sábado, 9 de fevereiro de 2013

Especial: a apresentação do livro Julian Assange - por Natalia Viana (Outras Palavras)

No texto, jornalista Natália Viana alerta: internet, que viabilizou Wikileaks, pode ser usada para vigiar sociedades; tudo dependerá de nossas lutas

“Uma guerra furiosa pelo futuro da sociedade está em andamento. Para a maioria, essa guerra é invisível”, alerta Julian Assange, fundador do WikiLeaks, na apresentação do seu programa de entrevistas World Tomorrow, realizado em parceria com a rede de TV russa WT – e que serviu de base para este livro. “De um lado, uma rede de governos e corporações que espionam tudo o que fazemos. Do outro, os cypherpunks, ativistas e geeks virtuosos que desenvolvem códigos e influenciam políticas públicas. Foi esse movimento que gerou o WikiLeaks”.

É com essa descrição em mente que o leitor deve percorrer cada página deste livro, que traz uma das mais instigantes conversas públicas entre importantes partícipes desta batalha: a batalha pela liberdade na rede.

Na obra, Assange, ao lado dos companheiros de armas – e eficientes desenvolvedores de códigos digitais – Jérémie Zimmermann, Jacob Appelbaum e Andy Müller Maguhn, disseca temas essenciais que estão definindo, hoje, os principais embates sobre como deve ser o futuro da internet.

A rede mundial de computadores apresenta, como muitas tecnologias, uma variedade de usos possíveis. É, como a energia elétrica, a semente de uma gama infinita de possibilidades, e semente poderosa: seu potencial ainda está sendo descoberto ao mesmo tempo que seu rumo vai sendo definido pelo caminhar tecnológico e pelo caminhar político.

Fica cada vez mais claro, assim, que a rede é espaço de disputa política. Um exemplo: em 2012, nos EUA, após diversos protestos, a opinião pública conseguiu forçar a suspensão de duas legislações que estavam sendo discutidas no Congresso norte  americano, a Sopa (Stop Online Piracy Act [Lei de Combate à Pirataria On line]) e a Pipa (Protect IP Act [Lei de Prevenção a Ameaças On line à Criatividade Econômica e ao Roubo de Propriedade Intelectual]). Ambas previam a possibilidade de bloqueio de sites, inclusive estrangeiros, por infração de direitos autorais.

O leitor brasileiro conhece bem esse embate. Nos últimos anos, a discussão sobre a fronteira digital por aqui também tem se centrado na propriedade intelectual. Durante os dois mandatos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 2011), o Ministério da Cultura tornou se apoiador da cultura digital livre, baseada no compartilhamento do conhecimento e no incentivo ao uso de ferramentas como o software livre (ou não proprietário) e as licenças creative commons, que permitem a reutilização de qualquer produção, de acordo com os interesses do autor. O debate ressurgiu com toda força quando, durante o governo posterior, de Dilma Rousseff, o Ministério tentou reverter essa política.

Em Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet, Assange e seus coautores enfocam uma dimensão dessa batalha ainda pouco conhecida no Brasil – mas que se faz urgente. Trata se do que o australiano chama de “militarização do ciberespaço”, a vigilância das comunicações em rede por serviços de segurança e inteligência de diversos países.

Ele detalha: “Quando nos comunicamos por internet ou telefonia celular, que agora está imbuída na internet, nossas comunicações são interceptadas por organizações militares de inteligência. É como ter um tanque de guerra dentro do quarto. [...] Nesse sentido, a internet, que deveria ser um espaço civil, se transformou em um espaço militarizado. Mas ela é um espaço nosso, porque todos nós a utilizamos para nos comunicar uns com os outros, com nossa família, com o núcleo mais íntimo de nossa vida privada. Então, na prática, nossa vida privada entrou em uma zona militarizada. É como ter um soldado embaixo da cama”.

Ao longo deste livro, são muitos, e instigantes, os apontamentos como esse, feitos pelos quatro “geek filósofos”, pensadores originais das estruturas culturais, econômicas e políticas do ciberespaço.
Antes de prosseguir, porém, devemos voltar à outra trincheira de Assange na rede digital, aquela que lhe trouxe reconhecimento no mundo todo: o WikiLeaks.

Como o próprio autor pontua, o WikiLeaks, organização que se dedica a publicar documentos secretos revelando a má conduta de governos, empresas e instituições, é fruto da cultura cypherpunk. Seu modo revolucionário de fazer jornalismo é indissociável dos temas abordados neste livro e indissociável da filosofia do próprio Julian Assange.

Fundado em 2007, o WikiLeaks ficou famoso em 2010, quando publicou milhares de documentos secretos norte americanos supostamente vazados pelo soldado Bradley Manning, que servia no Iraque. O primeiro vazamento, em abril, consistia em um único vídeo de dezessete minutos. Seu conteúdo era chocante: de dentro de um helicóptero Apache, soldados norte americanos atacavam doze civis desarmados – entre eles, dois jornalistas da agência de notícias Reuters. Antes da publicação, a agência tentara, sem sucesso, obter o vídeo mediante a Foia (Freedom of Information Act, a Lei norte americana de acesso à informação).

Meses depois, em julho, o WikiLeaks publicou 75 mil diários militares sobre a guerra do Afeganistão, que comprovaram centenas de assassinatos indiscriminados de civis pelas forças dos EUA. Em outubro, a organização publicou 400 mil relatos secretos sobre a ocupação no Iraque, provando a constante tortura contra prisioneiros.

O maior vazamento, no entanto, viria no final de novembro. Uma verdadeira enxurrada. O projeto, chamado “Cablegate”, não era apenas o mais extenso material restrito a ser vazado na história do jornalismo. Os 251.287 comunicados diplomáticos provenientes de 274 embaixadas dos EUA no mundo todo compunham o mais abrangente relato de como funcionam as relações internacionais – e também de como líderes de cada um desses países, além dos EUA, se comportam a portas fechadas.

A publicação, realizada em parceria com alguns dos principais veículos da imprensa global – e Guardian, e New York Times, Le Monde, El País e Der Spiegel, teve um profundo impacto na opinião pública. Estava ali um relato inédito da nossa história recente, preciso, datado. E delicioso. Através dele, aprenderíamos como se dão na prática as negociações políticas, em milhares de reuniões discretas, comentários maliciosos, negociações por trás das cortinas. Um comentarista chegou a afirmar que o material constitui um novo tipo de literatura.

As revelações desnudaram aspectos sinistros da política externa dos Estados Unidos, como os pedidos da Secretária de Estado Hillary Clinton a 33 embaixadas e consulados para que diplomatas espionassem representantes de diversos países na ONU, reunindo números de cartões de crédito, senhas, dados de DNA. Outros documentos expunham mais claramente os crimes de guerra no Iraque – como um relatório que descrevia a execução sumária de dezessete civis, incluindo quatro mulheres e cinco crianças, e as tentativas de refrear processos criminais contra soldados norte americanos. Os relatos da embaixada norte americana na Tunísia, que descreviam em detalhe a extrema corrupção do governo do ditador Ben Ali, foram um enorme incentivo para a revolta tunisiana que acabou por derrubá lo em meados de janeiro de 2011 – e outros países seguiram o exemplo, no que ficou conhecido como a Primavera Árabe.

Foi assim que grande parte da imprensa mundial travou contato com a filosofia do WikiLeaks. Tratava se da aplicação radical da máxima cypherpunk “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” e do princípio fundamental da filosofia hacker: “A informação quer ser livre”.

Para isso, Assange uniu a expertise de desenvolvedor de códigos digitais aos fundamentos mais básicos do jornalismo, prática que tanto se diz em crise; em essência, trazer à tona histórias de interesse público.
Foi ele quem desenvolveu o código original, o primeiro “dropbox” do WikiLeaks, através do qual os documentos poderiam ser enviados à organização, valendo se da mesma proficiência que já mostrara quando criou o sistema de criptografia rubberhose, desenvolvido para que defensores de direitos humanos consigam manter em segredo parte dos dados criptografados mesmo se pressionados sob tortura por regimes autoritários.

No WikiLeaks, a ideia era manter um canal totalmente seguro para o envio de documentos, com uma criptografia poderosa, que fosse não apenas inviolável a ataques, mas que erradicasse qualquer informação sobre a sua origem. A tecnologia, acreditava Assange, seria libertadora: permitiria que whistleblowers – fontes internas de organizações – denunciassem violações por parte de governos e empresas sem medo. Nada mais de encontros em garagens subterrâneas, como fizera o famoso “Garganta Profunda”, codinome do informante dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post, no escândalo Watergate, que levou à queda do presidente norte americano Richard Nixon em 1974.

Agora, whistleblowers como ele, que sempre foram fontes essenciais do fazer jornalístico, teriam a possibilidade do completo anonimato. O próprio Julian Assange garante que desconhece a identidade daqueles que vazaram material ao WikiLeaks. Mais do que isso: qualquer pessoa poderia se tornar um whistleblower, ou informante, em potencial, vazando de maneira segura documentos do governo, organização ou empresa em que trabalha. O desenho da web também permitia, pela primeira vez, a transferência e publicação de milhões de documentos, o que antes era impossível: há algumas décadas, para reunir a documentação do Cablegate seriam necessários centenas de caminhões carregados de papéis.

O WikiLeaks significava a libertação da verdade por meio da criptografia. Poderosa a princípio, essa ideia tem sido forçadamente neutralizada após o tratamento cruel destinado ao soldado Bradley Manning, que permaneceu durante mais de 880 dias preso sem julgamento, boa parte desse tempo sob tratamento “cruel e desumano”, segundo o relator da ONU para tortura. É importante lembrar que Bradley Manning não foi conectado ao vazamento por alguma quebra na segurança criptográfica do código do WikiLeaks, mas por supostamente ter confessado em um chat ser a fonte dos documentos.

Outras reações alvejam a organização, como o próprio Assange explica ao longo do livro. Basta dizer que, em julho de 2012, o porta voz do Departamento de Justiça dos EUA Dean Boyd admitiu que a investigação sobre o WikiLeaks continuava ativa. Desde dezembro de 2010, uma semana depois da publicação do Cablegate, Assange ficou em prisão domiciliar no Reino Unido – no momento de publicação deste livro, ele estava isolado havia mais de duzentos dias na embaixada equatoriana, onde recebera asilo diplomático.

Isso não refreou o trabalho do WikiLeaks, o que demonstra que a capacidade técnica da sua equipe se sobrepõe a esses achaques. Nesse meio tempo, a organização publicou setecentos arquivos sobre prisioneiros de Guantánamo, revelando inclusive detalhes dos interrogatórios; 2 milhões de e mails do governo da Síria; centenas de propagandas de empresas de vigilância e espionagem digital; e centenas de documentos secretos do Departamento de Defesa dos EUA sobre suas políticas de detenção militar.

A batalha travada pelo WikiLeaks é tanto política quanto tecnológica. Voltando ao aspecto jornalístico, a organização representa ainda um marco importante ao disponibilizar, por princípio, toda a base documental de suas publicações – vale lembrar que, além de divulgar documentos, o WikiLeaks produziu dezenas de matérias, vídeos e artigos de opinião. Por outro lado, no jornalismo tradicional são poucos os veículos que disponibilizam todo o material base de suas reportagens para que seja escrutinado e reutilizado pelo público.

A tendência, é claro, já existia: na era da internet qualquer um pode ser produtor de notícia. Porém, o WikiLeaks avança mais um passo, trazendo essa lógica para o lugar do jornalismo em essência, ao valer se dos segredos de Estado, documentos que comprovam violações de direitos humanos por empresas, o rastro documental dos crimes dos poderosos – que sempre foram a base para o jornalismo investigativo.

Permite, assim, que dezenas de veículos independentes, jornalistas, ativistas – e usuários – se apropriem dessa documentação e se tornem também provedores de jornalismo de qualidade.

Há aí uma noção hacker intrínseca na maneira de o WikiLeaks praticar jornalismo: se por um lado a organização se alia a veículos tradicionais de mídia – assim como a veículos não tradicionais – por outro ela incentiva a disseminação de conteúdos livres, fora dessa indústria.

E a indústria da notícia é hoje uma das principais trincheiras na disputa sobre o vasto mundo da internet.

O Cablegate no Brasil 

Muitos criticaram, na época do lançamento do Cablegate, a parceria estabelecida com grupos de mídia que concentram a produção e a disseminação da informação, agindo às vezes como barreira para “a informação que quer ser livre”. Diziam que o WikiLeaks fortalecia a indústria tradicional da notícia. Sei disso porque fiz parte da equipe selecionada por Julian Assange para pensar uma estratégia de divulgação para os documentos, tendo coordenado a divulgação dos 3 mil documentos de embaixadas e consulados norte americanos no Brasil.

Foram seis meses de trabalho, que renderam uma das experiências mais ricas e completas de disseminação dos relatos diplomáticos. No percurso, aprendi que o modo de produção do WikiLeaks, em si, questiona e abala a indústria de notícias.

Não se trata de um conceito teórico apenas; na semente do WikiLeaks – que, como organização fundamentalmente da era digital, não “é”, não termina de “ser” jamais, passa por constantes transmutações – está o questionamento profundo do controle da informação noticiosa.

A ideia, desde o começo, era que as histórias se espalhassem o máximo possível, de modo a chegar aos cidadãos dos países aos quais se referiam. Do ponto de vista logístico, disseminar esses documentos de maneira profissional e orquestrada para tantos países parecia uma tarefa impossível. Mas, graças à estratégia de Assange, em um ano eles haviam chegado a mais de setenta parceiros de todo o mundo – jornais, revistas, sites independentes, jornalistas freelancers, ONGs. É um feito notável, e sem dúvida um marco na história do jornalismo.

A ideia de Assange sempre foi expandir a quantidade de veículos que receberiam o material – a contragosto dos parceiros iniciais e Guardian, e New York Times, Le Monde, El País e Der Spiegel. E espalhar o material também para os países periféricos, longe dos centros de poder da Europa e dos EUA.

Acompanhei de perto esse embate colossal, que marcava já o início das rusgas da indústria de notícias com o WikiLeaks, porque Assange considerava o Brasil um país estratégico, que precisava ser contemplado logo na primeira leva.

Sob protestos dos jornais do hemisfério Norte, divisamos uma maneira de seguir em frente. Além de compartilhar documentos específicos com um grande veículo brasileiro, eu escreveria reportagens para o site do WikiLeaks, sob a licença creative commons, com disseminação livre, para o site da organização.

Uma dezena de jornalistas independentes de outros países, voluntários como eu, fizeram o mesmo, e o resultado foi uma profusão de matérias sobre documentos que não tinham recebido atenção daquele grupo de veículos da imprensa tradicional.

Um exemplo foi o documento que ficou conhecido como “A lista de compras do Império”, ignorado pelos grandes jornais. Ele dissecava os interesses estratégicos norte americanos em todo o mundo – de gasodutos na Rússia até minério de ferro e nióbio no Brasil. Nele, o Departamento de Estado de Hillary Clinton pedia que suas embaixadas pesquisassem a segurança dessas instalações em segredo: “Não estamos pedindo que as embaixadas consultem os governos a respeito dessa solicitação”, dizia o documento.

O processo de publicação dos documentos da missão norte americana no Brasil acabou sendo um dos mais criativos e extensos, e teve também uma boa dose de experimentação. Começou com uma dura decisão, já que só existem três jornais de circulação nacional – Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo – todos eles parte de conglomerados com interesses que muitas vezes interferem na cobertura de temas nacionais. Isso reflete a concentração histórica da mídia no Brasil, onde cinco empresas, pertencentes a seis famílias, controlam 70% de toda a mídia. Existem, claro, excelentes repórteres que poderiam fazer um bom trabalho, mesmo que soubéssemos desde o começo que algumas histórias seriam parciais e outras jamais seriam publicadas. Assim, decidi entrar em contato com a Folha de S.Paulo, por meio do jornalista Fernando Rodrigues, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Na véspera do vazamento, escrevi a primeira história que seria publicada no site do WikiLeaks, e enviei a ao jornal, junto com trechos dos documentos. Relatava que a polícia federal prendera suspeitos de terrorismo sob acusações de outros crimes para não atrair a atenção.

A história foi publicada pela Folha e depois reproduzida por toda a imprensa. O governo Lula negou a informação, e o assunto morreu por aí. Mas a publicação chamou a atenção de toda a mídia para as futuras revelações, de modo que todos pediam mais: jornais, rádio, TVs. Decidimos, então, trabalhar também com O Globo, no Rio de Janeiro, para dinamizar a cobertura e garantir que um jornal serviria de contrapeso ao outro. A direção da Folha não ficou muito contente com isso, mas concordou. Assim começou uma colaboração inédita entre dois dos maiores jornais brasileiros e uma organização internacional sem fins lucrativos.

Todos os temas eram decididos conjuntamente, e a Folha, o Estado e o WikiLeaks publicavam simultaneamente reportagens sobre o mesmo lote de documentos. A parceria funcionou muito bem, e produziu uma centena de boas reportagens.

Embora os dois jornais adotassem ângulos similares em algumas histórias, outras foram cobertas de maneira bem diferente. O Globo, por exemplo, criticou duramente um ex embaixador norte americano que afirmara que a presidenta Dilma Rousseff teria realizado um roubo armado durante a ditadura militar. A Folha foi mais leniente. Ambos os jornais publicaram que os EUA estavam preocupados com a segurança em relação às Olimpíadas de 2016 no Brasil; eu escrevi um artigo para o site do WikiLeaks descrevendo que os EUA estavam fazendo lobby para prover treinamento e segurança, assim como aumentando sua presença no país.
Ter três veículos analisando ao mesmo tempo os mesmos documentos permitiu vislumbrar de maneira única como funciona o jornalismo – e como o mesmo material pode ser tratado de maneiras diferentes.

Um exemplo é o texto “Meu amigo Jobim”, publicado no site do WikiLeaks, onde descrevi, com base nos documentos, como o ex ministro da Defesa Nelson Jobim manteve diversas reuniões com o embaixador norte americano em que compartilhava abertamente sua antipatia em relação ao “antiamericanismo” do Itamaraty, passando a ele informações sobre uma compra de caças, de interesse comercial dos EUA, e sobre parcerias militares com outros países no combate ao narcotráfico.

Os documentos revelavam como a administração George W. Bush usava a estratégia de manter contatos estreitos com Jobim para contrabalançar a postura independente do Brasil, chamando o de “incomumente ativista” em defesa dos interesses norte americanos. A Folha de S.Paulo recebeu os mesmos documentos, mas enfatizou o fato de que o Itamaraty é visto pelos EUA como “inimigo”.

O artigo publicado no site do WikiLeaks foi reproduzido nas redes sociais e levou muitos websites de esquerda a chamar Jobim de traidor, gerando um escândalo político que o enfraqueceu no momento em que ele assumia seu segundo mandato à frente do Ministério da Defesa no governo de Dilma Rousseff. Jobim saiu oito meses depois, e no seu lugar assumiu o ex chanceler Celso Amorim, tão criticado por ele por trás das portas da embaixada norte americana em Brasília.

Em meados de janeiro de 2011, estava claro que os jornais não iriam exaurir todos os documentos, por causa de suas limitações de diários impressos e comerciais. Ao mesmo tempo, eu havia começado um blog que tinha uma ótima interação com leitores interessados nas histórias ainda não contadas. Foi assim que concebemos uma segunda etapa da divulgação.

Dessa vez, seria o público, em vez dos editores, a decidir os temas de interesse. Através do blog, eu pedi aos leitores que sugerissem tópicos, e selecionei os duzentos mais pedidos. Para publicar as histórias, criamos uma força tarefa de blogueiros, para quem enviei os documentos antes da publicação no site.

Foi assim, apostando em uma parceria com veículos não tradicionais, que vieram à tona furos referentes às reuniões do ex presidente Fernando Henrique Cardoso e do ex governador de São Paulo José Serra com diplomatas norte americanos, bem como as declarações do então subprefeito da Sé, Andrea Matarazzo, de que o governador de São Paulo Geraldo Alckmin seria membro da Opus Dei.

Nenhum dos dois jornais, parceiros de primeira hora, haviam publicado essas informações.

As publicações dos blogueiros, porém, também arrefeceram após um tempo. Faltava lhes estrutura, pessoal e expertise para um trabalho exaustivo como o de pesquisar centenas de documentos – trabalho natural de um tipo específico de jornalista, aquele que se dedica a reportagens investigativas.

Foi assim que, em meados de março, juntei me a um grupo de mulheres jornalistas para fundar a Agência Pública, primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil.

Inspirada em organizações similares de outros países, usamos como filosofia a disseminação livre de conteúdo, em creative commons, e a divulgação das bases de todas as nossas reportagens – todos os documentos.

A Pública realizou então a última fase de publicação dos documentos do Cablegate relativos ao Brasil.

Isso foi feito por crowdsourcing: uma redação temporária formada por quinze jornalistas se reuniu na sede da Agência Pública. Surpreendentemente, conseguimos publicar mais cinquenta matérias baseadas nos documentos diplomáticos. Novas revelações incluíam reuniões entre diplomatas norte americanos e representantes da imprensa e a transferência secreta para o Brasil de trinta agentes da DEA (Drug Enfrorcement Agency) norte americana, que haviam sido expulsos da Bolívia em 2008, acusados de espionagem.

Essas histórias criaram mais um furor na mídia, que reproduziu o conteúdo em creative commons. E provaram que, na nova fronteira digital, é possível para um grupo de jornalistas independentes produzir e disseminar conteúdo de qualidade – e até prosseguir nas histórias ignoradas pela mídia tradicional.
É como uma caixa de Pandora: será impossível agora conter o fluxo de jornalismo independente inspirado pelo trabalho do WikiLeaks.

Passados dois anos dessa experiência, na conversa com seus colegas cypherpunks que você lerá a seguir, Julian Assange disseca as limitações com as quais teve contato na produção de jornalismo no Ocidente – que, segundo ele, vive um tipo de censura sofisticada:

Podemos pensar na censura como uma pirâmide. É só a ponta dela que aparece na areia, e isso é proposital. A ponta é pública – calúnias, assassinatos de jornalistas, câmeras sendo apreendidas pelos militares e assim por diante –, é uma censura publicamente declarada. Mas esse é o menor componente. Abaixo da ponta, na camada seguinte, estão todas as pessoas que não querem estar na ponta, que se envolvem na autocensura para não acabar lá. Na camada subsequente estão todas as formas de aliciamento econômico ou clientelista que são direcionadas às pessoas para que elas escrevam sobre isso ou aquilo. A próxima camada é a da economia pura – sobre o que vale economicamente a pena escrever.

O conceito do WikiLeaks é um marco no jornalismo porque permite a sub  versão das camadas mais profundas dessa “censura”. Não é à toa que, após a lua-de-¬mel inicial do vazamento do Cablegate, grande parte do mainstream da imprensa tenha se tornado hostil à organização. É apenas mais um front nas batalhas digitais de Assange.

*Natalia Viana é jornalista, codiretora da Agência Pública e autora e coautora de três livros: Plantados no chão: assassinatos políticos no Brasil hoje, Habeas corpus: que se apresente o corpo – a busca dos desaparecidos políticos no Brasil.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Fotografia - por Chris Gin (site homônimo)

Gandalf, o Terrorista

Pitacos de Palmério Dória

O império conta-ataca: João Roberto Marinho, Ruy Mesquita, Otávio Frias e Roberto Civita lançam o programa Minha Raiva, Minha Vida.
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Milionário, que vende ar puro enlatado na China, aprendeu com Eike Batista, que vende vento engarrafado no Brasil.
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JK, mal assumiu, reclama dos gorilas da Aeronáutica que tentam golpe em Jacareacanga: "Eu ainda nem tive tempo de errar".
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EUA vs Mundo: bloqueio contra Cuba, que dura quase 51 anos, é condenado pela ONU desde 1992. Último placar: 186 votos pelo fim do embargo.
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Depois da representação contra vestido vermelho da Dilma, PSDB retoma negociações para fusão com Universo em Desencanto.
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União Europeia recomenda pluralismo na mídia. O que é bom para a Europa pode ser bom para o Brasil.
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"O maior inimigo da moralidade não é a imoralidade, mas a parcialidade" (Vladimir Safatle)
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Se depender de Alckmin, temporada de liquidações dura o ano inteiro.
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Blairo Maggi na Comissão do Meio Ambiente do Senado? Agora é uma sopa acabar com a floresta.
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Dilma só quer fazer espuma com todas essas medidas. A midiazona e a oposição, por exemplo, estão espumando de raiva.
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A noite em que o JN enfiou a viola - elétrica - no saco.
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Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Mesquita, Frias, Marinho e Civita.
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A midiazona é que nem tambor. Faz um baita barulho, mas é oca por dentro.
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Malditos empresários! Têm o desplante de manter o otimismo mesmo com o jornalismo-catástrofe da grande imprensa.
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Lula precisa sair de cena e abrir espaço para novas lideranças como Ruy Mesquita, Roberto Civita, João Roberto Marinho e Otávio Frias.
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Arnaldo Jabor diz que seu filme A Suprema Felicidade é o Amarcord brasileiro. Pronto. Atingiu a unanimidade: não há quem concorde.
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Atração fatal: os barões da mídia perderam tanto, mas tanto, que acabaram perdidamente apaixonados pela derrota.
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Tucanos, na contramão de Obama, são a favor de cortes na área social até nos Estados Unidos.
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Com 19 dias de janeiro, a Folha disse que 2013 já é um ano perdido. Vão ser pessimistas assim na Barão de Limeira!
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Divirta-se com Lobato: "O meio de combater uma ideia é lançar ao encontro uma ideia melhor; nunca no mundo uma bala matou uma ideia".
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Divirta-se com João Antônio: "Esta televisão que vai transformando ignorantes em idiotas".
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No embalo da aproximação com evangélicos, depois do evento de música gospel Promessas, Globo abre sua grade para Tela Crente. Agora vai!
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"Estatística é uma ciência que demonstra que, se meu vizinho come um frango e eu não como nenhum, cada um comeu meio frango" (Bernard Shaw)
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Eliane Cantanhêde leu o "O Brasil vai bem, obrigado!", do Gaspari, e teve um treco: "Até tu, Elio?"
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Eike se reuniu com 4 ministros. Todos queriam muitíssimo saber por que ele foi o bilionário que mais perdeu em 2012. Mas ninguém perguntou.
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Vivo, na hora de ressarcir os milhões de clientes por seu apagão, vai apagar e se fazer de morta.
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Soninha pode ser cabeça de chapa com Serra de vice em 2014. Chapa imbatível no Club Paulistano.
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Divirta-se com Groucho Marx: "O casamento é a principal causa do divórcio".
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"Bota a mão no joelho, dá uma abaixadinha/ Vai mexendo gostoso, balangando a bundinha" (Olavo Bilac, 1865-1918)
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Fipe calcula que desemprego caiu para 4,4% em dezembro. É grave a crise.
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Waack, com sua máscara mortuária, vive rogando praga contra Cristina Kirchner. Isto significa que ela tem pela frente um caminito amigo.
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Nível dos reservatórios sobe absolutamente contra a vontade da grande imprensa. Ai que saudades dos apagões de FHC!
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A Alemanha está à beira do abismo: cresceu 0,7% em 2012 e não passará de 1% em 2013. O pibinho da Angela é menor que o pibinho da Dilma.
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Igor Gielow entrega na Folha. Congresso não presta. Bom mesmo é o Marco Aurélio Mello, esse que considera ditadura um “mal necessário".
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Aécio, Aécio! Se não fosse tu o que seria dos néscios?
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OEA "respeita totalmente" decisão das autoridades da Venezuela sobre posse de Chávez. Mas quer opinião de Merval pra formar melhor juízo.
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A mídia está pensando em chamar os peles-vermelhas para fazer a dança da seca.
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Nível baixo dos reservatórios não alcança baixo nível da mídia.
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Serra pediu um tempo ao PSDB para pensar em política e no que ainda chama Estados Unidos do Brasil.
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SP vai pra UTI só com o anúncio da ida de Serra para a Saúde.
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A mídia urubuza pela morte de Chávez. Acontece que um novo Chávez está Maduro.
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Rotina é quando você não se escandaliza ao saber que, das 24 chacinas do ano passado em SP, só uma foi esclarecida.
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FHC será o guru de Aécio. Diversão garantida por dois anos.
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A propósito do BBB, recordemos Voltaire: "A idiotice é uma doença extraordinária, não é o doente que sofre com ela, mas os outros".
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Eliane Cantanhêde diz que os números não mentem jamais. Já a colunista da Folha...
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Meu amigo Luiz Fernando Juncal Gomes diz que Tancredo herdou a caneta de Getúlio; Aécio, o alambique da família.
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Aécio Neves, neto de Tancredo, veio ao mundo para provar que sagacidade não é hereditária.
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FHC pretende dar aulas de ociologia para Aécio, como se ele precisasse. O que você acha?
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SIP -- Sociedade Interamericana de Imprensa --, sediada em Miami, é a maior limpeza. Vive levando banho de urna. O próximo é no Equador.
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Haddad estava esquentando a cadeira de prefeito na primeira reunião com os secretários e os leitores do Estadão já queriam derrubá-lo.
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"Emannuel Kant é considerado o pai do iluminismo, que FhC pensa ter sido inventado por Thomas Edison" (Millôr)
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Era a lógica do Malan: se acabar com a miséria não estava nos planos deles, por que não acabar logo com os miseráveis?
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Coitado do Aécio. Fica com indigestão na cabeça só de falarem nas aulas que FHC lhe arrumou com Malan, Armínio, Bacha e Franco.
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"Núcleo duro", formado por Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan, vai bater na cabeça dura de Aécio até furar.
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De James Carville para Carlos Alberto Sardenberg: "é a renda e o pleno emprego, estúpido!".
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"Década perdida"? O historiador Marco Antônio Villa vê as coisas não como elas são. Mas como ele é. Villa erra todas na mosca. Tá + perdido que Robinson Crusoé sem Sexta-Feira numa ilha deserta.
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Falta muito pouco para Eike se tornar o bilionário mais pobre do mundo.
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Aécio e Huck têm sido vistos em acalorados debates no Leblon. Cada qual puxando a brasa pro seu Rolex. Prévia da convenção tucana pra 2014.
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O tempo passa, o tempo voa, e a Folha continua chamando o mensalão tucano de "mensalão mineiro" numa boa.
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Lula teve Ricardo Kotscho, André Singer, Franklin Martins. Dilma tem Helena Chagas e Paulo Bernardo. Aí está toda a diferença.
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Merval Pereira cria abrigo para órfãos de Demóstenes com patrocínio da ABL.
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Lutador de MMA fratura pênis em chave não prevista no Kama Sutra.
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"De amargo na vida chega o Campari", diria a ravissante Dora Avante do Veríssimo.
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Brevemente a Folha, em clima de Caras, vai cobrir a doce vida do casal Cachoeira em Honolulu, dando banho em lagosta com escovinha.
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"O homem tem nove razões para reencarnar. Todas de fundo sexual. A décima não tem a menor importância" (Wiskenhauer)
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À boca pequena, Álvaro Dias tem feito rasgados elogios aos grandes lábios de Veronica Lario, a ex de Berlusconi: "Que botox deslumbrante!".
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A seção mais divertida da Folha, Erramos, merece pelo menos um caderno em 2013.
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Aécio Neves saiu da moita. Mandou dizer que tem "projetos alternativos" para o Brasil com um Itaú de vantagens.
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Gaspari sonha com a volta de Celso Lafer, chanceler de Fernando I e Fernando II, que queria o Brasil lutando ao lado dos EUA no Iraque.
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Prospectiva 2013: Otavinho Frias quer combinar o lançamento da sua biografia de Carlos Lacerda com um golpezinho legal.
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Receita de futuro: Cantanhêde ouve o Maílson 80% da Nóbrega; Míriam, Armínio Fraga; Patú, Gustavo Franco. Pra frente, Brasil!
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“Intelectuais” do Instituto Millenium, do qual Pedro Bial é curador, vão dar aulas de Moral e Cívica para os novos integrantes do BBB.
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"Hay que endurecer pero no mucho" (Aécio Neves sobre a Lei Seca)
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Retrospectiva: Bóson de Higgs foi o maior feito científico de 2012. Mas partícula de Deus é a Camila Pitanga.
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Como Rosamundo, o primo distraído de Stanislaw Ponte Preta, Álvaro Dias se esqueceu de declarar 16 mi ao IR. E a mídia se esquece de contar.
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Vendas de Natal cresceram 6% em relação a dezembro de 2011 absolutamente contra a vontade de Carlos Alberto Sardenberg, o pensador do JG.
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Atesto, para os devidos fins, que a declaração de Álvaro Dias sobre a evolução de seu patrimônio é verdade mais que verdadeira. Demóstenes.
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Não é segredo: a origem da fortuna de Álvaro Dias está na usina de Salto Segredo.
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Álvaro Dias diz que não teme abutres. Mas como poderia? Um abutre não teme outro.
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Segundo Marina Silva, vai constar da ata do novo partido que papai Adão já foi o tal. Hoje é Eva quem manobra. E a culpada foi a cobra.
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Mídia numa sinuca de bico. Procura desesperadamente outro líder pra chamar de seu em 2013. Nem Dora Kramer quer saber de Álvaro Dias.
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Roberto Setúbal quer despertar "espírito animal" nos empresários. Então, Adeg informa: sai Huck, entra Edmundo nos comercias do Itaú.
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Alckmin, que tem o reflexo de um bjcho-preguiça, ainda estuda se adota o modelo de cotas do governo federal nas universidades paulistas.
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João Cabral deu um epitáfio prévio de presente a Lêdo Ivo. Humildemente ofereço um a Ferreira Gullar: "Morreu no auge da estupidez".
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Luiz Fux quer fazer com a guitarra nas festinhas de carnaval o que faz com a Constituição.
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A Grampolândia montada por Alckmin em SP mostra que ACM era apenas um pobre amador nesse departamento. Isso é que é Estado policial.
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Quando um sujeito estúpido faz algo vergonhoso, sempre diz que cumpriu com seu dever -- George Bernard Shaw (1856-1950), dramaturgo irlandês.
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Golpe? Plante que o Supremo garante.
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"É muito perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão completamente equivocadas" (Voltaire)
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Eram os deuses astronautas ou ministros do STF?
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FHC é mesmo personalidade de renome internacional. Nos países de língua espanhola, por exemplo, é chamado de vende-pátria.
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Se o golpe de 64 desse chabu, uma frota americana se deslocaria do Caribe para nosso litoral para garanti-lo. Hoje basta um STF paraguaio.
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Globo vem aí com o seriado Pé na Cova. Deve ser homenagem póstuma ao Encontro com Fátima Bernardes.
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Agência eleva nota de risco da Grécia e do Fantástico em seis graus.
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Olha que rima do cão: Supremo tem o "monopólio da palavra" e midiazona, o da informação.
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"A Justiça farda, mas não talha. E continuo achando que o melhor Supremo ainda é o de frango" (Millôr)
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Celso de Mello serve prato indigesto: frangalho de Constituição.
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Segunda-feira, artigo novo de Aécio Neves na Folha. Sobem as vendas do Trovão da Barão de Limeira.
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"Quem diz que futebol não tem lógica ou não entende de futebol ou não sabe o que é lógica" (Stanislaw Ponte Preta)
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Analistas dizem que segurança pública pode definir o "desenho eleitoral" de 2014. Por sorte Alckmin tem tudo "sob controle" em São Paulo.
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Atenção, Mervais e Elios: os últimos números do Ibope e do Datafolha indicam que é melhor mudar de tática.
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Midiazona prestes a lançar campanha baseada no slogan "Democracia, use com moderação".
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Eike amarga humilhante terceiro lugar entre os mais ricos.Seus problemas começaram quando Luma o abandonou porque ele não mais-valia.
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Merval, desesperado, acha que as pesquisas também devem ser investigadas: "Elas não são inimputáveis".
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"Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência" (Jarbas Passarinho no 13 de 12 – data de assinatura do famigerado AI-5)
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Peréio: "Depois que gênio morre, não nascerá outro igual. Já no dia seguinte à morte de um medíocre,aparece um igualzinho no lugar!"
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A garganta de Cachoeira é mesmo profunda. Nela cabe um Demóstenes inteirinho.
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Folha, trovão da Barão de Limeira, chama Chávez de "caudilho" e Cachoeira de "empresário".
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Fotógrafo diz que viu Roger Abdelmassih em restaurante chic paulistano. Qualquer problema Gilmar Mendes lhe concede outro habeas corpus.
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Alckmin lança o programa Helicóptero Família para uso exclusivo da família dele.
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Até Gilmar Mendes ficou surpreso com a diligência de Tourinho Neto ao libertar Cachoeira num vapt-vupt, e vai passar a persegui-la.
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"Quem não tem voto caça com Valério" (Paulo Moreira Leite)
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Fazem de imbecis, gênios; de gênios, imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades (Lima Barreto, sobre imprensa do começo do séc. 20)
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Ninguém pode negar: PM paulista é máquina de matar.
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Marcelo Rubens Paiva: Câmara devolve mandato de deputado federal do meu pai, cassado pelo Golpe em 1964. Não poderá empossar pq Exército desapareceu com ele em 1971.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Fotografia - por Roger Bellinger (National Geographic)

A matemática esperta da ‘Folha’ - por Saul Leblon (blog das Frases / Carta Maior)

Manchete da Folha deste domingo estampa 'grave denúncia':

"Programa social consome a metade dos gastos federais".

Só profissionais da dissimulação conseguem vender como jornalismo manipulações grosseiras como essa, feitas para alimentar o alarido da agenda conservadora.

A saber:

a) que a política econômica do governo do PT não passa de uma bolha de consumo atrelada à enorme 'bolsa esmola', ao custo de R$ 405,2 bi;

b) que o consumo de massa é mantido de forma artificial, com gastos assistencialistas - e reajuste abusivo do salário mínimo, a pressionar o sistema previdenciário;

c) que tudo isso é inflacionário porque desprovido da expansão dos demais ingredientes que sustentam a oferta (como se o hiato do investimento fosse um fato cristalizado);

d) que o conjunto subtrai recursos ao sagrado superávit primário, impedindo o Estado de canalizar maiores fatias aos rentistas da dívida pública;

e) que a solução é restaurar a agenda do Estado mínimo, com política salarial que desguarneça o núcleo desequilibrador da pirâmide de renda: o ganho real de 60% do salário mínimo no governo Lula.

Em resumo: PSDB na cabeça em 2014.

Dois disparos à queima-roupa denunciam a pistolagem atirando deliberadamente contra os fatos no alerta domingueiro da Folha.

A 'grave denúncia' apoia-se, de um lado, num truque contábil.

Ele pode ser pinçado de dentro de uma única e miserável linha do texto:

'Foram excluídos da conta os encargos da dívida pública'.

A partir daí até camelo passa no buraco da agulha.

A pequena confissão subtrai do conjunto das comparações algo como R$ 200 bilhões.

Média do que custou o pagamento dos juros da dívida pública nos últimos anos.

Só os juros.

Não estão computadas aqui as despesas com amortizações e rolagens, que elevam o fardo rentista a quase 50% do gasto orçamentário federal, engessando-o para investimentos em saúde, educação etc.

São 'pequenas' elipses.

Mas são elas que tornam possível entregar o percentual encomendado pela manchete domingueira: 'programa social consome a metade dos gastos federais'.

O segundo desvão da calculadora dos Frias engole aspectos cruciais da previdência social urbana.

No texto, ela é a ante-sala do inferno fiscal: equivale a 60% dos tais 'gastos sociais' do Estado brasileiro.

Um buraco de R$ 245,5 bi. (O Bolsa Família soma modestos 5% do total, R$ 20,5 bi, o que o impediria de sustentar a 'grave denúncia' da 'Folha')

A rigor tampouco a previdência o permite, exceto manipulada no liquidificador do jornalismo esperto.

Aos fatos.

A previdência urbana é superavitária desde 2007, graças à criação de 16 milhões de empregos com registro em carteira nos governos Lula e Dilma.

Em 2012, ela teve o melhor resultado de sua história: um superávit de R$ 25 bi.

O saldo cobre quase 35% do déficit da previdência rural, que estendeu o salário mínimo aos idosos do campo, privados de direitos trabalhista pelos mesmos interesses que hoje reclamam equilíbrio fiscal.

A transferência de uma renda mínima aos sexagenários rurais teve os seguintes desdobramentos:

a) a renda rural nos últimos seis anos cresceu 36% a mais do que o próprio PIB;

b) a previdência rural - que a agenda ortodoxa quer extinguir ou desvincular dos ganhos do mínimo - tornou-se um dos principais fatores de dinamização dos municípios no interior do país;

c) a década do governo Lula foi a primeira, em 60 anos, em que o êxodo rural no Brasil se estabilizou.

É uma pequena reviravolta histórica.

Deveria ser aprofundada, melhor debatida, retificada em suas lacunas, pesquisada e fortalecida em seus desdobramentos virtuosos.

Mas quem o fará?

Por certo, não a matemática esperta da Folha.

Por precaução eleitoral, ela cuida também de desqualificar os desdobramentos efetivos da 'gastança social' que condena.

A mensagem do conjunto reflete a mentalidade regressiva de um conservadorismo incapaz de se renovar.

Exceto em seu repertório de truques e traques, entre os quais se abriga o recado domingueiro da Folha:

'Devolvam o país aos mercados; eles sabem como fazer a coisa certa'.

A lontra tímida - por Tom e Pat Leeson / Ardea (Fotografia - Caters News /Telegraph)

A mudança que faltou, por Cândido Grzybowski (O Globo)

Em janeiro de 2003, no Fórum Social Mundial, Lula fez um discurso para uma multidão, em Porto Alegre. Como membro do comitê organizador, eu estava lá. A emoção de estar vivendo algo novo tomava conta do ambiente.

Passados dez anos, li e reli a transcrição deste discurso. E lembrei da esperança que havia tomado conta do país. De fato, o Brasil não é o mesmo. Só não vê que mudou quem não se conforma com um governo apoiado por camadas populares. Isto, aliás, já é uma mudança num país de tradição elitista, que nunca reconheceu a cidadania dos milhões de trabalhadores, favelados, camponeses, quilombolas, indígenas, pobres e excluídos. O governo petista é expressão da vontade política dessas maiorias.

A lista de feitos é grande. Lembro algumas políticas para enfrentar a exclusão social: Bolsa Família e segurança alimentar, políticas para promoção de igualdade étnica, racial, de gênero, ações em favor dos não plenamente reconhecidos como cidadãos. As políticas em termos de direito ao trabalho e renda: geração de milhões de empregos. As políticas de educação e o acesso de milhões a bens e serviços antes impossíveis, popularizando o consumo e puxando o crescimento do país. No plano da economia, a política recente de redução dos juros.

O que poderia ser feito e que não aconteceu também é uma lista grande. Em vez de investimentos para garantir o direito à mobilidade, incentivou-se o carro individual, congestionando as cidades. Na segurança pública, o medo continua. Continuamos não enfrentando a negação do direito à água e ao saneamento das camadas populares. Num país de chuvas torrenciais, continuamos uma nulidade em prevenção. Talvez na saúde resida o câncer maior. Os esforços são notáveis; os resultados, pífios.

Para finalizar, destaco a mudança que faltou. O PT vai ser responsabilizado por não ter usado sua legitimidade para apontar no rumo de um novo modelo. O agronegócio cresceu e a reforma agrária ficou para as calendas gregas. Cerca de 70 mil grandes propriedades do agronegócio no Brasil têm 200 milhões de hectares, um quarto do nosso território. E 4 milhões de famílias penam para ter terra. O modelo econômico reativado aponta as mesmas opções de antes: exportações baseadas em "commodities" minerais e agrícolas, agronegócio, projetos sob a liderança de grupos econômicos e financeiros, energia ao custo de impactos socioambientais. Um modelo responsável pela crise social, ambiental e climática que a humanidade enfrenta.

O desafio, após dez anos de governo do PT, é criar uma onda de mudanças democráticas no país, em termos de mudança estrutural, de direitos e de participação cidadã, de sustentabilidade da sociedade com respeito ao nosso bem comum maior, o patrimônio natural de que somos gestores. Não temos como avançar em justiça social sem enfrentar a questão da sustentabilidade. Isto ainda está longe do ideário do PT.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Refeição do louva-a-deus - por Dami Martin - (Arte digital - Coolvibe)

O papel "esquecido" da União Soviética (Pravda - blog do Nassif)

A União Soviética perdeu 20 milhões de homens na Guerra, foi responsável pela grande ofensiva contra a Alemanha que permitiu a vitória dos Aliados, mas é freqüentemente igualada aos nazistas pelos historiadores oficiais

Annie Lacroix-Riz

Dois anos após sua vitória sobre o nazismo, o Exército Vermelho tornou-se, para os povos do Ocidente, devido à guerra fria, uma ameaça (1). Seis décadas mais tarde, a historiografia francesa, terminada sua mutação norte-americana, lançou a União Soviética à ignomínia, tanto pela fase do pacto germano-soviético quanto por sua "grande guerra patriótica", na época. Nossos manuais, igualando comunistas e nazistas, vão mais longe do que os historiadores da Europa oriental (2). Contudo, as pesquisas originais que alimentam essa posição apresentam um quadro completamente diferente da URSS na Segunda Guerra Mundial.

A acusação contra Moscou diz respeito ao pacto germano-soviético de 23 de agosto de 1939 e, especialmente, aos protocolos secretos: efetivamente a vitória fulgurante e arrasadora da Wehrmacht sobre a Polônia deu o sinal da ocupação pela URSS da Galícia oriental (leste da Polônia) e dos países bálticos (3). Desejo de expansão, realpolitik ou estratégia defensiva?


Sem "segurança coletiva"

Retomando a tese dos renomados historiadores Lewis B. Namier e Alan John Percivale Taylor, assim como do jornalista Alexander Werth, os novos trabalhos de historiadores anglófonos esclarecem as condições nas quais a URSS chegou a essa decisão. Eles mostram o encorajamento dos Estados Unidos à obstinação da França e da Grã-Bretanha, que em sua política de "apaziguamento" - ou dito de outro modo, de capitulação diante das potências nazistas - arruinou o projeto soviético de "segurança coletiva" dos países ameaçados pelo Reich. Por isso os acordos de Munique (29 de setembro de 1938), pelos quais Paris, Londres e Roma permitiram a Berlim anexar, imediatamente, os sudetos. Isolada diante de um III Reich que tinha, no momento, "as mãos livres a Leste", Moscou assinou com Berlim o "pacto de não-agressão" que a poupou provisoriamente. Assim terminava a missão franco-britânica enviada a Moscou (de 11 a 24 de agosto) para acalmar as vozes que, após a anexação alemã da Boêmia-Morávia e da satelização da Eslováquia, pediam uma frente comum com a URSS. Moscou exigia a aliança automática e recíproca de 1914, que deveria associar Polônia e Romênia, feudos do "cordão sanitário" antibolchevique de 1919, e os países bálticos, vitais para a "Rússia da Europa" (4). O almirante britânico Drax e o general francês Doumenc deveriam fazer recair apenas sobre Moscou a marca do fiasco: era preciso apenas "deixar a Alemanha sob a ameaça de um pacto militar anglo-franco-soviético e ganhar o outono ou o inverno, retardando a guerra".

Quando o chefe do Exército Vermelho, Klement Verochilov, "preciso e direto", lhes propôs, em 12 de agosto, "o exame concreto dos planos de operação contra o bloco dos Estados agressores", eles admitiram que não tinham poderes. Paris e Londres, decididas a não fornecer nenhuma ajuda a seus aliados do Leste, haviam delegado a tarefa à URSS, mas a tornaram impossível: Varsóvia (especialmente) e Bucareste haviam sempre recusado o direito de passagem ao Exército Vermelho. Tendo "garantido" a Polônia sem consultá-la, Paris e Londres se diziam imobilizadas pelo veto (secretamente encorajado) do germanófilo coronel Josef Beck, que invocava o "testamento" de seu predecessor, Josef Pilsudski: "Com os alemães nos arriscamos a perder nossa liberdade, com os russos, nós perdemos nossa alma".

O caso era mais simples. A Polônia havia tirado dos soviéticos, em 1920-1921, com ajuda militar francesa, a Galícia oriental (5). Desde 1934, cega aos apetites alemães, ela tinha um grande temor que o Exército Vermelho tomasse facilmente seus territórios. A Romênia temia perder a Bessarábia tomada dos russos, em 1918, e mantida graças à França. A URSS também não obteve "garantia" dos países bálticos, cuja independência de 1919-1920 e a manutenção da influência alemã deviam ao "cordão sanitário".


Isolamento e sobrevivência

Desde março e especialmente de maio de 1930, Moscou era cortejado por Berlim que, por preferir - pela experiência - uma guerra com um único front, lhe prometeu, antes de se lançar sobre a Polônia, respeitar sua "esfera de influência" na Galícia oriental, no Báltico e na Bessarábia. Cedeu, no último momento, não a um fantasma da "revolução mundial" ou do "Drang nach Western" (esse avanço para o Oeste caro ao publicista alemão de extrema direita Ernst Nolte): enquanto Londres e Paris adulavam Berlim, a União Soviética receava "ser implicada sozinha em um conflito com a Alemanha", segundo os termos do secretário do Foreign Office, Charles Lindsley Halifax, em 6 de maio de 1939. O Ocidente expressou estupefação diante da "sinistra notícia que explodia sobre o mundo como uma bomba" (6) e denunciou uma traição. Na realidade, funcionários franceses e britânicos em Moscou brincavam de adivinhos desde 1933: sem a Tríplice Entente, a URSS precisou compor com Berlim para ganhar a "pausa" necessária para pôr em pé de guerra sua economia e seu exército.

Em 29 de agosto de 1939, o tenente coronel Luguet, adido da aeronáutica em Moscou (e futuro herói gaulista da esquadrilha Normandia-Niémen) atestou a boa fé de Vorochilov e considerou Stalin no lugar de "glorioso sucessor (...) de Alexandre Nevsky e de Pedro I": "O tratado publicado foi complementado por uma convenção secreta, que define, distante das fronteiras soviéticas, uma linha que as tropas alemãs não deverão ultrapassar e que seria considerada pela URSS algo como sua posição de cobertura" (7).

A Alemanha abriu o conflito geral em 1º de setembro de 1939, com ausência da Entente, que havia, em setembro de 1914, salvado a França da invasão. Michael Carley incrimina a política de apaziguamento nascida do "medo da vitória contra o fascismo" dos governos britânicos e franceses, atemorizados que a promessa à URSS do papel dirigente em uma guerra contra a Alemanha estendesse seu sistema a todos os beligerantes: o "anticomunismo", decisivo em cada fase-chave desde 1934-1935, foi, portanto, "uma causa importante da Segunda Guerra Mundial" (8).


Melhor o avanço soviético

Em 17 de setembro, a URSS, inquieta com o avanço alemão na Polônia, proclamou sua "neutralidade" no conflito, não sem ocupar a Galícia oriental. Exigiu em setembro-outubro as "garantias" dos países bálticos, "ocupação 'disfarçada', acolhida com resignação" (9) por Londres, a quem o Reich inquietava então tanto quanto o "avanço russo na Europa". E tendo pedido - em vão - a Helsinki, aliada de Berlim, uma retificação da fronteira (em troca de compensação), entrou em guerra contra a Finlândia e enfrentou uma séria resistência. A propaganda ocidental chorou a pequena vítima e exaltou sua bravura. Weygand e Daladier planejaram - "sonho" e depois "delírio", segundo o historiador Jean-Baptiste Duroselle - uma guerra contra a URSS no Grande Norte, desde o Cáucaso. Londres, porém, aplaudiu o compromisso fino-soviético de 12 de março de 1940, assim como o novo avanço do Exército Vermelho que se seguiu à derrota francesa (a ocupação em meados de junho de 1940 dos países bálticos, no final de junho da Bessarábia-Bucovinia do Norte). Depois disso, enviou a Moscou Stafford Cripps, único partidário soviético do establishment: Londres preferia, então, o avanço soviético no Báltico ao avanço alemão.

Após décadas de polêmicas, os arquivos soviéticos confirmaram que, aproximadamente, 5 mil oficiais poloneses, cujos cadáveres foram descobertos pelos alemães em 1943, em Katyn (próximo a Smolensk) haviam sido executados em abril de 1940 sob as ordens de Moscou. Terríveis com os poloneses, os soviéticos salvaram mais de 1 milhão de judeus das zonas reanexadas e organizaram uma evacuação prioritária em junho de 1941 (10).

Esse período, que vai de 23 de agosto a 22 de junho de 1941, é objeto de um outro debate sobre o pacto germano-soviético, por Stalin. Alguns especialistas salientam, por exemplo, o fornecimento de matérias-primas soviéticas à Alemanha nazista, a mudança de estratégia imposta no verão de 1940 ao Komintern e aos partido comunistas convidados a denunciarem a "guerra imperialista" etc. Os historiadores citados aqui diminuem e até mesmo contestam essa interpretação (11). Note-se que os Estados Unidos - mesmo depois de ter entrado na guerra contra Hitler em dezembro de 1941 - e a França, oficialmente beligerante desde 3 de setembro de 1939, asseguraram ao Reich abundantes cargas industriais (12).


Poderio vermelho

Em crise desde junho de 1940, as relações germano-soviéticas beiram a ruptura em novembro. "Entre 1939 e 1941, a URSS desenvolvera consideravelmente seus armamentos terrestres e aéreos e reunira entre 100 e 300 divisões (ou seja, de 2 a 5 milhões de homens) ao longo ou nas proximidades de suas fronteiras ocidentais" (13). Em 22 de junho de 1941, o Reich lançou o ataque anunciado pelo cerco de suas tropas na Romênia. Alexander Werth fala de uma "derrota militar em 1941", a qual foi sucedida (em 1942-1943) por um "sobressalto do regime e da sociedade".

Porém, em 16 de julho, o general Doyen anunciou a Pétain, em Vichy, a morte da "Blitzkrieg": "Se o III Reich obtém alguns sucessos estratégicos, a direção tomada pelas operações não corresponde, entretanto, à idéia que seus dirigentes têm. Esses não haviam previsto uma resistência tão tenaz do soldado russo, um fanatismo tão apaixonado da população, uma guerrilha tão poderosa pelas costas, perdas tão sérias, um vazio tão completo diante do invasor, dificuldades tão grandes de revitalização e de comunicações (...). Sem se preocupar com a alimentação do dia seguinte, o russo incendeia com lança-chamas suas colheitas, faz explodir cidades, destrói seu material de circulação, sabota suas explorações" (14).

O Vaticano, melhor rede de informação mundial, alarmou-se, no início de setembro de 1941, com as dificuldades "dos alemães" e com uma saída "tal que Stalin seria chamado a organizar a paz em concerto com Churchill e Roosevelt", e situou "a virada da guerra" antes da barreira à Wehrmacht diante de Moscou (final de outubro) e bem antes de Stalingrado. Confirmou-se, desse modo, desde a invasão, a opinião emitida desde 1938 pelo adido militar francês em Moscou, Auguste-Antoine Palasse, de que o poderio militar soviético estava intacto, por causa dos expurgos que se seguiram ao processo e execução do marechal Toukhatchevski e do alto estado-maior do Exército Vermelho, em junho de 1937 (15).


Moscou na ofensiva

O Exército Vermelho, escrevia ele, reforçava-se e desenvolvia um "patriotismo" inaudito: o estatuto do exército, a formação militar e uma propaganda eficaz "mantinham tensas as energias do país, dando-lhe orgulho das incursões dos seus (...) e confiança inquebrantável na sua força defensiva". Palasse havia ressaltado, desde agosto de 1938, as derrotas japonesas nos confrontos na fronteira da URSS-China-Coréia. A qualidade do Exército Vermelho uma vez atestada serviu de lição: apesar da fúria de Hitler, o Japão assinou em Moscou, em 13 de abril de 1941, um "pacto de neutralidade", liberando a URSS de sua obsessão - desde o ataque contra a Manchúria (1931) depois toda a China (1937) - de uma guerra em duas frentes. Depois de ter se curvado, durante longos meses, sob a investida da formidável máquina de guerra nazista, o Exército Vermelho iria, novamente, passar à ofensiva.

Se, em 1917-1918, o Reich foi derrotado no Oeste e, especialmente, pelo exército francês, de 1943 a 1945, agora a derrota foi a Leste, e pelo Exército Vermelho. Para aliviá-la, Stalin pedia, desde agosto-setembro de 1941, um "segundo front" (envio de divisões aliadas na URSS ou desembarque nas costas francesas). Ele teve que se contentar com elogios do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, logo seguido pelo presidente americano Franklin D. Roosevelt, sobre o "heroísmo das forças combatentes soviéticas" e um "empréstimo" americano (reembolsável depois da guerra) avaliado por um historiador soviético em 5 bilhões de rublos, ou seja, 4% da renda nacional em 1941-1945. A recusa desse segundo front e o afastamento da URSS das relações intra-aliança (apesar de sua presença na conferência de Teerã, em novembro de 1943) reavivaram a obsessão pela volta do "cordão sanitário" e às "mãos livres à Leste".

A questão da correlação de forças na Europa se avivou quando a capitulação do general Friedrich von Paulus em Stalingrado, em 2 de fevereiro de 1943, trouxe para a ordem do dia a paz futura. Washington contava com sua hegemonia financeira para escapar das normas militares das regras dos conflitos, Franklin D. Roosevelt recusava negociar sobre os "alvos da guerra" apresentados a Winston Churchill por Joseph Stalin em julho de 1941 (retorno às antigas fronteiras européias do antigo império, como em 1939-1940): uma esfera de influência soviética limitaria a americana; o financista Averell Harriman, embaixador em Moscou, pensava em 1944 que a isca de uma ajuda econômica à URSS arruinada "evitaria o desenvolvimento de uma esfera de influência(...) soviética na Europa oriental e nos Bálcãs".


Batalha violenta e decisiva

Mas foi preciso contar com Stalingrado, onde se defrontaram desde julho de 1942 "dois exércitos de mais de 1 milhão de homens". O exército soviético ganhou essa "batalha hostil", mais violenta do que todas as da primeira guerra mundial (...) "acompanhada a cada dia pela Europa ocupada - por cada casa, por cada caixa d'água, cada adega, cada pedaço de ruína". Sua vitória "pôs a URSS no caminho de potência mundial", como a "de Poltava em 1709 [contra a Suécia] que transformara a Rússia em potência européia".

A verdadeira abertura do "segundo front" se arrastou até junho de 1944, período no qual o avanço do Exército Vermelho - além das fronteiras soviéticas de julho de 1940 - exigiu a divisão das "esferas de influência". A conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, conferência dos ganhos da URSS, beligerante decisivo, não resultou da maldade de Stalin ao espoliar a Polônia mártir contra um Churchill impotente e um Roosevelt moribundo, mas sim da correlação de forças militares.

Este último deu uma guinada em direção à corrida de perseguição "dos exércitos anglo-americanos e das forças no Leste" pela rendição da Wehrmacht: final de março, "26 divisões alemãs permaneciam na frente ocidental (...) contra 170 divisões na frente Leste" (16), onde os combates foram terríveis até o final. Em março-abril de 1945, a operação Sunrise atingiu Moscou: o chefe do Office of Strategic Services(antecedente da CIA) em Berna, o financista Allen Dulles, negociou com o general SS Karl Wolff, chefe do estado-maior pessoal de Himmler, responsável pelo assassinato de 300 mil judeus, a capitulação do exército Kesselring na Itália. Mas estava fora de questão que Berlim retornasse ao Ocidente: de 25 de abril a 3 de maio, essa batalha matou ainda 300 mil soldados soviéticos. Ou seja, o equivalente às perdas americanas totais (292 mil), "unicamente militares", das frentes européia e japonesa de dezembro de 1941 a agosto de 1945 (17).


Selvageria contra os russos

Segundo Jean Jacques Becker, "não considerando que ela se estendeu por extensões muito maiores, não considerando o custo extravagante dos ultrapassados métodos de combate do exército soviético, no plano estritamente militar, a Segunda Guerra foi, na realidade, menos violenta do que a primeira" (18). Isso é esquecer que apenas a URSS perdeu a metade das vítimas do conjunto do conflito de 1939-1945, porque a guerra de exterminação que o III Reich havia planejado era para liquidar, além da totalidade dos judeus, de 30 a 50 milhões de eslavos (19). A Wehrmacht, feudo pan-germanista facilmente nazificado, tomando "os russos [por] "amarelos dignos do desprezo mais absoluto", foi o artesão essencial: sua selvageria anti-eslava, anti-semita e anti-bolchevique, descrita no processo de Nuremberg (1945-1946) e, por muito tempo, calada no Ocidente, recentemente relembrada na Alemanha por exposições itinerantes (20), privou a URSS das "leis de guerra" (convenções de Haia de 1907).

São testemunhos dessas ordens: o decreto dito "do comissário" de 8 de junho de 1941 prescrevendo a execução dos comissários políticos comunistas integrados no Exército Vermelho; ordem de "não fazer prisioneiros", que causou a execução em campo de batalha, ao fim dos combates, de 600 mil prisioneiros de guerra, estendia em julho aos "inimigos civis"; ordem Reichenau de "extermínio definitivo do sistema judeu-bolchevique" etc. (21). Dessa maneira 3,3 milhões de prisioneiros de guerra, ou seja, mais do que dois terços do total, sofreram, em 1941-1942, a "morte programada" pela fome e pela sede (80%), o tifo, o trabalho escravo. Os prisioneiros "comunistas fanáticos" abandonados à SS foram as cobaias da primeira câmara de gás com o Zykon B de Auschwitz, em dezembro de 1941.

A Wehrmacht foi, como os SS e a polícia alemã, um agente ativo da destruição de civis, judeus e não judeus. Ela ajudou os Einsatzgrupen SS encarregados de "operações móveis de matança" (Raul Hilberg), assim como a perpetrada pelo grupo C na ravina de Babi Yar, em final de setembro de 1941, dez dias após a entrada dessas tropas em Kiev (aproximadamente 34 mil mortos): um dos incontáveis massacres perpetrados, como os "auxiliares" poloneses, bálticos (letões e lituanos) e ucranianos, descritos pelo dolorido Livro negro de Ilya Ehrenburg e Vassili Grossman (22).


Contribuição heróica

Eslavos e judeus (1,1 milhão sobre 3,3) pereceram em Oradour sur Glane e nos campos. Os novecentos dias do cerco de Leningrado (julho de 1941- janeiro de 1943) mataram 1 milhão de habitantes de um total de 2,5, sendo "mais de 600 mil" durante a fome do inverno 1941-1942. No total, "1700 cidades, 70 mil vilas e 32 mil empreendimentos industriais foram arrasados". Um milhão de Ostarbeiter (trabalhadores do leste) deportados para o Oeste foram esgotados ou anulados pelo trabalho, serviços dos SS e os "kapos" nos "kommandos" dos campos de concentração, minas e usinas dos Konzerne e nas filiais dos grupos estrangeiros - como a Ford, fabricante dos caminhões de 3 toneladas da frente Leste.

Em 8 de maio de 1945, a URSS exangue já havia perdido o benefício da "Grande Aliança" que havia imposto aos anglo-americanos a enorme contribuição de seu povo, sob armas ou não, para a sua vitória. O containment da "guerra fria", sob a édige de Washington, poderia retomar com o cordão sanitário, primeira guerra fria que Londres e Paris haviam dirigido de 1919 a 1939.

(Trad.: Teresa Van Acker)

1 - 1947-1948. Do Kominform au "coup de Prague", L' Occident eut-il peur des Soviets et du communisme?Historiens et géographes (HG) nº 324, agosto-setembro de 1989, págs. 219-243.
2 - Diana Pinto L., "Amérique dans les livres d' histoire et de géographie des classes terminales françaises", HG, nº 303, mars, 1985, págs. 611-620; Geoffrey Roberts, The Soviet Union and the origin of the second world war, 1933-1941, Saint Martin's Press, New York, 1995, introduction.
3 - Ler também Geoffrey Roberts, op cit, p. 95-105 " Les dessous do pacto germano-soviético", Le Monde diplomatique, julho de 1997.
4 - Salvo indicação, as fontes citadas aqui se encontram nos arquivos do ministério francês dos negócios estrangeiros ou do exército de terra (Armée de terre - SHAT) e os arquivos públicos alemães, britânicos e americanos. Quanto aos inúmeros livros, muitas vezes pouco conhecidos na França, sobre os quais se apóia esse artigo, o leitor encontrará uma ampla bibliografia sobre o site do Monde diplomatique:www.monde-diplomatique.fr
5 - NDLR: Como muitas "degraus", a Galícia passou, através da história por mãos russas, mongóis, polonesas, lituanas, austríacas e, novamente, russas e polonesas. Em 1919, lorde Curzon havia atribuído a Galícia oriental à Rússia (linha Curzon).
6 - Winston Churchill, Memories, vol. I, The Gathering Storm, Houghton Mifflin Company, Boston, 1948, p. 346.
7 - Carta a Guy de Chambre, ministro do Ar, Moscou, 29 de agosto de 1939 (SHAT)
8 - Michel J. Carley, 1939, The alliance that never was and the coming of World War 2, Ivan R. Dee, Chicago, 2000, págs. 256-257.
9 - Carta 771 de Charles Corbin, Londres, 28 de outubro de 1939, arquivos do Quai d' Orsay (MAE)
10 - Dov Levin, The lesser of two evils: Eastern Eurpean Jewry under Soviet rule, 1939-1941. The Jewish Publications Society, Philadelphia-Jerusalém, 1995.
11 - Ler especialmente as obras já citadas de Geoffrey Roberts e Gabriel Gorodetsky, mas também Bernhard H. Bayerlin et al., Moscou-Paris-Berlim, 1939-1941, Taillandier, Paris, 2003. A comunista libertária Margarete Buber-Neumann acusou, nas suas Memórias, o regime soviético de ter entregado antifascistas alemães à Gestapo.
12 - Charles Higham, Trading With the Enemy 1933-1949, Delacorte Press, New York, 1983; e Industriels et banquier français sous l" occupation, Armand Colin, Paris, 1999.
13 - Geoffrey Roberts, op. cit, págs. 122-134 e 139.
14 - La Délégation française apures de la Comisión allemande d' Armistice de Wiesbaden, 1940-1941, Imprimerie Nationale, Paris, vol. 4, págs. 648-649.
15 - NDLR: Esses expurgos são considerados como enfraquecedores do Exército Vermelho.
16 - Gabriel Kolko, The Politics of War, Random House, New York, 1969, capítulos 13 e 14.
17 - Pieter Lagrou, in Stéphne Audoin-rouzeau et al., dir. La violence de guerre 1914-1945, Complexe, Bruxelles, 2002, p.322.
18 - Idem, p. 333
19 - Götz Aly e Susanne Heim, Vordenker der Vernichtung, Hoffmann und Campe, Hambourg, 1991, resumido por Dominique Vidal, Les historiens allemands relisent la Shoah, Complexe, Bruxelles, 2002, págs. 63-100.
20 - Edouard Husson, Comprendre Hitler et la Shoah, PUF, Paris, 2000, pp 239-253
21 - Omer Bartov, German Troops, MacMillan, Londres, 1985, L' armée d' Hitler, Hachette Pluriel, Paris, 1999 e Tom Brower, Blind eye to murder, André Deutsch, Londres, 1981.
22 - Actes Sud, Arles, 1995.

Annie Lacroix-Riz

Professora de história contemporânea na Universidade de Paris VII, autora dos ensaios O Vaticanos, A Europa e o Reich 1914-1944, Armand Colin, Paris, 1996; A escolha da derrota: as elites francesas nos anos 1930, a ser lançado pelo mesmo editor.


Comentário
Só mesmo um grande tarouco de história e da história da segunda guerra mundial pode ignorar que o grande vencedor da guerra (a um custo imenso), quem de fato derrotou a Alemanha, foi a União Soviética.
Graças a bravura, a honra e ao esforço incomensurável de seu povo, a URSS conseguiu superar a grande máquina de guerra nazista.

Claro que, depois veio Truman, a Guerra Fria e todo esforço de guerra soviético (que, até por questões de espaço, foi imensamente reduzido neste artigo) foi desconsiderado pelas forças ocidentais – o mérito caiu todo sobre o tal "General Frio". Só mesmo um ignaro para acreditar nisto, claro, já que as maiores perdas da guerra atribuídas ao álgido inverno russo foram justamente da parte soviética.
É bom reiterar, a quantidade enorme de filmes feitos por Hollywood e o dia D, parece até que aquele foi o dia, de fato, decisivo para o curso da segunda guerra. Balela. Um número consabido é citado: morreram, em todos os anos de combate da segunda guerra, 292 mil soldados estadunidenses. Apenas na última batalha a qual se refere este artigo, a tomada de Berlim, pereceram 300 mil soviéticos. Não dá nem pra começar a comparar.
O Dia D foi um auxílio que as potências ocidentais deram para que a URSS derrotasse a Alemanha. Mas a URSS, é consabido, já tinha virado o jogo, e venceria a guerra com apoio, ou não.

La Petite France...e suas casas de arco-íris - por blog Ví (Fotografia)

Onde foi parar o seu sonho? - por Alberto Villas (CartaCapital)

Sempre que começa um ano fico aqui pensando onde foram parar os sonhos das pessoas. Logo eu, que um dia sonhei morar numa casa ecológica no meio do mato e hoje vivo na maior cidade da América do Sul entre automóveis e arranha céus, buzinas, fumaças e cheiro de gasolina.

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Gostaria de saber onde foi parar o sonho de Aretuza, que vivia escondida e clandestina no DCE de Belo Horizonte enquanto a sede da UNE na Cidade Maravilhosa ardia em chamas.

O sonho de Todinho, companheiro do Colégio de Aplicação que jogava nos policiais pedaços de paralelepípedos lá do último andar da Faculdade de Filosofia.

O sonho de Kaká, que um dia voou para Estocolmo com vontade de plantar morangos em troca de um punhado de coroas.

De Bebeto, que embarcou de bermuda e tamanco num vapor barato rumo à Grécia e nunca mais deu notícias.

De Azeitona, que abandonou os estudos em Belo Horizonte e chegou a Paris disposto a estudar Agronomia sonhando plantar café no sul de Minas Gerais.

De Elena, que queria porque queria zarpar para a África disposta a pegar em armas e lutar ao lado das companheiras do MPLA.

Gostaria de saber onde foi parar o sonho de quem  dormiu no sleeping bag, de quem quase morreu de amor no Estácio, de quem botou o bloco na rua, de quem manteve a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

Gostaria de saber onde foi parar o sonho daqueles que, em Santiago do Chile , na calada da noite cantavam La Palmatoria ao lado de Victor Jara. O sonho daquela  multidão na Praça da Revolução em Havana acompanhando Pablo Milanés cantando Amo esta Isla.

Gostaria de saber onde foi parar o sonho daqueles malucos que nas tardes de sábado sentavam no chão do Cine Pathé para assistir Easy Rider pela décima vez. O sonho daqueles que tiraram a roupa e mergulharam na lama em Woodstock. O sonho daquelas que queimaram sutiãs em praças publicas nos quatro cantos do mundo.  Daqueles que estavam ali à beira da cama de John e Yoko em Amsterdam entoando Give Peace a Chance e daqueles que cantaram juntos Let the Sunshine In em Hair.

Sempre que começa um ano faço uma faxina na minha revistaria. Dessa vez caiu em minhas mãos um exemplar da antiga Argumento, um número que trazia um ensaio fotográfico primoroso de Ricardo Mendes.

“Qual é o seu maior sonho?”, perguntou ele no título. Baseado no trabalho do fotógrafo Martín Weber, que realizou a exposição A Map of Latin American Dreams, Mendes pediu a cada um que escrevesse numa pequena placa o seu maior sonho.

O que mais me impressionou foi o sonho de Bigode, o guardador de carros que trabalhava em frente à Livraria Argumento do Leblon. Ele escreveu simplesmente: “Encontrar Sueli”. Com certeza um antigo amor  que ficou à beira do caminho perdido no tempo e no espaço.

Dei um Google e encontrei quase cinco milhões de citações para Sueli. Encontrei Sueli Costa, Sueli Catão, Aragão, Sueli Aparecida, Godim, Rutkowski mas nenhuma Sueli, simplesmente Sueli, que deixasse pistas de estar procurando desesperadamente um tal de Bigode, guardador de carros da Livraria Argumento.

Ancient Arrival - por Dan Addington (múltiplas artes)

A anulação do julgamento do "mensalão" - por José Garcia Lima , dirigente da CUT-RJ

Por que falar em anular o julgamento da Ação Penal 470 no STF? Qual o fundamento de tal pretensão? Simples: erro de direito, porque é de direito que se trata. Tão evidente, aliás, que até um leigo como eu se permite proclamar com toda a tranqüilidade: anulação do julgamento! Porque o fato é que ou o julgamento é anulado, ou estaremos diante de mais um dos erros grosseiros que entram para a história no capítulo das “vergonhas do Judiciário”!

Senão, vejamos. Os pilares do apontamento do crime feitos por Joaquim Barbosa são dois: o desvio de 73 milhões do Banco do Brasil e a formação da quadrilha que teve José Dirceu como chefe. A quadrilha determinou o desvio do dinheiro e determinou que alguns parlamentares fossem “comprados” para votarem conforme os interesses do governo do Lula.

O presumido desvio do dinheiro tem sido desmentido a partir de denúncias feitas pela revista Retrato do Brasil, que vem demonstrando a sua perfeita utilização em campanhas do Cartão Visa, a partir de provas constantes dos autos.

É interessante destacar que das mais de 50 mil páginas que compõem a denúncia da Procuradoria Geral da República apresentada pelo procurador Roberto Gurgel, na qual o relator Joaquim Barbosa foi buscar elementos para também acusar dramaticamente, cerca de 25 mil são transcrições de três auditorias: duas no Banco do Brasil e uma no VisaNet.

Nesse calhamaço de vinte e cinco mil páginas (que não foram lidas??!!)  estão provas suficientes para desmontar toda a argumentação que o procurador-geral e o relator utilizam para acusar. São descrições de eventos promocionais, shows artísticos, sorteios de brindes, jogos de voleibol, seminários temáticos, etc. Relativos a tais eventos há uma fartura de comprovantes de despesas, relatórios técnicos, notas fiscais,fotografias e relatos.

A revista Retrato do Brasil, na edição de dezembro, publicou uma tabela de eventos acontecidos e os custos de cada um, demonstrando a utilização do dinheiro. Na edição de janeiro, agora, apresenta nota fiscal emitida por organização de comunicação contra o pagamento de serviços de divulgação de eventos apontados antes.

Com tais demonstrações, o primeiro pilar da definição do crime desmorona. Não houve desvio de dinheiro do Banco do Brasil. O dinheiro, aliás, que sequer saiu do Banco do Brasil, que apenas autorizava as campanhas promocionais, mas sim do Visa Net, que por força de contrato entre as partes pagava as campanhas que o BB definia e apontava. O fato cabal e comprovado nos autos é que o dinheiro, que o Joaquim Barbosa afirmou ter sido desviado, para a histriônica demonstração de horror do Gilmar Mendes, foi utilizado em campanhas promocionais do Cartão Visa!

Quanto à formação da quadrilha chefiada por José Dirceu, a tese de Joaquim Barbosa foi ainda mais elaborada e trabalhosa. Baseou-se na teoria do domínio do fato. Segundo Joaquim Barbosa, escorado nessa teoria, a presunção de inocência e a exigência de provas para condenar são relativizadas se o juízo estabelece  a convicção de que o réu tinha conhecimentos suficientes para participar de uma ação criminosa, ou determiná-la  e comandá-la. Assim, no caso de José Dirceu, do posto que ocupava no governo federal, “não é crível que não soubesse o que ocorria” na suposta ação. Ora, se sabia, certamente comandava. Assim sendo, concluiu o notável juiz relator, certamente houve a formação da quadrilha e tudo o mais. Tudo o mais é a determinação de compra de votos, fato relatado por um único depoimento – o de Roberto Jefferson –, ainda na fase anterior ao processo, o que significa dizer que esse depoimento não constitui prova, pois não colhido como tal. Destaque-se que esse único depoimento, não colhido em juízo, é contraditado por outros mais de seiscentos ouvidos em juízo e que, portanto, compõem prova nos autos.

Mas o mais notável na “presunção de culpa”, a partir do “sentir” de Joaquim Barbosa – expressão usada pelo próprio ao apresentar o relatório que era pura peça de acusação – e de outros juízes que compartilharam o direito à “impressão”, foi o posterior depoimento da maior autoridade mundial na teoria do domínio do fato, o jurista alemão Claus Roxin, que afirmou estranhar a interpretação que parecia nortear a utilização da teoria. Dizia o teórico que de modo algum a teoria autorizava a condenação sem provas notáveis. O que a teoria apontava e autorizava seria a hipótese de providenciar investigação de fatos não apresentados na abertura do processo, a partir da convicção de possíveis participações suportadas pelo “domínio do fato”. Mas, a partir daí, a necessidade de produção de provas seria imperiosa. A culpa presumida teria de ser provada.

Mas não foi assim que o relator Joaquim Barbosa interpretou a base teórica da qual se utilizou. Afirmou que desde a sua convicção do crime praticado por alguém, a culpa estava estabelecida. Se ele pensava que o José Dirceu fora o mentor da compra de votos, determinara o desvio do dinheiro e os parlamentares que seriam “comprados”, e por quanto, então assim se dera. Porque ele assim o sentia. Então, sabia. E, portanto, condenava! Convenceu alguns dos seus pares. Dona Rosa Weber, ao votar a condenação de José Dirceu por corrupção ativa, afirmou: “é certo que não há provas contra José Dirceu, mas a literatura jurídica me autoriza a condená-lo mesmo assim”! E passava a citar Claus Roxin, o “notável jurista alemão que melhor domina a teoria do domínio do fato”.

Pena o notável jurista alemão ter sido implacável: é preciso provas! Não há teoria que sustente e, muito menos suporte, a patética tese de que “a literatura autoriza a condenação sem provas”. Foi-se, assim, o segundo pilar da demonstração do crime urdida pela acusação!

Então, se não há demonstração do desvio de dinheiro do Banco do Brasil. Ao contrário! Se não há provas que apontem a formação de quadrilha – e todos os crimes a ela, quadrilha, atribuídos, ainda que o relator Joaquim Barbosa o quisesse tanto! –, gostem ou não, há erro de direito. Por isso, o julgamento deve ser anulado!

Simples assim.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Meninos africanos - por National Geographic (Fotografia)

A relação incestuosa entre a mídia e o judiciário - por Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

O livro Mensalão, de Merval Pereira, traz um prefácio de Ayres Britto, por incrível que pareça.

O pior livro de 2013 está prestes a ser lançado: Mensalão, de Merval Pereira.

Cuidado, pois.

Tratando-se de Merval, não poderia ser outra coisa que não a reunião de seus artigos maçantes e previsíveis ao longo do julgamento. Conteúdo novo? Talvez na próxima.

O livro é importante, não obstante.

Ele mostra a relação incestuosa entre a Globo (e a grande mídia) e o STF. O prefácio é de Ayres Britto, que presidia o Supremo durante o Mensalão.

Pode? Pode. É legal? É. É eticamente aceitável? Não.

O pudor deveria impedir o conúbio literário entre Merval e Britto.

Mas o pudor se perdeu há muito tempo. Em outra passagem amoral, o ministro Gilmar Mendes compareceu sorridente, em pleno julgamento do Mensalão, ao lançamento de um livro de Reinaldo Azevedo em que os réus eram massacrados.

Ali estava já a sentença de Gilmar.

A decência e o interesse público mandam distância entre os dois poderes, a mídia e a justiça. Na Inglaterra, se o juiz Brian Leveson, que comandou as discussões sobre a mídia e seus limites, confraternizar com um jornalista, a carreira de ambos estará encerrada.

No Brasil, é pena, isso não é bem assim.

Conheço Merval há anos. Quando eu começava carreira na Veja, ele foi, durante algum tempo, editor da seção de Brasil. Não virou manchete, porque não tinha elegância ao escrever, o que naquela época era um requisito na Veja.

De lá voltou a seu habitat, o Rio. Seu tento mais espetacular, nestes anos todos de regresso ao Rio, foi ter matado Hugo Chávez numa coluna que, não gozasse ele da imunidade de porta-voz do patrão, podia ter lhe custado a mensalidade que recebe. Seu mensalão, enfim.

Reencontrei-o quando fui integrante do Conedit, Conselho Editorial das Organizações Globo.

Rapidamente, nas reuniões semanais de terça-feira no Jardim Botânico, me impressionei com Merval e Ali Kamel.

Não pelo talento, não pelo brilho. Mas pela capacidade de reproduzir, alguns tons acima, tudo que a família Marinho pensava. Pareciam competir entre si, como se dissessem: “Eu concordo com o João mais do que você!” (Acho graça quando atribuem poder ideológico a Kamel: se seu patrão fosse progressista, ele seria progressista e meio.)

Aquilo evidentemente me incomodou. Uma vez, depois de uma reunião, fui almoçar com Luiz Eduardo Vasconcellos, sobrinho de Roberto Marinho, acionista minoritário do Globo e integrante do Conselho Editorial.

O cardápio, olhando para trás, foi suicida, para mim. Disse a Luiz Eduardo, um bom sujeito, aliás, que me chamava a atenção na reunião o fato de todos os participantes repetirem, basicamente, as ideias da família Marinho.

Onde alguma diversidade, onde algum esboço de pluralismo?

Alguns macaqueavam mais discretamente, outros com exuberância e estridência retórica. Era este o caso de Merval e de Kamel. Minha solidão naquele grupo era imensa, era universal, e não apenas por eu ser de São Paulo.

Merval, em seus artigos, se coloca como um Catão. Talvez um dia nosso Catão possa vir à luz do sol para explicar por que, trabalhando há tantos anos para todas as mídia da Globo, é um PJ – um artifício pelo qual ele e seu empregador pagam menos impostos do que deveriam, e ainda se concedem o direito de fazer sermões sobre moral.

Mulheres tigresas - por Craig Tracy (Pintura corporal - Zupi)

Vinte e quatro horas para ser completamente finalizada, muita tinta e mulheres. O resultado? Corpos de mulheres que viram um tigre. O artista norte-americano Craig Tracy é o responsável por essa fantástica obra de arte. Abaixo você confere fotos do passo a passo do processo.









Sobre o xadrez da política - Notas 2 - por Luis Nassif

Vamos a uma atualização do nosso cenário político.

11 de dezembro: Para entender o xadrez da política 

20 de dezembro: Para entender o xadrez da política – 2

22 de dezembro: Sobre o xadrez da política – Notas 1

Leiam também: Um estudo clássico sobre 1964, sobre um trabalho histórico de Wanderley Guilherme dos Santos, de 1962, que provavelmente está por trás da estratégia política legalista da Presidente da República. Clique aqui para acessar a íntegra do trabalho.

Vamos a segunda Nota de atualização do xadrez da política, à luz dos últimos episódios analisando o papel de dois personagens centrais (Procuradoria Geral da República e STF) e um periférico (OAB nacional), na tentativa de exacerbação do quadro político a partir do julgamento do “mensalão”.

Judiciário e MP são poderes estáveis, com quadros de carreira. O STF comporta indicações de fora da magistratura mas, de qualquer forma, de operadores do direito.

Estruturas burocráticas obedecem a normas hierárquicas claras. Embora tenham prerrogativas, as chefias – ou quem fala em nome da instituição – necessitam exibir qualidade intrínsecas essenciais para não perder legitimidade:

Condição 1: Em todos os momentos têm que ficar claro que seus gestos e atitudes representam o pensamento majoritário do poder representado. Eles têm mandato para representar a instituição, não para se sobrepor imperialmente a ela.

Condição 2: Não pode haver decisão discricionária nem concentração de poder na chefia. Justamente por isso, o que garante a seriedade e a estabilidade das organizações é o poder colegiado. Embora não eleitos (apenas o Procurador Geral da República é votado em lista tríplice) devem satisfações às suas respectivas organizações.

Condição 3: Que não se curvem a nenhuma espécie de interferência política: nem do Executivo nem da oposição.

Condição 4: Sejam guardiãs da estabilidade política e institucional, respeitando os demais poderes e, principalmente, não contribuindo para a exacerbação do quadro político. Não se trata de ser leniente com crimes políticos, mas de não entrar no debate público como se fosse uma instância partidária.

Condição 5 – Quando se têm um Executivo legalista, é necessário que haja um clima de caos e de descontrole econômico para legitimar intervenções políticas.

A partir dessas definições prévias, vamos a uma atualização dos cenários anteriores, analisando os desdobramentos das catarses do final do ano passado.

Cenário jurídico

O julgamento do “mensalão”, o enorme alarido produzido pela mídia, promoveu uma coalizão entre três personagens importantes do Judiciário: o STF (Supremo Tribunal Federal), através do grupo dos cinco (Barbosa, Gilmar, Celso Mello, Marco Aurélio, Luiz Fux, mais o aposentado Ayres Britto), o Procurador Geral da República e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) nacional.

Não se limitaram ao julgamento e à condenação dos acusados. Tivessem se limitado a isso, o STF sairia engrandecido.
Joaquim Barbosa afrontou diretamente a Presidente, incluindo no seu voto frases dela fora do contexto; Celso de Mello comparou um partido político ao PCC; Gilmar Mendes provocou uma crise política calculada, no episódio do encontro com Lula; Marco Aurélio enalteceu o golpe contra a própria Constituição em 1964; Fux completou com o discurso na posse de Barbosa (combinada com ele) reivindicando para o Judiciário o papel de poder entre os poderes; e Celso de Mello considerou coligações partidárias como instrumento de ditadura.

Valeram-se da visibilidade obtida, do pacto com a mídia, da falta de figuras de expressão no Parlamento e nos partidos políticos, para tentar açambarcar poder político.
Assista o trecho do discurso em que Luiz Fux, em nome de Joaquim Barbosa, reivindica para o Supremo o papel de instituição sobre as demais instituições:


De lá para cá ocorreram os seguintes episódios:

Supremo Tribunal Federal

O papel de guardiões da moralidade enfrentando o oceano da corrupção, ou de um poder constitucional se sobrepondo aos demais, exige atitude pública impecável da parte dos novos campeões.

No entanto, a superexposição das novas celebridades revelou aspectos demasiadamente humanos para quem se pretendia semideus.

Luiz Fux –sua confissão sobre os métodos utilizados para conquistar a indicação para o STF constituiu-se em um dos episódios mais vexaminosos da história do judiciário brasileiro. Mostrou que não são apenas as eleições que produzem conchavos e personagens pequenos. Sua “esperteza” – não apenas ludibriando seus interlocutores com promessas falsas, mas vangloriando-se em entrevista à Mônica Bérgamo – marcaram indelevelmente o grupo. Para o povão, este STF é Joaquim Barbosa; para a opinião pública especializada, Luiz Fux.

Ayres Britto – a maneira como barganhou o abafamento das denúncias contra o genro, a forma servil com que se entregou aos holofotes da mídia e a má qualidade de seus versos comprovaram que um Ministro do STF pode ser bem mais humano do que um deputado sem formação acadêmica. No STF acabou com o direito de resposta. No CNJ, cometeu o absurdo de colocar entidades privadas, representantes da mídia, em uma comissão com poderes judiciais.

Gilmar Mendes – na CPI do Grampo, protagonizou dois episódios de falsa denúncia: o relatório que saiu do seu gabinete para a Veja, denunciando um grampo no Supremo; e o grampo sem áudio, de sua fala com Demóstenes Torres. No episódio do “mensalão”, outra parceria com a revista, ao escandalizar o episódio do encontro com Lula e, depois, se contradizer. Não se coloca em dúvida seu conhecimento jurídico. Mas pretender que seja um varão de Plutarco vai uma distância que nem a teoria do domínio do fato ousaria transpor. Ficou nítido que usa a visibilidade do Supremo para articulações políticas e midiáticas esdrúxulas.

Por tudo isso, os cinco do Supremo não despertam unanimidade nem entre magistrados.

Procuradoria Geral da República

Coloquei intencionalmente o título de Procuradoria Geral da República para diferenciar bem a organização de seu chefe ocasional. A organização fica; as chefias passam.

Apesar de toda blindagem da mídia, alguns episódios expuseram o jogo político de Roberto Gurgel e colocaram em xeque uma das maiores conquistas do Ministério Público Federal: a possibilidade da lista tríplice e a escolha do mais votado como Procurador Geral.

O primeiro episódio foi o fato insólito de Gurgel e sua esposa controlarem todos os processos envolvendo autoridades com foro privilegiado. Trata-se de situação impensável em qualquer democracia madura. Não houve um órgão interno, nem Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), capaz de coibir essa distorção.

Sem freios e contrapesos, Gurgel segurou o inquérito de Demóstenes Torres – seu adversário no MPF – e de Renan Calheiros, em troca do apoio de ambos à sua recondução. Só desengavetou depois de denunciada sua atuação.

A extrema radicalização do clima político, durante o julgamento do “mensalão”, levou o próprio MPF a aceitar, sem contestar, as explicações de Gurgel para o engavetamento da denúncia contra Demóstenes. Até hoje não se sabe quantos e quais processos ainda estão na gaveta, aguardando a vontade imperial do Procurador Geral.

Sem a blindagem da guerra política, o quadro muda. Tem-se, hoje em dia, uma corporação exemplar, guardiã incansável da cidadania, dotada de alguns dos quadros jurídicos mais preparados da República, mas indefesa em sua governança interna. E a organização terá que se debruçar sobre esse tema.
O grupo de Gurgel provavelmente será alijado do poder na próxima indicação do PGR. A corporação MPF terá um grande desafio pela frente, de restabelecer as formas de autocontrole para preservar a autonomia duramente conquistada depois da fase do chamado “engavetador” geral da república.

Na semana passada, anunciou-se a intenção de fortalecer o colegiado do MPF e do CNJ. Fortalece-se em relação ao outro poder: a chefia. É uma maneira branda de dizer que as chefias terão seu poder discricionário reduzido.

OAB

No auge do “mensalão”, quando se tentou aproveitar o clima de catarse criado para radicalizar a luta política, a OAB nacional esteve na linha de frente. A maioria dos membros da diretoria pronunciou-se politicamente. Quando Gilmar Mendes criou o clima de crise política, do encontro de Lula, Ophir Cavalcante, presidente da OAB, pediu explicações públicas ao ex-presidente.

Ontem, foi eleito o novo presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Marcus Vinicius Furtado Coêlho, por 64 votos a 16. Espera-se que tenha a grandeza de manter a neutralidade da Ordem, não entrando em conspiratas nem aderindo ao governo ou a partidos políticos. E enterrando definitivamente décadas de postura medíocre do órgão.

A partir da nova OAB, será colocada em marcha uma estratégia destinada a aumentar a eficácia institucional do Supremo e, ao mesmo tempo, diluir o poder ameaçador representado pelo pacto do grupo dos cinco: a proposta de aumento do colegiado de 11 para 21 ministros.

Há razões objetivas para tanto. O acúmulo de processos no STF exige mais Ministros para dar conta do trabalho. No plano político, haverá a necessária diluição do poder individual de cada Ministro, em benefício da instituição como um todo.
Sem grandes surpresas na frente econômica e política, encerra-se essa fase de deslumbramento do STF.