sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Ai, ai, ai, Romeu Jr. – por Mino Carta (CartaCapital)
Ao longo de dois anos, o ex-secretário nacional do Ministério da Justiça agiu como entrevistado–duplo
Instado a se demitir de secretário nacional do Ministério da Justiça, Romeu Tuma Jr. resistiu de início, mesmo porque o próprio presidente da República recomendara: “Por ora, aguenta”. A mídia nativa trombeteava as relações do secretário, desde seus tempos de delegado, com um cidadão chinês acusado de contrabando. A artilharia não arrefeceu, pelo contrário. Depois de algum tempo, o alvejado capitulou.
Romeu Jr. caiu em depressão profunda, via na sua saída do governo o golpe fatal que apressara a morte do pai, o senador. E enxergava mais, além e acima do chinês: uma clara ligação entre o bloqueio dos bens de Daniel Dantas no exterior, por ele determinado, a Operação Satiagraha e o Caso Battisti. Elo do entrecho, um petista eminente, Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado do banqueiro e do terrorista assassino.
Romeu Jr. repetia a intenção de botar as suas razões por escrito e Paulo Henrique Amorim e eu sugerimos um livro-entrevista. Ele gostou da ideia e outro jornalista aderiu à operação, Sergio Lirio, redator-chefe de CartaCapital, enquanto Paulo Henrique limitava-se a formular algumas perguntas sobre as atividades dantescas. Dias e dias de entrevista conduzida por Sergio e eu seguiram-se ao longo de um larguíssimo período. Na véspera do ponto final, entre perplexos e espantados, somos surpreendidos pelas declarações do nosso entrevistado à revista Veja, a mesma que a bem de sua demissão o perseguiu com empenho feroz. E pelo anúncio da publicação do livro, Assassinato de Reputações – Um crime de Estado, resultado de dois anos de entrevistas ao jornalista Claudio Tognolli.
Diz o entrevistador a Veja: “É um livro baseado apenas em fatos”. A julgar pelos textos estampados na revista da Editora Abril, os fatos sofreram modificações em relação aos propósitos manifestados há dois anos por um deprimidíssimo Romeu Jr. Tome-se Daniel Dantas, aquele que forneceu a Veja um dossiê para denunciar contas em Cayman de personagens graudíssimos, a começar pelo presidente Lula, e sem omitir o próprio senador Tuma. Pois de vilão parece tornar-se vítima, metamorfose que talvez agrade a Tognolli. Gilmar Mendes? Sim, sim, ele foi grampeado, embora já tenha sido fartamente provado que a Abin, então comandada pelo delegado Paulo Lacerda, grande e leal amigo dos Tuma, não tinha condições de grampear quem quer que seja. E por aí afora, alterações de rota, esquecimentos abissais, acréscimos que seria impossível endossar.
No depoimento a Veja, Lula vira informante do Dops. A respeito sei apenas que Tuma pai e o líder sindical Luiz Inácio da Silva foram bons amigos e que o futuro senador foi suave carcereiro do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, preso no Dops em meio à greve de 1980. A história é bem conhecida. Outra, relacionada com aquele tempo de detenção, menos conhecida, diz respeito às visitas ao preso de uns senhores engravatados, que se diziam enviados pelo “cacique”. Não se pareciam com inquisidores, eram afáveis ao formularem perguntas sobre as ideias de Lula e sua fé política.
Logo que saiu da prisão, Lula me falou dos misteriosos visitadores e então, anos a fio, perguntei a Romeu pai quem seriam os enviados do “cacique”. Respondia ignorar. Uns anos atrás voltei à carga, ele revelou: “Era o Golbery”. Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil de Castello Branco, Geisel e, por pouco mais de dois anos, de Figueiredo. Estava interessado em entender os rumos de um sindicalista tão diferente dos tradicionais pelegos. De caso pensado, não confiava às cegas nos meus textos a favor, preferia o relatório dos seus amáveis pesquisadores. E de Tuma pai, é imaginável.
Na noite do velório do senador, um dos irmãos de Romeu Jr., Rogério, notável neurologista e colaborador de CartaCapital, declarou em entrevista gravada: “Meu pai protegeu Lula porque os agentes da ditadura pretendiam matá-lo”. Vale a pena matar um informante do Dops? O que pergunto aos meus estupefatos botões é qual teria sido o motivo de Romeu Jr. ao recorrer a Veja e a Tognolli. Aventam pacatamente a hipótese de que optou por quem se disporia a compactuar com incontroláveis saraivadas, frequentemente desferidas sem prova. Mais espanta, de todo modo, é que Romeu Jr. tenha funcionado como entrevistado duplo. Pelo menos ao se encararem os fatos do lado de cá.
Consta que, na página dos agradecimentos que introduz o livro, Romeu Jr. agradece “em particular a Mino Carta, por emprestar sua amizade, companhia e valiosíssimas tardes de inúmeras segundas-feiras neste projeto”. Sem deixar de sublinhar que amizade não se empresta, dá-se íntegra e leal, apresso-me a dispensar este obrigado. O livro-entrevista que eu imaginava nada tem a ver com tudo aquilo prometido pela incrível entrevista a Veja. Quanto ao livro que vem aí, não o lerei.
Comentário
O negócio é o seguinte: se tudo estiver ruim pra você, se tudo der errado, se você estiver completamente desmoralizado por ser pego com a boca na botija ou outra irregularidade qualquer, faça um livro falando mal do Lula e/ou do PT.
Pronto. O resultado é o mesmo dos produtos das falecidas Organizações Tabajaras: ¡seus problemas acabaram!
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| Ora, ora, mas tudo isso na Veja... |
Romeu Jr. caiu em depressão profunda, via na sua saída do governo o golpe fatal que apressara a morte do pai, o senador. E enxergava mais, além e acima do chinês: uma clara ligação entre o bloqueio dos bens de Daniel Dantas no exterior, por ele determinado, a Operação Satiagraha e o Caso Battisti. Elo do entrecho, um petista eminente, Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado do banqueiro e do terrorista assassino.
Romeu Jr. repetia a intenção de botar as suas razões por escrito e Paulo Henrique Amorim e eu sugerimos um livro-entrevista. Ele gostou da ideia e outro jornalista aderiu à operação, Sergio Lirio, redator-chefe de CartaCapital, enquanto Paulo Henrique limitava-se a formular algumas perguntas sobre as atividades dantescas. Dias e dias de entrevista conduzida por Sergio e eu seguiram-se ao longo de um larguíssimo período. Na véspera do ponto final, entre perplexos e espantados, somos surpreendidos pelas declarações do nosso entrevistado à revista Veja, a mesma que a bem de sua demissão o perseguiu com empenho feroz. E pelo anúncio da publicação do livro, Assassinato de Reputações – Um crime de Estado, resultado de dois anos de entrevistas ao jornalista Claudio Tognolli.
Diz o entrevistador a Veja: “É um livro baseado apenas em fatos”. A julgar pelos textos estampados na revista da Editora Abril, os fatos sofreram modificações em relação aos propósitos manifestados há dois anos por um deprimidíssimo Romeu Jr. Tome-se Daniel Dantas, aquele que forneceu a Veja um dossiê para denunciar contas em Cayman de personagens graudíssimos, a começar pelo presidente Lula, e sem omitir o próprio senador Tuma. Pois de vilão parece tornar-se vítima, metamorfose que talvez agrade a Tognolli. Gilmar Mendes? Sim, sim, ele foi grampeado, embora já tenha sido fartamente provado que a Abin, então comandada pelo delegado Paulo Lacerda, grande e leal amigo dos Tuma, não tinha condições de grampear quem quer que seja. E por aí afora, alterações de rota, esquecimentos abissais, acréscimos que seria impossível endossar.
No depoimento a Veja, Lula vira informante do Dops. A respeito sei apenas que Tuma pai e o líder sindical Luiz Inácio da Silva foram bons amigos e que o futuro senador foi suave carcereiro do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, preso no Dops em meio à greve de 1980. A história é bem conhecida. Outra, relacionada com aquele tempo de detenção, menos conhecida, diz respeito às visitas ao preso de uns senhores engravatados, que se diziam enviados pelo “cacique”. Não se pareciam com inquisidores, eram afáveis ao formularem perguntas sobre as ideias de Lula e sua fé política.
Logo que saiu da prisão, Lula me falou dos misteriosos visitadores e então, anos a fio, perguntei a Romeu pai quem seriam os enviados do “cacique”. Respondia ignorar. Uns anos atrás voltei à carga, ele revelou: “Era o Golbery”. Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil de Castello Branco, Geisel e, por pouco mais de dois anos, de Figueiredo. Estava interessado em entender os rumos de um sindicalista tão diferente dos tradicionais pelegos. De caso pensado, não confiava às cegas nos meus textos a favor, preferia o relatório dos seus amáveis pesquisadores. E de Tuma pai, é imaginável.
Na noite do velório do senador, um dos irmãos de Romeu Jr., Rogério, notável neurologista e colaborador de CartaCapital, declarou em entrevista gravada: “Meu pai protegeu Lula porque os agentes da ditadura pretendiam matá-lo”. Vale a pena matar um informante do Dops? O que pergunto aos meus estupefatos botões é qual teria sido o motivo de Romeu Jr. ao recorrer a Veja e a Tognolli. Aventam pacatamente a hipótese de que optou por quem se disporia a compactuar com incontroláveis saraivadas, frequentemente desferidas sem prova. Mais espanta, de todo modo, é que Romeu Jr. tenha funcionado como entrevistado duplo. Pelo menos ao se encararem os fatos do lado de cá.
Consta que, na página dos agradecimentos que introduz o livro, Romeu Jr. agradece “em particular a Mino Carta, por emprestar sua amizade, companhia e valiosíssimas tardes de inúmeras segundas-feiras neste projeto”. Sem deixar de sublinhar que amizade não se empresta, dá-se íntegra e leal, apresso-me a dispensar este obrigado. O livro-entrevista que eu imaginava nada tem a ver com tudo aquilo prometido pela incrível entrevista a Veja. Quanto ao livro que vem aí, não o lerei.
Comentário
O negócio é o seguinte: se tudo estiver ruim pra você, se tudo der errado, se você estiver completamente desmoralizado por ser pego com a boca na botija ou outra irregularidade qualquer, faça um livro falando mal do Lula e/ou do PT.
Pronto. O resultado é o mesmo dos produtos das falecidas Organizações Tabajaras: ¡seus problemas acabaram!
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
A papai-noelização de Nelson Mandela - por Slavoj Žižek (The Guardian / Vila Vudu)
Se tivesse realmente vencido, Mandela não seria apresentado como herói universal
Nas últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial a sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experimentos socialistas. Agora, com a morte dele, sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, esportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela.
Mas será essa a história completa? Dois fatos são sistematicamente apagados nessa visão celebratória. Na África do Sul, a maioria pobre continua a viver praticamente como vivia nos tempos do apartheid, e a ‘conquista’ de direitos civis e políticos é contrabalançada por violência, insegurança e crime crescentes. A única mudança é que onde havia só a velha classe governante branca há agora também a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas já quase nem lembram que o velho Congresso Nacional Africano não prometera só o fim do apartheid; também prometeu mais justiça social e, até, um tipo de socialismo. Esse CNA muito mais radical do passado está sendo gradualmente varrido da lembrança. Não surpreende que a fúria outra vez esteja crescendo entre os sul-africanos pretos e pobres.
A África do Sul, quanto a isso, é só a mesma versão repetida da esquerda contemporânea. Um líder ou partido é eleito com entusiasmo universal prometendo “um novo mundo” – mas então, mais cedo ou mais tarde, tropeçam no dilema chave: quem se atreve a tocar nos mecanismos capitalistas? Ou prevalecerá a decisão de “jogar o jogo”? Se alguém perturba esse mecanismo, é rapidamente “punido” com perturbações de mercado, caos econômico e o resto todo. Por isso parece tão simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid. Mas ele chegou realmente a ter alguma escolha? Andar na direção do socialismo seria possibilidade real?
(...) Marx disse (...) em sua fórmula bem conhecida que, no universo da mercadoria, “as relações entre pessoas assumem o disfarce de relações entre coisas”.
Na economia de mercado, acontece de relações entre pessoas aparecerem sob disfarces que os dois lados reconhecem como liberdade e igualdade: a dominação já não é diretamente exercida e deixa de ser visível como tal. (...) É preciso ter em mente que a grande lição do socialismo de estado foi, sim, que a abolição direta da propriedade privada e a regulação das trocas pelo mercado, se não vierem acompanhadas de formas concretas de regulação social do processo de produção, acabam sempre, necessariamente, por ressuscitar relações diretas de servidão e dominação.
Se apenas se extingue o mercado (inclusive a exploração do mercado), sem substituí-lo por uma forma própria de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta como uma vingança, e com a exploração direta pelo mercado.
A regra geral é que, quando começa uma revolta contra regime opressor semi-democrático, como aconteceu no Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que só se podem descrever como “formadores de massa”: pela democracia, contra a corrupção, por exemplo.
Mas adiante, quando nos vamos aproximando das escolhas mais difíceis, quando nossa revolta é vitoriosa e alcança o objetivo direto, logo nos damos conta de que o que realmente nos atormentava (a falta de liberdade pessoal, a humilhação, a corrupção das autoridades, a falta de perspectiva de, algum dia, chegar a ter uma vida decente) rapidamente troca de roupa e reaparece sob um novo disfarce.
A ideologia governante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar àquela conclusão radical. Põem-se logo a dizer que a liberdade democrática implica responsabilidades; que a liberdade democrática tem seu preço; que ainda não estamos plenamente amadurecidos, se esperamos demais da democracia.
Assim, rapidamente, passam a nos culpar, nós mesmos, pelo nosso fracasso: numa sociedade livre – é o que nos dizem – todos somos capitalistas que investimos na nossa própria vida; e temos de alocar mais dinheiro para a educação do que para nossas festas e noitadas e lazer. Que se não fizermos assim, nossa democracia não terá sucesso.
Num plano diretamente mais político, a política externa dos EUA elaborou detalhada estratégia para controle de danos: basta converter o levante popular em restrições capitalistas-parlamentares palatáveis. Isso, precisamente, foi feito com sucesso na África do Sul, depois do fim do regime de apartheid; foi feito nas Filipinas depois da queda de Marcos; foi feito na Indonésia depois da queda de Suharto e foi feito também em outros lugares
Nessa precisa conjuntura, as políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe.
Se quisermos permanecer fiéis ao legado de Mandela, temos de deixar de lado as lágrimas de crocodilo das celebrações e nos focar em todas as promessas não cumpridas infladas sob sua liderança e por causa dela. Assim se verá facilmente que, apesar de sua indiscutível grandeza política e moral, Mandela, no fim da vida, era também um velho triste, bem consciente de que seu triunfo político e sua consagração como herói universal não passavam de máscara para esconder derrota muito amarga. A glória universal de Mandela é também prova de que ele não perturbou a ordem global do poder.
Nas últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial a sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experimentos socialistas. Agora, com a morte dele, sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, esportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela.
Mas será essa a história completa? Dois fatos são sistematicamente apagados nessa visão celebratória. Na África do Sul, a maioria pobre continua a viver praticamente como vivia nos tempos do apartheid, e a ‘conquista’ de direitos civis e políticos é contrabalançada por violência, insegurança e crime crescentes. A única mudança é que onde havia só a velha classe governante branca há agora também a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas já quase nem lembram que o velho Congresso Nacional Africano não prometera só o fim do apartheid; também prometeu mais justiça social e, até, um tipo de socialismo. Esse CNA muito mais radical do passado está sendo gradualmente varrido da lembrança. Não surpreende que a fúria outra vez esteja crescendo entre os sul-africanos pretos e pobres.
A África do Sul, quanto a isso, é só a mesma versão repetida da esquerda contemporânea. Um líder ou partido é eleito com entusiasmo universal prometendo “um novo mundo” – mas então, mais cedo ou mais tarde, tropeçam no dilema chave: quem se atreve a tocar nos mecanismos capitalistas? Ou prevalecerá a decisão de “jogar o jogo”? Se alguém perturba esse mecanismo, é rapidamente “punido” com perturbações de mercado, caos econômico e o resto todo. Por isso parece tão simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid. Mas ele chegou realmente a ter alguma escolha? Andar na direção do socialismo seria possibilidade real?
(...) Marx disse (...) em sua fórmula bem conhecida que, no universo da mercadoria, “as relações entre pessoas assumem o disfarce de relações entre coisas”.
Na economia de mercado, acontece de relações entre pessoas aparecerem sob disfarces que os dois lados reconhecem como liberdade e igualdade: a dominação já não é diretamente exercida e deixa de ser visível como tal. (...) É preciso ter em mente que a grande lição do socialismo de estado foi, sim, que a abolição direta da propriedade privada e a regulação das trocas pelo mercado, se não vierem acompanhadas de formas concretas de regulação social do processo de produção, acabam sempre, necessariamente, por ressuscitar relações diretas de servidão e dominação.
Se apenas se extingue o mercado (inclusive a exploração do mercado), sem substituí-lo por uma forma própria de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta como uma vingança, e com a exploração direta pelo mercado.
A regra geral é que, quando começa uma revolta contra regime opressor semi-democrático, como aconteceu no Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que só se podem descrever como “formadores de massa”: pela democracia, contra a corrupção, por exemplo.
Mas adiante, quando nos vamos aproximando das escolhas mais difíceis, quando nossa revolta é vitoriosa e alcança o objetivo direto, logo nos damos conta de que o que realmente nos atormentava (a falta de liberdade pessoal, a humilhação, a corrupção das autoridades, a falta de perspectiva de, algum dia, chegar a ter uma vida decente) rapidamente troca de roupa e reaparece sob um novo disfarce.
A ideologia governante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar àquela conclusão radical. Põem-se logo a dizer que a liberdade democrática implica responsabilidades; que a liberdade democrática tem seu preço; que ainda não estamos plenamente amadurecidos, se esperamos demais da democracia.
Assim, rapidamente, passam a nos culpar, nós mesmos, pelo nosso fracasso: numa sociedade livre – é o que nos dizem – todos somos capitalistas que investimos na nossa própria vida; e temos de alocar mais dinheiro para a educação do que para nossas festas e noitadas e lazer. Que se não fizermos assim, nossa democracia não terá sucesso.
Num plano diretamente mais político, a política externa dos EUA elaborou detalhada estratégia para controle de danos: basta converter o levante popular em restrições capitalistas-parlamentares palatáveis. Isso, precisamente, foi feito com sucesso na África do Sul, depois do fim do regime de apartheid; foi feito nas Filipinas depois da queda de Marcos; foi feito na Indonésia depois da queda de Suharto e foi feito também em outros lugares
Nessa precisa conjuntura, as políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe.
Se quisermos permanecer fiéis ao legado de Mandela, temos de deixar de lado as lágrimas de crocodilo das celebrações e nos focar em todas as promessas não cumpridas infladas sob sua liderança e por causa dela. Assim se verá facilmente que, apesar de sua indiscutível grandeza política e moral, Mandela, no fim da vida, era também um velho triste, bem consciente de que seu triunfo político e sua consagração como herói universal não passavam de máscara para esconder derrota muito amarga. A glória universal de Mandela é também prova de que ele não perturbou a ordem global do poder.
Privilegiados e perseguidos – por Paulo Moreira Leite (Istoé)
No país da novilíngua, direito assegurado em lei é tratado como privilégio
Há muito tempo nós sabemos que o uso de palavras inadequadas é uma das formas menos inocentes e mais eficazes de manipulação política.
Permite esconder a realidade, confundir o cidadão comum e estimular reações que não têm apoio nos fatos.
Estudioso aplicado dos regimes stalinistas, a quem acusava de manipular uma ideologia igualitária criada pelo pensamento comunista para construir uma ditadura opressiva, George Orwell criou o termo novilíngua para explicar o fenômeno.
Com isso, explicava, era possível fazer uma coisa – e fingir que se praticava seu oposto.
Cinco décadas depois da morte de Josef Stalin, velhas técnicas stalinistas de propaganda foram despidas de sua origem primeira e servem a qualquer causa, a qualquer ideologia, mesmo a mais conservadora: esconder fatos desagradáveis, falhas humanas, gestos incoerentes, contradições e mesmo mentiras.
É tudo retórica. Seu método, no entanto, é o mesmo. Consiste em usar uma questão real para deformá-la ao sabor de propósitos e conveniências de momento.
No Brasil de 2013 a novilíngua está na primeira página dos jornais.
Empregar o termo “privilegiados” para se referir aos condenados na ação penal 470 e usar a expressão “privilégios” para se referir às condições no presídio da Papuda é prestar um favor desnecessário às autoridades comandadas por Joaquim Barbosa.
Um exame criterioso dos fatos mostra que, pelo contrário, desde o início o STF tomou um conjunto de medidas jurídicas que é adequado classificar como perseguição em vez de prestação de favor ou benefício indevido.
Já era absurdo falar em privilégio para cidadãos condenados num julgamento “exemplar” onde foram aceitas várias medidas excepcionais e nada exemplares. Para quem ainda fica surpreso quando lê isso, vamos recordar rapidamente. Quem já está cansado de ouvir os argumentos, pode pular para o final do item “F”.
A) Negou-se o direito a um duplo grau de jurisdição, garantia constitucional reservada a todo brasileiro que não tem foro privilegiado e assegurado aos mensaleiros PSDB-MG e também no DEM do Distrito Federal.
B) Na falta de provas capazes de demonstrar a culpa dos réus além de qualquer dúvida razoável, aceitou-se uma teoria exótica, do domínio do fato, que não tem a mais remota ligação com o caso em questão.
C) As penas foram agravadas artificialmente, em debates onde se disse, explicitamente, que a prioridade era garantir que os réus fossem encarcerados – e não que a justiça deveria ser feita.
D) Os réus foram acusados de desviar R$ 73,8 milhões do Banco do Brasil, mas a própria instituição nega, oito anos depois da denúncia, que qualquer centavo tenha sido extraído indevidamente de seus cofres.
E) Os petistas foram acusados de encobrir o esquema através de contratos fictícios com o Banco Rural, mas a Polícia Federal garante que foram verdadeiros e envolviam empréstimos reais.
F) investigações que poderiam ajudar na inocência de determinados réus até hoje se encontram sob segredo de justiça. O julgamento já acabou e o segredo continua.
Também é errado falar em privilégio na fase de execução das penas. Presos num feriado de 15 de novembro, até hoje réus com direito a cumprir pena em regime semiaberto são mantidos em regime fechado – a última novidade é avisar que mesmo quem tiver conseguido trabalho fora da prisão deverá, em nome da ”igualdade”, aguardar no fim da fila pelo exame de seus pedidos. Sabemos o que isso significa, certo? Também sabemos que o fatiamento dos mandatos de prisão foi anunciado como uma medida que iria beneficiar os réus. Na prática, o que se vê é uma forma de garantir que fiquem em regime fechado – de qualquer maneira.
Os presos foram deslocados para a Papuda em dia de feriado nacional, num esforço obvio para usar seu infortúnio – a perda de liberdade é sempre um infortúnio para cidadãos convencidos de seu valor, certo? – como ilustração para um evento de propaganda.
Um preso como José Genoíno está proibido de dar entrevistas, o que atenta contra a liberdade de expressão.
Que privilégios são estes?
Na realidade, o que se quer é negar o direito de uma pessoa pelo fato de que nem sempre ele se encontra ao alcance de todos.
Equivale a obrigar um cidadão a pagar, como indivíduo, pelas irresponsabilidades e omissões acumuladas por gerações e gerações que estiveram a frente do Estado.
Qualquer calouro de ciência política sabe que, num país onde a distribuição de renda e a desigualdade seguem uma tragédia, a luta pela igualdade é necessária e positiva.
Mas, na situação atual, basta que os meios de comunicação, que definem o que é a opinião publicada, que muitos confundem com a opinião pública, tenham disposição de dar crédito a novilíngua quando ela convém. Pela falta de um componente indispensável a seu trabalho, o espírito críticos, eles referendam a manipulação do “privilégio” e do “privilegiado.”
Na ficção de Orwell, a função do ministério da Verdade era divulgar mentiras, não é mesmo?
Só quem nunca abriu um gibi de sociologia acredita que a vida real é um simples decalque das planilhas de renda do IBGE.
A experiência demonstra que uma pessoa pode ser privilegiada, do ponto de vista econômico e social, mas perseguida – até com violência – do ponto de vista político.
Milionário, o empresário Rubens Paiva foi preso, torturado e massacrado num ritual animalesco sob o regime militar.
Mortos com um tiro na nunca, na guerrilha do Araguaia, quando estavam desarmados e dominados, dezenas de militantes do PC do B haviam saído de famílias de classe média, tinham diplomas universitários e seriam, em comparação aos demais brasileiros, cidadãos privilegiados.
E até hoje o Estado brasileiro não foi capaz de dar qualquer notícia sobre o paradeiro de Rubens Paiva nem desses estudantes do Araguaia, situação que transforma a dor de seus familiares num sofrimento idêntico ao dos parentes de Amarildo, o humilde pedreiro torturado e morto pela PM numa favela do Rio de Janeiro em 2013.
Nenhum torturador de Rubens Paiva foi preso, nem julgado nem condenado. Idem para os estudantes do PC do B. Idem, possivelmente, para os carrascos de Amarildo.
Centenas de milhares de brasileiros são vítimas, todos os dias, da incompetência da policia para prender e controlar a violência de criminosos comuns. Milhões de mandados de prisão destinados a prender ladrões de automóvel, assaltantes de resistência, quadrilhas de sequestradores, não são cumpridos.
Vítimas de assalto e de roubo muitas vezes sequer se animam a fazer qualquer denúncia porque tem certeza de que será inútil – ou mesmo arriscado, caso tenham de identificar suspeitos.
Estrutura de classe? Privilégio?
Do playboy Doca Street ao doutor Osmany Ramos, sem falar em vários casos de médicos-monstro de nossos consultórios, e até banqueiros especialmente inescrupulosos, o inferno de nosso sistema prisional possui exemplos de habitantes dos degraus superiores que foram colocados atrás das grades. Embora a impunidade seja grande, vez por outra até figurões do judiciário são apanhados e denunciados.
O discurso contra o privilégio dos prisioneiros da ação penal 470 também alimenta uma operação de marketing político. É uma arma eleitoral, na realidade.
Procura associar a condição de riqueza e privilégio econômico a lideranças de um governo que tem um histórico reconhecido de combate a desigualdade na renda e na ampliação das oportunidades para os mais pobres. A tentativa é mostrar que todos os governos são iguais e que nenhum político tem valor.
É aquilo que os estudiosos chamam de desconstrução.
E assim voltamos ao período em que nasceu a novilíngua. Foi o tempo dos Grandes Expurgos, quando, através da violência e da ditadura, Josef Stalin eliminou uma geração inteira de combatentes e lideranças da vida política da antiga União Soviética e consolidou um poder absoluto que manteve até a morte, quase vinte anos depois.
“Morte aos cães!” gritava o procurador geral, Andrey Vichinsky. Aos condenados, punidos com a pena de morte, exigia-se que aceitassem suas penas, admitissem suas falhas, confessassem erros e, em especial, traições. Sim, esta palavra, traição, era essencial. O importante, de qualquer modo, era que morressem depois de confessar. Não podia haver ilusão quanto a seu destino na história. Estavam condenados e precisavam admitir sua culpa, sua falha, sua fraqueza.
É assim que, 80 anos depois, em outro país, em outro contexto, sob outro regime, se fala em privilégios e privilegiados. É uma parte importante dos combatentes da ditadura, onde se encontram, e eu duvido que seja pura coincidência, os mais decididos, mais resolutos, mais corajosos, aqueles que mais estiveram comprometidos com mudanças reais e com a construção de uma democracia de conteúdo social, aliada dos mais pobres, dos excluídos, dos negros, que devem ser silenciados.
Um quarto de século depois da democratização do país, os brasileiros convivem, pela primeira vez, com um sistema político onde a polarização política reflete, menos remotamente do que gostariam nossos sociólogos da aristocracia, uma certa divisão de interesses de classe na sociedade. Não vamos criar fantasias nem caricaturas. Todos sabemos dos limites e falhas inesquecíveis do governo Lula-Dilma desde 2003.
Mas eu acho difícil negar que, apesar disso, os brasileiros vivem uma situação nova na sociedade, onde as camadas inferiores obtiveram direitos e conquistas.
Deixo para os historiadores e os eruditos verdadeiros e independentes, que não estão na folha de pagamentos da novilíngua industrial, nem usam uma bola de cristal de uma cigana sobrancelhuda que só faz profecias para anunciar desastres, a tarefa de encontrar outro governo, em nossa história, que tenha demonstrado um empenho tão profundo com a preservação do emprego, a melhoria do consumo e a distribuição de renda. Num período de capitalismo de abismo, este é o grande diferencial, a primeira fronteira, o ponto de partida, a luta inicial. É a resistência, num universo onde economistas do Estado mínimo dizem que comer bife todo dia é extravagância.
É por causa disso que palavras fora do lugar, como “privilégio” e “privilegiados” têm tanta importância. É ali que está o alvo a ser atingido pela novilíngua.
Não são os prisioneiros, alguns competentes, outros trapalhões, outros as duas coisas. Talvez até haja corruptos entre eles, vamos admitir, até porque sabemos que podemos encontrar essas pessoas em todos os cantos de nosso universo político, em casos até mais cínicos e escancarados. Mas nós sabemos que, sem provas, isso é igual a nada.
O que se quer, muito simplesmente, é impedir o debate sereno de fatos e provas que podem mostrar o que houve – e não aquilo que se quer fazer acreditar que aconteceu no julgamento da AP 470.
Há muito tempo nós sabemos que o uso de palavras inadequadas é uma das formas menos inocentes e mais eficazes de manipulação política.
Permite esconder a realidade, confundir o cidadão comum e estimular reações que não têm apoio nos fatos.
Estudioso aplicado dos regimes stalinistas, a quem acusava de manipular uma ideologia igualitária criada pelo pensamento comunista para construir uma ditadura opressiva, George Orwell criou o termo novilíngua para explicar o fenômeno.
Com isso, explicava, era possível fazer uma coisa – e fingir que se praticava seu oposto.
Cinco décadas depois da morte de Josef Stalin, velhas técnicas stalinistas de propaganda foram despidas de sua origem primeira e servem a qualquer causa, a qualquer ideologia, mesmo a mais conservadora: esconder fatos desagradáveis, falhas humanas, gestos incoerentes, contradições e mesmo mentiras.
É tudo retórica. Seu método, no entanto, é o mesmo. Consiste em usar uma questão real para deformá-la ao sabor de propósitos e conveniências de momento.
No Brasil de 2013 a novilíngua está na primeira página dos jornais.
Empregar o termo “privilegiados” para se referir aos condenados na ação penal 470 e usar a expressão “privilégios” para se referir às condições no presídio da Papuda é prestar um favor desnecessário às autoridades comandadas por Joaquim Barbosa.
Um exame criterioso dos fatos mostra que, pelo contrário, desde o início o STF tomou um conjunto de medidas jurídicas que é adequado classificar como perseguição em vez de prestação de favor ou benefício indevido.
Já era absurdo falar em privilégio para cidadãos condenados num julgamento “exemplar” onde foram aceitas várias medidas excepcionais e nada exemplares. Para quem ainda fica surpreso quando lê isso, vamos recordar rapidamente. Quem já está cansado de ouvir os argumentos, pode pular para o final do item “F”.
A) Negou-se o direito a um duplo grau de jurisdição, garantia constitucional reservada a todo brasileiro que não tem foro privilegiado e assegurado aos mensaleiros PSDB-MG e também no DEM do Distrito Federal.
B) Na falta de provas capazes de demonstrar a culpa dos réus além de qualquer dúvida razoável, aceitou-se uma teoria exótica, do domínio do fato, que não tem a mais remota ligação com o caso em questão.
C) As penas foram agravadas artificialmente, em debates onde se disse, explicitamente, que a prioridade era garantir que os réus fossem encarcerados – e não que a justiça deveria ser feita.
D) Os réus foram acusados de desviar R$ 73,8 milhões do Banco do Brasil, mas a própria instituição nega, oito anos depois da denúncia, que qualquer centavo tenha sido extraído indevidamente de seus cofres.
E) Os petistas foram acusados de encobrir o esquema através de contratos fictícios com o Banco Rural, mas a Polícia Federal garante que foram verdadeiros e envolviam empréstimos reais.
F) investigações que poderiam ajudar na inocência de determinados réus até hoje se encontram sob segredo de justiça. O julgamento já acabou e o segredo continua.
Também é errado falar em privilégio na fase de execução das penas. Presos num feriado de 15 de novembro, até hoje réus com direito a cumprir pena em regime semiaberto são mantidos em regime fechado – a última novidade é avisar que mesmo quem tiver conseguido trabalho fora da prisão deverá, em nome da ”igualdade”, aguardar no fim da fila pelo exame de seus pedidos. Sabemos o que isso significa, certo? Também sabemos que o fatiamento dos mandatos de prisão foi anunciado como uma medida que iria beneficiar os réus. Na prática, o que se vê é uma forma de garantir que fiquem em regime fechado – de qualquer maneira.
Os presos foram deslocados para a Papuda em dia de feriado nacional, num esforço obvio para usar seu infortúnio – a perda de liberdade é sempre um infortúnio para cidadãos convencidos de seu valor, certo? – como ilustração para um evento de propaganda.
Um preso como José Genoíno está proibido de dar entrevistas, o que atenta contra a liberdade de expressão.
Que privilégios são estes?
Na realidade, o que se quer é negar o direito de uma pessoa pelo fato de que nem sempre ele se encontra ao alcance de todos.
Equivale a obrigar um cidadão a pagar, como indivíduo, pelas irresponsabilidades e omissões acumuladas por gerações e gerações que estiveram a frente do Estado.
Qualquer calouro de ciência política sabe que, num país onde a distribuição de renda e a desigualdade seguem uma tragédia, a luta pela igualdade é necessária e positiva.
Mas, na situação atual, basta que os meios de comunicação, que definem o que é a opinião publicada, que muitos confundem com a opinião pública, tenham disposição de dar crédito a novilíngua quando ela convém. Pela falta de um componente indispensável a seu trabalho, o espírito críticos, eles referendam a manipulação do “privilégio” e do “privilegiado.”
Na ficção de Orwell, a função do ministério da Verdade era divulgar mentiras, não é mesmo?
Só quem nunca abriu um gibi de sociologia acredita que a vida real é um simples decalque das planilhas de renda do IBGE.
A experiência demonstra que uma pessoa pode ser privilegiada, do ponto de vista econômico e social, mas perseguida – até com violência – do ponto de vista político.
Milionário, o empresário Rubens Paiva foi preso, torturado e massacrado num ritual animalesco sob o regime militar.
Mortos com um tiro na nunca, na guerrilha do Araguaia, quando estavam desarmados e dominados, dezenas de militantes do PC do B haviam saído de famílias de classe média, tinham diplomas universitários e seriam, em comparação aos demais brasileiros, cidadãos privilegiados.
E até hoje o Estado brasileiro não foi capaz de dar qualquer notícia sobre o paradeiro de Rubens Paiva nem desses estudantes do Araguaia, situação que transforma a dor de seus familiares num sofrimento idêntico ao dos parentes de Amarildo, o humilde pedreiro torturado e morto pela PM numa favela do Rio de Janeiro em 2013.
Nenhum torturador de Rubens Paiva foi preso, nem julgado nem condenado. Idem para os estudantes do PC do B. Idem, possivelmente, para os carrascos de Amarildo.
Centenas de milhares de brasileiros são vítimas, todos os dias, da incompetência da policia para prender e controlar a violência de criminosos comuns. Milhões de mandados de prisão destinados a prender ladrões de automóvel, assaltantes de resistência, quadrilhas de sequestradores, não são cumpridos.
Vítimas de assalto e de roubo muitas vezes sequer se animam a fazer qualquer denúncia porque tem certeza de que será inútil – ou mesmo arriscado, caso tenham de identificar suspeitos.
Estrutura de classe? Privilégio?
Do playboy Doca Street ao doutor Osmany Ramos, sem falar em vários casos de médicos-monstro de nossos consultórios, e até banqueiros especialmente inescrupulosos, o inferno de nosso sistema prisional possui exemplos de habitantes dos degraus superiores que foram colocados atrás das grades. Embora a impunidade seja grande, vez por outra até figurões do judiciário são apanhados e denunciados.
O discurso contra o privilégio dos prisioneiros da ação penal 470 também alimenta uma operação de marketing político. É uma arma eleitoral, na realidade.
Procura associar a condição de riqueza e privilégio econômico a lideranças de um governo que tem um histórico reconhecido de combate a desigualdade na renda e na ampliação das oportunidades para os mais pobres. A tentativa é mostrar que todos os governos são iguais e que nenhum político tem valor.
É aquilo que os estudiosos chamam de desconstrução.
E assim voltamos ao período em que nasceu a novilíngua. Foi o tempo dos Grandes Expurgos, quando, através da violência e da ditadura, Josef Stalin eliminou uma geração inteira de combatentes e lideranças da vida política da antiga União Soviética e consolidou um poder absoluto que manteve até a morte, quase vinte anos depois.
“Morte aos cães!” gritava o procurador geral, Andrey Vichinsky. Aos condenados, punidos com a pena de morte, exigia-se que aceitassem suas penas, admitissem suas falhas, confessassem erros e, em especial, traições. Sim, esta palavra, traição, era essencial. O importante, de qualquer modo, era que morressem depois de confessar. Não podia haver ilusão quanto a seu destino na história. Estavam condenados e precisavam admitir sua culpa, sua falha, sua fraqueza.
É assim que, 80 anos depois, em outro país, em outro contexto, sob outro regime, se fala em privilégios e privilegiados. É uma parte importante dos combatentes da ditadura, onde se encontram, e eu duvido que seja pura coincidência, os mais decididos, mais resolutos, mais corajosos, aqueles que mais estiveram comprometidos com mudanças reais e com a construção de uma democracia de conteúdo social, aliada dos mais pobres, dos excluídos, dos negros, que devem ser silenciados.
Um quarto de século depois da democratização do país, os brasileiros convivem, pela primeira vez, com um sistema político onde a polarização política reflete, menos remotamente do que gostariam nossos sociólogos da aristocracia, uma certa divisão de interesses de classe na sociedade. Não vamos criar fantasias nem caricaturas. Todos sabemos dos limites e falhas inesquecíveis do governo Lula-Dilma desde 2003.
Mas eu acho difícil negar que, apesar disso, os brasileiros vivem uma situação nova na sociedade, onde as camadas inferiores obtiveram direitos e conquistas.
Deixo para os historiadores e os eruditos verdadeiros e independentes, que não estão na folha de pagamentos da novilíngua industrial, nem usam uma bola de cristal de uma cigana sobrancelhuda que só faz profecias para anunciar desastres, a tarefa de encontrar outro governo, em nossa história, que tenha demonstrado um empenho tão profundo com a preservação do emprego, a melhoria do consumo e a distribuição de renda. Num período de capitalismo de abismo, este é o grande diferencial, a primeira fronteira, o ponto de partida, a luta inicial. É a resistência, num universo onde economistas do Estado mínimo dizem que comer bife todo dia é extravagância.
É por causa disso que palavras fora do lugar, como “privilégio” e “privilegiados” têm tanta importância. É ali que está o alvo a ser atingido pela novilíngua.
Não são os prisioneiros, alguns competentes, outros trapalhões, outros as duas coisas. Talvez até haja corruptos entre eles, vamos admitir, até porque sabemos que podemos encontrar essas pessoas em todos os cantos de nosso universo político, em casos até mais cínicos e escancarados. Mas nós sabemos que, sem provas, isso é igual a nada.
O que se quer, muito simplesmente, é impedir o debate sereno de fatos e provas que podem mostrar o que houve – e não aquilo que se quer fazer acreditar que aconteceu no julgamento da AP 470.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Mandela, Cuba e a hipocrisia da direita
Ver as demonstrações de afeto que diversos líderes mundiais deram a Nelson Mandela mostra como a história é hipócrita.
Tanto aqui no Brasil como lá na África do Sul, os fascistas alcunhavam aqueles que lutavam contra um regime ditatorial de “terroristas”. A si mesmos, obviamente, os combatentes contra os regimes de exceção viam-se como revolucionários.
Porém, agora nenhum dos que chamavam Mandela de terrorista veio repetir seu infame discurso – aqui no Brasil, onde nunca tiveram as asinhas cortadas, os fascistas ainda são saudados pelos kkkoxinhas.
Parece mesmo que não havia quem defendesse o regime horrível do apartheid da África do Sul. Onde estão eles? Em que caverna, em que cova, em que buraco se esconderam?
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Outra coisa a se lembrar é que o regime do apartheid só existiu devido ao apoio internacional de três nações: Estados Unidos, Inglaterra e Israel (sempre eles).
Toda vez que tiveres alguma dúvida sobre algum fato da política externa, basta ver o que estes três países estão defendendo – eles estão onde sempre estiveram, representam os mesmos interesses e possuem o mesmo conteúdo ideológico, alterando-se minimamente a forma como implementarão sua ideologia.
Toda vez que tiveres alguma dúvida sobre algum fato da política externa, basta ver o que estes três países estão defendendo – eles estão onde sempre estiveram, representam os mesmos interesses e possuem o mesmo conteúdo ideológico, alterando-se minimamente a forma como implementarão sua ideologia.
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| Nelson Mandela e Fidel Castro: de acordo com a direita, dois "terroristas" |
Por fim, também foi “esquecido” pelos donos do poder o papel fundamental de Cuba na emancipação dos países africanos. Para auxiliar na resistência contra o exército racista do apartheid, a ilha que não se curva enviou ao longo dos anos 350 mil homens e mulheres a Angola e Namíbia e, no momento mais decisivo do conflito, 50 mil combatentes cubanos auxiliavam o exército de resistência angolano. Segundo o próprio Mandela, a batalha de Cuito Canavale foi o ponto de inflexão essencial na luta contra o apartheid. “Sem a derrota do exército racista em Cuito Cuanavale, nossas organizações nunca teriam sido legalizadas”, afirmou Mandela em sua visita a Cuba, em 1991. E seguiu: “O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África. A decisiva derrota infligida em Cuito Cuanavale alterou a correlação de forças na região. A derrota das forças agressoras da apartheid destruiu o mito da invencibilidade do opressor branco”.
No blogdangola podemos ler:
Sem dúvida, a luta de libertação da Namíbia também recebia um grande impulso, e dois anos mais tarde, este país também declararia a sua Independência. Entretanto, o governo racista de Botha preocupava-se, pois pela potência e envergadura da estratégia armada por Cuba no sul de Angola chegou a imaginar que as tropas cubanas pudessem dirigir-se rumo ao sul, ou seja, rumo a Pretória. Na fuga, as tropas racistas bombardearam pontes, revelando medo de uma ofensiva rumo ao sul. Enquanto as batalhas ocorriam, com sucessivas derrotas impostas às tropas da África do Sul, ocorriam no âmbito da ONU as famosas negociações em busca de um acordo, negociações em que os representantes dos EUA exibiam toda sua hipocrisia. Mas, há um diálogo que merece ser relembrado, quando o representante do regime racista nestas negociações pergunta ao representante de Cuba, Jorge Risquet, se havia a intenção de uma ação militar rumo ao Sul, a resposta é dessas que entram para os anais de história militar: "Se eu lhe disser que vamos rumo ao Sul isto seria tomado como uma ameaça, se eu lhe disser que não vamos rumo ao sul, isto seria para vocês um calmante". Deixou o racista atônito e confuso. E em outra oportunidade deu o toque de realismo que a arrogância sul-africana não queria reconhecer. "A África do Sul não tem condições de impor na mesa de negociações uma situação de vantagem quando no campo de batalha está sendo fragorosamente derrotada." De fato, os negociadores sul-africanos diziam que se retirariam "para a Namíbia". A história foi diferente, tiveram que sair também da Namíbia.
(...)
Como disse Mandela, em Cuito Cuanavale se deu a virada. Mas, uma virada marcada pela consciência das tropas cubanas de serem a continuidade histórica do internacionalismo proletário, de fazerem reviver o brado heroico de Stalingrado, de retomarem o exemplo revolucionário das massas vietnamitas que também derrotaram os EUA. Para a África Cuba enviou negros, brancos e mestiços alfabetizados, cultos, um exército bem treinado, com consciência socialista, e que não esteve em Angola para rapinar petróleo ou de diamante, como hoje fazem de modo selvagem e assassino as tropas norte-americanas no Iraque. E a solidariedade cubana com a África não se esgotou naquela histórica epopeia militar: hoje milhares de médicos e professores cubanos trabalham em dezenas de países africanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o contingente de médicos cubanos na África supera o número de médicos que todos países ricos somados têm hoje naquele continente que tanto rapinaram....Por isso, é indispensável um debate mais aprofundado sobre o papel de Cuba e Angola na luta contra o apartheid, pois, não faz nenhum sentido falar da luta contra o racismo desconhecer esta contribuição, ignorar a dimensão histórica da Batalha de Cuito Cuanavale e, ao mesmo tempo, tomar como exemplo de luta anti-racial o modelo norte-americano, quando foram os EUA os principais sustentadores do apartheid.
Os que apoiaram o regime do apartheid estão no esgoto da história, local fartamente habitado pela direita mundial.
***
Tive a oportunidade de conhecer em minha visita a Cuba um dos combatentes que serviu na África. Este me compartilhou que quando findara a batalha em Angola e a revolução conseguira desmantelar o exército racista, eles seguiram para a fronteira da África do Sul, e exigiram o fim do apartheid, senão, a guerra seguiria dentro das fronteiras sul-africanas.
Com suas fortes pressões internas, ausência de apoio internacional e a guerra batendo as portas, a minoria branca sul-africana resolveu ceder e acabar com o apartheid.
Mas este fato você não verá no jornal.
Hoje em Pretória, capital da África do Sul, existe um memorial onde estão gravados 95 mil nomes de combatentes mortos na guerra de libertação. 2107 são cubanos.
P.S: é de se lembrar o papel que a Naspers empresa de telecomunicações com histórico amplo de sustentação do regime racista teve na história sul-africana. Hoje ela é acionista da editora abril, ou seja, esta no lugar certo.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Barbosa e o viés autoritário - por Marcos Coimbra (CartaCapital)
Quem lida com pesquisa de opinião vê o aumento do número de eleitores que dizem odiar algo ou tudo na política
A figura de Joaquim Barbosa faz mal à cultura política brasileira. Muito já se falou a respeito de como o atual presidente do Supremo conduziu o julgamento da Ação Penal 470, a que trata do “mensalão”. Salvo os antipetistas radicais, que ficaram encantados com seu comportamento e o endeusaram, a maioria dos comentaristas o criticou.
Ao longo do processo, Barbosa nunca foi julgador, mas acusador. Desde a fase inicial, parecia considerar-se imbuído da missão de condenar e castigar os envolvidos a penas “exemplares”, como se estivesse no cumprimento de um desígnio de Deus. Nunca mostrou ter a dúvida necessária à aplicação equilibrada da lei. Ao contrário, revelou-se um homem de certezas inabaláveis, o pior tipo de magistrado.
Passou dos limites em seu desejo de vingança. Legitimou evidências tênues e admitiu provas amplamente questionáveis contra os acusados, inovou em matéria jurídica para prejudicá-los, foi criativo no estabelecimento de uma processualística que inibisse a defesa, usou as prerrogativas de relator do processo para constranger seus pares, aproveitou-se dos vínculos com grande parte da mídia para acuar quem o confrontasse.
Agora, depois da prisão dos condenados, foi ao extremo de destituir o juiz responsável pela execução das penas: parece achá-lo leniente. Queria dureza.
Barbosa é exemplo de algo inaceitável na democracia: o juiz que acha suficientes suas convicções. Que justifica sua ação por pretensa superioridade moral em relação aos outros. E que, ao se comportar dessa forma, autoriza qualquer um a pegar o porrete (desde que se acredite “certo”).
Sua figura é negativa, também por um segundo motivo.
Pense em ser candidato a presidente da República ou não, Barbosa é um autêntico expoente de algo que cresceu nos últimos anos que pode se tornar um grave problema em nossa sociedade, o sentimento de ódio na política.
Quem lida com pesquisas de opinião, particularmente as qualitativas, vê avolumar-se o contingente de eleitores que mostram odiar alguma coisa ou tudo na política. Não a simples desaprovação ou rejeição, o desgostar de alguém ou de um partido. Mas o ódio.
É fácil constatar a difusão do fenômeno na internet, particularmente nas redes sociais. Nas postagens a respeito do cotidiano da política, por exemplo sobre a prisão dos condenados no “mensalão”, a linguagem de muitos expressa intenso rancor: vontade de matar, destruir, exterminar. E o mais extraordinário é que esses indivíduos não estranham suas emoções, acham normal a violência.
Não se espantam, pois veem sentimentos iguais na televisão, leem editorialistas e comentaristas que se orgulham da boçalidade. Os odientos na sociedade reproduzem o ódio que consomem.
Isso não fazia parte relevante de nossa cultura política até outro dia. Certamente houve, mas não foi típico o ódio contra os militares na ditadura. Havia rejeição a José Sarney, mas ninguém queria matá-lo. Fernando Collor subiu e caiu sem ser odiado (talvez, apenas no confisco da poupança). Fernando Henrique Cardoso terminou seu governo reprovado por nove entre dez brasileiros, enfrentou oposição, mas não a cólera de hoje.
O ódio que um pedaço da oposição sente atualmente nasce de onde? Da aversão (irracional) às mudanças que nossa sociedade experimentou de Lula para cá? Do temor (racional) que Dilma Rousseff vença a eleição de 2014? Da estupidez de acreditar que nasceram agora problemas (como a corrupção) que inexistiam (ou eram “pequenos”)? Da necessidade de macaquear os porta-vozes do conservadorismo (como acontece com qualquer modismo)?
Barbosa é um dos principais responsáveis por essa onda que só faz crescer. Consolidou-se nesse posto nada honroso ao oferecer ao País o espetáculo do avião com os condenados do “mensalão” rumo a Brasília no dia 15 de novembro. Exibiu-o apenas para alimentar o ódio de alguns.
A terceira razão é que inventou para si uma imagem nociva à democracia. O papel que encena, de justiceiro implacável e ferrabrás dos corruptos, é profundamente antipedagógico.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
A imprensa e o suposto caso de tráfico - por Jornalismo Wando (Yahoo!)
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| Foto: Divulgação/Polícia Militar |
"se o helicóptero fosse de alguém do PT, seria abertura do Jornal Nacional". Rarará!"
Pesquisei o assunto com cuidado e posso garantir aos meus leitores que trata-se do mais absoluto trololó. Vamos aos fatos: Gustavo Perrella, deputado estadual mineiro pelo Solidariedade e filho do senador Zezé Perrella, foi traído por um de seus melhores funcionários. Infelizmente, o empregado abusou da confiança - e vocês sabem como está complicada essa gente hoje em dia! - e foi flagrado usando o helicóptero particular de Perrella para transportar quase meia tonelada de pasta de cocaína.
A confiança que o deputado depositava no piloto era tanta que chegou a lhe empregar numa das empresas da família, além de indicá-lo para um cargo na Assembleia Legislativa de Minas. Lá ele ganhava um salário e uma ajuda de custo pra encher o tanque do possante voador de Perrelinha.
O deputado mineiro foi tão surpreendido com a barbaridade que estava sendo cometida em sua aeronave, que imediatamente acusou o piloto de outro crime: o roubo do helicóptero. Diante do desmentido do funcionário, Perrela subitamente lembrou que havia autorizado aquela viagem através de duas mensagens de celular, e então mudou sua versão. Admitiu que a aeronave não tinha sido roubada e confirmou a liberação do transporte de "insumos agrícolas".
Bom, por que a acusação dirigida a nós da grande imprensa é injusta? Ora, com Dirceu, Delúbio e Genoíno presos, estádios da Copa desabando, e todo o caos político, econômico e social que vivemos, um caso desses automaticamente ganha menor importância. Um simples piloto que trafica drogas escondido do patrão não é e não deve ser um assunto do interesse público.
Eu e outros colegas da imprensa, por exemplo, mal estávamos "acompanhando esse caso":
Entenderam por que não damos tanto destaque ao assunto? Isso é papo de piloto, uma pauta no máximo para o jornalismo especializado em aviação civil, não para quem cobre os acontecimentos políticos do dia a dia.
Perguntam também o que nos levou a abafar um suposto escândalo de 2011 envolvendo a família de Aécio Neves, apenas porque esta é intimamente ligada à família Perrella. Conto-lhes mais este trololó: Tancredo Aladin Rocha Tolentino, primo de Aécio, carinhosamente conhecido como "Quêdo", foi preso por chefiar uma quadrilha acusada de vender absolvições para traficantes de drogas, além de ter sido condenado em 97 por crime contra o patrimônio e contra a economia popular. Quase na mesma época, outro primo de Aécio, Rogério Lanza Tolentino, havia sido condenado a 7 anos e 4 meses de prisão por lavagem de dinheiro. Todos esses assuntos não tiveram destaque no Jornal Nacional, não tocaram na CBN e não foram analisadas na A2 da Folha. Claro! As provas contra eles são escassas. Isso fica claro quando constatamos que Quêdo conseguiu um habeas corpus e, logo em seguida, tentou sair candidato à prefeitura de Claudio (MG) pelo PV, quando foi barrado pelo Ficha Limpa.
Poucos sabem, mas Quêdo é uma pessoa muito família, um cara do bem. Organiza as cavalgadas com familiares seus (e dos Perrella) em sua fazenda, comanda a cachaçaria da família Neves em Cláudio (MG) e sempre foi muito querido por todos da região. Quando Aécio caiu do cavalo quebrando 5 costelas, quem estava lá oferecendo o ombro amigo? Ele, o dono da fazenda, o primão Quêdo.
Mas o que o helicóptero de Perrellinha fazendo tráfico internacional* tem a ver com Aécio Neves, que indicou Zezé Perrella para o Senado e cujo primo vendia absolvição para traficantes de drogas? Absolutamente nada. Mas, claro, os patrulhadores da pauta alheia insistem em enxergar nuvens nesse céu de brigadeiro. Tudo isso para tirar foco do que realmente interessa: a prisão dos mensaleiros e os escândalos que a envolve. A gente sabe muito bem como se comporta essa gente chicaneira. #AcordaBrazil
* (atualização via @rei_lux) "Faltou informar que o helipóptero fez uma parada em Divinópolis, onde o primo Tancredinho (Quêdo) liberava traficantes."
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Como o PSDB se tornou a nova UDN - por Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)
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| Minilacerdas |
E o PSDB virou, no ocaso de seus líderes históricos, a versão pós-moderna da UDN.
A UDN, em sua inglória, desprezível, abjeta existência, funcionou assim: perseguiu o poder e, na falta de votos, conspirou contra a democracia. Esteve por trás de dois golpes contra presidentes populares: Getúlio Vargas e João Goulart.
A UDN, como o PSDB hoje, representava o interesse do chamado 1%. Era a direita, em suma. Não a direita civilizada que você tem em países adiantados como a França e a Inglaterra, para não falar da Escandinávia, mas a direita predadora típica da América do Sul.
Como o PSDB, a UDN tinha a mídia na mão: Roberto Marinho, os Mesquitas e outros varões de Plutarco, aspas e pausa para rir.
Uma única vez a UDN chegou ao poder pelos votos. Indiretamente, na verdade. Foi em 1961, quando trouxe para seu lado, numa aliança de ocasião, um demagogo histriônico chamado Jânio Quadros.
Mas Jânio logo se cansou da tutela da UDN, e fez coisas que a desagradaram profundamente, como condecorar Che Guevara.
Lacerda, o Corvo, começou a atormentar Jânio, e este depois de sete meses renunciou. Terminava assim a breve estada da UDN no poder, pelas mãos de Jânio.
O sucessor de Jânio, João Goulart, o Jango, foi triturado pela UDN, que batera às portas dos quarteis para chamar os militares e recorrera à CIA para garantir o sucesso do golpe que planejava.
Os crimes de Jango: quando ministro do Trabalho de Getúlio, ele fez com que os empresários recorressem não à polícia para tratar de questões trabalhistas, mas que negociassem com os sindicatos.
Presidente, criou o 13º salário, que o Globo, em manchete, disse que era uma calamidade nacional.
O golpe militar tramado pela UDN deu errado para ela. Os militares gostaram do poder. Lacerda acabaria cassado, e pateticamente foi atrás de Jango para uma aliança contra os generais que não lhe deram a presidência na bandeja, como ele queria.
A UDN foi dissolvida pelos militares, e repousa hoje na lata de lixo.
Meio século depois, o PSDB acabou por fazer as vezes dela.
O PSDB não tem ninguém com a oratória brilhante – embora nefasta – de Lacerda. Tem apenas minilacerdas, o mais abominável dos quais é Serra e o mais velho, FHC.
Como a UDN, o PSDB também não tem ninguém capaz de ganhar uma eleição presidencial. A saída é procurar algum novo Jânio.
Mas quem?
O nome mais óbvio é Joaquim Barbosa. Só que Joaquim Barbosa não é Jânio. Ou melhor: é Jânio em parte. Tem os defeitos de Jânio, como a megalomania e o apego fanático aos holofotes, mas não as virtudes políticas de Jânio.
Jânio falava a linguagem do povo, se vestia como o homem simples da rua, e cuidava até da caspa que o aproximava do cidadão simples. JB tem uma linguagem que ele próprio não parece entender. É empolado, confuso. E quer ser parecido, ao contrário de Jânio, não com o brasileiro médio, mas com a plutocracia. Até apartamento em Miami ele comprou.
Mas, no desespero, o PSDB parece ver em JB o novo Jânio. Rumores dão conta de que Aécio o estaria cortejando para uma chapa.
É uma aliança previsível: a direita busca os seus iguais.
Mas JB, repito, não é Jânio. No jogo das similitudes, o PSDB sim é a UDN.
E isso é uma tragédia não para o Brasil, porque as circunstâncias de hoje são bem diferentes das de 1954 e de 1954 – mas para o próprio PSDB.
Como a UDN, a posteridade o colocará no devido lixo reservado àqueles que defendem os interesses de uma rarefeita elite que levou o Brasil a ser um dos recordistas mundiais de desigualdade social.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Ponto fora da democracia - por Marcelo Zero (IstoÉ)
O julgamento do mensalão não foi apenas algo fora da curva. Foi uma afronta à retidão
“Um ponto fora da curva”. Foi assim que o Ministro Barroso, do STF, definiu a AP 470 em sua sabatina no Senado.
O então candidato à nossa suprema corte foi elegante, como sempre. Talvez demasiadamente. Muitos consideram que a sua definição é apenas um eufemismo para coisa bem mais grave.
Com efeito, a AP 470 já tinha começado torta, fora da curva, com a negativa do desmembramento, e está terminando com uma série de irregularidades destinadas a propiciar um espetáculo midiático, com a humilhação pública dos acusados. Um final convenientemente distorcido para um começo torto.
Entre um e outro ocorreu de tudo: timing político-eleitoral das condenações, acusações sem provas, humilhações públicas do Ministro Lewandowski, declarações políticas em votos que deveriam espelhar a imparcialidade da justiça e, last but not least, a transformação do domínio do fato na tirania da hipótese pré-estabelecida.
Assim sendo, ponto fora da curva é pouco. Não foi apenas algo fora da curva. Foi afronta à retidão. Não foi mera exceção. Foi julgamento de exceção. Ou praticamente isso.
Fez-se justiça? Não, não se fez justiça. Justiça pressupõe equilíbrio e, sobretudo, imparcialidade. Não houve nem uma coisa nem outra. Justiça e procuradores que prendem Genoino, um homem doente e sem posses, mas que sequer investigam fatos muito mais graves e bem mais polpudos que um mero exemplo do usual caixa dois de campanha, esquecendo-os dentro de providenciais gavetas, não parecem imparciais. Tampouco equilibrados. As condenações da AP 470 excedem bastante os ilícitos que efetivamente foram comprovados.
O julgamento deixou algum legado positivo? Não. Ao contrário do que alguns disseram, a AP 470 não inaugura uma nova era de “poderosos na cadeia”. Só os mais rematados panglossianos, aqueles que vivem dizendo que o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, poderiam acreditar que o “julgamento” teve como propósito real o combate efetivo à corrupção e à impunidade. Os verdadeiramente poderosos, aqueles que tradicionalmente fazem a ponte entre o poder econômico e o poder político, continuarão a desfrutar da sua também tradicional impunidade, assegurada pelas gavetas oportunas e pela óbvia parcialidade daquilo que Gramsci denominava de “o partido do capital”.
Entretanto, para aqueles que não fazem parte desse seleto grupo, ou que não contam com sua simpatia, a AP 470 criou um precedente perigoso. A menor suspeita, a mais ínfima ofensa poderá agora ser draconianamente punida com penas elevadas, com domínio do fato e sem provas cabais. É o predomínio das conveniências políticas sobre os direitos fundamentais. É a definitiva “judicialização” da política, ou a politização da justiça, como queiram. Nesse sentido, o “julgamento” enfraqueceu o Estado de Direito.
Porém, isso não é o mais preocupante. Na realidade, o que preocupa mais é que esse “ponto fora da curva” representa sintoma de algo consideravelmente mais grave: a radicalização do processo político no Brasil e a deturpação de nossa democracia.
Basta ver a repercussão da AP 470 na mídia e na internet para ver que algo está profundamente errado no país. A caixa de Pandora aberta nas redes sociais revela um bestiário atemorizante. O ódio ao PT, aos “mensaleiros” e à esquerda em geral se mistura à indignação seletiva e oportunista para compor um quadro de radicalização à direita que lembra a Munique dos anos 20 ou o Rio de Janeiro de 1964. Sem exageros.
Nas eleições de 2010, já tínhamos visto uma avant-première desse protofascismo impudico. Naquele ano, a candidatura conservadora assumiu claros ares de um Tea Party tupiniquim, com direito à mistura de fundamentalismo religioso com ressentimento político. No entanto, agora a coisa parece ter saído definitivamente de controle. O ódio ao PT e ao seu governo atingiu um paroxismo vulcânico, com uivadas promessas de “varrer”, de “acabar”, de “exterminar” com a “raça de petistas e comunistas”.
O irônico é que todo esse ressentimento não foi provocado por um mau governo, mas pelo fenômeno contrário: o PT, “penetra” na estrutura do poder no Brasil, fez e faz, em linhas gerais, um governo muito bom, que rende aos seus titulares índices de popularidade bem superiores aos de seus antigos adversários. O “penetra” virou a estrela da festa. Isso é imperdoável.
Evidentemente, tal ressentimento, tal ódio destrutivo, não preocuparia se ficasse restrito às miasmas digitais. Contudo, ele se espraia vitoriosamente pela mídia, pelos partidos de oposição e até mesmo por algumas instituições importantes para a democracia. O STF não parece exceção.
O nosso sistema político está hoje contaminado por essa nova cultura do ressentimento, que não identifica adversários a serem eventualmente superados em debates e pleitos eleitorais, mas inimigos que precisam ser exterminados a qualquer custo. Recentemente, uma conhecida pré-candidata, em tese adepta de uma “nova política”, teria afirmado que seu objetivo principal era “acabar com o PT e o chavismo que tomou conta do Brasil”. Brave new politics.
Esse fenômeno é muito inquietante. A democracia tem a capacidade de conviver bem com as diferenças e de intermediar conflitos de interesses. Ralf Dahrendorf, grande teórico do conflito, afirmava que tal capacidade de conviver com os embates era a grande fortaleza das modernas democracias. Contudo, esse novo radicalismo à droit, que impede o diálogo e a convivência democrática com o conflito de interesses, tende a ressuscitar o anacrônico golpismo, sob inéditas roupagens.
Na América Latina, as recentes experiências de governos de centro-esquerda têm levado, em alguns casos, a tentativas, bem-sucedidas ou não, de golpes de Estado “constitucionais” e “jurídicos” e a um clima permanente de tensão que compromete a governabilidade e a convivência democrática entre forças políticas adversárias O Brasil parecia infenso a essa tendência. Não parece ser mais o caso. Não há golpe à vista, mas a saudável convivência com as divergências e as diferenças foi substituída por essa patologia política.
Nesse quadro, há uma clara degradação da democracia brasileira e um evidente rebaixamento do debate político. Na ausência de propostas alternativas às do governo atual, algumas forças de oposição, dentro e fora do Congresso, se limitam a gritar o vazio moralista de um neoudenismo casuístico. Esse filme é velho. Seu final também.
A política brasileira está num perigoso ponto fora da curva da saudável democracia. Há gente que, embora deteste o “chavismo”, vem se esforçando para que o processo político brasileiro se iguale ao da Venezuela.
O ano de 2014 está chegando. Teremos um novo teste para a nossa democracia. Seria bom que todas as forças democráticas voltassem a debater, em alto nível (alguém se lembra disso?), os destinos do país, em vez de se digladiarem em torno de uma paupérrima e estéril agenda de delegacia de polícia. A reforma política seria um bom começo.
Afinal, quem quer que resulte vitorioso em 2014 será obrigado a fazer coalizões, a repartir cargos e responsabilidades e a conviver democraticamente com a oposição. Com domínio do fato e tudo o mais.
Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais para Universidade de Brasília e assessor legislativo da bancada do PT no Senado
Comentário
Algo tocado de leve no texto é que, de fato, DEPOIS do escândalo do mensalão as coisas ficaram muito mais graves do ponto de vista ético para o governo do PT do que antes, e não o contrário, como a direita rançosa quer fazer crer. O escândalo do mensalão não ajudou em absolutamente nada, nem do ponto de vista da corrupção, nem do ponto de vista ético, nem do ponto de vista das instituições, tampouco para o sentimento de justiça, não ajudou em nada, absolutamente nada.
Depois da deflagração do escândalo, por conta do risco de impeachment que o Lula sofreu durante as CPI's do fim do mundo, para se proteger, ele aumentou a base aliada de maneira absolutamente despropositada, arrebanhando setores pra lá de fisiológicos. Já havia quem não prestava na composição do governo, mas depois do mensalão, passaram a comer na mesa pessoas que o PT não conseguia sequer deixar entrar em casa. Os corruptos passaram a deitar e rolar.
A tal "governabilidade" virou um monstro capaz de devorar qualquer política programática do governo.
O que o escândalo do mensalão legou? Por um lado, uma base de governo mais fisiológica e corrupta. Por outro lado, uma ainda maior desesperança da população com a política. E só.
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