sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Fotografia – por Nilsson Lee (Cupcake)

O desmonte do Brasil avança a passos largos – por Roberto Amaral (ramaral.org)

A arrecadação federal despenca, a indústria definha e o desemprego galopa, enquanto o governo Temer se desfaz do patrimônio nacional
Pedro Parente, presidente da Petrobras, já pode comemorar a queda de
 nossas reservas para o nível de 2001, após a venda de ativos e a contração
dos investimentos em exploração e produção de óleo


     A cada dia que passa, a cada medida que adota, o governo Temer mais assume, agora sem rebuços, seu projeto mesquinho de desestruturação do País, por meio do desmantelamento do Estado e da desconstrução da economia nacional, a serviço de interesses internacionais e do rentismo. A política recessiva, o neoliberalismo, o monetarismo arcaico não são fins em si, mas instrumentos de que se vale o situacionismo para destruir o que ainda sobrevive de projeto de desenvolvimento. 

     A arrecadação de tributos federais teve uma queda de 3% em 2016, em comparação com 2015, e o declínio não foi maior graças ao ingresso dos 46,8 bilhões de reais advindos da receita extra de impostos e multas da repatriação de recursos ilegais de brasileiros no exterior. Posta de lado essa receita, a queda sobe para 6%. Na comparação entre dezembro de 2016 e dezembro de 2015, a queda foi de 1,19%. A retração no início de 2017 superou 10%, mantendo a expectativa de contração no ano.

     Dessa forma, a arrecadação cai pelo terceiro ano consecutivo e retorna ao nível de 2010. As principais quedas se dão entre os maiores empregadores de mão de obra, a saber, no comércio, na construção e na indústria, cujo faturamento caiu 12,1% em comparação com o ano passado.

     E o ajuste fiscal?

     Enquanto a receita míngua, crescem as despesas. As contas do governo ficaram no vermelho pelo terceiro ano consecutivo, com um déficit primário de 154,255 bilhões em 2016, o maior rombo desde 1997, resultado do aumento de despesas na ordem de 7,2% em 2016 sobre 2015.

     A estimativa de crescimento de 0,5% do PIB foi revisada pelo Fundo Monetário Internacional para 0,2%, e pode ser ainda menor, enquanto a dívida das famílias cai na proporção em que sobe o gasto com seu pagamento. O crédito encolhe, o peso dos juros sobe de 41% (média de 2014) para 48% (novembro de 2016) e a taxa média dos juros ao consumidor chegou a 71,9% no final do ano passado. A contração da economia até 2016 chegou a 9%.

     Os reflexos nas vendas do comércio de varejo são visíveis e imaginável é a queda das encomendas à indústria, com seu rol de consequências que começa com o desemprego, crescente. Já chegou a 15% e pode, até o final do ano, atingir 20%. Só no ano passado foram eliminados três milhões de empregos com carteira assinada, o que significa três milhões de famílias de trabalhadores no desespero.

     Os Estados, já em crise, enfrentando quedas crescentes de receita, são, ainda, apenados pela União com a cobrança de uma dívida pelo menos discutível.

     Na impossibilidade de privatizar de uma só vez a Petrobras, o governo cuida de fragilizá-la ao limite de renunciar às expectativas do Pré-sal, a maior descoberta de petróleo do planeta nos últimos 30 anos. Parte para a venda fatiada, na bacia das almas, de ativos valiosíssimos de nossa maior empresa, como campos do Pré-sal e outros, de gasodutos, da Liquigás, de sua indústria petroquímica e tudo isso por que o projeto de destruição da estatal visa a reduzi-la à condição de mera produtora de óleo bruto, o que pode ser levado a cabo em pouco tempo.

     À irresponsável venda de ativos soma-se a contração dos investimentos em exploração e produção de óleo, e assim o senhor  Pedro Parente, presidente da estatal, já pode comemorar a queda de nossas reservas para o nível de 2001. A atual direção da Petrobras, criminosamente, praticamente abandonou a atividade de exploração (perfuração de novos poços para ampliar reservas), o que fará com que, em pouco tempo, nosso mercado interno venha a ser atendido majoritariamente pelas petroleiras estrangeiras.

     Fica cada vez mais claro que o grande objetivo é o desmonte do Brasil qual o conhecemos e a entrega de nosso patrimônio, construído com tanto sacrifício e ao longo de tantos anos, a grupos internacionais que avançam sobre todos os setores da economia brasileira, principalmente nos setores vitais, da indústria de um modo geral, do comércio, da educação e da saúde. Coerente com essa política verdadeiramente de terra arrasada, o governo pretende entregar a empresas estrangeiras o controle do tráfego aéreo nacional (o que comprometerá até a aviação militar e os deslocamentos de nossas autoridades).

     Pretende liberar a aquisição integral das empresas brasileiras de aviação a empresas estrangeiras e a política de ‘céus sem fronteiras’ que permitirá a empresas estrangeiras explorar a aviação comercial doméstica, quando nossas empresas encolheram 5,47% no ano passado, o pior desempenho desde 2003.

     Às empresas estrangeiras é liberada a captação de fundos públicos, o que contraria a lógica da atração de capitais estrangeiros, pois, por suposto, viriam eles aumentar a nossa capacidade de investir. Se nem mais capital têm de trazer, virão simplesmente abocanhar fatia crescente do capital privado nacional, acelerando, com a ajuda governamental, a desnacionalização de nossa economia.  Pari passu é autorizada a instalação de 21 Zonas de Processamento de Exportação (ZPES) sem cobrança de contrapartidas, ao lado de concessões de serviços públicos sem a exigência de conteúdo local.

     Enquanto isso, segue o esforço da maioria parlamentar, guiada pelo Planalto, visando à destruição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), à perversa precarização do trabalho em meio à recessão e ao desemprego, e a reforma da previdência que só cuida de prejudicar quem mais dela depende, o assalariado.

     O governo que assim comanda a economia brasileira, permanentemente na corda bamba, sem credibilidade, carente de legitimidade e apoio popular, cuida do dia a dia sem saber se terá amanhã, pois pode e deve ser alcançado pelas delações dos executivos da Odebrecht, recentemente homologadas pela presidente do STF.

     Se salvar-se dessa ameaça, saída improbabilíssima, o ainda presidente pode ter seu mandato cassado como consequência da eventual impugnação pelo TSE das contas da campanha de 2014, embora as chicanas jurídicas do ministro Gilmar Mendes, aquele que não disfarça sua condição de militante partidário e, agora conselheiro do presidente que mais tarde julgará, tenta ora desvincular as candidaturas Dilma-Temer, ora prorrogar ao máximo o julgamento. Enseja ao presidente a renovação de duas ou mais vagas no plenário, inclusive a substituição do relator, o que lhe daria absoluto controle da Corte.

     Festeja-se a homologação das delações, mas é de lamentar a manutenção do sigilo, que só contribui para fortalecer suspeições difusas que são utilizadas para toldar o ambiente já de si tenso após tanta espera. O recurso ao sigilo, ademais, contraria o principio basilar da transparência, segundo o qual a publicidade deve ser a regra e o sigilo a exceção, e só tem servido para o ‘vazamento seletivo’ manipulado nas entranhas dos inquéritos e seus agentes.

     Pelo que se comenta em todos os bastidores da política e dos templos da Justiça, a delação dos executivos e do principal acionista da Odebrecht é grave demais, para os destinos da República e da Lava Jato, pelos seus aspectos intrínsecos, civis e criminais. De igual modo é importantíssima pelos suas evidentes implicações políticas e consequências institucionais, para ser tratada às escondidas, abrindo espaço para suspeições.

     A homologação e o sigilo foram anunciados quando estávamos nas vésperas da eleição das mesas diretoras do Senado Federal e da Câmara dos Deputados que definirá, ademais, a linha sucessória da Presidência da República, podendo eleger futuros réus da Lava Jato.

     O que está posto à toda evidência é que a conjuntura aponta para uma crise político-institucional potencializada pela crise econômico-social. Neste momento, os partidos precisam de nitidez ideológica afirmada em sua fidelidade a princípios e programas.

     Vencida pela reação sempre enérgica de sua brava militância, a bancada do PT na Câmara tende a ficar onde deve e de onde não pode sair, ou seja, na oposição ao governo títere. Precisa cumprir o papel  – se puder fazê-lo – de aglutinador, sem veleidades hegemonistas, dos partidos de oposição (PDT, PCdoB, Rede e PSol) num bloco parlamentar de resistência ao desmonte do Estado e da economia nacional.

     Do movimento social, sindicatos à frente, a conjuntura exige capacidade de ação,  mobilização permanente, dando sustentação, impulso e vigor  à oposição parlamentar. É hora de ampliar nossos espaços e cuidar de alianças táticas – inclusive com o capital produtivo, que os poucos vai descobrindo o erro que cometeu com a solidariedade ao impeachment.

     Em tais circunstâncias, a superação da crise passa por entendimento que antecipe a eleição direta de novo Presidente da República. Este sim, ungido pelo voto popular, e só nesta condição, terá legitimidade para dar rumo ao País.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Caçadora de satélites - por Antoine Collignon (site homônimo)

Comemorando a recessão - por André Araujo (Jornal GGN)

     A pergunta é clássica, estão comemorando o que? A inflação ficou dentro da meta por causa de uma gigantesca recessão e qual é a vantagem disso? Para os que têm renda certa e segura, como funcionários concursados, rentistas que vivem de aplicação financeira, é ótimo inflação zero mesmo com o país em ruína econômica, são os beneficiários da economia improdutiva, aquela que nada produz e só consome e não precisa competir no mercado, o grupo chamado de "férias em Miami".
     Mas para a economia da produção a famosa inflação "dentro da meta" foi conseguida a custa de muito sofrimento, 13 milhões de empregos sacrificados, empresas quebradas, milhares de lojas fechadas, aumento da criminalidade, lares destruídos, suicídios, jovens fora da escola.
     A longo prazo, a queda da arrecadação que é decorrente da crise, pode colocar em risco os salários dos concursados e os juros dos aplicadores. Mas serão os últimos a perder.
     A inflação de 6,29% foi conseguida pela derrocada da economia, é um resultado vicioso e não virtuoso, não há vantagem, mérito ou impulso ao crescimento nesse resultado, é a dieta por falta de comida e não por recomendação médica e não tem comida porque não tem dinheiro para comprá-la.
     Estabilidade monetária com prosperidade é a meta virtuosa, aquilo que os estatutos do Federal Reserve, o banco central americano, exigem de sua direção. Mas se tiver que ser feita uma escolha exclusiva, o emprego vem à frente da estabilidade monetária porque a prosperidade significa emprego e este preserva a sobrevivência da população mesmo com alguma inflação. A inflação incomoda, a fome mata.
     Como é possível tantos economistas endossarem essa politica? Os cânones da ciência econômica ensinada nas escolas de economia dos países centrais seguiram cartilhas majoritariamente ortodoxas nos anos do pós guerra, porém com algumas correntes minoritárias de grande solidez intelectual que apontavam caminhos fora do mainstream da ortodoxia, especialmente até os anos 70, destacando-se nesse grupo Albert Hirschman, Gunnar Myrdal, Raul Prebish, o nosso Celso Furtado. O grupo dos economistas do desenvolvimento ganhou prestígio e a eles devemos a industrialização do Brasil, fortemente combatida por ortodoxos da época como Eugenio Gudin, criador do primeiro curso de economia no País.
     Com o advento do neoliberalismo de Friedrich von Hayek nos anos 70 e do monetarismo de Milton Friedman com sua expressão política nos governos Thatcher-Reagan, a escola do desenvolvimento perdeu força e uma nova e grande safra de "economistas de mercado" emergiu das faculdades americanas, um grupo de economistas de países emergentes que fizeram pós graduação no MIT, Chicago, Northwestern, Cornell, especialmente.
     Outras escolas como Harvard, Stanford e New School of Social Research mantiveram-se mais equilibradas, mas os centros universitários do mainstream ortodoxo moldaram a cabeça dos nossos "economistas de mercado" que, aqui voltando, passaram a ensinar e propagar o "evangelho" monetarista cujo apóstolo foi Milton Friedman com seguidores importantes como Alan Meltzler, hoje sucessor do legado de Friedman. A escola de economia da PUC Rio, depois suas derivações como a economia da FGV, o Ibmec e o Insper se encarregaram de propagar o credo Hayek-Friedman até hoje. Sobre a construção ideológica na alma mater dos "economistas de mercado" brasileiros escrevi em 1995 o livro " A Escola do Rio", narrando a trajetória, influência e importância da escola de economia da PUC Rio, dominante no Brasil desde o Plano Real até hoje, é força central do "mainstream" que controla a economia brasileira mesmo nos anos do PT.
     Nos EUA apos a mega crise de 2008, o credo cego no monetarismo e no neoliberalismo foi revisto profundamente nas catedrais da ortodoxia, como a Universidade de Chicago. O que se ensinava antes foi considerado como uma receita da crise de 2008, um excesso de poder do mercado financeiro sobre a macroeconomia que quase liquida com a economia americana, só salva pelo plano TARP, uma profunda intervenção do Estado na economia, o que desmontou todos os argumentos de que o mercado deixado livre faz funcionar sozinho a economia.
     Wall Street perdeu prestígio, os grandes fundos de investimento como Black Rock (ativos de 6 trilhões de dólares) Fidelity Johnson (4 trilhões) e outros 19, com ativos de mais de 1 trilhão, mais os grandes fundos de pensão e gestores de fortuna como Bessemer Trust, Norhtern Trus, State Street, U.S.Trust, as grandes casas de administração de patrimônio dos EUA, Canadá e Holanda, passaram a desconfiar de Wall Street, que lhes empurrou ardilosamente os papéis subprime, sabendo que eram "podres". Esses fundos passaram a desprezar a assessoria dos bancos de investimento e a operar diretamente com seus departamentos de pesquisa, desprezando também agências de rating, uma mudança substancial do mundo financeiro, algo QUE NÃO FOI CAPTADO NO BRASIL por preguiça, acomodação, estupidez e elitismo de muitos economistas sentados em seus louros.
     Os "economistas de mercado", do qual o líder hoje é o presidente do Banco Central, continuam com o evangelho de Chicago dos anos pré-crise de 2008, seu capital político é aquilo que aprenderam numa cartilha hoje SUPERADA mas que continuam a aplicar aqui porque é o que eles sabem, é o aparelhamento intelectual que eles adquiriram antes de 2008 nos EUA e que continuam transmitindo a seus alunos e é esse evangelho que os comentaristas da mídia brasileira conhecem e propagam. Estão todos completamente defasados.
     Hoje o conceito de austeridade foi revisado até pelo Fundo Monetário Internacional que, no seu relatório anual sobre a Grécia em 2016, foi crítico da política de austeridade que, segundo o próprio relatório do FMI, aprofundou a crise, exatamente o que estamos vendo no Brasil.
     O mesmo Fundo Monetário Internacional REVIU para baixo, em 16 de janeiro deste ano, a previsão de crescimento do Brasil para 2017, de 0,5% para 0,2%, quer dizer, a política econômica é um ABSOLUTO FRACASSO porque não produz prosperidade. Só estabilidade monetária era a meta do regime de Salazar em Portugal por 40 anos e fez dois terços da população masculina emigrar para não morrer de fome.
     O monetarismo de Chicago está hoje morto e enterrado no mundo mas vivíssimo no Brasil, tal qual o positivismo, enterrado na França e sobrevivo no Brasil. Temos o curioso hábito nacional de acolher doutrinas velhas, agasalhá-las, ressuscitá-las, incensá-las e mantê-las vivas. É o que o Brasil faz hoje com o monetarismo e o neoliberalismo. Pior ainda, recepciona tais doutrinas mal e porcamente por retalhos e não pela sua integridade, privatiza-se o presídio de Manaus apenas para justificar um custo-preso três vezes maior que em São Paulo, algo sem lógica econômica alguma mas usando a privatização como capa e trem pagador da política.
     O monetarismo praticado pelo Banco Central é uma completa aberração intelectual. Fazer política sueca em um País emergente e cheio de carências, pior ainda uma política que nem sequer tem como desculpa ser eficiente do ponto de vista das elites produtivas, é ruim para todos menos para rentistas de dois tipos: os pendurados na folha do Estado com altos salários e os que vivem de juros de aplicações financeiras, ambas classes improdutivas mas que drenam recursos escassos de toda a população. São estas castas que pilotam o Banco Central desde o Plano Real e representam nele a economia improdutiva cujo porta voz é o Boletim FOCUS e a sua assessoria de comunicação é a GLOBONEWS, que se congratula (Programa Fatos e Versões de 14 de janeiro) com duas vitórias, a inflação dentro da meta e a baixa da taxa Selic, completando com "Henrique Meirelles, o esteio do governo", na opinião da âncora (Cristiana Lobo) e dos dois convidados. A inflação dentro da meta foi conseguida pelo desemprego e paralisia econômica e a baixa da Selic não é vitória, é ato de vontade do BC.
     Há no mundo hoje um claro ciclo "anti-globalização" cujos símbolos são o BREXIT e a eleição de Trump. Enquanto isso o Brasil aprofunda seu atrelamento negativo à globalização cujo símbolo é a PETROBRAS convidar 30 empreiteiras estrangeiras e nenhuma nacional pra completar as obras do Comperj, ao mesmo tempo a mesma PETROBRAS refuta veemente a ideia de comprar equipamentos no Brasil, como se isso fosse pecado mortal. No mesmo momento a plataforma Trump é na linha do protecionismo e no "buy american".
     Estamos portanto na contramão da História e da economia mas, aqui dentro,  aparentemente ninguém sabe disso, nem o Governo, nem a academia, nem a Globonews, nem a Jovem Pan e nem o grupo social dos ricos, uma vez que hoje na prática inexiste uma elite brasileira, só há ricos de Miami, pelo menos podiam ser ricos obcecados por Florença ou Salamanca em busca de cultura e refinamento e não apenas nas bolsas Prada para suas peruas.
     Os economistas realmente inteligentes, não são muitos, sabem que o CUSTO DA RECESSÃO é infinitamente maior do que o custo da expansão monetária para criar demanda. No artigo acima do New York Times está a ideia de que JOGAR DINHEIRO DE HELICÓPTERO para o povo é mais barato para a economia do que ter milhares de fábricas operando a 30% da capacidade, milhões de desempregados, arrecadação de tributos em queda livre.
     Quanto custa para o Tesouro Nacional e para os Tesouros Estaduais a atual recessão brasileira? 500 bilhões de Reais? Muito mais. A queda de 3,8% do PIB de 2015 sobre R$ 7 trilhões do ano anterior (grosso modo) representa R$ 280 bilhões de perda de riqueza real. Mas tem mais, se o crescimento fosse de 3%, que é a media mundial de 2015, haveria mais R$ 210 bilhões de PIB não gerado, portanto o Brasil perdeu quase R$ 500 bilhões de riqueza real, sobre a qual seria gerada uma arrecadação (carga fiscal) de 38% ou seja R$ 190 bilhões, fora receita da previdência, estaria aí completamente coberto o déficit fiscal de 2015, com sobra.
     Já para 2016 a queda de 3,5% do PIB significa R$ 245 bilhões de perda de riqueza e se houvesse crescimento de 3% (ainda abaixo da média mundial) seriam mais R$ 210 bilhões de riqueza não criada.
     Somadas as duas quedas do PIB mais os dois crescimentos não havidos, temos R$ 915 bilhões de perda de riqueza em dois anos, sobre a qual a arrecadação perdida seria de R$ 347 bilhões.
     Então o custo da recessão é muito superior ao custo de evitar a recessão pela expansão monetária a ser aplicada em um mega plano de obras de infra estrutura. Enquanto isso os Samuéis, as Monicas, os José Márcios, os Luis Robertos, os Mansuetos e os demais entrevistados de sempre da mídia econométrica da GLOBONEWS, estão obcecados com o "ajuste fiscal", que fica absurdamente mais difícil POR CAUSA DA RECESSÃO, ajuste que seria manejável com crescimento. Mas para entender isso precisa massa cinzenta e a decoração de cartilhas da velha economia das universidades americanas pré-2008 não é suficiente para entender, e muito menos resolver, a crise econômica, que exige visão geopolítica muito acima e além da economia de cartilha.
     O "helicopter money" foi em primeiro lugar proposto por ninguém menos que Milton Friedman e a ideia hoje tem apoiadores nos países centrais, incluindo Ben Bernanke, o anterior Chairman do Fed, o principal articulista do FINANCIAL TIMES, Martin Wolff, o economista chefe do CITIGROUP Willem Butler, economistas de grande reputação como Brad DeLong, da Universidade da Califórnia, outros como William Butler e John Muelbauer (Oxford), Steven Keen, Mark Blyth, Roger Farmer, Eric Longerman, todos de universidades top.
     Mas no Brasil não precisamos jogar dinheiro de helicóptero, basta investir em infraestrutura, dinheiro público, R$1 trilhão em 40 meses, R$ 25 bilhões por mês, para isso precisa mandar Meirelles de volta à Nova York e Goldfajn para o Itaú e trocar toda a diretoria do Banco Central, os que aí estão nem amarrados vão aprovar qualquer expansão monetária, gostam de tirar sangue da economia, que já perdeu nos últimos dois anos R$1 trilhão de liquidez, é o que fez nascer e aprofundar a recessão que não terá fim sem expansão monetária.
    A expansão monetária para mega investimentos em infraestrutura fará o Brasil sair da recessão e com isso os problemas sociais terão maiores chances de solução, a tensão nas ruas e nas periferias diminui, o Estado passa a ter mais recursos para a saúde e a educação, a economia deve ser manejada por mentes com visão política e não por bitolados de um prato só, de uma visão estratificada do mundo, justamente agora que Trump nos lembra que não há fórmulas prontas, que a História não é racional, que os ciclos econômicos e políticos não são gerais, o mundo não é todo certinho, o mundo é um caos e o político deve agir dentro do caos porque a ordem das cartilhas só existe no papel, a realidade é fluida, é preciso navegar na tempestade.

O derradeiro nascer do sol do kamikaze - por Hokunin (Arte digital - Coolvibe)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Fotografia - por Paul Gilmore (Free Photo)

O governo Temer e o triunfo da razão criminosa – por Aldo Fornazieri (Jornal GGN)

     A degradação da democracia brasileira e a existência do governo Temer não são fruto acidental da conjuntura política, dos muitos erros do PT e do governo Dilma, da mera vontade moralizadora da Lava Jato, da parcialidade manipuladora de setores da grande mídia, da permanente disposição do assalto ao botim por parte do PMDB e dos partidos do centrão, do inconformismo golpista de Aécio Neves e do PSDB em face da derrota eleitoral. Sim, todos esses fatores contribuíram para degradar a democracia e viabilizar o governo Temer.
     Mas ele é expressão de algo mais profundo, de um mal entranhado na genética política, social e moral da sociedade brasileira, de uma vocação criminosa, de uma vontade de morte. Algo que dormita sobre as cinzas de um passado escravocrata e criminoso e que emerge de tempos em tempos com toda a sua virulência trágica que degrada e degrada, sem sublimar, sem produzir uma força de transcendência desta realidade mutilada de sentido histórico e de força e virtude morais.
     A qualidade da política e dos políticos brasileiros é da pior espécie. Os motivos são vários, mas alguns são cardeais: herança do patrimonialismo orientado para a privatização do poder público; prevalência dos interesses de grupos econômicos e do particularismo dos interesses partidários postos acima do bem comum e da perspectiva universalizante do Estado; ausência de uma cultura política elevada de debate e formulação de ideias e programas; ausência de uma cultura republicana; visão instrumentalista da moralidade pública e ausência de efetiva prática moral orientada para os fins éticos da coisa pública.
     Os políticos não são possuidores e não cultuam as virtudes republicanas da prudência, da simplicidade, da frugalidade e da humildade. Ao assumirem posições de poder – seja num partido ou no Estado – se tornam pequenos tiranos. Tornam-se fascinados pelo brilho do poder e deixam as causas em segundo plano. Aliás, manejam as causas de forma instrumental para alimentar a vaidade. Terminam querendo o poder pelo poder e subordinam os fins aos meios.
Atavismo e vontade de morte
     Esse atavismo social, político e cultural criminoso, antissocial, anti-povo, com sua existência recorrente e com frequentes surtos eruptivos, aprisiona o país à desigualdade, à violência e a incultura. Mantém o Brasil dentre os países mais violentos do mundo, mais violento que as guerras e somente quando a erupção despadronizada da morte se evidencia a sociedade percebe a dimensão dos massacres. Mas no dia-a-dia são massacrados índios, jovens negros, mulheres, trabalhadores, camponeses num país que tem como pedras fundamentais o sangue e a violência, a escravidão prolongada, a injustiça e a desigualdade sistêmica. Esse atavismo se  evidencia no apoio que teve o agente da chacina de Campinas, em manifestações nas redes sociais, no desejo de que novos massacres ocorram nos presídios, na desumanização tornada um elemento da opinião pública, nos campos de concentração que são as nossas cadeias, na transformação da política em atividade criminosa.
     Esse atavismo criminoso distorce a moral mesmo daqueles que defendem um país mais justo. Na velha prática da subordinação dos fins aos meios e da transformação dos meios em fins, aceitam práticas criminosas contra a res publica em nome de que todos os partidos as praticam, aceitam que campões nacionais sejam erguidos com o suor dos trabalhadores e com o assalto aos cofres públicos. O atavismo criminoso entorpeceu ou apodreceu até mesmo a consciência dos "bons" e dos "justos".
     O país não precisa viver uma condenação eterna a este atavismo. Mas para libertar-se dele será preciso que surjam líderes com novas qualidades e novas virtudes, partidos que sejam capazes de amalgamar uma nova vontade coletiva, práticas efetivamente democráticas e republicanas. É preciso extrair as duras lições do passado, rever o nosso presente e repensar o futuro com novas visões e concepções. Muito do que foi e é a nossa política precisa receber a extrema unção para ser enterrado, sem esperança de salvação, pois não há o que ser salvo.
O colapso  moral do país
     Mesmo que hoje o governo Temer seja rejeitado pela imensa maioria da população, o fato é que essa maioria o aceitou como uma solução de conveniência. Esse governo não tem apenas os requisitos de legitimidade para existir, mas não tem também os requisitos morais. O ex-Secretário Nacional da Juventude, Bruno Julio, é a expressão moral desse governo. Trata-se de um agressor de mulheres e um defensor de massacres. Isto não pode ser individualizado, mas é uma expressão do que esse governo representa.
     Qual é o significado ou o papel de um Secretário Nacional de Juventude? Ele deve ser a manifestação do que se quer para o futuro, do que se exige dos novos líderes, do que se vislumbra para o amanhã, o exemplo para a juventude brasileira. Quem Temer escolheu como expressão simbólica desse futuro? Exatamente um agressor de mulheres, um defensor  de massacres, um catecúmeno do mal, um noviço da degradação moral. Mais do que em qualquer outro lugar e pela sua relevância simbólica, a ocupação dessa Secretaria por tal tipo, expressa, de agressiva, o triunfo da razão criminosa.
     Que governo é esse que manteve até ontem sob seu auspícios tal infame representação do futuro? Que governo é esse que mantém como seu articulador político principal um criminoso ambiental, um acusado de grilagem, um condenado em juízo que não paga a dívida da condenação? Que governo é esse cujo ministro da Justiça mente publicamente acerca de um pedido de ajuda do Estado de Roraima para evitar a violência nas prisões?
     E que governo é esse cujo presidente demora três dias para se manifestar  acerca de um brutal massacre e ainda o classifica como acidente? Acidente, senhor Temer, é algo que acontece por acaso, por imprevisto, é algo fortuito. Ali não foi acidente, foi um massacre eruptivo, somado a massacres menores que vêm se prolongando ao longo dos anos. Alguém que se pretende condutor de uma nação não tem o direito de se comportar de forma leviana como se comportou Temer.
     Neste país dilacerado, desigual, com milhões de desempregados, violento, corroído e corrompido, cada vez mais dominado pelo crime organizado, com a juventude da periferia sendo recrutada pelo narcotráfico a sociedade está à procura de um amálgama moral, de um conforto espiritual, de uma esperança material. Mas o que se encontra são consciências embotadas, líderes embotados, partidos degradados, palavras estéreis, discursos vazios. O que se vê é um governo que é a expressão do triunfo da razão criminosa, que dá vazão a violências e massacres, que investe com vigor contra a segurança social dos cidadãos e contra os seus direitos.
     O que se vê são os representantes do povo agindo contra o povo. O que se  vê é um Judiciário que aceita a violação da Constituição e que condena à degradação e à morte centenas e milhares de presos. Prendem ladrões de  salames e de galinhas, mas não prendem sonegadores e outros altos criminosos. O que se vê é uma oposição pálida, impotente, quando não conivente com isto que está aí. O que se vê é um país que aumenta a verba para a construção de presídios onde se formam os criminosos e reduz os recursos da saúde e da educação. É preciso até mesmo colocar em dúvida se temos capacidades de nos livrar desse atavismo social e cultural perverso e de construir uma perspectiva mais promissora para o futuro.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política. 

Ciclista - por Zhivko Dimitrov (Fotografia / ISO Republic)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Nassif explica o jogo das elites e dos EUA para implantar o “capitalismo de desastre” no Brasil - por Laércio Portela (Marco Zero)

A crise brasileira deve se agravar com mais arrocho e desemprego até que setores do mundo político tenham o bom senso de fechar um acordo para tirar o país do caos. Essa é a expectativa do jornalista e blogueiro Luis Nassif. Profissional com décadas de experiência na cobertura da cena política e do mundo dos negócios, Nassif tem sido um dos analistas mais produtivos e argutos do turbulento quadro nacional.
Recentemente, o jornalista esteve no Recife para duas palestras, uma a estudantes da Faculdade de Direito e outra numa Plenária do movimento sindical, no Sindicatos dos Bancários, por iniciativa da Tempus Comunicação e da CUT. Entre as duas, bateu um papo com a reportagem da Marco Zero Conteúdo. Nassif fez um diagnóstico perturbador sobre as origens da crise brasileira e avaliou os males que rondam o nosso futuro. Mas ele ainda aposta na busca de entendimento de atores políticos antagônicos para tirar o país do atoleiro.
A Doutrina do Choque
Cunhada pela cientista social canadense Naomi Klein a expressão “doutrina do choque” está relacionada à teoria desenvolvida pelo economista norte-americano Milton Friedman (1912-2006). Países impactados por guerras, ataques terroristas, desastres naturais e golpes de estado estariam aptos a serem submetidos ao cardápio neoliberal das desregulamentações, privatizações e cortes em programas sociais.
Esse receituário precisa ser adotado rapidamente, entre seis e nove meses pós-choque, apontava Friedman, no momento do vazio mental causado pelo impacto do trauma.
A brutalidade da teoria fica ainda mais evidente quando se conhece sua origem. As experiências patrocinadas pela CIA para “desenvolver” novas técnicas de tortura. No Allan Memorial Hospital, em Montreal, Canadá, o psiquiatra Ewen Cameron e sua equipe dopavam pacientes e os submetiam à extrema privação sensorial, nos anos 1960, para esvaziar suas mentes, levando-as ao estado infantil, prontas para serem reprogramadas.
Essa regressão atraiu a CIA e foi implementada na Base Militar de Guantánamo (Cuba) e em Abu Ghraib (Iraque). Friedman levou o mesmo princípio para o mundo da economia e o pôs para rodar no Chile pós-golpe militar do general Augusto Pinochet, modelo seguido depois pela ditadura militar da Argentina. Naomi Klein em seu livro A Doutrina do Choque (Nova Fronteira, 2008) diz que o receituário do choque neoliberal foi aplicado também na Rússia e no Leste Europeu, pós dissolução da União Soviética; no Iraque, pós 11 de setembro; e na cidade de New Orleans destruída pelo Furacão Katrina.
O ditador Augusto Pinochet recebeu em Santiago do Chile o economista norte-americano Milton Friedman, após o golpe de estado. Na agenda econômica do novo regime: privatizações e cortes nos programas sociais
O ditador Augusto Pinochet recebeu em Santiago do Chile o economista norte-americano Milton Friedman, após o golpe de estado. Na agenda, privatizações e cortes nos programas sociais
Para Nassif, o “capitalismo de desastre” chega agora com tudo ao Brasil, depois do golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff da Presidência da República. “Depois que um país vive um choque, ele perde suas referências. Como pregava Friedman, você tem seis meses para implementar ideias que não seriam aceitas pelos eleitores em outras condições: reforma da previdência, redução dos gastos sociais e abertura para os capitais financeiros. É o que estamos vendo agora no Brasil”.
A financeirização do mundo
Para se compreender o jogo que está sendo disputado no Brasil, é necessário entender o processo de financeirização do mercado a partir dos anos 1990, avalia Nassif.
A política da maior potência do mundo, os Estados Unidos, passou a ser controlada pelo mercado financeiro. Com o processo de globalização, esse domínio se alastrou por todo o mundo. O discurso passa a ser um só: a máxima eficiência para cada empresa refletiria na eficiência global. Em 2008, o cenário é de monopolização financeira.
“Com a eclosão da crise do sistema financeiro, em 2008, o discurso de onipotência desse mercado perde força e acaba a possibilidade dele interferir na política por meio do processo democrático”.
A política anticíclica adotada pelo governo Lula em plena crise financeira mundial fortalece a economia nacional e a posição de protagonismo do Brasil no mundo. A China ganha força como nova potência econômica. Os países emergentes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) passam a ser uma referência num mundo cada vez mais multipolar. “É quando a geopolítica norte-americana surge para mudar isso”, alerta Nassif.
Fortalecimento dos Brics e da posição regional do Brasil chama a atenção da geopolítica norte-americana
Fortalecimento dos Brics e da posição regional do Brasil chama a atenção da geopolítica norte-americana
“Quando o mercado financeiro toma o controle da política econômica, ele só toma decisões em favor do capital financeiro. Para ele, interessa a ampla e livre circulação de capitais. Se sua atuação em um país não der certo, não tem problema, ele vai para outro país”.
A razão de Estado
“A razão de ser do Estado é outra. Ele foi criado para proteger os desprotegidos. O Estado tem que ter um projeto nacional, um projeto para o país. Para a saúde, para a educação, a assistência social, a segurança. Sua atuação esbarra nos interesses de curto prazo do mercado financeiro. A dívida pública sempre foi um grande negócio do mercado financeiro. O orçamento público sempre esteve na mira de interesse do mercado”.
A análise de Luis Nassif abre uma porta para entendermos os interesses por trás da recente aprovação da PEC 55 pelo Congresso Nacional: congelamento de despesas primárias (despesas com pessoal, investimentos em infraestrutura e gastos sociais) e garantia de recursos para pagar os juros da dívida, remunerando os rentistas nacionais e internacionais. Em resumo: redução da capacidade de ação do Estado e fortalecimento do mercado financeiro.
2013: o ano em que o Brasil piscou
Com o agravamento da crise econômica e o início do fim dos tempos de bonança, a partir de 2012, setores do mercado financeiro norte-americano associados a segmentos das elites econômica, política e burocrática brasileiras ficaram em alerta. As manifestações de junho de 2013 deram o sinal de que o governo Dilma começava a perder apoio na opinião pública. Sua popularidade, afinal, depois de bater recorde, estava sendo abalada.
“Em 2013 você tinha uma estado difuso, de confusão. Sempre que você tem esse estado de coisas, o mais fácil é focar no presidente. Nos anos 80, quando as pessoas foram para as ruas protestar, elas focaram no presidente, que era um militar. Daí o apoio à democracia. Agora, a revolta mais uma vez atingiu o presidente da República, na figura de Dilma. Desta vez, enfraquecendo a democracia”, argumenta Nassif.
Até hoje as manifestações de junho geram interpretações divergentes. Para Nassif, naquele momento as elites perceberam que havia um espaço para minar a popularidade da presidenta Dilma e enfraquecê-la politicamente
Para Nassif, as manifestações de junho de 2013 fez elites perceberam que havia espaço para minar a popularidade da presidenta Dilma

“Pra você fazer o contradiscurso você tem que elaborar muito mais. Agora quem tem a capacidade de elaborar mais, tem os instrumentos, a visibilidade, é a presidenta da República, então se ela não te dá as bandeiras, não faz o discurso político, aquilo não tem jeito”. O jornalista avalia que faltou a Dilma e ao PT o entendimento de que era preciso fazer um esforço para entender e desenvolver uma aproximação política junto aos novos grupos de esquerda que foram para as ruas, tais como o Movimento Passe Livre (MPL). A falta de visão e a burocracia interna do PT impediram essa aproximação.
As forças políticas de direita não perderam tempo e avançaram. Em 2013, quando as elites locais associadas ao sistema financeiro internacional veem que a população está pronta, eles planejam dois escândalos de interesse geopolítico americano: Petrobras e FIFA. O Ministério Público entra de cabeça nisso e fecha diretamente acordos de cooperação com os Estados Unidos, sem que estes sejam avalizados pelo Ministério da Justiça brasileiro.
O escândalo da Petrobras tem o objetivo de desmantelar a base de operação da maior empresa nacional e, portanto, toda a cadeia brasileira de petróleo e gás, abrindo espaço para o controle dessa indústria pelas empresas multinacionais. O escândalo da FIFA serviria para expor e abrir o segmento de mídia no Brasil, o único mercado nacional fechado para o capital internacional.
Os norte-americanos percebem então que as informações sobre a Petrobras fluem rapidamente e em grande quantidade, mas o mesmo não acontece com o escândalo da FIFA, informa Nassif. Tinha a Rede Globo no meio do caminho. “A corrupção da FIFA é uma criação do Brasil. Uma criação da Rede Globo”, pontua o jornalista.
A partir daí, a mídia, a oposição e o “mercado” começam a tocar, sem trégua, a agenda do caos. Nada presta, nada funciona. E a culpa é sempre do governo federal. É por exemplo o que acontece com as previsões catastróficas em torno da realização da Copa do Mundo. “No mundo real, tudo foi um show. Os estádios ficaram todos prontos a tempo, apesar das previsões da imprensa. As matérias então deixam de ser sobre a construção e começam a falar que falta sabonete nos banheiros dos estádios. Um absurdo completo. O que importava era bater”, critica Nassif. A teoria do choque começa a rodar.
Com a derrota eleitoral em 2014, “Aécio, José Serra e Fernando Henrique Cardoso tornaram-se os porta-vozes do caos estimulando o movimento golpista nas ruas e nos jornais, enquanto a parceria Procuradoria Geral da República/Lava Jato/mídia tratava de incendiar a classe média com as denúncias de corrupção focadas exclusivamente no PT e em Lula”.
Aos erros praticados pela própria presidenta, de implantar a agenda econômica restritiva pregada pelo seu adversário (Aécio Neves, na campanha de 2014), designando Joaquim Levy para comandar o ajuste fiscal, somaram-se a perda da base parlamentar e a atuação de Eduardo Cunha e do PSDB para inviabilizar, no Congresso Nacional, os projetos do governo que tentavam de alguma forma consertar seus próprios desacertos.
Eduardo Cunha, na Câmara, e Aécio Neves, no Senado, trabalharam incansavelmente para inviabilizar os projetos e a governabilidade da gestão Dilma Roussef no Congresso Nacional.
Eduardo Cunha, na Câmara, e Aécio Neves, no Senado, trabalharam incansavelmente para inviabilizar os projetos e a governabilidade da gestão Dilma Roussef no Congresso Nacional
Em fevereiro de 2015, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vai aos Estados Unidos entregar ao Departamento de Estado norte-americano dados internos de uma empresa brasileira. “O discurso anticorrupção foi o mote que juntou todas as pontas, criando o sentimento da classe e fornecendo o álibi para quem pretendesse pular no barco da conspiração”.
Elitismo e visão de classe
À frente do combate à corrupção estão os jovens procuradores do Ministério Público que tocam as investigações da Lava Jato. Jovens, na visão de Nassif, descolados da realidade, com perfil elitista e imbuídos do espírito de salvadores da pátria. Para o jornalista, o problema começa no modelo de seleção.
“Eles entram na carreira por concurso. Esses concursos não exigem conhecimentos profundos, de conceitos, é uma decoreba, não é? Uma decoreba. Aí você chega, pega um moleque de 25 anos, ganhando um salário que você não tem no setor privado, onde o salário inicial é um terço disso, então o sujeito se sente superpoderoso, ele muda de classe”, critica.
O referencial teórico construído em cursos e seminários ministrados em países estrangeiros também descolaria esses profissionais da realidade nacional e dos compromissos com um projeto de país: “O pessoal idealizou muito a ascensão da classe C, mas o fenômeno politicamente mais influente, foi essa internacionalização da classe B, os PHDs que vão fazer cursos fora do Brasil. Você pega o Joaquim Barbosa (ex-presidente do Supremo Tribunal Federal na época do julgamento do Mensalão), lá atrás. O que ele tinha de diploma externo… O que você lê daquilo? É um cara culto, um cara que nunca pôs a mão no trabalho dele. Passou a vida fazendo esses concursos. Então se criou esse sentimento de que eles pertencem a uma elite internacional. Eles acham que somos um país de botocudos. Eles perderam a noção de serviço público”.
E completa: “Eu fui num evento dos auditores da Receita e me falaram: ‘o pessoal que entra aqui, eles não são servidores públicos, eles são autoridades’. Então esse sentimento foi muito forte e em algum momento esse pessoal vai ter que ser enquadrado”.
Para Nassif, em algum tempo no futuro – “eu não sei em quantos anos” – a atuação dos integrantes da Lava Jato deverá ser julgada, considerando os males que causaram ao sistema político e à indústria nacional. “Você tem várias coisas em que eles podem dizer que estavam cumprindo a lei. Agora, você fazer acordo nos Estados Unidos contra empresas brasileiras e contra a Petrobras? Isso não tem quem livres eles não”, avalia o jornalista e analista político.
Made in USA
Em 2008, diversos países sacrificaram sua população para salvar o mercado financeiro da maior crise recente de sua história. A atuação dos atores políticos, associados ao mercado, criou uma ojeriza geral à política por parte de amplos setores da sociedade.
Neste cenário de desgaste junto à opinião pública, os Estados Unidos veem no processo de financiamento das campanhas eleitorais um filão para dar mais corda à impopularidade do meio político. Este que é o pecado de todos os partidos. Não só no Brasil. Mas aqui tudo é ainda mais evidente. Os EUA perceberam que estava aí o caminho para combater os partidos que precisavam ser atingidos, explica Nassif. A questão é buscar o apoio corporativo da Polícia e dos procuradores do país base no qual pretendem agir e, pronto, criminalizar a política.
“Essa parceria com o Ministério Público e com a Polícia Federal substitui as parcerias feitas no passado com os militares. Com o tempo os norte-americanos perceberam que essa parceria era ruim: por conta do comprometimento com os direitos humanos (e as críticas internas que geravam em parte da opinião pública norte-americana) e com um agravante, os militares trabalham com uma visão de projeto nacional”. Projeto nacional que, na maioria das vezes, vai bater de frente com os interesses estrangeiros que “operam” no Brasil.
O foco de atuação norte-americana vai para a mídia, a PF, o MP e o Poder Judiciário. Num processo ininterrupto de catequese: parcerias, cursos, seminários, troca de informações. Todo o tipo de aproximações.
Segundo Nassif, os Estados Unidos têm dois órgãos de ação para “desconstruir os demais países”: a CIA e a NSA. A atuação invasiva da CIA no mundo todo é conhecida e já ilustra centenas de livros de histórias em dezenas de línguas. A NSA ganhou notoriedade a partir da divulgação dos documentos sigilosos pelo técnico em computação Edward Snowden, que davam conta de que a empresa pratica há anos espionagem internacional por meio de escutas telefônicas e captação de dados de emails de autoridades públicas de diversos países (entre elas Dilma Rousseff e Angela Merkel) para acompanhar os seus passos políticos, mas especialmente proteger os negócios corporativos das empresas norte-americanas. Um exemplo mais do que claro de como política e negócio são irmãos siameses quando falamos de interesses externos dos Estados Unidos.
“Quando vem a manifestação de 2013, os Estados Unidos perceberam que o Brasil estava pronto, ali tinha elementos para desestruturar o Brasil. O problema do Brasil era sua posição de liderança regional e o fortalecimento dos Brics. Era preciso desestabilizar esses países”. Porque, na visão norte-americana, o fortalecimento de países como o Brasil enfraquece a posição internacional dos Estados Unidos e das suas empresas privadas. Enfraquecem seus interesses de Estado e também privados, que lá, como em várias partes do mundo, estão embricados.
No Brasil, Nassif enumera algumas áreas que se tornaram o foco da desestabilização dos Estados Unidos e de seus parceiros no Brasil (Polícia Federal, Ministério Público, Poder Judiciário e grande mídia): a Política Industrial Naval; a Cadeia de Petróleo e Gás; a transferência de tecnologia na área de saúde, na aquisição de remédios. O avanço sobre o pré-sal e os cortes orçamentários que a área de ciência, tecnologia e inovação deve sofrer nos próximos anos, com o congelamento de gastos por duas décadas previsto pela agora aprovada PEC 55, são exemplos do jogo que está sendo jogado.
A política de conteúdo próprio e encomendas aos estaleiros brasileiros para atender as demandas de exploração do pré-sal foi fortemente atingida pela ação da Lava-Jato e do governo Temer
A política de conteúdo próprio com encomendas aos estaleiros brasileiros para atender as demandas de exploração do pré-sal foi atingida pela ação da Lava Jato e do governo Temer
Nassif explica que a indústria sofreu profundamente com a sobrevalorização cambial durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso. No governo Lula, as empreiteiras passaram a ter um papel fundamental na política industrial nacional, na construção de estaleiros, na defesa nacional. Mas tudo isso muda com a chegada da Operação Lava Jato, comprometendo a saúde financeira e o status das empresas investigadas.
“A Lava Jato podia punir os executivos, mas preservar a empresa. A contrapartida dessas empresas foi fomentar uma grande base tecnológica no Brasil. O cenário agora é de desolação, deixando cidades do Rio Grande do Sul na miséria e uma situação de caos no Rio de Janeiro”.  Estados que tiveram que demitir milhares de trabalhadores nos segmentos de indústria naval e petróleo e gás.
“Você hoje tem 16 projetos de empresas nacionais que venceram concorrências no exterior e que o BNDES já não pode mais financiar. Vivemos o inferno brasileiro. Montaram um inferno no Brasil para ser governado pelo Michel Temer. Não tem jeito de uma coisa assim funcionar”.
Pior, as investigações da Lava Jato são dirigidas, seletivas, acusa Nassif. “Estamos chegando a uma situação clara em que o procurador-geral trabalha para proteger o PSDB. Veja a que ponto chegamos”.
Um novo acordo
Para tirar o Brasil do atoleiro, só um pacto, um acordo entre forças políticas distintas. “A questão é qual é o tempo para tudo mudar. O governo Temer ia ficar dois anos e meio e já acabou. O PSDB quer jogar FHC. Ele não tem esse dinamismo. Tem 85 anos.”
No caso de uma radicalização à direita, Nassif chega a apontar a possibilidade, “gravíssima”, de uma brecha para as Forças Armadas. Mas seria uma saída ruim para os dois lados, tanto para a esquerda quanto para a direita aliada do capital estrangeiro, segundo o jornalista. Para a esquerda porque as Forças Armadas veem um inimigo comum (justamente os partidos de esquerda). Para a direita, porque as Forças Armadas têm um projeto nacional (de desenvolvimento, nacionalista), que deve se chocar com os interesses nem um pouco patrióticos do mercado financeiro.
“Neste cenário, a saída é algum tipo de entendimento. A crise que temos é uma crise política. Mas temos também os economistas tucanos, eles não estão nem um pouco interessados em resolver os problemas da economia, mas em desestruturar o pais. É preciso vir algum tipo de acordo”.
Questionado se esse acordo teria que passar pelos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula, Nassif diz que não tem outro jeito: “No fundo acaba dando neles. Infelizmente porque nós não conseguimos criar outras referências. Estou falando eles e chamando outros aí também, né? O Supremo. Você tem dois fatores aí que vão dar o tempo do acordo. O primeiro fator é o grau de consciência dessas elites nossas. Elas são muito ruins. O segundo fator é a velocidade do aprofundamento da crise, que é muito rápida. A última chance que essas elites políticas têm de preservar o poder – e acabar evitando um aventureiro de fora – é um acordo para impedir o aprofundamento da crise, e isso significa um grande pacto que passa por renegociação de dívidas das empresas e pessoas físicas, aumento de gastos, reativação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), reativação da indústria de petróleo e gás”.
Acordo para colocar o Brasil de volta ao eixo com a reativação da economia e a convocação de eleições diretas deve passar por entendimento entre Lula e FHC, na previsão de Nassif]
Acordo para colocar o Brasil de volta ao eixo, com a reativação da economia e a convocação de eleições diretas, deve passar por entendimento entre Lula e FHC, na previsão de Nassif
O fortalecimento dos novos e também dos tradicionais movimentos sociais joga um papel importante no pêndulo político de um futuro acordo, incluindo aí o movimento estudantil e os movimentos feminista e negro, MST e MTST, entre outros. “É importante porque você tem que ter uma preservação desses avanços, dessas políticas sociais, disso tudo. Você tem que ter uma pacificação nacional. E uma pacificação nacional significa você atender os reclamos justos dos movimentos sociais”.
Recuperação exige agenda anticíclica
Esse acordo, de que fala Nassif, teria, segundo o jornalista, que “atropelar os princípios neoliberais”. O acordo precisa primar pelo aumento de gastos públicos e despesas sociais para os grupos de baixa renda voltarem a consumir. “A cultura brasileira, esses valores nacionais, vão estar por trás da recuperação do nosso país”. Em resumo, um novo receituário econômico entraria em pauta, anticíclico: choque de despesa pública (relação dívida/PIB é grande por causa dos juros), retomada das obras do PAC para reativar a base de infraestrutura do país. Retomada de obras do polo petroquímico, mais incentivos às políticas sociais, renegociação das dívidas das empresas. Tudo para sanar os efeitos recessivos das políticas implementadas por Dilma/Joaquim Levy e Temer/Meirelles.
Essas seriam as duas principais bases de um acordo: tirar o país da recessão e prepará-lo para novas eleições diretas.
“A crise é maior do que a ideologia, não tem como passar do primeiro semestre (de 2017). Eu acho que o Bolsonaro não vai adiante. Acho o Ciro (Gomes) uma ameaça maior do que o Bolsonaro. É preparado, mas não tem a menor noção de relação de forças. Ele seria um grande assessor de um presidente que soubesse negociar. A fala dele é desproporcional ao poder dele. Aliás, quem tem muito poder, fala pouco”.
Nem Ciro Gomes, nem Jair Bolsonaro têm as condições políticas necessárias para assumir a Presidência da República, na visão de Nassif
Nem Ciro Gomes nem Jair Bolsonaro têm as condições políticas necessárias para assumir a Presidência da República
Mas Nassif vê um perigo à espreita:
“O meu receio é um militar com um discurso racional. Espero que não ocorra. Espero por um pacto. O discurso militar racional é um discurso atraente”.
Para o jornalista, o cenário político e econômico brasileiro “ainda vai piorar antes de melhorar”. Com a continuidade do receituário neoliberal radicalizado pelo governo Temer ele prevê um “cenário mais provável de quebradeira e de quebra pau”. Com uma possível participação maior das Forças Armadas na repressão. “Nossa elites são muito ruins. Talvez demorem a fechar um acordo. O cenário imediato é de mais política neoliberal e mais repressão. Vai piorar antes de melhorar”.


“A empresa jornalística tem o direito de propriedade. A liberdade de expressão é do jornalista”

Tudo que está acontecendo no Brasil é muito impressionante. Queria te perguntar sobre o jornalismo e a indústria da comunicação. Você vê a aliança PF, MP e Judiciário. Queria que você explicasse o papel da mídia. Dessas redações que não questionam a linha editorial das empresas. Esse carreirismo. Mas primeiro a grande mídia, como é que ela se encaixa nessa associação para o golpe?
A grande mídia percebeu lá atrás que o Brasil, a partir de 1999, quando começa a enorme crise cambial, ela percebe que, com a Internet, acabou a barreira de entrada. Antes você não conseguia entrar porque com a televisão aberta e a rádio você precisava de concessão. Para jornal e revista você precisava fazer um baita investimento em gráfica, em pessoal e ter hábito de leitura consolidado. Com a Internet, essas barreiras iam cair.
Perceberam que seu monopólio corria risco…
Então, mundialmente, não apenas aqui, elas perceberam que havia uma crise seminal, estrutural, do modelo de negócio. Em pouco tempo, nos Estados Unidos, as redes sociais ganharam na publicidade nacional e nos classificados. É muito mais fácil você pegar um classificados digital do que em papel. Ao mesmo tempo, eles perceberam que perderam o protagonismo da notícia. Mas, por outro lado, você tinha uma desestruturação do mercado de notícias. Com a Internet, você não sabia mais o que era verdade, o que era mentira.
Os jornais sérios se referenciaram como jornais de verdade. O Financial Times, que é conservador e tudo, mas se sai uma notícia lá, não é mentira. O New York Times também fez isso. O pessoal mais atrasado, e aí entra o grupo do Murdoch (empresário australiano Rupert Murdoch, acionista majoritário da News Corporation, um dos maiores grupos de mídia do mundo), acabou influenciando o Brasil. No Brasil inteiro, os grupos de mídia caíram nessa de ‘vamos aproveitar o caos das notícias nas redes sociais e usar esse caos em nosso favor’. Então eles passam a inventar as mentiras e jogar nas redes sociais. Que é o que o Murdoch faz lá na campanha do Obama e os jornais fazem aqui em 2006 e, especialmente, em 2010. A quantidade de mentira que eles jogam nas redes, isso alijou o jornalismo totalmente.
Você trabalhou na grande mídia. Qual a mudança essencial do seu período e de agora?
Então, antes você tinha um pacto. Eu fui beneficiado por esse pacto nos anos 1990, entre os jornalistas e os donos de empresas, a Folha de S. Paulo no meu caso lá e a TV Bandeirantes. Nesse curto período os jornais recuperaram um pouco a noção da separação entre jornalismo e empresa. Quando você pega os modernos juristas italianos, eles fazem uma divisão grande. Eles dizem: ‘a empresa jornalística, ela tem o direito de propriedade. Agora, a liberdade de expressão é do jornalista’. Então, no fundo, quando você pega a liberdade de expressão e separa do direito de propriedade, o que é que é a empresa de jornalismo? É um grande negócio, onde ela vai pegar jornalistas de diversas linhas que podem trazer público e compor o produto dela, mas respeitando o jornalismo. Na coluna que eu tinha na Folha, eu gozei de uma boa liberdade lá.
Mas isso foi mudando…
Daí em 2003 e 2004 você percebe que os ventos estão mudando, que está acontecendo alguma coisa aí. Daí entram dois fatores que pegam os jornais na Alemanha, nos Estados Unidos… Primeiro é a financeirização dos jornais. Eles percebem que precisam se aproximar ainda mais do mercado financeiro, seguindo o mesmo caminho do Murdoch, para conseguir se capitalizar para os novos tempos de inovação tecnologia. E o segundo ponto é essa questão de criar uma frente para assumir o protagonismo político e impor, através de sua influência política, legislações que favorecessem seus interesses. Então aí acabou aquele pacto. Na Folha, teve jornalistas que saíram, não se adaptaram. Outros se mantiveram sem perder a dignidade e um terceiro grupo abriu mão de qualquer dignidade.
As novas gerações, elas passaram a ter uma não compreensão do que é o novo jornalismo. Veja bem, esse negócio de que hoje é mais difícil fazer jornalismo não é verdade. Nunca foi tão fácil fazer um bom jornalismo. Você tem todas as informações aí disponíveis hoje. O grande desafio, qual é? É você pegar essas informações, juntar, organizar e consolidar. Então o pessoal fala sobre a grande reportagem… Outro dia eu fiz uma denúncia, um assunto qualquer aí, antes da internet eu levaria um mês para levantar, eu levantei num dia. Tudo fica mais fácil, desde que você saiba o que buscar.
Hoje há um excesso de opinião.
Os jornais entraram nessa, a Folha fez isso e o Estadão foi atrás. Nos anos 90 chega a figura do âncora, o cara que dá palpite no rádio e na televisão. O colunista de jornal deveria ser o oposto. O âncora joga para a torcida. Se a torcida está indignada, ele fica indignado. O colunismo de jornal deveria pensar assim: o leitor está indignado com alguma coisa, ele está indignado porque não está entendendo direito a situação. Então eu vou ficar acima das paixões do leitor para explicar as coisas, até para ele ficar mais indignado, se for o caso. Então começou um populismo ali, de cada colunista querer jogar para a torcida, influenciado pelo rádio e pela televisão. Quando vem a internet e todo mundo dando palpite, então virou um palpitômetro. Coisa ridícula. Cronista social, musical, Nelson Mota, agora, ditando regra. Ruy Castro, um horror. Ao invés de escrever sobre o que sabe. Cony fazendo o jogo… Então ficou uma competição para atender esse leitor truculento, esse leitor que parece promissor, e atender os jornais, dentro dessa guerra aí de mobilização contra o inimigo comum que é o PT.

Comentário
Há mais dados que deveriam ser agregados:
- A substituição da diretoria da Petrobrás por Dilma em 2012 que provoca uma revolta dos parlamentares, que veem suas ilegais fontes de financiamento cortadas;
- Cunha sempre fora oposição, mas conseguira juntamente com Temer tamanha quantidade de falcatruas que aglutinara uma capacidade incrível de financiamento de outros parlamentares. Quando ele tem uma de suas fontes cortadas (em Furnas), mostra suas garras e admite oposição total ao governo, conspira, corrompe, fragiliza um governo fraco, combalido;
- A capitulação da Dilma em 2012 (oriunda desse processo de enfraquecimento político ao tentar sanear o governo), quando se rende ao mercado financeiro e começa um aumento inacreditável da taxa de juros;
- O manutenimento e até eventual aumento de subsídios quando a capacidade financeira do governo seguia diminuindo a níveis preocupantes. O bolsa-empresário que depauperou as contas públicas e permitiu que se a volta do neoliberalismo descarado e extremamente nocivo ao país como um todo.
- A nomeação de Joaquim Levy (alcunhe-o como quiser, ortodoxo, Chicago boy, monetarista, direitista, neoliberal, etc.) por Dilma. Ao adotar a política econômica prometida pelos derrotados na campanha, Dilma promoveu o maior estelionato eleitoral da história. Fez a proeza de não conseguir angariar ninguém do lado da direita e perder o povo, os trabalhadores que estavam com ela. Para que nunca se esqueça, Dilma disse no recesso parlamentar que antecedeu sua queda que a questão previdenciária - a qual ela defendia uma reforma que fatalmente também penalizaria os trabalhadores, mesmo que talvez não ao nível do proposto pela quadrilha de Temer - preocupava mais o governo que o impeachment. Patético.
- O discurso fascista e antinacional da imprensa - com incrível destaque para a Veja.

Há outros dados, mas também discordo de algumas opiniões, dentre as quais sua análise sobre Ciro Gomes.