criá-la de cima para baixo”
“É muito melhor para o candidato se ele tiver um presidente
do qual não tenha vergonha de dizer que é apoiado por
ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton”
ISTOÉ – Antes da Dilma, o sr. chegou a pensar em outros nomes? No seu primeiro mandato havia Palocci, José Dirceu...
Lula – Obviamente, se não tivesse acontecido com o PT o que aconteceu em 2005, o quadro político poderia ser outro. Mas a Dilma, então, veio para a Casa Civil. E eu já contei que a Dilma foi escolhida ministra de Minas e Energia por conta de uma reunião que eu estava fazendo em São Paulo, preparando 2002. Quando ela chegou, depois de uma hora de reunião, eu falei: é a minha ministra. Tanto é que o Zé Dirceu já tinha feito acordo com o PMDB para ter o Ministério de Minas e Energia e eu disse: “Desfaça tudo porque eu já tenho a ministra.” E ela foi de uma competência exuberante na construção do marco regulatório do modelo de energia elétrica do Brasil. Quando ela veio para a Casa Civil começamos a trabalhar juntos, a nos reunir cotidianamente, a discutir as reuniões. Aí eu percebi que estava diante de um animal político não trabalhado. De um animal político que foi educado a vida inteira para ser técnica. E eu comecei a falar: bom, agora nós temos que descobrir o lado político de Dilma.
ISTOÉ – E como o sr. fez?
Lula – Fui colocando a Dilma em várias reuniões das quais, teoricamente, ela não precisaria participar. Comecei a levá-la para viajar comigo para que começasse a ver o mundo de uma concepção mais política. Eu acho que hoje ela é uma figura extraordinariamente preparada. Lógico que na política você está sempre se preparando. Às vezes, as pessoas ficam comparando a Dilma comigo. Mas não é possível, porque eu venho de um mundo diferente. Comecei diferente. E tenho um acúmulo diferente.
ISTOÉ – Mas a geração é a mesma...
Lula – É a mesma, mas traçamos caminhos diferentes. Eu acho que o que é importante é que ela é hoje uma mulher sem ressentimentos, sem mágoa. Eu conto sempre o dia em que eu desci com Dilma de helicóptero no Quartel do 2º Exército em São Paulo. Quando o helicóptero parou, ela ficou olhando, olhando e disse: “Foi aqui que eu fui trazida quando fui presa.” E depois me disse: “Engraçado, não estou ressentida.” Descemos lá, fomos tomar café, cumprimentamos todo mundo. Eu achei isso um gesto de superação, o que é importante para alguém governar esse país. Quando chega ao cargo de presidente da República, ninguém tem o direito de ter mágoa, rancor, ressentimento, de dizer eu não gosto de fulano. Não tem esse direito.
ISTOÉ – Um dos ministros mais importantes para o sr. foi o Palocci, que agora está na campanha de Dilma. Como o sr. vê o papel dele num eventual futuro governo Dilma?
Lula – Esse é um problema do futuro governo. Mas eu vou dizer o que penso do Palocci. Acho que no Brasil nós temos, se é que temos, raríssimas pessoas com a inteligência política do Palocci. Digo sempre que eu credito uma parte do sucesso do meu governo aos primeiros dois anos, quando nós tivemos que comer carvão em vez de filé mignon. Quando tivemos que trocar todo o capital político que eu tinha por uma política fiscal dura. Assim, a gente pôde chegar aonde chegou. Possivelmente, se não fosse o Palocci, nós não teríamos feito isso. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a dor que sente o paciente, ele manejava a economia com uma maestria que possivelmente um economista não manejasse. Eu devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Ele é um animal político que certamente dará contribuições enormes a esse país. Ele é muito jovem e acho que ainda tem muita contribuição para dar.
ISTOÉ – A Dilma não era uma escolha clara do PT, mas o sr. fez valer sua vontade. O sr. acha que ficou maior do que o PT?
Lula – É humanamente impossível fazer qualquer teste de DNA no PT e não me encontrar lá dentro. Da mesma forma é muito difícil fazer um DNA em mim e não encontrar o PT aqui dentro. O fato de eu ter sido presidente me transformou numa figura infinitamente mais projetada do que o PT. Mas isso não significa que eu seja maior do que o PT. É um partido muito organizado no Brasil inteiro, que tem muita força. Agora, acho que nós temos condições de construir uma coisa mais forte. Eu tenho dito a alguns companheiros que não é uma tarefa fácil, mas eu gostaria de criar, dentro de um processo de reforma política, uma frente ampla de partidos que pudesse construir um programa para o Brasil, mais forte do que um partido. Pode ter gente de todos os partidos, pode ter a maioria dos partidos.
ISTOÉ – Isto seria o fim do PT?
Lula – Não. É uma espécie de seleção brasileira. O Corinthians não deixa de ser Corinthians porque o Mano Menezes convocou o Jucilei. E nenhum time deixa de ser porque teve craques convocados. É uma coisa maior para construir um arco de alianças maior.
ISTOÉ – Esse grupo poderia ter o PSDB?
Lula – Eu acho que acabou o tempo da ilusão em que a gente poderia trabalhar junto com o PSDB. Eu acreditei nisso. E muita gente do PT acreditou nisso.
ISTOÉ – O sr. acha que o PSDB foi para a direita?
Lula – Acho que eles escolheram outro projeto. Vocês estão lembrados que, logo que o Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, ele juntou gente que na época se comportava como de esquerda, como o PPS. Aquelas pessoas achavam que iriam ter uma participação no governo. Qual foi o problema? Foi a reeleição, que conduziu para uma relação promíscua com o Congresso Nacional e a coisa desandou um pouco. Essas coisas são muito fáceis de falar, mas é muito difícil fazer, porque para construir uma frente ampla é preciso construir uma direção partidária, que as pessoas respeitem, que vejam nela uma liderança. De qualquer forma, como vou ter tempo, essa questão política vai voltar com muita força na minha cabeça. Acho que nós temos que fazer um reforma para moralizar a política no Brasil, fortalecer os partidos políticos, para moralizar a fidelidade partidária, para parar com esse negócio de judicializar a política como ela está judicializada. Isso se faz com o debate político. E eu quero estar vivo no debate político.
“O que leva um homem a ter preconceito contra um ser humano que o carregou na barriga nove meses? Que o limpou enquanto ele não sabia se limpar? Vamos ser francos: o nosso caráter é o da nossa mãe”
ISTOÉ – Como sua imagem, que nem os adversários atacam nesta campanha, pode ser usada sem ofuscar a candidata? Qual é a dosagem certa?
Lula – Fico feliz em saber que ninguém quer fazer campanha falando mal de mim. É uma coisa boa, é agradável. Mas eu tenho um lado, um partido e um candidato. E isso eu faço questão de deixar público durante o processo eleitoral. Uma coisa a gente tem que compreender: eu cito muito futebol porque futebol é a coisa mais fácil do povo entender. Não existe a possibilidade de o Lula ofuscar a grandeza da candidata, porque vai chegando o momento em que o clima na sociedade, na imprensa, no debate, é da candidata, não é do presidente. A sociedade vai percebendo isso. É muito melhor para a candidata se ela tiver um presidente que ela não tenha que ter vergonha de dizer que é apoiada por ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton.
ISTOÉ – O PT não terá mais influência num governo de Dilma do que teve no seu?
Lula – Quem fala isso não conhece a Dilma. Ela é uma mulher de personalidade muito forte. O PT está na direção da campanha da Dilma, como estava na direção da minha.
ISTOÉ – Mesmo o relacionamento do sr. com o PT foi mudando...
Lula – A minha relação com o PT era diferente porque eu fui o criador do PT. Fui 13 anos presidente do PT. A minha relação com o partido sempre foi diferente da relação da Dilma, que é uma filiada. A direção do PT hoje está totalmente afinada com a candidata e a candidata totalmente afinada com a direção.
ISTOÉ – E aquele episódio do programa de governo diferente, apresentado pelo PT?
Lula – Vocês não podem errar e confundir uma tese com o programa. Quando se constrói um programa suprapartidário, cada partido constrói uma palavra, uma vírgula. Enquanto não há operação definitiva que diga “está pronto o programa”, não é programa, é pré-programa. E no pré-programa entra qualquer coisa. O programa não é do PT nem pode ser. O programa tem que ser uma síntese do pensamento dos partidos que compõem a base de apoio da ministra Dilma. É com isso que ela vai governar o País. E ela e o partido têm clareza disso.
ISTOÉ – O sr. acha que ela conseguirá ter ascendência política sobre o partido?
Lula – Vai ter. Deus queira que ela não tenha muita ascendência, porque não é importante que a candidata passe a ser muito mais forte, porque pode querer desrespeitar o partido. Eu quero que ela passe a ter uma relação com o partido de liderança, de respeito, que não tenham medo dela. Eu quero que os dois se respeitem. Se os dois se respeitarem, eles vão divergir, vão brigar, mas vão construir o melhor.
ISTOÉ – Como o sr. vê a relação com o PMDB, tradicionalmente fisiológico, que exige ministérios e muitos cargos no governo?
Lula – Eu não acho que seja assim. Nós temos que levar em conta que o PMDB é um partido forte. E que continuará sendo. É um partido que tem muitos vereadores, muitos prefeitos, muitos deputados, muitos senadores. Sempre, qualquer que seja o governo, de ultraesquerda ou de ultradireita, será preciso trabalhar com o PMDB. Quando nós fizemos a Constituição de 1988, esse foi um equívoco. Nós construímos uma carta parlamentarista. Fizemos um plebiscito e o parlamentarismo tomou uma trolha de 80%. Só para vocês saberem, a direção do PT, da qual eu fazia parte, era parlamentarista. Mas eu ia para o debate e o pessoal falava assim para mim: “Ô Lula! Você é tonto, rapaz! Agora que está chegando a hora de a gente chegar ao poder você quer transferir poder para o Congresso te eleger? Não vão te eleger nunca.” Nós perdemos internamente no PT. A direção tomou uma surra. Acho que mais de 70% ficaram contra a direção.
ISTOÉ – O sr. continua parlamentarista?
Lula – Eu acho que tudo está ligado à evolução cultural da sociedade. O parlamentarismo não dará certo, como não dará certo uma cooperativa, se você criá-lo de cima para baixo. Eu, por exemplo, trabalhava com a ideia de que era favorável ao voto distrital. Como eu imaginei organizar o PT por núcleos, em cada rua, em cada vila, pensava numa organização tão forte que não haveria dinheiro no mundo capaz de ganhar uma eleição de você. Eu sonhava isso. Você teria como candidatos as grande personalidades e as lideranças sociais. Mas muita gente no PT não acreditava nisso. Defendiam que tem que se pedir voto para todo mundo. Mas essa história favorece quem? Quem tem dinheiro. Eu conheci deputado que pegava helicóptero e viajava para o interior para passar a tarde carregando gente. Parava em campo de futebol, colocava o sujeito dentro do helicóptero e dava uma volta. Ganhava o voto do tadinho que nunca andou de helicóptero. Mas também esse processo de mudança não pode ser um estupro. Ter a maioria e empurrar na garganta da minoria, não. O problema é que não há muito debate.
Antes de iniciar a conversa com ISTOÉ, o presidente Lula mostrou que estava disposto a dar uma entrevista reveladora. “Vamos combinar o seguinte: podem fazer qualquer pergunta, por mais inconveniente que pareça”, disse ele ao ocupar a cabeceira da comprida mesa de reuniões no seu gabinete improvisado no Centro Cultural Banco do Brasil. “Vamos adotar o seguinte: é probido proibir”, afirmou.
E assim foi. Animado, coloquial e bem-humorado, Lula falou por quase duas horas com a equipe de ISTOÉ, sem recusar nenhum tema proposto. Em dois momentos mostrou um especial estado de espírito. Primeiro um largo sorriso quando recebeu de um assessor, durante a entrevista, os dados da última pesquisa Sensus/Ibope que dava 10% de vantagem à sua candidata Dilma Rousseff sobre o oposicionista José Serra. Pouco depois, o presidente ficaria com o olhos marejados quando falava dos principais legados que julga deixar para o País: “Hoje os pobres sabem que podem chegar lá.”
ISTOÉ – O sr. deixa o Planalto como o presidente mais popular da história do País. Como pensa em administrar esse patrimônio depois de sair do governo?
Luiz Inácio Lula da Silva – O meu medo é tomar uma atitude precipitada sobre o que eu vou fazer. Montar alguma coisa e depois de seis meses descobrir que não era aquilo. Então, eu acho que alguém que deixa o mandato, como vou deixar, numa situação graças a Deus muito confortável, tem que dar um tempo de maturação. Preciso de um tempo, quem sabe quatro, cinco, seis meses. Tem que deixar a Dilma construir um governo que seja a cara dela, do jeito dela, e eu ficarei no meu canto, curtindo o fato de ser um ex-presidente da República.
ISTOÉ – Isso é possível, presidente?
Lula – O Felipe González (ex-primeiro-ministro da Espanha) contou-me uma história que eu faço questão de repetir. Ex-presidente é que nem aquele vaso chinês que você ganha de presente. Você não sabe onde colocar o ex-presidente. Ele passa a ser incômodo se não se tocar que é um ex-presidente. Essa é a parte mais séria da história. Quero dar um tempo maior. O que eu pretendo fazer? O acúmulo de acertos nas políticas sociais que nós tivemos no Brasil precisa ser socializado. Eu quero socializar essas políticas com os países da América do Sul, do Caribe, com os países africanos. Eu já tenho muitos convites de países africanos para ir lá e mostrar a ideia e o que nós fizemos. Mas é para ir lá com tempo, para ir a campo.
ISTOÉ – O sr. fará as caravanas internacionais, então?
Lula – Eu não sei se serão as caravanas como as que eu fazia aqui no Brasil. Mas pretendo construir uma equipe de companheiros que acumularam oito anos de experiência no governo e 30 anos de experiência enquanto oposição, para que a gente tente colocar em prática, junto aos governantes dos países mais pobres, as condições de eles terem uma política de desenvolvimento social.
ISTOÉ – É preciso ter um cargo para isso, como o de presidente do Banco Mundial?
Lula – Não. É só a vontade política.
ISTOÉ – Mas vários governantes falam de seu nome para ocupar um organismo internacional multilateral. O que o sr. acha disso?
Lula – Tenho companheiros que falam, olha Lula você vai para a ONU. Eu tenho uma ideia diferente. Acho que a ONU é uma instituição que tem que ser dirigida por um burocrata, que tenha a consciência de que ela é subordinada aos presidentes dos países. Porque se você coloca alguém lá, que, por coincidência, tenha mais força que alguns presidentes, haverá, no mínimo, uma anomalia. Você fica com uma instituição criada para servir os países com gente mandando mais. Imagine se a moda pega e os ex-presidentes americanos resolvem ser secretário-geral da ONU.
“Quando Dilma veio para a Casa Civil percebi que eu estava
diante de um animal político não trabalhado”
“Devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a dor que sente o paciente, ele manejava a economia com a maestria que um economista não teria”
ISTOÉ – Mas o sr. recusaria um convite nessa direção?
Lula – Eu recusaria. Recusaria essa coisa de Banco Mundial. Eu tenho consciência do seguinte: tenho 64 anos e quando deixar a Presidência vou ter 65 anos, logo ainda tenho uma contribuição política para dar ao País. Eu sonho com a construção de uma frente ampla no Brasil. Juntar as forças políticas aqui, construir um programa comum, fazer a reforma partidária, que acho que é uma condição sine qua non para a gente poder mudar em definitivo o Brasil. Temos que fazer a reforma partidária. Isso não é coisa de presidente da República. Isso é coisa dos partidos políticos. E eu, de fora, pretendo ajudar o meu partido a organizar os outros partidos em torno da ideia da reforma política.
ISTOÉ – O projeto de um instituto para irradiar essas ideias também está em curso?
Lula – Também está em conta. Mas agora estou com a minha cabeça voltada para o seguinte: tenho mais cinco meses de governo. Tem muita coisa para acontecer, e sabe do que eu tenho medo? Eu sou muito amante do futebol e o que eu jamais faria como técnico é marcar um gol, correr para a retranca e ficar esperando o adversário vir para cima de mim. Então, tenho muito trabalho pela frente. Quero trabalhar até o dia 31 de dezembro. Tenho agenda até o dia 29 de dezembro, tenho agenda no dia 28 de dezembro, eu quero ter agenda até o último dia de trabalho. No dia que eu entregar a faixa para quem for eleito presidente da República, aí sim...
ISTOÉ – Presidente, pelas pesquisas atuais, há uma grande chance de o sr. entregar a faixa para a ex-ministra Dilma Rousseff. A que o sr. atribui o êxito de Dilma? Foi graças ao empenho do sr.? É o perfil dela?
Lula – Acho que há um conjunto de valores. Primeiro, é preciso ter muita humildade para pedir para o povo votar na Dilma. Um voto é um direito livre e soberano de cada cidadão, mas, como eu passei por aqui oito anos e sei como funciona isso, sinto-me na obrigação de dizer ao povo quem eu entendo que poderia dar continuidade àquilo que nós estamos fazendo. Esta é a primeira coisa com que nós temos que ter todo o cuidado. A segunda coisa é a seguinte: um governo que tem 76% de bom e ótimo nos últimos cinco meses de mandato, um presidente da República que tem 86% de bom e ótimo e se colocar regular vai a 98%, 97% em alguns Estados, é um governo com forte possibilidade de fazer a sucessão. Tem uma aliança política muito forte. Tem muitos candidatos a governador apoiando a ministra Dilma. Ela está muito bem preparada, não tem hoje no Brasil ninguém mais preparado do que a Dilma, do ponto de vista de ter o Brasil na cabeça.
ISTOÉ – Mas o sr. construiu sua candidata do zero, não é, presidente?
Lula – É por isso que nós preparamos o PAC 2. Porque eu poderia deixar para ela preparar em janeiro. Mas o que eu quis na verdade foi, primeiro, definir as obras prioritárias para o Brasil com os governadores e os prefeitos, colocar dinheiro tanto no orçamento quanto na LDO. Então quem começar a governar não vai ter que encher a bola. A bola vai estar cheia e o cara vai começar jogando. Eu acho que a Dilma está extremamente preparada e madura politicamente. Acho que a vantagem da Dilma é que ela não tinha pretensão. Acho que jamais passou pela cabeça da Dilma que ela seria escolhida candidata a presidente da República.
ISTOÉ – E na cabeça do sr. qual foi o primeiro momento?
Lula – O primeiro momento que me veio na cabeça foi quando eu, na Favela da Rocinha, no Rio, disse que ela era a mãe do PAC. Ali, na verdade, eu estava começando a preparar.
ISTOÉ – O sr. chegou já chegou lá com a ideia de fazer essa declaração?
Lula – Foi na hora, em função do clima, que eu falei. E foi importante naquele momento.
ISTOÉ – Muita gente pensava que sua candidata seria a Marina Silva, que, pelo histórico, era considerada o Lula de saias. Por que a Marina Silva não foi a sua escolha?
Lula – Quando a gente vai escolher alguém para ser presidente da República, essa pessoa tem que ter um acúmulo de qualidades, e não apenas um pouco de qualidades. A Marina é minha companheira de 30 anos. Vocês jamais ouvirão da minha boca uma palavra ou uma vírgula que possa falar mal da Marina. Um ano antes de deixar o governo, a Marina pediu demissão. Eu não aceitei a demissão dela por conta da Dilma Rousseff. A Dilma e o Gilberto Carvalho me pediram para convencê-la a ficar. Ela ficou mais um ano, até que quis sair. Até hoje não me explicou por que saiu do PT e eu não fui tomar satisfação do motivo por que ela saiu.
“De vez em quando adoto uma máxima do Chico Buarque:
tem que ouvir o ministério do que vai dar merda”
“O parlamentarismo não dará certo, como não dará
certo uma cooperativa se você criá-la de cima para baixo”
“É muito melhor para o candidato se ele tiver um presidente
do qual não tenha vergonha de dizer que é apoiado por
ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton”
ISTOÉ – Antes da Dilma, o sr. chegou a pensar em outros nomes? No seu primeiro mandato havia Palocci, José Dirceu...
Lula – Obviamente, se não tivesse acontecido com o PT o que aconteceu em 2005, o quadro político poderia ser outro. Mas a Dilma, então, veio para a Casa Civil. E eu já contei que a Dilma foi escolhida ministra de Minas e Energia por conta de uma reunião que eu estava fazendo em São Paulo, preparando 2002. Quando ela chegou, depois de uma hora de reunião, eu falei: é a minha ministra. Tanto é que o Zé Dirceu já tinha feito acordo com o PMDB para ter o Ministério de Minas e Energia e eu disse: “Desfaça tudo porque eu já tenho a ministra.” E ela foi de uma competência exuberante na construção do marco regulatório do modelo de energia elétrica do Brasil. Quando ela veio para a Casa Civil começamos a trabalhar juntos, a nos reunir cotidianamente, a discutir as reuniões. Aí eu percebi que estava diante de um animal político não trabalhado. De um animal político que foi educado a vida inteira para ser técnica. E eu comecei a falar: bom, agora nós temos que descobrir o lado político de Dilma.
ISTOÉ – E como o sr. fez?
Lula – Fui colocando a Dilma em várias reuniões das quais, teoricamente, ela não precisaria participar. Comecei a levá-la para viajar comigo para que começasse a ver o mundo de uma concepção mais política. Eu acho que hoje ela é uma figura extraordinariamente preparada. Lógico que na política você está sempre se preparando. Às vezes, as pessoas ficam comparando a Dilma comigo. Mas não é possível, porque eu venho de um mundo diferente. Comecei diferente. E tenho um acúmulo diferente.
ISTOÉ – Mas a geração é a mesma...
Lula – É a mesma, mas traçamos caminhos diferentes. Eu acho que o que é importante é que ela é hoje uma mulher sem ressentimentos, sem mágoa. Eu conto sempre o dia em que eu desci com Dilma de helicóptero no Quartel do 2º Exército em São Paulo. Quando o helicóptero parou, ela ficou olhando, olhando e disse: “Foi aqui que eu fui trazida quando fui presa.” E depois me disse: “Engraçado, não estou ressentida.” Descemos lá, fomos tomar café, cumprimentamos todo mundo. Eu achei isso um gesto de superação, o que é importante para alguém governar esse país. Quando chega ao cargo de presidente da República, ninguém tem o direito de ter mágoa, rancor, ressentimento, de dizer eu não gosto de fulano. Não tem esse direito.
ISTOÉ – Um dos ministros mais importantes para o sr. foi o Palocci, que agora está na campanha de Dilma. Como o sr. vê o papel dele num eventual futuro governo Dilma?
Lula – Esse é um problema do futuro governo. Mas eu vou dizer o que penso do Palocci. Acho que no Brasil nós temos, se é que temos, raríssimas pessoas com a inteligência política do Palocci. Digo sempre que eu credito uma parte do sucesso do meu governo aos primeiros dois anos, quando nós tivemos que comer carvão em vez de filé mignon. Quando tivemos que trocar todo o capital político que eu tinha por uma política fiscal dura. Assim, a gente pôde chegar aonde chegou. Possivelmente, se não fosse o Palocci, nós não teríamos feito isso. Talvez pela qualidade de médico, de não sentir a dor que sente o paciente, ele manejava a economia com uma maestria que possivelmente um economista não manejasse. Eu devo muito do sucesso do meu governo ao Palocci. Ele é um animal político que certamente dará contribuições enormes a esse país. Ele é muito jovem e acho que ainda tem muita contribuição para dar.
ISTOÉ – A Dilma não era uma escolha clara do PT, mas o sr. fez valer sua vontade. O sr. acha que ficou maior do que o PT?
Lula – É humanamente impossível fazer qualquer teste de DNA no PT e não me encontrar lá dentro. Da mesma forma é muito difícil fazer um DNA em mim e não encontrar o PT aqui dentro. O fato de eu ter sido presidente me transformou numa figura infinitamente mais projetada do que o PT. Mas isso não significa que eu seja maior do que o PT. É um partido muito organizado no Brasil inteiro, que tem muita força. Agora, acho que nós temos condições de construir uma coisa mais forte. Eu tenho dito a alguns companheiros que não é uma tarefa fácil, mas eu gostaria de criar, dentro de um processo de reforma política, uma frente ampla de partidos que pudesse construir um programa para o Brasil, mais forte do que um partido. Pode ter gente de todos os partidos, pode ter a maioria dos partidos.
ISTOÉ – Isto seria o fim do PT?
Lula – Não. É uma espécie de seleção brasileira. O Corinthians não deixa de ser Corinthians porque o Mano Menezes convocou o Jucilei. E nenhum time deixa de ser porque teve craques convocados. É uma coisa maior para construir um arco de alianças maior.
ISTOÉ – Esse grupo poderia ter o PSDB?
Lula – Eu acho que acabou o tempo da ilusão em que a gente poderia trabalhar junto com o PSDB. Eu acreditei nisso. E muita gente do PT acreditou nisso.
ISTOÉ – O sr. acha que o PSDB foi para a direita?
Lula – Acho que eles escolheram outro projeto. Vocês estão lembrados que, logo que o Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, ele juntou gente que na época se comportava como de esquerda, como o PPS. Aquelas pessoas achavam que iriam ter uma participação no governo. Qual foi o problema? Foi a reeleição, que conduziu para uma relação promíscua com o Congresso Nacional e a coisa desandou um pouco. Essas coisas são muito fáceis de falar, mas é muito difícil fazer, porque para construir uma frente ampla é preciso construir uma direção partidária, que as pessoas respeitem, que vejam nela uma liderança. De qualquer forma, como vou ter tempo, essa questão política vai voltar com muita força na minha cabeça. Acho que nós temos que fazer um reforma para moralizar a política no Brasil, fortalecer os partidos políticos, para moralizar a fidelidade partidária, para parar com esse negócio de judicializar a política como ela está judicializada. Isso se faz com o debate político. E eu quero estar vivo no debate político.
“Tem rico que vem aqui, te pede um bilhão de reais e sai falando mal de você. O pobre te pede dez reais e fica agradecido pelo resto da vida”
“O que leva um homem a ter preconceito contra um ser humano que o carregou na barriga nove meses? Que o limpou enquanto ele não sabia se limpar? Vamos ser francos: o nosso caráter é o da nossa mãe”
ISTOÉ – Como sua imagem, que nem os adversários atacam nesta campanha, pode ser usada sem ofuscar a candidata? Qual é a dosagem certa?
Lula – Fico feliz em saber que ninguém quer fazer campanha falando mal de mim. É uma coisa boa, é agradável. Mas eu tenho um lado, um partido e um candidato. E isso eu faço questão de deixar público durante o processo eleitoral. Uma coisa a gente tem que compreender: eu cito muito futebol porque futebol é a coisa mais fácil do povo entender. Não existe a possibilidade de o Lula ofuscar a grandeza da candidata, porque vai chegando o momento em que o clima na sociedade, na imprensa, no debate, é da candidata, não é do presidente. A sociedade vai percebendo isso. É muito melhor para a candidata se ela tiver um presidente que ela não tenha que ter vergonha de dizer que é apoiada por ele, como o Al Gore fez com o Bill Clinton.
ISTOÉ – O PT não terá mais influência num governo de Dilma do que teve no seu?
Lula – Quem fala isso não conhece a Dilma. Ela é uma mulher de personalidade muito forte. O PT está na direção da campanha da Dilma, como estava na direção da minha.
ISTOÉ – Mesmo o relacionamento do sr. com o PT foi mudando...
Lula – A minha relação com o PT era diferente porque eu fui o criador do PT. Fui 13 anos presidente do PT. A minha relação com o partido sempre foi diferente da relação da Dilma, que é uma filiada. A direção do PT hoje está totalmente afinada com a candidata e a candidata totalmente afinada com a direção.
ISTOÉ – E aquele episódio do programa de governo diferente, apresentado pelo PT?
Lula – Vocês não podem errar e confundir uma tese com o programa. Quando se constrói um programa suprapartidário, cada partido constrói uma palavra, uma vírgula. Enquanto não há operação definitiva que diga “está pronto o programa”, não é programa, é pré-programa. E no pré-programa entra qualquer coisa. O programa não é do PT nem pode ser. O programa tem que ser uma síntese do pensamento dos partidos que compõem a base de apoio da ministra Dilma. É com isso que ela vai governar o País. E ela e o partido têm clareza disso.
ISTOÉ – O sr. acha que ela conseguirá ter ascendência política sobre o partido?
Lula – Vai ter. Deus queira que ela não tenha muita ascendência, porque não é importante que a candidata passe a ser muito mais forte, porque pode querer desrespeitar o partido. Eu quero que ela passe a ter uma relação com o partido de liderança, de respeito, que não tenham medo dela. Eu quero que os dois se respeitem. Se os dois se respeitarem, eles vão divergir, vão brigar, mas vão construir o melhor.
ISTOÉ – Como o sr. vê a relação com o PMDB, tradicionalmente fisiológico, que exige ministérios e muitos cargos no governo?
Lula – Eu não acho que seja assim. Nós temos que levar em conta que o PMDB é um partido forte. E que continuará sendo. É um partido que tem muitos vereadores, muitos prefeitos, muitos deputados, muitos senadores. Sempre, qualquer que seja o governo, de ultraesquerda ou de ultradireita, será preciso trabalhar com o PMDB. Quando nós fizemos a Constituição de 1988, esse foi um equívoco. Nós construímos uma carta parlamentarista. Fizemos um plebiscito e o parlamentarismo tomou uma trolha de 80%. Só para vocês saberem, a direção do PT, da qual eu fazia parte, era parlamentarista. Mas eu ia para o debate e o pessoal falava assim para mim: “Ô Lula! Você é tonto, rapaz! Agora que está chegando a hora de a gente chegar ao poder você quer transferir poder para o Congresso te eleger? Não vão te eleger nunca.” Nós perdemos internamente no PT. A direção tomou uma surra. Acho que mais de 70% ficaram contra a direção.
ISTOÉ – O sr. continua parlamentarista?
Lula – Eu acho que tudo está ligado à evolução cultural da sociedade. O parlamentarismo não dará certo, como não dará certo uma cooperativa, se você criá-lo de cima para baixo. Eu, por exemplo, trabalhava com a ideia de que era favorável ao voto distrital. Como eu imaginei organizar o PT por núcleos, em cada rua, em cada vila, pensava numa organização tão forte que não haveria dinheiro no mundo capaz de ganhar uma eleição de você. Eu sonhava isso. Você teria como candidatos as grande personalidades e as lideranças sociais. Mas muita gente no PT não acreditava nisso. Defendiam que tem que se pedir voto para todo mundo. Mas essa história favorece quem? Quem tem dinheiro. Eu conheci deputado que pegava helicóptero e viajava para o interior para passar a tarde carregando gente. Parava em campo de futebol, colocava o sujeito dentro do helicóptero e dava uma volta. Ganhava o voto do tadinho que nunca andou de helicóptero. Mas também esse processo de mudança não pode ser um estupro. Ter a maioria e empurrar na garganta da minoria, não. O problema é que não há muito debate.
sábado, 7 de agosto de 2010
Os recordes que nos atormentam – por Washington Novaes (O Estado de São Paulo)
É curioso. O Brasil caminha a passos velozes para uma situação insustentável nas cidades - abarrotadas de veículos presos em congestionamentos cada vez mais longos, enquanto se cultiva o wishful thinking de que é possível seguir com recordes sucessivos nas vendas de carros, estimuladas até com isenção de impostos. Adicionalmente, cultiva-se a tese de que é possível tudo resolver com mais viadutos, túneis, elevados, etc., esquecendo o que disse há mais de 20 anos o arquiteto Jayme Lerner: essas soluções não levam a nada a não ser mudar de lugar os congestionamentos de trânsito. Em julho último, por exemplo, mais 322,4 mil veículos foram emplacados no País; em sete meses, 1,88 milhão. Se forem acrescentadas motocicletas, terão sido 461,6 mil no mês, 2,92 milhões no ano. E todos vieram somar-se aos 27,8 milhões de carros que já circulavam (Estado, 3/8) e aos 8,55 milhões de motos.
Chega-se ao ponto de cidades como Goiânia já se aproximarem da taxa de quase um veículo por habitante, para uma capital desenhada no tempo em que nem sequer se fabulava com essa possibilidade - e, portanto sem prever uma estrutura viária compatível. O resultado é visível nos congestionamentos cada vez mais dramáticos. Mas, apesar disso, continua-se ali a conceder incentivos fiscais para novas indústrias automotivas, que receberam boa parte dos mais de R$ 80 bilhões em incentivos fiscais concedidos pelo Estado (sem falar nas prefeituras) em 20 anos. Ainda há poucas semanas uma indústria desse setor foi contemplada com incentivos de R$ 2,1 bilhões, para investir R$ 105 milhões, 20 vezes menos. Prometendo criar 765 postos de trabalho, ao custo de R$ 275 mil para cada um em incentivos, quando o Banco do Povo, mantido pelo governo estadual, com R$ 600 emprestados (e não doados) cria um posto de trabalho.
Mas Goiás é apenas um dos muitos Estados que assim o fazem, nessa "guerra fiscal". Embora sua receita efetiva de ICMS seja de R$ 11,5 bilhões (2009), neste ano concedeu R$ 3,6 bilhões em incentivos, boa parte deles para outro setor relacionado com o de veículos - usinas de álcool, que até aqui receberam R$ 28,1 bilhões (para R$ 7 bilhões em investimentos próprios). O resultado final é que, com uma dívida de R$ 11,33 bilhões, o Estado perde sua capacidade de investir na própria estrutura viária, para a qual precisaria de R$ 10 bilhões (O Popular, 30/6).
Felizmente, começam a surgir iniciativas em outra direção, como a da Prefeitura de São Paulo, que proibiu caminhões de circular na Marginal do Rio Pinheiros, na Avenida dos Bandeirantes e na Jornalista Roberto Marinho, uma vez que está aberto para eles o Trecho Sul do Rodoanel, construído, ao custo de R$ 5,5 bilhões, para evitar que esse trânsito pesado, principalmente do interior do Estado para o Porto de Santos e o litoral sul, tivesse de passar por aquelas três vias. Já se registram protestos - pedágio e a distância maior encareceriam os custos - e até mesmo desrespeito. Mas, como já observou este jornal em editorial, o custo tem de caber exatamente a esses usuários específicos e não deve ser transferido para toda a sociedade. Até aqui, circulavam pela Marginal do Pinheiros 26 mil caminhões por dia; pela Bandeirantes, 9,5 mil. E a previsão é de que a lentidão no trânsito possa diminuir entre 15% e 20%.
É curioso que ainda se registrem protestos e inconformismo, quando a frota de caminhões, que representa 4% do total de veículos, gera 35% dos congestionamentos (Estado, 2/8). E quando restrições à sua circulação já existiam na década de 1940, quando São Paulo nem sonhava com o trânsito de hoje. Mas já naquela época caminhões de mudanças e de entrega de cargas não podiam circular entre as 7 e as 18 horas.
São Paulo também deverá avançar um pouco mais quando entrarem em vigor em todo o Estado, até dezembro, novos limites para a emissão de poluentes - principalmente material particulado ultrafino -, de acordo com padrões da Organização Mundial de Saúde. Estudos acadêmicos têm mostrado que morrem anualmente na cidade 4 mil pessoas em decorrência de problemas de saúde causados pelas emissões. Não é de estranhar, já que o volume de poeira fina na cidade é o dobro do registrado nos Estados Unidos, por exemplo. As novas regras introduzirão exigências adicionais em licenças ambientais, restrições a veículos (a frota na cidade é de 6,7 milhões de veículos, segundo o Detran) e controle de emissões industriais.
Mas já há um perigo rondando - pressões para que o Conselho Nacional do Meio Ambiente reveja a Resolução n.º 418/09, que estabelece limites para emissões de poluentes por veículos. O argumento é de que as regras são "muito rígidas", pois os veículos que saem hoje das linhas de montagem teriam padrões de emissão superiores aos da frota que já circula.
A sociedade precisa estar atenta. Se é um desejo de cada família ter um veículo próprio - diante da precariedade dos transportes coletivos -, também não se pode, por esse caminho, inviabilizar a qualidade de vida e a saúde de todos. Da mesma forma, é preciso repetir: os ônus da poluição, como de qualquer problema "ambiental", devem ser atribuídos a quem os gera, e não a toda a sociedade, que com eles sofre.
Se ainda faltassem outros motivos para restrições, podem-se lembrar os estudos do economista Nelson Choueri, já citados aqui, sobre os prejuízos econômicos dos congestionamentos de trânsito: 5 milhões de pessoas que se deslocam diariamente na cidade de São Paulo perdem em média duas horas por dia no transporte, ou seja, 10 milhões de horas diárias; multiplicadas pelo valor médio atual da hora de trabalho, em torno de R$ 10, serão R$ 100 milhões por dia, mais de R$ 30 bilhões por ano. Se um valor como esse fosse aplicado na expansão do metrô, por exemplo, em pouco tempo toda a cidade estaria servida. Não dá para converter. Mas serve para avaliar a irracionalidade.
Comentário
Mandar os outros irem de ônibus é uma moleza.
De qualquer modo, como já disse aqui, acho uma pena os governantes não pensarem nas motocicletas em substituição aos carros (que deveriam pagar pedágios nos centros da cidade, para financiar o transporte público).
As motos são muito mais ágeis, leves e econômicas do que os carros, afora o fato de contribuírem significativamente menos com a degradação das vias. E, agora que estão saindo com injeção eletrônica, ficarão menos poluentes, também.
Ah!, pode-se argumentar, as motocicletas são muito perigosas. De fato o são, mas especialmente por causa do excesso de carros, que incita os motociclistas a andarem nos terríveis “corredores”.
Porém, sem o excesso de carros, as motos são veículos muito mais seguros do que o trânsito habitual nos faz crer.
Chega-se ao ponto de cidades como Goiânia já se aproximarem da taxa de quase um veículo por habitante, para uma capital desenhada no tempo em que nem sequer se fabulava com essa possibilidade - e, portanto sem prever uma estrutura viária compatível. O resultado é visível nos congestionamentos cada vez mais dramáticos. Mas, apesar disso, continua-se ali a conceder incentivos fiscais para novas indústrias automotivas, que receberam boa parte dos mais de R$ 80 bilhões em incentivos fiscais concedidos pelo Estado (sem falar nas prefeituras) em 20 anos. Ainda há poucas semanas uma indústria desse setor foi contemplada com incentivos de R$ 2,1 bilhões, para investir R$ 105 milhões, 20 vezes menos. Prometendo criar 765 postos de trabalho, ao custo de R$ 275 mil para cada um em incentivos, quando o Banco do Povo, mantido pelo governo estadual, com R$ 600 emprestados (e não doados) cria um posto de trabalho.
Mas Goiás é apenas um dos muitos Estados que assim o fazem, nessa "guerra fiscal". Embora sua receita efetiva de ICMS seja de R$ 11,5 bilhões (2009), neste ano concedeu R$ 3,6 bilhões em incentivos, boa parte deles para outro setor relacionado com o de veículos - usinas de álcool, que até aqui receberam R$ 28,1 bilhões (para R$ 7 bilhões em investimentos próprios). O resultado final é que, com uma dívida de R$ 11,33 bilhões, o Estado perde sua capacidade de investir na própria estrutura viária, para a qual precisaria de R$ 10 bilhões (O Popular, 30/6).
Felizmente, começam a surgir iniciativas em outra direção, como a da Prefeitura de São Paulo, que proibiu caminhões de circular na Marginal do Rio Pinheiros, na Avenida dos Bandeirantes e na Jornalista Roberto Marinho, uma vez que está aberto para eles o Trecho Sul do Rodoanel, construído, ao custo de R$ 5,5 bilhões, para evitar que esse trânsito pesado, principalmente do interior do Estado para o Porto de Santos e o litoral sul, tivesse de passar por aquelas três vias. Já se registram protestos - pedágio e a distância maior encareceriam os custos - e até mesmo desrespeito. Mas, como já observou este jornal em editorial, o custo tem de caber exatamente a esses usuários específicos e não deve ser transferido para toda a sociedade. Até aqui, circulavam pela Marginal do Pinheiros 26 mil caminhões por dia; pela Bandeirantes, 9,5 mil. E a previsão é de que a lentidão no trânsito possa diminuir entre 15% e 20%.
É curioso que ainda se registrem protestos e inconformismo, quando a frota de caminhões, que representa 4% do total de veículos, gera 35% dos congestionamentos (Estado, 2/8). E quando restrições à sua circulação já existiam na década de 1940, quando São Paulo nem sonhava com o trânsito de hoje. Mas já naquela época caminhões de mudanças e de entrega de cargas não podiam circular entre as 7 e as 18 horas.
São Paulo também deverá avançar um pouco mais quando entrarem em vigor em todo o Estado, até dezembro, novos limites para a emissão de poluentes - principalmente material particulado ultrafino -, de acordo com padrões da Organização Mundial de Saúde. Estudos acadêmicos têm mostrado que morrem anualmente na cidade 4 mil pessoas em decorrência de problemas de saúde causados pelas emissões. Não é de estranhar, já que o volume de poeira fina na cidade é o dobro do registrado nos Estados Unidos, por exemplo. As novas regras introduzirão exigências adicionais em licenças ambientais, restrições a veículos (a frota na cidade é de 6,7 milhões de veículos, segundo o Detran) e controle de emissões industriais.
Mas já há um perigo rondando - pressões para que o Conselho Nacional do Meio Ambiente reveja a Resolução n.º 418/09, que estabelece limites para emissões de poluentes por veículos. O argumento é de que as regras são "muito rígidas", pois os veículos que saem hoje das linhas de montagem teriam padrões de emissão superiores aos da frota que já circula.
A sociedade precisa estar atenta. Se é um desejo de cada família ter um veículo próprio - diante da precariedade dos transportes coletivos -, também não se pode, por esse caminho, inviabilizar a qualidade de vida e a saúde de todos. Da mesma forma, é preciso repetir: os ônus da poluição, como de qualquer problema "ambiental", devem ser atribuídos a quem os gera, e não a toda a sociedade, que com eles sofre.
Se ainda faltassem outros motivos para restrições, podem-se lembrar os estudos do economista Nelson Choueri, já citados aqui, sobre os prejuízos econômicos dos congestionamentos de trânsito: 5 milhões de pessoas que se deslocam diariamente na cidade de São Paulo perdem em média duas horas por dia no transporte, ou seja, 10 milhões de horas diárias; multiplicadas pelo valor médio atual da hora de trabalho, em torno de R$ 10, serão R$ 100 milhões por dia, mais de R$ 30 bilhões por ano. Se um valor como esse fosse aplicado na expansão do metrô, por exemplo, em pouco tempo toda a cidade estaria servida. Não dá para converter. Mas serve para avaliar a irracionalidade.
Comentário
Mandar os outros irem de ônibus é uma moleza.
De qualquer modo, como já disse aqui, acho uma pena os governantes não pensarem nas motocicletas em substituição aos carros (que deveriam pagar pedágios nos centros da cidade, para financiar o transporte público).
As motos são muito mais ágeis, leves e econômicas do que os carros, afora o fato de contribuírem significativamente menos com a degradação das vias. E, agora que estão saindo com injeção eletrônica, ficarão menos poluentes, também.
Ah!, pode-se argumentar, as motocicletas são muito perigosas. De fato o são, mas especialmente por causa do excesso de carros, que incita os motociclistas a andarem nos terríveis “corredores”.
Porém, sem o excesso de carros, as motos são veículos muito mais seguros do que o trânsito habitual nos faz crer.
Lula e Dilma - por Marcos Coimbra (CartaCapital)
Quem acha que a candidata não passa de 40% esquece que o presidente a pôs nesse patamar somente falando dela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto
Uma das coisas engraçadas destas eleições é observar a mudança nos cálculos da oposição sobre o “poder de transferência” de Lula. Já faz mais de um ano que eles são feitos e refeitos, sempre corrigindo para cima a estimativa anterior. Agora, às vésperas do começo da última etapa, com as campanhas chegando à televisão, eles voltaram a mudar, outra vez em sentido ascendente.
Ainda em 2009, não havia quem, nos partidos de oposição, achasse que a aposta de Lula ao indicar Dilma Rousseff daria certo. Além do que entendiam ser suas dificuldades próprias – inexperiência eleitoral, falta de carisma, pouca visibilidade de seu papel no governo (para ficar apenas com as mais citadas) – haveria um limite à transferência de votos de Lula para ela.
Ninguém jamais discutiu que Dilma Rousseff precisaria desses votos. Uma candidata nova, que nunca disputara um cargo importante, sem qualquer notoriedade fora da área técnica do governo, só por milagre alcançaria votação sequer perceptível em uma eleição nacional. Veja-se, para ilustrar, o que aconteceu com Aécio Neves na pré-campanha. Apesar de ser o governador reeleito (e bem avaliado) do segundo maior colégio eleitoral do País, mal alcançava 20% quando teve de desistir, exatamente por lhe faltar maior volume de intenções de voto.
Mesmo sendo Dilma a candidata do PT, de longe o partido com o maior número de filiados e simpatizantes, -suas perspectivas continuavam baixas. O PT, sozinho, seria insuficiente para elegê-la.
Ou seja, para se tornar competitiva diante de José Serra e poder derrotá-lo, Dilma precisava de Lula. Ela sabia disso, ele também, assim como a torcida do Flamengo (e a de todos os seus adversários).
Mas quantos seriam os votos que ele conseguiria repassar? Apesar de sua popularidade e simpatia, não haveria um limite a essa transferência?
Durante o ano passado, quem torcia por Serra, seja no meio político, seja na sociedade civil, escolheu a taxa de 20% como o teto onde a transferência de Lula poderia ir. Até a alcançar, Dilma cresceria sem problemas. Em lá chegando, empacaria. Lula a poria no patamar de 20%, mas, para ultrapassá-lo, a bola estaria com ela. Sozinha, sem bagagem política, seria presa fácil do candidato do PSDB.
Essa proporção não foi inventada, pois se baseava nas respostas de entrevistados nas pesquisas a perguntas sobre sua propensão a votar em “quem quer que fosse o candidato indicado por Lula”. Embora variasse um pouco, conforme o momento e a pesquisa era mesmo isso que diziam as pessoas.
O equívoco foi, no entanto, confundir piso com teto. Os 20% não eram o máximo, mas o mínimo que Lula, sem fazer mais nada, daria a ela.
Ela os superou ainda em outubro de 2009, jogando fora os prognósticos peremptórios que ouvíamos até de especialistas conhecidos. Fixaram, então, uma nova barreira em 30%, e garantiram que, deles, ela não passaria. Coisa que fez em março e continuou subindo. A essa altura, indo cada vez mais além do segmento do eleitorado que votaria de olhos fechados em quem Lula indicasse.
Na última semana de julho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reviu as contas e fixou um novo limite. Para ele, depois de “Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos”, alcançou “um teto”. Agora, finalmente, segundo o ex-presidente, Dilma Rousseff pararia de crescer.
Quem garante isso? De onde vem a convicção, considerando que ela, nos 40% atuais, já está a um passo de ganhar no primeiro turno?
Quem acha que ela não cresce mais deve imaginar que a presença diária de Lula na televisão, depois do dia 17 próximo, não terá qualquer efeito. Que os 85% que o aprovam, os 75% que acham ótimo ou bom seu governo, os muitos que gostam dele e o admiram ficarão indiferentes à sua presença. Que se decepcionarão todos aqueles que só esperam conhecer um pouco a candidata que ele apoia.
Quem acha que ela não passa de 40% esquece que Lula a pôs nesse patamar quase que somente falando nela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto, salvo a meia dúzia de vezes em que usou o tempo de propaganda de seu partido.Quem acha que ela não passa de 40% pode se preparar. Vai, provavelmente, ter uma surpresa.
Uma das coisas engraçadas destas eleições é observar a mudança nos cálculos da oposição sobre o “poder de transferência” de Lula. Já faz mais de um ano que eles são feitos e refeitos, sempre corrigindo para cima a estimativa anterior. Agora, às vésperas do começo da última etapa, com as campanhas chegando à televisão, eles voltaram a mudar, outra vez em sentido ascendente.
Ainda em 2009, não havia quem, nos partidos de oposição, achasse que a aposta de Lula ao indicar Dilma Rousseff daria certo. Além do que entendiam ser suas dificuldades próprias – inexperiência eleitoral, falta de carisma, pouca visibilidade de seu papel no governo (para ficar apenas com as mais citadas) – haveria um limite à transferência de votos de Lula para ela.
Ninguém jamais discutiu que Dilma Rousseff precisaria desses votos. Uma candidata nova, que nunca disputara um cargo importante, sem qualquer notoriedade fora da área técnica do governo, só por milagre alcançaria votação sequer perceptível em uma eleição nacional. Veja-se, para ilustrar, o que aconteceu com Aécio Neves na pré-campanha. Apesar de ser o governador reeleito (e bem avaliado) do segundo maior colégio eleitoral do País, mal alcançava 20% quando teve de desistir, exatamente por lhe faltar maior volume de intenções de voto.
Mesmo sendo Dilma a candidata do PT, de longe o partido com o maior número de filiados e simpatizantes, -suas perspectivas continuavam baixas. O PT, sozinho, seria insuficiente para elegê-la.
Ou seja, para se tornar competitiva diante de José Serra e poder derrotá-lo, Dilma precisava de Lula. Ela sabia disso, ele também, assim como a torcida do Flamengo (e a de todos os seus adversários).
Mas quantos seriam os votos que ele conseguiria repassar? Apesar de sua popularidade e simpatia, não haveria um limite a essa transferência?
Durante o ano passado, quem torcia por Serra, seja no meio político, seja na sociedade civil, escolheu a taxa de 20% como o teto onde a transferência de Lula poderia ir. Até a alcançar, Dilma cresceria sem problemas. Em lá chegando, empacaria. Lula a poria no patamar de 20%, mas, para ultrapassá-lo, a bola estaria com ela. Sozinha, sem bagagem política, seria presa fácil do candidato do PSDB.
Essa proporção não foi inventada, pois se baseava nas respostas de entrevistados nas pesquisas a perguntas sobre sua propensão a votar em “quem quer que fosse o candidato indicado por Lula”. Embora variasse um pouco, conforme o momento e a pesquisa era mesmo isso que diziam as pessoas.
O equívoco foi, no entanto, confundir piso com teto. Os 20% não eram o máximo, mas o mínimo que Lula, sem fazer mais nada, daria a ela.
Ela os superou ainda em outubro de 2009, jogando fora os prognósticos peremptórios que ouvíamos até de especialistas conhecidos. Fixaram, então, uma nova barreira em 30%, e garantiram que, deles, ela não passaria. Coisa que fez em março e continuou subindo. A essa altura, indo cada vez mais além do segmento do eleitorado que votaria de olhos fechados em quem Lula indicasse.
Na última semana de julho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reviu as contas e fixou um novo limite. Para ele, depois de “Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos”, alcançou “um teto”. Agora, finalmente, segundo o ex-presidente, Dilma Rousseff pararia de crescer.
Quem garante isso? De onde vem a convicção, considerando que ela, nos 40% atuais, já está a um passo de ganhar no primeiro turno?
Quem acha que ela não cresce mais deve imaginar que a presença diária de Lula na televisão, depois do dia 17 próximo, não terá qualquer efeito. Que os 85% que o aprovam, os 75% que acham ótimo ou bom seu governo, os muitos que gostam dele e o admiram ficarão indiferentes à sua presença. Que se decepcionarão todos aqueles que só esperam conhecer um pouco a candidata que ele apoia.
Quem acha que ela não passa de 40% esquece que Lula a pôs nesse patamar quase que somente falando nela, sem olhar nos olhos do eleitor e pedir seu voto, salvo a meia dúzia de vezes em que usou o tempo de propaganda de seu partido.Quem acha que ela não passa de 40% pode se preparar. Vai, provavelmente, ter uma surpresa.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Impressões
Lembro-me que nos três primeiros debates de 2002, para mim, o vencedor era sempre o Ciro Gomes, mais loquaz, articulado, falava bonito e de maneira precisa. O perdedor era sempre o Serra, bombardeado pelos três outros candidatos, Lula, Garotinho e Ciro, arcando com o grande desastre do governo FHC.
Já no segundo turno, o debate entre Lula e Serra foi bem equilibrado, com ligeira vantagem para José Serra.
Em 2006, quando achei que o Alckmin tinha ido melhor, quando ele partiu pra cima do presidente, vi no noticiário que ele tinha pecado pelo excesso de agressividade, o que não era bem avaliado pelos eleitores.
Em outro debate achei o Lula superior (justamente quando as análises então feitas disseram que o Alckmin venceu). No terceiro, achei equivalentes, com leve superioridade do tucano.
Pois bem, digo isto porque pelo que entendi, minha opinião não bateu com a maioria das análises então realizadas, de qualquer modo, aí vão minhas singelas impressões.
Ontem eu achei que a Dilma se atrapalhou, não falou bem, não concluiu seus raciocínios por falha no aproveitamento do tempo, balançava demasiadamente o corpo quando respondia (afastando-se, inclusive do microfone), gaguejou várias vezes, respondia virando-se para o candidato, além de estar obviamente nervosa. Como pontos positivos, ela foi muito perguntada, de modo que pôde aparecer mais, e postulou perguntas profícuas.
O Serra teve como pontos negativos, assim como a Dilma, diversas falas cortadas sem conclusão. Além disso, falava dos mutirões da saúde como se fosse o elixir mágico da resolução de todos os problemas deste setor no Brasil, voltando a este ponto repetidamente (no que foi brilhantemente admoestado pelo Plínio como “hipocondríaco”); destacou demasiadamente três cirurgias que diminuíram durante o governo Lula, o que demonstrava que procurou todas, selecionou as que diminuíram e resolveu bombardeá-las. Também perguntou mal, pois só escolhia a Dilma para responder, o que dava mais espaço para ela. Como pontos positivos, articulou bem as respostas, e referiu-se diversas vezes a pontos claros, de fácil compreensão, como as APAE’s.
A Marina parece viver num mundo de ilusão, onde o amor, a boa vontade e a concórdia imperam. É uma pena que o mundo real não seja assim, que as boas ideias também sofram forte oposição, que interesses escusos e/ou conflitantes se digladiem diariamente. Se a realidade humana não fosse esta, ela teria vencido o debate. Como pontos positivos, foi que distribuiu bem as perguntas, além de ter respondido com propriedade, clareza e tranqüilidade.
Já o Plínio de Arruda Sampaio, este, com boa distância, foi o vencedor do debate. Irônico, provocativo, com excelentes perguntas, contrariando o “bom mocismo” como ele mesmo alcunhou dos outros três, foi o diferente, a novidade. Além de ter sido o mais propositivo, das melhores respostas e, em minha opinião particular, ideias. Ele fugiu do moralismo direitista da Heloísa Helena, vinculando-se a ideologia, aos fatos, a novas proposições, novos modos de pensar e agir.
Como ponto negativo o fato dele não ter sido muito questionado, de modo que pouco pôde responder (se os outros debatedores soubessem quão afiado ele estava, aí mesmo é que não perguntariam nada).
De qualquer modo, foi o vencedor do debate, com larga distância. Seguido (já com desempenho bastante similar entre si) por Marina, depois Serra, e em último lugar a Dilma.
Ah! Não assisti ao último bloco. Às 7h da manhã o chicote já está comendo no serviço.
P.S: se as eleições fossem um concurso de feiúra, o Brasil teria os melhores candidatos do mundo.
Já no segundo turno, o debate entre Lula e Serra foi bem equilibrado, com ligeira vantagem para José Serra.
Em 2006, quando achei que o Alckmin tinha ido melhor, quando ele partiu pra cima do presidente, vi no noticiário que ele tinha pecado pelo excesso de agressividade, o que não era bem avaliado pelos eleitores.
Em outro debate achei o Lula superior (justamente quando as análises então feitas disseram que o Alckmin venceu). No terceiro, achei equivalentes, com leve superioridade do tucano.
Pois bem, digo isto porque pelo que entendi, minha opinião não bateu com a maioria das análises então realizadas, de qualquer modo, aí vão minhas singelas impressões.
Ontem eu achei que a Dilma se atrapalhou, não falou bem, não concluiu seus raciocínios por falha no aproveitamento do tempo, balançava demasiadamente o corpo quando respondia (afastando-se, inclusive do microfone), gaguejou várias vezes, respondia virando-se para o candidato, além de estar obviamente nervosa. Como pontos positivos, ela foi muito perguntada, de modo que pôde aparecer mais, e postulou perguntas profícuas.
O Serra teve como pontos negativos, assim como a Dilma, diversas falas cortadas sem conclusão. Além disso, falava dos mutirões da saúde como se fosse o elixir mágico da resolução de todos os problemas deste setor no Brasil, voltando a este ponto repetidamente (no que foi brilhantemente admoestado pelo Plínio como “hipocondríaco”); destacou demasiadamente três cirurgias que diminuíram durante o governo Lula, o que demonstrava que procurou todas, selecionou as que diminuíram e resolveu bombardeá-las. Também perguntou mal, pois só escolhia a Dilma para responder, o que dava mais espaço para ela. Como pontos positivos, articulou bem as respostas, e referiu-se diversas vezes a pontos claros, de fácil compreensão, como as APAE’s.
A Marina parece viver num mundo de ilusão, onde o amor, a boa vontade e a concórdia imperam. É uma pena que o mundo real não seja assim, que as boas ideias também sofram forte oposição, que interesses escusos e/ou conflitantes se digladiem diariamente. Se a realidade humana não fosse esta, ela teria vencido o debate. Como pontos positivos, foi que distribuiu bem as perguntas, além de ter respondido com propriedade, clareza e tranqüilidade.
Já o Plínio de Arruda Sampaio, este, com boa distância, foi o vencedor do debate. Irônico, provocativo, com excelentes perguntas, contrariando o “bom mocismo” como ele mesmo alcunhou dos outros três, foi o diferente, a novidade. Além de ter sido o mais propositivo, das melhores respostas e, em minha opinião particular, ideias. Ele fugiu do moralismo direitista da Heloísa Helena, vinculando-se a ideologia, aos fatos, a novas proposições, novos modos de pensar e agir.
Como ponto negativo o fato dele não ter sido muito questionado, de modo que pouco pôde responder (se os outros debatedores soubessem quão afiado ele estava, aí mesmo é que não perguntariam nada).
De qualquer modo, foi o vencedor do debate, com larga distância. Seguido (já com desempenho bastante similar entre si) por Marina, depois Serra, e em último lugar a Dilma.
Ah! Não assisti ao último bloco. Às 7h da manhã o chicote já está comendo no serviço.
P.S: se as eleições fossem um concurso de feiúra, o Brasil teria os melhores candidatos do mundo.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Partidos à beira de um ataque de nervos – por Maria Inês Nassif (Valor Econômico)
No momento em que o pensamento neoliberal entra em decadência, depois de reinar por quase duas décadas, é preciso retomar questões que foram enterradas no período anterior sob o argumento da inutilidade ou do desuso. Uma delas é a crise dos partidos políticos.
No período anterior, o esvaziamento ideológico das instâncias partidárias pela mesmice liberal era dado como uma fatalidade - os partidos não poderiam se contrapor ao consenso e à racionalidade do liberalismo; seria normal, numa realidade em que a ideologia supostamente perde o sentido em favor da "verdade" única, que a política fosse a expressão de jogos de interesse pessoais, não raro sujeita a rapinagens e banditismo.
A desarticulação dos partidos políticos, a crise de representatividade, o afugentamento de bons quadros, a corrupção, enfim, todos os problemas decorrentes do afrouxamento ideológico das agremiações, que resultaram no descolamento delas e daquelas que seriam suas bases sociais, eram apontados como intrínsecos à democracia, menos perfeita que os mercados para regular a vida social. À democracia imperfeita se contrapunha a perfeição mercado.
No Brasil, a histeria neoliberal chegou praticamente junto com a rearticulação partidária pós-ditadura. O PSDB e o DEM já começaram a se confundir nesse período, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) cumpria uma agenda em conformidade com a ideologia mundialmente hegemônica, ambos recém-criados - o PSDB, como racha do antigo MDB da ditadura; o PFL, como dissidência da antiga Arena. Até então, eram as duas legendas que tinham condições de se fixar no quadro partidário como representações de fato de setores da social-democracia, o primeiro, e de setores conservadores de outro, com alguma substância ideológica. O PMDB, sucedâneo do MDB, havia perdido densidade com a saída de importantes quadros políticos para outros partidos e o PSDB foi o que mais incorporou do velho partido intelectuais e formuladores. O PDS, que sucedeu a Arena, levou um golpe de morte com a derrota de Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. O PFL levou boa parte dos líderes da Arena, mas foi legitimado pelo apoio ao candidato de oposição no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves.
À esquerda, emergiu o PT como a novidade no quadro partidário. Foi o único partido de massas da história do país, produto de uma engenhosa e histórica aliança entre uma vanguarda política, formada pelos grupos que emergiam da clandestinidade e pelas lideranças forjadas no novo sindicalismo, e nas bases sustentado por uma militância não só incorporada pelos grupos de esquerda, mas pela organização capilar da igreja progressista. Por mais que se tenha atribuído aos grupos mais radicais do partido sucessivas derrotas eleitorais, não se pode negar que eles serviram como um contrapeso aos setores que defendiam uma completa guinada à direita. O PT conseguiu não passar do centro, mesmo depois da crise do socialismo real, porque suas decisões expressavam a luta interna em que a esquerda era minoritária, mas continuava existindo.
O pós-governos Lula colocam questões urgentes a serem resolvidas na área política. A crise partidária é a pior. O quadro criado no período de redemocratização foi afrouxado pela homogeneização do pensamento político e econômico, no período neoliberal, e pela falta de perspectivas a que foram jogados os socialistas depois da queda do Muro de Berlim. Além disso, o PT, depois da crise do Mensalão, em 2005, foi engolido pelo sucesso do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente, hoje, é maior que o seu partido.
A oposição, por sua vez, sem firmeza ideológica e identidade política e sem ter conseguido se libertar da tradição política brasileira de partidos de quadros, tem grandes chances de sucumbir a um fracasso eleitoral. São modelos de partidos que não sobrevivem a não ser como porta-vozes de pensamentos hegemônicos, e desde que com a ajuda de quadros políticos tradicionais que não chegam a acrescentar massa orgânica e não florescem a não ser sob o guarda-chuva do Estado.
A situação dos partidos oposicionistas torna-se mais crítica, quanto mais agressivo for o discurso eleitoral. A agressividade atrai setores de direita, mas tende a afastar militância - no caso do PSDB, comprometida anteriormente com a social-democracia; no caso do ex-PFL, setores que têm forte dependência do Estado.
Nesse quadro, e passadas as eleições, os partidos têm que olhar para dentro. Não existe reforma política que os obrigue a isso - é apenas uma questão de sobrevivência. Os partidos estão numa nova realidade, onde a diversidade deixou de ser uma expressão de "atraso" e voltou a ser uma condição para a democracia. A mudança qualitativa das legendas depende da reincorporação da divergência ideológica como motor da política. É a mudança de qualidade das agremiações que terá o poder de melhorar a qualidade da política. Se os atores políticos não entenderem isso, derrotas eleitorais serão fatais para os partidos que hoje existem.
O PT, talvez premido pelas dificuldades do seu governo no Legislativo, é o que mais se aproxima de entender esse fenômeno. A decisão de centrar seus esforços eleitorais na candidatura à Presidência e aos legislativos, em detrimento de campanhas para os governos de Estado, reforçará o partido no cenário político. Numa democracia, afinal, são nas casas legislativas que os partidos se movem. A lealdade partidária é outro importante elemento, e esse ainda é um ponto forte do partido de Lula.
Falta a alguns observadores da realidade entender que o PT não vai crescer porque Lula agradou a todos os setores - isso está longe de ser verdade, dada a forte oposição oferecida ao governo por setores sociais importantes. Pode crescer, sim, na esteira da popularidade de Lula, mas principalmente porque os atuais maiores partidos brasileiros mantiveram uma ligação extremamente tênue com os setores que representavam. Continuaram acreditando que a verdade é única e que aqueles que a ela se opõem são irracionais.
E-mail: maria.inesnassif@valor.com.br
No período anterior, o esvaziamento ideológico das instâncias partidárias pela mesmice liberal era dado como uma fatalidade - os partidos não poderiam se contrapor ao consenso e à racionalidade do liberalismo; seria normal, numa realidade em que a ideologia supostamente perde o sentido em favor da "verdade" única, que a política fosse a expressão de jogos de interesse pessoais, não raro sujeita a rapinagens e banditismo.
A desarticulação dos partidos políticos, a crise de representatividade, o afugentamento de bons quadros, a corrupção, enfim, todos os problemas decorrentes do afrouxamento ideológico das agremiações, que resultaram no descolamento delas e daquelas que seriam suas bases sociais, eram apontados como intrínsecos à democracia, menos perfeita que os mercados para regular a vida social. À democracia imperfeita se contrapunha a perfeição mercado.
No Brasil, a histeria neoliberal chegou praticamente junto com a rearticulação partidária pós-ditadura. O PSDB e o DEM já começaram a se confundir nesse período, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) cumpria uma agenda em conformidade com a ideologia mundialmente hegemônica, ambos recém-criados - o PSDB, como racha do antigo MDB da ditadura; o PFL, como dissidência da antiga Arena. Até então, eram as duas legendas que tinham condições de se fixar no quadro partidário como representações de fato de setores da social-democracia, o primeiro, e de setores conservadores de outro, com alguma substância ideológica. O PMDB, sucedâneo do MDB, havia perdido densidade com a saída de importantes quadros políticos para outros partidos e o PSDB foi o que mais incorporou do velho partido intelectuais e formuladores. O PDS, que sucedeu a Arena, levou um golpe de morte com a derrota de Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. O PFL levou boa parte dos líderes da Arena, mas foi legitimado pelo apoio ao candidato de oposição no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves.
À esquerda, emergiu o PT como a novidade no quadro partidário. Foi o único partido de massas da história do país, produto de uma engenhosa e histórica aliança entre uma vanguarda política, formada pelos grupos que emergiam da clandestinidade e pelas lideranças forjadas no novo sindicalismo, e nas bases sustentado por uma militância não só incorporada pelos grupos de esquerda, mas pela organização capilar da igreja progressista. Por mais que se tenha atribuído aos grupos mais radicais do partido sucessivas derrotas eleitorais, não se pode negar que eles serviram como um contrapeso aos setores que defendiam uma completa guinada à direita. O PT conseguiu não passar do centro, mesmo depois da crise do socialismo real, porque suas decisões expressavam a luta interna em que a esquerda era minoritária, mas continuava existindo.
O pós-governos Lula colocam questões urgentes a serem resolvidas na área política. A crise partidária é a pior. O quadro criado no período de redemocratização foi afrouxado pela homogeneização do pensamento político e econômico, no período neoliberal, e pela falta de perspectivas a que foram jogados os socialistas depois da queda do Muro de Berlim. Além disso, o PT, depois da crise do Mensalão, em 2005, foi engolido pelo sucesso do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente, hoje, é maior que o seu partido.
A oposição, por sua vez, sem firmeza ideológica e identidade política e sem ter conseguido se libertar da tradição política brasileira de partidos de quadros, tem grandes chances de sucumbir a um fracasso eleitoral. São modelos de partidos que não sobrevivem a não ser como porta-vozes de pensamentos hegemônicos, e desde que com a ajuda de quadros políticos tradicionais que não chegam a acrescentar massa orgânica e não florescem a não ser sob o guarda-chuva do Estado.
A situação dos partidos oposicionistas torna-se mais crítica, quanto mais agressivo for o discurso eleitoral. A agressividade atrai setores de direita, mas tende a afastar militância - no caso do PSDB, comprometida anteriormente com a social-democracia; no caso do ex-PFL, setores que têm forte dependência do Estado.
Nesse quadro, e passadas as eleições, os partidos têm que olhar para dentro. Não existe reforma política que os obrigue a isso - é apenas uma questão de sobrevivência. Os partidos estão numa nova realidade, onde a diversidade deixou de ser uma expressão de "atraso" e voltou a ser uma condição para a democracia. A mudança qualitativa das legendas depende da reincorporação da divergência ideológica como motor da política. É a mudança de qualidade das agremiações que terá o poder de melhorar a qualidade da política. Se os atores políticos não entenderem isso, derrotas eleitorais serão fatais para os partidos que hoje existem.
O PT, talvez premido pelas dificuldades do seu governo no Legislativo, é o que mais se aproxima de entender esse fenômeno. A decisão de centrar seus esforços eleitorais na candidatura à Presidência e aos legislativos, em detrimento de campanhas para os governos de Estado, reforçará o partido no cenário político. Numa democracia, afinal, são nas casas legislativas que os partidos se movem. A lealdade partidária é outro importante elemento, e esse ainda é um ponto forte do partido de Lula.
Falta a alguns observadores da realidade entender que o PT não vai crescer porque Lula agradou a todos os setores - isso está longe de ser verdade, dada a forte oposição oferecida ao governo por setores sociais importantes. Pode crescer, sim, na esteira da popularidade de Lula, mas principalmente porque os atuais maiores partidos brasileiros mantiveram uma ligação extremamente tênue com os setores que representavam. Continuaram acreditando que a verdade é única e que aqueles que a ela se opõem são irracionais.
E-mail: maria.inesnassif@valor.com.br
O Ficha Limpa, por Janine e Idelber (blog do Nassif)
Por Renato Janine Ribeiro
Sou um dos signatários dessa lei de origem popular, uma das raras a terem procedido dos cidadãos e não dos parlamentares. Estava no encontro anual do Instituto Ethos, em 2009, quando o ex-vereador Chico Whitaker me trouxe o projeto e eu o assinei. Acho muito bom, mas é claro que tenho dúvidas, especialmente quanto à retroatividade das punições.
Agora, é bom saber de um efeito pelo menos curioso da lei: graças a ela, a família do senador Sarney está ou estará liberada de dois adversários de peso, nos dois Estados em que tem influência. Jackson Lago, o governador eleito em 2006 e cassado pelo TSE para ser substituído pela derrotada Roseana Sarney, ficará fora do pleito maranhense, se a lei for aplicada. João Capiberibe, o adversário de Sarney no Amapá, cassado por ter dado menos de trinta reais a uma eleitora, também ficará fora. Vejam que mesmo uma lei altamente moral pode ter efeitos que muita gente não desejaria.
Por Idelber Avelar
Caro Renato:
Com todo o respeito, só mesmo com muita ingenuidade para não ter percebido que o resultado desse projeto demagógico, autoritário e flagrantemente inconstitucional não seria exatamente este. É isso que acontece quando confundimos moral com política. Leis não devem ser promulgadas segundo o critério de serem "morais", mas segundo o efeito que produzirão no mundo real. E, de acordo com esse critério, só um completo desconhecimento das relações entre o Judiciário brasileiro e a política pôde levar alguém, de boa fé, a acreditar que a "moralização da política" seria o resultado do projeto "Ficha Limpa" (uso aspas porque, segundo a Constituição brasileira, ninguém tem "Ficha Suja" até trânsito em julgado de sentença penal condenatória).
Corrijamos algumas coisas.
Primeiro, é enganoso dizer que o projeto tem origem "popular", se por esta palavra entendemos o "povão", a massa de trabalhadores que forma a imensa maioria do Brasil. Em inúmeros contatos com sindicatos, associações de bairro, de empregadas domésticas, de sem-terra etc., eu jamais vi nenhuma instituição das classes populares defender esse projeto. É nitidamente um projeto da classe média alta, base de outras iniciativas moralistas como o "Cansei" e o "Não reeleja ninguém". É verdade que ela veio de cidadãos. Dizer que é de "origem popular" é enganoso.
Segundo, o projeto é flagrantemente inconstitucional. A Constituição brasileira, no Artigo 5o, inciso LVII, diz claramente: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Ora, a menos que a expressão "trânsito em julgado" tenha passado a significar outra coisa, o "Ficha Limpa" – ao determinar a inelegibilidade de alguém por condenação em órgão colegiado anterior à instância final – está em patente contradição com a Carta da República. Pois se alguém foi condenado em instância colegiada anterior à final, não pode ainda ser considerado culpado. E se não é culpado, não pode ter nenhum direito tolhido. É simples, não? Todos os membros do Supremo sabem disso, mas a gritaria moralista foi de tal ordem que nem mesmo o Supremo – imune a qualquer represália política – teve coragem de encarar o desgaste de detê-lo.
Terceiro, os efeitos reais. Qual é o desconhecimento da realidade do Judiciário brasileiro que nos permitiria imaginar que os efeitos, por exemplo, no Maranhão, não seriam exatamente estes? Alguém aqui quer dar ao TJ-MA o direito de decretar quem é elegível e quem não é no estado? Um vereador do Psol foi impedido de se candidatar em SP por ter a "ficha suja". Seu crime? Ter usado um automóvel da Câmara para auxiliar um ato do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, um uso claramente legítimo do mandato. Enquanto isso, Maluf continua com a "Ficha Limpa". Vocês realmente não sabiam que isso ia acontecer? Gritar "contra tudo o que está aí", ao estilo do movimento Cansei, é bem fácil que pensar politicamente, né?
Sobre esse execrável projeto, vale a pena ler os textos do jornalista gaúcho Marco Aurélio Weissheimer (http://bit.ly/bTAbhl) e do penalista mineiro Túlio Vianna (http://bit.ly/9NdmGW) e, quem sabe, começar a pensar num pedido de desculpas à sociedade brasileira.
Sou um dos signatários dessa lei de origem popular, uma das raras a terem procedido dos cidadãos e não dos parlamentares. Estava no encontro anual do Instituto Ethos, em 2009, quando o ex-vereador Chico Whitaker me trouxe o projeto e eu o assinei. Acho muito bom, mas é claro que tenho dúvidas, especialmente quanto à retroatividade das punições.
Agora, é bom saber de um efeito pelo menos curioso da lei: graças a ela, a família do senador Sarney está ou estará liberada de dois adversários de peso, nos dois Estados em que tem influência. Jackson Lago, o governador eleito em 2006 e cassado pelo TSE para ser substituído pela derrotada Roseana Sarney, ficará fora do pleito maranhense, se a lei for aplicada. João Capiberibe, o adversário de Sarney no Amapá, cassado por ter dado menos de trinta reais a uma eleitora, também ficará fora. Vejam que mesmo uma lei altamente moral pode ter efeitos que muita gente não desejaria.
Por Idelber Avelar
Caro Renato:
Com todo o respeito, só mesmo com muita ingenuidade para não ter percebido que o resultado desse projeto demagógico, autoritário e flagrantemente inconstitucional não seria exatamente este. É isso que acontece quando confundimos moral com política. Leis não devem ser promulgadas segundo o critério de serem "morais", mas segundo o efeito que produzirão no mundo real. E, de acordo com esse critério, só um completo desconhecimento das relações entre o Judiciário brasileiro e a política pôde levar alguém, de boa fé, a acreditar que a "moralização da política" seria o resultado do projeto "Ficha Limpa" (uso aspas porque, segundo a Constituição brasileira, ninguém tem "Ficha Suja" até trânsito em julgado de sentença penal condenatória).
Corrijamos algumas coisas.
Primeiro, é enganoso dizer que o projeto tem origem "popular", se por esta palavra entendemos o "povão", a massa de trabalhadores que forma a imensa maioria do Brasil. Em inúmeros contatos com sindicatos, associações de bairro, de empregadas domésticas, de sem-terra etc., eu jamais vi nenhuma instituição das classes populares defender esse projeto. É nitidamente um projeto da classe média alta, base de outras iniciativas moralistas como o "Cansei" e o "Não reeleja ninguém". É verdade que ela veio de cidadãos. Dizer que é de "origem popular" é enganoso.
Segundo, o projeto é flagrantemente inconstitucional. A Constituição brasileira, no Artigo 5o, inciso LVII, diz claramente: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Ora, a menos que a expressão "trânsito em julgado" tenha passado a significar outra coisa, o "Ficha Limpa" – ao determinar a inelegibilidade de alguém por condenação em órgão colegiado anterior à instância final – está em patente contradição com a Carta da República. Pois se alguém foi condenado em instância colegiada anterior à final, não pode ainda ser considerado culpado. E se não é culpado, não pode ter nenhum direito tolhido. É simples, não? Todos os membros do Supremo sabem disso, mas a gritaria moralista foi de tal ordem que nem mesmo o Supremo – imune a qualquer represália política – teve coragem de encarar o desgaste de detê-lo.
Terceiro, os efeitos reais. Qual é o desconhecimento da realidade do Judiciário brasileiro que nos permitiria imaginar que os efeitos, por exemplo, no Maranhão, não seriam exatamente estes? Alguém aqui quer dar ao TJ-MA o direito de decretar quem é elegível e quem não é no estado? Um vereador do Psol foi impedido de se candidatar em SP por ter a "ficha suja". Seu crime? Ter usado um automóvel da Câmara para auxiliar um ato do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, um uso claramente legítimo do mandato. Enquanto isso, Maluf continua com a "Ficha Limpa". Vocês realmente não sabiam que isso ia acontecer? Gritar "contra tudo o que está aí", ao estilo do movimento Cansei, é bem fácil que pensar politicamente, né?
Sobre esse execrável projeto, vale a pena ler os textos do jornalista gaúcho Marco Aurélio Weissheimer (http://bit.ly/bTAbhl) e do penalista mineiro Túlio Vianna (http://bit.ly/9NdmGW) e, quem sabe, começar a pensar num pedido de desculpas à sociedade brasileira.
A agonia da classe média americana – Financial Times (Valor Econômico)
Edward Luce, Financial Times, de Washington
Tecnicamente falando, Mark Freeman deveria considerar-se entre as pessoas mais sortudas do planeta. Aos 52 anos, ele vive com sua família em casa própria, numa rua arborizada e no coração do país mais rico do mundo. Quando está com fome, ele come. Quando esquenta, ele liga o ar-condicionado. Quando quer buscar alguma coisa, ele navega na internet.
No entanto, de alguma forma, as coisas não vão mais tão bem. No ano passado, o banco tentou retomar a casa dos Freeman, apesar de eles estarem com seu pagamento atrasado apenas três meses. Seu filho, Andy, foi recentemente excluído da cobertura do seguro saúde de sua mãe e só penosamente readmitido mediante um grande pagamento. E, assim como as casas tapadas com tábuas - que sinalizam a epidemia de retomadas judiciais de imóveis nos EUA -, o tráfico de drogas e os tiroteios, que antes eram distantes de seu bairro, estão chegando cada vez mais perto, quarteirão por quarteirão.
O que é mais perturbador, no caso dos Freeman, é como eles são típicos. Nem Mark nem Connie - sua incansável mulher, tão gordinha quanto ele é magro - têm doenças crônicas. Ambos trabalham no Hospital Metodista local - ele trabalha no almoxarifado, e ela é técnica em suprimentos de anestesia. A US$ 70 mil por ano, a renda bruta do casal é mais de um terço superior à mediana do núcleo familiar americano.
No passado, isso era o "sonho americano". Nos dias atuais, poderia ser chamado de "devaneio incerto americano". Na prática, Mark gasta muito dinheiro todo mês com o aluguel de uma máquina para tratar sua apneia, que lhe dá insônia. "Se perdemos nossos empregos, depois de umas três semanas teremos zerado nossa poupança", diz ele, sentado em seu quintal, de olho na rua e uma garrafa de cerveja na mão. "Nós trabalhamos dia e noite para tentar poupar para nossas aposentadorias. Mas nunca estamos a mais de um ou dois cheques de distância do olho da rua."
Quando se fala de classe média americana, a maioria dos estrangeiros imagina algo mais atemporal e confortável, como nas séries de TV, na qual os adolescentes vão à escola dirigindo carros esportivos e as meninas são sempre animadoras de torcidas. Isso pode representar como vivem uns 10% do topo da classe média. O resto vive como os Freeman. Ou pior.
Uma visita completa à casa de 65 m2, pertencente a Mark, no noroeste de Mineápolis, leva apenas uns 30 segundos. A casa foi comprada mediante um financiamento de US$ 50 mil em 1989. Agora, ela vale US$ 73 mil. "Houve um momento em que ela valia US$ 105 mil dólares - e pensamos que tínhamos entrado no paraíso", diz Mark. "Os bancos continuaram telefonando - às vezes quatro ou cinco vezes numa mesma noite -, oferecendo linhas de crédito e empréstimos. Insistiam como traficantes de drogas."
O lento estrangulamento econômico dos Freeman, e de milhões de outros americanos de classe média, começou muito antes da Grande Recessão, que apenas agravou a "recessão pessoal" que os americanos comuns vinham sofrendo havia anos. Denominada pelos economistas como "estagnação do salário mediano", a renda anual dos 90% de famílias menos bem de vida nos EUA permaneceu essencialmente inalterada desde 1973 - tendo crescido apenas 10% em termos reais nos últimos 37 anos. Isso significa que a maioria das famílias americanas está no sufoco há mais de uma geração.
No mesmo período, a renda do 1% de famílias mais ricas triplicou. Em 1973, executivos-chefes de grandes companhias recebiam, em média, remuneração igual a 26 vezes a renda mediana. Hoje, é mais de 300 vezes superior.
A tendência só tem se intensificado. A maioria dos economistas vê a grande estagnação como um problema estrutural - ou seja, imune ao ciclo econômico. Na última expansão, que começou em janeiro de 2002 e terminou em dezembro de 2007, a renda familiar mediana americana ficou US$ 2 mil menor - a primeira vez em que a maioria dos americanos esteve pior no fim de um ciclo do que no início. O mais grave é que a longa era de renda estagnada tem sido acompanhada por algo profundamente antiamericano - um declínio na mobilidade da renda.
Alexis de Tocqueville, grande cronista francês dos primórdios da nação americana, já foi erroneamente citado como tendo dito: "Os EUA são o melhor país do mundo para os pobres". Isso deixou de ser verdade. Hoje, nos EUA, é menor a chance de passar de um estrato de renda mais baixa para outro mais elevado do que em qualquer outra economia desenvolvida. Para inverter as clássicas histórias de Horatio Alger, nos EUA de hoje, se você nasceu esfarrapado, tem maior probabilidade permanecer nesse estado do que em praticamente qualquer país da velha Europa.
Combinadas a essas duas tendências profundamente enraizadas, há uma terceira - forte crescimento da desigualdade. O resultado é a crise em fogo lento do capitalismo americano. Uma coisa é sofrer as agruras de uma estagnação da renda. Outra é perceber que você tem uma probabilidade decrescente de escapar dessa estagnação - especialmente quando poucos afortunados que vivem nos proverbiais "condomínios fechados" parecem mais mimados cada vez que você os vislumbra. "Quem matou o sonho americano?", dizem os cartazes em passeatas de esquerda. "Resgatemos a América", gritam os manifestantes de direita do movimento Tea Party.
As estatísticas capturam somente uma fatia do problema. Mas é Larry Katz, renomado economista de Harvard, quem oferece a analogia mais atraente. "Imagine a economia americana como um grande prédio de apartamentos", diz o professor. "Um século atrás - até mesmo 30 anos atrás -, era um objeto de inveja. Mas, na última geração, sua feição mudou. Os apartamentos de cobertura estão cada vez maiores. Os apartamentos nos andares intermediários estão cada vez mais espremidos e o térreo foi inundado. Para completar, o elevador não está funcionando. Esse elevador quebrado é o que mais deprime as pessoas."
Não surpreende que uma maioria crescente de americanos tem dito, em pesquisas de opinião, acreditar que seus filhos terão um padrão de vida pior do que o deles próprios. Durante as três décadas do pós-guerra, que muitos hoje relembram como a era de ouro da classe média americana, a maré alta erguia a maioria dos barcos, nas palavras de John F. Kennedy. A renda cresceu em termos reais quase 2% ao ano, quase dobrando a cada geração.
E, embora os anos dourados tenham sido puxados pelo crescimento do ensino superior de massa, não era preciso ter diploma de ensino médio para dar conta das despesas. Como seu marido, Connie Freeman foi criada num lar de "classe trabalhadora" no chamado Cinturão do Ferro, no norte de Minnesota, perto da fronteira canadense. Seu pai, que deixou a escola aos 14 anos, após a Grande Depressão dos anos 1930, trabalhou nas minas de ferro a sua vida inteira. No fim de sua vida profissional, ele ganhava US$ 15 por hora - mais de US$ 40 em valores atuais.
Trinta anos depois, Connie, que é muito mais qualificada do que seu pai, após ter completado o ensino médio e concluído um ano adicional de estudos, ganha apenas US$ 17 por hora.
O pai de Connie, com sua escolaridade mínima, ganhava o suficiente para permitir que sua esposa continuasse a ser dona de casa em tempo integral e ainda bancou a educação de dois filhos até a faculdade. Connie e Mark, por seu turno, têm dificuldades para pagar o fluxo de contas num lar de dupla renda familiar. O Estado de Minnesota custeia um curso de teatro para Andy, o filho de 20 anos do casal que sofre de autismo agudo.
A rigor, Connie vive num lar de quatro rendas. "Quando Andy tinha dois anos, disseram-me para comprar um aparelho de karaokê, porque as crianças autistas às vezes reagem bem a isso", disse Mark, apontando para o que só pode ser descrito como um antigo aparelho pós-moderno. "Foi assim que iniciei meus negócios com karaokê. Eu ganho cerca de US$ 100 toda quarta-feira, promovendo karaokês pagos em casa. E, aos sábados sou gerente na loja de bebidas do bairro. Precisamos de todos os quatro empregos para manter a cabeça fora d ' água."
Do ponto de vista da maioria dos economistas, a história até o momento é inquestionável. A maioria concorda sobre o diagnóstico, mas diverge sobre as causas. Muitos na esquerda atribuem a culpa à Grande Estagnação da globalização. A ascensão de China, Índia, Brasil e outros países solapou os salários no Ocidente e eliminou postos de trabalho de americanos sem qualificação, semiqualificados e até mesmo qualificados. A indústria agora representa somente 12% dos postos de trabalho nos EUA.
Pense no trabalhador típico da indústria automobilística em Detroit, 30 anos atrás, que tinha um estilo de vida de classe média seguro, bom plano de saúde e perspectiva de gorda aposentadoria. Hoje, ele vive na China.
Outro grupo de economistas define como causa principal o surgimento explosivo de novas tecnologias, que facilitaram a automação computadorizada de rotinas repetitivas e de trabalhos mais simples. Pense na auxiliar de escritório, que anotava ditados e fazia o café. Ela agora é um BlackBerry que passa metade de sua vida no Starbucks. Ou o pessoal de retaguarda de escritórios que, como aqueles sapateiros em conto de fadas, agora "costura a contabilidade" das empresas americanas em Bangalore, na Índia, enquanto as pessoas dormem nos EUA.
Há também aqueles, como Paul Krugman, colunista do "The New York Times" e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, que atribuem a culpa ao mundo político, especialmente à reação conservadora iniciada quando Ronald Reagan chegou ao poder, em 1980, o que acelerou o declínio dos sindicatos e reverteu os traços mais progressistas do sistema fiscal americano.
Menos de um décimo dos trabalhadores do setor privado americano pertence a um sindicato. As pessoas na Europa e no Canadá estão sujeitas às mesmas forças globalizantes e tecnológicas, mas fazem parte em maior número de sindicatos, e seu atendimento médico é coberto por verbas públicas. Mais de metade das falências de famílias nos EUA são causadas por doença ou acidente graves.
Essas são as teorias concorrentes (porém não contraditórias) sobre a causa da deterioração. A "experiência vivida", como diriam os sociólogos, é outra coisa.
De forma muito semelhante aos Freeman, os Miller poderiam estar vivendo em qualquer lugar dos EUA. Somente o calor abafado denuncia que estão na Virgínia, no sul do país. Falls Church, na Virgínia, é na verdade um subúrbio da capital do país, Washington. A implacável expansão do governo fomentou um setor privado "verde", do outro lado do rio Potomac, dedicado principalmente a atividades relacionadas com segurança, defesa, serviços governamentais e lobbying. O lugar de honra na casa de Shareen Miller abriga uma fotografia granulada de sua conversa com Barack Obama numa cerimônia na Casa Branca, no ano passado, para a assinatura de uma nova lei que impõe igualdade de remuneração para as mulheres.
Como organizadora, na Virgínia, de 8 mil assistentes de cuidados pessoais - profissionais que cuidam de idosos e de deficientes nas próprias casas dessas pessoas - Shareen, de 42 anos, foi convidada, com outras dezenas, a participar da cerimônia. Mas isso foi tudo o que ela ganhou de sua fugaz proximidade com o presidente. Desde então, sua remuneração e suas horas de trabalho não pararam de cair. No ano passado, ela ganhava US$ 1,5 mil por mês. Agora, recebe US$ 900. Assim como outros governadores de Estado, Bob McDonnell, governador da Virgínia, vem cortando impiedosamente o gasto público desde que a recessão começou.
Embora com área de aproximadamente o dobro do lar dos Freeman, na casa de Shareen a sensação é de aperto ainda maior. Junto com dois filhos, uma nora, uma neta e seu marido, Shareen tem um verdadeiro zoológico de animais de estimação. Sua paciente Marissa, 26, com paralisia cerebral, muitas vezes pernoita na casa deles.
Shareen exibe a vigorosa boa vontade que encontramos em muitos americanos. Apesar de seu pouco tempo livre, ela pratica uma atividade voluntária, aos sábados, dedicada a animais de estimação perdidos. Para ir a qualquer lugar, os Freeman precisam de um carro. A uns 250 metros de sua casa, fica o trevo local, onde estão as emblemáticas Taco Bells, 7-Eleven e lojas de um dólar que pontilham os EUA. É a geografia física que diferencia os lugares; a geografia humana, simplesmente se repete.
Dona de um sorriso permanente, Shareen traça sua complexa árvore genealógica: um pai aposentado, que trabalhou numa penitenciária do Estado de Oregon, e vários meio-irmãos e meio-irmãs, nenhum dos quais parece estar chegando com dinheiro ao fim do mês. "Adivinhe de qual estou mais próxima", pergunta ela com um sorriso travesso. "De nenhum."
De novo, tecnicamente falando, Shareen vive em relativo conforto. Como seu marido trabalha para uma companhia de segurança contra incêndios e ganha US$ 70 mil por ano, os Miller estão, sem dúvida, sobrevivendo. Mas eles temem o que poderá acontecer se um deles tiver um problema de saúde. Alguns anos atrás, Shareen teve um tumor removido de seu diafragma, que gerou US$ 17 mil em dívidas. E o marido sofre de uma hérnia de disco. Surpreendentemente, tendo em vista que sua renda bruta conjunta é o dobro da mediana nos EUA, Shareen teve de adiar uma operação dentária por seis meses, a fim de saldar o empréstimo para a compra de seu carro. E não tem tempo para estudar e se requalificar. "Uma coisa comum nas pessoas que cuidam de gente com deficiências é que elas nunca têm tempo", diz ela.
Tanto quanto discordam sobre o que causou a grande estagnação, os economistas também divergem sobre as soluções. A maioria concorda que níveis educacionais mais altos melhoram o rendimento potencial das pessoas, mesmo que isso não resolva o problema subjacente. Outros salientam que nem todo mundo pode ser um corretor de ações, empresário de software ou professor de Harvard.
Muitos dos empregos do futuro serão funções "interpessoais" que não podem ser facilmente substituídos por computadores (ou imigrantes): zeladores, cabelereiros e manicures, para os quais uma faculdade é algo frequentemente supérfluo. Além disso, grande parte dos americanos atingidos pela estagnação nos últimos dez anos tem curso universitário. Mesmo eles não estão a salvo. Porém, mais educação, no mínimo, melhorará as chances das pessoas. Como pagar isso são outros quinhentos.
Apesar de a renda nos EUA estar estagnada, o custo das escolas não cessa de crescer. Desde 1990, quase dobrou a proporção de americanos que estão pagando mais de US$ 20 mil em empréstimos educacionais uma década após terem se formado. Lawrence Summers, principal assessor econômico de Obama, que há muito tempo preocupa-se com o crescimento do que ele denomina "nervosa classe média" americana, salienta que, entre as principais economias, os EUA têm o maior percentual de diplomados no mercado de trabalho. Mas, na faixa etária de 25 a 34 anos, os EUA não estão nem nos "dez mais".
Mais e mais americanos jovens são dissuadidos pela perspectiva de assumir uma dívida de longo prazo. "Não é só o medo do endividamento - são os quatro anos de lucros cessantes", diz Ruth Miller.
O impacto sobre as pessoas, como os Miller e os Freeman, tem sido agudo. Primeiro, houve estagnação. Depois veio a recessão.
Qual é, então, o futuro do sonho americano? Michael Spence, economista ganhador do Prêmio Nobel, a quem o Banco Mundial encarregou de realizar um estudo sobre o futuro do crescimento mundial, admite um mau presságio. Como um número crescente de economistas, Spence disse ver a grande estagnação como uma profunda crise de identidade.
Durante anos, o problema foi amenizado e parcialmente oculto pela disponibilidade de crédito barato. Americanos de classe média foram ativamente incentivados a se endividar continuamente, oferecendo suas casas em garantia, ou a canibalizar seus fundos de aposentadoria, confiando em que os preços dos imóveis e as bolsas de valores desafiariam permanentemente a gravidade (uma atitude estimulada, entre outros, pela metade dos ganhadores do Nobel de Economia em todo o mundo). Essa reserva de valor, agora, não existe mais. O dinheiro fácil transformou-se em pesado endividamento. "Baby boomers" - os nascidos na explosão da natalidade após a Segunda Guerra Mundial - adiaram sua aposentadoria. Filhos com curso superior estão voltando para a casa dos pais.
O barômetro é econômico. Mas a raiva é humana e cada vez mais política. "Tenho esse desgastante sentimento sobre o futuro dos EUA", diz Spence. "Quando as pessoas perdem o senso de otimismo, as coisas tendem a ficar mais voláteis. O futuro que mais temo para os EUA é latino-americano: uma sociedade muito desigual, propensa a fortes oscilações entre populismo e ortodoxia. Veja o Tea Party [movimento conservador]. As pessoas acham que surgiu do nada. Embora eu não concorde com suas soluções, a maioria dos membros do Tea Party são americanos de classe média que vêm sofrendo em silêncio há anos."
Spence admite estar pensando em voz alta e "extrapolando em muito os dados". E ele admite que os EUA provavelmente ainda conservam sua força mais vibrante em sua capacidade de liderança mundial em inovação tecnológica. A maioria dos economistas não é tão pessimista como Spence. Mas é entre os americanos comuns que seu pessimismo repercute mais intensamente. "Ser pessimista sobre o futuro é algo tão novo para os americanos", diz Spence. "Mas a maioria das pessoas compreende sua própria situação melhor do que qualquer economista." (Tradução de Sergio Blum)
Tecnicamente falando, Mark Freeman deveria considerar-se entre as pessoas mais sortudas do planeta. Aos 52 anos, ele vive com sua família em casa própria, numa rua arborizada e no coração do país mais rico do mundo. Quando está com fome, ele come. Quando esquenta, ele liga o ar-condicionado. Quando quer buscar alguma coisa, ele navega na internet.
No entanto, de alguma forma, as coisas não vão mais tão bem. No ano passado, o banco tentou retomar a casa dos Freeman, apesar de eles estarem com seu pagamento atrasado apenas três meses. Seu filho, Andy, foi recentemente excluído da cobertura do seguro saúde de sua mãe e só penosamente readmitido mediante um grande pagamento. E, assim como as casas tapadas com tábuas - que sinalizam a epidemia de retomadas judiciais de imóveis nos EUA -, o tráfico de drogas e os tiroteios, que antes eram distantes de seu bairro, estão chegando cada vez mais perto, quarteirão por quarteirão.
O que é mais perturbador, no caso dos Freeman, é como eles são típicos. Nem Mark nem Connie - sua incansável mulher, tão gordinha quanto ele é magro - têm doenças crônicas. Ambos trabalham no Hospital Metodista local - ele trabalha no almoxarifado, e ela é técnica em suprimentos de anestesia. A US$ 70 mil por ano, a renda bruta do casal é mais de um terço superior à mediana do núcleo familiar americano.
No passado, isso era o "sonho americano". Nos dias atuais, poderia ser chamado de "devaneio incerto americano". Na prática, Mark gasta muito dinheiro todo mês com o aluguel de uma máquina para tratar sua apneia, que lhe dá insônia. "Se perdemos nossos empregos, depois de umas três semanas teremos zerado nossa poupança", diz ele, sentado em seu quintal, de olho na rua e uma garrafa de cerveja na mão. "Nós trabalhamos dia e noite para tentar poupar para nossas aposentadorias. Mas nunca estamos a mais de um ou dois cheques de distância do olho da rua."
Quando se fala de classe média americana, a maioria dos estrangeiros imagina algo mais atemporal e confortável, como nas séries de TV, na qual os adolescentes vão à escola dirigindo carros esportivos e as meninas são sempre animadoras de torcidas. Isso pode representar como vivem uns 10% do topo da classe média. O resto vive como os Freeman. Ou pior.
Uma visita completa à casa de 65 m2, pertencente a Mark, no noroeste de Mineápolis, leva apenas uns 30 segundos. A casa foi comprada mediante um financiamento de US$ 50 mil em 1989. Agora, ela vale US$ 73 mil. "Houve um momento em que ela valia US$ 105 mil dólares - e pensamos que tínhamos entrado no paraíso", diz Mark. "Os bancos continuaram telefonando - às vezes quatro ou cinco vezes numa mesma noite -, oferecendo linhas de crédito e empréstimos. Insistiam como traficantes de drogas."
O lento estrangulamento econômico dos Freeman, e de milhões de outros americanos de classe média, começou muito antes da Grande Recessão, que apenas agravou a "recessão pessoal" que os americanos comuns vinham sofrendo havia anos. Denominada pelos economistas como "estagnação do salário mediano", a renda anual dos 90% de famílias menos bem de vida nos EUA permaneceu essencialmente inalterada desde 1973 - tendo crescido apenas 10% em termos reais nos últimos 37 anos. Isso significa que a maioria das famílias americanas está no sufoco há mais de uma geração.
No mesmo período, a renda do 1% de famílias mais ricas triplicou. Em 1973, executivos-chefes de grandes companhias recebiam, em média, remuneração igual a 26 vezes a renda mediana. Hoje, é mais de 300 vezes superior.
A tendência só tem se intensificado. A maioria dos economistas vê a grande estagnação como um problema estrutural - ou seja, imune ao ciclo econômico. Na última expansão, que começou em janeiro de 2002 e terminou em dezembro de 2007, a renda familiar mediana americana ficou US$ 2 mil menor - a primeira vez em que a maioria dos americanos esteve pior no fim de um ciclo do que no início. O mais grave é que a longa era de renda estagnada tem sido acompanhada por algo profundamente antiamericano - um declínio na mobilidade da renda.
Alexis de Tocqueville, grande cronista francês dos primórdios da nação americana, já foi erroneamente citado como tendo dito: "Os EUA são o melhor país do mundo para os pobres". Isso deixou de ser verdade. Hoje, nos EUA, é menor a chance de passar de um estrato de renda mais baixa para outro mais elevado do que em qualquer outra economia desenvolvida. Para inverter as clássicas histórias de Horatio Alger, nos EUA de hoje, se você nasceu esfarrapado, tem maior probabilidade permanecer nesse estado do que em praticamente qualquer país da velha Europa.
Combinadas a essas duas tendências profundamente enraizadas, há uma terceira - forte crescimento da desigualdade. O resultado é a crise em fogo lento do capitalismo americano. Uma coisa é sofrer as agruras de uma estagnação da renda. Outra é perceber que você tem uma probabilidade decrescente de escapar dessa estagnação - especialmente quando poucos afortunados que vivem nos proverbiais "condomínios fechados" parecem mais mimados cada vez que você os vislumbra. "Quem matou o sonho americano?", dizem os cartazes em passeatas de esquerda. "Resgatemos a América", gritam os manifestantes de direita do movimento Tea Party.
As estatísticas capturam somente uma fatia do problema. Mas é Larry Katz, renomado economista de Harvard, quem oferece a analogia mais atraente. "Imagine a economia americana como um grande prédio de apartamentos", diz o professor. "Um século atrás - até mesmo 30 anos atrás -, era um objeto de inveja. Mas, na última geração, sua feição mudou. Os apartamentos de cobertura estão cada vez maiores. Os apartamentos nos andares intermediários estão cada vez mais espremidos e o térreo foi inundado. Para completar, o elevador não está funcionando. Esse elevador quebrado é o que mais deprime as pessoas."
Não surpreende que uma maioria crescente de americanos tem dito, em pesquisas de opinião, acreditar que seus filhos terão um padrão de vida pior do que o deles próprios. Durante as três décadas do pós-guerra, que muitos hoje relembram como a era de ouro da classe média americana, a maré alta erguia a maioria dos barcos, nas palavras de John F. Kennedy. A renda cresceu em termos reais quase 2% ao ano, quase dobrando a cada geração.
E, embora os anos dourados tenham sido puxados pelo crescimento do ensino superior de massa, não era preciso ter diploma de ensino médio para dar conta das despesas. Como seu marido, Connie Freeman foi criada num lar de "classe trabalhadora" no chamado Cinturão do Ferro, no norte de Minnesota, perto da fronteira canadense. Seu pai, que deixou a escola aos 14 anos, após a Grande Depressão dos anos 1930, trabalhou nas minas de ferro a sua vida inteira. No fim de sua vida profissional, ele ganhava US$ 15 por hora - mais de US$ 40 em valores atuais.
Trinta anos depois, Connie, que é muito mais qualificada do que seu pai, após ter completado o ensino médio e concluído um ano adicional de estudos, ganha apenas US$ 17 por hora.
O pai de Connie, com sua escolaridade mínima, ganhava o suficiente para permitir que sua esposa continuasse a ser dona de casa em tempo integral e ainda bancou a educação de dois filhos até a faculdade. Connie e Mark, por seu turno, têm dificuldades para pagar o fluxo de contas num lar de dupla renda familiar. O Estado de Minnesota custeia um curso de teatro para Andy, o filho de 20 anos do casal que sofre de autismo agudo.
A rigor, Connie vive num lar de quatro rendas. "Quando Andy tinha dois anos, disseram-me para comprar um aparelho de karaokê, porque as crianças autistas às vezes reagem bem a isso", disse Mark, apontando para o que só pode ser descrito como um antigo aparelho pós-moderno. "Foi assim que iniciei meus negócios com karaokê. Eu ganho cerca de US$ 100 toda quarta-feira, promovendo karaokês pagos em casa. E, aos sábados sou gerente na loja de bebidas do bairro. Precisamos de todos os quatro empregos para manter a cabeça fora d ' água."
Do ponto de vista da maioria dos economistas, a história até o momento é inquestionável. A maioria concorda sobre o diagnóstico, mas diverge sobre as causas. Muitos na esquerda atribuem a culpa à Grande Estagnação da globalização. A ascensão de China, Índia, Brasil e outros países solapou os salários no Ocidente e eliminou postos de trabalho de americanos sem qualificação, semiqualificados e até mesmo qualificados. A indústria agora representa somente 12% dos postos de trabalho nos EUA.
Pense no trabalhador típico da indústria automobilística em Detroit, 30 anos atrás, que tinha um estilo de vida de classe média seguro, bom plano de saúde e perspectiva de gorda aposentadoria. Hoje, ele vive na China.
Outro grupo de economistas define como causa principal o surgimento explosivo de novas tecnologias, que facilitaram a automação computadorizada de rotinas repetitivas e de trabalhos mais simples. Pense na auxiliar de escritório, que anotava ditados e fazia o café. Ela agora é um BlackBerry que passa metade de sua vida no Starbucks. Ou o pessoal de retaguarda de escritórios que, como aqueles sapateiros em conto de fadas, agora "costura a contabilidade" das empresas americanas em Bangalore, na Índia, enquanto as pessoas dormem nos EUA.
Há também aqueles, como Paul Krugman, colunista do "The New York Times" e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, que atribuem a culpa ao mundo político, especialmente à reação conservadora iniciada quando Ronald Reagan chegou ao poder, em 1980, o que acelerou o declínio dos sindicatos e reverteu os traços mais progressistas do sistema fiscal americano.
Menos de um décimo dos trabalhadores do setor privado americano pertence a um sindicato. As pessoas na Europa e no Canadá estão sujeitas às mesmas forças globalizantes e tecnológicas, mas fazem parte em maior número de sindicatos, e seu atendimento médico é coberto por verbas públicas. Mais de metade das falências de famílias nos EUA são causadas por doença ou acidente graves.
Essas são as teorias concorrentes (porém não contraditórias) sobre a causa da deterioração. A "experiência vivida", como diriam os sociólogos, é outra coisa.
De forma muito semelhante aos Freeman, os Miller poderiam estar vivendo em qualquer lugar dos EUA. Somente o calor abafado denuncia que estão na Virgínia, no sul do país. Falls Church, na Virgínia, é na verdade um subúrbio da capital do país, Washington. A implacável expansão do governo fomentou um setor privado "verde", do outro lado do rio Potomac, dedicado principalmente a atividades relacionadas com segurança, defesa, serviços governamentais e lobbying. O lugar de honra na casa de Shareen Miller abriga uma fotografia granulada de sua conversa com Barack Obama numa cerimônia na Casa Branca, no ano passado, para a assinatura de uma nova lei que impõe igualdade de remuneração para as mulheres.
Como organizadora, na Virgínia, de 8 mil assistentes de cuidados pessoais - profissionais que cuidam de idosos e de deficientes nas próprias casas dessas pessoas - Shareen, de 42 anos, foi convidada, com outras dezenas, a participar da cerimônia. Mas isso foi tudo o que ela ganhou de sua fugaz proximidade com o presidente. Desde então, sua remuneração e suas horas de trabalho não pararam de cair. No ano passado, ela ganhava US$ 1,5 mil por mês. Agora, recebe US$ 900. Assim como outros governadores de Estado, Bob McDonnell, governador da Virgínia, vem cortando impiedosamente o gasto público desde que a recessão começou.
Embora com área de aproximadamente o dobro do lar dos Freeman, na casa de Shareen a sensação é de aperto ainda maior. Junto com dois filhos, uma nora, uma neta e seu marido, Shareen tem um verdadeiro zoológico de animais de estimação. Sua paciente Marissa, 26, com paralisia cerebral, muitas vezes pernoita na casa deles.
Shareen exibe a vigorosa boa vontade que encontramos em muitos americanos. Apesar de seu pouco tempo livre, ela pratica uma atividade voluntária, aos sábados, dedicada a animais de estimação perdidos. Para ir a qualquer lugar, os Freeman precisam de um carro. A uns 250 metros de sua casa, fica o trevo local, onde estão as emblemáticas Taco Bells, 7-Eleven e lojas de um dólar que pontilham os EUA. É a geografia física que diferencia os lugares; a geografia humana, simplesmente se repete.
Dona de um sorriso permanente, Shareen traça sua complexa árvore genealógica: um pai aposentado, que trabalhou numa penitenciária do Estado de Oregon, e vários meio-irmãos e meio-irmãs, nenhum dos quais parece estar chegando com dinheiro ao fim do mês. "Adivinhe de qual estou mais próxima", pergunta ela com um sorriso travesso. "De nenhum."
De novo, tecnicamente falando, Shareen vive em relativo conforto. Como seu marido trabalha para uma companhia de segurança contra incêndios e ganha US$ 70 mil por ano, os Miller estão, sem dúvida, sobrevivendo. Mas eles temem o que poderá acontecer se um deles tiver um problema de saúde. Alguns anos atrás, Shareen teve um tumor removido de seu diafragma, que gerou US$ 17 mil em dívidas. E o marido sofre de uma hérnia de disco. Surpreendentemente, tendo em vista que sua renda bruta conjunta é o dobro da mediana nos EUA, Shareen teve de adiar uma operação dentária por seis meses, a fim de saldar o empréstimo para a compra de seu carro. E não tem tempo para estudar e se requalificar. "Uma coisa comum nas pessoas que cuidam de gente com deficiências é que elas nunca têm tempo", diz ela.
Tanto quanto discordam sobre o que causou a grande estagnação, os economistas também divergem sobre as soluções. A maioria concorda que níveis educacionais mais altos melhoram o rendimento potencial das pessoas, mesmo que isso não resolva o problema subjacente. Outros salientam que nem todo mundo pode ser um corretor de ações, empresário de software ou professor de Harvard.
Muitos dos empregos do futuro serão funções "interpessoais" que não podem ser facilmente substituídos por computadores (ou imigrantes): zeladores, cabelereiros e manicures, para os quais uma faculdade é algo frequentemente supérfluo. Além disso, grande parte dos americanos atingidos pela estagnação nos últimos dez anos tem curso universitário. Mesmo eles não estão a salvo. Porém, mais educação, no mínimo, melhorará as chances das pessoas. Como pagar isso são outros quinhentos.
Apesar de a renda nos EUA estar estagnada, o custo das escolas não cessa de crescer. Desde 1990, quase dobrou a proporção de americanos que estão pagando mais de US$ 20 mil em empréstimos educacionais uma década após terem se formado. Lawrence Summers, principal assessor econômico de Obama, que há muito tempo preocupa-se com o crescimento do que ele denomina "nervosa classe média" americana, salienta que, entre as principais economias, os EUA têm o maior percentual de diplomados no mercado de trabalho. Mas, na faixa etária de 25 a 34 anos, os EUA não estão nem nos "dez mais".
Mais e mais americanos jovens são dissuadidos pela perspectiva de assumir uma dívida de longo prazo. "Não é só o medo do endividamento - são os quatro anos de lucros cessantes", diz Ruth Miller.
O impacto sobre as pessoas, como os Miller e os Freeman, tem sido agudo. Primeiro, houve estagnação. Depois veio a recessão.
Qual é, então, o futuro do sonho americano? Michael Spence, economista ganhador do Prêmio Nobel, a quem o Banco Mundial encarregou de realizar um estudo sobre o futuro do crescimento mundial, admite um mau presságio. Como um número crescente de economistas, Spence disse ver a grande estagnação como uma profunda crise de identidade.
Durante anos, o problema foi amenizado e parcialmente oculto pela disponibilidade de crédito barato. Americanos de classe média foram ativamente incentivados a se endividar continuamente, oferecendo suas casas em garantia, ou a canibalizar seus fundos de aposentadoria, confiando em que os preços dos imóveis e as bolsas de valores desafiariam permanentemente a gravidade (uma atitude estimulada, entre outros, pela metade dos ganhadores do Nobel de Economia em todo o mundo). Essa reserva de valor, agora, não existe mais. O dinheiro fácil transformou-se em pesado endividamento. "Baby boomers" - os nascidos na explosão da natalidade após a Segunda Guerra Mundial - adiaram sua aposentadoria. Filhos com curso superior estão voltando para a casa dos pais.
O barômetro é econômico. Mas a raiva é humana e cada vez mais política. "Tenho esse desgastante sentimento sobre o futuro dos EUA", diz Spence. "Quando as pessoas perdem o senso de otimismo, as coisas tendem a ficar mais voláteis. O futuro que mais temo para os EUA é latino-americano: uma sociedade muito desigual, propensa a fortes oscilações entre populismo e ortodoxia. Veja o Tea Party [movimento conservador]. As pessoas acham que surgiu do nada. Embora eu não concorde com suas soluções, a maioria dos membros do Tea Party são americanos de classe média que vêm sofrendo em silêncio há anos."
Spence admite estar pensando em voz alta e "extrapolando em muito os dados". E ele admite que os EUA provavelmente ainda conservam sua força mais vibrante em sua capacidade de liderança mundial em inovação tecnológica. A maioria dos economistas não é tão pessimista como Spence. Mas é entre os americanos comuns que seu pessimismo repercute mais intensamente. "Ser pessimista sobre o futuro é algo tão novo para os americanos", diz Spence. "Mas a maioria das pessoas compreende sua própria situação melhor do que qualquer economista." (Tradução de Sergio Blum)
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Até a Folha cede (um pouco) ante o iminente desastre
Arrecadação baixa leva Serra a pedir doação pessoalmente – por CATIA SEABRA (Folha)
Pressionado por aliados, tucano participará de contatos para obter verba
Até agora, candidato do PSDB diz que recebeu R$ 3,7 mi, um terço do declarado por Dilma, e menos até que Marina
DE SÃO PAULO
Sob pressão de aliados nos Estados, o comando do PSDB pediu que o candidato do partido à Presidência, José Serra, atue pessoalmente na arrecadação de recursos para a campanha eleitoral.
Segundo tucanos, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), discutiu o tema com Serra numa reunião na noite de segunda-feira. O argumento é que os empresários preferem contato direto com o candidato antes de concretizar as doações.
Porta-voz do partido, Guerra apresentou a Serra uma lista de potenciais doadores para que sejam procurados. Muitos deles já se comprometeram a colaborar, mas ainda não contribuíram efetivamente com dinheiro.
Além de conversar com empresários, Serra deverá intensificar agenda de encontros destinados à arrecadação, como um recente jantar com o setor de siderurgia. De acordo com tucanos, Serra concordou ainda em participar de um evento proposto pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que concentra boa parte do PIB nacional.
Nesse esforço de arrecadação, estão na mira, além das siderúrgicas, também bancos e empreiteiras. Para driblar resistência do setor bancário, Serra escalou um homem do sistema financeiro -Sérgio Silva de Freitas, ex-dirigente do Itaú- para a tarefa de arrecadação. Mas os empresários querem ouvir os compromissos de Serra para a economia.
Pelos cálculos do comando da campanha, já chega a R$ 15 milhões o total prometido. Mas o comitê eleitoral tucano declara ter recebido R$ 3,7 milhões -um terço dos R$ 11,6 milhões registrados por sua principal adversária, Dilma Rousseff (PT). Em sua primeira prestação, Marina Silva (PV) declara ter recebido R$ 4,65 milhões. Ontem, Serra admitiu preocupação com o nível de arrecadação de sua campanha até aqui.
"Preocupa [a baixa arrecadação], mas eu espero que os recursos entrem, porque às vezes tem muito atraso nisso [nas doações]", disse Serra em Heliópolis, uma das áreas mais pobres de São Paulo, durante visita a uma escola técnica e uma AME (Ambulatório Médico de Especialidades), ambas inauguradas por ele quando governador.
Antes de demonstrar preocupação com o nível baixo de seu caixa, Serra chegou a dizer que "não tinha visto isso [o fato de sua arrecadação parcial ser menor que a de suas adversárias]".
Por outro lado, tucanos minimizavam dificuldades na arrecadação, alegando que é natural que as empresas só contribuam após a primeira rodada de prestações.
Afirmam ainda que algumas doações foram endereçadas diretamente ao partido, responsável pelas despesas da pré-campanha. Mas reconhecem que a expectativa de arrecadação é maior para a candidata do governo. O presidente do PPS, Roberto Freire, chega acusar o governo de intimidar empresários. "Com um governo policialesco, a pessoa fica com medo de contribuir para a oposição."
PIRES
Dos Estados, aliados cobram o envio de material para a campanha nas ruas. O coordenador de infraestrutura da campanha, Sérgio Kobayashi, avisa que, a exemplo da montagem de comitês, a produção de impressos dependerá do ritmo de arrecadação de dinheiro.
Colaborou BRENO COSTA, de São Paulo
Salvem o tucano-verde – por Fernando de Barros e Silva (Folha)
SÃO PAULO - Para quem é tucano e precisa de voto, o Rio de Janeiro está longe de ser uma cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. No mais recente Datafolha, José Serra tem 25% das preferências na capital fluminense, contra 40% de Dilma Rousseff e 14% de Marina Silva. No Estado do Rio, a situação é um pouco menos ruim: Serra tem 31%; Dilma, 37%; e Marina, 12%. Em 2002, quando foi derrotado por Lula, Serra teve só 21% dos votos no terceiro colégio eleitoral do país.
O PSDB, desta vez, não tem candidato próprio ao governo na terra do Redentor. Apoia Fernando Gabeira, do PV, numa aliança desconfortável que tem ainda DEM e PPS.
Por razões óbvias, Gabeira também é apoiado por Marina, a quem ele oficialmente dá o seu voto. Serra, ali, acaba sendo uma espécie de "amigo do amigo".
Criou-se no Rio um triângulo pouco amoroso, em que dois presidenciáveis partilham o mesmo nome ao governo. Alguém sempre tem um motivo para torcer o nariz.
Anteontem, Gabeira disse, num desabafo, que, se eleito, se sentia livre para "dar uma banana aos aliados". Era uma resposta aos tucanos, que teriam decidido não bancar os custos do programa de TV dos verdes, pelo menos nos termos acertados, uma vez que Gabeira não estaria cumprindo seu papel.
Ontem, Gabeira e Serra estiveram juntos em São Paulo. Tentavam aparar as arestas. A situação, no entanto, é tensa, até porque o governador Sérgio Cabral (PMDB), candidato de Dilma, tem 53% e pode ser reeleito no primeiro turno.
No cerne deste mal-estar, tudo indica insolúvel, está o fato de que Serra e Marina, ambos atrelados a Gabeira, disputam o mesmo eleitorado, o que os números estão a evidenciar. A candidatura Marina faz o tucano sangrar especialmente no Rio de Janeiro. Não é por outra razão que o demista Cesar Maia chama a candidata verde de "Heloísa Helena 2", enquanto Alfredo Sirkis, presidente do PV local, diz ver no tucano um "cavalo paraguaio".
Comentário
Quando um aliado canino como a Folha começa a mostrar os podres desse jeito... é sinal que a campanha de alguém está fazendo (muita) água.
Do grupo, só o Datafolha prossegue impávido, completamente alheio aos fatos, na firme defesa dos interesses da direita nacional.
De qualquer modo, mais adiante terá de assumir seu erro. Não dirá que errou (claro), afirmará que o crescimento da Dilma se deu devido ao maior tempo que ela possui de propaganda eleitoral.
Pressionado por aliados, tucano participará de contatos para obter verba
Até agora, candidato do PSDB diz que recebeu R$ 3,7 mi, um terço do declarado por Dilma, e menos até que Marina
DE SÃO PAULO
Sob pressão de aliados nos Estados, o comando do PSDB pediu que o candidato do partido à Presidência, José Serra, atue pessoalmente na arrecadação de recursos para a campanha eleitoral.
Segundo tucanos, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), discutiu o tema com Serra numa reunião na noite de segunda-feira. O argumento é que os empresários preferem contato direto com o candidato antes de concretizar as doações.
Porta-voz do partido, Guerra apresentou a Serra uma lista de potenciais doadores para que sejam procurados. Muitos deles já se comprometeram a colaborar, mas ainda não contribuíram efetivamente com dinheiro.
Além de conversar com empresários, Serra deverá intensificar agenda de encontros destinados à arrecadação, como um recente jantar com o setor de siderurgia. De acordo com tucanos, Serra concordou ainda em participar de um evento proposto pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que concentra boa parte do PIB nacional.
Nesse esforço de arrecadação, estão na mira, além das siderúrgicas, também bancos e empreiteiras. Para driblar resistência do setor bancário, Serra escalou um homem do sistema financeiro -Sérgio Silva de Freitas, ex-dirigente do Itaú- para a tarefa de arrecadação. Mas os empresários querem ouvir os compromissos de Serra para a economia.
Pelos cálculos do comando da campanha, já chega a R$ 15 milhões o total prometido. Mas o comitê eleitoral tucano declara ter recebido R$ 3,7 milhões -um terço dos R$ 11,6 milhões registrados por sua principal adversária, Dilma Rousseff (PT). Em sua primeira prestação, Marina Silva (PV) declara ter recebido R$ 4,65 milhões. Ontem, Serra admitiu preocupação com o nível de arrecadação de sua campanha até aqui.
"Preocupa [a baixa arrecadação], mas eu espero que os recursos entrem, porque às vezes tem muito atraso nisso [nas doações]", disse Serra em Heliópolis, uma das áreas mais pobres de São Paulo, durante visita a uma escola técnica e uma AME (Ambulatório Médico de Especialidades), ambas inauguradas por ele quando governador.
Antes de demonstrar preocupação com o nível baixo de seu caixa, Serra chegou a dizer que "não tinha visto isso [o fato de sua arrecadação parcial ser menor que a de suas adversárias]".
Por outro lado, tucanos minimizavam dificuldades na arrecadação, alegando que é natural que as empresas só contribuam após a primeira rodada de prestações.
Afirmam ainda que algumas doações foram endereçadas diretamente ao partido, responsável pelas despesas da pré-campanha. Mas reconhecem que a expectativa de arrecadação é maior para a candidata do governo. O presidente do PPS, Roberto Freire, chega acusar o governo de intimidar empresários. "Com um governo policialesco, a pessoa fica com medo de contribuir para a oposição."
PIRES
Dos Estados, aliados cobram o envio de material para a campanha nas ruas. O coordenador de infraestrutura da campanha, Sérgio Kobayashi, avisa que, a exemplo da montagem de comitês, a produção de impressos dependerá do ritmo de arrecadação de dinheiro.
Colaborou BRENO COSTA, de São Paulo
Salvem o tucano-verde – por Fernando de Barros e Silva (Folha)
SÃO PAULO - Para quem é tucano e precisa de voto, o Rio de Janeiro está longe de ser uma cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. No mais recente Datafolha, José Serra tem 25% das preferências na capital fluminense, contra 40% de Dilma Rousseff e 14% de Marina Silva. No Estado do Rio, a situação é um pouco menos ruim: Serra tem 31%; Dilma, 37%; e Marina, 12%. Em 2002, quando foi derrotado por Lula, Serra teve só 21% dos votos no terceiro colégio eleitoral do país.
O PSDB, desta vez, não tem candidato próprio ao governo na terra do Redentor. Apoia Fernando Gabeira, do PV, numa aliança desconfortável que tem ainda DEM e PPS.
Por razões óbvias, Gabeira também é apoiado por Marina, a quem ele oficialmente dá o seu voto. Serra, ali, acaba sendo uma espécie de "amigo do amigo".
Criou-se no Rio um triângulo pouco amoroso, em que dois presidenciáveis partilham o mesmo nome ao governo. Alguém sempre tem um motivo para torcer o nariz.
Anteontem, Gabeira disse, num desabafo, que, se eleito, se sentia livre para "dar uma banana aos aliados". Era uma resposta aos tucanos, que teriam decidido não bancar os custos do programa de TV dos verdes, pelo menos nos termos acertados, uma vez que Gabeira não estaria cumprindo seu papel.
Ontem, Gabeira e Serra estiveram juntos em São Paulo. Tentavam aparar as arestas. A situação, no entanto, é tensa, até porque o governador Sérgio Cabral (PMDB), candidato de Dilma, tem 53% e pode ser reeleito no primeiro turno.
No cerne deste mal-estar, tudo indica insolúvel, está o fato de que Serra e Marina, ambos atrelados a Gabeira, disputam o mesmo eleitorado, o que os números estão a evidenciar. A candidatura Marina faz o tucano sangrar especialmente no Rio de Janeiro. Não é por outra razão que o demista Cesar Maia chama a candidata verde de "Heloísa Helena 2", enquanto Alfredo Sirkis, presidente do PV local, diz ver no tucano um "cavalo paraguaio".
Comentário
Quando um aliado canino como a Folha começa a mostrar os podres desse jeito... é sinal que a campanha de alguém está fazendo (muita) água.
Do grupo, só o Datafolha prossegue impávido, completamente alheio aos fatos, na firme defesa dos interesses da direita nacional.
De qualquer modo, mais adiante terá de assumir seu erro. Não dirá que errou (claro), afirmará que o crescimento da Dilma se deu devido ao maior tempo que ela possui de propaganda eleitoral.
Montenegro: vai dar primeiro turno – por Luis Nassif
Opiniões de Carlos Augusto Montenegro, do IBOPE.
1. A próxima pesquisa IBOPE deverá dar uma diferença de 8 a 10 pontos para Dilma.
2. As próximas pesquisas do Datafolha deverão convergir para os resultados dos demais institutos.
3. O fato da Globo marcar transmissão de jogo para o horário do debate político da Bandeirantes é sinal de que ela não acredita mais que a exposição dos candidatos será positiva para José Serra.
4. A eleição para presidente será decidida no primeiro turno.
Comentário
Ou a coisa está de fato muito, mas muito feia para José Serra (talvez quase tão feia quanto ele mesmo), ou estão armando uma arapuca para Dilma (para que se entre no clima de “já ganhou”).
Se até o Montenegro, um fiel torcedor do PSDB diz isto... a coisa já esteve melhor pra direita brasileira.
1. A próxima pesquisa IBOPE deverá dar uma diferença de 8 a 10 pontos para Dilma.
2. As próximas pesquisas do Datafolha deverão convergir para os resultados dos demais institutos.
3. O fato da Globo marcar transmissão de jogo para o horário do debate político da Bandeirantes é sinal de que ela não acredita mais que a exposição dos candidatos será positiva para José Serra.
4. A eleição para presidente será decidida no primeiro turno.
Comentário
Ou a coisa está de fato muito, mas muito feia para José Serra (talvez quase tão feia quanto ele mesmo), ou estão armando uma arapuca para Dilma (para que se entre no clima de “já ganhou”).
Se até o Montenegro, um fiel torcedor do PSDB diz isto... a coisa já esteve melhor pra direita brasileira.
Os problemas da TV cultura - por Luis Nassif
Movimento Salve a TV Cultura
Não tenho por hábito estimular movimentos de mobilização pela Internet. Mas esse caso da TV Cultura não pode ficar assim.
Não é possível que o trabalho de gerações de paulistas, que a tradição criada por Roberto Muylaert seja destruída pela postura imperial de um presidente indicado pelo governo do Estado. Não se pode deixar João Sayad promover esse desmonte.
Montou-se um Conselho supostamente representativo da sociedade civil paulista, mas que só tem servido para sancionar decisões que partem do governo do Estado.
Nos últimos anos, a TV Cultura foi uma caixa preta. Apesar de indícios veementes de irregularidades, o conselho passou ao largo da gestão Marcos Mendonça. A blindagem proporcionada pela mídia a todos os atos de governo garantiu esse silêncio atroz, um pacto de cumplicidade naquele que deveria ser o Estado por excelência da afirmação da sociedade civil.
Há diversas funções das mais relevantes a serem cumpridas pela TV Cultura. Há uma cultura paulista espalhada por todo o Estado à espera de divulgação, há novas gerações de músicos aguardando espaço, há uma discussão ampla sobre os rumos do estado e do país. Como emissora pública, a TV Cultura teria espaço para prestar serviços a órgãos públicos - como já faz -, tem facilidade para captar recursos pela Lei Rouanet. Poderia se montar um trabalho amplo de mobilização junto às empresas paulistas.
Poderia ser o veículo por excelência das Secretarias da Educação, da Cultura, da Gestão. Mas nas vezes em que se ensaiou essa parceria, foi apenas para validar negócios de ONGs controladas por aliados políticos.
Todo esse potencial é deixado de lado pela postura fácil do desmonte.
Fica aqui a sugestão para a criação de um Movimento Salve a TV Cultura. O Blog ficará à disposição dos que tiverem propostas, ideias e mobilização para essa empreitada que é questão de honra para São Paulo.
O desmonte final da TV Cultura
Infelizmente a marca que fica de sucessivas gestões paulistas é a da incapacidade de recuperar qualquer órgão público, por mais relevante que seja. Não houve um só movimento para recuperar a capacidade de planejamento da Fundap, Cepam, para arejar a Fundação Seade, para capacitar o DER, a CESP.
É como se o Estado não acreditasse em sua capacidade de gestão. Em vez de estratégias de racionalização, a serem aplicadas a cada caso, transforma-se terceirização e privatização em peça central, em dogma absoluto de política pública. E sempre aberto a toda sorte de manobras, como o caso escandaloso da Cultura Marcas, na gestão Marcos Mendonça, que Sayad varreu para baixo do tapete.
Não se olha o potencial não explorado de nenhuma instituição paulista. Todas são meramente centros de custos para administradores sem nenhuma imaginação e nenhuma vontade de pegar no batente.
Por bene
É o enterro final da TV Cultura?
Vão demitir 1400 funcionários, vender estúdios...
Triste fim. Muito triste.
Bomba: TV Cultura vai cortar programas e demitir 1.400
Ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad assumiu a presidência da TV Cultura em junho com a missão de reduzir a TV pública paulista a uma simples TV estatal. Com o aval do ex-governador José Serra e do atual governador, Alberto Goldman, Sayad pretende reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%, dos atuais 1.800 para 400.
Sayad pensa até em vender o patrimônio da TV Cultura. Já encomendou aos advogados da emissora um estudo sobre a viabilidade de a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV, se desfazer de seus estúdios e edifícios na Água Branca, em São Paulo.
Em reuniões com diretores da emissora, Sayad tem dito que a Cultura não precisa ter mais do que 400 funcionários, que ficariam, segundo ele, muito bem instalados em um andar de um prédio comercial. A postura evidencia que a TV Cultura deixou de ser uma questão de política pública. Passou a ser um "pepino", um problema a ser eliminado pelo governo do Estado.
Fontes ouvidas pelo blog informam que Sayad vive dizendo que irá transformar a Cultura, hoje produtora de programas, em uma coprodutora. Ou seja, ela deixará de produzir de produzir programas de entretenimento. Passará a encomendá-los a produtoras independentes e a comprá-los no mercado internacional. Atrações como o Metrópolis podem estar em seus últimos dias.
O jornalismo da Cultura deixará de investir no noticiário do dia a dia, caro e melhor produzido pelas redes comerciais. A partir de setembro, o Jornal da Cultura, com Maria Cristina Poli, passará a ser um jornal mais de debates, de discussão sobre o noticiário, do que de notícias.
Corte de receitas
A TV Cultura tem hoje um orçamento de cerca R$ 230 milhões. Desse total, R$ 50 milhões vêm da venda de espaço nos intervalos dos programas para anunciantes privados. Outros R$ 60 milhões são oriundos da prestação de serviços, como é chamada na emissora a produção de programas e vídeos para instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Procuradoria da República, a TV Assembleia (do Estado de S.Paulo) e a TV Justiça.
Pois a gestão de Sayad já iniciou o desmonte dessas duas fontes de recursos. Até o ano que vem, a TV Cultura não terá mais nenhuma publicidade comercial em seus intervalos nem produzirá mais programação para órgãos públicos (a publicidade institucional, irrisória, será mantida).
Dessa forma, reduzirá uma boa parte do seu número de funcionários.
Se o plano for executado, a TV Cultura sobreviverá apenas dos R$ 70 milhões que o governo do Estado aporta diretamente todos os anos, além de outros R$ 50 milhões ela que recebe pela produção de conteúdo para as secretarias estadual e municipal de Educação.
Demissões em massa
O plano de demissões de Sayad é mais complexo. Por causa das eleições de outubro, ele não pode demitir funcionários contratados em regime de CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) até dezembro. A Cultura tem entre 1.000 e 1.200 funcionários celetistas. Esses trabalhadores têm emprego garantido até janeiro. Depois, dependem da postura do novo governador do Estado. Para demitir funcionários celetistas, Sayad precisará do apoio do futuro governador, porque terá de contar com verbas extras para pagar as indenizações.
Já os profissionais contratados como pessoas jurídicas (os PJs, pessoas que têm microempresas) podem ser "demitidos" a qualquer momento. Eles seriam de 600 a 800. Os cortes devem ser feitos à medida que contratos de prestação de serviços, como o da TV Assembleia, forem vencendo e não renovados.
Outro lado
O blog tentou ouvir o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre as mudanças que ele pretende implantar na TV Cultura. Na última segunda-feira, por meio da assessoria de imprensa da emissora, pediu uma entrevista. Ontem à tarde, a TV Cultura informou que Sayad não falaria com o R7.
As informações aqui publicadas foram relatadas previamente à assessoria de imprensa da TV Cultura. Nada foi negado.
COMENTÁRIO
De fato, administrar não é fácil, e administrar a coisa pública é ainda mais complicado devido aos inevitáveis entraves burocráticos e a lentidão motivada tanto por alguns funcionários relapsos, quanto pelas normas mil que tentam evitar a corrupção, o peculato, etc.
Portanto, administrar a coisa pública não é tarefa para despreparados.
Porém, quando uma instituição pública, qualquer que ela seja, cai nas mãos do PSDB, é inevitável que apelem a privatizações e terceirizações, isto porque seria impossível encontrar neste partido um administrador de mão cheia.
Recorre-se ao mais fácil: terceiriza-se, privatiza-se, para esconder a própria incompetência na administração, para “passar o pepino” para outrem, mais capaz, mais dedicado, mais líder, mais preparado.
É uma lástima.
Não tenho por hábito estimular movimentos de mobilização pela Internet. Mas esse caso da TV Cultura não pode ficar assim.
Não é possível que o trabalho de gerações de paulistas, que a tradição criada por Roberto Muylaert seja destruída pela postura imperial de um presidente indicado pelo governo do Estado. Não se pode deixar João Sayad promover esse desmonte.
Montou-se um Conselho supostamente representativo da sociedade civil paulista, mas que só tem servido para sancionar decisões que partem do governo do Estado.
Nos últimos anos, a TV Cultura foi uma caixa preta. Apesar de indícios veementes de irregularidades, o conselho passou ao largo da gestão Marcos Mendonça. A blindagem proporcionada pela mídia a todos os atos de governo garantiu esse silêncio atroz, um pacto de cumplicidade naquele que deveria ser o Estado por excelência da afirmação da sociedade civil.
Há diversas funções das mais relevantes a serem cumpridas pela TV Cultura. Há uma cultura paulista espalhada por todo o Estado à espera de divulgação, há novas gerações de músicos aguardando espaço, há uma discussão ampla sobre os rumos do estado e do país. Como emissora pública, a TV Cultura teria espaço para prestar serviços a órgãos públicos - como já faz -, tem facilidade para captar recursos pela Lei Rouanet. Poderia se montar um trabalho amplo de mobilização junto às empresas paulistas.
Poderia ser o veículo por excelência das Secretarias da Educação, da Cultura, da Gestão. Mas nas vezes em que se ensaiou essa parceria, foi apenas para validar negócios de ONGs controladas por aliados políticos.
Todo esse potencial é deixado de lado pela postura fácil do desmonte.
Fica aqui a sugestão para a criação de um Movimento Salve a TV Cultura. O Blog ficará à disposição dos que tiverem propostas, ideias e mobilização para essa empreitada que é questão de honra para São Paulo.
O desmonte final da TV Cultura
Infelizmente a marca que fica de sucessivas gestões paulistas é a da incapacidade de recuperar qualquer órgão público, por mais relevante que seja. Não houve um só movimento para recuperar a capacidade de planejamento da Fundap, Cepam, para arejar a Fundação Seade, para capacitar o DER, a CESP.
É como se o Estado não acreditasse em sua capacidade de gestão. Em vez de estratégias de racionalização, a serem aplicadas a cada caso, transforma-se terceirização e privatização em peça central, em dogma absoluto de política pública. E sempre aberto a toda sorte de manobras, como o caso escandaloso da Cultura Marcas, na gestão Marcos Mendonça, que Sayad varreu para baixo do tapete.
Não se olha o potencial não explorado de nenhuma instituição paulista. Todas são meramente centros de custos para administradores sem nenhuma imaginação e nenhuma vontade de pegar no batente.
Por bene
É o enterro final da TV Cultura?
Vão demitir 1400 funcionários, vender estúdios...
Triste fim. Muito triste.
Bomba: TV Cultura vai cortar programas e demitir 1.400
Ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad assumiu a presidência da TV Cultura em junho com a missão de reduzir a TV pública paulista a uma simples TV estatal. Com o aval do ex-governador José Serra e do atual governador, Alberto Goldman, Sayad pretende reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%, dos atuais 1.800 para 400.
Sayad pensa até em vender o patrimônio da TV Cultura. Já encomendou aos advogados da emissora um estudo sobre a viabilidade de a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV, se desfazer de seus estúdios e edifícios na Água Branca, em São Paulo.
Em reuniões com diretores da emissora, Sayad tem dito que a Cultura não precisa ter mais do que 400 funcionários, que ficariam, segundo ele, muito bem instalados em um andar de um prédio comercial. A postura evidencia que a TV Cultura deixou de ser uma questão de política pública. Passou a ser um "pepino", um problema a ser eliminado pelo governo do Estado.
Fontes ouvidas pelo blog informam que Sayad vive dizendo que irá transformar a Cultura, hoje produtora de programas, em uma coprodutora. Ou seja, ela deixará de produzir de produzir programas de entretenimento. Passará a encomendá-los a produtoras independentes e a comprá-los no mercado internacional. Atrações como o Metrópolis podem estar em seus últimos dias.
O jornalismo da Cultura deixará de investir no noticiário do dia a dia, caro e melhor produzido pelas redes comerciais. A partir de setembro, o Jornal da Cultura, com Maria Cristina Poli, passará a ser um jornal mais de debates, de discussão sobre o noticiário, do que de notícias.
Corte de receitas
A TV Cultura tem hoje um orçamento de cerca R$ 230 milhões. Desse total, R$ 50 milhões vêm da venda de espaço nos intervalos dos programas para anunciantes privados. Outros R$ 60 milhões são oriundos da prestação de serviços, como é chamada na emissora a produção de programas e vídeos para instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Procuradoria da República, a TV Assembleia (do Estado de S.Paulo) e a TV Justiça.
Pois a gestão de Sayad já iniciou o desmonte dessas duas fontes de recursos. Até o ano que vem, a TV Cultura não terá mais nenhuma publicidade comercial em seus intervalos nem produzirá mais programação para órgãos públicos (a publicidade institucional, irrisória, será mantida).
Dessa forma, reduzirá uma boa parte do seu número de funcionários.
Se o plano for executado, a TV Cultura sobreviverá apenas dos R$ 70 milhões que o governo do Estado aporta diretamente todos os anos, além de outros R$ 50 milhões ela que recebe pela produção de conteúdo para as secretarias estadual e municipal de Educação.
Demissões em massa
O plano de demissões de Sayad é mais complexo. Por causa das eleições de outubro, ele não pode demitir funcionários contratados em regime de CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) até dezembro. A Cultura tem entre 1.000 e 1.200 funcionários celetistas. Esses trabalhadores têm emprego garantido até janeiro. Depois, dependem da postura do novo governador do Estado. Para demitir funcionários celetistas, Sayad precisará do apoio do futuro governador, porque terá de contar com verbas extras para pagar as indenizações.
Já os profissionais contratados como pessoas jurídicas (os PJs, pessoas que têm microempresas) podem ser "demitidos" a qualquer momento. Eles seriam de 600 a 800. Os cortes devem ser feitos à medida que contratos de prestação de serviços, como o da TV Assembleia, forem vencendo e não renovados.
Outro lado
O blog tentou ouvir o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre as mudanças que ele pretende implantar na TV Cultura. Na última segunda-feira, por meio da assessoria de imprensa da emissora, pediu uma entrevista. Ontem à tarde, a TV Cultura informou que Sayad não falaria com o R7.
As informações aqui publicadas foram relatadas previamente à assessoria de imprensa da TV Cultura. Nada foi negado.
COMENTÁRIO
De fato, administrar não é fácil, e administrar a coisa pública é ainda mais complicado devido aos inevitáveis entraves burocráticos e a lentidão motivada tanto por alguns funcionários relapsos, quanto pelas normas mil que tentam evitar a corrupção, o peculato, etc.
Portanto, administrar a coisa pública não é tarefa para despreparados.
Porém, quando uma instituição pública, qualquer que ela seja, cai nas mãos do PSDB, é inevitável que apelem a privatizações e terceirizações, isto porque seria impossível encontrar neste partido um administrador de mão cheia.
Recorre-se ao mais fácil: terceiriza-se, privatiza-se, para esconder a própria incompetência na administração, para “passar o pepino” para outrem, mais capaz, mais dedicado, mais líder, mais preparado.
É uma lástima.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Serra e FHC, uma relação delicada - por Luis Nassif
No futuro, um dos enigmas políticos contemporâneos, que talvez se torne tese para algum candidato a doutorado de história, serão as relações políticas e pessoais entre Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Não apenas os amuos recíprocos, as críticas ferinas que sempre trocaram, mas a ligação quase simbiótica, a sujeição intelectual e política de Serra a FHC.
O que levou o tucano que parecia ter o maior potencial de liderança do partido, que assumiu o maior estado da União, no qual as melhores experiências administrativas poderiam ser colocadas em prática, a ficar sempre em segundo plano, ofuscado pela liderança daquele que caminha para ser o mais impopular ex-presidente da história?
Aqui alguns elementos para futuros historiadores que quiserem se habilitar a desvendar o enigma.
Eleito governador, José Serra parecia pronto para a escalada rumo à presidência da República. As eleições presidenciais foram encarniçadas. Sem cargos executivos, o ex-presidente FHC e senadores como Arhur Virgílio e Tasso Jereissatti, estimulavam o clima de guerra, o único no qual poderiam ganhar espaço junto ao PSDB.sp; O pêndulo do partido se inclinaria inevitavelmente para os governadores. O jogo político passaria a ser praticado em outro nível porque todos - Lula e governadores – precisariam de um pacto de governabilidade. Os novos governadores seriam o caminho para o arejamento da oposição, buscando governar da melhor forma possível para se qualificar para a sucessão de Lula.
As esperanças maiores estavam em Aécio Neves, em Minas, e Serra, em São Paulo.
Terminada as eleições, com os ecos das baixarias ainda muito fortes, escrevi um artigo dizendo que tinha chegado a época dos negociadores. Serra tinha formação de centro-esquerda, não tinha acertos de conta com a biografia – como FHC com Lula -, seria o negociador, o governador com capacidade para conduzir uma interlocução de alto nível com o governo federal, enterrando a loucura que havia tomado conta da oposição e da mídia.
A partir dali, o país entraria na era do amadurecimento político, com oposição e situação disputando quem faria melhor governo, teria as melhores propostas, sem intenções golpistas, sem dossiês, sem o clima terrível inaugurado pelo pacto espúrio de 2005 com a mídia
No artigo, dizia que a única esperança de Serra se consolidar seria enterrar o fernandismo e inaugurar definitivamente o serrismo. Empresários que Serra costumava ouvir insistiram no mesmo ponto.
Até então, julgava que as constantes manifestações de Serra sobre temas relevantes indicassem uma visão mais abrangente da economia. Levei algum tempo para entender que, afora alguns temas de economia, Serra passara ao largo de todas as grandes discussões dos anos 90 – gestão, inovação, políticas sociais, integração continental, políticas industriais modernas etc. Eram meramente táticas suas manifestações sobre alguns temas que ganhavam repercussão na mídia, visando ganhar a confiança de jornalistas ou de lideranças de alguns setores para fortalecer sua cruzada anti-Malan, na disputa pelas atenções de FHC.
Assim que recebeu o artigo pelo mailing, ele me ligou. Disse que, em geral, concordava com minhas posições, mas não a sugestão de romper com o fernandismo. «Ele é meu amigo, me apoia», me disse.
Estranhei a conversa. Não estavam em jogo amizade ou coisas do gênero, mas a afirmação de um novo conjunto de idéias, de uma nova liderança, o que só poderia ser feito se se enterrasse o modelo mercadista anterior, desenhado e conduzido por FHC. Como inaugurar uma nova era no PSDB sem consumar o enterro da anterior, que o partido carregava como uma bola de ferro amarrada aos pés?
Desligado o telefone, fiquei tentando entender a conversa. Aí caiu a primeira ficha.
Lembrei-me de uma cena ocorrida alguns anos antes que se fixara em algum lugar da memória e agora voltava à tona.
Foi no período em que ACM saiu atirando para todo lado. Deu entrevistas a duas ou três semanais, levantou o caso Ricardo Sérgio, atacou Serra, falou no caso do Fórum do TRT e do leque de escândalos que a mídia vinha agitando.
Tinha marcado um almoço com Serra no mesmo sábado no qual saíram as entrevistas com ACM. Ele ligou remarcando em lugar mais discreto. Almoçamos no restaurante do Hotel Cá Doro.
As entrevistas haviam sido violentas. Na revista Época, o Augusto Nunes – então diretor – forçara a barra até o limite da imprudência. Na abertura da entrevista dizia que ela teria a mesma importância da que Pedro Collor dera à Veja no início do processo de impeachment. Era evidente que a mídia procurava colocar uma outra marca na pistola, de derrubar mais um presidente.
No almoço, disse claramente a Serra que FHC era muito contemporizador, mas agora não tinha saída: ou destruía ACM ou seria destruído.
Serra ouvia e de vez em quando fazia comentários soltos, no estilo «faço e aconteço». «É por isso que não me querem na presidência porque sabem que em dois tempos acabo com eles», comentou. Na época tinha credibilidade para esse tipo de bazófia e acreditei piamente que ele acreditava no que dizia.
Segunda-feira tinha palestra em Brasília. Por volta do meio dia estava a caminho do aeroporto quando recebi telefonema do Serra. Perguntou se poderia almoçar com ele e FHC no Alvorada. Pedi para o taxista dar meia volta e fui para lá.
Durante algum tempo ficamos os três conversando na sala. Ali, pela primeira vez, pude entender melhor a relação entre ambos.
Até então tivera muitos encontros com FHC – desde os tempos de Senado – e com Serra, mas isoladamente. Em períodos de crise, FHC procurava seduzir interlocutores; em período de bonança, tornava-se arrogante. Na crise, tornava-se pró-ativo; na calmaria, acomodado.
Já Serra, desde que se tornara Ministro de FHC tinha por hábito criticar todas suas decisões, dizer-se melhor preparado para a presidência e contar prosa sobre como faria melhor isso ou aquilo. Jornalistas e amigos comuns sabiam disso e achavam engraçado.
Mesmo com muitas conversas em off, minha percepção, até então, era de um FHC frágil, pouco determinado. E era impressão generalizada. Lembro-me de um almoço com o embaixador norte-americano, no segundo semestre de 1994. Eu lhe dizia que não acreditava na disposição de FHC para conduzir reformas importantes ou enfrentar grandes desafios. Ele me disse que era a mesma percepção do Departamento de Estado. E nem me conhecia pessoalmente, mas apenas pelas colunas.
Surpreendi-me com sua rude franqueza, ainda mais sabendo-se que o estilo da mídia, desde aquela época, era de não respeitar off. Para sua sorte sua inconfidência foi feita a um jornalista que respeitava o combinado.
Mas o que via na minha frente, ali no Alvorada, era algo que não batia com minha percepção sobre os dois políticos. FHC estava à vontade, falava bastante. Serra estava inibido, sorumbático, monossilábico.
FHC comentou sobre os problemas no TRT de São Paulo. Disse que as acusações iriam quebrar a cara porque o contrato era juridicamente perfeito.
Antes de ir para a mesa, Serra pediu-me que repetisse o que havia lhe dito no almoço de sábado. Repeti, disse que ou FHC destruiria ACM, ou seria destruído por ele.
FHC não perdeu a bonomia. Como se tivesse tratando de um problema banal, disse:
- O Antônio Carlos está esperneando porque sabe que está perdido. Vai ser cassado por causa do vazamento do painel de votação do Senado.
O caso do vazamento ainda não ganhara os jornais. Não piscou, não perdeu a segurança. Era o Príncipe em estado puro, frio, senhor da situação, analista com controle absoluto sobre os desdobramentos da maior crise que enfrentara.
Olhei para o Serra, minha esperança de futuro grande estadista do país. E vi apenas um político assustado, inibido pela presença e pela análise de situação de FHC.
Fiquei algum tempo sem entender direito. Porque Serra precisou de mim para transmitir um recado que, se ele tivesse o poder do qual se jactava, teria sugerido pessoalmente a FHC? Mais que isso: parecia desconhecer a determinação de FHC. Será que aquela inibição que testemunhei no almoço, quase um temor reverencial, era a regra nas relações pessoais entre ambos?
Saí do almoço intrigado. Depois o dia a dia soterrou por algum tempo as lembranças daquelas cenas. A memória trouxe de volta quando Serra desligou o telefone, depois de me dizer que não havia razão para romper com o fernandismo.
No fundo, jamais conseguiu se desvencilhar da influência massacrante de FHC. Não propriamente nas ideias, mas na capacidade de decidir, de se mover no cenário político, na frieza ao encarar os grandes perigos, na clareza de definir slogans mobilizadores de campanha, na segurança de saber o que queria.
E FHC conhecia Serra como a palma da mão. Daí a relutância permanente em abrir espaço para ele – que Serra interpretava como medo da sua competência. Daí as ressalvas permanentes, as dicas que passou no perfil que a revista Piauí traçou sobre Serra.
Durante os quatro anos como governador, comeu na mão de FHC. Através dele, montou o pacto com a mídia que lhe permitiu exercitar seu esporte predileto: fuzilar reputações de terceiros, pedir a cabeça de jornalistas, levando o paroxismo da mídia e níveis inéditos, uma guerra suja e sem quartel, mas sempre nos bastidores. Foi a FHC que recorreu em pânico, em janeiro, querendo se afastar do cálice da candidatura a presidente, conforme a reconstituição feita pelo Estadão.
Em toda sua vida política, afastou-se de FHC apenas nos dois últimos meses, pressionado pelos altíssimos índices de rejeição do seu guru. E aí tornou-se um trem desgovernado, sem maquinista.
O que levou o tucano que parecia ter o maior potencial de liderança do partido, que assumiu o maior estado da União, no qual as melhores experiências administrativas poderiam ser colocadas em prática, a ficar sempre em segundo plano, ofuscado pela liderança daquele que caminha para ser o mais impopular ex-presidente da história?
Aqui alguns elementos para futuros historiadores que quiserem se habilitar a desvendar o enigma.
Eleito governador, José Serra parecia pronto para a escalada rumo à presidência da República. As eleições presidenciais foram encarniçadas. Sem cargos executivos, o ex-presidente FHC e senadores como Arhur Virgílio e Tasso Jereissatti, estimulavam o clima de guerra, o único no qual poderiam ganhar espaço junto ao PSDB.sp; O pêndulo do partido se inclinaria inevitavelmente para os governadores. O jogo político passaria a ser praticado em outro nível porque todos - Lula e governadores – precisariam de um pacto de governabilidade. Os novos governadores seriam o caminho para o arejamento da oposição, buscando governar da melhor forma possível para se qualificar para a sucessão de Lula.
As esperanças maiores estavam em Aécio Neves, em Minas, e Serra, em São Paulo.
Terminada as eleições, com os ecos das baixarias ainda muito fortes, escrevi um artigo dizendo que tinha chegado a época dos negociadores. Serra tinha formação de centro-esquerda, não tinha acertos de conta com a biografia – como FHC com Lula -, seria o negociador, o governador com capacidade para conduzir uma interlocução de alto nível com o governo federal, enterrando a loucura que havia tomado conta da oposição e da mídia.
A partir dali, o país entraria na era do amadurecimento político, com oposição e situação disputando quem faria melhor governo, teria as melhores propostas, sem intenções golpistas, sem dossiês, sem o clima terrível inaugurado pelo pacto espúrio de 2005 com a mídia
No artigo, dizia que a única esperança de Serra se consolidar seria enterrar o fernandismo e inaugurar definitivamente o serrismo. Empresários que Serra costumava ouvir insistiram no mesmo ponto.
Até então, julgava que as constantes manifestações de Serra sobre temas relevantes indicassem uma visão mais abrangente da economia. Levei algum tempo para entender que, afora alguns temas de economia, Serra passara ao largo de todas as grandes discussões dos anos 90 – gestão, inovação, políticas sociais, integração continental, políticas industriais modernas etc. Eram meramente táticas suas manifestações sobre alguns temas que ganhavam repercussão na mídia, visando ganhar a confiança de jornalistas ou de lideranças de alguns setores para fortalecer sua cruzada anti-Malan, na disputa pelas atenções de FHC.
Assim que recebeu o artigo pelo mailing, ele me ligou. Disse que, em geral, concordava com minhas posições, mas não a sugestão de romper com o fernandismo. «Ele é meu amigo, me apoia», me disse.
Estranhei a conversa. Não estavam em jogo amizade ou coisas do gênero, mas a afirmação de um novo conjunto de idéias, de uma nova liderança, o que só poderia ser feito se se enterrasse o modelo mercadista anterior, desenhado e conduzido por FHC. Como inaugurar uma nova era no PSDB sem consumar o enterro da anterior, que o partido carregava como uma bola de ferro amarrada aos pés?
Desligado o telefone, fiquei tentando entender a conversa. Aí caiu a primeira ficha.
Lembrei-me de uma cena ocorrida alguns anos antes que se fixara em algum lugar da memória e agora voltava à tona.
Foi no período em que ACM saiu atirando para todo lado. Deu entrevistas a duas ou três semanais, levantou o caso Ricardo Sérgio, atacou Serra, falou no caso do Fórum do TRT e do leque de escândalos que a mídia vinha agitando.
Tinha marcado um almoço com Serra no mesmo sábado no qual saíram as entrevistas com ACM. Ele ligou remarcando em lugar mais discreto. Almoçamos no restaurante do Hotel Cá Doro.
As entrevistas haviam sido violentas. Na revista Época, o Augusto Nunes – então diretor – forçara a barra até o limite da imprudência. Na abertura da entrevista dizia que ela teria a mesma importância da que Pedro Collor dera à Veja no início do processo de impeachment. Era evidente que a mídia procurava colocar uma outra marca na pistola, de derrubar mais um presidente.
No almoço, disse claramente a Serra que FHC era muito contemporizador, mas agora não tinha saída: ou destruía ACM ou seria destruído.
Serra ouvia e de vez em quando fazia comentários soltos, no estilo «faço e aconteço». «É por isso que não me querem na presidência porque sabem que em dois tempos acabo com eles», comentou. Na época tinha credibilidade para esse tipo de bazófia e acreditei piamente que ele acreditava no que dizia.
Segunda-feira tinha palestra em Brasília. Por volta do meio dia estava a caminho do aeroporto quando recebi telefonema do Serra. Perguntou se poderia almoçar com ele e FHC no Alvorada. Pedi para o taxista dar meia volta e fui para lá.
Durante algum tempo ficamos os três conversando na sala. Ali, pela primeira vez, pude entender melhor a relação entre ambos.
Até então tivera muitos encontros com FHC – desde os tempos de Senado – e com Serra, mas isoladamente. Em períodos de crise, FHC procurava seduzir interlocutores; em período de bonança, tornava-se arrogante. Na crise, tornava-se pró-ativo; na calmaria, acomodado.
Já Serra, desde que se tornara Ministro de FHC tinha por hábito criticar todas suas decisões, dizer-se melhor preparado para a presidência e contar prosa sobre como faria melhor isso ou aquilo. Jornalistas e amigos comuns sabiam disso e achavam engraçado.
Mesmo com muitas conversas em off, minha percepção, até então, era de um FHC frágil, pouco determinado. E era impressão generalizada. Lembro-me de um almoço com o embaixador norte-americano, no segundo semestre de 1994. Eu lhe dizia que não acreditava na disposição de FHC para conduzir reformas importantes ou enfrentar grandes desafios. Ele me disse que era a mesma percepção do Departamento de Estado. E nem me conhecia pessoalmente, mas apenas pelas colunas.
Surpreendi-me com sua rude franqueza, ainda mais sabendo-se que o estilo da mídia, desde aquela época, era de não respeitar off. Para sua sorte sua inconfidência foi feita a um jornalista que respeitava o combinado.
Mas o que via na minha frente, ali no Alvorada, era algo que não batia com minha percepção sobre os dois políticos. FHC estava à vontade, falava bastante. Serra estava inibido, sorumbático, monossilábico.
FHC comentou sobre os problemas no TRT de São Paulo. Disse que as acusações iriam quebrar a cara porque o contrato era juridicamente perfeito.
Antes de ir para a mesa, Serra pediu-me que repetisse o que havia lhe dito no almoço de sábado. Repeti, disse que ou FHC destruiria ACM, ou seria destruído por ele.
FHC não perdeu a bonomia. Como se tivesse tratando de um problema banal, disse:
- O Antônio Carlos está esperneando porque sabe que está perdido. Vai ser cassado por causa do vazamento do painel de votação do Senado.
O caso do vazamento ainda não ganhara os jornais. Não piscou, não perdeu a segurança. Era o Príncipe em estado puro, frio, senhor da situação, analista com controle absoluto sobre os desdobramentos da maior crise que enfrentara.
Olhei para o Serra, minha esperança de futuro grande estadista do país. E vi apenas um político assustado, inibido pela presença e pela análise de situação de FHC.
Fiquei algum tempo sem entender direito. Porque Serra precisou de mim para transmitir um recado que, se ele tivesse o poder do qual se jactava, teria sugerido pessoalmente a FHC? Mais que isso: parecia desconhecer a determinação de FHC. Será que aquela inibição que testemunhei no almoço, quase um temor reverencial, era a regra nas relações pessoais entre ambos?
Saí do almoço intrigado. Depois o dia a dia soterrou por algum tempo as lembranças daquelas cenas. A memória trouxe de volta quando Serra desligou o telefone, depois de me dizer que não havia razão para romper com o fernandismo.
No fundo, jamais conseguiu se desvencilhar da influência massacrante de FHC. Não propriamente nas ideias, mas na capacidade de decidir, de se mover no cenário político, na frieza ao encarar os grandes perigos, na clareza de definir slogans mobilizadores de campanha, na segurança de saber o que queria.
E FHC conhecia Serra como a palma da mão. Daí a relutância permanente em abrir espaço para ele – que Serra interpretava como medo da sua competência. Daí as ressalvas permanentes, as dicas que passou no perfil que a revista Piauí traçou sobre Serra.
Durante os quatro anos como governador, comeu na mão de FHC. Através dele, montou o pacto com a mídia que lhe permitiu exercitar seu esporte predileto: fuzilar reputações de terceiros, pedir a cabeça de jornalistas, levando o paroxismo da mídia e níveis inéditos, uma guerra suja e sem quartel, mas sempre nos bastidores. Foi a FHC que recorreu em pânico, em janeiro, querendo se afastar do cálice da candidatura a presidente, conforme a reconstituição feita pelo Estadão.
Em toda sua vida política, afastou-se de FHC apenas nos dois últimos meses, pressionado pelos altíssimos índices de rejeição do seu guru. E aí tornou-se um trem desgovernado, sem maquinista.
Juiz que prendeu Dantas duas vezes não crê na Justiça - por PHA
http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/08/03/juiz-que-prendeu-dantas-duas-vezes-nao-cre-na-justica/
Comentário
Todo apoio a De Sanctis para novo ministro do STF.
Só tenho pena dele, pelas companhias em que ele se fará presente.
Comentário
Todo apoio a De Sanctis para novo ministro do STF.
Só tenho pena dele, pelas companhias em que ele se fará presente.
Eros Grau volta a advogar. Por que não para Dantas? - por PHA
http://www.conversaafiada.com.br/politica/2010/08/03/eros-grau-volta-a-advogar/ - por Paulo Henrique Amorim.
Comentário
E pensar que eu tinha grandes esperanças de que Eros Grau fosse ser o melhor ministro do STF. Foi uma lástima. É outro que vai tarde.
Comentário
E pensar que eu tinha grandes esperanças de que Eros Grau fosse ser o melhor ministro do STF. Foi uma lástima. É outro que vai tarde.
Uribe, o herói do PiG, fez a maior vala comum do mundo - por PHA
http://www.conversaafiada.com.br/mundo/2010/08/02/uribe-o-heroi-do-pig-fez-a-maior-vala-comum-do-mundo/ - por Paulo Henrique Amorim.
Comentário:
Uribe nada mais é do um George War Bush sul americano. Com as mesmas táticas, mesmas estratégiuas de controle pelo medo através do mídia, do confronto, da invenção de bruxas, da criação de inimigos para unir os seus.
É uma excrescência que já vai tarde. Era um perigo enorme para a América do Sul tê-lo como presidente.
Comentário:
Uribe nada mais é do um George War Bush sul americano. Com as mesmas táticas, mesmas estratégiuas de controle pelo medo através do mídia, do confronto, da invenção de bruxas, da criação de inimigos para unir os seus.
É uma excrescência que já vai tarde. Era um perigo enorme para a América do Sul tê-lo como presidente.
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