quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Dançando no velório: as fantasias da mídia econômica - por André Araújo (Jornal GGN)

Uma organização religiosa benemerente organizou em um shopping do Rio de Janeiro um feirão de empregos. Os promotores conseguiram duzentas vagas de empregos simples, atendentes de telemarketing, motoristas etc. e anunciaram que distribuiriam 400 senhas para candidatos a empregos serem entrevistados, tudo ocorreu no ultimo mês de Agosto.
Desde a noite anterior milhares de pessoas dormiram na fila para pegar as senhas, as entrevistas da Globonews mostraram gente em um nível de desespero que não me lembro ter visto antes no Brasil. Alguns pediram dinheiro a vizinhos para pagar passagem de ônibus para tentar ao menos ser entrevistados, os que não conseguiram sequer a oportunidade de uma entrevista estampavam nos rostos e nas falas o desespero final de um futuro terrível.

Essa singular amostragem revelou o grau explosivo do tecido social brasileiro.

Mas a mídia econômica “mainstream” Globonews, Jovem Pan, Band News continua sua alucinada aposta no “fim da recessão” porque no segundo trimestre de 2017 o PIB cresceu 0,2%. É uma completa fuga da realidade. Um crescimento de 0,2% não é notável.

O fim de uma recessão de três anos se registraria após no mínimo de três semestres de escala firme de crescimento, um trimestre não significa nada, a oscilação mesmo dentro de um ciclo é normal, como um cardíaco tem oscilação de pressão no espaço de um dia.

Não é indicativo de recuperação incorporar empregos mal pagos do subemprego informal, tal não alivia o desemprego, aliás estatísticas de desemprego que contam empregos informais impedem a comparação de séries históricas, emprego é algo tecnicamente definido como alguém registrado como empregado, aqui, na Alemanha ou na Índia. Guardador de carros não registrado como empregado no Brasil, na França ou no Canadá não move estatísticas de emprego. Contar biscateiros como empregados é um equívoco e serve para encorpar uma estatística que deveria ser se precisa para ter credibilidade, se qualquer ganho de renda pode ser passível contagem como emprego, deveríamos contar os pedintes e mendigos como empregados porque alguma renda eles auferem no mês, eles estão vivos, recebem de alguma forma ingresso de recursos para se alimentar.

O segundo trimestre de 2017 recebeu um enorme influxo de receitas da super safra agrícola do ano, esse dinheiro recebido nas zonas rurais vaza para toda a economia, produzindo compra de veículos, máquinas, equipamentos de uso e domésticos, material de construção.

Essa massa de recursos entrou nos canais de consumo e por si só justificaria mais de 0,2% de crescimento do PIB, é um efeito sazonal que ainda se espalha para o terceiro trimestre.

Mas a mídia econômica não analisa, não contesta, não disseca ou debate tais eventos.

A mídia econômica brasileira é enviesada, surfa em um processo de manada repetindo e repercutindo bordões cuja central de disseminação são os “mercados’ com seus comentaristas papagaios, na imprensa eletrônica e impressa brasileira NÃO há nenhum espaço para discutir economia, todos atendem a sinais de torcida, o coro segue o maestro.

Outro dia numa das redes o prof. Carlos Langoni, ex-Presidente do Banco Central, deu uma entrevista cor de rosa da situação econômica, parecia que estava descrevendo a Suécia. Um extraordinário descolamento da realidade, um “wishfull thinking” de um mundo róseo para o Brasil de Meirelles e Goldfajn, é um cego descrevendo os Alpes suíços. Aliás, é interessante como ex-presidentes do Banco Central são maus analistas, não tem farol de milha e se perdem nas planilhas com frações decimais, parece que todos têm o mesmo fetiche com meta de inflação. Outro arauto da onda de prosperidade é o ex-Ministro Luis Carlos Mendonça de Barros que em um programa PAINEL do começo do ano disse que a economia iria tão bem em 2017 e 2018 que seria impossível Meirelles não ser o próximo Presidente da República.

Agora o mesmo Mendonça de Barros projeta um crescimento de PIB de 4% para 2018.

Porque não analisam a crucial questão do CRÉDITO? Hoje os 4 maiores bancos têm R$ 714 bilhões (1º semestre de 2017) em crédito à economia produtiva, 20% menos do que em 2015. Mas tem R$ 300 bilhões de EXCESSO DE CAPITAL que daria para suportar mais R$ 2 trilhões de crédito adicional à economia. A questão do CRÉDITO mereceria horas de análise nos programas CONTA CORRENTE e PAINEL da TV e nas análises de jornais. Nas colunas do jornal VALOR há maior análise mas não é mídia de massa, o problema está nos comentaristas de TV, verdadeiros “entertainers” no nível dos programas de culinária.

Mas será que não tem senso crítico, dúvidas, questionamentos, angulações diferentes um de outro? É impressionante como os papagaios da TV não têm dúvidas de espécie alguma, só certezas e visões fechadas, o prof. Afonso Celso Pastore dá aulas terminativas sobre o futuro, Langoni segue nesse linha, Loyola também tem a meta de inflação como totem mas a inflação cada vez mais baixa não será um sinal contrário, como em todo o mundo, de que a economia está fria? Quando há muita demanda, os preços sobem e não caem, isso já se sabia no Séc. XVI antes de se firmar um conhecimento chamado de ciência econômica, já se sabia isso por intuição desde os mercantilistas de Colbert, aquecimento puxa os preços para cima.

Quem vive de consultoria econômica, como os ex-presidentes de Banco Central e seus satélites precisa vender alguma perspectiva rósea porque se tudo for cinzento os clientes nem os contratam. Consultor precisa ser sempre otimista para dar esperança ao cliente pagador.

A marca da inteligência é a dúvida e não a adesão à primeira onda. Outro surfista do admirável mundo novo é o ministro da Fazenda, que já decretou o fim da recessão há vários trimestres, com ares de Grande Sacerdote do Templo, fala com ar solene que já estamos em um ciclo de crescimento, como se 0,2% fosse grande coisa após 8% de queda nos últimos três anos.

Os gurus da economia precisam operar com o pulso das ruas, mais do que com estatísticas.

O presidente do Banco Central, zelador do sistema financeiro, a última coisa que passa por sua cabeça é estimular a economia para amenizar o desemprego, o seu sonho eterno é a INFLAÇÃO ZERO, o sonho dos rentistas, inflação zero com juro real alto e dólar baixo, melhor que isso só morango com chantilly, dá para fazer duas temporadas europeias por ano e mais um cruzeiro no Caribe no verão, é o paraíso dos supersalários da burocracia e dos rentistas da renda fixa.

Por um original cruzamento de variáveis políticas, o Brasil chegou a esse ponto da curva como País em maior recessão por mais tempo entre todas as grandes economias. Um País rico em recursos naturais, que se basta em alimentos e energia, levado a maior desesperança por comandos absurdamente equivocados na sua política econômica, uma política medíocre que insiste em NÃO usar os fatores de produção de que dispõe o País, não querer usar sua capacidade industrial ociosa, não tem interesse em investir em infraestrutura apesar das notórias carências, quando a mobilização desses fatores por si só pode eliminar o desemprego, mobilização que atende pelo nome de ESTÍMULOS MONETÁRIOS, colocar mais dinheiro em circulação, como fazem bancos centrais de primeira linha em tempos de recessão.

A usina de geração de boas notícias sobre a economia é o Boletim FOCUS e sua central de retransmissão é o sistema GLOBO, o propósito é cacifar o Ministro da Fazenda como um bom candidato para a Presidência da República nas eleições de 2018. A prova da campanha é a SIMULTÂNEA geração de boas notícias ao mesmo tempo em todas as emissoras de TV.

Isso é irreal. As notícias econômicas são por natureza conflitantes e diversificadas, nos EUA ou Europa não há um “coro” sacro que fala a mesma coisa de forma coordenada, como no Brasil.

Economia é um campo fértil de discussões, não é catecismo de missa que todos repetem.

Do modo como a economia está hoje enquadrada, o Brasil pode atender o modus vivendi de 30 milhões de brasileiros com razoável estabilidade econômica, MAS não atende e nem tem perspectiva de atender os outros 170 milhões. Ora, uma política econômica que não tenha como objetivo o total da população não é uma política de Estado, o Estado é o barco onde estão todos, pobres e ricos, um Estado que funciona para uma parte do País não é historicamente viável, não se pode “apagar” ou “esquecer” como se não existissem 4/5 da população que não tem nenhuma estabilidade mesmo em nível de sobrevivência.

Falta à equipe econômica essa visão do todo, governam para o “mercado” e para aqueles que o mercado atende e esses não são os desesperados que estavam na fila de emprego do shopping no Rio. Quem atenderá esses órfãos da globalização financeira?

A autocongratulação da mídia para ganhos pontuais nas estatísticas econômicas, como se isso fosse o “fim da recessão”, em um coro forçado de “levantamento da moral” do País, é um auto engano na melhor das hipóteses. Alguns ganhos microscópicos em determinados índices cuja acurácia metodológica é discutível não tem relevância para a expressão “saímos da recessão”. Há dados mais concreto, por exemplo , a produção de cimento que nos sete primeiros meses de 2017 foi 9,7% menor do que no mesmo período em 2016, ou do consumo de eletricidade no País, nos primeiro sete meses foi 2,3% menor do que em 2016 ou no indicador mais brutal, a inesperada QUEDA DA ARRECADAÇÃO, uma queda que é uma simples derivada da baixa atividade econômica e da queda de vendas das empresas, que provocou uma surpresa espantosa do “dream team”, mostra que eles estão longe de ter alguma capacidade intelectual de grandes economistas. Um erro tão primário de “forecasting” é de chamar a atenção para a fragilidade dessa equipe econômica, afinal a queda da arrecadação não foi resultante de fenômenos da natureza, foi o resultado necessário da equação montada pelos próprios surpreendidos, onde vale mais o índice de inflação do que vendas e produção, aquilo que produz arrecadação, os grandes fatores da economia real e não as elucubrações do boletim FOCUS, a CARAS do mercado financeiro com suas frivolidades.

Desde a Nova República, mas especialmente depois do Plano Real, o Banco Central foi capturado pela cultura do mercado financeiro e desligou-se por completo da economia produtiva. Todos seus presidentes vieram ou foram para o sistema financeiro e o Boletim FOCUS é o “Diário Oficial” do Banco, tendo como redatores os “economistas de mercado”.

Não se fazem perguntas à indústria ou ao comércio, só aos bancos e seus coligados e a política do BC passa a ser orientada pelas “expectativas do mercado”, o que significa dizer que é o mercado financeiro quem dirige o Banco Central por fraqueza do sistema político e da mídia.

A pior equipe econômica da recente história brasileira só poderia produzir o pior resultado que a ferramenta pode construir. A brutal queda da arrecadação se deu pela dramática queda da atividade econômica QUE NÃO tem demonstrado tendência de melhora, como querem fazer crer os GLOBOECONOMISTAS que trazem dados tipo “olha como a inflação está no melhor nível desde 2003, a projeção do FOCUS caiu de 3,38% para 3,16%, dado que o preço do tomate em Recife cai 7,334% e a passagem de ônibus em Belém subiu 5,54%. Seriam cômicos se não fossem trágicos, marionetes de algum bruxo por trás do pano, só um domador com chicote pode fazer homens calejados e moças bonitas a dizerem tantas bobagens, alguns falam com absoluta convicção, como Miriam Leitão, a politicamente correta da economia, comentam seriamente as variações centesimais de índices irrelevantes mostrando como “estão por dentro” da economia mas isso NÃO é economia, a visão do grande economista não é detalhista, é uma visão de conjunto, do todo e de seus efeitos sobre a vida das pessoas.

Porque o FOCUS não traz a produção de cimento mês a mês, um indicador crucial?

Ou porque o FOCUS não dá a expectativa do JURO REAL PARA A ECONOMIA PRODUTIVA, cartão de crédito, cheque especial, crédito para médias empresas? Só traz a taxa SELIC, que só interessa ao mercado financeiro. MAS, e a economia real, onde está no FOCUS?

Porque a mídia NÃO questiona isso ao invés de repetir o FOCUS como papagaios?

No programa PAINEL da Globonews de sábado, dia 2 de setembro, foram convidados três comentaristas de idêntica linha, Gesner de Oliveira, da FGV, Zeina Latif, da XP Investimentos e o diretor de uma administradora de fundos, os três identificados com a escola ortodoxa.

Ora, existe uma outra linha de política econômica com nomes respeitáveis, cito Antonio Correa de Lacerda, diretor da Faculdade de Economia da PUC-São Paulo, Laura Carvalho, professora da USP, Reinaldo Carneiro, da UFRJ, Paulo Kliass, também da UFRJ. O lógico em um debate é a presença de linhas em contraponto e não de pensamentos únicos. Quem garante que o programa Meirelles está certo? Porque não discutir as premissas desse programa?

Os três debatedores do PAINEL não têm qualquer proposta para sair da recessão a não ser a de um ajuste mais rigoroso, apenas Gesner disse que as taxas de juros poderiam cair “um pouco mais rapidamente”, os outros se calaram a respeito, de resto enfatizaram a linha do “corte-de-gastos com reformas”, falaram de investimentos privados em concessões, saneamento como se isso fosse uma solução e desse círculo fechado de ideias não saíram.

Um País na mais grave recessão de sua história moderna não gera sustentação para amplos debates sobre os rumos da economia, rendendo-se à rasa simplicidade de dois ou três bordões de algibeira, cortes + reformas, Real valorizado e obsessiva obediência às metas de inflação.

Todas essas variáveis são até defensáveis mas há que SEMPRE medir o custo de atingi-las, e é este o debate que não se faz, às vezes é melhor mais emprego e menos fanatismo com metas de inflação, muitas vezes desvalorizar a moeda relança a economia, como já fez a China incontáveis vezes nos últimos 30 anos, na história por vezes um amplo programa de obras de infraestrutura com dinheiro novo vale a pena, o BNDES tem enorme sobra de caixa porque não usar para infraestrutura ao invés de entregar R$ 280 bilhões ao Tesouro, R$ 100 bilhões já entregues na gestão Maria Silvia e mais R$ 180 bilhões até o fim do mandato em 2018.

Esse retorno de R$ 280 bilhões do BNDES ao Tesouro é uma CONTRADIÇÃO com o alegado crescimento de 4% em 2018, como propaga o cabo eleitoral de Meirelles à Presidência, o ex-Ministro Luis Carlos Mendonça de Barros. Como vai crescer 4% sem o BNDES apoiando investimentos? E como o BNDES vai apoiar investimento sem dinheiro no caixa?

Devolver tal volume de recursos do BNDES para o Tesouro é jogar na retranca, não no crescimento, é uma confissão de que a recessão deve continuar.

Ousadia muitas vezes é a saída para a economia e não a retranca, mas a ousadia é para os fortes e corajosos, algo que parece escasso na cena brasileira, inclusive na mídia econômica.

Fotografia - por Annie Spratt (Magdeleine)


Xadrez da falência da macroeconomia brasileira - por Luís Nassif (Jornal GGN)


Peça 0 – a Semana do Economista da Escola de Economia da FGV
A Semana de Economia da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, tem permitido uma visão bastante nítida dos limites e das pretensões da macroeconomia no país.

A diversidade de linhas de pensamento permitiu montar um quadro preciso do momento atual, cujas principais conclusões são:

·      O predomínio do financeiro sobre o estratégico.

·      O reconhecimento do conhecimento da economia como arma política dos economistas, encastelados nos Bancos Centrais.

·      O pastel de vento que está sendo vendido por Henrique Meirelles, uma bomba para estourar em 2019.

·      A manipulação das estatísticas como instrumento de marketing.

Vamos por partes.

Peça 1 – o economista e o financeiro dos anos 80
Nos anos 80, em função da inflação e a volatilidade dos ativos, o diretor financeiro era o principal executivo das empresas, muito mais relevante que o gestor maior, que o sujeito de qualidade, que os departamentos de inovação, que a própria presidência.

Todas as decisões, inclusive estratégicas, eram subordinadas ao financeiro.

Houve um caso clássico, que marcou o último momento desse modelo de gestão. A Sharp estava no vermelho. Contratou um financista que em três meses colocou a empresa no azul. Em um ano, quebrou a empresa. Para obter resultados imediatos, desativou a área de desenvolvimento, encolheu a de vendas, reduziu a assistência técnica, peças centrais para o futuro da companhia.

A partir dos anos 90, houve enorme sofisticação no modelo de gestão das grandes corporações brasileiras. Visão estratégica, políticas de qualidade total, investimento em produtos ou, com o câmbio desfavorável, importação e maquiagem de produtos. Nos eventos da Fundação Nacional de Qualidade (FNQ), as premiações passaram a levar em conta visão de futuro, ambiente de trabalho.

Nesse modelo, o financeiro voltou ao seu lugar de receber os planos estratégicos, estimar os custos e encontrar formas de financiá-los. E alertar quando os planos estavam além dos recursos disponíveis ou com taxas de retorno insuficientes.

No subdesenvolvimento macroeconômico brasileiro, ocorreu o inverso. A política macroeconômica é que passou a determinar o todo, dentro de uma lógica primária: as receitas fiscais estão dadas; nada de aumento de impostos ou de uma reforma tributária mais equânime. Quanto às despesas, virem-se! Havendo insuficiência, preservem-se os ganhos do mercado, os rendimentos do capital, os salários e aposentadoria das corporações públicas, e cortem-se os gastos finalísticos – aqueles que são devolvidos à população na forma de política de rendas ou de serviços ou em áreas igualmente críticas, como inovação, investimento.

É o que explica esse Ponte Para o Futuro. Para obter o equilíbrio fiscal, cortam-se investimentos em educação, saúde, segurança, financiamento da inovação, financiamento de longo prazo. O corte nos investimentos públicos derruba a atividade econômica que derruba as receitas fiscais, obrigando a mais cortes até cavar um fundo do poço de 10 pontos percentuais de queda do PIB.

Mais ainda.

A política monetária não é eficaz. Um dos problemas apontados é a existência de linhas de crédito e financiamento com juros abaixo da Selic. Acaba-se, então, com a TJLP e inviabiliza-se qualquer financiamento de longo prazo – pois não há mercado privado de financiamentos de longo prazo.

Nos balanços das empresas privadas, há a taxa de depreciação. A empresa tem suas máquinas. A cada ano, poderá abater um percentual do valor das máquinas a título de depreciação, com base na hipótese de que no final do período de vida útil se terá que comprar outra.

Os cortes de custeio e investimento estão paralisando obras em andamento, desmontando institutos de pesquisa, promovendo atrasos insanáveis em educação, saúde, segurança. Quanto custa para o país o atraso educacional de milhões de crianças, a cooptação de parte delas pelo crime, as perdas com roubos e assaltos pelo desaparelhamento das policias.

Não pergunte para um macroeconomista.

A visão primária da eficiência
Há uma geração deles obcecada pelas análises de eficiência. E não conseguem avançar além da primeira operação.

Hoje em dia, com os grandes bigdatas, a economia caminha para a análises de realidades complexas. Isto é, não apenas os efeitos diretos de uma medida, mas as consequências totais sobre outros setores, inclusive implicações sociais, ambientais.

No Brasil, a discussão econômica não passou dos cálculos de um ou dois fatores, e olhe lá!

Quatro exemplos:

1.     O aumento do salário mínimo permitiu que em 55% dos lares com um aposentado ou pensionista, este se tornasse o arrimo de família. Os filhos e netos puderam estudar mais tempos, entrar mais tarde no mercado de trabalho. A saúde da família foi preservada, assim como o poder de atração do crime organizado. Para os que pensam apenas na eficiência dos gastos: quanto o país economizou com essas externalidades? Jamais os cabeções se interessaram em levantar esses dados. Tratam os gastos como um valor em si, como se fosse mero desperdício.

2.     O Tesouro empresta ao BNDES. Há uma diferença entre o custo do dinheiro para o Tesouro (Selic) e o que vai receber do BNDES (TJLP). No entanto, o financiamento do BNDES permitirá que fábricas sejam construídas, que comecem a produzir, a pagar impostos sobre a produção, a criar vagas formais de empregos. Qualquer análise minimamente competente sobre eficiência do investimento, do ponto de vista fiscal, teria que levar em conta esses dados.

3.     A Previdência é um sistema de repartição simples: as contribuições dos da ativa servem para bancar os benefícios dos aposentados. Vai-se produzir uma reforma que desestimulará os mais jovens de contribuir. Ao mesmo tempo, a reforma trabalhista irá aumentar exponencialmente a informalidade (ou pejotização) no setor de serviços, o que mais cresce. A sustentabilidade da Previdência depende fundamentalmente de dois estudos: o nível de desistência dos que entram; o nível de informalidade do trabalho. Nenhum estudo foi feito sobre dois pontos fundamentais.

Cena 2 – o poder político dos cabeças de planilha
A palestra mais retumbante do evento foi a de André Lara Rezende, o principal pai do Cruzado, abordando os erros que foram cometidos pela ortodoxia econômica nas últimas décadas, a o poder político dado a tecnocratas do Banco Central e da área econômica.

Afirmações de André:

·      Os juros brasileiros são tão altos que provocam perplexidade em toda parte.

·      A ideia da independência do Banco Central foi um clichê sem reflexão, permitindo, em nome de uma suposta competência técnica, que só um tipo de economista, formados nos EUA, pudesse manter o controle sobre o BC e a política monetária.

·      Ser economista hoje em dia é um atalho muito melhor para o poder do que fazer carreira política.

·      O BC tem muito mais poder que o Ministério da Fazenda. Além de poder, o economista do BC usufrui da exploração de prestígio e não apenas aqui. Alan Greenspan era tratado como um gênio até perceber o desastre que fez.

·      Se o equilíbrio fiscal é fundamental para melhorar as expectativas, o maior peso sobre o orçamento são os juros. No momento em que o BC baixasse os juros vigorosamente, imediatamente se acenaria para o mercado sobre a sustentabilidade da dívida pública.

·      Hoje em dia, as faculdades de economia servem apenas para ensinar matemática de baixa categoria.

Sobre a palestra de André, escreverei um artigo à parte.

Os ataques que sofreu dos economistas ortodoxos foi pesado. O mínimo que fizeram foi trata-lo como “traidor”. E a razão é simples. Esses economistas fizeram sua fama, reputação, em cima de um tipo de conhecimento enganoso e que está prestes a ser reavaliado. Para garantir a reputação, bastava repetir o manual de respostas prontas do livrinho. Desmontada a teoria, terão que pensar, competir no mercado compondo cenários criativos, sem poder se escudar nos erros coletivos para justificar os seus.

Cena 3 – o autoengano do mercado
O jogo do mercado é simples.

Há um conjunto de grandes operadores que comandam as expectativas do mercado. Eles se posicionam, montam suas carteiras e passam a gerar pontos de expectativa, usando o jornalismo econômico como canal de transmissão. Quando a realidade começa a se impor sobre a fantasia, eles despejam sua carteira no mercado, vendendo no pico. E acelerando.

Hoje em dia, a taxa de autoengano é tal que o mercado comemorou quando o Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot se enrolou, pois acreditou que aumentou a sobrevida de Michel Temer. Fundamentos da economia, análise da política econômica?, que nada.

A PEC do Teto incidirá exclusivamente sobre gastos federais – saúde, educação, segurança, custo da máquina pública. Não enquadra Judiciário, Ministério Público e corporações públicas. À cada ano, os setores não enquadrados irão comer fatias cada vez maiores do orçamento, reduzindo o do Executivo federal até o ponto da ingovernabilidade. Ou seja, os gênios do “dream team” econômico não previram pontos básicos da análise.

André Perfeito, um dos mais independentes economistas de mercado mostrou o circuito do autoengano do mercado:

·      O governo Temer pratica um populismo fiscal amplo, gastos fiscais com objetivos políticos imediatos.

·      Vai-se chegar a 2019 sem um modelo fiscal consistente.

·      O próximo governo, seja quem for, não manterá a PEC do Teto simplesmente porque é inviável.

·      O nó fiscal está chegando perto do muro, vai bater e ninguém está fazendo nada.

·      A reforma da Previdência, relevante, não dará em nada senão for feita em cima do funcionalismo público, o único que ainda tem renda.

·      O mercado adjetiuva a política econômica de acordo com os ganhos imediatos que traz. Se for lógica, mas impuser sacrifícios ao mercado, é tratada como desastrosas. Se for desastrosa, mas trouxer ganhos de curto prazo, é genial. Mas chega a hora da verdade.

·      Hoje em dia, a Bolsa – que continua subindo – trabalha em cima de apenas cinco papéis, dois de bancos (Bradesco e Itaú), da Ambev, de uma empresa de commodities (Vale). Para ter uma ideia do tamanho do estouro da Bolsa, o P/L (relação preço/lucro) do Bradesco está em 20 anos. É um indicador próximo ao dos grandes momentos de crack da Bolsa no início dos anos 70 e no fim dos anos 80.

O próximo candidato assumirá, terá que abrir o jogo sobre a impossibilidade de avançar nas tais reformas. Quando isto suceder, explodirá a taxa longa de juros e aí será o estouro da boiada.

Cena 4 – as políticas alternativas
Coube a Ricardo Carneiro, do Instituto de Economia da Unicamp, repor os pontos fundamentais, os objetivos do desenvolvimento econômico.

1. Aumento da produtividade

2. Melhoria da distribuição da renda: com o tipo de sociedade que se quer

3. A preservação do meio ambiente.

O melhor exemplo do fracasso da ortodoxia está na comparação Estados Unidos-China.

China usou vários instrumentos de intervenção na economia; os Estados Unidos, uma desregulação radical.

Além da crise do subprime, em 2007 e 2008, os Estados Unidos pioraram em vários indicadores: distribuição de renda, deterioração da classe média, deterioração ambiental, perda do dinamismo produtivo tecnológico, com a inovação sendo gerada de maneira assimétrica e desigual.

De posição subalterna, a China se tornou a segunda economia do mundo, com uma ação firme de Estado:

É evidente que há características chinesas que não são transportáveis, próprias de um regime autocrático. Mas demonstra que o desenvolvimento não se consegue com manuais que ignoram totalmente os efeitos macroeconômicos na ponta, sobre empresas e pessoas.

Assim como é evidente que tem que se enfrentar a questão fiscal sim, com uma análise abrangente da estrutura de receita e despesa e, se for o caso, com mudanças na Previdência. Mas, antes dela, na estrutura de tributação, na distribuição equânime dos sacrifícios.