terça-feira, 10 de maio de 2016

República das bananas

     Estou sem tempo (e paciência) para escrever o texto que gostaria, mas não posso deixar de destacar a irresponsabilidade, a pusilanimidade, a omissão do STF, que permitiu o completo achincalhe das instituições brasileiras. Mais do que nunca, somos uma república das bananas. E o STF não é o único, mas é um dos principais responsáveis por esta tragédia.

     Quando Cunha retaliou o governo e abriu o processo de impeachment, ali, o STF deveria ter acordado e agido condignamente, deveria ter barrado um processo obviamente sujo, uma vingança de um delinquente que só foi eleito justamente para impor uma terrível pauta conservadora, fazer negócios escabrosos e, especialmente, aplicar o golpe. Mas o STF estava muito preocupado com suas próprias férias, não dava para avaliar um processo tão urgente. E depois, vemos um ministro, no processo mais importante da república, demorar (intencionalmente) seis meses para atender uma liminar. É demais.

     Quem poderá dizer, qual louco poderá defender este processo atrapalhado, estulto, sujo, conspurcado, que esta ocorrendo no congresso? Quem poderá dizer que estamos praticando a democracia? Quem poderá dizer que as instituições estão funcionando? Respondo: só os fascistas, os ingênuos, os imbecis e os corruptos de sempre. O Brasil esta na lona.

     Ontem tudo foi tão deplorável, tão ridículo, tão patético, que, como poucas vezes na minha vida, me senti envergonhado de ser brasileiro. E o STF lá, com seus salários suntuosos, suas mordomias que não acabam nunca, fazendo cara de paisagem, deixando o país pegar fogo nas mãos desses irresponsáveis. A covardia tem um preço, STF. Se querem um exemplo cristalino, basta olhar para o governo que se liquefaz agora. De tanta covardia, de tantas concessões espúrias, de tantos recuos e recuos, acabou como acabou: eleito com uma plataforma, um discurso de esquerda, adotando uma política de direita, com os previsíveis resultados econômicos e políticos. 

     Mas não precisamos descansar. O dia de ontem é o resumo do que se inicia. Devido a este golpe (não basta ser golpe, também tem que ser um golpe patético) nos enxovalhamos perante nós mesmos e o mundo inteiro mais uma vez, e cenas ridículas como esta serão a nossa nova realidade diária.

     Obrigado STF, pela covardia. Somos uma república das bananas. Mas ela só é possível tendo uma corte das bananas.

P.S.: Por óbvio, na minha crítica incluo quem nomeou estes ministros para a corte.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A noite chegando - Fotografia (O mundo e sua belas imagens)

O fracasso espetacular da Globo em tentar demonstrar que o golpe não é golpe – por Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

O pior telejornal do mundo

     É uma atitude típica de golpistas. Não há registro na história da humanidade de autores de um golpe que tenham admitido que estavam dando um golpe.

     A Globo, experiente nisso, em 1964 afirmou que a derrubada de João Goulart era uma “revolução”, uma vitória da “democracia” e mentiras do gênero.

     Durante muitos anos, depois da derrubada de Goulart, a palavra “revolução” foi adotada irrestritamente por toda a imprensa que tanto sabotara e desestabilizara a democracia.

     Hoje, ninguém mais – nem a própria Globo – ousa falar em “revolução”.

     Só que 2016 não é 1964. Naqueles dias, não existia o contraponto digital.

     Agora, não. Os sites verdadeiramente independentes – aqueles não controlados pela plutocracia – venceram o duelo de narrativas. Fora das empresas dos Marinhos, Civitas, Frias etc, o golpe é tratado como deve ser: como golpe.

     Não que os sites independentes sejam fabulosos, extraordinários, superpoderosos. Não, não são.

     É que eles estão falando a verdade, e a imprensa mente descaradamente para fingir que o estupro da democracia é um sexo consensual.

     Foram anos para a revolução desaparecer do dicionário nacional. Durante muito tempo, 31 de Março, o dia do golpe, era objeto de espetaculosas comemorações pelos golpistas. Desfiles militares multiplicavam-se pelo país.

     Já faz tempo que ninguém dá a menor atenção ao dia 31 de Março. Sumiu da vida dos brasileiros. Porque era um golpe, e nada além disso.

     Até hoje, mais de dois séculos passados, o 14 de Julho é comemorado intensamente pelos franceses. É o aniversário da Revolução de 1789.

     Aquilo foi uma revolução real. Não fosse, teria tido o mesmo destino da quartela de 64 saudada pela Globo como revolução.

     O golpe de 2016 nem se concretizou – e torçamos para que não se concretize – e já é universalmente conhecido como um golpe.

     Escrevi universalmente no sentido literal. No resto do mundo, em que a Globo é impotente como um eunuco, também a definição de golpe já se consagrou.

     Tem sido tragicômico o esforço inútil dos caciques da imprensa e seus índios em desmentir jornais e revistas do exterior.

     Se havia alguma chance de vender ao mundo a ideia de que não é golpe, o espetáculo horripilante da votação de domingo na Câmara liquidou o assunto.

     Os correspondentes estrangeiros não são idiotas. Eles viram o que se passava: bufões corruptos justificando com asneiras inimagináveis seu voto para derrubar uma mulher honesta, sob o comando do rei do crime Eduardo Cunha.

     Não poderia haver melhor retrato do golpe, e nem propaganda mais devastadora contra os golpistas.

     Uma mulher que desde antes de assumir o segundo mandato foi impedida de governar pela oposição e pela mídia está sendo acusada de imobilismo, num triunfo do cinismo. Eu prendo você e acuso você de não se mexer. É mais ou menos o que aconteceu com Dilma perante os plutocratas golpistas.

     Ao contrário de 1964, os golpistas já em 2016 são forçados a conviver com a qualificação que lhes cabe, golpistas. E não há nada que a imprensa pode fazer.

     Não adianta a Globo destacar em seus veículos, como hoje, que “juízes do STF” dizem que não é golpe. Você vai ler e descobre que se trata do decano do reacionarismo Celso de Mello e do velho militante político de direita Gilmar Mendes.

     Golpe é golpe, e a Globo não vai mudar isso. É algo infinitamente maior que ela.

     Há uma maravilhosa justiça poética em ver, de imediato, golpistas serem reconhecidos no Brasil e fora como o que são: golpistas. Ou, para usar a palavra dura e justa empregada por Jean Wyllys em seu histórico voto na Câmara, “canalhas”.

sábado, 16 de abril de 2016

Quem é Al Haymon? - por Rory Kurtz (Ilustração - Site homônimo)

O governo Temer não existirá - por Vladimir Safatle (Folha)

     A partir de segunda-feira (18), o Brasil não terá mais governo. Na democracia, o que diferencia um governo do mero exercício da força é o respeito a uma espécie de pacto tácito no qual setores antagônicos da população aceitam encaminhar seus antagonismos e dissensos para uma esfera política. Esta esfera política compromete todos, entre outras coisas, a aceitar o fato mínimo de que governos eleitos em eleições livres não serão derrubados por nada parecido a golpes de Estado.

     É claro que há vários que dirão que o impeachment atual não é golpe, já que é saída constitucional. Nada mais previsível que golpe não ser chamado de golpe em um país no qual ditadura não é chamada de ditadura e violência não é chamada de violência. No entanto, um impeachment sem crime, até segunda ordem, não está na Constituição. Um impeachment no qual o “crime” imputado à presidenta é uma prática corrente de manobra fiscal feita por todos os governantes sem maiores consequências, sejam presidentes ou governadores, é golpe. Um impeachment cujo processo é comandado por um réu que toda a população entende ser um “delinquente” (como disse o procurador-geral da República) lutando para sobreviver à sua própria cassação é golpe. Um impeachment tramado por um vice-presidente que cometeu as mesmas práticas que levaram ao afastamento da presidenta não é apenas golpe, mas golpe tosco e primário.

     Temer agora quer se apresentar como líder de um governo de “salvação nacional”. Ele deveria começar por responder quem irá salvar o povo brasileiro dos seus “salvadores”. Seu partido, uma verdadeira associação de oligarquias locais corruptas, é o maior responsável pela miséria política da Nova República, envolvendo-se até o pescoço nos piores casos de corrupção destes últimos anos, obrigando o país a paralisar todo avanço institucional que pudesse representar riscos aos seus interesses locais. Partido formado por “salvadores” do porte de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney, Sérgio Cabral e, principalmente, o próprio Temer. Pois nunca na história da República brasileira houve um vice-presidente que conspirasse de maneira tão aberta e cínica para derrubar o próprio presidente que o elegeu. Em qualquer país do mundo, um político que tivesse “vazado” o discurso no qual evidencia seu papel de chefe de conspiração seria execrado publicamente como uma figura acostumada à lógica das sombras. No Brasil de canais de televisão de longo histórico golpista, ele é elevado à condição de grande enxadrista do poder.

     Mas não havia outra chance para tal associação de oligarcas conspiradores. Afinal, eles sabem muito bem que nunca chegariam ao poder pela via das eleições. Esta Folha publicou pesquisas no último domingo que demonstravam como, se a eleição fosse hoje, Lula, apesar de tudo o que ocorreu nos últimos meses, estaria à frente em vários cenários, Marina em outros. O eixo central da oposição golpista, a saber, o PSDB, não estaria sequer no segundo turno. Temer, que deveria também ser objeto de impeachment para 58% da população, oscilaria entre fantásticos 1% e 2%. Estes senhores, que serão encaminhados ao poder a partir de segunda-feira, têm medo de eleições pois perderam todas desde o início do século. Há de se perguntar, caso fiquem no poder, o que farão quando perceberem que poderão perder também as eleições de 2018.

     Os que querem comandar o país a partir de segunda-feira aproveitam-se do fato de o país estar em uma divisão sem volta. Eles governarão jogando uma parte da população contra a outra para que todos esqueçamos que, na verdade, são eles a própria casta política corrompida contra a qual todos lutamos. Diante da crise de um governo Dilma moribundo, outras saídas, como eleições gerais, eram possíveis. Elas poderiam reconstituir um pacto mínimo de encaminhamento de antagonismos. Mas apelar ao poder instituinte não passa pela cabeça de quem sempre sonhou em alcançar o poder por usurpação.

     Diante da nova realidade que se anuncia, só resta insistir que simplesmente não há mais pacto no interior da sociedade brasileira e que nada nos obriga à submissão a um governo ilegítimo. Nosso caminho é a insubmissão a este falso governo, até que ele caia. Este governo deve cair e todos os que realmente se indignam com a corrupção e o desmando devem lutar sem trégua, a partir de segunda-feira, para que o governo caia e para que o poder volte às mãos da população brasileira. Àqueles que estranham que um professor de universidade pública pregue a insubmissão, que fiquem com as palavras de Condorcet: “A verdadeira educação faz cidadãos indóceis e difíceis de governar”. Chega de farsa.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Homem-Aranha - por Ricardo Moraes (DeviantArt)

Os patos vão para o paraíso - por Laura Carvalho (Folha de São Paulo)

     Foi necessária a fuga de informações sobre centenas de milhares de operações oriundas da firma de advogados Mossack Fonseca, sediada no Panamá, para que o mundo tomasse conhecimento dos meandros e personagens de um amplo sistema "offshore" desenhado, sobretudo, para legalizar a sonegação de impostos e a lavagem de dinheiro.

     As informações preliminares sugerem que entre os usuários do sistema estão a oligarquia russa; autocratas sauditas; o presidente da Argentina, Mauricio Macri; o jogador Lionel Messi; ao menos 29 multimilionários listados na revista "Forbes"; o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o filho de Paulo Skaf, presidente da Fiesp – a entidade que lançou a agora célebre campanha "Não vou pagar o pato".

     No paraíso cartorial dos patos, convivem sonegadores, bancos que querem escapar da regulação, corruptores, corruptos, traficantes e até mesmo terroristas. É da necessidade de fuga – da lei, dos impostos ou da regulação – que se alimenta essa rede complexa, que não começa nem termina no Panamá.

     Algo une todos os clientes: o mundo das "offshore" parece só ser acessível aos mais ricos. Como escreveu a deputada portuguesa Mariana Mortágua, "para os demais, os que trabalham e ganham o salário mínimo, ou o médio, fica o peso de uma administração tributária implacável e a responsabilidade de, com os seus impostos, financiar os Estados".

     No Brasil, segundo a organização de pesquisa e consultoria Global Financial Integrity (GFI), a saída ilícita de capitais chegou a US$ 226,6 bilhões em dez anos (2004-2013), o que nos torna o sexto país em desenvolvimento a mais sofrer com a saída de recursos. Na Operação Zelotes, que trata de sonegação e corrupção – tudo junto e misturado – em território nacional, a Polícia Federal investiga desvios da ordem de R$ 20 bilhões.

     Os tais patos, indignados com o olho grande do Estado sobre sua renda e/ou patrimônio, querem o melhor dos mundos, no qual a Mossack Fonseca vende lotes na terra prometida. Buscam ao mesmo tempo uma qualidade de vida escandinava e uma capacidade de fiscalização e arrecadação da Somália. Não parecem enxergar nenhuma incompatibilidade entre a conquista de tal qualidade de vida, que só existe de verdade ao final de uma travessia de alto crescimento e forte redução das desigualdades e, por exemplo, o tipo de ajuste fiscal que demandam do Estado brasileiro.

     Concentram suas forças em pressionar o governo por amplas desonerações fiscais e impedir a volta da cobrança de Imposto de Renda da Pessoa Física sobre lucros distribuídos, a elevação dos impostos sobre grandes heranças ou a criação de um imposto sobre grandes fortunas.

     Enquanto isso, trabalhadores e pequenos empresários sofrem com a carga tributária pesada e demasiado complexa sobre o consumo e a produção. Alguns desses, sem perceber que são os únicos patos dessa história, parecem sentir-se representados pela campanha da Fiesp. Se mais bem informados e conscientes de que direitos sociais, sonegação e corrupção não cabem no mesmo orçamento, certamente trocariam de alvo e substituiriam os gritos de "Vai pra Cuba!" pelos de "Vai pro Panamá!".

quinta-feira, 7 de abril de 2016

quarta-feira, 30 de março de 2016

Jate - por Daria Ridel (Arte digital - Coolvibe)

Bob Fernandes: Crise - Gilmar Mendes e o PMDB já escolheram um lugar na História (TV Gazeta)

     Depois de 31 anos e 14 dias, desde a posse de Sarney, o PMDB anunciou que deixará o governo.
     Deixa se todos deixarem, enquanto trama voltar com Temer em algumas semanas.
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     E Gilmar Mendes é um símbolo. Em Lisboa organizou Seminário que acaba amanhã, 31 de Março; aniversário de 52 anos do golpe de 64. 
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     Para debater "A Constituição e a Crise", o ministro do Supremo Tribunal convidou a Lisboa o núcleo de... um governo paralelo. 
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     Entre convidados, Serra e Aécio, do PSDB. Temer, que como os tucanos quer o lugar de Dilma, desistiu de ir. Mas mandou mensagem de vídeo. 
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     Em Lisboa, Gilmar Mendes afirmou: uma "cleptocracia" governa "há 14 ou 15 anos". Isso mesmo, só "14 ou 15 anos".
     Clepto, como sabemos, quer dizer "roubo".
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     Há 23 anos o mesmo Gilmar Mendes defendeu Collor no impeachment. 
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     No mesmo governo Collor, Gilmar foi Adjunto na Subsecretaria e Consultor Jurídico da Secretaria Geral,
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     Desde 95 Gilmar trabalhou no governo Fernando Henrique, que o tornou Advogado Geral da União. E o fez ministro do Supremo.
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     Ano passado, para discutir impeachment, o ministro do Supremo foi à casa de Eduardo Cunha, depois réu no Supremo. 
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     Junto estava Paulinho da Força, também tornado réu no Supremo.
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     Milhões de brasileiros têm o governo Dilma como incompetente e medíocre, com variados casos de corrupção. 
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     Muitos apostam que sua última campanha terminará tendo provas de contaminação por dinheiro de origem ilegal.
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     Mas não há acusação formal, a sério, por ter Dilma cometido crime, por ser corrupta. Ao contrário de tantos que no Congresso irão julgá-la.
     Parceiros vários de Gilmar Mendes na caminhada política, atuais e passados, têm o presente e o passado e que têm. 
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     Algum deles, e talvez em breve, o ministro terá que julgar no Supremo. Mas nada disso parece perturbar Gilmar Mendes. 
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     Gilmar Mendes é desassombrado. Ele é ministro, mas faz Política para muito além da natural em um Supremo Tribunal. 
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     Gilmar Mendes já escolheu, e já tem seu lugar na História.



Fotografia - por Marlies Plank (cargocollective)

Eliane Brum: "Só tem credibilidade quem investiga, checa e se importa com a precisão" - por Rodrigo Lopes (Zero Hora)

A jornalista é a primeira convidada de 2016 do evento Em Pauta ZH – Debates sobre Jornalismo, que ocorre na próxima quarta-feira

Foto: Lilo Clareto / Divulgação Leya
     "Sou uma escutadeira que escreve. Repórter desde 1988, documentarista desde 2005, ficcionista desde 2011." Assim, em eterna mutação, quase sempre em transição, Eliane Brum se define, em seu site desacontecimentos.com

     Uma das mais premiadas jornalistas do país, natural de Ijuí, ela trabalhou 11 anos como repórter de ZH e 10 na revista Época. Desde 2010, atua como freelancer. Tem se dedicado muito à internet, com textos para os jornais El País e The Guardian sobre temas polêmicos. 

     Para debater sobre o futuro – e o presente – do jornalismo, Eliane, 49 anos, é a primeira convidada de 2016 do evento Em Pauta ZH – Debates sobre Jornalismo. O encontro será na próxima quarta-feira, às 19h30min, para convidados. 

     Nesta semana, a jornalista concedeu a seguinte entrevista por e-mail.

A crise política e econômica do país coincide com a preocupação sobre como financiar e manter o jornalismo. Veículos tradicionais estão em xeque, e a imprensa alternativa ganha a confiança momentânea das pessoas, mas não mantém atenção a longo prazo. Como você analisa o jornalismo atual e o futuro? 
O jornalismo vive uma crise do modelo de negócios há vários anos, desde que a internet mudou o mundo e também a forma como as pessoas têm acesso, produzem e se relacionam com a informação. Nas manifestações de junho de 2013, ficou claro que, no Brasil, essa crise da imprensa era também uma crise de credibilidade. Parte da população, em especial os mais jovens, não se sentia representada pelos políticos e partidos tradicionais, mas também não se sentia representada pela mídia tradicional. Iniciativas como Mídia Ninja foram decisivas para que a população tivesse acesso a outras narrativas sobre os protestos, feitas a partir das ruas, já que, em certos momentos, parte dos jornalistas da imprensa tradicional só conseguiu cobrir as manifestações de helicóptero ou do alto dos prédios. A crise política é um momento crucial para o Brasil – e também para a imprensa. Essa dupla crise vivida pela imprensa, a do modelo de negócios e a da credibilidade, ganhou contornos mais visíveis neste momento histórico. A imprensa tem um papel fundamental numa democracia. E a imprensa brasileira, em especial o impresso, que sempre foi relacionado a uma narrativa de maior profundidade, está muito frágil. As redações estão muito menores, com suas equipes reduzidas. As demissões, em geral, atingiram os jornalistas mais experientes, que seriam imprescindíveis neste momento, porque entendem sua responsabilidade, assim como as armadilhas que precisam evitar cair num momento tão delicado, com tantas pressões e cascas de banana pelo caminho. São também estes que seriam mais capazes de fazer a resistência internamente, já que toda redação é um campo de conflitos. Essas ausências e essa fragilidade se fazem sentir claramente neste momento em que o tempo no Brasil está acelerado. Dias atrás, escrevi um artigo para o jornal britânico The Guardian e explicava que, no Brasil, uma pessoa assistia à posse do Lula como ministro, ia ao banheiro e, ao voltar, a nomeação já tinha sido cassada por um juiz de primeira instância. Como fazer bom jornalismo diante desta velocidade? Cabe à imprensa contextualizar, com responsabilidade e sem histeria, o que está acontecendo. Cabe, especialmente, fazer reportagem, seu grande diferencial como narradora da história em movimento. Há pouca reportagem de fato na cobertura da crise e da Operação Lava-Jato. Há mais o que autores como o jornalista Solano Nascimento chamam de "jornalismo sobre investigações", muito diferente de "jornalismo de investigação". A imprensa se baseia no que é vazado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pelo juiz Sergio Moro. E não em suas próprias investigações, com raras e honrosas exceções. Esse lugar de mera reprodutora do que convém para investigadores vazar ou divulgar, às vezes sem checagem ou crítica, é perigoso: a imprensa fica vulnerável a manipulações. E o leitor corre risco de ser mal informado, com graves consequências para a sociedade. Ao mesmo tempo, com os sites dos jornais precisando ser abastecidos, há muita pressa. E é difícil fazer bom jornalismo com pressa. Assim, também podemos testemunhar alguns jornais e noticiários de TV "comprando", ou mesmo aderindo a versões, e apresentando-as como verdade. E, pior do que isso, apresentando-as como a verdade inteira. Acho que setores da imprensa brasileira terão que dar muitas explicações para a História sobre o seu papel na atual crise. Ou a imprensa se mostra à altura do momento ou será cobrada por isso no futuro. Junta-se a isso uma crise de credibilidade que só cresce entre parcelas da população e temos um momento muito delicado para o jornalismo. A crise política atual mostra também o quanto é frágil uma democracia sem uma imprensa forte e responsável, consciente do seu papel histórico de documentar a sua época com honestidade. 

Como conciliar a produção frenética de informações em tempo real com a necessidade de imersão em reportagens de qualidade? 
Para te responder, preciso contextualizar um pouco. Durante o século 20, a imprensa foi a narradora hegemônica do seu tempo. A partir da internet, a imprensa deixou de ter essa posição confortável. A imprensa, desde especialmente a segunda década deste século 21, só será uma narradora importante sobre o seu tempo, sobre o que chamo de história em movimento, se souber valorizar a reportagem, o grande diferencial do jornalismo sobre outras narrativas. Ainda se faz grande reportagem no Brasil. Muito menos do que seria necessário, mas ainda existe. Tanto na imprensa que agora é chamada de "tradicional" como na "alternativa". O que me parece que sofreu mais com a crise do modelo de negócios é a cobertura cotidiana. Esta é a tragédia maior da imprensa, e, portanto, da sociedade. A cobertura cotidiana é cada vez mais precária, rasa e fragmentada. Vivemos um momento histórico difícil, duro, mas também fascinante. Mas os Brasis, porque não existe um Brasil só, não estão sendo contados cotidianamente pela imprensa. Há enormes porções descobertas, narrativas que nunca serão escritas, capítulos inteiros perdidos. Acho isso doloroso. Uma catástrofe literalmente silenciosa. Para ficar mais claro, podemos pensar num exemplo. Nenhum veículo cobriu cotidianamente a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, a maior obra do setor elétrico do país. Mais de R$ 30 bilhões em jogo, a maior parte deles vinda do BNDES, e nenhum veículo, grande ou pequeno, cobriu cotidianamente a construção, com suas vastas implicações e violações de direitos. Na ditadura militar, com toda a censura que existia, se cobria melhor a Amazônia do que hoje, na democracia. A hidrelétrica de Tucuruí teve cobertura cotidiana. Belo Monte, não. Houve algumas grandes reportagens, mas não houve cotidiano. E essa ausência da imprensa teve consequências gravíssimas que só agora começam a se tornar mais claras. No que se refere à questão da velocidade, é importante dizer que não cabe à imprensa ocupar o lugar das redes sociais. Cada vez que uma matéria se parece mais com um post no Facebook, o jornalismo despenca mais um degrau rumo à irrelevância. Se não há reportagem, para que imprensa? Meu vizinho faz ótimos posts no Facebook, mas o que ele faz não é jornalismo. O problema é parte da imprensa fazer posts como o meu vizinho e apresentar isso como reportagem. Acho que é um grande erro sacrificar pilares do jornalismo como a investigação, a precisão e a checagem rigorosa para ganhar alguns minutos de vantagem. Que vitória é essa se o que fica é justamente mais e mais irrelevância, que vai custar a história? Como leitora, não leio o mais rápido, eu leio o que tem credibilidade. E só tem credibilidade aquele que sabemos que investiga, checa e se importa com a precisão. Isso vale para a matéria cotidiana, vale para a grande reportagem. Se não se obedece aos critérios do que é jornalismo, é simples: não é jornalismo. Então, não me parece que seja questão apenas da aceleração do tempo, trazida pela internet. O problema é bem maior. É triste que alguns veículos tradicionais estejam enterrando a sua história para competir com posts de redes sociais. A única competição que vale a pena para o jornalismo é a que se dá em torno da qualidade, da profundidade e da credibilidade do conteúdo.

Como financiar o jornalismo sem comprometer algo crucial para a credibilidade da reportagem: a independência e a transparência? 
Esta é uma resposta que ainda precisa ser construída. O bom jornalismo custa caro. Reportagem custa caro. É preciso, às vezes, ficar semanas num arquivo, sem nenhum glamour, engolindo pó, para encontrar uma primeira pista para uma investigação. E, às vezes, essas semanas não dão em nada. Assim como é preciso pagar gente experiente que seja capaz de entender para onde olhar, assim como entender o que vê. Repórteres mais velhos, que possam formar a geração seguinte. Essa geração, a que formava a geração seguinte, foi deletada das redações porque custava mais caro. É preciso trazê-la de volta. Há no Brasil vários modelos convivendo, mas ainda não encontramos um modelo que garanta a independência e a total transparência. A maior parte das novas iniciativas tem modelos colaborativos e não lucrativos, como por exemplo A Pública e a Repórter Brasil, agências de reportagem que têm feito um trabalho competente. Nestes casos, as grandes reportagens são financiadas por fundações internacionais. Há também experiências pontuais com crowdfunding (financiamento coletivo via doações do público na internet). Mas esses modelos também têm limites. Acho que a melhor maneira, a mais transparente, a que realmente garantiria independência, seria o financiamento pelo público. Seria preciso formar um leitor que considere importante ter uma imprensa competente e que se disponha a pagar por informação de qualidade e de profundidade. Faço parte dos jornalistas que sonham que a reportagem possa ser paga com um clique. Literalmente um clique, não pode ser mais complicado do que isso. E que esse clique pague o salário do repórter e os custos da próxima reportagem. Por exemplo: uma reportagem ou artigo ou entrevista que tenha 30 mil acessos, o que é totalmente viável, a R$ 1 por acesso. Mas isso ainda precisa ser construído junto com a sociedade, com este novo leitor. O que posso afirmar é que, nesta construção, é preciso resgatar algo fundamental que, em grande parte, se perdeu: a separação Estado-Igreja – ou editorial-comercial. A imprensa precisa ser "laica". O editorial não pode estar contaminado pelo financiamento. Hoje, em grande parte dos casos, está. Já é bem complicado que esteja contaminado. Tudo fica pior ainda porque nem sempre isso é contado ao leitor. Quando o editorial está contaminado pelo financiamento, a reportagem já fica sob suspeição desde o início. Seja qual for a saída, é preciso que ela garanta a separação Estado-Igreja. 

Você publicou seis livros – cinco de não ficção e um romance – e também escreveu crônicas e contos. Como se dá essa transição do jornalismo, que lida com fatos reais, para a ficção? 
Costumo descrever a reportagem como um movimento profundo. E bem difícil de fazer, que cobra um preço alto de quem a ela se arrisca. Como se sabe, a reportagem se faz na rua, com os pés enfiados na lama dos acontecimentos. Antes de ir para a rua concreta, porém, é preciso atravessar a rua de si mesmo. É preciso fazer esse movimento profundo que consiste em se desabitar de si para ser habitado pelo mundo do outro – ou pelo mundo que é o outro. Desabitar-se de si no sentido de se despir das suas visões de mundo, de seus preconceitos, de seus julgamentos, de uma determinada forma de ser e de estar no mundo, para se deixar habitar por uma outra experiência. E, depois, empreender o caminho de volta, o que não é nada fácil. Se um repórter não faz este movimento, em vez de escrever sobre um outro escreverá apenas sobre si mesmo. É claro que esse movimento jamais é completo, mas é o que nos leva mais perto da complexidade dessa outra experiência, das tantas verdades, porque nunca há uma só verdade, e também das tantas contradições e nuances. Se um repórter não atravessa a rua de si mesmo, pode ir até o outro lado do mundo e passar um ano lá, que vai voltar escrevendo sobre o que já sabia antes de partir, porque de fato não partiu nem retornou, mas sim permaneceu simbolicamente no mesmo lugar. Já o movimento da ficção é semelhante, mas com o sentido inverso. Na ficção é preciso ter a ousadia de se deixar possuir pelos outros que vivem nas nossas profundezas abissais. Ou, dito de outro modo, se deixar possuir pelos outros de si. Costumo dizer que a ficção é feita no mesmo lugar em que vivem aqueles peixes cegos, fantasmagóricos, que a gente vê nos documentários da National Geographic. Gosto muito de ficção de terror e também de ficção científica. Escrevendo meu romance descobri duas coisas: a primeira é que não há nada mais aterrorizante do que ser possuído por si mesmo. A segunda é que há realidades que só a ficção suporta. Ou há realidades que precisam ser inventadas para serem contadas. 

O que dá mais satisfação: reportagem ou ficção? 
A reportagem. Não me importo com a felicidade. A felicidade, para mim, diz respeito ao mundo do consumo. Me interesso pela alegria, essa experiência complexa, rara, que diz respeito também à resistência. É quando faço reportagem que tenho alegria. Mesmo quando o que experimento e testemunho é devastador, sinto que estou onde deveria estar. Escutar as pessoas, coisa que um repórter faz com todos os sentidos, me dá profunda alegria. É na rua que eu me sinto em casa. 

Em um de seus textos mais recentes, você escreveu que considera a polarização "mais uma falsificação entre tantas neste momento conturbado do país". Por outro lado, assistimos a discussões inflamadas, com pessoas destilando ódio. Como as vozes mais ponderadas podem ser ouvidas em meio a posições tão extremadas? 
Como ser ouvido, não sei. Mas acredito que é preciso seguir dizendo. E é preciso seguir dizendo sem gritar. Quem grita não ouve nem quer ouvir. Gritar como forma de se mover no mundo é um ato extremamente autoritário, porque silencia a voz do outro. E, silenciando a voz do outro, mata-se o outro simbolicamente. O espaço público precisa voltar a ser o espaço da alteridade. Precisamos conviver com os diferentes e com as diferenças. Precisamos voltar a nos interessar por ouvir. Precisamos voltar a conversar. Nesse texto que você cita, escrevo que, diante da brutal descrença nos políticos e nos partidos, podemos perceber algo paradoxal: uma vontade feroz de crença. Isso é bem perigoso. Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus. Precisamos nos mover na política pela razão, não pela fé. Mover-se pela razão implica escutar e duvidar, do que nos é dado rapidamente a ver e também de nossas certezas. Implica responsabilizar-se pelas próprias escolhas. No caso da imprensa, é preciso voltar a perguntar, voltar a fazer muitas perguntas, e resistir à tentação das conclusões rápidas demais, peremptórias demais. A adesão pela fé, na esfera da política, só nos traz messianismos, tenha o messias a cara que tiver. É mais fácil cultuar um messias, seja ele quem for. Mas somos nós que precisamos achar um jeito de construir um país, o que dá muito mais trabalho. E não vamos conseguir fazer isso gritando. Nem nos colocando como a encarnação do bem – e os que pensam diferente como a encarnação do mal. Precisamos refletir mais sobre um traço da cultura brasileira, um traço que atravessa a nossa história. Somos um país de linchadores. Em vez de justiça, vingança. É fundamental que, neste momento histórico tão delicado, lutemos por justiça e repudiemos a vingança. Do contrário, nada de realmente profundo mudará no Brasil. 

Os movimentos feministas têm alcançado maior visibilidade, com campanhas como #meuprimeiroassedio e "Vai ter shortinho sim!". Mas também crescem as reações conservadoras: o Congresso aprovou projeto que impõe mais restrições ao aborto. Como avalia esse cenário? 
Temos vivido tempos extremamente duros. A política que me anima é esta, a de campanhas como #meuprimeiroassedio, assim como movimentos dos estudantes das escolas públicas de São Paulo. Porque isso também é política, é gente fazendo política e ocupando o espaço público politicamente. São um alento, uma prova de que algo se move em meio a esta aparente paralisia. Ao mesmo tempo, temos o Congresso mais conservador desde a redemocratização. E também um Congresso extremamente corrupto. Para este Congresso, em especial para a chamada Bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), o corpo das mulheres é moeda de chantagem. Milhares de brasileiras, a maioria delas jovens e negras, morrem todos os anos por abortos malfeitos e clandestinos, porque não há interesse em discutir seriamente a descriminalização. Não há interesse porque é preciso manter o aborto como moeda eleitoral e de barganhas. Na prática, como qualquer um que não seja hipócrita sabe, o aborto é liberado no Brasil para quem pode pagar. Só é crime para as mais pobres. E também por isso, porque "só" mata as mais pobres, a maioria delas negras, é possível manter o aborto como moeda de chantagem. Insisto nisso, porque o aborto é também uma questão de classe e de raça no Brasil. Diz respeito à desigualdade e ao racismo, duas de nossas fraturas maiores. Por isso, precisamos ser muito gratos a essas mulheres mais jovens que estão levando a luta pela autonomia sobre os seus corpos, sobre suas vidas adiante. Elas devolvem a beleza da política que está sendo reduzida e enxovalhada neste Congresso que chantageia com a vida das mulheres. 

PARA LER

Primeiro dos seis livros de Eliane, O Avesso da Lenda, refez, 70 anos depois, os 25 mil quilômetros da Coluna Prestes: "Considero minha reportagem fundadora. Foi quando descobri não o Brasil, mas os Brasis". No seguinte, reuniu textos da série A Vida que Ninguém Vê: "É nela que consigo me definir e me assumir como uma repórter de desacontecimentos". O Olho da Rua mostra bastidores de suas reportagens, e Uma Duas, seu romance, é uma trama de ódio e afeto entre mãe e filha. A Menina Quebrada traz crônicas e artigos, e meus desacontecimentos revisita suas memórias de infância. Sua reportagem mais premiada é O Povo do Meio, fundamental para a criação da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, no Pará: "Fui a primeira jornalista a chegar até lá num momento em que eles estavam ameaçados de morte pelos grileiros e não eram reconhecidos pelo país oficial".  


PARA VER

Eliane é codiretora e corroteirista de dois documentários. Uma História Severina (2005) acompanha a luta de Severina, uma pernambucana pobre e analfabeta, para interromper a gestação de seu bebê anencéfalo. Gretchen Filme Estrada (2010) narra a última turnê e a primeira campanha política da rainha do rebolado, que, em 2008, candidatou-se à prefeita da Ilha de Itamaracá (PE) pela coligação PPS-PV.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Caminhos através da névoa - por Cole Rise (Fotografia - carbonmade)

O capitalismo do 1% - por Guilherme Boulos (Outras Palavras)


     Em apenas cinco anos, a metade mais pobre da humanidade perdeu 38% de sua riqueza. Os lucros dos bancos não param de crescer. É a isso que chamam de “austeridade” — ou “ajuste fiscal”…

     Uma economia para o 1%. Com esse título, a organização não governamental britânica Oxfam lançou no mês passado um estudo sobre as desigualdades no mundo. Pela primeira vez na história o 1% mais rico superou em renda e patrimônio os 99% restantes. Os dados basearam-se no Relatório anual de 2015 do banco Credit Suisse.

     O estudo mostra que a metade mais pobre da humanidade (3,6 bilhões de pessoas) viu sua riqueza cair 38% nos últimos cinco anos, perda de US$1 trilhão. E se apropriou de apenas 1% do aumento da riqueza global desde 2000. Enquanto isso, o 1% mais rico abocanhou a maior parte deste incremento.

     A riqueza da metade mais pobre equivalia em 2010 à dos 388 homens mais ricos do mundo. Nos últimos anos, essa indecência só se agravou: as 3,6 bilhões de pessoas mais pobres agora têm o mesmo que 62 membros do Clube dos bilionários.

     Os resultados são alarmantes. Mostram que, desde o estouro da crise em 2008, a desigualdade tem aumentado incrivelmente. Enquanto as políticas de “austeridade” achatam a renda dos trabalhadores e atacam os sistemas de seguridade social, o lucro dos bancos bate recordes, assim como os ganhos de altos executivos.

     Quem viu o lucro do Bradesco avançar 14% no ano passado, em plena recessão, não deveria estranhar os resultados apresentados pela Oxfam. No entanto, o relatório foi seguido de ruidosa chiadeira. Os defensores da ordem foram a campo tentando desqualificar os dados do Credit Suisse por sua metodologia. Alegaram, principalmente, que o uso do conceito de riqueza líquida (renda e patrimônio, com subtração das dívidas) distorcia os resultados.

     Vale pontuar que, semanas atrás, quando o mesmo Credit Suisse fez um duro prognóstico da recessão brasileira apontando-a como a pior da história, não vimos nenhum articulista da direita nacional fazer suas ponderações “metodológicas”.

     De toda forma, a própria Oxfam se encarregou de responder o questionamento sobre a riqueza líquida, afirmando que “os 50% mais pobres são, na maioria, pessoas lutando para sobreviver com pouca ou nenhuma riqueza para apoiá-los. Apesar desse número incluir aqueles em dívida – riqueza negativa, mas com algum patrimônio – é importante notar que esses são a exceção e não a regra”.

     Além disso, foi alegado que, se excluídas as dívidas do cálculo, haveria uma mudança na distribuição da riqueza global e os números não seriam tão chocantes. Isso não é verdade, diz a Oxfam, “já que excluindo a dívida dos 10% mais pobres, a fatia da riqueza do 1% mais rico se modifica pouco, passando de 50,1% para 49,8%”. Ou seja, as desigualdades mundiais não se resolveriam com alteração metodológica.

     Há quem prefira atacar os dados a deparar-se com a realidade. Compreensível. Afinal não deve ser fácil para os amantes da ordem reconhecer que seu sistema meritocrático da “oportunidade para todos” desandou numa plutocracia onde 1% tem mais que todos os 99% restantes.

     O capitalismo fracassou em suas promessas. O mundo de hoje é muito mais desigual que o do século passado. Nem todos os perfumes da Arábia, nem o cinismo do discurso neoliberal conseguirão maquiar esta realidade.

     Aí esta Bernie Sanders, pré-candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos. Aí esta o “Podemos”, na Europa. E o fortalecimento de diversos movimentos populares mundo afora. Será difícil silenciá-los ante a profundidade do abismo que separa o 1% da maioria trabalhadora.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Príncipe DUÚ - por #rpgbard / Artstation (Arte digital)

O sequestro das palavras - por Gregório Duvivier (Folha)

     Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira. A palavra mudança, por exemplo, nasceu filha da transformação e da troca, e desde pequena servia para descrever o processo de mutação de uma coisa em outra coisa que não deixou de ser, na essência, a mesma coisa –quando a coisa é trocada por outra coisa, não é mudança, é substituição. A palavra justiça, por exemplo, brotou do casamento dos direitos com a igualdade (sim, foi um ménage): servia para tornar igual aquilo que tinha o direito de ser igual mas não estava sendo tratado como tal.

     No entanto as palavras cresceram. E, assim como as pessoas, foram sendo contaminadas pelo mundo à sua volta. As palavras, coitadas, não sabem escolher amizade, não sabem dizer não. A liberdade, por exemplo, é dessas palavras que só dizem sim. Não nasceu de ninguém. Nasceu contra tudo: a prisão, a dependência, o poder, o dinheiro –mas não se espante se você vir a liberdade vendendo absorvente, desodorante, cartão de crédito, empréstimo de banco. A publicidade vive disso: dobrar as melhores palavras sem pagar direito de imagem. Assim, você verá as palavras ecologia e esporte juntarem-se numa só para criar o EcoSport – existe algo menos ecológico ou esportivo que um carro? Pobres palavras. Não tem advogados. Não precisam assinar termos de autorização de imagem. Estão aí, na praça, gratuitas.
     Nem todos aceitam que as palavras sejam sequestradas ao bel prazer do usuário. A política é o campo de guerra onde se disputa a posse das palavras. A "ética", filha do caráter com a moral, transita de um lado para o outro dos conflitos, assim como a Alsácia-Lorena, e não sem guerras sanguinárias. Com um revólver na cabeça, é obrigada a endossar os seres mais amorais e sem caráter. A palavra mudança, que sempre andou com as esquerdas, foi sequestrada pelos setores mais conservadores da sociedade –que fingem querer mudar, quando o que querem é trocar (para que não se mude mais). A Justiça, coitada, foi cooptada por quem atropela direitos e desconhece a igualdade, confundindo-a o tempo todo com seu primo, o justiçamento, filho do preconceito com o ódio.
     Já a palavra impeachment, recém nascida, filha da democracia com a mudança, está escondida num porão: emprestaram suas roupas à palavra golpe, que desfila por aí usando seu nome e seus documentos. Enquanto isso, a palavra jornalismo, coitada, agoniza na UTI. As palavras não lutam sozinhas. É preciso lutar por elas.

sábado, 19 de março de 2016

Emily Ratajakowski - por daiilycelebs (Fotografia - Tumblr)

Sobre o fascismo e sua capitã tupiniquim



     Talvez porque a manifestação não contivesse os manipulados pela rede globo, não contivesse fascistas, homofóbicos, golpistas, fanáticos religiosos, racistas, alienados diversos, títeres pedindo golpe militar, talvez porque não tivesse outdoors espalhados pela cidade (¿bancados por quem, mesmo?), não tivesse cobertura ao vivo o dia inteiro dos meios televisivos, talvez porque ainda tivéssemos enfrentado uma bela chuva (com eventuais raios), talvez porque toda sorte de provocações tenham sido feitas contra o grupo que protestava e tenham sido respondidas com bom humor, ou talvez por causa disto tudo somado, uma dessas brasileiras de bem arremessou da varanda de seu apartamento hoje, do alto de um prédio aqui em Vitória, uma bandeja de vidro sobre os manifestantes.
     Como seu prédio era recuado, por sorte, ela não conseguiu acertar nenhuma pessoa.
     Com certeza a madame que praticou esta tentativa de homicídio vai dormir se achando uma heroína pelo seu grande feito.

     Eu não sei se o fascismo transforma as pessoas em monstros, ou apenas revela esta face que já estava ali, mas em estado latente.


     Daí enquanto caminhávamos, e depois, já parado, fiquei pensando a que nível uma pessoa pode ser manipulada para chegar ao ponto de cometer uma atrocidade dessas.
     Meditando sobre a principal responsável por envenenar a mente das pessoas, a grande líder ideológica deste descalabro, a figura histórica mais emblemática da alienação brasileira, é inescapável chegar a rede globo.
     Quando Lênin, mais de cem anos atrás, disse que “os capitalistas chamam liberdade de imprensa a compra dela pelos ricos, servindo-se da riqueza para fabricar e falsificar a opinião pública”, ele resumia a história do império midiático que a família Marinho viria montar.
     Nestes momentos de conflito político as tomadas de posição se evidenciam, e pra mim é cristalino a correção de minhas atitudes – não bastasse todo o resto – por estar do lado contrário da Globo. É bom ter lado e é essencial saber quem esta do seu lado.
     E fiquei pensando mais algumas coisas sobre minha trajetória política, e pude ver que nunca, em nem um mísero momento da minha vida eu estive do mesmo lado da rede globo. A capitã do fascismo tupiniquim nunca conseguiu me manipular, me manietar, me corromper, me envenenar, me lobotomizar, me alienar. Nunca.
     É o tipo de coisa da qual eu sequer posso ter orgulho – posto que seria apenas uma cruel desonra, seria uma chaga irremediável em minha moral se algum dia tivesse sido diferente.

     Com a mácula de estar politicamente do mesmo lado da rede globo eu não vou pro caixão. Podem escrever em pedra.
     E deixo um aviso aos navegantes: se algum dia eu estiver agindo diferente, que me deem um tiro na cabeça.


P.S.: Pode ser pelas costas.