quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Entrevistas históricas: Georges Simenon entrevista Leon Trótski em 1933 - por Socialista Morena
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| Leon Trótski em seu escritório em Prinkipo, Turquia, ao redor de 1930. Foto: David King Collection |
“O fascismo não é provocado por uma psicose ou ‘histeria’, mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade”. Pronunciadas em 1933, as palavras de Leon Trótski (1879-1940) soam mais atuais do que nunca diante do recrudescimento dos partidos neonazistas na Europa novamente em crise. O revolucionário russo estava em seu desterro de quatro anos na Turquia quando foi entrevistado pelo então jovem escritor belga Georges Simenon (1903-1989).
Simenon tinha acabado de criar seu mais célebre personagem, o inspetor Maigret, que marcaria presença em mais de 70 romances e 30 contos do escritor. Atuava como correspondente para o jornal Paris-Soir e corria o mundo escrevendo reportagens, uma hora na África, outra na União Soviética, ou nas ilhas Príncipe (Prinkipo), onde vai encontrar Trótski vivendo uma tranquila vida de aposentado que não duraria muito: em seguida partiria para a França e de lá para a Noruega, de onde seguiria para o México encontrar a morte, encomendada pelo rival Stalin.
As análises de Trótski, judeu, sobre raça, e a previsão, seis anos antes, de que a Alemanha de Hitler iria levar a Europa à guerra demonstram sua profunda visão estratégica e o desprezo dos comunistas pelos conceitos e “ideias” nazistas. O texto de Simenon, é claro, flui deliciosamente, como as águas azuis e tranquilas que cercam a ilha e que ele, amante do mar, faz questão de destacar. Quanto o jornalismo de hoje tem a aprender com o passado… Eu traduzi para vocês (original aqui). De bônus, um documentário feito na Turquia sobre a passagem de Trótski por lá, narrado pela atriz Vanessa Redgrave. Espero que desfrutem.
Com Trótski
Por Georges Simenon
(publicado pelo Paris-Soir nos dias 16 e 17 de junho de 1933)
Encontrei Hitler dez vezes no Kaiserhof quando, tenso e febril, já chanceler, fazia sua campanha eleitoral. Vi Mussolini contemplar incansavelmente um desfile de milhares de jovens. E uma tarde em Montparnasse reconheci Gandhi em uma silhueta branca que caminhava colada ao muro, seguido por jovenzinhas fanáticas.
Para entrevistar Trótski eu me vi na ponte que conecta a velha e a nova Constantinopla, Istambul e Gálata, uma ponte mais cheia de gente que a Pont-Neuf em Paris. Por que tenho a sensação de um bonito domingo no Sena perto de St. Cloud, Bougival ou Poissy? Não sei.
Todos os barcos ao redor dos piers emaranhados me lembram bateaux-mouches. Eles são maiores? Certamente. Há inclusive um ar marinho, e as hélices batem contra a água salgada. Mas é uma questão de proporção. O cenário inteiro é mais vasto, o próprio céu é mais distante.
Aqui uma margem é chamada Europa e a outra, Ásia. No lugar dos rebocadores e barcaças do Sena há muitos navios de carga e de passageiros com bandeiras de todos os países do mundo que saem para o Mar Negro ou navegam através do Dardanelos.
Qual a importância disso? Eu mantenho minha impressão de um domingo bonito, de subúrbios, de tabernas. Há amantes na ponte de embarque do navio, camponeses transportando galinhas e frangos em gaiolas, marinheiros de folga que sorriem adivinhando os prazeres que irão oferecer a si mesmos.
Trótski? Escrevi para ele anteontem para pedir uma entrevista. Ontem pela manhã já acordei com o timbre do telefone.
“Monsieur Simenon? Aqui é o secretário de Monsieur Trótski. M. Trótski irá recebê-lo amanhã às 4 da tarde. Antes disso eu preciso lhe dizer que M. Trótski, cujas declarações têm sido frequentemente deturpadas, gostaria de receber suas perguntas por escrito antecipadamente. Ele irá respondê-las por escrito…”
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| O escritor Georges Simenon à época da entrevista |
Fiz três perguntas. O céu é azul, o ar tão límpido como as águas profundas onde se podem ver os movimentos das algas verde-escuras. Abaixo, no Mar de Mármara, a uma hora de Constantinopla, quatro ilhas emergem, as “Ilhas”, como elas são chamadas aqui, e já estamos tocando o ancoradouro da primeira delas.
Meudon ou St. Cloud, com as cores da Côte d’Azur. As encostas são suaves e verdes, sombreadas por pinheiros. Mas isto são os subúrbios. Lá estão as datilógrafas sonhadoras e as balconistas dentro dos barquinhos remados pelos namorados. Vende-se chocolate e sorvete, e fotógrafos param os passantes enquanto uma mulher plácida cuida de uma tenda de tiro-ao-alvo.
A distância entre as ilhas é pouco maior do que entre as margens do Sena. O verde é polvilhado de vilas brancas erguidas nas encostas. Uma outra parada. Mais uma. Quase todos os casais já deixaram o barco.
E eis Prinkipo (Príncipe), a ilha onde, em algum lugar, está a casa de Trótski.
Falou-se de um retiro suntuoso, uma vila de luxo, uma propriedade paradisíaca.
Também ao longo do Sena, à medida que saímos de Paris, o nível social sobe, mansões substituem os cafés e barcos a motor substituem os barquinhos a remo alugados.
O ancoradouro em Prinkipo é mais elegante e rodeado por restaurantes cujas toalhas de mesa brancas reluzem ao sol. Carroças com dois cavalos estão à espera, cobertas com um toldo de lona, que enfrentam a concorrência de burros selados que aguardam sem impaciência. Há 50, talvez uma centena na pequena praça.
Sexta-feira, dia de descanso na Turquia, eles estarão sobrecarregados. E em qualquer lugar onde houver sombra e grama, no pequenino riacho, atrás dos arbustos, nos morros, a multidão irá se reunir, espalhar seus alimentos, e se embriagar em risadas, música e amor.
Trótski? Uma carroça me leva por um caminho ladeado de casas. Muitas estão à venda ou para alugar, porque a crise está brava na Turquia, também. As cortinas estão fechadas, mas os jardins estão cheios de rosas tão gordas que parecem obesas. Do outro lado, se vê o tranquilo mar azul. O cocheiro estende seu braço. Tudo que tenho a fazer é descer por um beco. Tudo é tão calmo, tão imóvel, o ar, a água, as folhas, o céu, que ao passar se tem a impressão de romper os raios do sol.
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| A casa de Trótski em Prinkipo Foto: James Hughes |
Há um homem detrás da grade. Sua túnica de policial turco está aberta sobre uma camiseta branca e, como um pacífico aposentado em seu jardim, ele está usando pantufas.
Outro policial se aproxima, este à paisana, ou melhor, em mangas de camisa, pois acaba de se lavar e está secando suas orelhas com a ponta da toalha.
“Monsieur Simenon?”
Estou em um jardim de luxo que tem somente 100 metros por 50. Um cãozinho rola na poeira. Um jovem desgrenhado, em uma rede, lê um panfleto inglês sem nem mesmo levantar o olhar em minha direção.
E lá, na varanda, há um outro jovem. Ele também está de chinelos e em mangas de camisa. E dois outros tomam café na primeira sala, que está mobiliada apenas com uma mesa e algumas cadeiras.
Tudo isso acontece em slow-motion. Acho que é por causa do ar. Estou em slow-motion também, sem nenhuma pressa; ia dizer sem curiosidade.
“Monsieur Simenon?”
Um dos jovens se aproxima, sua mão estendida, e logo estamos ambos sentados no terraço enquanto na outra ponta do jardim o policial termina sua toalete.
Pode-se estar ali por horas fazendo nada, dizendo nada, talvez pensando nada.
“Se você não se importa, primeiro nós dois falamos. E então você verá M. Trótski.”
O secretário não é russo. Ele é um jovem do norte, cheio de saúde, as bochechas rosadas, com olhos claros. Ele fala francês como se tivesse nascido em Paris.
“Estou bastante surpreso que M. Trótski tenha aceitado recebê-lo. Normalmente ele evita jornalistas.”
“Você sabe por que recebi esta distinção?”
“Não faço ideia.”
Nem eu. E continuarei sem saber. Talvez minhas questões coincidam com o desejo de Trótski de fazer uma declaração sobre determinado assunto?
Conversamos, e ao redor de nós tudo esta quieto na imobilidade do ar. Os dois jovens no jardim são convidados; um inglês e um sueco. Eles irão embora após uma semana ou um mês e então outros virão, de outras partes do globo, amigos ou discípulos, que irão viver durante um tempo na intimidade da casa em Prinkipo. Uma verdadeira intimidade, quase a intimidade total de uma caserna.
Lá em cima, na estrada, carroças passam.
“Nunca houve um ataque?”
“Nunca. Como você vê, a vida é simples. Os dois policiais vivem neste barraco, ao fundo do jardim. M. Trótski raramente vai a Constantinopla, somente para ver seu médico ou dentista. Ele toma o barco que trouxe você aqui e o policial o acompanha.”
Esta é mais ou menos a inteira vida externa da casa. Trótski e Mme. Trótski vão ao médico.
Ademais eles nem mesmo descem para o vilarejo. Que bem isto iria fazer? As pessoas precisam estar lá para entender, naquele terraço com vista para o jardim e para o mar, com, como horizonte próximo, a Ásia de um lado e a Europa do outro.
“Quer vê-lo agora?”
As paredes estão nuas nos quartos, brancas, e há apenas estantes de livros para quebrar a monotonia. Há livros em todos os idiomas, e eu distingo um Viagem ao Fim da Noite (de Céline) com a capa desgastada.
“M. Trótski acaba de lê-lo e ficou profundamente emocionado. A propósito, quando se trata de literatura é a francesa que ele conhece melhor…”
Trótski se levanta para me dar a mão, então se senta em sua escrivaninha, pesando docemente seu olhar sobre minha pessoa.
Ele foi descrito um milhão de vezes, e eu não gostaria de tentar fazer o mesmo. O que eu gostaria de fazer é transmitir a mesma impressão de calma e serenidade que tive, a mesma calma, a mesma serenidade que há no jardim, na casa, no cenário.
Trótski, simples e cordial, me estende as páginas datilografadas que contêm as respostas às minhas questões.
“Eu as ditei em russo e meu secretário as traduziu esta manhã. Eu gostaria apenas de perguntar se você assinaria uma segunda cópia que ficará comigo.”
Há jornais de todo o mundo sobre sua mesa, e o Paris-Soir está no topo da pilha. Será que Trótski o folheou antes da minha chegada?
Através da janela aberta para a baía vejo um minúsculo cais no final do jardim onde dois barcos flutuam: um pequeno caiaque turco e um bote a motor.
“Veja”, Trótski sorriu, “estive pescando desde as seis horas da manhã”.
Ele não me diz que é forçado a levar um dos policiais, mas eu sei disso.
Com um gesto ele aponta as montanhas da Ásia Menor, que estão a pouco mais de 5 quilômetros dali.
“Lá há caça no inverno…”
Sobre a mesa, perto dos jornais, há um artigo que ele começou a escrever.
Esta é toda a vida da casa. Uma, às vezes duas vezes ao dia, Trótski joga a sua linha nas águas calmas do Mar de Mármara.
O resto do tempo ele fica no escritório, ao mesmo tempo tão longe e tão perto do mundo.
“Infelizmente, eu recebo os jornais somente muitos dias depois.”
Ele sorri. Seu rosto está relaxado, o olhar tranquilo. Mas não é graças a um esforço? Ele não é forçado a guardar suas forças? Para continuar sua obra, ele não se força a levar esta vida prudente, que lembra os gestos hesitantes de um convalescente?
Mas talvez não seja nada além de sabedoria.
“Você pode me fazer perguntas.”
É verdade. Mas o que será dito agora eu prometi não publicar. Trótski comenta sobre as declarações que me deu. Sua voz, seus gestos, em uníssono com a paz ambiente.
Conversamos longamente sobre Hitler. O assunto o preocupa. Pode-se sentir quanto. Repito para ele as opiniões contraditórias que ouvi ao redor da Europa, não sobre a atuação de Hitler, mas sobre sua personalidade, seu valor próprio.
Não acho que esteja traindo minha promessa ao repetir algumas das frases que me impressionaram na casa em Prinkipo, tão longe de Berlim.
“Pouco a pouco Hitler construiu a si mesmo ao mesmo tempo que fazia seu trabalho. Ele aprendeu passo a passo, etapa por etapa, ao longo da luta.”
As respostas às minhas perguntas? Nós as leremos juntos.
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| Simenon ao centro, com a cantora Josephine Baker, em 1927 |
II
Perguntei a Trótski:
“O senhor acha que a questão racial irá predominar na evolução que virá da turbulência atual? Ou será a questão social? Ou a econômica? Ou a militar?”
Trótski responde:
“Não, eu não acho que a raça será um fator decisivo na evolução da próxima era. Raça é um assunto estritamente antropológico – heterogêneo, impuro, misturado (mixtum compositum) –, um assunto a partir do qual o desenvolvimento histórico criou produtos semi-acabados que são as nações… Classes e agrupamentos sociais e as correntes políticas que nascerão desta base decidirão o destino da nova era. Não nego, obviamente, o significado e as qualidades distintivas e características das raças; mas, no processo evolutivo, elas estão em segundo plano, atrás das técnicas do trabalho e do pensamento. Raça é um elemento estático e passivo, e a história é dinâmica. Como um elemento imóvel em si mesmo pode determinar movimento e desenvolvimento? Todos os traços distintivos entre as raças se desvanecem diante do motor de combustão interna, para não mencionar a metralhadora.
“Quando Hitler se preparou para estabelecer um regime de Estado adequado à pura raça germano-nórdica ele não fez nada mais que plagiar a raça latina do Sul. Em seu tempo, durante a luta pelo poder, Mussolini utilizou – claro, virando de ponta-cabeça – a doutrina social de um alemão, ou melhor, um judeu alemão, Marx, a quem, um ou dois anos antes, chamou de “o professor imortal de todos nós’. Se hoje, no século 20, os nazistas propõem virar as costas para a história, para a dinâmica social, para a civilização, para retornar à ‘raça’, por que não ir mais atrás? Antropologia – não é verdade? – é só uma parte da zoologia. Quem sabe talvez no reino dos anthropopithecus os racistas irão achar a maior e mais incontestável inspiração para sua atividade criativa?”
Ditaduras e democracias
Pergunta:
“O agrupamento de ditaduras pode ser considerado um embrião do reagrupamento de povos ou isso é só uma fase passageira?”
Resposta de Trotsky:
“Não acho que o agrupamento de países acontecerá, por um lado, sob o signo da ditadura e por outro, da democracia.
“Com a exceção de uma pequena parte de políticos profissionais, nações, povos e classes não vivem da política. Formas de estado são só um meio diante de determinadas tarefas, especialmente as econômicas. Obviamente certa similitude entre regimes de Estado predispõe à aproximação e torna isso mais fácil. Mas em última instância são as considerações materiais que decidem: interesses econômicos e cálculos militares.
“Se eu considero o grupo de ditaduras fascistas (Itália, Alemanha) e as quase-bonapartistas (Polônia, Iugoslávia, Áustria) episódicas e temporárias? Por desgraça, eu não posso fazer uma previsão tão otimista. O fascismo não é provocado por uma psicose ou “histeria” (é assim que se consolam os teóricos de salão como o conde Sforza), mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade. A atual crise cíclica só fez mais agudos os processos orgânicos mórbidos. A crise cíclica irá inevitavelmente ceder seu lugar a uma reanimação conjuntural, apesar de que será em um grau menor do que o esperado. Mas a situação geral da Europa não ficará muito melhor. Após cada crise, as empresas pequenas e fracas ficarão ainda mais fracas ou irão morrer completamente. As empresas fortes irão ficar ainda mais fortes. Perto do gigante econômico dos Estados Unidos, a Europa rota em pedaços representa uma combinação de pequenas empresas hostis umas às outras. A situação atual da América é muito difícil: o próprio dólar está de joelhos. No entanto, após a crise atual as relações de forças irão mudar a favor da América e em detrimento da Europa.
“O fato que o velho continente como um todo esta perdendo a situação privilegiada que teve no passado leva a uma excessiva exacerbação de antagonismos entre os Estados europeus e entre as classes dentro dos Estados. Naturalmente, nos diferentes países estes processos levam a um diferente nível de tensão. Mas eu falo de uma tendência histórica geral. O crescimento de contradições sociais e nacionais explica, no meu ponto de vista, a origem e a relativa estabilidade das ditaduras.
“Para explicar meu pensamento permita que me refira ao que tive ocasião de dizer anos atrás sobre esta questão: por que democracias dão lugar a ditaduras e isso dura tanto? Vou lhe dar uma citação literal do artigo escrito em 25 de fevereiro de 1929:
“Costuma-se dizer neste caso que estamos lidando com nações retrógradas ou imaturas. Esta explicação se aplica apenas à Itália. Mas mesmo nos casos em que esta explicação é correta, isto não esclarece nada. No século 19 era quase uma lei que países atrasados alcançassem a democracia. Por que então o século 20 os empurra no caminho da ditadura? As instituições democráticas mostram que não suportam a pressão das contradições contemporâneas, ora externas, ora internas, mas mais frequentemente ambas ao mesmo tempo. Isto é bom? Isto é ruim? Em todo caso, é um fato.
“Por analogia com a eletricidade, a democracia pode ser definida como um sistema de interruptores e isolantes contra correntes muito fortes da luta nacional ou social. Nenhuma era na história humana foi tão saturada de antagonismos como a nossa. Um excesso de corrente é crescentemente sentido em diferentes pontos da rede europeia. Sob uma grande pressão de contradições de classe e internacionais os interruptores da democracia vão derreter ou explodir. São os curtos-circuitos das ditaduras. Os interruptores mais fracos são obviamente os primeiros a falhar.
“Quando escrevi estas linhas, a Alemanha ainda tinha um social-democrata no comando do governo. Esta claro que a subsequente marcha de acontecimentos na Alemanha – um país que ninguém pode considerar atrasado – não foi capaz de modificar minha apreciação da situação.
“É verdade que durante este tempo o movimento revolucionário na Espanha varreu não só a ditadura de Primo de Rivera, mas também a monarquia. Correntes contrárias deste tipo são inevitáveis no processo histórico. Mas o equilíbrio interno esta longe de acontecer na Península mais além dos Pirineus. O novo regime espanhol ainda não demonstrou sua estabilidade.”
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| Trotski indo para o exílio na Turquia em 1928 |
Guerra ou paz?
Pergunta:
“O senhor acredita em uma possível evolução gradual ou considera um choque violento necessário? Por quanto tempo a indecisão atual pode ser prolongada?”
Resposta:
“O fascismo, particularmente o nacional-socialismo alemão, coloca a Europa em um indiscutível perigo de um choque bélico. E, talvez eu esteja errado, mas parece que não estamos suficientemente conscientes do perigo. Como temos à vista uma perspectiva não de um mês, mas de anos – e certamente não dezenas de anos –, considero absolutamente inevitável uma explosão bélica da Alemanha fascista. É precisamente esta questão que poderá se tornar decisiva para o destino da Europa. Espero muito em breve escrever mais sobre isso na imprensa.
“Talvez você ache minha apreciação da situação muito sombria. Estou só tentando desenhar conclusões a partir de fatos, tomando como guia não a lógica de simpatias e antipatias, mas a lógica do processo objetivo. Espero que não seja necessário provar que nossa era não é uma era de prosperidade calma e pacífica e de conforto político. Mas minha apreciação da situação só pode parecer pessimista para quem mede a marcha da história com uma régua curta. De perto, todas as grandes eras pareciam sombrias. O mecanismo do progresso, deve-se reconhecer, é bastante imperfeito. Mas não há razão para pensar que Hitler, ou uma combinação de Hitlers, irão ter sucesso sempre – ou talvez por alguns anos – fazendo este mecanismo ir para trás. Eles irão quebrar muitos dentes da engrenagem, vão torcer muitas alavancas, irão fazer a Europa ir para trás por alguns anos. Mas não tenho dúvida que no final, a humanidade irá achar seu caminho. Todo o passado é uma garantia disto.”
“Você tem outras questões a fazer?” Trótski pergunta pacientemente.
“Só uma, mas temo que possa parecer indiscreta.”
Ele sorri e, com um gesto, me encoraja a prosseguir.
“Os jornais dizem que o senhor recebeu recentemente emissários de Moscou com a missão de chamá-lo para retornar à Rússia.”
O sorriso se acentua.
“Não é verdade, mas eu sei a fonte desta história. Um artigo de minha autoria que apareceu dois meses atrás na imprensa norte-americana. Eu disse, entre outras coisas, que dadas as políticas atuais na Rússia eu estaria pronto a servir de novo se algum perigo ameaçasse o país.”
Ele esta calmo e tranquilo.
“O senhor poderia voltar à ativa?”
Ele diz sim com a cabeça, enquanto um dos jovens, sem dúvida para a pesca da tarde, instala redes no barco.
De volta a Saint-Cloud, quer dizer, Prinkipo, e bateau-mouche.
Naquela noite eu jantei no Régence. O prospecto dizia: “O elegante restaurante onde você será bem recebido por damas da aristocracia russa…”
Há ainda um milhar de emigrantes russos em Constantinopla e como em Paris, Berlim e outras partes, a noite tem a nostalgia das balalaikas, piroyoks, vodca echachliks.
Naquela hora, em sua ilha que as balconistas e os ambulantes desertaram, Trótski dorme.
Acabou o século XX – por Cláudio Lembo (Terra Magazine)
Quando as pessoas pensavam política, sempre dirigiam seus olhares para a Itália e, lá, recolhiam ideias, pensamentos e formas de lutas. Foi assim desde a queda do fascismo.
Os jovens dos anos cinquenta aprenderam a acompanhar o embate ideológico entre a democracia cristã e o Partido Comunista Italiano. Eram repletos de entusiasmo e posições altamente conflitantes.
Surgiam, no comunismo italiano, figuras marcantes. Todos se recordam de Gramsci, o ideólogo que, no cárcere, elaborou impressionante obra de análise da sociedade.
Os seus Quaderni del carcere foram editados graças à iniciativa de Togliati, então importante figura do socialismo real no Ocidente. A repercussão foi intensa em todo o marxismo europeu e latino-americano.
No decorrer do tempo, muitas figuras exemplares, ofereceram posicionamentos novos e análises precisas sobre o desenvolvimento das sociedades contemporâneas.
Quem visitasse a Itália, naquele período – anos 40 e 50 – impressionava-se com a presença maciça das sedes do PCI por todo o país e de maneira intensa no norte, particularmente na região da Reggio-Emilia.
Gerava uma verdadeira emoção conhecer as livrarias comunistas. Apresentavam obras de todos os autores clássicos do socialismo e, ainda, inúmeras análises de lideranças expressivas.
Grande parte da intelectualidade peninsular pertencia aos quadros de esquerda. A sociedade encontrava-se dividida entre dois segmentos e estes dominavam as mentes e geravam conflitos.
Foi um período intensamente criativo e cada lado acreditava ser a sua proposta política a utopia que salvaria o mundo. Tempos em que as pessoas acreditavam em suas lideranças.
Tudo se esvaiu. Os grandes partidos do após-guerra dissolveram-se. Surgiram agremiações sem linha. Com programas sem profundidade social.
Uma geleia real – tal como no Brasil – surgiu no cenário partidário. Ninguém empolga. Nenhuma ideia nova. Todo o pensamento volta-se para o econômico.
O econômico não possui alma. Apenas a busca de rendimentos. O vazio ocupou as mentes e o consumismo conquistou às sociedades. Vale o dia que passa. Não interessam as gerações futuras.
Neste cenário melancólico, que levas os mais velhos à nostalgia, vem da Itália mais uma notícia amarga. O jornal tradicional dos comunistas italianos, L’ Unità, deixou de circular.
Teve um longo percurso – oitenta anos – e agora, neste mês de agosto, anuncia o encerramento de sua publicação. Não resistiu aos tempos novos.
Estes tempos de pensamento único. Eles não permitem o pluralismo. Exigem homogeneidade de comportamentos. Todos devem agir no mesmo sentido.
Movimentar os mecanismos econômicos sem qualquer ciência de sua essência. A esta só pode ter acesso os iniciados. Estes são poucos. Um grupo privilegiado que não admite contestações.
O Século XXI, até o momento, mostra-se medíocre e sem posicionamentos antagônicos. Os poderosos podem matar sem censura. Não há mais oposição.
Os jornais críticos desapareceram. Foram engolidos pela voragem capitalista. Adeus a L’Unità, fundada por Gramsci, em 1924. Acompanhou a sorte dos jornais Hoje, Notícias de Hoje e Luta Operária, seus irmãos brasileiros.
Os jornais críticos desapareceram. Foram engolidos pela voragem capitalista. Adeus a L’Unità, fundada por Gramsci, em 1924. Acompanhou a sorte dos jornais Hoje, Notícias de Hoje e Luta Operária, seus irmãos brasileiros.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Cara, eu ganho. Coroa, você perde! - por Guilherme Boulos (Folha)
A elite brasileira é intransigente. Não aceita concessões, por menores que sejam. Qualquer pequeno incômodo é tratado como abalo sísmico por seus representantes no poder de Estado, na mídia e em seu habitat natural, o mercado financeiro.
O inofensivo decreto 8.243 é acusado de bolivarianismo. Os gastos federais com assistência social, que correspondem a menos de 4% do Orçamento da União, são apresentados como perigoso risco fiscal. O governo petista não atacou nenhum de seus privilégios, mas quando Dilma sobe a Bolsa cai.
A bola da vez agora parece ser o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e a luta popular por moradia. As ocupações urbanas tiveram um crescimento expressivo desde 2013, motivadas pelo aumento insano do valor dos aluguéis. Isso levou o movimento às ruas e ampliou a pressão sobre o poder público.
Pressão legítima e democrática, que é a forma que se conhece historicamente para o Estado atender os interesses dos mais pobres.
Vieram algumas vitórias. Poucas, aliás. A liberação de recursos para compra de terrenos e financiamento de obras de moradia, a criação de uma comissão para mediação de conflitos em despejos e o aprimoramento de normativas do programa Minha Casa, Minha Vida.
Pronto, foi o suficiente para despertar a ira da turma do eixo Higienópolis - Jardins. O Ministério Público de São Paulo entrou com três ações para investigar os "privilégios" do MTST. Choveram editoriais contra os novos "donos da política habitacional". E, naturalmente, matérias com denúncias e ataques para os mais variados gostos.
E vejam que o MTST não conseguiu sequer arranhar a estrutura da política habitacional brasileira. Suas conquistas foram pontuais. Significaram um fortalecimento tímido da modalidade Entidades do Minha Casa Minha Vida, onde a gestão do projeto e obra é feita pelos futuros moradores, ao invés de empreiteiras. Porém, esta modalidade permanece sendo uma pequena gota no oceano. Mais de 95% das moradias do programa são feitas por meio de construtoras.
O setor imobiliário e da construção civil continua dando o tom e definindo as regras da política habitacional brasileira. Detêm os terrenos e controlam a maioria dos financiamentos públicos do Minha Casa, Minha Vida. São os grandes interlocutores do Estado em todos os seus níveis, até por serem os maiores financiadores de campanha eleitoral do país. Mas os "privilegiados", os "donos da política habitacional" são os militantes do MTST.
As conquistas obtidas pelo MTST de 2009 a 2014, no Brasil todo, não chegam a 8.000 moradias, somando as contratadas e as somente acordadas. Só a MRV Engenharia, nos primeiros dois anos do programa, recebeu financiamento público para 40 mil moradias. Apenas entre 2009 e 2011! E estamos falando de uma construtora das dezenas que recebem financiamento pelo programa. Quem manda mesmo na política de habitação?
Mas para os donos do poder mesmo isso é demais. Resolveram então partir para o ataque. Na vanguarda, como sempre, a revista "Veja", maior especialista em desmoralização sem fatos.
A indústria de escândalos e factoides da revista "Veja" é de uma produtividade inquestionável. Quando há fatos, distorcem e amplificam de acordo com seu interesse. Quando não há, os criam. É desnecessário retomar exemplos como o famoso grampo sem áudio no STF ou a entrevista com o líder forjado das manifestações de junho. O jornalista Luis Nassif, em seu dossiê "O Caso Veja", já desmascarou em minúcias o padrão "Veja" de fabricação de mentiras, seus métodos inescrupulosos e suas relações promíscuas com o poder econômico.
Atacar movimentos populares não é novidade para a mídia hegemônica no país. O MST foi seu alvo predileto durante muitos anos. Mas a "Veja" dá sempre um passo além. Faz descaradamente o que os demais fazem apenas nas entrelinhas.
Os argumentos que usou no recente ataque ao MTST são sintomáticos de seu método. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto é uma "indústria de ocupações" por organizar a participação de seus membros com listas de presença. E as ocupações são uma "farsa" porque as pessoas não moram definitivamente nelas.
São casos exemplares do cinismo argumentativo que tem como lema: Cara, eu ganho. Coroa, você perde.
Se o MTST não tivesse nenhum tipo de controle e organização de quem participa seria acusado de descriterioso. Como se organiza por listas e cadastros, para definir legitimamente sua demanda, é acusado de ser "indústria de ocupações".
O caso dos barracos nas ocupações, também ecoado por esta Folha, é ainda mais emblemático. As pessoas que ocupam um terreno normalmente não estavam em situação de rua. Tinham um local anterior, embora muito precário: um pequeno cômodo, um barraco numa área de risco ou uma casa na qual não conseguem mais pagar aluguel.
A metodologia do MTST implica não estimular as famílias a romperem este vínculo precário de moradia. Se as milhares de famílias que participam de ocupações, buscando uma condição mais digna de vida, fossem morar definitivamente lá, com todos seus pertences, o resultado seria a criação em larga escala de novas favelas.
As ocupações têm o sentido de pressão sobre a especulação imobiliária e o poder público para fazer andar a política habitacional, não a favelização. Por isso, a proposta das pessoas não morarem definitivamente nelas. Se o MTST fizesse o contrário seria acusado de "indústria de favelas", "loteador clandestino" etc.
Ou seja, não há saída quando o jornalismo é viciado. Os interesses são impermeáveis aos argumentos. Quando a ordem é atacar e desmoralizar prevalece sempre o cinismo: Cara, eu ganho. Coroa, você perde!
Procuradoria havia recomendado libertação de manifestantes mais de uma semana atrás - por Tadeu Breda (Rede Brasil Atual)
Promotor designado escrevera em 29 de julho parecer apontando inconsistências nas provas apresentadas pelo Ministério Público e contradições em depoimento de policiais
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| Fábio Hideki deixa presídio ontem junto com seu advogado, Luiz Eduardo Greenhalgh |
“A prisão preventiva não se revela necessária e adequada”, escrevera o promotor de justiça então designado para a Procuradoria de Habeas Corpus, Luis Felipe Tegon Cerqueira Leite, aos magistrados da 3ª Câmara de Direito Criminal. O membro da promotoria recomendou aos magistrados que substituíssem a detenção dos manifestantes por “medidas cautelares alternativas”, citando como possibilidades o comparecimento mensal em juízo, a proibição de ausentar-se da cidade e a proibição de frequentar manifestações populares – o que a defesa dos jovens consideraria inconstitucional.
O parecer foi publicado em 29 de julho, dois dias antes de que o juiz Marcelo Matias Pereira, da 10ª Vara Criminal de São Paulo, decidisse pela manutenção da prisão preventiva dos manifestantes. Um dos argumentos do magistrado, que considerou Hideki e Lusvargh como black blocs, foi que os réus seriam adeptos da “esquerda caviar”, ou seja, grupo de pessoas que fala mal do capitalismo, mas usa tênis de marca e telefone celular, e se utiliza das redes sociais – vistos pelo juiz como benesses do sistema.
Ao analisar os autos, Cerqueira Leite apontou uma série de inconsistências no trabalho da polícia. A primeira delas diz respeito ao suposto coquetel molotov que teria sido encontrado com Lusvargh – na realidade, uma “garrafa de iogurte com forte odor de gasolina” que a perícia determinaria não se tratar de artefato explosivo ou inflamável. O promotor designado percebeu que, em depoimento, o policial responsável pela abordagem não faz qualquer menção à apreensão do objeto. E determinou que se esperasse o resultado do laudo.
Cerqueira Leite também notou nos autos que os policiais não apontaram “nenhum ato concreto de destruição ao patrimônio público ou privado”. Percebeu ainda uma incoerência entre os documentos enviados à Justiça e a versão de que Lusvargh estaria depredando patrimônio no momento da prisão. “Embora tenha sido mencionado em juízo de primeiro grau, o fato não foi relatado pelo delegado nem pelos policiais cujos depoimentos estavam legíveis nos autos”, escreveu.
A RBA teve acesso aos documentos mencionados pelo promotor. Neles, consta que Lusvargh foi inicialmente abordado pelo agente Luiz César Milani Bernardi, funcionário do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Em seu depoimento, o policial diz ser membro da força-tarefa formada para “monitorar” os black blocs, e admite ter recebido ordens para acompanhar o rapaz vestindo “saia de escocês e cinturão largo” durante protesto contra a Copa do Mundo realizado em 23 de junho na Avenida Paulista.
“O depoente fixou-se a cerca de cinco metros da entrada da estação Consolação do metrô, próximo a uma banca de jornal, e dali pôde observar a chegada do indivíduo trajando saia escocesa”, afirma a peça policial, sem qualquer menção a depredações, coquetel molotov, frasco de iogurte ou qualquer outro objeto em posse de Lusvargh. O artefato aparece apenas na lista de apreensões do boletim de ocorrência, lavrado mais de quatro horas depois da prisão – e sem que nenhum policial tenha se referido a ele na narração dos fatos.
O promotor designado também encontrou falhas nas acusações por associação criminosa, outra das imputações que pesam sobre Hideki e Lusvargh. De acordo com a polícia e os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), os dois estavam associados com o fim específico de cometer crimes. “Lembre-se que esta precisa ser composta por, no mínimo, três pessoas”, ponderou o membro da Procuradoria, “não sendo possível presumir-se a vinculação subjetiva das demais pessoas presentes à manifestação.”
Para Cerqueira Leite, “as pessoas comparecem às manifestações pelos mais diversos motivos e, algumas delas, no seu curso, acabam aderindo às condutas de destruição do patrimônio público e privado”. Por isso, continua o promotor designado, seria “difícil” utilizar como evidência as insinuações da polícia. “A prova da prévia associação (entre manifestantes com o propósito de cometer crimes) demanda investigação mais sofisticada”, escreveu, recomendando “maior aprofundamento da prova.”
Depois de apontar debilidades nas acusações de porte de explosivos e associação criminosa, Cerqueira Leite anotou que as demais denúncias – incitação ao crime, resistência e desobediência – acarretariam penas máximas baixas em caso de condenação, o que tampouco justificaria a manutenção da prisão preventiva
Comentário
Imagine-se a veracidade dos fatos se até quem acusa esta duvidando.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
domingo, 10 de agosto de 2014
O Governo brasileiro é gastador? - por Brasil Debate
É bastante comum a afirmação de que o governo brasileiro é gastador. É também frequente a infeliz comparação entre o orçamento público e o orçamento da casa da “Dona Lúcia”, como se a dinâmica e as implicações do gasto público fossem as mesmas do orçamento familiar. Estes fatos apontam não só para um desconhecimento a respeito da dinâmica do déficit público e suas implicações macroeconômicas, mas principalmente para a falta de informação sobre a situação das contas públicas brasileiras em perspectiva internacionalmente comparada.
Há, basicamente, duas formas de avaliar quantitativamente o quanto um governo gasta em relação ao que se recebe. A primeira é o balanço primário, calculado como a diferença entre as receitas totais e as despesas não financeiras, isto é, excluindo-se o pagamento de juros sobre a dívida pública das despesas gerais do governo. A segunda é o balanço nominal, que inclui na conta os juros da dívida pública.
Na maior parte dos países, os gastos primários são maiores do que as receitas do setor público, o que implica em déficit primário. Este não é o caso do governo brasileiro, como pode ser visto no gráfico abaixo. Dentre os países estudados, o Brasil possui o terceiro maior superávit primário em relação ao PIB.
Quando incluímos o pagamento de juros, a situação muda de figura. Devido às elevadas taxas de juros, o governo brasileiro paga em torno de 5% do PIB de juros sobre a dívida pública – percentual muito maior do que a média internacional, ainda que a nossa dívida pública seja relativamente baixa. Mesmo incluindo esta rubrica, o déficit nominal do governo brasileiro está muito próximo à média internacional.
Diante disso, fica evidente que o governo brasileiro não é gastador. Na verdade, o Brasil ainda é um dos poucos países que produz superávit primário. Por outro lado, está claro que os juros estreitam (e muito) a margem de manobra para que o governo possa gastar de forma mais fértil, pagando menos juros e aumentando os investimentos para melhoria de serviços públicos prestados à população.
Portanto, está claro que os gastos públicos estão bem controlados, mas é premente a necessidade de reduzir os juros para melhorar sua composição.
Isso não parece tão claro no debate de política macroeconômica que se vê na maior parte das análises, que recorrentemente preconizam uma combinação de aumento de juros e ajuste fiscal. Nas suas entrelinhas, ou nas suas consequências, isso quase sempre significa aumentar a parcela de pagamento de juros (maior déficit nominal) e reduzir os investimentos de maior impacto para a população (maior superávit primário). É realmente isso que queremos?
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Exposed Jurídico – A Prisão Preventiva de Fábio e Rafael - por Advogados Ativistas
Todos os processos em trâmite no Poder Judiciário são públicos, salvo aqueles que correm em segredo de justiça. No entanto, poucas são as pessoas fora do mundo jurídico que sabem disso ou mesmo conseguem acessar tais processos, transformando a regra da publicidade em algo relativizado diante da distância de procedimento e burocracia que é interposta entre a sociedade e o Poder Judiciário.
Por este motivo, a partir de hoje, vamos divulgar as decisões judiciais e o nome daqueles que a proferiram para expor as contradições e, quem sabe, seus acertos visando a melhora da qualidade técnica, uma vez que juízes, promotores, desembargadores, ministros, etc. estarão sob o crivo de um número maior de pessoas.
Para começar este nosso novo banco de dados, vamos divulgar a íntegra da decisão do juiz da 10ª Vara Criminal Central, Marcelo Matias Pereira, que é o responsável pela ação contra os manifestantes Rafael Marques Lusvargh e Fabio Hideki Harano, o qual indeferiu o pedido de revogação da prisão preventiva de ambos.
“Como bem ressaltado na decisão que converteu a prisão em flagrante em preventiva estão presentes os requisitos para a sua decretação.”
Como vemos, o Juiz Marcelo Matias Pereira afirma estarem presentes os requisitos para a decretação de prisão preventiva (art. 311 e seguintes do Código Penal). A rigor, o Juiz entendeu que existem provas suficientes de que Rafael e Fábio cometeram um crime.
“É certo que o direito de manifestação pacífica faz parte da Democracia, sendo que o que não se pode admitir são atos atentatórios contra o patrimônio público e particular, violação das leis constituídas, atos de vandalismo, depredação e violência contra tudo e todos.”
No segundo parágrafo fala sobre não se admitir a manifestação violenta, mas o faz com base apenas em seu juízo de valores, já que não há provas de que Rafael e Fábio tenham depredado nenhum tipo de patrimônio e muito menos violado leis ou a constituição.
“Como bem observado na decisão que decretou a prisão preventiva, as manifestações pacificas foram perdendo sua legitimidade na medida em que passaram a nelas se infiltrar os denominados “Black Blocs”, que passaram a promover todo tipo de arruaça, depredação, destruição e horror, vergonha nacional e mundial.
Nesta esteira de pensamento é lícito concluir que os integrantes desse grupo, que se dizem anarquistas e que agem contra tudo e todos, atentam contra a própria Democracia, na medida em que desmoralizam as legítimas manifestações públicas, que acabaram ficando desacreditadas pelos atos de vandalismo praticados.”
Nos dois parágrafos seguintes o Magistrado esquiva-se dos argumentos jurídicos, próprios de uma decisão do judiciário, e da vazão, mais uma vez, ao seu juízo de valores, demonstrando que seu raciocínio pauta-se em fundamentos ideológicos, e não legais.
Afirma que as manifestações perderam legitimidade por causa dos Black Blocs, que nelas se infiltram, promovendo o horror, constituindo vergonha mundial (?), além de, por serem anarquistas, agirem contra tudo e todos, frisando que as manifestações ficaram desacreditadas por causa deles.
Todas essas afirmações só poderiam ser feitas caso o Juiz tivesse comparecido pessoalmente às manifestações (o que com certeza absoluta nunca aconteceu), vendo com seus próprios olhos se os manifestantes apoiam ou não quem faz uso da tática Black Bloc.
“Este grupo atenta contra os Poderes Constituídos, desrespeitando as leis, os policiais que tem a função de preservar a ordem, a segurança e o direito de manifestação pacifica, além de, descaradamente, atacarem o patrimônio particular de pessoas que tanto trabalharam para conquista-lo, sob o argumento de que são contra o capitalismo, mas usam tênis da Nike, telefone celular, conforme se verifica das imagens, postam fotos no Facebook e até utilizam de uma denominação grafada em língua Inglesa, bem ao gosto da denominada “esquerda caviar”.
É querer muito se enganar ou enganar aos outros dizer que a polícia esta lá para garantir a manifestação. Em sua nem tão apurada leitura de manifestações, esqueceu-se de citar que em junho de 2013 elas atingiram tamanha proporção muito por conta da violência, veja só, da polícia.
Esqueceu-se de mencionar também, ou quem sabe, propositalmente não mencionou, o recente relatório da Defensoria Pública de São Paulo, concluindo que a Polícia Militar “coibiu” o direito à manifestação, agindo ostensivamente, intimidando e constragendo manifestantes, imprensa e toda a sorte de cidadãos ali presentes. Até o momento foi comprovado, ironicamente, que a verdadeira ameaça às “leis constitucionais” partiu justamente dos agentes do Estado.
O encadeamento mental do magistrado para justificar sua decisão é incrível. Ele ataca ideologicamente a questão de um anarquista usar tênis Nike e ter celular, como se a questão central do processo fosse essa. A decisão deveria versar sobre a prisão de Fábio e Rafael e os indícios de autoria e materialidade do crime de que estão sendo acusados. O juiz esta falando de tudo, menos do que deveria.
Do mesmo modo, a questão do trabalhador é bastante dúbia, pois o Black Bloc se destaca e inclusive é atacado pela imprensa como um grupo que ataca símbolos do capital, não comércios pequenos. Nunca vimos nenhum dono de banco ser chamado de trabalhador, ainda mais daqueles que suam.
Sobre a “esquerda caviar”, afinal, eles são anarquistas puros que confrontam a tudo e todos ou são de ideologia de esquerda? Talvez o Juiz não esteja sabendo se situar muito bem sobre política ou talvez nem saiba do que esta falando, o que parece ser o mais plausível.
Anarquia não se baseia na lógica de confrontar tudo e todos, trata-se basicamente de um sistema político que nega o princípio da autoridade. Prova disso encontra-se justamente no texto introdutório do inquérito Black Bloc do DEIC, que alega que as investigações são direcionadas a “grupos organizados que visam questionar o sistema”. Note, o tempo todo, do início das investigações até a sentença do juiz, tudo girou em torno de questões ideológicas e juizo de valores.
“As imagens indicam que os acusados possuíam liderança e comando sob a massa de alineados, sendo que há depoimentos consistentes que apontam que em poder dos mesmos foram apreendidos artefatos explosivos/incendiários, de modo que presentes estão os indícios suficientes de autoria.
Outrossim, se libertos foram poderão certamente promover e participar de outros eventos como os tais, provocando todo o tipo de destruição e quiçá consequências mais grave como mortes.
Desta forma, a garantia da ordem pública, tão aviltada e maltratada por condutas como as descritas na denúncia reclama a manutenção da custódia cautelar, razão pela qual INDEFIRO o pedido de revogação da prisão preventiva.”
Em seguida é dito que os acusados, pelas imagens, demonstram ter liderança sobre o uma “massa de alienados”. Vamos fazer um exercício mental e trocar a palavra “alienados” por alguns sinônimos: massa de malucos, massa de pessoas distantes da realidade política. Que tipo de argumento jurídico é esse? Pela enésima vez temos mais um juizo de valores absolutamente alheio à discussão jurídica.
É importante ressaltar que ao serem presos, tanto Fábio quanto Rafael, receberam apoio de manifestantes e de pessoas que não participavam da manifestação, que notaram o caráter violento e arbitrário das detenções. Esse apoio que receberam é o que justifica a classificação deles como “líderes”.
O juiz afirma ainda que há depoimentos consistentes sobre o porte de explosivos, que se forem soltos poderão até matar alguém e que, desta forma, a ordem pública esta melhor atendida com eles presos.
O porte de explosivo era baseado em depoimentos consistentes da mesma polícia que o Magistrado elogia. A perícia foi feita e concluíram que não havia material explosivo. De fato, bastante consistentes os tais depoimentos.
Não cabe ao juiz decidir quanto à legitimidade de uma manifestação – por estarem amparadas em lei, as reivindicações, a expressão do pensamento e o pronunciamento público são sempre legítimos.
A maioria da sua fundamentação é baseada em sentimentos (horror, vergonha). Como pode um juiz basear sua decisão em sentimentos oriundos de um evento que ele sequer presenciou? Mas, o mais importante, onde ele quer chegar? A vergonha mundial justifica a prisão de Fábio e Rafael?
O mundo sente vergonha da fome, o mundo sente vergonha do trabalho escravo, da guerra, do racismo. O mundo não sente vergonha de Fábio e Rafael. Pelo contrário, são ativistas como eles que expõem do que o mundo realmente sente vergonha, inclusive de decisões judiciais como essa.
PS: Nunca é tarde para frisar que o juiz Marcelo Matias Pereira é o mesmo que inocentou o “comediante” Danilo Gentili do crime de racismo.
Comentário
É impressionante que se insiram opiniões pessoais (como a de alcunhar um grupo que ele desconhece de "massa de alienados") em uma decisão judicial.
Este é o tipo de injustiça absurda que acontece quando se tem um juiz coxinha.
Este é o tipo de injustiça absurda que acontece quando se tem um juiz coxinha.
E pode-se afirmar isto tranquilamente, tanto porque é verdade, quanto porque não estou emitindo uma decisão judicial, mas apenas uma opinião como cidadão.
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