domingo, 22 de abril de 2012

Grandino Rodas, o bárbaro - por Cynara Menezes (CartaCapital)

Imaginem um lugar com cerca de 110 mil habitantes e quase 5 milhões de metros quadrados, todo cercado, com um administrador que toma decisões sem ouvir ninguém, que recorre à repressão policial e ao banimento de dissidentes e utiliza espiões para se manter informado da atividade dos adversários. Não, não se trata de nenhuma republiqueta de bananas, mas da maior universidade do País, a USP, sob a governança do reitor João Grandino Rodas, também conhecido no campus como “o rei”.

Desde que assumiu a direção da USP, em 2010, uma série de medidas polêmicas tem colocado na berlinda a gestão de Rodas, criticada como pouco democrática, para dizer o mínimo. Em janeiro deste ano, vieram à tona documentos que mostram que o reitor recebe de arapongas relatórios sobre o que se passa nas reuniões dos funcionários, professores e alunos. Confeccionados por certa “sala de crise”, os textos trazem todos os detalhes sobre as assembleias, narradas ponto a ponto, inclusive com os nomes e ligações partidárias dos envolvidos.
Estudante é retirado a força de ocupação na reitoria da USP,
em novembro de 2011. Desde a ditadura, não havia o risco
de tantos alunos serem expulsos como agora
.
Foto: André Lessa/AE

A última das controvérsias envolvendo o reitor ainda está por vir: na semana passada, os 73 alunos presos durante a ocupação da reitoria, em novembro do ano passado, começaram a receber a intimação para apresentarem defesa no processo movido contra eles pela USP. Não se trata apenas de expulsão, mas da “eliminação” dos estudantes, baseada num regimento da época da ditadura: se confirmada, nenhum deles poderá retornar, por meio de vestibular, nem se empregar na universidade. Ou seja, estarão banidos.

Embora a ocupação da reitoria tenha sido considerada desastrada até mesmo por representantes dos alunos, também a punição é vista como digna de quem governa como ditador. Será a primeira vez, desde os anos de chumbo, que a USP expulsa alunos em massa. Em dezembro do ano passado, seis estudantes foram expelidos da universidade por terem ocupado o prédio da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) em 2010. Se os 73 também saírem, a universidade alcançará o impressionante número de 79 alunos eliminados em dois anos de administração Rodas. É o equivalente a um terço do total de estudantes expulsos durante toda a ditadura no País: 245, segundo cálculos da Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça.

Cinco dos alunos expulsos já estão recorrendo da decisão. No mês passado, o juiz da 10ª Vara de Fazenda Pública de São Paulo, Valentino Aparecido de Andrade, mandou a USP readmitir um deles, sob a alegação de que a pena foi “excessiva”. A universidade anunciou que vai recorrer. Na terça-feira 10, outro expulso, o estudante de Geografia Yves de Carvalho Souzedo, assinou um artigo no jornal Folha de S.Paulo questionando a decisão da USP de defenestrá-lo, às vésperas de receber o diploma de conclusão do curso, sem que fossem apresentadas provas de seu envolvimento na ocupação.

“Acordei com a notícia de que tinha sido expulso. Foi uma cacetada: já havia sido aprovado em concurso para ser professor da rede pública estadual e não posso assumir o cargo porque não tenho diploma”, disse Yves a CartaCapital. Ele afirma que nunca pertenceu a partidos políticos e não ocupou a Coseas. “Estive lá para dar solidariedade aos colegas quando fui avisado de que a polícia estava chegando. Minha expulsão foi uma decisão política do reitor, que esperou o momento certo para intimidar os estudantes. Tanto é que todo mundo pensa que fomos expulsos por causa da ocupação da reitoria.”

Diretor reeleito do Diretório Central dos Estudantes (DCE), o estudante de Ciências Sociais Pedro Serrano acusa o reitor Rodas de seguir uma política de “criminalização” das entidades representativas dos estudantes, professores e funcionários. “Ele não debate. Várias medidas que toma não foram sequer submetidas ao Conselho Universitário. Para nós, a política de militarização da universidade não é motivada pela insegurança, mas um pretexto para o controle ideológico”, diz Serrano.

Em fevereiro, dez diretores da Associação dos Docentes da USP (Adusp) foram interpelados judicialmente pelo reitor por causa de frases atribuídas à entidade em editorial de O Estado de S. Paulo. “É uma tentativa de calar vozes críticas à forma como ele vem administrando, gerindo e representando a USP. Demonstra a opção por um método de viés autoritário, cuja principal característica é a intolerância”, acusa César Minto, vice-presidente da Adusp.

“O consenso não é uma das virtudes do reitor Grandino Rodas. Os conflitos aumentam quando chegam às mãos dele”, opina o professor da Faculdade de Ciências Humanas, Filosofia e Letras Vladimir Safatle, colunista de CartaCapital. “Infelizmente, ele não é a pessoa adequada para ocupar o cargo de reitor. Precisávamos de alguém que diminuísse os conflitos, que tivesse uma ascendência acadêmica clara. Um reitor deve lembrar que a universidade não funciona graças a ele, mas independentemente dele. Não é o caso de Rodas.”

A questionada convocação de policiais militares para cuidar da segurança na USP foi decidida pelo Conselho Gestor, em caráter emergencial, em maio de 2011, após o assassinato de um aluno dentro da Cidade Universitária, em tentativa de assalto. Em outubro, depois que três alunos do curso de Geografia foram presos pela PM por estarem fumando maconha no estacionamento, aconteceu a ocupação da reitoria, que acabou com a chegada de 400 policiais da tropa de choque da PM, expulsando e prendendo os estudantes.
Força Tática em frente a reitoria para cumprir o mandado
de reintegração de posse, em novembro.

Foto: Milton Jung/Flickr
As entidades representativas de alunos, professores e funcionários sempre defenderam que o policiamento deveria ser feito pela Guarda Universitária e que faltou debater o assunto, como ocorre em outros países – no México, por exemplo, um grupo de reitores discute atualmente como resolver o problema dos assaltos, sequestros e do narcotráfico dentro dos campi universitários. Segundo o professor de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura da USP Nabil Bonduki, trata-se de um problema complexo, porque o modelo para as universidades foi pensado nas décadas de 1940 e 1950, e está superado.

“As cidades universitárias são enormes e distantes, uma área cercada que não se integra e não incorpora usos urbanos. Isso leva à desertificação nos horários e dias em que não há aulas”, opina Bonduki, para quem o policiamento é só parte da solução. “Deveria haver novos espaços residenciais, para povoá-la mais, um sistema de transporte público eficiente para reduzir a presença de automóveis no campus, conexão entre a estação de trem próxima e a universidade, e que a USP voltasse a ser um espaço de lazer para a cidade, como já foi. Atualmente está fechada ao público nos fins de semana. Mas tudo isso tem de ser discutido com a comunidade, inclusive com seu entorno.”

Na vizinhança da USP, a Favela São Remo foi recentemente alvo de uma denúncia da TV Bandeirantes: um relatório da Polícia Civil de São Paulo revelou conexões entre o tráfico de drogas ali exercido, e ninguém menos que o batalhão que policia a universidade. Uma pesquisa feita pelo instituto Datafolha em novembro do ano passado mostrou que 58% dos estudantes da universidade apoiam o policiamento, mas 57% deles também disseram que a presença da PM não havia alterado a sensação de falta de segurança no campus.

Não bastasse ter chamado a polícia para dentro da universidade, há duas semanas foi noticiada a contratação, pela reitoria, de um coronel reformado da PM para ser o responsável pela segurança da universidade, na recém-criada Superintendência de Segurança (SS).

Uma das primeiras polêmicas envolvendo o reitor foi justamente a utilização do termo “revolução de 1964” em uma placa no monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos da ditadura que está sendo erguido na Cidade Universitária, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência. Denunciado o ato pela imprensa, a placa foi retirada, mas o próprio Rodas costuma utilizar a expressão “revolução” em entrevistas. A CartaCapital o reitor se recusou a falar: exigiu que as perguntas fossem enviadas por e-mail, o que se deu, mas elas não foram respondidas até o fechamento desta edição.
Afetado. Souzedo (o tapume existe por
causa dele) atingido pela ira de
Grandino Rodas.

Foto: Olga Vlahou

Outro acontecimento digno de dúvida sobre a visão do reitor em relação à ditadura aconteceu no julgamento, em 1997, do processo da estilista Zuzu Angel pela Comissão de Mortos e Desaparecidos, da qual Rodas era membro. O advogado negou a participação do Estado na morte mal explicada de Zuzu em um acidente de carro em 1976, por considerar que não foram demonstradas conexões do governo da ditadura com sua morte. Foi voto vencido. Em 2007, o futuro reitor da USP seria condecorado com a medalha de mérito Castello Branco da Associação Campineira de Oficiais da Reserva do Exército.

Quando ainda era candidato a reitor, em 2009, O Estado de S. Paulo interpelou Rodas sobre os rumores de que seria ligado às organizações de direita Opus Dei e Tradição, Família e Propriedade (TFP). Dizendo-se “apolítico”, ele respondeu: “Sou católico, mas, embora respeitando movimentos mais específicos dentro do catolicismo, nunca me filiei a nenhum deles”.

A rejeição ao reitor, na verdade, nasceu de uma decisão por si pouco democrática: Grandino Rodas foi o segundo candidato mais votado de uma lista tríplice, mas acabou sendo escolhido pelo então governador José Serra, quebrando uma tradição que vinha desde a volta da democracia. Hoje presidente do CNPq, o físico Glaucius Oliva, que venceu a disputa, mas não levou, chegou a se declarar “desapontado”, e disse na época: “É muito ruim quando as cabeças são pequenas o bastante para contaminar questões acadêmicas com o viés político”. Imediatamente após a decisão de Serra, os estudantes fariam o primeiro protesto contra Rodas, ocupando o prédio da antiga reitoria.

As críticas sobre o “autoritarismo” do reitor vinham, porém, de antes, do período em que foi diretor da faculdade de Direito do Largo de São Francisco (2006-2009) e terminou como persona non grata. Isso porque, no apagar das luzes de sua gestão, vieram à tona decisões tomadas sem consulta à congregação: uma delas foi a transferência da biblioteca da faculdade para um prédio vizinho, de 11 andares e sem elevador. A outra, dar nomes a salas de advogados ilustres que fizeram doação de 1 milhão reais cada um à faculdade. Uma terceira e prosaica razão foi a doação de dois tapetes persas da faculdade para a reitoria, que iria ocupar em seguida.

“Ele doou os tapetes a si mesmo”, critica o professor Sérgio Salomão Schecaira, porta-voz da Faculdade de Direito no processo que declarou Rodas persona non grata. Em março, o reitor entrou com recurso para revogar o título, mas perdeu. Após pedido da congregação ao Ministério Público Estadual, Rodas mandou devolver os tapetes. Em pé de guerra com sua faculdade de origem, é atualmente alvo de um processo movido pela congregação na Promotoria do Patrimônio Público e Social do MP por suposta malversação de verbas públicas, porque utilizou boletins produzidos pela assessoria de imprensa da USP para criticar os diretores da São Francisco.

Schecaira é irônico ao falar do desafeto. “Não tenho nada pessoalmente contra o professor Grandino. Até porque ele é um diplomata. Diplomata formado na escola americana de diplomacia, que primeiro ataca, mas um diplomata”, provoca. “Ele saiu da São Francisco com uma imagem bastante desgastada no seio da faculdade. O título de persona non grata, concedido por unanimidade, revela que não temos apreço por ele. Não se diz que quando alguém não é querido é porque ‘os santos não batem’? Pois bem, nossos santos estão em desacordo. O professor Grandino conseguiu antipatia total da faculdade de Direito, seja de docentes, seja de alunos ou funcionários.”

Sobre a administração Rodas à frente da reitoria, Schecaira é taxativo. “A gestão dele é catastrófica no aspecto democrático e sem eficiência no aspecto gerencial. No caso da PM, novamente tomou a decisão solitária de fechar o convênio, queimando o cartucho de uma discussão séria sobre a questão da segurança. O professor Grandino, em vez de governar com a comunidade universitária, preferiu assumir o papel de antagonista. Como se o fato de ser reitor o tornasse rei”, alfineta.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Viking: batalha por Asgard - por Michael Kutsche (Coolvibe)

A guerra dos EUA-Israel ao Irão: O mito de uma campanha limitada - por James Petras (Resistir.info)

A crescente ameaça de um ataque militar dos EUA-Israel ao Irão baseia-se em vários factores incluindo: (1) a história militar recente de ambos os países na região; (2) pronunciamentos públicos de líderes políticos estado-unidenses e israelenses; (3) ataques recentes e em curso ao Líbano e à Síria, aliados importantes do Irão; (4) ataques armados e assassínios de cientistas e responsáveis de segurança iranianos por grupos terroristas e/ou afectos sob controle dos EUA ou da Mossad; (5) o fracasso das sanções económicas e da coacção diplomática; (6) escalada de histeria e exigências extremas ao Irão para por fim ao enriquecimento de urânio de uso legal e civil; (7) "exercícios" militares provocatórios nas fronteiras do Irão e jogos de guerra destinados a intimidar e a um ensaio geral para um ataque antecipativo; (8) pressão poderosa de grupos pró guerra tanto em Washington como em Tel Aviv incluindo os principais partidos políticos israelenses e a poderosa AIPAC nos EUA; (9) e finalmente o National Defense Authorization Act de 2012 (um orwelliano decreto de emergência de Obama, de 16/Março/2012).

A propaganda de guerra estado-unidense opera ao longo de dois trilhos: (1) a mensagem dominante enfatiza a proximidade da guerra e a disposição dos EUA de utilizarem força e violência. Esta mensagem é destinada ao Irão e coincide com anúncios israelenses de preparativos de guerra. (2) O segundo trilho tem como objectivo o "público liberal" com um punhado de "académicos reconhecidos" marginais (ou progressistas Departamento de Estado) a subestimarem a ameaça de guerra e argumentarem que decisores políticos razoáveis em Tel Aviv e Washington estão conscientes de que o Irão não possui armas nucleares ou qualquer capacidade para produzi-las agora ou no futuro próximo. A finalidade deste contra-vapor liberal é confundir e minar a maioria da opinião pública, a qual opõe-se claramente a mais preparativos de guerra, e fazer descarrilar o explosivo movimento anti-guerra.

É desnecessário dizer que os pronunciamentos os instigadores de guerra "racionais" utilizam um "duplo discurso" baseado no afastamento displicente de todas as evidências históricas e empíricas em contrário. Quando os EUA e Israel falam de guerra, preparam-se para a guerra e empenham-se e provocações pré guerra – eles pretendem ir à guerra – tal como fizeram contra o Iraque em 2003. Sob as actuais condições políticas e militares internacionais um ataque ao Irão, inicialmente por Israel com apoio dos EUA, é extremamente provável, mesmo quando as condições económicas mundiais deveriam ditar em contrário e mesmo quando as consequências estratégicas negativas provavelmente repercutir-se-ão através do mundo durante as próximas décadas.

Cálculo dos EUA e Israel sobre a capacidade militar do Irão

Os decisores estratégicos americanos e israelenses não concordam sobre as consequências da retaliação do Irão contra um ataque. Pelo seu lado, líderes israelenses minimizam a capacidade militar do Irão de atacar e de prejudicar o estado judeu, o qual é a sua única consideração. Eles contam com a distância, seu escudo anti-mísseis e a protecção de forças aéreas e navais dos EUA no Golfo para cobrir seu ataque sorrateiro. Por outro lado, estrategas militares dos EUA sabem que os iranianos são capazes de infligir baixas substanciais a navios de guerra dos EUA, os quais teriam de atacar instalações costeiras iranianas a fim de apoiar ou proteger os israelenses.

A inteligência israelense é bem conhecida pela sua capacidade para organizar o assassinato de indivíduos por todo o mundo: a Mossada organizou com êxito actos terroristas além-mar contra líderes palestinos, sírios e libaneses. Por outro lado, a inteligência israelense tem um registo muito fraco quanto às suas estimativas de grandes empreendimentos militares e políticos. Eles subestimaram gravemente o apoio popular, a força militar e a capacidade organizacional do Hezbollah durante a guerra de 2006 no Líbano. Da mesma forma, a inteligência israelense entendeu mal a força e a capacidade do movimento democrático popular egípcio quando este se levantou e derrubou o aliado regional estratégico de Tel Aviv, a ditadura Mubarak. Se bem que líderes israelenses "finjam paranóia" – lançando clichés acerca de "ameaças existenciais" – eles são enganados pela sua arrogância narcisista e o seu racismo, subestimando reiteradamente a perícia técnica e o refinamento político dos seus inimigos árabes e da região islâmica. Isto é indubitavelmente verdadeiro no seu descartar displicente da capacidade do Irão para retaliar contra um planeado assalto aéreo israelense.

O governo estado-unidense agora comprometeu-se abertamente a apoiar um assalto israelense ao Irão quando ele for lançado. Mais especificamente, Washington afirma que virá "incondicionalmente" em defesa de Israel se este for "atacado". Como pode Israel evitar ser "atacado" quando seus aviões estão a despejar bombas e mísseis sobre instalações iranianas, defesas militares e infraestruturas estratégicas? Além disso, dada a colaboração e aos sistemas de inteligência do Pentágono coordenados com as Forças de Defesa de Israel (IDF), seu papel na identificação de objectivos, rotas e aproximações de mísseis, bem como as cadeias de fornecimento de armas integradas e de munições, serão críticos para um ataque das IDF. Não há maneira de os EUA se dissociarem da guerra do estado judeu ao Irão depois de iniciado o ataque.

Os mitos da "guerra limitada": Geografia 
Washington e Tel Aviv afirmam e parecem acreditar que o seu planeado assalto ao Irão será uma "guerra limitada", tendo como alvo objectivos limitados e perdurando apenas uns poucos dias ou semanas – sem consequências graves.

Dizem-nos que brilhantes generais de Israel identificaram todas as instalações de investigação nuclear críticas, as quais os seus ataques aéreos cirúrgicos eliminarão sem danos colaterais horríveis para a população circundante. Uma vez que o alegado programa de "armas nucleares" fosse destruído, todos os israelenses poderiam retomar as suas vidas em segurança plena sabendo que outra ameaça "existencial" fora eliminada. A noção israelense de uma guerra limitada em "tempo e espaço" é absurda e perigosa – e caracteriza a arrogância, estupidez e racismo dos seus autores.

Para se aproximarem das instalações nucleares do Irão as forças israelenses e estado-unidenses confrontar-se-ão com bases bem equipadas e defendidas, instalações de mísseis, defesas marítimas e fortificações em grande escala dirigidas pelos Guardas Revolucionários e pelas Forças Armadas do Irão. Além disso, os sistemas de defesa de mísseis que protegem as instalações nucleares estão ligados a auto-estradas, aeródromos, portos e apoiadas por infraestrutura de finalidade dupla (civil-militar), as quais incluem refinarias de petróleo e uma enorme rede de gabinetes administrativos. Por "nocaute" os alegados sítios nucleares exigirá a expansão do âmbito geográfico da guerra. A capacidade científica-tecnológica do programa nuclear civil iraniano envolve um vasto conjunto das suas instalações de investigação, incluindo universidades, laboratórios, locais de fabricação e centros de concepção. Destruir o programa nuclear civil do Irão exigiria que Israel (e portanto os EUA) atacassem muito mais do que instalações de investigação ou laboratórios ocultos sob uma montanha remota. Exigiria assaltos múltiplos e generalizados sobre alvos por todo o país, por outras palavras, uma guerra generalizada.

O líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, declarou que o Irão retaliará com uma guerra equivalente. O Irão corresponderá à amplitude e âmbito de com um contra-ataque de resposta. "Nós os atacaremos no mesmo nível quando eles nos atacarem". Isso significa que o Irão não limitará a sua retaliação a meramente tentar deitar abaixo bombardeiros estado-unidenses e israelenses no seu espaço aéreo ou a lançar mísseis a navios dos EUA nas suas águas mas levará a guerra a alvos equivalente em Israel e em países ocupados pelos EUA no Golfo e em torno dele. A "guerra limitada" de Israel tornar-se-á uma guerra generalizada que se estenderá por todo o Médio Oriente e ainda mais além.

A actual adoração ilusória de Israel acerca do seu elaborado sistema de defesa míssil ficará exposta quando centenas de mísseis de alto poder forem lançados de Teerão, do Sul do Líbano e bem além das Alturas de Golan.

O mito da guerra limitada: Intervalo de tempo

Peritos militares israelenses esperam confiantemente exterminar seus alvos iranianos nuns poucos dias – alguns podem pensar que num simples fim de semana – e talvez sem a perda de nem um único piloto. Eles esperam que o estado judeu venha a celebrar a sua brilhante vitória nas ruas de Tel Aviv e Washington. Estão iludidos pelo seu próprio senso de superioridade. O Irão não combateu uma guerra brutal com uma década de duração contra os invasores iraquianos abastecidos pelos EUA e os seus conselheiros militares ocidentais/israelenses só para entregar-se e submeter-se passivamente a um número limitado de ataques aéreos e com mísseis por parte de Israel. O Irão é uma sociedade jovem, bem educada e mobilizada, a qual pode utilizar milhões de reservistas de todo espectro político, étnico, de género e religioso, galvanizado em apoio a sua nação sob ataque. Numa guerra para defender a pátria todas as diferenças internas desaparecem para enfrentar o ataque não provocado israelenses-estado-unidense que ameaça toda a sua civilização – seus 5000 anos de cultura e tradições, bem como os seus avanços científicos modernos e instituições. A primeira onda de ataques dos EUA-Israel levará a uma retaliação feroz, a qual não será confinada às áreas originais do conflito, nem qualquer acto da agressão israelense acabará quando e se instalações nucleares do Irão forem destruídas e alguns dos seus cientistas, técnicos e trabalhadores qualificados forem mortos. A guerra continuará no tempo e em extensão geográfica.

Múltiplos pontos de conflito

Assim como qualquer ataque dos EUA-Israel ao Irão envolveria alvos múltiplos, os militares iranianos também terão uma pletora de alvos estratégicos facilmente acessíveis. Embora seja difícil prever onde e como o Irão retaliará, uma coisa está clara: O ataque inicial dos EUA-Israel não ficará sem resposta.

Dada a supremacia israelense-estado-unidense a longas e médias distâncias e em poder aéreo, o Irão provavelmente confiará em objectivos de curta distância. Isto incluiria as valiosas instalações militares do EUA e rotas de abastecimento em terrenos adjacentes (Iraque, Kuwait e Afeganistão) e alvos israelenses com mísseis lançados do Sul do Líbano e possivelmente da Síria. Se uns poucos misseis de longo alcance escaparem ao muito gabado "escudo anti-míssil" do estado judeu, centros populacionais israelenses podem pagar um preço pesado pela imprudência e arrogância dos seus líderes.

O contra-ataque iraniano levará a uma escalada das forças EUA-Israel, estendendo e aprofundando a sua guerra aérea e naval a todos o sistema de segurança nacional iraniano – bases militares, portos, sistemas de comunicação, postos de comando e centros administrativos do governo – muitos em cidades densamente povoadas. O Irão reagirá lançando o seu maior activo estratégico: um ataque coordenado no solo envolvendo os Guardas Revolucionários, juntamente com seus aliados entre as tropas xiitas iraquianas, contra forças dos EUA no Iraque. Ele coordenará ataques contra instalações dos EUA no Afeganistão e Paquistão com a crescente resistência armada nacionalista-islâmica.

O conflito inicial, centrado nos chamados objectivos militares estratégicos (instalações de investigação científica), generalizar-se-á rapidamente a alvos económicos ou o que os estrategas militares dos EUA e Israel chamam de alvos "duais civis-militares". Isto incluiria campos de petróleo, auto-estradas, fábricas, redes de comunicações, estações de televisão, instalações de tratamento de água, reservatórios, centrais eléctricas e gabinetes administrativos, tais como o Ministério da Defesa e a sede da Guarda Republicana. O Irão, confrontada com a destruição iminente de toda a sua economia e infraestrutura (o que se verificou no Iraque vizinho com a invasão não provocada dos EUA em 2003), retaliaria bloqueando o Estreito de Ormuz e enviando mísseis de curto alcance na direcção dos principais campos de petróleo e refinarias dos Estados do Golfo incluindo o Kuwait e a Arábia Saudita, a meros 10 minutos de distância, paralisando o fluxo de petróleo para a Europa, Ásia e os Estados Unidos e mergulhando a economia mundial numa depressão profunda.

Não se deveria esquecer que os iranianos provavelmente estão mais conscientes do que ninguém na região da devastação total sofrida pelos iraquianos após a invasão dos EUA, a qual mergulhou aquela nação no caos total e devastou a sua infraestrutura avançada e o seu aparelho administrativo civil, para não mencionar a sistemática aniquilação da sua elite científica e técnica altamente educada. As ondas de assassínios de cientistas iranianos, académicos e engenheiros promovidas pela Mossad são apenas uma antevisão do que os israelenses têm em mente para cientistas, intelectuais e trabalhadores técnicos altamente qualificados. Os iranianos não deveriam ter ilusões acerca dos americanos e israelenses que procuram lançar o país na sombria era brutal do Afeganistão e Iraque. Eles não terão mais papel num Irão devastado do que têm os seus vizinhos no Iraque pós Saddam.

Segundo o general Mathis, que comanda todas as forças dos EUA no Médio Oriente, Golfo Pérsico e Sudeste da Ásia, "um primeiro ataque israelense provavelmente teria consequências calamitosas em toda a região e para os Estados Unidos ali" (NY Times, 19/3/12). A estimativa de "consequências calamitosas" do general Mathis apenas leva em conta as perdas militares dos EUA, provavelmente centenas de marinheiros em vasos de guerra ao alcance de mísseis de artilheiros iranianos.

Contudo, a mais ilusória e auto-enganosa avaliação do resultado e consequências de um ataque aéreo israelense ao Irão provém de líderes israelenses de topo, académicos e peritos de inteligência, que afirmam [ter] inteligência superior, defesas superiores e visão suprema (e também racista) dentro da "mente iraniana". É típico o ministro da Defesa israelense, Barak, que se jacta de que qualquer retaliação iraniana na pior das hipóteses infligirá baixas mínimas à população israelense.

A visão "judeu-cêntrica" de reordenamento do equilíbrio de poder na região, a qual prevalece nos principais círculos israelenses, passa por alto a probabilidade de que a guerra não será decidia por ataques aéreos israelenses e defesas anti-míssil. Os mísseis do Irão não podem ser facilmente contidos, especialmente chegarem várias centenas por minuto de três direcções, Irão, Líbano, Síria e possivelmente de submarinos iranianos. Em segundo lugar, o colapso das suas importações de petróleo devastará a economia de Israel, altamente dependente da energia. Em terceiro lugar, os principais aliados de Israel, especialmente os EUA e a UE, serão gravemente tensionados quando forem arrastados para dentro da guerra de Israel e encontrarem-se a defender os estreitos de Ormuz, suas guarnições no Iraque e no Afeganistão e seus campos de petróleo e bases militares no Golfo. Tal conflito poderia incendiar as maiorias xiitas no Bahrain e nas províncias estratégicas ricas em petróleo da Arábia Saudita. A guerra generalizada terá um efeito devastador sobre o preço do petróleo e a economia mundial. Provocará a fúria de consumidores e a ira de trabalhadores por toda a parte quando fecharem fábricas e choques poderosos por todo o frágil sistema financeiro resultarem numa depressão mundial.

O patológico "complexo de superioridade" de Israel resulta em que os seus líderes racistas sistematicamente super-estimam suas próprias capacidades intelectuais, técnicas e militares, ao passo que subestimam o conhecimento, capacidade e coragem dos seus adversários regionais, islâmicos (neste caso iranianos). Eles ignoram a capacidade demonstrada do Irão para sustentar uma guerra defensiva prolongada, complexa e em muitas frentes e em recuperar-se de um assalto inicial e desenvolver armamento moderno adequado para infligir danos severos aos seus atacantes. E o Irão terá o apoio incondicional e activo da população muçulmana do mundo e talvez o apoio diplomático da Rússia e da China, que obviamente verão um ataque ao Irão como um outro ensaio geral para conter o seu poder crescente.

Conclusão

A guerra, especialmente uma guerra israelense-estado-unidense contra o Irão, está indissoluvelmente ligada ao relacionamento assimétrico EUA-Israel, o qual secundariza qualquer análise militar e política crítica nos EUA. Devido à configuração de poder sionista de Israel, a força militar dos EUA pode ser canalizada para o apoio ao impulso de Israel para a dominação regional, aos líderes israelenses e acima de tudo para os seus militares sentirem-se livres para entrarem nas mais ultrajantes aventuras militares e destrutivas, sabendo muito bem que em primeira e última instância podem confiar no apoio dos EUA com o sangue e as riquezas americanas. Mas depois de todo este grotesco servilismo a um país racista e isolado, quem resgatará os Estados Unidos? Quem impedirá o afundamento dos seus navios no Golfo e a morte e mutilação de centenas dos seus marinheiros e milhares dos seus soldados? E onde estarão os israelenses e sionistas dos EUA quando o Iraque for invadido pelas tropas de elite iranianas e seus aliados xiitas e um levantamento generalizado se verificar no Afeganistão?

Os decisores políticos egocêntricos de Israel desprezam o provável colapso do abastecimento de petróleo mundial em consequência da sua planeada guerra contra o Irão. Será que os seus agentes sionistas nos EUA percebem que, em consequência do arrastamento dos EUA para a guerra de Israel, a nação iraniana será forçada a por em chamas os campos de petróleo do Golfo Pérsico?

Quão barato tornou-se "comprar uma guerra" nos EUA? Por uns meros poucos milhões de dólares em contribuições de campanha para políticos corruptos e através da penetração deliberada de agentes "Israel-First", académicos e políticos na maquinaria de fazer a guerra do governo estado-unidense, e através da covardia moral e auto-censura dos principais críticos, escritores e jornalistas que se recusam a nomear Israel e seus agentes como os decisores chave do nosso país na política do Médio Oriente, nós nos encaminhamos directamente rumo a uma guerra muito além de qualquer conflagração militar regional e rumo ao colapso da economia mundial e do empobrecimento brutal de centenas de milhões de pessoas de Norte a Sul, de Leste a Oeste.

Bela luz azul no espaço sideral - por Ipad wallpaper

Apenas um ponto da teia criminosa - por Brasil de Fato

Os que tramaram pela derrubada do governo, ficarão impunes?

A casa do senador Demóstenes Torres (ex-Dem/GO) ruiu. Descobriu- se que o senador, até poucos dias atrás tido como o mais tenaz e corajoso combatente da corrupção pública dos governos petistas, está entranhado com atividades ilegais comandadas pelo contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Demóstenes e Cachoeira são apenas um ponto da teia criminosa construída e que agora começa a ser desvendada. Como escreveu a jornalista Maria Inês Nassif, este caso não é apenas mais um caso de corrupção. “É uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos venal. E hipócrita também”.

É inadmissível que não seja dado à revista Veja, da família Civita, a oportunidade de sentar no banco dos réus para provar que é falsa acusação de que formou uma associação criminosa com o bicheiro. Há fortes evidências que o diretor da sucursal da Veja de Brasília, Policarpo Junior, trabalhava de forma afinada com o bicheiro para gravar vídeos e produzir matérias jornalísticas de interesse mútuo. Matérias que, mesmo quando mentirosas, eram adotadas e amplificadas no jornal Nacional da Rede Globo e reproduzidas pelos outros jornais impressos. Com essa prática jornalística, irresponsável e mentirosa, destruíram reputações, criaram heróis, chantagearam governos e atentaram contra a democracia do país.

A partir da Operação Monte Carlo, surgiram evidências e depoimentos de que a trinca Demóstenes – bicheiro – Veja trabalhou para derrubar um governo democraticamente eleito, o do Lula, manipulando o conhecido caso do mensalão. Que sejam julgados os responsáveis pela criação do mensalão. E os que tramaram pela derrubada do governo, ficarão impunes?             

O próprio ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes foi envolvido na trama criminosa do bicheiro, do senador Demóstenes e da mídia. Fizeram o ministro acreditar que uma conversa telefônica sua com o senador foi gravada pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O Ministro, zeloso pelo Estado de Direito, nem esperou pelas provas do grampo para acusar o governo. Com a bravura típica de latifundiários do Mato Grosso, como alertou uma vez o ministro Joaquim Barbosa, também membro do STF, Gilmar Mendes prometeu chamar o presidente Lula “às falas” e exigiu a exoneração do diretor geral da Abin, Paulo Lacerda. Tudo, sem nenhuma prova. Certamente, sendo um  juiz inteligente e qualificado, foi enganado pelo amigo Demóstenes e pelo amigo do amigo, o bicheiro de Goiás. Agora, que a Policia Federal comprovou que nunca houve grampo da conversa entre os dois, não há culpados nessa grotesca farsa criada com a participação do presidente da mais alta Corte do Poder Judiciário?

É importante, também, para preservar a imagem desse ex-presidente do STF, que seja identificado quem é o portador do 18º telefone celular que formava o clube nextel montado pelo bicheiro. Os telefones foram habilitados nos Estados Unidos para que a cúpula do grupo empresarial do bicheiro não tivesse suas conversas gravadas pela PF. Estão identificados 16 portadores dos telefones. Faltam dois. Um estava com o senador Demóstenes, cujo nome, por causa da imunidade parlamentar, não aparece no processo.

Com quem estará o nextel que ainda falta? Seria injusto pensar que o fato do senador Demóstenes ter empregado em seu gabinete uma enteada do Gilmar Mendes fosse motivo suficiente para também presenteá-lo com um “nextel do Cachoeira”. Para alívio do ministro Mendes, o nextel pode ter sido dado ao juiz que foi passear com o Demóstenes e com o bicheiro, na Alemanha, e que o deputado Miro Teixeira (PDT/RJ) quer saber seu nome. Em todo caso, seria bom que o Gilmar Mendes exigisse que a PF apurasse e que fosse divulgado o portador do nextel que permanece anônimo.

Sobre a possível vinculação do governador tucano Marconi Perillo (PSDB/GO), há pouco a comentar uma vez que o presidente nacional do seu partido, deputado Sergio Guerra (PSDB/PE) e o senador tucano Álvaro Dias (PSDB/PR), tão moralista e apadrinhado da Veja quanto o Demóstenes, confiam em sua completa inocência. O próprio governador tucano disse que uma vez encontrou o bicheiro e que ele lhe revelou que tinha abandonado o jogo e saído da contravenção. O governador concluiu: “acreditei!” Com essa candura (leitor/a, não é cara-dura...), como imaginar que esse político está vinculado com o crime organizado? Nos somamos ao abalizado parecer do senador Álvaro Dias: ele é inocente!      
        
Mas, para assegurar que esse caso do bicheiro com um dos senadores de Goiás cometa injustiça, é necessário que o Mistério Público investigue com profundidade toda essa trama do crime organizado. A presidenta Dilma, que tem demonstrado força e capacidade para gerenciar a economia, precisa liderar as mudanças políticas inadiáveis para fortalecer a democracia e tornar o povo mais participante nas decisões do país. O Congresso Nacional deve superar os interesses corporativos e dos parlamentares que temem serem sugados pela vala que se abriu com a prisão do bicheiro. É preciso aprovar e instalar imediatamente a CPI do Carlinhos Cachoeira. Sem esquecer de instalar a CPI da privataria tucana e de criar a Lei da Mídia já!

Perdida essa oportunidade histórica de punir os poderosos por seus crimes, se espalhará o sentimento de que o poder repressivo da Justiça é reservado apenas aos pobres. Mas chegará o momento em que o povo saberá cobrar e responsabilizar os políticos que foram coniventes e asseguraram a impunidades desses crimes.

Fotografia - por Maxim Mjödov (Inspiration Hut)


Sêneca, Demóstenes e a ética na política - por Emiliano José (Carta Maior)

Eu me impressiono com o clima moralista dominante, com a desqualificação permanente da política, com a elevação da moral à condição de deusa suprema. Homens puros e bons se elevam, e vão limpando o ambiente de tantos seres sujos, pecaminosos, e dados à prática da corrupção. Os pregadores alevantam sua voz tonitruante e condenam todos os que estejam ao lado, e que presumivelmente tenham cometido algum pecado. Nem lhes importa investigar se verdade ou mentira, que aos pregadores basta uma notícia para que saiam a campo e, em muitos casos, a notícia é encomendada, lamentavelmente. Saem a campo cheios de pose, com seus dedos incriminadores, seu verbo incendiário, cheios de razão.

É de hoje, é de ontem, é de anteontem essa prática. Se quisermos nos referir ao Brasil, é só lembrar personagem famoso – Carlos Lacerda, O Corvo –, que não se incomodava em inventar histórias fantasiosas para atacar seus adversários pela imprensa, e seu espírito golpista sempre andava de braços dados com o moralismo udenista, que hoje reaparece no Brasil com toda força.

A tentação é recorrer a Marx e dizer que a história nunca se repete – numa ocasião é tragédia, lá com Lacerda, na sequência, é farsa, como nos dias de hoje, com Demóstenes Torres. A moral e a ética não podem substituir a política. Podem e devem servir de substância a ela, se verdadeiras. São um substrato para o exercício da política, mas não podem e não devem substituí-la.

Em geral, mais cedo ou mais tarde, nessas épocas de tentativa de predomínio do moralismo, da substituição da política pela moral, os pregadores acabam bebendo do próprio veneno. O povo diria que o pregador age como o macaco, que não olha para o próprio rabo. É como se pregasse com tanta insistência o respeito à moral, o bom uso do dinheiro público – o que é absolutamente correto – apenas e tão somente para encobrir a montanha de problemas que ele próprio acumula ao longo de sua existência, quando não a montanha de fortuna adquirida exatamente com os métodos que condena.

O mundo que ele prega – de profundo respeito à ética – é uma exigência para os outros, e vale apenas como aparência para ele. Como defesa, quem sabe. Até que a casa caia e, não raramente, cai. Um fariseu, diriam os cristãos. Quando cai, há os que se assustam, perplexos com tal distância entre o verbo e a vida. É bom precaver-se contra os pregadores, os moralistas. São sepulcros caiados – ainda é a bíblia. É bom compreender que o pecado mora ao lado. Quase sempre. Demóstenes está aí para não deixar ninguém se enganar. Ou exigindo muito mais cautela diante dos pregadores.

Esses dias me caiu às mãos o livro “A origem do cristianismo”, de Karl Kautsky. Caiu às mãos é forma de dizer. Eu o procurei por sugestão de meu amigo Venício Artur de Lima. Valeu a pena. Por muitas razões, que não cabe aqui detalhar. Quanto a essa discussão, lembro-me da remissão que Kautsky faz ao período da decadência do Império Romano, quando, na visão dele, todas as atividades políticas tinham cessado. Nessa época, ainda segundo o nosso autor, “chegou a ser moda pronunciar discursos edificantes e fabricar máximas e historietas morais”.

O fim da política e o privilégio das prédicas morais voltadas à perfeição do indivíduo ou à simples valorização das virtudes individuais levavam, inevitavelmente, a uma evidente contradição: muitos dos pregadores eram flagrados em desvios graves, morais, semelhantes àqueles que condenavam. Vê-se que o problema vem de longe. Como exemplo clássico, Kautsky cita Sêneca, filósofo e preceptor de Nero, um severo crítico da riqueza, da avareza e do amor aos prazeres.

Ainda em vida, no entanto, Sêneca viu um tribuno do Senado acusá-lo de ter acumulado grande fortuna praticando a usura e falsificando testamentos. Deixou, ao morrer, uma fortuna de 300 milhões de sestércios, coisa de 6 milhões de marcos, uma das maiores fortunas da época. Não foi fiel à própria doutrina, como se vê.

E agora o Demóstenes Torres, ora Veja. Não compensa, face ao muito que foi divulgado, sobretudo por blogs progressistas, pela revista CartaCapital e alguns poucos outros veículos, voltar propriamente ao assunto, mostrar a intrincada rede do crime organizado, que envolveu o senador e Carlinhos Cachoeira mais os 200 telefonemas da direção da revista Veja com a inestimável e cúmplice fonte – ele próprio, Cachoeira.

A velha mídia entrou constrangida no assunto, e Veja fingiu que não é com ela, e desfilou de mistérios do Santo Sudário. O que ela deu do assunto beira ao ridículo. O que se deve responder é aonde vamos com esse moralismo udenista, conservador, retrógrado, que vem exatamente de pessoas que não tem nenhum compromisso com a ética em seu sentido mais republicano e filosoficamente mais profundo. Quanta distância entre tudo o que o senador Demóstenes Torres pregava e o que ele praticava cotidiana, sistematicamente.

Temos que discutir política. Temos que colocar a política no posto de comando. Temos que pensar cada vez mais nos instrumentos do Estado de Direito que garantam o respeito ao dinheiro público. Caminhar, como creio estamos caminhando, para um Estado que tenha mecanismos rigorosos de transparência, fiscalização e acompanhamento da aplicação dos recursos provenientes do povo brasileiro. Querer fazer alguém crer que a solução está na soma de virtudes individuais para enfrentar a corrupção é uma mistificação própria dos que não acreditam na democracia.

Ou o Estado de Direito é capaz de frear a corrupção, de acabar com as frequentes tentativas de privatização do Estado, ou, então, a corrupção prosseguirá sem o devido e necessário cotidiano combate. Não são os Demóstenes que irão acabar com ela, como estamos vendo. São os mecanismos da política, do Estado de Direito democrático, que podem enfrentá-la, aprofundando a transparência, como tem sido feito pela Controladoria Geral da União, que passou a ter existência efetiva desde o início do governo Lula, quando Waldir Pires, por decisão do presidente, a construiu. E que segue agora, sob o governo da presidenta Dilma.

Se há a pretensão de frear a privatização do Estado, o patrimonialismo, a utilização de cargos do governo para fazer fortuna, trata-se de, com urgência, efetivar a reforma política, garantir o fortalecimento dos partidos políticos com a fidelidade partidária, financiamento público de campanha e voto em lista pré-ordenada, para citar três pontos essenciais.

Como livrar-se da maldição da relação entre o financiador e o financiado? Como evitar que o Congresso seja eleito pelos financiadores privados? Como assegurar que tantos setores do nosso povo, hoje ausentes do Parlamento, possam estar presentes nele? Sem dúvida, com o atual esquema eleitoral, não há chance de um homem do povo, salvo exceções, vir a ser um parlamentar. Onde arrumará o dinheiro para tanto?

Os financiadores privados, para tentar dizer tudo, são procurados, não apenas procuram, e se nem todos aprisionam os candidatos que financiam, boa parte exige contrapartida. Obviamente, participam de um jogo, de uma arquitetura institucional equivocada, que cumpre mudar, para que, afinal, todos ganhem. Tenho convicção de que há empresários que gostariam de trabalhar sob outra modelagem política, que gostariam que os negócios do Estado fossem realizados à luz do dia, de modo republicano, sem a intromissão de outros mecanismos.

Além disso, nosso Parlamento tem a missão de valorizar mais e mais a participação direta do povo. Há uma evidente crise da democracia representativa e, no interior da reforma política, é fundamental pensar mecanismos de intervenção direta do povo que ultrapassem ou complementem o momento das eleições propriamente ditas.

Fora disso, vamos patinar, andar em círculos, ser prisioneiros desse moralismo udenista tardio, vindo de personalidades cujas prédicas entram em confronto direto com suas vidas anteriores e com suas práticas cotidianas atuais. Os que defendem a democracia, os que almejam uma sociedade mais e mais justa, não podem ser reféns de uma discussão rasteira, pobre, fundada nas virtudes ou defeitos individuais desse ou daquele cidadão.

Devem lutar pela continuidade e aprofundamento das mudanças que inegavelmente temos experimentado desde 2003, pela radicalização da revolução democrática em curso no Brasil. Será essa luta que, levada à frente, poderá garantir que haja, de fato, ética na política – que significa, sempre, responder às necessidades da maioria da nossa gente, diminuindo de modo cada vez mais veloz as desigualdades que ainda nos afrontam.

Se é inegável que avançamos muito quanto ao enfrentamento da distribuição de renda sob os oito anos do governo Lula e sob o governo da presidenta Dilma, é também verdadeiro que falta muito que fazer, e para tanto é fundamental que cada centavo do dinheiro público seja aplicado em benefício da população, especialmente daquela mais pobre. É isso que devemos garantir. Isso é a ética na política.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A balança da vida - por Aleksei Kostjuk (Coolvibe)

Honrar o país - por Vladimir Safatle (Folha de São Paulo)

Aqueles que hoje desafiam a mudez do esquecimento e dizem, em voz alta, onde moram os que entraram pelos escaninhos da ditadura brasileira para torturar, estuprar, assassinar, sequestrar e ocultar cadáveres honram o país.

Quando a ditadura extorquiu uma anistia votada em um Congresso submisso e prenhe de senadores biônicos, ela logo afirmou que se tratava do resultado de um “amplo debate nacional”. Tentava, com isto, esconder que o resultado da votação da Lei da Anistia fora só 206 votos favoráveis (todos da Arena) e 201 contrários (do MDB). Ou seja, os números demonstravam uma peculiar concepção de “debate” no qual o vencedor não negocia, mas simplesmente impõe.

Depois desse engodo, os torturadores acreditaram poder dormir em paz, sem o risco de acordar com os gritos indignados da execração pública e da vergonha. Eles criaram um “vocabulário da desmobilização”, que sempre era pronunciado quando exigências de justiça voltavam a se fazer ouvir.

“Revanchismo”, “luta contra a ameaça comunista”, “guerra contra terroristas” foram palavras repetidas por 30 anos na esperança de que a geração pós-ditadura matasse mais uma vez aqueles que morreram lutando contra o totalitarismo. Matasse com as mãos pesadas do esquecimento.

Mas eis que estes que nasceram depois do fim da ditadura agora vão às ruas para nomear os que tentaram esconder seus crimes na sombra tranquila do anonimato.

Ao recusar o pacto de silêncio e dizer onde moram e trabalham os antigos agentes da ditadura, eles deixam um recado claro. Trata-se de dizer que tais indivíduos podem até escapar do Poder Judiciário, o que não é muito difícil em um país que mostrou, na semana passada, como até quem abusa sexualmente de crianças de 12 anos não é punido. No entanto eles não escaparão do desprezo público.

Esses jovens que apontam o dedo para os agentes da ditadura, dizendo seus nomes nas ruas, honram o país por mostrar de onde vem a verdadeira justiça. Ela não vem de um Executivo tíbio, de um Judiciário cínico e de um Legislativo com cheiro de mercado persa. Ela vem dos que dizem que nada nos fará perdoar aqueles que nem sequer tiveram a dignidade de pedir perdão.

Se o futuro que nos vendem é este em que torturadores andam tranquilamente nas ruas e generais cospem impunemente na história ao chamar seus crimes de “revolução”, então tenhamos a coragem de dizer que esse futuro não é para nós.

Este país não é o nosso país, mas apenas uma monstruosidade que logo receberá o desprezo do resto do mundo. Neste momento, quem honra o verdadeiro Brasil é essa minoria que diz não ao esquecimento. Essa minoria numérica é nossa maioria moral.

Ilustração - por Tang Yau Hoong


Alckmin deu suspeito tapa na cara do Ministério Público - por Wálter Fanganiello Maierovitch (Terra Magazine)

O governador Geraldo Alckmin, efetivamente, não tem nenhum cacoete de estadista. Ele acaba fornecer, e não só aos paulistas, a prova provada do seu diletantismo frente a questões maiores e fundamentais.

Alckmin acaba de dar, — com apoio em dispositivo constitucional que claramente não atende ao interesse público–, um tapa na cara dos promotores e dos procuradores de Justiça do estado de São Paulo. Isto ocorreu ao preterir, para a chefia do Ministério Público estadual, o mais votado pelos membros da instituição.

O governador paulista escolheu, na lista tríplice apresentada e a quebrar salutar tradição democrática e republicana, o segundo mais votado. Ou melhor, ele preferiu o mais palatável pela proximidade com a sua equipe de governo e com a do candidato a prefeito municipal José Serra, que lidera as pesquisas de intenção de votos.

A propósito, a equipe de governo de Alckmin é integrada por membros licenciados do Ministério Público, que fizeram pressão para que a escolha recaísse no segundo mais votado. Também o referido Serra se cerca de antigos procuradores. Vale lembrar que, pós Constituição de 1988, membros do Ministério Público não podem deixar a instituição para ocupar cargos, por eleição ou nomeação, em outros poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Por isso, e a título de exemplo, é que temos Demóstenes Torres como senador da República.

O dispositivo constitucional, segundo já interpretou incorretamente o Supremo Tribunal Federal, não é retroativo. Assim, os membros do Ministério Público empossados antes da promulgação da Constituição podem se licenciar para ocupar cargos ou funções em outros poderes.

O falido sistema brasileiro centraliza, com exclusividade e na figura do Procurador-geral, a legitimidade para a iniciativa de procedimentos e ações criminais em face de detentores de foros privilegiados.

Só para lembrar, o procurador-geral da República é escolhido pela presidente da República. A recondução do atual procurador-geral da República, Roberto Gurgel, foi cuidada, junto à presidente Dilma, pelo então ministro Antonio Palocci, de triste memória. No governo FHC, o procurador-geral da República reconduzido ficou conhecido pelo apelido de “engavetador geral da República”.

Como sabem até as portas dos auditórios dos fóruns e dos tribunais, a independência do ministério Público é vital num Estado democrático de Direito. São relevantíssimas as suas atribuições de representar a sociedade civil e, em nome dela e por exemplo, ser o titular da ação penal pública.

Alckmin não poderia ter errado tanto. Vale frisar, ainda, que deu o tapa na cara dos promotores e dos procuradores de Justiça do estado de São Paulo num momento em que o mundo civilizado recorda os 20 anos da célebre Operação Mãos Limpas (Mani Pulite), de sucesso absoluto na repressão à corrupção na política partidária italiana.

Só para lembrar, a Operação Mãos Limpas, iniciada pela magistratura do Ministério Público de Milão (não existe foro privilegiado na Constituição italiana que é de 1948), mostrou que pode ter corrupto de esquerda, de direita, de centro e até verde. Enfim, de todas as ideologias e em todos os partidos. Para se ter idéia, um dos alvos foi o então primeiro ministro Bettino Craxi, que fugiu para a Tunísia e lá permaneceu até falecer de morte natural, em janeiro de 2000.

Diante do apurado pela Operação Mãos Limpas nenhum partido político teve condições éticas e legais de sobreviver. Vieram novos partidos e, alguns, recuperaram antigos condenados: um deles, salvo pela prescrição criminal, foi ministro por dois dias do então premier Sílvio Berlusconi: a pressão popular foi tamanha que Aldo Brancher deixou o cargo. Na semana passada, Brancher foi apanhado pelo ministério Público em novo escândalo, desta vez com o senador Umberto Bossi, da Liga Norte.

O importante é que, pós Operação Mãos Limpas (que nada tem a ver com Máfia como se pensa no Brasil), a magistratura do Ministério Público italiano continua independente, forte e atenta.

Como já mencionei neste espaço, – e vale repetir para se comparar um sistema que funciona com outro, o brasileiro, dos privilégios e da competência exclusiva dos procuradores-gerais –, a sociedade civil italiana está a acompanhar, no momento, o escândalo referente ao líder do poderoso partido da Liga Norte. Com independência e autonomia, atuam os procuradores de Nápolis, Calábria e Milão. Os magistrados do Ministério Público, de Nápolis, Calábria e Milão, apanharam, com a boca na botija, o senador Bossi e a vice-presidente do Senado, Rosy Mauro. Cerca de 500 milhões de euros de reembolsos públicos de campanhas foram desviados para cobrir despesas da família Bossi. A vice-presidente do senado, Rosy Mauro, recebia um mensalão da Liga Norte de Bossi (já demissionário da secretaria-geral da Liga Norte). Isso para ela e para o amante que é o seu chefe de gabinete. Com mensalão, Rosy Mauro abriu até um sindicato.

Pano Rápido. O governador Geraldo Alckmin não quis um procurador-geral independente e deixou de lado a regra democrática de escolher o mais votado, num sistema que tem o vício de deixar ao fiscalizado (chefe do executivo) a escolha do fiscalizador.

terça-feira, 10 de abril de 2012

por Michael Komarck (Inspiration Hut)

O presidente Demóstenes em Nova York – por Elio Gaspari (O Globo)

Setembro de 2015: Eleito presidente da República em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova York para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos de Bolívia, Equador e Venezuela, “controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba”.

Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o tratado da hidrelétrica de Itaipu.

O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer “a faxina ética de que o país precisa”. Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país. Ele reestruturou o programa Bolsa Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios. Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos, e autorizando a internação compulsória de drogados. Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação.

Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.

Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua comitiva: “Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda”.

À noite, o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grandes Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel.

Chamou atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da Rua 46. Eles são chamados de “Clube do Nextel”.

Em 2012, a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como Carlinhos Cachoeira, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes.

O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo cancelada em 2013.

A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959, Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello.

O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior.

O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.

Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da indústria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura.

Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.

Abril de 2012: Quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.

Pintura - por Nathan Brutsky (Tutt' Art)

Meu amigo, o guardião da memória, o tecelão da justiça – por Eric Nepomuceno (Carta maior)

Eu estava em Cuba, numa Havana ensolarada e de ventania, quando chegou a notícia da morte, lá em Buenos Aires, de meu amigo Eduardo Luís Duhalde.

Ele era advogado. Mas muito mais que isso, foi um eterno militante em defesa dos direitos humanos, da esperança e do futuro. Tinha 72 anos. Às vezes eu achava que tinha muito mais, pela vida vivida, pela experiência acumulada. Às vezes eu achava que tinha muito menos, pela fé no futuro, por uma espécie de esperança que se renovava, por uma espécie de ousadia quase ingênua – e que dava certo, dava resultados.

Nós nos conhecemos no velho café Ramos da avenida Corrientes, naquela sinistra Buenos Aires de maio ou junho de 1976. Ele havia acabado de cair de vez na clandestinidade. Havia contra ele uma ordem de prisão, que naquela ditadura argentina recém-inaugurada (o golpe havia ocorrido em março) significava morte certa: ninguém era formalmente preso, todos eram informalmente mortos. Havia contra ele um decreto desapropriando todos os seus bens, acumulados durante anos de uma vida de advogado de presos políticos, de perseguidos pela miséria humana, de militância sem fim: uma casa perto de onde eu morava, um par de contas bancárias mais magras que aquela gente que ele defendia.

Naqueles dias de turbilhão nos reuníamos numa Buenos Aires clandestina, eu sempre debaixo de uma nuvem de medo, ele sempre debaixo de um céu de confiança. Juntos escapamos de lá, juntos fomos para uma Madri tão idílica quanto traiçoeira – para a Espanha de agosto de 1976, menos de um ano depois da morte de Francisco Franco, generalíssimo, caudilho da Espanha pela graça de Deus. Madri continuava sendo uma cidade franquista, avara, embolorada.

Foi naquela Madri sombria, que nada ou quase nada tem a ver com a de hoje, que ele, em companhia de outros advogados militantes, criou a Comissão Argentina de Direitos Humanos – a CADHU que tanto fustigou a ditadura de seu país, divulgando suas atrocidades em todos os foros e espaços possíveis mundo afora. Foi a pertinácia de Eduardo Luís Duhalde, cruzando a Europa primeiro num Citroën mal ajambrado, depois num velho Volvo vermelho que vendi a ele por 400 dólares, que reuniu na CADHU gente como os escritores Julio Cortázar e David Viñas. Onde quer que houvesse alguém disposto a ouvir o assombroso relato de sequestros, torturas, desaparecimentos e assassinatos cometidos pela ditadura argentina, lá estava ele. E quando não aparecia ninguém disposto, ele corria até achar alguém, um só que fosse.

De um desses encontros surgiu um filme de Carlos Saura – ‘De olhos vendados’ – que marcou época. Qualquer expressão podia ser uma arma de denúncia.

Seu apartamento madrilenho era porto seguro para argentinos de todas as tendências e trajetórias. Nunca, em momento algum, mesmo nas noites mais sombrias daqueles tempo de breu, vi Eduardo Luis Duhalde perder o humor ágil e afiado, deixar-se sucumbir, perder um milímetro que fosse daquela sua fé infinita no dia em que se faria Justiça. E ele foi ferramenta essencial para que esse dia chegasse.

Tudo que a Argentina vive hoje – a vanguarda de um processo de busca da verdade, de resgate da memória e da realização da justiça – se deve à determinação do ex presidente Nestor Kirchner e de sua viúva e sucessora, Cristina Fernandez de Kirchner, é verdade. Mas de pouco teria valido essa determinação se não fosse a obstinada labor de Eduardo Luis Duhalde. Com seu trabalho levou a cabo a difícil tarefa de demonstrar que as leis de anistia eram inconstitucionais, que a impunidade contra crimes de lesa-humanidade ia contra acordos assinados pela Argentina, que as cortes e os tribunais internacionais exigiam o acionar da Justiça contra agentes públicos que implantaram o terrorismo de Estado. Antes, muito antes, lembro de quando começaram a chegar, na Europa, os primeiros relatos de roubo de bebês.

Muita gente boa duvidava que a cruel covardia da ditadura chegasse a esse extremo. Eduardo Luís Duhalde soube desde a primeira hora que aquilo podia muito bem ser verdade – como depois se confirmou.

Foi toda uma vida dedicada à defesa dos perseguidos. Defendeu, durante a ditadura que entre 1966 e 1973 antecedeu a volta da democracia e de Perón à Argentina, militantes dos grupos armados, tanto peronistas quanto marxistas. Teve um sócio que era ao mesmo tempo seu melhor amigo, Rodolfo Ortega Peña, a primeira vítima da Aliança Anticomunista Argentina, a tenebrosa ‘AAA’. Eram dos poucos, pouquíssimos, que se animavam a defender os militantes perseguidos. Ortega Peña pagou essa audácia com a própria vida. Duhalde, com o exílio.

Em 1983, quando a democracia voltou à Argentina, ele voltou junto. Escreveu um livro, ‘O Estado terrorista’, que é hoje um clássico soberano sobre as entranhas das ditaduras em nossos países, abordando um aspecto nem sempre lembrado: a confluência entre a defesa de interesses do grande capital e os horrores dos porões.

Passado o tempo, sua contribuição foi essencial para que os genocidas fossem levados aos tribunais e tantos deles tenham sido julgados e condenados. Como secretário de Direitos Humanos, atuou muitas vezes como advogado do Estado, abrindo processos e levando diante de juízes os que haviam sequestrado, massacrado e assassinato militantes da resistência à ditadura que imperou entre 1976 e 1983. Deu, a todos e a cada um, o que eles haviam negado às suas vítimas: o direito de defesa, de justiça.

Quando alguém dizia a ele que era preciso virar a página do passado e olhar para o futuro num clima de conciliação, ele respondia que estava de acordo – desde que antes fosse lido e revelado o que aquela página continha. Não pode haver conciliação enquanto houver injustiça e impunidade, dizia. Sem memória não há verdade, dizia, e sem verdade não há justiça, e sem justiça não há nem dignidade, nem democracia, e muito menos futuro.

Soube deixar sua marca entre adversários que divergiam de sua ideologia mas prestavam reconhecimento e respeito à sua luta permanente.

Fomos amigos durante 36 anos – a idade de meu filho. Em minha memória estará para sempre, para sempre, sua lembrança. Em meu baú de afetos haverá espaço permanente para a sua figura. Eduardo Luis Duhalde, guardião da memória, tecelão da justiça.

Mãe natureza - por Alexander Lataille (Coolvibe)

Comparativo FHC X Lula - por Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada)

Extraído de “Economia Brasileira em Perspectiva” – 14ª Edição Especial – de fevereiro de 2012, do site do Ministério da Fazenda.

PIB

2002 – US$ 500 bilhões

2012 – US$ 2,6 trilhões, o que faz do Brasil a SEXTA economia do Mundo

PIB per capita

2002 – US$ 2,8 mi

2012 – US$ 13,3 mil

Ou seja, os dois casos, o Brasil se multiplicou por CINCO.

Produção de automóveis

2002 – 1,8 milhão de unidades

20111- 3,4 milhões de unidades, o que faz do Brasil o SEXTO maior produtor mundial

Safra de grãos

2002 – 96,8 milhões de toneladas

2011 – 163 milhões (campeão mundial na produção de cana e vie campeão mundial na produção de soja)

Taxa de investimento sobre o PIB

2002 – 16, 4%

2012 – 20,8%

Investimento Estrangeiro Direto

2002 – US$ 16,5 milhões

2011 – US$ 66,6 bilhões – 4o. Lugar emingressos de IED


Inflação – IPCA

2002 – 12,5%

2012 – 4,7%

Desemprego

2002 – 12,9%

2011 – 4,7 – entre 2002 e 2001 o Nunca Dantes criou 18 milhões de postos de trabalho

Formalização do trabalho

2002 – 45,5%

2011 – 53,2%

Salário Mínimo nominal

2002 – R$ 200

2012 – R$ 622 – ganho real : 66%

Coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda (quanto mais perto de 1, pior)

2002 – 0,589

2011 – 0,541 – queda de 8,9%

Taxa de pobreza (Classe “E” no total da população)

2002 – 26,7%

2012 – 12,8%

Classe C sobre total da população

2002 – 37%

2012 – 50%

Número de matrículas no ensino profissional

2002 – 565 mil

2012 – 924 mil

Percentual da força de trabalho com 11 anos ou mais de estudo

2002 – 44,7%

2012 – 60,5%

Bolsas de Mestrado e Doutorado no Capes e CNPq

2002 – 35 mil

2010 – 74 mil

2013 – 105 mil

Títulos em doutorado

2002 – 6.894

2012 – 13.304

Dívida externa

2002 – US$ 165 bilhões

2011 – US$ – 79,1 bilhões

Reservas Internacionais

2002 – US$ 36 bilhões

2012 – US$ 353 bilhões

Exportações

2002 – US$ 60 bilhões

2011 – US$ 256 bilhões

Juros – taxa Selic

2002 – 25% aa

2012 (31 janeiro) – 10,50% (9,75% em março)

Taxa que o Brasil paga em título vendido no exterior

2002 – 12,6% aa

Janeiro de 2012 – 3,5% aa

Dívida do setor público sobre o PIB

2002 – 60,4%

2012 – 36,9%

% da dívida indexada à taxa de câmbio

2002 – 45,83%

dez 2011 – 21,89

Despesas de pessoal

2002 – 4,8% do PIB

2012 – 4,4% do PIB

Comentário
É até maldade comparar, né?
Agora, se eu fosse um tucano idiota (¡que pleonasmo!), diria: "mas as bases deste crescimento foram plantadas no governo FHC".
"Me engana que eu gosto", diria o personagem Didi Mocó.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Trabalho em linho - por Vladimir Denschikova

Manifestantes fazem protesto em frente à casa de legista acusado de encobrir tortura - por Leonardo Sakamoto (Blog do Sakamoto)

Cerca de 100 pessoas realizaram uma manifestação na frente da casa do médico legista e ex-diretor do Instituto Médico Legal, Harry Shibata, na tarde deste sábado (7), na Vila Madalena, bairro da zona oeste de São Paulo.

Ele é acusado de ser responsável por falsos atestados de óbito usados para acobertar assassinatos de opositores pela ditadura militar, ignorando marcas deixadas por sessões de tortura e produzindo laudos de acordo com as necessidades dos militares. Na manhã deste sábado, os bairros de Pinheiros e da Vila Madalena já haviam amanhecido com centenas de cartazes acusando Shibata, colados por manifestantes durante a madrugada.
Foto: Leonardo Sakamoto

Sob o lema “Se não há justiça, há esculacho popular”, uma coroa de flores foi colocada no portão de sua casa ao lado de fotos de mortos durante o regime cujos laudos necroscópicos teriam sido alterados por ele. Os manifestantes, que marcharam em passeata da esquina das ruas Fradique Coutinho e Inácio Pereira da Rocha até a casa de Shibata a cinco quadras de distância, encerrariam o ato com discursos em uma praça ao lado.

Foto: Leonardo Sakamoto

O grupo, que afirma não estar ligado a nenhum sindicato, partido político ou entidade, diz que é formado por pessoas preocupadas com o direito à verdade e à justiça em relação aos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar. Eles exigem que Shibata seja “intimado para depor na Comissão da Verdade”, de acordo com um panfleto distribuído no ato.

A Comissão foi criada para esclarecer quem foram os responsáveis por mortes, torturas e desaparecimentos na ditadura, mas sem poder de punição. O Palácio do Planalto tem sofrido críticas por conta da demora em sua instalação.

Foto: Leonardo Sakamoto

Os manifestantes lembraram também que o médico está sendo processado pelo Ministério Público Federal, junto com outras autoridades da época, pelo crime de ocultação de cadáver. “A tortura e os assassinatos praticados durante a ditadura militar permanecem como prática institucional do Estado. E a impunidade dos crimes praticados pelo Estado no passado funciona como uma “carta branca” para que as forças policiais e as Forças Armadas o façam hoje”, diz o panfleto.

Silent world - fotografia de Lucie & Simon

Senado exonera enteada de Gilmar Mendes de gabinete de Demóstenes - por Leandra Colon (Folha de São Paulo)

A diretoria-geral do Senado exonerou, a pedido, a enteada do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que tinha cargo de confiança no gabinete do senador Demóstenes Torres (GO).

Conforme revelou a Folha no dia 25 de março, Ketlin Feitosa Ramos ocupava desde setembro o cargo de assessora parlamentar de Demóstenes no Senado, posto de confiança e livre nomeação.

A enteada do ministro do STF é servidora de carreira do Ministério Público Federal, nível médio, e foi cedida para ser funcionária comissionada do gabinete do senador.

O ato de exoneração -- publicado no dia 2 de abril no Diário Oficial da União -- tem data de 30 de março. No dia 27, o Procurador-Geral da República pediu ao STF a abertura de inquérito para investigar o envolvimento do senador Demóstenes Torres com o grupo do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acusado de explorar jogo ilegal.


Comentário
Ah, tá.

domingo, 8 de abril de 2012

Al Buraq aguarda - por Khalid Al Muharraqi

Demóstenes e o ‘duplipensar’ da imprensa - por Gilson Caroni Filho (Vi o mundo)

Qualquer pessoa de bom senso, que tenha lido os articulistas da grande imprensa, desde o surgimento dos escândalos envolvendo o senador Demóstenes Torres, concluirá facilmente que os trabalhadores das oficinas de consenso, aturdidos com o que lhes parece um ponto fora da curva, uma desconstrução dispendiosa e extemporânea, são como aqueles motoristas que imaginam poder dirigir um veículo com os olhos presos ao retrovisor. Não enxergam a clareza da realidade. O círculo do jornalismo de encomenda, minúsculo e cego, está só, murado no seu isolamento.

A pedagogia dos fatos, inexorável nas suas evidências, parece passar ao largo das redações. O que se faz ali não é jornalismo, mas um simulacro de literatura de antecipação marcada por profundo pessimismo e cenários de devastação. Talvez George Orwell e seu clássico “1984” expliquem melhor o suporte narrativo da fábula que não deixa de trazer uma concepção de história autoritária e retrógada.

As delicadas relações do senador goiano com o bicheiro Carlinhos Cachoeira - e a possibilidade de que o governador tucano Marconi Perillo venha a ser o próximo alvo- pôs em operação o “duplipensar” orwelliano que, desde a posse de Lula, está incorporado aos manuais de redação. Como o objetivo é afastar o ex-varão de Plutarco de cena, para prosseguir atacando o governo da presidente Dilma, os “cães de guarda” cumprem a tarefa com afinco.

No reduzido vocabulário da “Novilíngua”, o “duplipensamento” é assim explicado por um dos personagens de “1984”:

capacidade de manter simultaneamente duas crenças opostas, acreditado igualmente em ambas(…). Saber que está brincando com a realidade mas, mediante o exercício de tal raciocínio, convencer a si próprio, que não está violentando a realidade. O processo deve ser consciente, pois do contrário não funcionará com a previsão necessária: mas, ao mesmo tempo, deve ser inconsciente para não produzir sensação de falsidade e culpa”.

Com esse trecho, cremos ter decifrado os sorrisos de Merval Pereira, Dora Kramer, Augusto Nunes, Eliane Catanhede, entre outros, quando confrontados com a palavra “ética”.

Para eternizar a ordem que defendem com unhas e dentes o cenário político, submetido ao pensamento único, passa por processos de ocultamento e simplificação, visando a eliminar todas as possibilidades de pensar dos membros do Partido Imprensa.

Outra implicação do “duplipensar” da mídia corporativa é a constante alteração do passado. O registro – e consequentemente a memória – dos fatos ocorridos devem ser refeitos sempre, a fim de adaptarem-se ao presente. O trabalho de um “bom” editorialista é reescrever a visão dos veículos em que trabalha para que não contradiga a realidade de hoje. Assim, por exemplo, Folha, Globo e Estadão podem condenar o golpe de 1964, mesmo o tendo apoiado ostensivamente. Se um livro denuncia um líder político como Serra e outras figuras no seu entorno, a solução é simples: Ele nunca foi escrito e, portanto, jamais será resenhado, sendo passível de punição severa quem não entender como funcionam as “leis naturais”.

Além da eliminação do passado como elemento de desarmonia com o presente e como instrumento de verificação das afirmações do Partido Imprensa, este recorre a outros meios, bem mais convencionais, para moldar a consciência de seus filiados e simpatizantes (leitores e telespectadores): educação permanente assegurada pela propriedade cruzada dos meios de comunicação, atividade coletiva sem intervalos, o que pode ser obtido mediante ampla oferta de blogs, sites, jornais e redes que digam sempre o mais do mesmo . Para concluir, vem a valorização do poder político como fim, não como meio.

O incômodo Demóstenes deve, após a sequência de denúncias, ter um diagnóstico clínico que despolitize o seu desvio. Merece, pelos serviços prestados, um roteiro que conte a tragédia do Catão caído, até que, finalmente, desapareça na lata de lixo reservada aos que fugiram da trama original. Assim agem os bons autores ao tomar como ponto de partida uma realidade familiar e palpável e transformá-la em espetáculo perecível. Em tempo: o DEM, assim como o PFL, nunca contou com o apoio das corporações midiáticas por um simples motivo: nunca existiu.

Vejam como operam nossos talentosos colunistas. Orwell ficaria tão contente que, com certeza, lhes arrumaria um lugar no Ministério da Verdade.

“Em um mês, o senador Demóstenes Torres passou de acima de qualquer suspeita para abaixo de qualquer certeza, num episódio que desafia os romances policiai s mais surpreendentes. Alem da atuação implacável contra a corrupção, ele tinha a cara, vestia o figurino e se comportava como um incorruptível homem de bem – e talvez seja mesmo sócio da holding criminosa de Cachoeira (Nélson Motta, 6/04/2012, O Globo)

“Demóstenes Torres não seria beneficiado pelo “vício insanável da amizade” – expressão usada pelo notório Edmar Moreira (o deputado do “castelo”) para definir o principal obstáculo a punições -, pois os amigos que fez ali estão entre as exceções e os demais confirmam a regra.Por terem sido alvos do senador na face clara de sua vida agora descoberta dupla, podem querer mostrar-se ao público em brios. O problema, porém, é a falta de credibilidade” (Dora Kramer, 6/04/2012, Estado de S. Paulo)

“Esse personagem que o senador criou para si próprio não era uma mentira de Demóstenes, ele incorporou esse personagem e acreditava nele. Podia acusar com veemência seus colegas senadores apanhados em desvios, como Renan Calheiros, enquanto mantinha o relacionamento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira porque, como todo psicopata, não misturava as personalidades “(Merval Pereira, reproduzindo argumento do psicanalista Joel Birman, 30/03/2012, O Globo)

Comentário

No livro 1984 George Orwell - que, caso fosse vivo hoje, trocaria o nome "Partido" por "Imprensa":

Seu espírito mergulhou no mundo labiríntico do duplipensar. Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Paraver outros trechos de 1984 clique aqui.

Pintura - por Ai Xuan

A Crucificação de Cristo e o suicídio em Atenas - por Mauro Santayana (Vermelho)

O homem que prenderam, interrogaram, torturaram, humilharam, escarneceram e crucificaram, na Palestina há quase dois mil anos, foi, conforme os Evangelhos, um ativista revolucionário. Ele contestava a ordem dominante, ao anunciar a sua substituição pelo reino de Deus. O reino de Deus, em sua pregação, era o reino do amor, da solidariedade, da igualdade.

Mas não hesitou em chicotear os mercadores do templo, que antecipavam, com seus lucros à sombra de Deus, o que iriam fazer, bem mais tarde, papas como Rodrigo Bórgia, Giullio della Rovere, Giovanni Médici, e cardeais como os dirigentes do Banco Ambrosiano, em tempos bem recentes. O papa reinante hoje, tão indulgente com os gravíssimos pecados de muitos de sua grei, decidiu, ex-catedra, que as mulheres não podem exercer o sacerdócio.

Ao longo da História, duas têm sido as imagens daquele rapaz de Nazaré. Uma é a do filho único de Deus, havido na concepção de uma jovem virgem, escolhida pelo Criador. Outra, a do homem comum, nascido como todos os outros seres humanos, em circunstâncias de tempo e lugar que o fizeram um pregador, continuador da missão de seu primo, João Batista, decapitado porque ameaçava o poder de Herodes Antipas. Tanto João, quanto Jesus, foram, como seriam, em qualquer tempo e lugar, inimigos da ordem que privilegiava os poderosos. Por isso — e não por outra razão — foram assassinados, decapitado um, crucificado o outro.

Um e outro tiveram dúvidas, segundo os evangelistas. João Batista enviou emissário a Jesus, perguntando-lhe se era mesmo o messias que esperava, e Cristo, na agonia, indagou a Deus por que o abandonava. Os dois momentos revelam a fragilidade dos homens que foram, e é exatamente nessa debilidade que encontramos a presença de Deus: os homens sentem a presença do Absoluto quando as circunstâncias o negam. João Batista sentia-se movido pela fé, ao anunciar a vinda do Salvador.

Era um ativista, pregando a revolução que viria, chefiada por outro, pelo novo e mais poderoso dos profetas. Ao saber que Cristo pregava e realizava milagres, supôs que ele poderia ser aquele que esperava, mas duvidou. Nesse momento, moveu-se pela esperança de que o jovem nazareno fosse o Enviado – o que confirmaria a sua fé.

Cristo, na hora da morte, talvez levasse a sua dúvida mais adiante, e se perguntasse se a sua morte, que previra e esperara, serviria realmente à libertação dos homens — desde que salvar é libertar. O Reino de Deus, sendo o reino da justiça, é a libertação. Daí a associação entre essa felicidade e a vida eterna, presente em quase todas as religiões. Na pregação de Cristo, a libertação começa na Terra, na confraternização entre todos os homens.

Daí o conselho aos que o quisessem seguir, e ainda válido - repartissem com os pobres os seus bens, como fizeram, em seguida, os seus apóstolos, ao criar a Igreja do Caminho. Se acreditamos na vida eterna, temos que admitir que a vida na Terra é uma parcela da Eternidade, que deve ser habitada com a consciência do Todo. Assim, a vida eterna começa na precariedade da carne.

Quarta-feira passada - quando em São João del Rei, em Minas, a Igreja celebrou o Ofício das Trevas no rito antigo - um grego, Dimitris Christoulas, chegou pela manhã à Praça Syntagma, diante do Parlamento Grego, buscou a sombra de um cipreste secular, levou o revólver à têmpora, e disparou. Em seu bilhete de suicida estava a razão: aos 77 anos, farmacêutico aposentado, teve a sua pensão reduzida em mais de 30%, ao mesmo tempo em que se elevou brutalmente o custo de vida. As medidas econômicas, ditadas pelo empregado do Goldman Sachs e servidor do Banco Central Europeu, nomeado pelos banqueiros primeiro ministro da Grécia, Lucas Papademos, não só reduziram o seu cheque de aposentado, como o privaram dos subsídios aos medicamentos.

“Quero morrer mantendo a minha dignidade, antes que me veja obrigado a buscar comida nos restos das latas de lixo” – escreveu em seu bilhete de despedida, lido e relido pelos que tentaram socorrê-lo, e que se reuniam na praça.

“Tenho já uma idade que não me permite recorrer à força — mas se um jovem agora empunhasse um kalashinov, eu seria o segundo a fazê-lo e o seguiria”.

No mesmo texto, Christoulas incita claramente os jovens gregos sem futuro à luta armada, a pendurar os traidores, na mesma praça Syntagma, “como os italianos fizeram com Mussolini em Milão, em 1945”. O tronco do cipreste se tornou painel dos protestos escritos. Em um deles, o suicídio de Christoulas é definido como um “crime financeiro”.

A morte de Christoulas, em nome da justiça, pode trazer nova esperança ao mundo, como a de Cristo trouxe. Não importa muito se ainda não foi possível construir o reino de Deus na Terra, e tampouco importa que o nome de Cristo tenha sido invocado para justificar tantos e tão repugnantes crimes. No coração dos homens de boa vontade, qualquer que seja o seu calvário – porque todos os homens justos o escalam, onde quer que nasçam e morram – a felicidade os visita quando comungam do sentimento de amor de Cristo pela Humanidade. Nesses momentos, ainda que sejam apenas segundos fugazes, habitamos o Reino de Deus.

Nunca, em toda a História, tivemos tanto desdém pela vida dos homens, como nestes tempos de ditadura financeira universal. Estamos vivendo vésperas densas de medo, mas dentro do medo, há centelhas de esperança. A morte do aposentado, quarta-feira de trevas, em Atenas, é, com toda a carga trágica de seu gesto, partícula de uma dessas centelhas.

Estamos cansados de sangue, mas o que está ocorrendo hoje – teorizem como quiserem economistas e sociólogos – é a etapa seguinte do grande projeto dos neoliberais, que vem sendo executado sistematicamente pelos que realmente mandam no mundo e que assumiram sua governança (para usar o termo de seu agrado), mediante a Trilateral e o Clube de Bielderbeg, controlados, como se sabe, por meia dúzia de poderosas famílias do mundo.

Esse projeto é o de dizimar, por todos os meios possíveis, a população, e transformar a Terra no paraíso dos 500 mil mais poderosos, ricos e eleitos, em oposição à utopia cristã. Mas é improvável que os pobres, que são a maioria, não identifiquem seu real inimigo, e se sacrifiquem, sem resistência, ao Baal contemporâneo - esse sistema financeiro que acabou com a antiga sacralidade da moeda, ao emitir papéis sem nenhuma relação com os bens reais do mundo, nem com a dignidade do trabalho. A força da mensagem do nazareno deve ser retomada: os oprimidos – negros, brancos, mestiços, muçulmanos, cristãos, budistas e ateus – devem compreender que os habita o homem, e não animais distintos, destinados à violência em proveito dos promotores da barbárie.

Ao expirar, depois de torturado, ultrajado seu corpo, humilhado, escarnecido, Cristo se tornou a maior referência de justiça. Aos 77 anos, o aposentado grego, ao matar-se, transformou-se em bandeira que ameaça iniciar, na Grécia, novo movimento em favor da igualdade – a mesma ideia que levou Péricles a fundar o primeiro estado de bem-estar social, ao reconstruir Atenas, empregar todos os pobres, e dotar os marinheiros do Pireu do pioneiro conjunto de casas populares da História. Vinte séculos podem ter sido apenas rápido intervalo – um pequeno descanso da razão.