terça-feira, 9 de março de 2010

Repórteres no pelourinho - Leandro Fortes (Brasília, eu vi)

No flagrante, a indolente negra Anastácia, que não entendia a importância do estupro consensual, para a miscigenação da civilização brasileira


A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de “delinquentes” dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquencia jornalística montado por Magnoli.
Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capiglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo manual de redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Milleniun, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião. A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de “jornalismo engajado” (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.
A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo “Jornalismo delinquente”, publicado na edição de hoje (9 de março de 2010), na página de opinião do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores, e não só da Folha, para os tempos de guerra que se aproximam. A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.
Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de “panfleto disfarçado de reportagem”, afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.


O jornalismo delinquente - por Demétrio Magnoli (Folha de São Paulo)

Demóstenes disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo


AS PESSOAS , inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz ("DEM corresponsabiliza negros pela escravidão", Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram "africanos" por "negros", convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a "raça negra" carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à "raça branca" a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres ("África não organizou tráfico, diz historiador"), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que "toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais".
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: "Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor". Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: "Negros corresponsabilizam negros pela escravidão".
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.
Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que "o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza".
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. "Não discutimos a escravidão", afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma "amnésia geral sobre a escravidão".
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.
________________________________________
DEMÉTRIO MAGNOLI, sociólogo, é autor de "Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial" (SP, Contexto, 2009).

Em Goiânia, o grande comício dos tucanos – por Ricardo Kotscho

GOIÂNIA _ Vim à bela e arborizada capital de Goiás a passeio, como informei aos leitores na sexta-feira, e só pretendia atualizar o Balaio no domingo. Nem trouxe meu laptop. Mas um grande acontecimento, que agitou Goiânia durante todo o dia de ontem, me faz interromper a breve folga.
Ao ler os jornais da cidade hoje de manhã, achei que os leitores tinham o direito de saber que aqui se promoveu o maior comício da atual campanha eleitoral.
“O aniversário de 47 anos do senador Marconi Perillo transformou-se em ato pró-candidatura ao governo. Estima-se que 40 mil pessoas passaram pelo Atlanta Music Hall ao longo do dia, dentre eles, 142 prefeitos. A organização disponibilizou 220 ônibus para o transporte de convidados”, informa o Diário da Manhã em sua primeira página.
A farta cobertura do evento espalha-se por três páginas internas. Sob a manchete “40 mil pedem a volta de Marconi”, o jornal relata detalhes desta super-produção tucana. Os organizadores serviram 3,5 toneladas de carne, uma tonelada de arroz, 150 quilos de farofa, 30 mil latas de cerveja e seis mil litros de refrigerante.
Para alegrar a rapaziada, mais de 20 duplas sertanejas subiram ao palco, e o show de arromba teve encerramento com Zezé Di Camargo e Luciano.
Em pequena nota lateral, o jornal esclarece: “Marconi lembrou aos presentes que a festa foi apenas comemorativa. Decisão sobre candidatura apenas em abril. Os organizadores também lembraram que não tiveram gastos com nada”.
Claro, tudo deve ter caído do céu, como diria o ex-ministro Magri. O noticiário, porém, desmente a versão de que “a festa foi apenas comemorativa”. A começar por Geraldo Alckmin, pré-candidato tucano em São Paulo, anunciado como principal autoridade presente ao evento, todos os oradores só falaram da volta de Perillo ao governo de Goiás nas próximas eleições.
“Vim trazer o meu abraço e de José Serra a Marconi, que foi um grande governador e trabalhou pelos pobres. Goiás tem pressa. Goiás quer sua eleição no primeiro turno. Volta, Marconi”, proclamou Geraldo Alckmin. Anunciado pelos jornais na véspera como a grande atração da festa, o governador José Serra não apareceu.
Com o título “Sucessão dá o tom dos discursos na festa de aniversário de Marconi”, outro jornal da cidade, O Popular, foi direto ao assunto do grande comício. “O senador Marconi Perillo (PSDB) tentou afastar o caráter político da sua festa de aniversário de 47 anos, mas o fato é que o evento transformou-se em ato de apoio à candidatura ao governo do Estado”.
Nada seria mais mais natural do que, em ano de eleição, uma festinha de aniversário de candidato se transforme num grande acontecimento político _ não fosse pelo fato de que Marconi Perillo pertence ao PSDB, o partido que, junto com seu aliado DEM, já entrou com várias representações na Justiça denunciando o presidente Lula e a candidata Dilma Roussef por campanha eleitoral antecipada.
Tema constante de editoriais, colunas e blogs cada vez mais indignados, esta jaboticaba da nossa legislação eleitoral, em que os candidatos naturais não podem se dizer candidatos, e muito menos reunir pessoas para falar o que pensam, antes de determinadas datas pré-estabelecidas, a monumental comemoração do aniversário de Perillo em Goiânia é apenas mais um episódio da grande hipocrisia que reina na política brasileira.


Comentário
Este Marconi Perillo, como poderia dizer... ah, é melhor nem começar, vou resumir: ele é uma lástima.

Manifesto - Denuncie a ofensiva dos setores conservadores contra a reforma agrária!

Está em curso uma ofensiva conservadora no Brasil contra a reforma agrária, e contra qualquer movimento que combata a desigualdade e a concentração de terra e renda. E você não precisa concordar com tudo que o MST faz para compreender o que está em jogo.
Uma campanha orquestrada foi iniciada por setores da chamada “grande imprensa brasileira” – associados a interesses de latifundiários, grileiros – e parcelas do Poder Judiciário. E chegou rapidamente ao Congresso Nacional, onde uma CPMI foi aberta com o objetivo de constranger aqueles que lutam pela reforma agrária.
A imagem de um trator a derrubar laranjais no interior paulista, numa fazenda grilada, roubada da União, correu o país no fim do ano passado, numa campanha claramente orquestrada. Agricultores miseráveis foram presos, humilhados. Seriam os responsáveis pelo “grave atentado”. A polícia trabalhou rápido, produzindo um espetáculo que foi parar nas telas da TV e nas páginas dos jornais. O recado parece ser: quem defende reforma agrária é “bandido”, é “marginal”. Exemplo claro de “criminalização” dos movimentos sociais.
Quem comanda essa campanha tem dois objetivos: impedir que o governo federal estabeleça novos parâmetros para a reforma agrária (depois de três décadas, o governo planeja rever os “índices de produtividade” que ajudam a determinar quando uma fazenda pode ser desapropriada); e “provar” que os que derrubaram pés de laranja são responsáveis pela “violência no campo”.
Trata-se de grave distorção.
Comparando, seria como se, na África do Sul do Apartheid, um manifestante negro atirasse uma pedra contra a vitrine de uma loja onde só brancos podiam entrar. A mídia sul-africana iniciaria então uma campanha para provar que a fonte de toda a violência não era o regime racista, mas o pobre manifestante que atirou a pedra.
No Brasil, é nesse pé que estamos: a violência no campo não é resultado de injustiças históricas que fortaleceram o latifúndio, mas é causada por quem luta para reduzir essas injustiças. Não faz o menor sentido…
A violência no campo tem um nome: latifúndio. Mas isso você dificilmente vai ver na TV. A violência e a impunidade no campo podem ser traduzidas em números: mais de 1500 agricultores foram assassinados nos últimos 25 anos. Detalhe: levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostra que dois terços dos homicídios no campo nem chegam a ser investigados. Mandantes (normalmente grandes fazendeiros) e seus pistoleiros permanecem impunes.
Uma coisa é certa: a reforma agrária interessa ao Brasil. Interessa a todo o povo brasileiro, aos movimentos sociais do campo, aos trabalhadores rurais e ao MST. A reforma agrária interessa também aos que se envergonham com os acampamentos de lona na beira das estradas brasileiras: ali, vive gente expulsa da terra, sem um canto para plantar – nesse país imenso e rico, mas ainda dominado pelo latifúndio.
A reforma agrária interessa, ainda, a quem percebe que a violência urbana se explica – em parte – pelo deslocamento desorganizado de populações que são expulsas da terra e obrigadas a viver em condições medievais, nas periferias das grandes cidades.
Por isso, repetimos: independente de concordarmos ou não com determinadas ações daqueles que vivem anos e anos embaixo da lona preta na beira de estradas, estamos em um momento decisivo e precisamos defender a reforma agrária.
Se você é um democrata, talvez já tenha percebido que os ataques coordenados contra o MST fazem parte de uma ofensiva maior contra qualquer entidade ou cidadão que lutem por democracia e por um Brasil mais justo.
Se você pensa assim, compareça ao Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, no próximo dia 11 de março, e venha refletir com a gente:
- por que tanto ódio contra quem pede, simplesmente, que a terra seja dividida?
- como reagir a essa campanha infame no Congresso e na mídia?
- como travar a batalha da comunicação, para defender a reforma agrária no Brasil?
É o convite que fazemos a você.

Assinam:

· Altamiro Borges.
· Antonio Martins
· Dênis de Moraes.
· Hamilton Octavio de Souza.
· Igor Fuser.
· João Brant.
· João Franzin.
· Jorge Pereira Filho.
· José Arbex Jr.
· Laurindo Lalo Leal Filho
· Luiz Carlos Azenha.
· Renato Rovai.
· Rodrigo Savazoni.
· Rodrigo Vianna.
· Sérgio Gomes.
· Vânia Alves.
· Verena Glass.

Importante: A proposta é que a rede de comunicadores em apoio à reforma agrária tenha caráter nacional. Esse evento de São Paulo é apenas o início deste processo. Promova lançamentos também em seu estado, participe e convide outros comunicadores para aderirem à rede.

domingo, 7 de março de 2010

A visita da velha senhora – por Redação CartaCapital

O objetivo do passeio de Hillary Clinton pela América do Sul foi reaproximar-se da América Latina em geral, cada vez mais avessa à influência de Washington. Especialmente do Brasil, cuja influência internacional está em alta. Foi um fracasso, apesar de a mídia conservadora brasileira se prestar ao papel de porta-voz do Departamento de Estado (salvo quando sua titular apoiou as cotas e a ação afirmativa).

O discurso paternalista segundo o qual “o Irã está enganando o Brasil” caiu mal em um governo que sabe o que quer no plano internacional e um corpo diplomático que se orgulha de seu profissionalismo e maturidade desde o Barão do Rio Branco. A postura do Brasil, como da China, Turquia e outros países avessos a sanções ao Irã, é de mediador em um conflito complexo e não de caixa de repetição de slogans dos EUA e de Israel.

Caem igualmente no vazio as pressões dos EUA sobre o Brasil para reconhecer o novo governo de Honduras. Não antes que este acate as exigências latino-americanas, para, no mínimo, normalizar as relações com a oposição e aceitar o retorno à vida política de Manuel Zelaya e de seus partidários, que continuam a ser ameaçados, sequestrados e mortos. Em fevereiro, após a posse de “Pepe” Lobo, foram assassinados pelo menos três integrantes da resistência: os sindicalistas Vanessa Zepeda (dia 2) e Júlio Fúnez (dia 15) e a militante e filha Claudia Brizuela (dia 24), filha de um líder da Resistência.

Não adiantou querer que o Itamaraty isole a Venezuela e trate o respeito a “regras de mercado” como condição para o relacionamento diplomático e comercial. Mas ouviu de Celso Amorim a confirmação de que o Brasil está disposto a retaliar os subsídios ao algodão dos EUA com sanções aos produtos e à propriedade intelectual de empresas estadunidenses.

Hillary errou de roteiro. Suas falas teriam servido em 1997, quando visitou como primeira-dama uma Brasília disposta a prestar vassalagem à hiperpotência. No papel de representante de uma nação endividada e paralisada por divergências internas, negociando com potências emergentes que perseguem seus próprios ideais e interesses, é peixe fora d’água.

Como Serra ficou refém da força cega - por Luis Nassif

Primeiro, conseguiu-se cooptar a mídia.Conseguiu-se o maior espaço que um político já teve na velha mídia, maior até que o de Fernando Henrique Cardoso.

Depois, terceirizou-se para ela o discurso de oposição. Não se cuidou de apresentar idéias-força que permitissem alguma ordem na tropa midiática. Quais os novos valores pelos quais lutar? Qual o pensamento econômico, social, a visão de Estado do candidato? Qual a sua herança no governo de São Paulo, para se contrapor ao discurso da situação? Nada. Apenas levantamento de fatos negativos, criação de factóides, ataques sistemáticos, miopia em relação a qualquer avanço registrado. E, do mundo, ecos cada vez mais insistentes de que alguma coisa estava dando certo por aqui.

O candidato Serra não passou o discurso, deixando a tropa solta. E aí, sai de baixo, porque despertou a força cega. E toca o coral a defender um neoliberalismo superado, combater as políticas sociais, insistir na Bolsa Esmola, confrontando tudo o que o PSDB histórico sempre defendeu e o que se pensava que seu candidato defenderia. Os verdadeiros tucanos, órfãos; e uma tropa agressiva tomando seu lugar e trazendo um discurso que, quando do PFL, provocava urticária em todos, da dona Ruth ao jovem militante.

Despertada a força cega, a indecisão de Serra, então, se manifestou em sua plenitude: ficou receoso de confrontar, de conversar com sua tropa para explicar que não era bem isso o que pensava. Tornou-se prisioneiro da sua criatura. O único ponto em comum era passar dicas de personagens que deveriam ser atacados pela banda mais barra-pesada da turma; ou slogans que deveriam ser repetidos pela banda mais leve. Só que a banda mais leve não conseguia avançar um milímetro além da crítica irracional e generalizante ao Estado.

Com essa estratégia monumental de Serra, os políticos profissionais se encolheram. Lá em Minas, Aécio, herdeiro das melhores tradições políticas de Minas, ousava discordar: não é assim, tem que se apresentar como continuidade melhorada, não pode falar mal de quem é popular. Quem ouvia? Toca os colunistas políticos, grandes especialistas em analisar o momento horário, a desancar o Aécio, mostrar que sabedoria política quem tinha era o Serra.

Como o único aliado do PSDB passou a ser a mídia, como enfrentar esse alarido?

O pobre do Saulo Queiroz, deputado do DEM, que sabe tudo de política, arrancava os cabelos meses atrás, vendo o único candidato viável – Aécio – sendo fritado pelos próprios companheiros. Ele imaginava a Dilma recomposta da doença, voltando a ter cabelos, desinibindo-se na campanha e soltando sua prosa mineira. Do outro lado, olhava Aécio, jovem, alegre, carismático; e olhava Serra, carrancudo, pesado, sem poder representar o novo. E arrancava os cabelos!

Em vão! Em Brasília, os estrategistas de Dilma torcendo para que Serra levasse sua indecisão o longe suficiente para impedir Aécio de pular de partido e se lançar candidato. Cada vez que essas notícias vazavam, lá vinham os doutores da alegria contra-argumentar: a situação está lançando esse balão esperando que a gente desista do nosso campeão, o Serra.

O clima ficou tão histérico, o radicalismo dos novos formuladores da política tão exacerbado que se cercasse virava hospício; se cobrisse, virava circo.

Virou uma festa, como nesses jogos de guerra, ou de banco hipotecário: todo jornalista do grupo brincando de fazer política. E, pior, acreditando que seu jogo era sério. Colunistas se tornaram estrategistas políticos, se abandonar a visão de torcedores, cada qual com um trunfo debaixo da manga, com a fórmula salvadora ou desesperada. Toca o parajornalista daqui a lançar a candidatura Serra-Marina; a brava colunista econômica ordenando à oposição que levantasse tais e tais temas – todos negativos, todos apenas criticando, sem nenhuma proposição. Ou então o coro dos iludidos batendo no Aécio por não ter aceitado a nobre missão de ser… vice. Uma balbúrdia infernal, cada qual com sua fórmula milagrosa para salvar a candidatura Serra. E o pobre do Saulo arrancando os cabelos.

O resultado final está aí. O PSDB ficou refém dessa balbúrdia. E a força cega da mídia impediu que se construísse uma candidatura alternativa, uma bóia capaz de salvar a oposição do naufrágio.

O dever dos outros – por Marcos Coimbra (Jornal Estado de Minas)

O dever dos outros Quando Aécio retirou seu nome da disputa para ser o candidato tucano a presidente, não estava subentendido que permaneceria na chapa como vice. Aécio jamais pensou em ser candidato a vice e negou a possibilidade vezes sem conta

A pressão que alguns setores da oposição fizeram, nos últimos dias, sobre Aécio Neves chegou a ser, em alguns momentos, engraçada. Tudo para que ele aceitasse, de preferência imediatamente, ser o vice de Serra nas eleições deste ano.

Começava aí o lado cômico, querer que alguém corresse para anunciar que seria o vice de quem ainda não dissera ser candidato. Até as pedras da rua sabem que não é assim que as coisas acontecem e que, para montar uma chapa, o primeiro passo é a “cabeça”, como se diz no jargão da política. Chega a ser ridículo o inverso.

Não era engraçado, mas pouco compreensível, o argumento de que, mesmo sem que Serra tivesse assumido a candidatura, Aécio deveria se oferecer para secundá-lo. Nunca houve um compromisso desse tipo entre os dois e, quando Aécio retirou seu nome da disputa para ser o candidato tucano a presidente, não estava subentendido que permaneceria na chapa como vice. Aliás, o que sempre foi afirmado pelas lideranças dos partidos de oposição é que a vaga de vice seria para um nome de fora do PSDB, de maneira a reforçar a aliança entre eles.

Aécio jamais pensou em ser candidato a vice e negou a possibilidade vezes sem conta. Esqueçamos, por um momento, suas razões (que são boas). Digamos que era apenas seu desejo. Ou seja, que ele apenas preferia ser candidato a outra coisa, no caso, ao Senado. Que, não sendo candidato a presidente da República, não era de seu interesse participar da eleição nacional.

Na imensa maioria dos países, uma declaração como essa não causaria espanto. Salvo nos partidos altamente centralizados e com disciplina rígida (como as organizações extremistas militarizadas, de esquerda ou direita), os políticos costumam direcionar a carreira segundo suas próprias conveniências e preferências. Ninguém é obrigado a ser candidato a isso ou aquilo.

No Brasil, nem se fala. Aqui, os partidos não determinam “missões” a seus filiados, não os forçam a concorrer a cargos aos quais não aspiram.

Veja-se, por exemplo, o que está acontecendo agora, na eleição presidencial. Marina foi incumbida pelo PV a se candidatar? Teria sido Dilma constrangida a concorrer? Quando o PSOL quis que Heloísa Helena se candidatasse e ela não, o que aconteceu? Ciro está no páreo por determinação do PSB?

E Serra? Sua insistência em só assumir a candidatura quando quiser não está sendo respeitada por todos? Mesmo se a quase totalidade de seus companheiros não concorda com ele?

Não fazia sentido tamanha desproporção de pesos e medidas. Cobrava-se de Aécio algo que não existe em nossa vida política, a obrigação de se submeter a uma espécie de “dever partidário” (como se só houvesse uma interpretação do que é melhor para o PSDB!). Enquanto isso, se aceita que o governador de São Paulo fique à vontade para fazer como quer, o que equivale a relevá-lo de deveres para com seus correligionários e aliados.

O curioso é que toda essa pressão veio quando as pesquisas confirmaram o que já se sabia fazia tempo, que Dilma iria crescer e Serra cair, à medida que aumentasse o conhecimento de ela ser a candidata de Lula, assim se tornando a opção de quem está satisfeito com o governo e quer sua continuidade. Não se pode falar em emergência, em fato novo, quando acontece o previsto. Se não montaram sua estratégia eleitoral (incluindo a escolha do candidato) levando isso em conta, as oposições erraram.

Quem sabe, finalmente, foi aceita a realidade: Serra é o candidato e Aécio não vai ser vice. A menos que tudo que foi combinado seja revisto.

Agora, engraçado mesmo era achar que quem tinha que mudar era Aécio. Logo ele, que fez o que pôde para evitar que seu partido chegasse aonde está.

http://wwo.uai.com.br/EM/html/sessao_22/2010/03/07/interna_noticia,id_sessao=22&id_noticia=131176/interna_noticia.shtml

O discurso sem nexo de FHC – por Luis Nassif

É curioso o artigo de FHC no Estadão. Achava besta a crítica que se fazia a ele com aquele “esqueçam o que escrevi”. Quem não muda suas ideias, para um mundo em constante mudanças, é poste. O verdadeiro intelectual sabe observar a mudança dos ventos. Os melhores conseguem antever. Os medíocres repetem mantras que funcionaram por algum tempo e se tornaram obsoletas.

Mas o artigo de hoje é “esqueçam tudo o que defendi e fiz”, porque não deu certo.

Repete a lógica do discurso de Serra, de ler o Brasil por inteiro, das diretas até hoje. Depois avança em críticas pontuais que demonstram ou desconhecimento da realidade econômica do país – aliás, postura usual quando era presidente – ou desconhecimento dos princípios que nortearam seu governo. Se a ideia é analisar 25 anos de país, onde entra seu governo, que exacerbou todos os problemas que ele aponta em seu artigo?

Ele critica – com razão – a deterioração do balanço de pagamentos. No plano Real, essa deterioração foi intencional, visando transferir o controle da política econômica para os detentores de fundos externos. Critica – com razão – a criação de supergrupos nacionais. Mas foi no seu governo – com a escandalosa fusão da Brahma e da Antárctica – que se deu início a esse processo. Um dos erros monumentais do governo FHC foi ter induzido a uma conglomerização da economia que destruiu cadeias produtivas inteiras. O próprio modelo de privatização das telecomunicações nem pensou em preservar as pesquisas e a cadeia de fornecedores nacionais.

Depois, cobra eficiência no programa energético, especificamente no biodiesel. Ei, em que planeta vive FHC? Seu governo abandonou os investimentos em hidrelétricas, deixou de lado a bioenergia, focou exclusivamente em termoelétricas que se mostraram incapazes de atender à demanda. Há uma matriz energética complexa, que tem sido enriquecida pelo gás, pelas energias alternativas (que saltaram de 0,5% para 6% da matriz). O biodiesel tem avançado, sim. Por ser experiência pioneira, com agricultura familiar e com produtos ainda em teste, há cabeçadas. Mas existem usinas funcionando perfeitamente, erros identificados e o programa avançando. Mesmo que não avançasse a contento, é uma gota dentro da matriz energética brasileira.

Defende – com razão – a melhoria da qualidade dos serviços públicos. Mas foi incapaz sequer de entender programas básicos de gestão. Não deu continuidade a nenhum programa de gestão nascido no seu governo.

Critica o pré-sal pelo fato de não se discutir a busca de tecnologia adequada. Mas é criticar por criticar. Há o envolvimento da Petrobras com dezenas de instituições de pesquisas, avançando em todas as áreas, da prospecção em águas profundas a novos materiais.

O curioso é tentar recuperar o ideario inicial do PSDB, de uma visão não ideológica do Estado e das estatais. Prezado presidente, esse ideario está morto e enterrado no PSDB. E quem o matou foi o senhor. “Perdemos tempo com uma discussão bizantina sobre o tamanho do Estado ou sobre a superioridade das empresas estatais em relação às empresas privadas, ou vice-versa. Ninguém propõe um “Estado mínimo”, muito menos o PSDB”.

Ora, vá contar isso para esse exército radical e primário da mídia, para quem o PSDB terceirizou o discurso político e econômico. Como guru maior desse grupo, FHC permitiu até à exaustão o discurso emburrecedor de que tudo o que vem do Estado é ruim. Como tornou-se inócuo, atropelado pela crise, agora quer mudar. Não vai recuperar o discurso nem a respeitabilidade intelectual.

Esse é o problema de FHC e de Serra. Os grandes comandantes, os formuladores, os estadistas defendem ideias que consideram corretas e esquecem o modismo do dia-a-dia. Quando as ideias defendidas entram na moda, eles são os vitoriosos. A dupla FHC-Serra conseguiu, ao longo dessa década, destruir o discurso do PSDB, misturá-lo com o neoliberalismo radical do mercado, do DEM. Agora querem um reaggiornamento? Não é sério.

E começa esse artigo insosso com um título que poderia ser chamativo, mas é apelo desanimado: “A hora é agora”.


A hora é agora - por Fernando Henrique Cardoso (Estadão )

Hora de avançar a partir do que conseguimos nestes 25 anos de democracia e de buscar um futuro melhor para todos. As bases para o Brasil preservar seus interesses sem temer o mercado internacional estão dadas. Convém mantê-las. Controle da inflação, pelo sistema de metas, câmbio flutuante, Lei de Responsabilidade Fiscal, autonomia das agências regulatórias são pilares que se podem ajustar às conjunturas, mas não devem ser renegados e não podem estar sujeitos a intervenções político-partidárias e interesses de facção. Há, contudo, desafios: o novo governo terá de cuidar de controlar os gastos correntes e de conter a deterioração do balanço de pagamentos (sem fechar a economia ou inventar mágicas para aumentar artificialmente a competitividade de nossos produtos).

Perdemos tempo com uma discussão bizantina sobre o tamanho do Estado ou sobre a superioridade das empresas estatais em relação às empresas privadas, ou vice-versa. Ninguém propõe um “Estado mínimo”, muito menos o PSDB. Outra coisa é inchar o Estado, com nomeações a granel, e utilizar as empresas públicas para servir a interesses privados ou partidários. A verdadeira ameaça ao desenvolvimento sadio não é privatizar mais, tampouco o PSDB defende isso. Empresas estatais se justificam em áreas para as quais haja desinteresse do capital privado ou necessidade de contrapeso público. Não devem acobertar ganhos políticos escusos nem aumentar o controle partidário sobre a economia. Precisam dispor de sistemas de governança claros e transparentes. A ameaça é continuar a escolher, como o governo atual, quais empresas serão apoiadas com dinheiro do contribuinte (sem que este perceba), criando monopólios, ou quase-monopólios, que concentrarão mais ainda a renda nacional.

Os avanços sociais obtidos pelos últimos governos se deram nos marcos da Constituição de 1988. Incluem-se aí a “universalização” do acesso aos serviços de saúde (via SUS) e à escola fundamental (via Fundef), a cobertura assistencial a idosos e deficientes (via Loas), bem como o maior acesso à terra (via Programa de Reforma Agrária). Além disso, a política continuada de aumento real do salário mínimo a partir de 1994, a extensão de programas sociais a camadas excluídas e a difusão de mecanismos de transferência direta de renda (as bolsas) melhoraram as condições de vida e ampliaram o mercado interno. Tudo isso precisa ser mantido. Caberá ao novo governo reduzir os desperdícios e oferecer serviços de melhor qualidade, mais bem avaliados e com menor clientelismo.

Não se pode elidir uma questão difícil: a expansão dos impostos sustentou os programas sociais. Atingiu-se um limite que, se ultrapassado, prejudicará o crescimento econômico. É ilusão pensar que um país possa crescer indefinidamente puxado pelo gasto público financiado por uma carga tributária cada vez maior e pelo consumo privado. Falta investimento, sobretudo em infraestrutura, e falta poupança doméstica, principalmente pública, para financiá-lo. Maior poupança pública não virá de maior tributação. Ao contrário, é preciso começar a reduzir a carga tributária, sobretudo os impostos que recaem sobre a folha de pagamentos, para gerar mais empregos. Para investir mais, tributar menos e dispor de melhor oferta de serviços sociais não há alternativa senão conter o mau crescimento do gasto. Isso permitirá a redução das taxas de juros e o aumento da poupança pública, como condição para aumentar a taxa de investimento na economia. Sem isso, cedo ou tarde, se recolocarão os impasses no balanço de pagamentos, com a deterioração já perceptível das contas em transações correntes, e na dívida pública, que em termos brutos já ultrapassa 70% do PIB.

Nem só de economia e políticas sociais vive uma nação. Os escândalos de corrupção continuam desde o mensalão do PT. Há responsabilidades pessoais e políticas a serem cobradas e condenadas. Mas há também desvios institucionais: o sistema eleitoral e partidário está visivelmente desmoralizado. Uma reforma nessa área se impõe. Ela se fará mais facilmente no início do próximo governo e se houver um mínimo de convergência entre as grandes correntes políticas. O PSDB deve liderar esse debate na busca de consenso.

O mesmo se diga da segurança pública. Há avanços no plano federal e em vários Estados. A expansão da criminalidade advém do crime organizado e do uso das drogas. O dia a dia das pessoas é de medo. As famílias e as pessoas precisam de nossa coragem para propor modos mais eficientes de enfrentar o tema. A despeito da melhoria do sistema jurisdicional e prisional, estamos longe de oferecer segurança jurídica às empresas e, o que mais conta, às pessoas.

Olhando o futuro, falta estratégia e sobram dúvidas: o que faremos no campo da energia? Onde foi parar o programa do biodiesel? Que faremos com os êxitos que nossos agricultores e técnicos conseguiram com o etanol? Que políticas adotar para torná-lo comercializável globalmente? A discussão sobre as jazidas de petróleo se restringirá à partilha de lucros futuros ou cuidaremos do essencial: a base institucional para lidar com o pré-sal, a busca de tecnologias adequadas e de uma política equilibrada de exploração? E a “revolução educacional”, que, com as honrosas exceções em um ou outro Estado, é apenas objeto de reverência, mas não de ação concreta? Finalmente, que papel desempenharemos no mundo, o de uma subpotência bélica ou de um país portador de uma cultura de convivência entre as diferentes raças e culturas, com tolerância e paz, embora cioso de sua segurança?

Tudo isso e muito mais está à espera de um debate político maduro, que, à falta de ser conduzido por quem devia fazê-lo, por ter responsabilidades de mando nacional, deve ser feito pela sociedade e pelos partidos.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100307/not_imp520568,0.php

Roriz, o pai de todos – por Leandro Fortes (CartaCapital)

Graças a Joaquim Roriz, candidato ao governo do Distrito Federal pelo PSC, à rotina de escândalos políticos de Brasília, simbolizada pela prisão do governador José Roberto Arruda (ex-DEM), agregou-se o deboche. Desde o dia 23 de fevereiro, Roriz aparece em rápidas inserções do programa eleitoral do PSC, do qual é presidente de honra, para se demonstrar uma inusitada indignação com o esquema de corrupção montado por Arruda e aliados no DF. As falas, visivelmente editadas, tentam compensar a incapacidade de articulação narrativa de Roriz, mas o elemento ofensivo do discurso não está na forma, mas no conteúdo. Roriz, pai de todos os escândalos do DF, nos últimos 20 anos, se diz indignado com o que vê. E não se trata de uma piada.

“É tão vergonhoso, é tão escandaloso e eu fico numa indignação, eu fico numa vergonha meu Deus do céu, como pode chegar nisso aí?”, pergunta Roriz, aos céus. “Mas, por outro lado, eu vejo firmeza na Justiça. A Justiça vai punir, a Justiça vai fazer como ela está fazendo. Então eu fico, por um lado eu fico com profunda decepção, e, por outro, cheio de esperança que a Justiça cumpra seu dever”, ensina o probo ex-senador do PMDB que, ocasionalmente, renunciou para não ser cassado por corrupção.

Joaquim Roriz, goiano de Luziânia, governou o Distrito Federal por quatro vezes, a partir de 1988, indicado bionicamente pelo então presidente José Sarney. Desde então, dedicou-se à construção física de currais eleitorais em forma de imensos e miseráveis assentamentos em torno da capital federal, aos quais se vinculou por meio de distribuição de lotes e por um discurso político populista e messiânico, deliberadamente repleto de erros de português e de citações religiosas. Ocorre que, em nome de Deus, Roriz já fez o diabo.

Contra o ex-governador há o registro de seis notícias crimes e cinco inquéritos no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Trata-se de um rol que inclui desde racismo (chamou um eleitor de “crioulo petista, durante um comício) a improbidade administrativa, falsidade ideológica e crimes contra a fé pública. Mas, enquanto permaneceu no mundinho quadrado do Distrito Federal, Roriz sempre conseguiu se safar, de um jeito ou de outro, ora debruçado sobre genuflexórios das igrejas locais, ora derramado em lágrimas entre cabos eleitorais mantidos nas monumentais favelas que ajudou a criar em torno de Brasília.

Em 2006, Joaquim Roriz, então no PMDB, decidiu se candidatar ao Senado Federal. Embora tivesse uma vice candidata a sua sucessão, Maria de Lourdes Abadia (PSDB), a quem já chamou de “vadia” em um comício, em 1994, Roriz apoiou o candidato do PFL, hoje DEM, José Roberto Arruda. Foi dessa simbiose, iniciada anos antes, quando Arruda foi secretário de Obras de Roriz, que nasceu o escândalo apelidado de “mensalão do DEM”. Qualquer outra tese sobre o tema é escapista. Não há nada de rigorosamente novo no escândalo de corrupção do DF que não tenha se originado das práticas e das gentes dos governos Roriz. Escândalo que o ex-governador acompanhou de longe, quieto, porque, ao botar o nariz para fora da política local, ele só conseguiu ficar cinco meses no Senado, do qual se afastou, em julho de 2007.

As circunstâncias políticas da renúncia de Roriz são emblemáticas, sobretudo quando se ouve, hoje, o ex-governador botar tanta fé e esperança na força da Justiça. Em 2006, Roriz foi flagrado em escutas telefônicas da Polícia Civil do DF quando negociava a partilha de um cheque de 2,2 milhões de reais com o então presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Tarcísio Franklin de Moura. A justificativa de Roriz para o flagrante adiantava o clima de deboche que viria. Segundo o ex-governador, o dinheiro era para pagar a compra de uma bezerra premiada do empresário Nenê Constantino, dono de uma empresa de transporte urbano do DF e da Gol Linhas Aéreas.

Depois da renúncia, a Polícia Civil do DF passou a trabalhar com a possibilidade de o dinheiro de Roriz ter sido oriundo de uma propina milionária por conta da mudança de destinação de um terreno que pertencia a um aliado, comprado por uma das empresas de Constantino. O suplente de Roriz e seu sucessor no Senado, Gim Argello (PTB), é apontado como intermediador do negócio.

A nova ofensiva política de Joaquim Roriz, baseada numa peça de marketing que afronta à inteligência do eleitor do DF, é uma aposta decisiva numa amnésia ainda a ser combinada, não se sabe a que preço, com a mídia local. Isso porque basta passar os olhos pelos nomes citados na Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, para perceber, de imediato, a ligação visceral entre as estrelas dos vídeos de corrupção explícita que derrubaram Arruda e os governos comandados por Joaquim Roriz.

A deputada Eurides Brito (PMDB), flagrada enquanto enchia uma bolsa de couro com maços de notas de cem reais, foi secretária de Educação e, depois, líder do governo Roriz. Cargo, aliás, que viria a desempenhar, também, no governo Arruda. Em texto escrito em um blog pessoal, na semana passada, ela acusou o ex-governador de ter ordenado a ela botar a mão na dinheirama. Seria, segunda a deputada, para garantir apoio a José Roberto Arruda, nas eleições de 2006. “Foi um dinheiro que o Roriz mandou eu receber”, afirma Eurides.

O deputado Júnior Brunelli, do PSC, era o parlamentar que organizava o apoio a Roriz entre as lideranças evangélicas do DF. Entre 2005 e 2006, foi presidente da Comissão de Constituição de Justiça da Câmara Legislativa, cargo-chave para as operações de Roriz no governo, sobretudo no que diz respeito a pareceres para liberação de créditos suplementares para empresas, segundo a Operação Caixa de Pandora, vinculadas ao esquema de corrupção do DEM. Brunelli, que renunciou ao mandato para não ser cassado, ficou famoso por comandar a famosa “oração da propina”, proferida em honra ao corruptor Durval Barbosa.

O deputado Leonardo Prudente (ex-DEM), ex-presidente da Câmara Legislativa, mais conhecido pela alcunha de “deputado da meia”, também presidiu a Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Casa, durante o governo Roriz. Também graças a ele, os créditos suplementares da Codeplan eram resolvidos em menos de 72 horas. Prudente também renunciou para não ser cassado.

Welligton Moraes, dito jornalista, coordenava o milionário setor de publicidade de Joaquim Roriz, mesma função que passou a ocupar no governo Arruda, cedido a título de gentileza de um aliado para outro Por ora, Moraes está no presídio da Papuda, em Brasília, acusado de coordenar uma ação para subornar uma das testemunhas do esquema de corrupção do DF.

A simples perspectiva de que Joaquim Roriz possa ser eleito, novamente, governador do Distrito federal, deve ser encarada como sintoma de uma grave doença de caráter do eleitor do DF. Um fenômeno a ser discutido como questão prioritária de educação e de formação cultural, essa sim, a ser cuidadosamente pensada como intervenção federal. A posição de Roriz nas pesquisas revela, até aqui, uma inclinação corrupta dos eleitores do DF, inclusive da abastada classe média de Brasília (que nada tem a ver com a dura realidade das cidades-satélites).

Um pêndulo que oscila entre a ignorância e a má fé, sustentado por uma sinistra certeza de que, por aqui, ladrão não é quem rouba, mas só quem é pego roubando.


Comentário
Muitas vezes eu me indigno com os resultados das eleições em meu estado, o Espírito Santo, ou em São Paulo (a "locomotiva do atraso", politicamente falando, como bem diz PHA), mas, de fato, o Distrito Federal é um consolo pra qualquer um.
É o fim.

Justiça e mídia no Brasil, vistas por um gringo - por Por C. Brayton (blog do Nassif)

Mais uma mensagem de espaço sideral para o planeta Brasil: Vocês tem um promotor fazendo denúncias contra pessoas por três anos sem formalizar, prender ou levar ao tribunal.
Rotula pessoas de quadrilheiros, criminosos, corruptos, trapaceiros, vitimizadores de consumidores desesperados (até um coitado com câncer Veja entrevistou — ainda na fase de investigação.
Nos EUA — sempre com saudades dos EUA, gringo — a OAB de lá, a ABA, tem a Regra 3.6 do código de ética:
“Rule 3.6 Trial Publicity: (a) A lawyer who is participating in the investigation or litigation of a matter shall not make an extrajudicial statement that a reasonable person would expect to be disseminated by means of public communication if the lawyer knows or reasonably should know that it will have a substantial likelihood of materially prejudicing an adjudicative proceeding in the matter.”
Um advogado participando numa investigação ou litígio não fará afirmações sobre um assunto que uma pessoa razoável esperaria que aparecesse na mídia e que ele sabe ou deveria dentro da razão saber tem real possibilidade de prejudicar um processo sobre o assunto.
Punição: perda de licença.
A regra 3.8 estende essa regra para juízes, polícia, e todo mundo envolvido no processo, e afirma um dever positivo de não demonizar indevidamente o réu.
Juízes levam em contra publicidade antes do processo, especialmente porque tem o efeito de “envenenar o poço” de jurados.
Aqui: para nossos amigos, tudo; para nossos inimigo, a Lei. É deprimente.
Essa estória não pode ser contada direta sem o histórico de processos civis contra o Bancoop. Não era o empreendimento mais bem-sucedido na estória desse País, mais alguns dos indivíduos talvez responsáveis pelo rombo de 2003-4 estão todos mortos.
Entendi da minha leitura — difícil achar uma versão completa dos fatos — que houve o fracasso do FIDC Bancoop, tentativa de levantar fundos de fora, e depois, um acordão entre cotista-cooperatistas e o fundo. Bancoop diz que ganhou algumas causas e perdeu outras. Vai saber. Nassif fez bem abrindo a resposta da instituição para comentários.
Valor deveria fazer uma matéria do ponto de vista de gestão. O que deu errado com o Bancoop, e por quê? As reguladoras faziam seu trabalho? Por que auditoria independente só nos últimos anos?


Por Jotavê

Um adendo ao que eu disse há pouco. A reportagem da revista Veja – um misto de “requentamento” e precipitação, como tentei mostrarm – obedece a uma lógica e a um timing que não são de ordem jornalística. São de ordem político-partidária. É esse o pecado original do jornalismo que se faz hoje no Brasil. O jornalista, por vias próprias, ou por intermédio do veículo que o emprega, se transformou num “player” partidário. Escreve para produzir efeitos, e levando em conta os efeitos produzidos pelos players do campo adversário. Não produz notícias. Produz munição ideológica. O mais interessante nisso tudo é que esse tipo de atuação corresponde a uma exigência do mercado. Os leitores – esse é o absurdo dos absurdos, neste caso – EXIGEM que “seus” jornalistas atuem exatamente dessa forma. O público da revista Veja ficaria, não tenho dúvidas disso, decepcionadíssimo se sua revista predileta parasse de produzir propaganda político-partidária. É isso que eles querem, e é por isso que eles pagam. É um paradoxo anti-iluminista que precisamos começar a entender – o paradoxo da “desinformação voluntária”. Vivemos numa sociedade democrática, com ampla liberdade de expressão, mas o público leitor é… stalinista! Quero dizer com isso que o leitor brasileiro se comporta exatamente como os regimes totalitários ESPERAM (na maioria das vezes, em vão…) que o SEU público leitor se comporte – querendo ouvir apenas uma versão dos fatos, querendo assistir ao espetáculo da demonização da divergência, ansiando por um nível de violência verbal capaz de justificar qualquer barbaridade. Ou seja, aquilo que os regimes totalitários GOSTARIAM que se passasse nos corações e mentes de seus súditos é exatamente aquilo que se passa nos corações e mentes do leitor brasileiro. Voluntariamente, sem necessidade de censura, prisões, fusilamentos e coisas do gênero. É o que gosto de chamar de “totalitarismo de resultados”. As regras formais do jogo político são democráticas, mas a resultante, em determinados pontos, é totalitária. Será preciso derrubar o muro de Berlim erigido nas consciências, se quisermos recuperar aquele que é o elemento mais importante de uma democracia de fato – a dúvida, a hesitação, a escuta do outro.
O modelo jornalístico da Revista Veja é o jornal Granma, de Cuba. Não é à toa que eles se odeiam tanto.


Por Fábio Lúcio

Sim, Jotavê está certo na sua avaliação. As teses do agenda setting, segundo as quais os jornais, revistas e TVs dirigem o que as pessoas vão falar, estão sendo revistas pela literatura acadêmica mais recente. É evidente que os meios de comunicação interferem na opinião das pessoas, porém a maioria das análises feitas por décadas desconsidera essa subjetividade do receptor, parecendo que os leitores em geral seriam vítimas de um dano cerebral coletivo e por isso teriam parado de pensar. É muito provável, e é necessário considerar isso, que o leitor de Veja ou do Estadão (excluamos a Folha, pois essa entrou em rota de colisão com seus leitores tradicionais) assine esses veículos porque querem ver um noticiário anti-Lula, por conta de sua falta de identificação com um presidente barbudo que fala errado, e não que desgostem do Lula porque os lêem. Não creio no viés autoritário apontado pelo Jotavê. Acho que é mais uma questão de estratificação social, mesmo. Coisa de país desigual.


Comentário
A capa da veja para mim foi cristalina: a direita acusando o golpe da última pesquisa.
Remoendo o esgoto, lembraram do promotor demotucano.
Nem seus fieis aliados (globo, época, folha, estadão, etc.) a veja conseguiu levar.
Que lástima para eles.
Que benção para a população brasileira.

sábado, 6 de março de 2010

Os não eleitos "arquitetos da política" – por Noam Chomsky (The New York Times – tradução Terra Magazine)

Mudanças no poder global, potenciais ou em andamento, são um tema pulsante entre articuladores políticos e observadores. Uma questão é se (ou quando) a China poderia destronar os Estados Unidos como protagonista global dominante, talvez juntamente com a Índia.
Tal mudança restituiria o sistema global ao que era antes das conquistas europeias. O crescimento econômico da China e da Índia foi rápido e, graças a sua rejeição às políticas ocidentais de desregulação financeira, esses países sobreviveram à recessão melhor do que a maioria. No entanto, surgem algumas questões.
Uma medida-padrão de saúde social é o Índice de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas, cujos dados mais recentes são de 2008. A Índia está em 134ª lugar no ranking, pouco acima do Camboja e abaixo do Laos e do Tadjiquistão, próximo da posição em que esteve por muitos anos. A China está em 92º - junto com Belize, um pouco acima da Jordânia e abaixo da República Dominicana e do Irã.
A Índia e a China também têm uma desigualdade muito alta, pois mais de um bilhão de seus habitantes estão no nível mais baixo da escala social. Outra preocupação é a dívida dos Estados Unidos, que, conforme se teme, transforma os Estados Unidos em cativos da China. Exceto por um breve interlúdio, o Japão foi por muito tempo o maior detentor da dívida do governo americano. A alavancagem dos credores, além disso, é superestimada.
Em uma perspectiva - o poder militar -, os Estados Unidos permanecem totalmente sozinhos. E Obama está estabelecendo novos recordes com seu orçamento militar. Quase metade do déficit dos Estados Unidos deve-se aos gastos militares, intocáveis no sistema político.
Ao considerar outros setores da economia dos Estados Unidos, o vencedor do prêmio Nobel Joseph Stiglitz e outros economistas alertaram que deveríamos ter cuidado com o "fetichismo do déficit". Um déficit é um estímulo à recuperação e pode ser compensado com crescimento da economia, como ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, quando o déficit era muito pior.
A expectativa é que a dívida aumente, principalmente por causa do irremediavelmente ineficaz sistema de saúde privatizado - também virtualmente intocável, graças à habilidade do mundo dos negócios em se sobrepor à vontade pública.
Porém, a estrutura dessas discussões está equivocada. O sistema global não é apenas uma interação entre estados, cada um defendendo algum "interesse nacional" subtraído da distribuição do poder doméstico. Isso tem sido compreendido há muito tempo.
Adam Smith concluiu que os "principais arquitetos" da política na Inglaterra foram os "comerciantes e manufatureiros", que procuram garantir que seus interesses "sejam satisfeitos da melhor forma possível", por mais "dolorosos" que sejam seus efeitos sobre os outros, inclusive as pessoas na Inglaterra.
A máxima de Smith ainda se mantém, embora, hoje, os "principais arquitetos" sejam corporações multinacionais e, particularmente, as instituições financeiras cuja participação na economia vem crescendo desde os anos 1970.
Nos Estados Unidos, acabamos de ver uma dramática ilustração do poder das instituições financeiras. Na última eleição presidencial, elas garantiram a base do financiamento do presidente Obama.
Naturalmente, esperavam ser recompensadas. E foram - com o programa de socorro aos bancos e muito mais. Considere o Goldman Sachs, líder da economia e do sistema financeiro. A instituição fez uma mina de ouro ao vender títulos lastreados em hipotecas e instrumentos financeiros mais complexos.
Consciente da fragilidade dos pacotes que comercializava, a companhia apostou, com a gigante dos seguros American International Group (AIG), que as ofertas cairiam. Quando o sistema financeiro entrou em crise, a AIG afundou com ele.
Os arquitetos da política do Goldman não apenas se beneficiaram de um socorro financeiro para o próprio Goldman, como também conseguiram que os contribuintes salvassem a AIG da falência, resgatando, assim, o Goldman.
Agora, o Goldman está registrando lucros recordes e pagando robustos bônus e, assim como alguns outros bancos principais, está maior e mais poderoso do que nunca. O público está furioso. As pessoas podem ver que os bancos que foram os agentes primários da crise agem como bandidos, enquanto a população que os resgatou está enfrentando um desemprego de quase 10%.
A indignação popular finalmente provocou uma virada retórica da administração, que respondeu com acusações sobre banqueiros gananciosos e sugestões de políticas das quais o setor financeiro não gosta (a Volcker Rule, proposta de regulação dos bancos, e outras propostas).
Presumindo que Obama é o seu representante em Washington, os principais arquitetos perderam pouco tempo com orientações: a menos que Obama recue, eles vão transferir seus recursos para a oposição política.
Há alguns dias, Obama disse à imprensa que os banqueiros são "caras" legais, destacando os presidentes de duas grandes instituições, o JP Morgan Chase e o Goldman Sachs: "eu, como a maioria dos americanos, não invejo pessoas de sucesso ou riqueza. Isso é parte do sistema de livre mercado" - como "livre mercado", entenda-se a doutrina do estado capitalista.
Essa mudança de direção é uma reveladora fotografia instantânea da máxima de Smith na prática. Os arquitetos da política também estão a serviço de uma verdadeira mudança de poder: da força de trabalho global para o capital transnacional.
O economista e especialista em assuntos da China Martin Hart-Landsberg explora essa dinâmica. A China tornou-se uma linha de montagem para um sistema de produção regional. O Japão, Taiwan e outras economias avançadas da Ásia exportam partes e componentes de alta tecnologia para a China, que monta e exporta produtos acabados.
O crescente déficit comercial dos Estados Unidos com a China causa preocupação. O que menos se percebeu é que o déficit comercial dos Estados Unidos com o Japão e o resto da Ásia declinou fortemente à medida que o novo sistema de produção regional tomou forma. As indústrias americanas estão seguindo o mesmo caminho, fornecendo peças e componentes para a China montar e exportar, principalmente para os Estados Unidos. Para as instituições financeiras, gigantes varejistas, proprietários e dirigentes de indústrias manufatureiras e setores estreitamente ligados a esse nexo de poder, esses desenvolvimentos são sagrados.
E bem-entendidos. Em 2007, Ralph Gomory, dirigente da Fundação Alfred P. Sloan, disse no Congresso: "Em tempos de globalização, os interesses de empresas e países divergem". Em contraste com o passado, o que é bom para as corporações globais americanas já não é necessariamente bom para os cidadãos americanos.
Considere a IBM. No final de 2008, mais de 70% dos 400.000 trabalhadores da IBM estavam em outros países, segundo a Alfred P. Sloan. Em 2009, a IBM reduziu seus postos nos Estados Unidos em mais 8%.
Para a mão de obra, o resultado pode ser "doloroso", de acordo com a máxima de Smith, mas é bom para os principais arquitetos da política. Pesquisas atuais indicam que quase um quarto dos empregos dos Estados Unidos estarão "além das fronteiras" dentro de duas décadas e, no caso daqueles postos que forem mantidos, a segurança e os salários decentes vão diminuir em decorrência da crescente competição gerada pelos trabalhadores recolocados no mercado.
Esse padrão sucede a 30 anos de estagnação ou declínio para a maioria, na medida em que a riqueza recaiu sobre poucos bolsos, levando à provavelmente mais alta desigualdade na história dos Estados Unidos. Enquanto a China se torna a linha de montagem e a plataforma de exportação do mundo, os trabalhadores chineses estão sofrendo com o resto da mão de obra global, como poderíamos esperar de um sistema destinado a concentrar riqueza e poder e a incitar a competição entre as pessoas mundialmente.
Em termos globais, a participação dos trabalhadores na renda nacional caiu em muitos países - no caso da China, dramaticamente, levando a uma crescente inquietação nessa sociedade altamente desigual.
Portanto, temos outra mudança significativa no poder global: da população geral para os principais arquitetos do poder global, um processo favorecido pelo arrefecimento da democracia nos estados mais poderosos.
O futuro depende do quanto a grande maioria está disposta a resistir e do desenvolvimento de uma resposta construtiva que possa confrontar os problemas no núcleo do sistema do estado capitalista de dominação e controle. Caso contrário, os resultados poderão ser amargos, como a história mostra plenamente.

Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sobre presidentes e Ministros da Fazenda - por Luis Nassif

José Serra tenta retomar o discurso programático. Ontem, o discurso no centenário de Tancredo. Hoje, a antecipação de algumas ideias econômicas, especialmente o combate à apreciação cambial.

Seja quem for o presidente – Serra ou Dilma, provavelmente não com Aécio – a apreciação cambial será combatida. Quem é oposição pode ser mais explícito; que é governo, menos. Mas não há diferenças de posição nesse item.

O que compromete Serra não são suas ideias econômicas. É algo mais substantivo.
A gestão Lula mostrou um outro padrão de governabilidade, que vai além do econômico, e muito além do câmbio. Trata-se de reconstrução política e institucional brasileira, na qual a economia é uma perna importante – mas restrita.

Quem tiver boas ideias apenas nessa área, é candidato a Ministro da Fazenda, não a presidente.
A governabilidade pressupõe o exercício permanente da tolerância e da redução de pontos de fricção partidários, de classe ou regionais. Exige um olhar sistêmico sobre o país, a capacidade de ver todas as pontas, de identificar as linhas de menor resistência, de saber negociar no plano partidário e federativo, de somar, ouvir.

Mais: exige planejamento, gerenciamento, identificação dos fatores fundamentais de progresso. Sem esse arcabouço institucional novo, se ficará apenas no campo dos conceitos e do discurso vazio.

Quando o governo assumiu e se meteu em um sem-números de conselhos (CDES, conselhos sociais etc.) a visão dominante, tecnocrática, era a de que jamais sairia do assembleísmo.
Aos poucos – especialmente depois que o governo se reorganizou no pós-mensalão – começaram a emergir ideias e quadros de todos os lados, graças a esse modelo. O Bolsa Família ganhou consistência, o PAC retomou as tentativas de articulação do Brasil Em Ação – belíssima experiência do José Paulo Silveira, que falhou por falta de presidente da República -, corrigiu erros, permitiu avanços.

Tudo isso porque, paralelamente ao discurso político, havia um processo de reconstrução institucional feito com agentes vivos e atuantes, e não apenas em um pedaço de papel.

Construção institucional

Lula entrou com a sabedoria política: a ação federal só é eficaz quando há colaboração de estados e municípios; e só se consegue essa colaboração quando se repartem ganhos políticos igualmente.
Dado o princípio, havia a necessidade de montar o arcabouço institucional capaz de colocar as ideias em prática.

É aí que se sobressai a ação de Dilma Rousseff. A discussão boba sobre ter ou não ter diploma, sobre maior ou menor experiência administrativa, esconde o essencial: Dilma foi responsável por dois dos maiores feitos de reconstrução institucional brasileira. A biografia administrativa de Serra é o oposto: a total inação para grandes mudanças institucionais. Sua grande contribuição se deu no plano parlamentar. Foi um grande deputado, especialmente na Constituinte, graças à ação individual de um dos maiores nomes da economia brasileira: o economista José Roberto Afonso.
A velha mídia sempre teve um fascínio mítico pelas reformas no plano das leis. Jamais conseguiu entender as reformas no plano administrativo e institucional.

O primeiro feito institucional de Dilma foi o modelo elétrico que salvou o setor do desastre desregulamentório do governo FHC.

Sobre o modelo elétrico, escreverei amanhã.

O segundo feito foi a modelagem institucional dos programas federais – PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), saneamento, habitação.

Primeiro, definiu-se o papel de cada ente federativo. À União, caberia a regulamentação, os recursos e a fiscalização. Aos estados, as obras estaduais. Aos municípios, as municipais, trabalhando em conjunto com os estados.

Depois, conversas exaustivas para identificar problemas potenciais e – principalmente – o modelo de atuação mais eficiente, os instâncias de discussão, os modelos de acompanhamento do governo (para não perder o controle na ponta).

O modelo habitacional

O programa habitacional forneceu um exemplo graúdo da distância quilométrica entre esse novo modelo e o pensamento burocrático de Serra.

Montou-se o modelo e o governo federal disponibilizou recursos para um milhão de moradias populares. Mais: removeu fatores que poderiam inviabilizar o acesso da baixa renda às moradias.
Depois, disse a estados e municípios: organizem-se e venham buscar os recursos. Imediatamente, colocou em marcha uma movimentação nacional, descentralizada, de prefeitos, governadores, empresários locais ou nacionais.

Criou-se uma competição virtuosa, que permitirá atingir (ou não) as metas. Pelas informações, o primeiro milhão de casas populares será atingido em breve.

Qual foi a reação de Serra? Criticou o fato do governo não ter definido prazo para construir esse um milhão de casas. A CDHU, de São Paulo, disse ele, trabalha de forma centralizada e com prazos. Um varejinho para pequenos problemas, sem grandeza para encarar desafios da magnitude de se construir um milhão de moradias populares.

Mostrou incapacidade total de analisar sequer modelos gerenciais; muito menos uma construção de alta complexidade, que é casar a gerência com as variáveis políticas de um país de um federalismo incompleto. É uma visão tecnocrática e não gerencial da administração pública.

O que se está vendo, no plano nacional, é o resultado desse modelo: inaugurações de obras em que aparecem presidente da República e governador do estado; prefeitos usando obras com recursos federais para suas campanhas políticas; governadores fazendo campanha com essas obras; até o infausto Sérgio Guerra atuando dessa maneira.

Esse modelo de articulação do PAC tornou-se padrão. Na primeira fase resultou em processos semelhantes no Ministério de Ciência e Tecnologia, Agricultura, Saúde, dentro da ideia de cada Ministério definir as ações do setor de forma interministerial, envolvendo outros ministérios e departamentos.

Percebeu-se que nenhum ministério conseguiria sozinho essa coordenação. Provavelmente um PAC 2 integrará todas essas ações em um PAC único.

Independentemente dos resultados das eleições, quando baixar a poeira desse passionalismo, dessa exacerbação maluca a que a opinião pública foi levada pela velha mídia, emergirá a figura de uma das grandes ministras da história republicana.

Serra e o não exercício da gestão

Serra teve a maior vitrine que qualquer candidato a presidente poderia aspirar: o governo de São Paulo. Fazer uma revolução em São Paulo é imensamente mais fácil que no Brasil.

O Brasil é díspar; São Paulo é homogêneo. Pactos políticos são mais fáceis em São Paulo. Um governador com visão de futuro teria à sua disposição os melhores quadros do país para articular grandes movimentos de modernização: os melhores institutos, as melhores universidades, as maiores empresas nacionais, a melhor estrutura sindical (Fiesp/CIESP, centrais sindicais, Sebrae), as melhores associações empresariais, as melhores cidades médias, a melhor infra-estrutura, massa crítica de pensadores, organizações sociais, órgãos exemplares de financiamento da pesquisa.

Imagine essas forças sendo articuladas para um plano de disseminação de inovação nas empresas paulistas. Ou um plano de melhoria do valor agregado das exportações paulistas. Ou uma ação integrada, com todos os setores, visando reduzir a criminalidade ou melhor a assistência social.
Nada se fez, nada. Apenas se deu continuidade a obras.

As melhores empresas de São Paulo insistiram em bancar, com recursos próprios, programas de qualidade. Serra só aceitou porque eram grandes empresas. Jamais acreditou em gestão e matou os programas por desinteresse.

No campo das articulações com forças sociais e econômicas, foi um governo que se isolou de tudo ou de todos.

Na crise de 2008, só aceitou receber associações empresariais seis meses depois do pedido de audiência, quando algumas delas se reuniram com centrais sindicais e ameaçaram manifestações na porta do Palácio.

Permitiu que a greve da Polícia Civil chegasse às vias do confronto e, depois, aceitou todas as reivindicações.

Administrando a mídia

Seu modelo de gestão consistia unicamente em tentar administrar o noticiário da mídia, com uma obsessão sem paralelo. Qualquer linha torta, qualquer pergunta não programada, tirava o governador de suas funções administrativas, para ligar para chefes de redação, não poucas vezes exigindo a cabeça dos jornalistas.

Em reuniões com secretários, chegou a admitir que gastava três horas por dia acompanhando o noticiário dos jornais.

Mais que isso. Junto com a velha mídia criou um clima de macartismo, de virulência, de baixarias que jamais havia presenciado em 40 anos de jornalismo.

A maneira como articulou jornalistas de esgoto para fuzilar companheiros, para atacar aliados e adversários, a ação deletéria de seu Secretário de Comunicação, ameaçando jornalistas nas redações da própria velha mídia, compõem um conjunto inédito de ameaças à liberdade de opinião.

É até piada considerar que a ameaça venha de conselhos populares.

Essa falta de empenho em criar modelos de atuação, gerou um paradoxo.

Em um modelo neoliberal, em que o governante não dispõe de estrutura de Estado para atuar, o caminho alternativo é o da coordenação dos agentes sociais e econômicos do Estado.

Em um modelo autárquico, o governo é centralizador e só sabe agir com ferramentas de Estado.
Em um modelo pragmático, casam-se estado e articulação.

Numa ponta, privatizou empresas paulistas, tudo para fazer caixa imediato e deixar obras. Enquanto a Cemig se tornava uma das grandes empresas nacionais, a indecisão do governador esmagou a CESP. Quatro anos pensando em privatizá-la. Não privatizou e matou quatro anos de planejamento e de expansão da empresa.

Em São Paulo, Serra montou um modelo de governo centralizador – e inerte – que privatizava para conseguir recursos para seu único objetivo: obras viárias vistosas.

Não é à toa que, na semana passada, fez um balanço parcial do que o governo de São Paulo fez contra a crise… antes de vender a Nossa Caixa. E mereceu uma emérita gozação de Lula que explicou que comprou a Nossa Caixa para utilizá-la para enfrentar a crise.

Gov. Zezinho traído: por causa do tutu, mineiros quebram unidade da oposição – por Tia Carmela e o Zezinho

http://byebyeserra.wordpress.com/2010/03/05/gov-zezinho-sente-se-traido-por-causa-do-tutu-mineiros-quebram-unidade-da-oposicao/

O primo de Suzana é a chave da eleição – por Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico)

Minas Gerais é uma província. E nunca uma eleição presidencial esteve tão dependente de seus rumos. A província que conta foi o enredo da inauguração da nova sede do governo de Minas.

O editorial de primeira página do principal jornal do Estado – “A reboque não!” – já prenunciava o tom do evento mais esplendoroso dos oito anos do governo Aécio Neves. O governador que conduz, mas não é conduzido não pode alegar que não sabia o que encontraria no dia seguinte em Belo Horizonte.

Os gritos eram de “Aécio Presidente”, mas o evento não era um lançamento do anfitrião. Depois de três meses insistindo em ter o candidato a vice definido antes da cabeça de chapa, o PSDB assistiu ao governador José Serra ser submetido a uma constrangedora apoteose da mineiridade.

Aos conterrâneos que saudou, Aécio tratou por “extraordinários”. Entre os governadores, a saudação apenas foi extensiva ao irmão de Ciro, Cid Gomes (CE). A quem não estivesse informado, ali se soube que o governador Sérgio Cabral (PMDB) foi casado com Suzana, prima do anfitrião, e que muito os orgulha os três descendentes Neves-Cabral.

A governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB), que esteve prestes a ser cassada, foi tratada como “companheira lutadora e guerreira”, o de Santa Catarina, Luiz Henrique (PMDB), como “companheiro de todas as horas, de angústias e de vitórias”.

Serra, que abriu a lista dos governadores saudados por Aécio, foi tratado com respeito – “um grande companheiro desta e de outras lutas”, – recebeu as boas-vindas a Minas Gerais, mas não ouviu nenhuma menção à disputa presidencial. Talvez porque ainda não seja candidato.

O governador paulista até que vinha se esforçando nos últimos dias. Fez, no Senado, um discurso lapidar na homenagem ao centenário do avô de Aécio. Reconciliou seu PSDB com a matriz da Nova República que o partido rompera na sua fundação.

É improvável que Serra tenha partido para Belo Horizonte na expectativa de que Aécio transformaria o evento num lançamento da chapa tucana. Mas é possível que tenha saído de lá com a impressão de que, pior do que enfrentar a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é depender de Minas para ganhar a eleição.

É claro que Aécio vai pedir votos para o candidato do PSDB. Quem quer que ele seja. Não poderia fazer diferente. Mas se a mineiridade ferida é um sentimento antes da elite política que lotou o evento de ontem que do eleitor do Vale do Jequitinhonha, as limitações da transferência de voto são reais.

É um fenômeno que funciona para o mesmo cargo. Precisou que Marta Suplicy (PT) fosse derrotada com o apoio do presidente na disputa pela Prefeitura de São Paulo e Dilma encostasse em Serra com o mesmo cabo eleitoral para o óbvio finalmente se fazer ouvir.

Em 2008, Aécio suou para, junto com o então titular, Fernando Pimentel (PT), eleger o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB). Perdeu prefeituras importantes que agora terá que correr atrás para fazer o sucessor.

Serra começa a enfrentar a disseminação, em sua base, da tese de que a única maneira de Aécio comandar os votos em Minas seria na cabeça de chapa. E que a chance de o governador paulista ganhar em Minas é menor do que a de Aécio Neves em São Paulo. Face à ausência de racionalidade da recalcitrante montagem da chapa presidencial do PSDB recorre-se ao comportamento eleitoral.

Somados, Norte e Nordeste têm um terço do eleitorado que, nas duas últimas eleições, deu ampla margem de vitória a Lula. Nessas regiões, a ministra Dilma Rousseff já passou à frente de Serra. É nessa fatia do eleitorado que a candidata governista pode colocar sua maior dianteira. A oposição trabalha com uma desvantagem que pode chegar a 10 milhões de votos nesse pedaço.

No Sul e Centro-Oeste, regiões que somam um quinto do eleitorado, o PSDB tem um acumulado de vitórias nas duas últimas eleições e pode levar vantagem. A se confirmarem as boas perspectivas da safra agrícola, cenário distinto das últimas eleições, o voto de protesto não deve colocar os tucanos em ampla dianteira.

Resta o Sudeste onde moram quatro em cada 10 eleitores. No Espírito Santo, Dilma tem o governador e o prefeito da capital em seu palanque. No Rio, idem, além de Anthony Garotinho e Marcelo Crivella a puxar votos no Estado mais permeável ao apelo evangélico. O partido de Fernando Gabeira (PV) tem uma candidata na disputa presidencial e não é um vice tucano que vai dissociar seu palanque do de Marina Silva.
São Paulo é PSDB. Nem quando teve em José Genoino (2002) uma candidatura competitiva ao governo do Estado Lula ganhou o voto paulista, dirá agora que nem candidato tem. Dos três tucanos que já disputaram a Presidência da República, Serra é o que teve a pior votação (28%), mas agora a boa avaliação de sua gestão deve alavancar seu desempenho. É mais do que provável que ganhe, mas nas contas mais otimistas da oposição a vantagem não ultrapassa os 5 milhões de votos, muito aquém do que o necessário para contrabalancear Norte e Nordeste.

É aí que entra Minas. O segundo maior colégio eleitoral do país que votou em Lula e Aécio em 2002 e 2006 soma 14 milhões de votos. O governo tem uma candidata lá nascida. A oposição ainda não tem candidato. Aécio foi taxativo ontem: não estará na cabeça de chapa. Nem puxando nem a reboque. E o governador de São Paulo, numa cerimônia que reuniu a maioria dos prefeitos do Estado, principais cabos eleitorais de qualquer eleição, lá não fez sucesso.


Comentário
É um belo texto, é uma pena que o primeiro parágrafo seja tão determinista: “Minas Gerais é uma província. E nunca uma eleição presidencial esteve tão dependente de seus rumos”. Avaliando-se a história brasileira, em muitos casos, Minas Gerais foi bem mais determinante.

Barrichello é convidado a ser vice do gov. Zezinho - por Tia Carmela e o Zezinho

http://byebyeserra.wordpress.com/2010/03/02/barrichello-e-convidado-a-ser-vice-do-gov-zezinho/
http://byebyeserra.wordpress.com/2010/03/04/chapa-zezinho-rubinho-segue-empolgando-as-massas/

quarta-feira, 3 de março de 2010

Requião e o PMDB – por Leandro Fortes (Brasília, eu vi)

Pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB, o governador do Paraná, Roberto Requião, sabe que não tem chance alguma de ser homologado como tal, em junho, na convenção nacional do partido. Requião se lançou nessa empreitada para fazer barulho e expor a contradição interna da sigla, distante, anos-luz, dos nortes democráticos traçados na trajetória do antigo MDB de guerra. O paradoxo do PMDB, no entanto, nada tem a ver com as vontades de Requião, esta legítima sob qualquer análise, mas reside no fato de que enquanto o governador se pretende presidente da República, o presidente do partido e da Câmara dos Deputados, o paulista Michel Temer, pretende-se vice. Ou falso vice, na visão de Requião.

“O que Temer quer ser é presidente mesmo”, brada Requião, entre irônico e indignado, com voz de trovão, empenhado em revelar intenções supostamente escondidas pelo sinistro semblante do presidente do PMDB. A lógica do governador paranaense faz sentido, embora tenha um quê de teoria conspiratória: caso seja eleita, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (“uma gerentona”, segundo ele), teria enormes dificuldades de se relacionar com o Congresso Nacional, o que a tornaria refém do habilidoso Temer, raposa velha do Parlamento, ambiente pelo qual transita, há mais de três décadas, com grande desenvoltura. Assim, do Palácio do Jaburu, aprazível, mas anódina, residência oficial dos vices, Michel Temer conseguiria o que ninguém do PMDB conseguiu, desde o governo José Sarney, ou seja, mandar de fato no Executivo federal.

O discurso político de Roberto Requião é entrecortado, aqui e ali, por certo ressentimento orgânico, uma crescente desilusão com a história do PMDB e seu papel institucional periférico, embora relevante, nos caminhos dos governos que sempre apóia. No Brasil, como se sabe, é impossível governar sem o apoio do PMDB, dono de uma avassaladora máquina de votos espraiada por centenas de prefeituras municipais, câmaras de vereadores, assembléias legislativas, além da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Um enorme “exército sem general”, como bem define o jornalista Mauro Santayana, uma tropa muitíssimo adestrada no terreno do fisiologismo e do clientelismo, mas carente de um líder verdadeiro desde as mortes de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, ainda no alvorecer da chamada Nova República.

Ao colocar o próprio nome como alternativa eleitoral à Presidência da República, em 2010, Roberto Requião se insinua como candidato, também, a general dessa deserdada legião peemedebista, a conduzir o partido para além da posição subalterna em que tem se submetido desde que fez uma opção preferencial por cargos em detrimento de um projeto real de poder. Sabe, como todos sabem, que a briga do PMDB não será por uma candidatura própria, mas pela possibilidade de Michel Temer conseguir a boquinha de vice, embora este tenha, antes, que superar a ojeriza que a maior parte do PT tem pelo presidente da Câmara, apesar dos sorrisos pragmáticos que o presidente Lula e a candidata Dilma lhe dirijam, vez em quando, não sem algum constrangimento.

Requião ressente-se, ainda, do círculo de fogo aceso pela mídia em volta de si. Nos sete anos à frente do governo do Paraná, ele secou a fonte de financiamento público da imprensa e não colocou um tostão de publicidade na mídia local. Trata-se de uma mudança de rumo considerável, haja vista seu antecessor, Jaime Lerner, do DEM, ter despejado algo em torno de 2 bilhões de reais no setor, nos dois mandatos em que esteve à frente do governo. Em troca, Requião passou a levar pancada diariamente da mídia – paranaense e nacional –, que não lhe dá trégua nem voz, isso quando não opta por silenciar sobre toda e qualquer ação de governo que possa, ainda que indiretamente, render dividendos políticos ao governador. Isso em se tratando de uma gestão que mantém o maior salário mínimo regional do país, isentou de impostos todas as pequenas empresas do estado e mantém uma malha rodoviária totalmente liberta de pedágios. O governador, contudo, não foge dessa briga, pelo contrário, a alimenta, como quando espinafrou cada repórter presente na primeira coletiva que deu como governador reeleito, em 2006. Sem falar na postura política explícita, desavergonhadamente de esquerda, a ponto de classificar – para horror de certos editorialistas da mídia nativa – que o MST é “uma dádiva de Deus”.

É quase certo, portanto, que Roberto Requião acabe por levar seu estilo intempestivo e turrão de volta ao Senado Federal, onde deverá insistir na tese de que, embora o presidente Lula já tenha se inscrito no panteão dos grandes líderes nacionais, ao lado de JK e Getúlio Vargas, não será apenas com programas assistenciais, como o Bolsa Família, que o Brasil se tornará um lugar melhor. Requião escora-se num conceito, o de “Brasil Nação”, para elaborar um meticuloso, sofisticado e, por isso mesmo, hermético discurso econômico sobre a subordinação do país ao comércio de commodities com a China. “Estamos, outra vez, nos tornando uma plantation, um país produtor de commodities agrícolas, com todo o custo que isso traz ao meio ambiente”, reclama.

“Brasil Nação” é o nome do programa da TV Educativa do Paraná comandado pelo jornalista Beto Almeida, onde, no domingo passado, Roberto Requião voltou a soltar o verbo, ao vivo, sobre tudo e sobre todos – o que, para ele, é sempre um risco financeiro. A fim de impedi-lo de usar a TVE para romper o cerco midiático imposto a ele por quase toda a mídia privada, a Justiça do Paraná tem condenado Requião a pagar cerca de 400 mil reais toda vez que ele abre a boca por lá. O alvo é a “Escola de Governo”, uma reunião pública e semanal feita pelo governador com todo o secretariado estadual, transmitida ao vivo pela TVE do Paraná. Na ocasião, Requião aproveita para apresentar os resultados de sua gestão e, também, para dar opiniões e disparar críticas para todos os lados.

É um tempo, no entanto, prestes a acabar. Sem uma aliança capaz de garantir um sucessor à altura, Requião terá que se contentar em apoiar a candidatura de seu vice, Orlando Pessuti, também do PMDB. Pessuti, quase um negativo de Requião, é tranqüilo, obsequioso e apagado. Muito pouco para entrar na disputa no meio de cobras criadas do quilate dos irmãos e senadores Alvaro (PSDB) e Osmar Dias (PDT), e do bem avaliado (e preferido da mídia local) prefeito de Curitiba, o tucano Beto Richa.


Comentário
Torço bastante para que Roberto Requião seja o vice escolhido para a chapa de Dilma Roussef.
Os outros nomes aventados, quais sejam: Michel Temer (!), Nélson Jobim (!!!), Henrique Meirelles (!!!) - bateu uma dúvida em qual destes dois últimos eu inseriria mais exclamações, um deveria ficar com duas, não consegui - só conspurcariam a chapa. E não seria pouco.
Além de, muito provavelmente, só agregarem os votos deles mesmos e dos seus familiares (os mais próximos - e olhe lá).

A conta que será cobrada de Lula – por Luis Nassif

Em seu improviso, ontem, em Sorocaba, Lula soltou uma definição precisa do seu governo. Descobriu que a economia se faz com simplicidade, sem firulas, sem volteios. Simplesmente porque percebeu que não havia relações causais automáticas entre “lição de casa” e crescimento. Desenvolvimento é trabalho diário e pertinaz, removendo os entraves ao crescimento.

Recentemente conversei com um ex-Ministro do governo Lula. Ele me contava o modo de trabalho do presidente – aliás, desde os tempos de presidente do PT.

Não tem cansaço para a discussão. Pode passar horas discutindo uma medida, ouvindo argumentos, pedindo explicações. Só se impacienta com papo furado.

Seu método de avaliação é simples: 1) É viável? 2) Que benefícios traz para o país? 3) Quais os riscos? Com esse método, mais a rapidez para captar detalhes, quase sempre consegue encerrar a discussão com a melhor proposta. Quando não está suficientemente convencido, remarca a reunião para dali a alguns dias.

Provavelmente desde Geisel não aparece um presidente que se envolva tanto com todos os pontos de seu governo – sendo que o Brasil de Geisel era muito menor e mais simples que o de Lula.

Foi graças a esse objetividade e à busca permanente de resultados, que Lula foi conseguindo se desvencilhar – ainda que lentamente – de todo o aparato ideológico que sustentava o imolibismo das políticas públicas. Constatou, primeiro, a importância do equilíbrio fiscal. Mas, na crise, se deu conta que excesso de rigor fiscal mata o crescimento. Entendeu a importância da pró-atividade na política econômica, assim como a importância das empresas públicas em casos específicos – sem incorrer em estatização generalizada. Em suma, sintetizou o ideário de um centro-esquerda não dogmático que a era FHC liquidou no PSDB. Graças à crise conseguiu aplicar na política econômica uma versão do sindicalismo de resultados.

Por tudo isso, é incompreensível o imediatismo, a falta de visão de futuro, com que trata a questão cambial.

O que matou o PSDB foi a constatação, anos depois, dos malefícios do neoliberalismo exacerbado de FHC. Enquanto se produziam os desastres do primeiro governo, não se cuidava da auto-crítica, dos ajustes. Lembro-me de artigos meus, em 1998 ainda, percebendo alguns avanços que ocorriam e preevendo: a política cambial liquidará com o governo FHC.

O mesmo acontece agora, mas de uma forma mais nociva, porque, ao contrário do desastre da gestão Gustavo Franco, agora a apreciação cambial se dá de uma forma consistente, graças à formação de um amplo colchão de reservas cambiais e ao fato do Brasil ter se tornado o pato da vez da alta liquidez internacional. Fechou-se espaço para o Sr. Crise se manifestar e corrigir rapidamente os desmandos do câmbio.

Daqui a alguns anos, o legado de Lula incluirá obras importantes e irreversíveis, como a massificação das políticas sociais, o trabalho da Fazenda, evitando a crise, a manutenção da responsabilidade fiscal, o pacto federativo embutido no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Mas contabilizará, também, a enorme irresponsabilidade da política cambial e os efeitos sobre a desindustrialização brasileira.

O déficit de informação no país permite que analistas – como esse «professor de Deus» – manipular dados, efetuar duplas contagens, assim como fez com as contas paulistas, para negar a desindustrialização. Para tanto, basta contabilizar como produção nacional equipamentos importados e revendidos por empresas nacionais.

Só que Lula não tem o álibi da ignorância. Ele se escora, mensalmente, em reuniões com dois dos economistas mais atentos a esse desastre: Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo. Então, qual a razão de permitir esse estrago, que compromete o futuro do país irreversivelmente – na medida em que tira competitividade da indústria nacional em um momento crucial, em que a China avança vorazmente sobre mercados antes ocupados pelo Brasil?

Daqui a alguns anos, quando esses números estiverem mais claros, a história irá debitar essa conta ao governo Lula – como debita, hoje em dia, a estagnação e a desindustrialização dos anos 90 ao governo FHC.

Instituto Millenium: toda a democracia que o dinheiro pode comprar! - por Gilberto Maringoni (Agência Carta maior)

Seminário sobre liberdade de expressão reunirá em São Paulo a nata da plutocracia. O interessante é que o Instituto que o promove tem o mesmo nome de uma conceituada casa de prazeres
Gilberto Maringoni


Acabou o carnaval, mas a festa continua. Vem aí, gente, o Fórum Democracia e liberdade de expressão, promovido pelo Instituto Millenium . O acontecimento será no dia 1º de março, no Hotel Golden Tulip, na capital paulista. A inscrição é uma pechincha: R$ 500 por cabeça.

A lista de palestrantes é de primeira. Lá estarão o dr. Roberto Civita (Abril), o ministro Hélio Costa (Globo), Marcel Granier (dono da RCTV, famosa por tramar e propagar o golpe de 2002 na Venezuela), Demétrio Magnoli (venerando Libelu de direita, que está decidindo se o melhor é ser contra a política de cotas ou contra a política de quotas), Denis Rosenfield (entidade do folclore gaúcho que ainda não tomou conhecimento do fim da Guerra Fria), Arnaldo Jabor (o espirituoso), Carlos Alberto Di Franco (dirigente da organização democrática Opus Dei), Marcelo Madureira (humorista neocon), Reinaldo Azevedo (claro!), Roberto Romano (ético ao quadrado) e os modernos deputados Fernando Gabeira e Miro Teixeira.

Intelectuais de programa
O Instituto Millenium veio para ficar. Foi fundado em 2005, no Rio de Janeiro. Não se sabe se tem algo a ver com o conceituado Café Millenium, estabelecimento classe A, onde gente de primeira ia buscar diversões, digamos, adultas até julho de 2007, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O Café Millenium não escondia seu negócio. O slogan era “Sua noite de primeiro mundo”. Com belíssimas garotas a excitar a imaginação e a ação de senhores de fino trato, vendia o que anunciava. Deve-se à fúria moralizante do prefeito Gilberto Kassab – um “Jânio sem alcool”, na genial definição de Xico Sá – o fechamento desta e de outras instituições semelhantes, nos tempos em que as enchentes não eram preocupação de um alcaide movido a reeleição.

No site do Instituto Millenium não há nenhuma informação sobre o paradeiro do Café. Os proprietários devem ter feito alguns arranjos aqui e ali, para não dar muito na vista e resolveram tocar o pau. Para manter o embalo dia e noite, aparentemente já contrataram alguns intelectuais de programa, vários articulistas que não estão no mapa, inúmeros jornalistas de vida fácil e go-go-oldies. Discrição total. O distinto senhor ou senhora comprometida pode ir sem medo, que é todo mundo limpinho, o ambiente está aparelhado para experiências das mais exóticas. Há estacionamento e os acompanhantes falam inglês e são educados.

O tal do fórum
O máximo do prazer será a atração deste início de março, o Fórum Democracia e liberdade de expressão. Entre os apoiadores do evento, sempre segundo o site do Millenium, estão a Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), entidades que envolvem a Globo, o SBT, a Record, a Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, a RBS e outras empresas que decidiram boicotar a I Conferência Nacional de Comunicação, numa demonstração de forte apreço pela democracia. Figura lá, além do Instituto Liberal, um sensacional Movimento Endireita Brasil (MEB), cujo nome diz tudo.

A Carta de Princípios do Café, digo Instituto, é das mais edulcoradas. Entre tantos pontos, está lá: “promover a democracia, a economia de mercado, o estado de direito e a liberdade”. Assim, o mercado, quase como sinônimo de democracia. Mais adiante são enunciados seus valores e princípios: “o direito de propriedade, as liberdades individuais, a livre iniciativa, a afirmação do individualismo, a meritocracia, a transparência, a eficiência, a democracia representativa e a igualdade perante a lei”. Jóia! Vamos todos aderir!

Entre os conselheiros “de governança” e mantenedores está a fina flor da sociedade brasileira. Entre outros, figuram João Roberto Marinho (vice-presidente das Organizações Globo), Jorge Gerdau Johannpeter, Roberto Civita (Abril) e Washington Olivetto (presidente da W/Brasil). Já no Conselho Editorial está o sempre alerta Eurípedes Alcântara (diretor da redação de Veja) e no Conselho de Fundadores e de Curadores está ninguém menos que Pedro Bial, o grande comandante do programa cultural Big Brother Brasil, um modelo do que se pode fazer com a liberdade de expressão às mancheias. Coroando tudo está o Gestor do Fundo Patrimonial, Dr. Armínio Fraga, que dispensa maiores apresentações.

Com o empenho do Café, digo do Instituto Millenium, a democracia e a liberdade de expressão passam a ser mais valorizadas no Brasil. Por baixo, por baixo, a valorização deve ser de 500% em fundos off shore.

Todos dia 1º. de março ao Millenium, gente. A sua noite – ou dia - de primeiro mundo!

Em tempo: Não se sabe ainda se os antigos proprietários do Café Millenium entrarão na Justiça contra os mantenedores do Instituto Millenium. A ação se daria não apenas por plágio, mas por comprometer o bom nome do Café em uma possível volta ao mercado.


Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

terça-feira, 2 de março de 2010

Uma análise, uma dúvida e uma torcida

Julgo haver erros graves cometidos pelos mais variados analistas, tanto os da mídia conservadora quanto os da mídia progressista sobre a queda nas intenções de voto na eleição presidencial para José Serra (PSDB), e a subida no mesmo tom da ministra Dilma Roussef (PT).
Esta diferença, antes de 14 pontos percentuais, agora de 4 pontos percentuais – já fora alertada pelo ilibado instituto Sensus, mas ignorada pela mídia gorda (neste meio tempo o Ibope, como sempre, arranjou números satisfatórios aos seu dono, o senhor Carlos Augusto Montenegro).
A maior parte dos analistas creditou a dois fatores esta diminuição da diferença.
Primeiro, ao fato de José Serra não assumir sua candidatura publicamente.
Isto é uma bazófia.
Como “quase-candidato” Serra tem ganhado uma enorme mídia. Como abandonado pelo Aécio ele tem ganhado enorme mídia. Com o atraso em anunciar sua candidatura, ele também tem ganhado enorme mídia.
Serra sempre ganhará este tipo de mídia dos conservadores. Se até quando ele se submete ao ridículo de tentar angariar algum marketing indo à inauguração de uma ciclovia (!) ele é amplamente divulgado...

Não é a admissão, ou não, da candidatura que tem feito com que ele caia nas pesquisas, é evidente que não.

O que tem realmente alterado as pesquisas, na minha singela opinião, é que a Dilma começa a ser veiculada como a pessoa que dará continuidade, a candidata do presidente Lula.

E isto começou a ficar claro através da propaganda partidária – e não pela admissão de sua candidatura no congresso do PT, que foi o segundo fator que muitos analistas creditaram sua ascensão.


Tal vértice descendente para o Serra é inexorável, pois a cada dia ficará mais cristalino que a Dilma é a candidata “do cara”. E isto começa a ter os efeitos óbvios.

Mantendo-se apenas Serra como candidato, a única coisa que pode alterar os rumos da campanha seria uma “denúncia bombástica” qualquer. É difícil, mas às vezes, mesmo sem nenhum tipo de embasamento, a mídia gorda consegue. Mas acho bastante improvável. A duras penas o PT aprendeu boas lições (algumas, não todas). Hoje o partido sabe que, se apresentar uma denúncia gravíssima e veraz contra um candidato qualquer da direita, a mídia ater-se-á a tais fatos como:
1 - A denúncia foi feita com papel que pagou imposto
2 - Se a tinta das páginas impressas não eram contrabandeadas
3 - Se a gasolina do carro que levava o denunciante ao ministério público não estava adulterada
Etc., etc., etc.

(Acho que) Nesta esparrela o PT não cai mais.

Tentando observar com alguma distância, vemos que o PSDB passará um grande aperto na campanha presidencial que se aproxima. Se criticarem a Dilma dizendo que ela é apenas a sombra do Lula, admitirão que o petista fez um grande governo.
Se batem de frente com tudo (estilo “serráqueo” de ser), vão de encontro ao presidente mais popular da história.

Uma forte caligem se abate sobre os tucanos – não há escapatória à vista.

De uma coisa eu ainda tenho dúvida: se a ida do Aécio como vice, será o melhor para a oposição. Porque imaginem se o Aécio entra nesta e a oposição perde, com os seus dois maiores candidatos juntos, com a tal chapa puro-sangue (que de “puro” não tem nada)? A direita perderia qualquer esperança de voltar ao poder em muitos e muitos anos. Seria uma derrota desmoralizante.
O Aécio, facilmente eleito como senador, sairá da próxima eleição como um vitorioso. O senhor inconteste do PSDB. O que foi injustamente preterido. Etc., etc, etc.
Se vencer como vice, será um nulo, um a mais a ser ignorado pelo magnânimo Serra. Se Aécio perder como vice, ficará sem mandato, sem perspectiva que não outra derrota para a mesma Dilma em 2014 e, a direita, sem um nome.
Não acho que ele entrará nesta barca furada.

Porém, como eu gosto de ganhar jogos disputados, eu prefiro que o Serra venha como cabeça, o Aécio como vice, e o Ciro tente destronar o PSDB de São Paulo.
Se o PSDB vier só com o Serra, ou só com o Aécio, a vitória será esmagadoramente fácil, não haverá graça nenhuma.
E o legal, é quando o circo pega fogo.

Mídia trata Aécio como cordeiro de sacrifício - por Miguel do Rosário (Oleo do Diabo)

http://oleododiabo.blogspot.com/2010/03/midia-trata-aecio-como-cordeiro-de.html

As eleições e os analistas-postes - por Luis Nassif

Essa história da seleção de fontes pelo critério ideológico produziu uma mixórdia analítica na velha mídia. Foi ampla a falta de critério na seleção de fontes.

Qualquer jornalista político minimamente experiente sabe que ser cientista social ou historiador não é atestado de conhecimento dos rumos eleitorais. O acadêmico com boa formação consegue enxergar os grandes temas da política, as grandes linhas.

Mas o jogo eleitoral exige o conhecimento do dia a dia, presente apenas nos bons repórteres políticos, capazes de se abastecer nas boas fontes. Exige intuição para entender o jogo futuro, o impacto das alianças sobre os candidatos, os efeitos da conjuntura econômica, um mínimo de conhecimento sobre o potencial de cada candidato e, principalmente, sobre a alma do eleitor.

Como a necessidade de analistas engajados mediocrizou o debate, surgiram os comentaristas-poste tendo como único discurso que a eleição estaria ganha por Serra porque, do outro lado, havia uma candidata-poste. Em todo entrevista, lá vinha o gênio da lâmpada com ar professoral sacando da algibeira a menção à “candidata-poste”.

Todos os demais fatores foram ignorados, pela própria incapacidade desse pessoal de processar mais de uma variável. São monofásicos. Saem à rua, se está chovendo, sua previsão é que nos próximos meses choverá; se no dia seguinte faz sol, garantirão que os próximos meses serão de sol.

Ficou-se nesse chavão da candidata-poste e em elogiar todas as iniciativas do candidato Serra. O sujeito travado, sem conseguir avançar uma ideia, uma iniciativa sequer e o analista-poste vendo no travamento sinais de augusta sabedoria.

Dentre todos, não existe ninguém que supere o professor Marco Antonio Villa, o autêntico analista do cenário do dia. É de uma incapacidade total de enxergar um mês à frente. Não se está falando em anos à frente, mas em um mês.

Confira.

Primeiro, propunha que o candidato da oposição encarnasse o anti-Lula:

O candidato da oposição teria que, além de apresentar um novo projeto para o país, desmitificar o presidente Lula. E o tempo para tudo isso está acabando. “A oposição já perdeu muito tempo em 2005, deu um respirador ao governo no momento em que ele estava à beira do nocaute, parou a luta no momento em que poderia levar o presidente a nocaute, ao impeachment, achando que não era hora e que era melhor levar o candidato sangrando ou quase derrotado para vencer em outubro.” A estratégia se mostrou um fracasso, observa. E a oposição vive a dificuldade de construir sua candidatura diante desse novo cenário de recuperação do presidente Lula.

O PSDB terá muitos desafios para imprimir em seu candidato todas as características do anti-Lula. Na opinião de Marco Antônio Villa, o candidato será José Serra, e ele é maior do que o PSDB. “Serra consegue pegar votos de setores da esquerda, por exemplo.” O tucano terá que mostrar que não é, em hipótese alguma, o candidato dos ricos contra o candidato dos pobres, “desmascarando a estratégia de Lula”, observa o professor. “Mostrar que o candidato dos ricos é aquele que dá o maior lucro da história para os banqueiros, ou seja, Lula.” Serra terá ainda que eliminar essa divisão regional que caracteriza o PSDB e que reflete uma disputa do Sul e Sudeste contra o Nordeste. “E mostrar que o presidente, em três anos e pouco de mandato, não construiu uma política para o Nordeste. A região vive momentos de seca e falta de esperança, e Serra tem que ir derrubando essas barreiras.”

Depois, previa que a crise mundial provocaria o desmonte da popularidade de Lula:

Como entender isso diante da enorme popularidade de Lula?

As pesquisas sobre popularidade registram um apoio político maior do que o existente na realidade, porque são feitas sem o contraditório. Não são produto de discussão política, como ocorre no processo eleitoral. Lula achou que, dada sua popularidade, bastaria apoiar um candidato para que fosse sagrado pelas urnas. O pior é que a oposição também acreditou nessa falácia.

É uma lição para 2010?

O PT vai pensar com mais cuidado na escolha de seu candidato para a Presidência. Será mesmo a Dilma Rousseff? Se alguém quiser dar nome a um poste, pode chamá-lo de Dilma. Ela nunca foi eleita para um cargo representativo, não tem experiência eleitoral. Como pretendem jogá-la na eleição de 2010, que se anuncia como a mais disputada da história republicana do Brasil?

Em que medida a crise econômica mundial, que começa a ter efeitos no Brasil, influirá na sucessão?

A crise ainda está no começo. Se atingir o Brasil fortemente, como parece que vai atingir, um dos efeitos será a queda da popularidade do presidente. Quando isso ocorrer, o primeiro partido a sair da base do governo será o PMDB, que é um aliado dos bons momentos: quando vê uma tempestade, ainda ao longe, o PMDB é o primeiro a abandonar o navio. Isso fará com que o partido chegue ainda mais dividido em 2010, mais sujeito às decisões dos caciques regionais. Hoje sabemos que Jarbas Vasconcelos, de Pernambuco, apóia José Serra para a Presidência, enquanto Roberto Requião, do Paraná, apóia quem Lula indicar. Numa situação como essa, com a queda da popularidade e perdas na base de apoio, a possibilidade de vitória de um candidato indicado por Lula diminui ainda mais.

http://portal.pps.org.br/portal/showData/104686

Aqui, a incrível entrevista ao Valor, do dia 27 de janeiro passado, pouco mais de um mês atrás. Não se está falando em enxergar o futuro nebuloso, mas em analisar fatos que ocorriam debaixo do seu nariz. E o que diz o cientista-poste?

A prudência do tucano pode estar certa, a se confirmar análise do historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos.

Ele prevê “a campanha mais violenta da história”, com troca de acusações e guerra de dossiês, tudo facilitado pelo uso da internet. Por trás, estarão os grupos que sustentam as candidaturas e delas dependem.

Para Villa, apesar da antecipação da campanha da parte de Lula e do PT, a ministra ainda é uma incógnita como candidata. “Dilma terá de começar a caminhar com as próprias pernas”, afirma. Por enquanto, ela não se apresentou. É candidata em formação, tartaruga empurrada pelo presidente e pelo PT. Serra observa. Aliados próximos dizem que, ao contrário da lebre, o tucano não está parado. Corre nos bastidores.

Aí, menos de um mês depois, o Datafolha mostra Dilma empatada com Serra. Todos os prognósticos de Villa estavam furados. Volta-se a entrevistá-lo porque não existe controle de qualidade nos jornais. Pouco importa o analista que sempre erra, desde que diga o que se quer. Ele refaz tudo o que disse até então, diz que a demora de Serra em se decidir ajudou Dilma e insiste que Serra não poderá se apresentar como o anti-Lula.

Para Marco Antônio Villa, professor de história da Universidade Federal de São Carlos, Serra tem que assumir logo a candidatura. Diante de si, terá um desafio: “Precisa ser anti-Dilma sem ser anti-Lula”, diz o professor.

— Serra não pode brigar com os fatos e dizer que o governo Lula é ruim. Ele tem que conseguir que as pessoas vejam as diferenças na trajetória dele e da Dilma e convencer que ele fará o país crescer mais e melhor.

Até hoje só o professor Albert Fishlow conseguiu essa proeza, se traçar um cenário de acordo com a chuva de cada dia. E continuar sendo ouvido por uma imprensa sem o menor cuidado em entregar produtos de qualidade para seus leitores.