sábado, 7 de abril de 2012

Demóstenes - por Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)

Usou e foi usado

A imprensa operou uma mágica em Demóstenes Torres: transformou rapidamente um político paroquial e inexpressivo numa personalidade nacional.

Demóstenes, para ganhar uma cobertura extraordinária de jornais e revistas, seguiu a receita clássica: falou o que os outros queriam ouvir. Basicamente, um discurso arquiconservador enfeitado por uma pregação moralista em que o governo era combatido pela ótica da corrupção.

Com isso, Demóstenes se tornou uma presença ubíqua, previsível e maçante na mídia. Ele se juntaria a um coral conservador do qual fazem parte articulistas como Merval Pereira, Ali Kamel, Marco Antonio Villa, Luiz Felipe Condé e Arnaldo Jabor. Todos eles falam, essencialmente, a mesma coisa, frases como que extraídas dos discursos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 1980. (Curioso que a nenhum deles ocorra fazer, já com a distância que vinte anos permitem, o balanço da obra que Reagan e Thatcher legaram aos Estados Unidos, ele, e ao Reino Unido, ela: declínio econômico acrescentado de uma elevação notável da desigualdade social. Cada um de seu lado do Atlântico, os dois criaram o que um economista americano chamou, num livro recente, de Nanny State ao contrário – Estados-Babás para os ricos.)

É vital que haja microfones para o pensamento conservador. Mas onde o contraponto para ajudar o leitor a formar opinião? Hoje, esse contraponto está praticamente confinado à internet no Brasil. Até por razões econômicas – o consumidor de notícias que não se sente representado é sinônimo de perda de circulação e de audiência – é imperioso para a indústria da mídia brasileira a retomada do equilíbrio perdido. O Deus Mercado, para usar uma expressão cara ao conservadorismo, demanda isso. Os leitores — eu incluído — ficarão felizes.

Demóstenes floresceu exatamente num ambiente de perda de pluralidade de idéias na mídia brasileira. Picaretas aparecem assim, porque a filtragem fica rala. Basta dizer coisas como as que Demóstenes dizia, e seu celular vai tocar, chamado por jornalistas que precisam de frases para preencher textos com idéias preestabelecidas. Das entrevistas telefônicas a convites para participar de programas na Globonews ou escrever colunas é um passo. (Numa rápida pesquisa que fiz, vi que Demóstenes tinha até uma coluna no blog de Ricardo Noblat, das Organizações Globo.)

Demóstenes pertencia claramente à categoria dos conservadores de conveniência. Espertalhões como ele sabem como atrair os holofotes, e se adaptam às circunstâncias. Se para conseguir espaço ele tivesse que adotar uma retórica de esquerda, com certeza Demóstenes andaria com um chaveiro de Marx no bolso e repetiria frases de Lenine. Homens como ele têm uma única ideologia: a do dinheiro.

Demóstenes usou a imprensa, com motivos pecuniários, para se promover. Foi usado por ela, por motivos ideológicos. E quem perdeu nisso foi o Brasil: é nociva para a democracia a crença de que todo político é corrupto. E é difícil fugir dessa conclusão ao ler a história de Demóstenes.

Há uma espécie de justiça poética no fato de que a notícia mais importante da política brasileira em muitos anos tenha nascido não da mídia — mas da Polícia Federal. Para a qual seguem aplausos de pé.

Clap, clap, clap.

Arte de rua - por David Walker

A tagarelice dos maus – por Jean Wyllys (CartaCapital)

A “Semana Santa” sempre me leva de volta ao passado, à infância e início da adolescência. Lembro-me não só das proibições, dos obrigatórios pedidos de bênçãos aos mais velhos e do aparente luto que cobria tudo.

Recordo-me principalmente das lições de amor ao próximo (de humanismo, digo hoje) que extraíamos da “paixão de Cristo” discutida nos encontros da comunidade e da pastoral e no rastro do lançamento da “Campanha da Fraternidade”. Velhos tempos, belos dias ou vice-versa.

A representação de São Sérgio e São Baco,
símbolos da causa LGBT
Percebam que a leitura da Bíblia – seja de seu “velho testamento”, seja dos evangelhos, do Apocalipse e/ou das cartas de Paulo – levava-me a uma religiosidade saudável. Isto por que a minha educação e formação intelectual não estava a cargo só da Igreja. Meus pais me davam educação doméstica e a escola pública me dava educação formal. Eu estudava e gostava (e ainda gosto) de aprender, conhecer, comparar dados, tirar conclusões a partir de diferentes informações.

Na escola, onde se reproduz um conhecimento obtido por homens e mulheres que se dedicaram e se dedicam a investigar, com metodologia e honestidade, os fenômenos naturais e sociais bem como a natureza humana; na escola, aprendi não só que a Terra gira em torno do Sol (logo, Josué jamais poderia ter parado o Sol durante a batalha de Jericó, como diz a narrativa bíblica; ele pode ter, no máximo, parado a Terra); que gripes são doenças virais e que o câncer não é castigo divino ou impureza mas nasce de uma mutação genética, mas aprendi também, estudando a história do povo judeu, que a Bíblia é um conjunto de livros escritos por este povo em diferentes épocas a partir de mais ou menos três mil anos e que, de lá para cá, seus textos sofreram sucessivas alterações decorrentes das muitas traduções (e as traduções têm seus limites, não são reproduções fiéis nem transparentes).

Logo, a educação formal e o gosto pessoal por conhecer me impediram de ler a Bíblia ao “pé da letra” nas reuniões da comunidade ou da pastoral, ou seja, impediram-me de tomar ofundamento da cultura judaico-cristã que é a Bíblia como verdade absoluta: a educação formal e o gosto pessoal pelo conhecimento me impediram de ser fundamentalista.

Em contrapartida, percebem, aqueles que se opõem à cidadania de LGBTs e, em particular, às reivindicações pelo casamento civil igualitário e pela equiparação da homofobia ao racismo e ao anti-semitismo são fundamentalistas. Mas de um fundamentalismo seletivo.

Vejamos: os fundamentalistas costumam evocar trechos do Levítico e da Carta de Paulo aos Romanos, em que há referências à homossexualidade segundo as sucessivas traduções pelas quais passaram os textos, para justificar suas injúrias e outras violências que praticam contra os homossexuais, mas ignoram os longos trechos do Levítico que recomendam sacrifício de animais e oferenda de suas vísceras e de seu sangue (já pensaram, protetores dos direitos dos animais, o que seria destes se a Bíblia fosse tomada ao “pé da letra”? E por que os fundamentalistas se esquecem desses trechos na hora de perseguir o candomblé e a umbanda por sacrificar galinhas?); ignoram aquele trecho de Josué em que este incita a turba a matar gente inocente: “E Josué disse: Por que é que você fez essa desgraça cair sobre nós? Agora o SENHOR Deus vai fazer a desgraça cair sobre você! Em seguida, o povo todo matou Acã a pedradas. Eles apedrejaram e queimaram a sua família e tudo que ele tinha” (Josué, 7, 25-26) – e este é só um dos muitos trechos em que a violência contra mulheres e crianças é recomendada pelo servo de Deus.

Os fundamentalistas ignoram, de modo providencial, todos os trechos da Bíblia em que há defesa e promoção da escravidão, linchamento, tortura e assassinatos cruéis de pessoas quando a evocam (a Bíblia) para justificar suas injúrias e outras violências contra os homossexuais.

Ora, se evocam a Bíblia neste caso, por que não naqueles? Se é para ser fundamentalista, que Malafaia, João Campos, Magno Malta, Eduardo Cunha, Crivella e quejandos defendam também assassinatos, escravidão e tortura contra aqueles que não são “servos do Senhor”, já que a Bíblia os recomenda! Ou será que ainda não o fazem por que não tomaram o poder de todo? Temei budistas, zoroastistas, umbandistas, candomblecistas, agnósticos e ateus!

Ora, se nós, em nosso processo histórico de civilização e acúmulo de conhecimento, fomos capazes de superar moral e eticamente a escravidão; se conseguimos criar leis para proteger a vida e a dignidade humana mesmo em se tratando de prisioneiros de guerras; se reconhecemos direitos de animais (de alguns, ao menos); se deixamos para trás (ou hoje a maioria de nós abomina) práticas e condutas de tribos de que existiram há mais três mil anos e que são descritas na Bíblia, por que vamos tolerar que se evoque a mentalidade de três mil anos atrás em relação ao que hoje chamamos de homossexualidade?

Se desfrutamos hoje de todos as conquistas da ciência – dos tratamentos médico-farmacológicos contra as gripes e contra o câncer ao computador que nos permite manter essa comunicação – e sabemos que Josué não pode ter parado o Sol, como diz a Bíblia, mas talvez a Terra porque esta é um planeta girando em torno de uma estrela incandescente numa das muitas galáxias que compõem o universo, por que vamos desprezar o que a ciência diz sobre a homossexualidade (que ela não é doença; que é mais uma expressão da sexualidade humana, tecida num diálogo entre natureza e cultura)?

Não, não vamos desprezar! A conquista da cidadania plena e a afirmação do Estado laico e democrático de direito passam pelo enfrentamento aberto e desmascaramento do proselitismo fundamentalista de reacionários como Magno Malta, João Campos, Marcos Feliciano, Eduardo Cunha, Crivella e dos pastores e igrejas que financiam campanhas políticas para terem seus privilégios e interesses assegurados, beneficiados que são pela isenção tributária garantida pela Constituição e pela ausência de fiscalização rigorosa do dinheiro que arrecadam com a exploração da boa fé, sobretudo de gente pobre e desesperada.

E, para essa tarefa, conclamo os outros cristãos que, como eu, extraem da Bíblia (numa interpretação crítica por se levar em conta outras fontes de conhecimento) uma religiosidade saudável, livre de fundamentalismo, e voltada para a construção de uma cultura de paz e de respeito à nossa diversidade cultural e sexual.

Eu sei que existem muitos assim. Que estes se façam ouvir, pois nada mais danoso que o silêncio dos bons ante a tagarelice dos maus.


Comentário
As igrejas devem se preocupar com  seus casamentos religiosos - o sacramento do matrimônio, no caso da Igreja Católica. 
Nos casamentos religiosos cada igreja escolhe a forma como quer realizar sua cerimônia. E ponto. Se desejar permitir que as mulheres só possam casar com cavalos e os homens com hienas, que assim seja! O problema é da igreja e dos que deliberadamente aceitaram se submeter às normas daquela instituição específica.
O casamento civil - que nada mais é do que a assinatura de um contrato - dos homossexuais, está fora do âmbito das igrejas - que já possuem problemas demais dentro dos casamentos religiosos entre heterossexuais - estes, "abençoados por Deus" - para se preocupar com o casamento civil dos homossexuais.
Cada um no seu cada qual.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Heróis de poder e magia - por Guangjian Huang (Coolvibe)

O Brasil e o cavalo selado - por Roberto Amaral (CartaCapital)

A enxurrada diária de dólares que ingressa no país, destinada quase toda ela a operações especulativas, é estimulada pela nossa política de juros altos que vem dos tempos cada vez mais longínquos da inflação alta, quando o Estado, para financiar seus gastos, era obrigado a se submeter aos ditames do capital financeiro. Ora, há cerca de duas décadas que a inflação está sob controle e o governo ainda hesita em completar a desindexação da economia, providência indispensável para que os juros caiam para patamar civilizado. Enquanto houver diferença significativa entre a taxa de juros internos e a de juros externos, o capital especulativo correrá para cá, a não ser que o governo estabeleça controles sobre o fluxo de capitais, como recomendado hoje até por economistas do Banco Mundial.

Mais ainda, da associação de juros altos à depreciação da moeda norte-americana decorrem algumas conseqüências graves, a começar pela invasão de importados, principalmente de manufaturados, e principalmente chineses. Isso que pode ser chamado de crise cambial está a refletir-se na produção industrial, atacada no mercado interno via concorrência dos importados e contundência dos juros altos, e prejudicada no acesso ao mercado externo, via desvalorização do dólar.

EUA, Europa e China, isto é, todas as grandes economias, desvalorizam artificialmente suas moedas para assim poderem exportar mais, e para exportar mais reduzem a capacidade de produção dos demais países numa concorrência desleal e predatória que compreende barreiras alfandegárias claras ou mascaradas e subsídios. Essa política vem de décadas, há duas pelo menos, e portanto antecede à crise financeira global (a história é velha: livre-cambismo como receita para as colônias, protecionismo como prática da metrópole), a qual, agora, é apenas pretexto para seu aprofundamento. Diante dessa política, a OMC (Organização Mundial do Comércio) nada faz, porque seu conceito de livre-comércio é seletivo. Depende dos interesses das grandes potências. Os emergentes e os mais pobres, de sua parte, ainda não encontraram alternativas de defesa, nem lançam mão, de forma concertada, de medidas clássicas, paliativas ou não, como a regulação dos fluxos de capitais, como o estabelecimento de cotas de importação, a taxação das importações e a desoneração das exportações (acompanhada de financiamento) ou mesmo o controle cambial, ou ainda uma política de Estado que leve o sistema financeiro privado a investir na atividade produtiva. Limitados, como é sabido, por contradições, os BRICs se vêem, até o momento, impossibilitados de agir como um coletivo.

Nosso real sobrevalorizado é consequência da desvalorização artificial do dólar, do euro e do yuan. É verdade. Mas essa não é a única explicação para a crise da indústria nacional, que não se encerra, tampouco, na alegada baixa produtividade nacional. É evidente que não se podem pôr de lado os efeitos dos já mencionados juros ainda estratosféricos, nem muito menos o peso da carga tributária, nem o alto custo da burocracia, nem as deficiências de infraestrutura e logística em geral (com destaque para os sistemas viário e portuário), nem muito menos o custo do capital para quem não tem acesso ao sistema BNDES, nem o custo da energia (cujos preços subiram na última semana para R$ 188 por megawatt-hora, o mais alto valor em 17 meses), nem a dependência de insumos e tecnologia, importados.

Tudo isso precisa ser levado em conta, mas há mais o que considerar, como os custos do financiamento da dívida pública, que em 2010, com juros e amortizações (incluindo refinanciamento), consumiu a bagatela de R$ 635 bilhões, nada menos que 45% dos recursos da União! Recursos os quais poderiam, em parte, estar sendo mobilizados para o ataque às nossas notórias deficiências nas áreas de serviços e infraestrutura. Muitos dos problemas nomeados no parágrafo anterior poderiam ser enfrentados. (grifo meu)

Sem descartar todas essas questões objetivas, é preciso pôr na mesa o que nos parece ser o núcleo de todos os problemas: a inexistência de uma política industrial que associe o papel indutor do Estado (com destaque para suas responsabilidades estratégicas) a um mínimo de protagonismo do empresariado nacional, pouco afeito ao pioneirismo e amante do rentismo.

O Brasil precisa livrar-se do modelo de industrialização (tardia) dependente implantado nos anos 50 do século passado, dependente do mercado fechado à concorrência, dependente de tecnologia (importando tecnologia vencida), dependente de capital estrangeiro, caro, e hoje dependente de exportações, para voltar-se para o mercado interno (que os governos de Lula-Dilma têm expandido e vão continuar expandindo), contribuindo efetivamente para o desenvolvimento (sustentável) do país e melhoria de qualidade de vida de nosso povo, gerando empregos e redistribuindo renda. Repitamos à exaustão: as potências se medem pelo tamanho de seus mercados internos e sua soberania está na ordem direta de sua capacidade de atender autonomamente às suas necessidades, capacidade medida pelo seu índice de desenvolvimento científico e tecnológico.

Jamais seremos o país com o qual sonham as atuais gerações enquanto dependermos da exportação de grãos, ou, amanhã, de petróleo bruto.

O papel do Estado será crucial, principalmente considerando as características de nosso empresariado, não raro infenso à inovação e resistente a investir em pesquisa tecnológica (pois prefere a dependência sem risco do pagamento de royalties). Para o que quer que seja, para qualquer melhoria, seja econômica, seja social, precisamos, coletivamente, sociedade, Estado, empresariado, enfrentar nosso verdadeiro calcanhar de Aquiles: um modelo de educação mais que deficiente e uma universidade, privada, descomprometida com a formação de profissionais qualificados.

Do ponto de vista ideológico, despertando as entidades de classe de sua letargia, presas às miudezas do dia-a-dia, e no silêncio da universidade, ao governo cumpre abrir e estimular e sustentar (sem medo das viúvas do neoliberalismo) uma discussão nacional sobre nosso projeto desenvolvimentista (que país queremos?) e, do ponto de vista de política industrial, optar por aquelas linhas de maior emprego de tecnologia avançada, garantidoras de nosso futuro, como a nanotecnologia, a biotecnologia e a fusão nuclear, a fonte energética do futuro próximo, necessária, limpa e barata. O país que fez a Embrapa, que construiu o BNDES e o CNPq, pode e deve comandar esse processo. Mas é operação para já.

Não queremos, é certo, ser o ‘país do futuro’, louvaminha que virou maldição. Mas seria igualmente trágico, agora que começamos a tomar gosto pelo jogo do crescimento, nos tornarmos “aquele que poderia ter sido e não foi”, como nos lembrava o sempre saudoso Darcy Ribeiro. Por isso, cumpre agir. Dizem os chineses, sempre eles, que na vida há três coisas sem volta: a flecha atirada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

por Marcela Bolívar (Inspiration Hut)

A mídia, o jornalismo brasiliense e o caso Cachoeira – por Luis Nassif .

Aparentemente rompeu-se o longo pacto político de 2005, dos grandes grupos de mídia.

Conforme adiantei na série "O caso de Veja", a revista escondeu-se no macartismo mais primário para montar suas jogadas. Cada loucura da revista, por mais inverossímil que fosse, era repercutida pelos demais jornais e pelo Jornal Nacional, porque havia um objetivo maior, de derrubar o governo. Esse pacto espúrio acabou conferindo à Veja um poder quase ilimitado.

E aí se entra no papel de personagens públicos. Na era do espetáculo, há personagens midiáticos, fabricados e que ganham visibilidade à custa de doses maciças de divulgação.

No período mais escabroso do jornalismo brasileiro, o pacto midiático tentou transformar figuras menores do jornalismo da Veja em personalidades com enorme visibilidade, exclusivamente para conferir-lhes maior poder de fogo no fuzilamento de reputações dos que ousassem denunciar os métodos criminosos da revista. Depois de usados, voltaram ao esgoto.

E como foi fácil esse aliciamento da mídia, valendo-se da transição no comando dos três principais grupos jornalísticos! De nada adiantaram alertas sobre a fria em que estavam entrando. O despreparo os fazia acreditar que se estava ingressando em uma nova fase do jornalismo, em que se aboliam totalmente as divisórias entre o fato e a ficção, ignorava-se a lei, os poderes constituídos, envolvia-se o Supremo nas suas manipulações, tentava se desacreditar a Polícia Federal, como se pairassem acima das instituições..

Agora, a ficha começa a cair. Apesar das enormes pressões sofridas, o Correio Braziliense rompeu o pacto de silêncio em torno de Demóstenes. O Globo, finalmente, começa a dar espaço para seus jornalistas entrarem no tema.

Vai ser uma oportunidade única de desvencilhar a imagem da mídia brasileira do esquema que foi montado por Roberto Civita, em parceria com o crime organizado.

Comentário

Pra mim, infelizmente, nada se rompeu: laços indissolúveis unem a imprensa marrom. Não adianta nutrir esperança para com esta turma – pra não dizer quadrilha (no caso da Veja, especialmente).

por Alexander Jansson

O que há a dizer – por Günter Grass

Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,

sobre o que é manifesto

e se utilizava em jogos de guerra

em que no fim, nós sobreviventes,

acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,

que poderá exterminar o povo iraniano,

conduzido ao júbilo

e organizado por um fanfarrão,

porque na sua jurisdição se suspeita

do fabrico de uma bomba atômica.

Mas por que me proibiram de falar

sobre esse outro país [Israel] onde há anos

- ainda que mantido em segredo –

se dispõe de um crescente potencial nuclear,

que não está sujeito a qualquer controlo,

já que é inacessível a qualquer inspeção?

O silêncio geral sobre esse fato,

a que se sujeitou o meu próprio silêncio,

sinto-o como uma gravosa mentira

e coação que ameaça castigar

quando não é respeitada:

“anti-semitismo” se chama a condenação.

Agora, contudo, porque o meu país,

acusado uma e outra vez, rotineiramente,

de crimes muito próprios,

sem quaisquer precedentes,

vai entregar a Israel outro submarino

cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras

para onde não ficou provada

a existência de uma única bomba,

se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.

Por que me calei até agora?

Porque acreditava que a minha origem,

marcada por um estigma inapagável,

me impedia de atribuir esse fato, como evidente,

ao país de Israel, ao qual estou unido

e quero continuar a estar.

Por que motivo só agora digo,

já velho e com a minha última tinta,

que Israel, potência nuclear, coloca em perigo

uma paz mundial já de si frágil?

Porque há que dizer

o que amanhã poderá ser demasiado tarde,

e porque – já suficientemente incriminados como alemães –

poderíamos ser cúmplices de um crime

que é previsível,

pelo que a nossa quota-parte de culpa

não poderia extinguir-se

com nenhuma das desculpas habituais.

Admito-o: não vou continuar a calar-me

porque estou farto

da hipocrisia do Ocidente;

é de esperar, além disso,

que muitos se libertem do silêncio,

exijam ao causante desse perigo visível

que renuncie ao uso da força

e insistam também para que os governos

de ambos os países permitam

o controlo permanente e sem entraves,

por parte de uma instância internacional,

do potencial nuclear israelita

e das instalações nucleares iranianas.

Só assim poderemos ajudar todos,

israelitas e palestinos,

mas também todos os seres humanos

que nessa região ocupada pela demência

vivem em conflito lado a lado,

odiando-se mutuamente,

e decididamente ajudar-nos também.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

por Sebastian Hue (Inspiration Hut)

A liberdade selecionada

É sintomática a covarde demissão de profissionais da Revista de História da Biblioteca Nacional (o jornalista Celso de Castro Barbosa e o editor-chefe da publicação, Luciano Figueiredo), porque publicaram uma resenha favorável ao livro A Privataria Tucana.

Bem, a “comoção” com a resenha favorável se principiou com a Folha de São Paulo, que – serrista até a alma – não aceitou que um veículo de comunicação, que jornalistas (ô coisa rara de se encontrar na Imprensa Marrom da qual ela faz parte) publicassem suas opiniões em uma revista – que não é pública.

A Folha não aceitou que publicassem a resenha do livro A Privataria Tucana, que demonstra irrefutavelmente os ganhos que os operadores da privatização obtiveram – especialmente o senhor José Serra e seus apaniguados. Só a Folha pode emitir suas opiniões sobre o que quer que seja. E, só as opiniões dela, só a ideologia reacionária dela, só o partido dela, só o candidato dela, podem ter voz. Os demais (o “resto” pra ela) deve ser exterminados, abolidos, censurados. Demitidos.

Depois, veio o PSDB a reboque da Imprensa Marrom (ou seria a Folha que respondia aos interesses do PSDB? Ah, tanto faz, imprensa marrom, PSDB, é tudo a mesma coisa, mesmo), tecendo críticas e, tentando desbragadamente censurar a publicação.

Qual o argumento? A revista recebe patrocínio da Petrobrás. De fato, é duvidar demasiado da inteligência alheia para utilizar um argumento estapafúrdio destes. A Petrobrás é a maior patrocinadora de eventos do Brasil, investe (desnecessariamente em minha opinião) centenas de milhões de reais anualmente em publicidade. A própria Folha é uma das grandes receptoras destes investimentos – todos os grandes veículos de comunicação o são. Mas para o PSDB, um veículo de comunicação só pode receber publicidade da Petrobrás se for para criticar o PT e falar bem dele. É um argumento tão limpo como o Tietê dos tucanos. Agora, o PSDB não reclama da Folha, da Veja e do Estadão, que possuem milhares de assinaturas feitas pelo governo do estado de São Paulo para tecer loas às suas risíveis administrações.


A dupla “dinâmica” Imprensa Marrom & PSDB, dando grandes mostras do seu apreço pela democracia e pela liberdade de expressão, conseguiram – através de sua influência – a demissão dos profissionais.
É impressionante que façam isto enquanto, simultaneamente, se jactam de serem defensores destas mesmas democracia e liberdade de expressão que ajudam a mutilar.

A verdade, é que o PSDB e a Imprensa Marrom defendem a democracia sem povo, como diria Mino carta. Ou, mais especificamente, defendem que a sua voz reacionária não seja calada, que os seus candidatos conservadores possam ser eleitos. E só. A democracia, a pluralidade, por si sós, não lhes interessam de nenhuma maneira.

Se caso a direita não consiga influenciar suficientemente as eleições e os outros veículos de comunicação para que suas verdades possam ser proferidas, eles rapidamente abandonam a defesa destes pseudo-valores democráticos (pseudo pra eles, claro) e vão – como já o fizeram – se bandear para o lado de uma ditadura qualquer que implemente sua ideologia nefasta. Quiçá dando um golpe militar, quiçá demitindo jornalistas.
Uma lástima.

***

Para resumir o caso do Carlinhos Cachoeira: é simplesmente uma briga pelo controle do Estado.

A ronda da noite - Rembrandt

Roger Waters defende a causa palestina e sofre ameaça – por Baby Siqueira Abrão (Brasil de Fato)

Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro entra com ação para calar um dos fundadores do Pink Floyd, por críticas a Israel em entrevista realizada no Brasil

Correspondente no Oriente Médio

A passagem pelo Brasil de Roger Waters, um dos fundadores do extinto grupo de rock progressivo Pink Floyd, enfureceu os sionistas.

Ativista da causa palestina desde 2006, quando decidiu conhecer a Cisjordânia depois de um show em Tel Aviv, Waters, em entrevista coletiva realizada no Rio de Janeiro, defendeu os palestinos, criticou o governo israelense e declarou apoio à campanha BDS, que boicota produtos fabricados em Israel. Também divulgou o Fórum Social Palestina Livre, encontro internacional a ser realizado em Porto Alegre de 28 de novembro a 1º. de dezembro de 2012.

As declarações desagradaram a Federação Israelita do Rio de Janeiro (FIERJ). Segundo nota publicada na coluna de Alcelmo Gois, em O Globo, o advogado da FIERJ, Ricardo Brajterman, tentou impedir na Justiça que Roger Walters voltasse a fazer “declarações antissionistas” no show realizado no Engenhão em 29 de março.

Acostumados à submissão europeia e estadunidense, os sionistas não esperavam a reação dos brasileiros, de afirmação da liberdade de expressão e de rejeição a todas as tentativas de calar as pessoas, em especial as que fazem críticas a Israel pela violação dos direitos humanos dos palestinos.

Várias organizações, como o Comitê de Solidariedade e Apoio ao Povo Palestino do Rio de Janeiro, a Frente em Defesa do Povo Palestino e a Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) divulgaram notas públicas de apoio às declarações de Roger e de repúdio à atitude da FIERJ.

“Israel ocupa territórios palestinos em desacordo com todas as leis internacionais, ergueu o muro do apartheid e da colonização, que foi declarado ilegal pelo Tribunal Internacional [de Justiça]. Constrói assentamentos na Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel, em desacordo com todas as resoluções internacionais. Cerca e bombardeia a Faixa de Gaza, onde 1,5 milhão de palestinos estão sujeitos a sobreviver abaixo das mínimas condições de alimentação, educação e saúde. Israel não respeita e não cumpre as resoluções da ONU e do direito internacional, em total isolamento com a [sic] comunidade internacional. O governo de Israel faz tudo isso em nome do sionismo e quer impedir as pessoas de criticar essas ilegalidades e ações desumanas e opressoras?”, escreveram os ativistas da Fepal.

“Os que querem calar Roger precisam ser informados de que o Brasil é um país democrático, o Brasil não ocupa e não oprime nenhum povo, o Brasil é um país onde convivem, pacificamente e com respeito, judeus, árabes, cristãos e muçulmanos, todos com os mesmos direitos e deveres estabelecidos na constituição da Republica Federativa do Brasil.”

“Repudiamos toda tentativa de intimidação e censura à liberdade de expressão por parte dessa [FIERJ] ou de qualquer outra organização. Tal atitude – inconstitucional, nos moldes da ditadura militar que vigorou no Brasil dos anos 1960 aos anos 1980 –, não tem mais espaço no Brasil”, afirmaram o Comitê de Solidariedade e Apoio ao Povo Palestino e a Frente em Defesa do Povo Palestino, citando, em seguida, artigos da Constituição brasileira e da Declaração de Direitos Humanos.

“[...] são ilegítimas e só podem ser encaradas como censura e perseguição as ameaças da Fierj ao cantor e ativista. Uma postura tão conhecida quanto inaceitável, de tentar criminalizar os movimentos sociais e as pessoas de consciência que se levantam contra a opressão ao povo palestino e contra a ocupação de suas terras. Repudiamos veementemente a atitude e as ameaças da FIERJ e reafirmamos nosso apoio a Roger Waters, à liberdade de expressão e aos valores democráticos. Aproveitamos para agradecer Roger Walters por não silenciar diante da injustiça e por emprestar sua imagem e sua voz para essa nobre causa da humanidade.”

Reclamações também foram feitas ao Ministério Público, que pode abrir processo contra a FIERJ.

Se o exemplo brasileiro fosse seguido em outras partes do mundo, os ativistas de direitos humanos e os críticos dos sionistas não sofreriam tanta perseguição nem tantos processos por exercer o sagrado direito de manifestar livremente o que pensam. Hoje, militantes da causa palestina estão sendo processados na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.

Leia a carta que Roger Waters divulgou no Brasil:

Desde minha visita a Israel e aos territórios ocupados, em 2006, eu faço parte de um movimento internacional para apoiar o povo palestino em sua luta por liberdade, justiça e igualdade.

Sinto-me honrado por ter sido convidado pelo Comitê Nacional Palestino BDS para anunciar a iniciativa da realização do Fórum Social Mundial Palestina Livre em Porto Alegre, Brasil, em novembro deste ano, em cooperação com o movimento social brasileiro e redes internacionais da sociedade civil.

O objetivo será a criação de um encontro internacional que irá incentivar o instinto humano básico em todos os homens e mulheres de boa fé para se unirem em apoio ao povo palestino em sua luta por autodeterminação.

Em todo o mundo, nosso movimento está crescendo.

Incentivado por eventos como o que acontecerá aqui no Brasil, a nossa voz vai crescer.

Continuaremos o nosso apelo pelo fim da ocupação israelense de terras palestinas, pela derrubada dos muros de colonização e de apartheid, pela criação de um Estado palestino com sua capital em Jerusalém, pela concessão de direitos plenos e iguais aos cidadãos árabe-palestinos de Israel e pelo direito dos refugiados palestinos de voltar para suas casas, conforme exigido pela Convenção de Genebra, como estipulado na resolução 194 da ONU de 1949 e também reafirmado pelo Tribunal Internacional de Justiça em 9 de julho de 2004.


Estou muito encorajado pelo crescimento desse movimento em Israel, especialmente entre os jovens judeus israelenses, e também pelo não menos importante "Boicote de Dentro", com quem estou em contato.


Nós estamos com vocês.


Eventos em Israel e nos territórios ocupados não são amplamente relatados nem com precisão no Ocidente. Em novembro próximo, o Fórum Social Mundial Palestina Livre, em Porto Alegre, vai ajudar a quebrar os muros de desinformação e cumplicidade.


Conclamo as pessoas de consciência para que apoiem este fórum e ajudem a torná-lo um divisor de águas na solidariedade internacional ao povo palestino.


A verdade nos libertará.


Em solidariedade,


Roger Waters.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sonho sombrio - por Anton Semenov (Coolvibe)

O caso Demóstenes Torres e as raposas no galinheiro – por Maria Inês Nassif (Carta Maior)

O rumoroso caso Demóstenes Torres (DEM-GO) não é apenas mais um caso de corrupção denunciado pelo Ministério Público. É uma chance única de reavaliar o que foi a política brasileira na última década, e de como ela – venal, hipócrita e manipuladora – foi viabilizada por um estilo de cobertura política irresponsável, manipuladora e, em alguns casos, venal. E hipócrita também.

Teoricamente, todos os jornais e jornalistas sabiam quem foram os arautos da moralidade por eles eleitos nos últimos anos: representantes da política tradicional, que fizeram suas carreiras políticas à base de dominação da política local, que ocuparam cargos de governos passados sem nenhuma honra, que construíram seus impérios políticos e suas riquezas pessoais com favores de Estado, que estabeleceram relações profícuas e férteis com setores do empresariado com interesses diretos em assuntos de governo.

Foram políticos com esse perfil os escolhidos pelos meios de comunicação para vigiar a lisura de governos. Botaram raposas no galinheiro.

Nesse período, algumas denúncias eram verdadeiras, outras, não. Mas os mecanismos de produção de sensos comuns foram acionados independentemente da realidade dos fatos. Demóstenes Torres, o amigo íntimo do bicheiro, tornou-se autoridade máxima em assuntos éticos. Produziu os escândalos que quis, divulgou-os com estardalhaço. Sem ir muito longe, basta lembrar a “denúncia” de grampo supostamente feita pelo Poder Executivo no gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, então presidente da mais alta Corte do país. Era inverossímil: jamais alguém ouviu a escuta supostamente feita de uma conversa telefônica entre Demóstenes, o amigo do bicheiro, e Mendes, o amigo de Demóstenes.

Os meios de comunicação receberam a suposta transcrição de um grampo, onde Demóstenes elogia o amigo Mendes, e Mendes elogia o amigo Demóstenes, e ambos se auto-elegem os guardiões da moralidade contra um governo ditatorial e corrupto. Contando a história depois de tanto tempo, e depois de tantos escândalos Demóstenes correndo por baixo da ponte, parece piada. Mas os meios de comunicação engoliram a estória sem precisar de água. O show midiático produzido em torno do episódio transformou uma ridícula encenação em verdade.

A estratégia do show midiático é conhecida desde os primórdios da imprensa. Joga-se uma notícia de forma sensacionalista (já dizia isso Antonio Gramsci, no início do século passado, atribuindo essa prática a uma “ imprensa marrom”), que é alimentada durante o período seguinte com novos pequenos fatos que não dizem nada, mas tornam-se um show à parte; são escolhidos personagens e conferido a ele credibilidade de oráculos, e cada frase de um deles é apresentada como prova da venalidade alheia. No final de uma explosão de pânico como essa, o consumo de uma tapioca torna-se crime contra o Estado, e é colocado no mesmo nível do que uma licitação fraudulenta. A mentira torna-se verdade pela repetição. E a verdade é o segredo que Demóstenes – aquele que decide, com seus amigos, quem vai ser o alvo da vez – não revela.

Convenha-se que, nos últimos anos, no mínimo ficou confusa a medida de gravidade dos fatos; no outro limite, tornou-se duvidosa a veracidade das denúncias. A participação da mídia na construção e destruição de reputações foi imensa. Demóstenes não seria Demóstenes se não tivesse tanto espaço para divulgação de suas armações. Os jornais, tevês e revistas não teriam construído um Demóstenes se não tivessem caído em todas as armadilhas construídas por ele para destruir inimigos, favorecer amigos ou chantagear governos. Os interesses econômicos e ideológicos da mídia construíram relações de cumplicidade onde a última coisa que contou foi a verdade. (grifo meu)

Ao final dos fatos, constata-se que, ao longo de um mandato de oito anos, mais um ano do segundo mandato, uma sólida relação entre Demóstenes e a mídia que, com ou sem consciência dos profissionais de imprensa, conseguiu curvar um país inteiro aos interesses de uma quadrilha sediada em Goiás.

Interesses da máfia dos jogos transitaram por esse esquema de poder. E os interesses abarcavam os mais variados negócios que se possa fazer com governos, parlamentos e Justiça: aprovação de leis, regras de licitação, empregos públicos, acompanhamento de ações no Judiciário. Por conta de um interesse político da grande mídia, o Brasil tornou-se refém de Demóstenes, do bicheiro e dos amigos de ambos no poder.

Não foi a mídia que desmascarou Demóstenes: a investigação sobre ele acontece há um bom tempo no âmbito da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Nesse meio tempo, os meios de comunicação foram reféns de um desconhecido personagem de Goiás, que se tornou em pouco tempo o porta-voz da moralidade. A criatura depõe contra seus criadores.

Comentário – por Luzete (blog do Nassif)

Maria Inês, parabéns.

Você, conclui definitivamente, ao constatar "Demóstenes não seria Demóstenes se não tivesse tanto espaço para divulgação de suas armações."

Exatamente! Demóstenes, por princípio, jamais poderia se apresentar como paradigma de qualquer projeto ético para o país. Digo isto, porque o partido que o acolhia era a UDN (ops, ARENA! DEM, tudo a mesma coisa! alguns deles se bandearam para outras siglas, mas a essência é a mesma) e este partido, jamais, jamais, pode ou poderia ser exemplo de nada, senão do atraso nacional, do preconceito, das coisas urdidas em surdina, na caserna, dos conluios que explicam fortunas pessoais inimagináveis. Berço da corrupção, mal tão difícil de ser superado, porque, parece, criou raízes que se estendem para todos os ramos da vida política e civil do país, incluindo o judiciário e, sobretudo, a imprensa.

Esta imprensa, tal como você sugere, é justamente, aquela que legitimava as verdades desta turma. Era ela que funcionava como caixa de ressonância dos desejos de uma quadrilha que, durante décadas, assaltou o país. É ela que está doente. É ela que está em crise, porque não pode mais impor as verdades que lhe interessam e que, no balanço que se faz da história, pode ser responsabilizada por muito do atraso cultural e moral que ainda invade certos setores da vida nacional.

Os tempos mudaram. Estão mudando. Sou otimista.

Comentário

Eu, nem tanto. Por pouco, a associação em 2005 de alguns destes que agora estão vendo “a casa cair” (excetuando Policarpo Jr., que não sofre as consequências óbvias de sua ação, pois o corporativismo da imprensa marrom não permite que uma saudável depuração ocorra em seu meio) não derruba o presidente Lula. Há tanto o que progredir que às vezes até desanima.

Lobo ibérico - por José Luis Rodríguez

Heróis de um Brasil perdido - por Mino Carta (CartaCapital)

Quando cheguei ao Brasil, agosto de 1946, a revista semanal chamava-se O Cruzeiro, da frota dos Diários Associados do almirante Chatô. Tratava-se de uma publicação provinciana na forma e no conteúdo, mas algumas de suas páginas nada tinham de provinciano. Aquelas ilustradas por uma equipe de excelentes fotógrafos, entre os quais se destacava Jean Manzon. Outra, sorrateiramente ocupada pelo Amigo da Onça, a maligna criatura do humorista Péricles. E as duas entregues ao “Pif-Paf” de Millôr Fernandes encantariam Saul Steinberg, honrariam a melhor New Yorker.

Encantaram também a família Carta, que se passou à disputa acirrada do exemplar do Cruzeiro, da sala aos aposentos. Mas quem era este Millôr? Descobrimos um jovem de 23 anos, capaz de um humor que não desdenhava desatar o riso, embora, com naturalidade, fizesse pensar. De resto “livre pensar é só pensar”. Não é mesmo?

Dez anos depois fui para a Itália e lá fiquei por mais de três. De regresso a São Paulo no começo da década de 60, capturou-me no vídeo um comediante de 30 anos chamado Chico Anysio, capaz de encarnar dezenas de personagens que faziam rir sem deixar de convocar a inteligência dos espectadores. Millôr e Chico, talentos extremos, morreram nos últimos dias, depois de vidas bem vividas a bem da graça e da leveza, na sua função de elevar o espírito, sem descurar da consistência e da densidade. Ambos produziram muito e sem tropeços, aprumados e certeiros.

Conheci os dois, com Chico estive ralas vezes, de Millôr fui bom amigo e com ele cheguei a trabalhar. Não é disso, porém, que pretendo falar agora, e sim de como as duas figuras são representativas de um Brasil perdido. Entre o imediato pós-guerra e o golpe de 1964. O Brasil do futuro que nunca chegou.

Estranho o destino dos tempos. O futuro de então queria ser moderno sem manias de grandeza, desenvolvido na medida justa, contemporâneo culturalmente, equilibrado socialmente, habilitado a explorar em seu proveito os humores populares ampliando-lhes os alcances e a dar guarida digna aos seus talentos. Independente porque livre de qualquer gênero de colonização.

Hoje há quem enxergue novamente o Brasil como país do futuro, este, porém, não é aquele. Sonha-se é com a potência pela força da economia, a despeito das abissais disparidades internas ou da condição de exportador de commodities, sem falar das lacunas culturais. Há 60 anos o papel entregue à generosidade da natureza era bem diferente em relação ao atual. Cogitava-se explorá-la, a natureza, no quadro de um projeto muito amplo. Era o tempo da campanha do “petróleo é nosso”, com todas suas implicações. Nestes dias atuais a natureza é protagonista absoluta enquanto o neoliberalismo, resistente impávido, gera felizes fabricantes de dinheiro. Sobra a convicção de que o Brasil progride por conta própria à revelia dos homens.

Até o tempo conjugado no futuro está exposto a mudanças brutais. Tínhamos Chico Anysio, temos o Big Brother. Tínhamos Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Erico Verissimo, Jorge Amado, temos Paulo Coelho. Sim, a saudade daquele menino chegado aos 12 há 66 anos proporciona certas decepcionantes constatações. Tudo quanto a realidade do Brasil da minha adolescência e de minha juventude prometia foi miseravelmente descumprido.

Penso em um país cuja arquitetura era referência mundial e hoje se inspira em Gotham City, a cidade de Batman e Robin. Às vezes, parece-me surpreendê-los a sobrevoar em São Paulo a área da Avenida Berrini. Os pensadores agora atendem pelo sobrenome de Magnoli ou Mainardi, e já foram Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Hollanda. Ao sair do curso noturno da Faculdade do Largo de São Francisco comprava a Última Hora e no bonde, de volta para casa, lia Nelson Rodrigues, com sua A Vida como Ela É, como anos após leria Stanislaw Ponte Preta a falar do Febeapá, o festival de besteiras que assola o país. Motorneiro, cobrador e os escassos passageiros surpreendiam-se com minhas gargalhadas.

Estava alegre e tinha razões para tanto. A marchinha de carnaval recomendava tirar o anel de doutor na hora da folia, “para não dar o que falar” ao passo que o samba via a lua “furando o nosso zinco”, a salpicar “de estrelas nosso chão”. E tu? “Tu pisavas os astros, distraída.”

Já não se fazem a alegria e a melancolia de antigamente, diria Millôr. A energia criativa, a santa ironia. À espera, então, de um futuro feliz para todos.

Comentário

De fato, se avaliarmos que tivemos Gilberto Freire, Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Hollanda, enquanto agora temos Magnoli ou Mainardi... Dá vontade de dar um tiro na cabeça.

Mas antes de puxar o gatilho é bom pensar que Magnoli ou Mainardi não atingiram a fama devido ao seu talento, muito ao contrário: só possuem amplo espaço porque falam aquilo que seus patrões querem ouvir. Não são pensadores. São uma espécie de liquidificadores da América do Sul, misturando o que o departamento de Estado dos EUA quer que nós pensemos, com alguns ingredientes golpistas brasileiros extremamente antiquados, bem temperados com um reacionarismo sectário por todos nós conhecido.

Não alçaram fama, reitero, por talento – tanto é verdade, que gastam muito mais tempo caluniando seus adversários ideológicos do que defendendo suas porcas idéias.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Fotografia - por Maxim Mjödov (Inspiration Hut)

Manobras militares – por Ivan Lessa (BBC Brasil)

O sargento americano Robert Bates matou na mesma noite, em dois vilarejos afegãos diferentes, 17 pessoas, segundo alguns relatos das autoridades miltares de seu país, ou 16, segundo outras. Entre elas, 9 crianças e 3 mulheres que dormiam.

A discrepância no número de mortos é explicada, de acordo com alguns relatos, por uma das mulheres afegãs estar grávida e, com ela, ir-se também o feto que trazia no ventre.

Com eles, 5 civis e ainda sobraram muitos feridos.

Robert Bates foi imediatamente preso, indiciado, acusado de assassinato e remetido para seu país de origem, onde, segundo uma tradição, a justiça é cega e puxa de um dos pés.

O Exército prontamente decidiu em quanto deveriam ser indenizadas suas vítimas. Com o dinheiro do contribuinte, houveram por bem que a famíla de cada criança ou mulher morta levaria a quantia de US$ 43 mil, uns R$ 78 mil, e os feridos por volta de R$ 21 mil reais.

Sabe-se agora o preço de uma vida afegã. A dos americanos deve ser com a Goldman Sachs.

O sargento já servira por 4 vezes em terras do Afeganistão. Estaria acostumado à barra. Mas não. Numa certa noite da semana que passou, sóbrio, diagnosticou-se (por leigos e companheiros, frisemos) que "deu uma coisa" nele e, vestido para matar, saiu distribuindo seus letais presentinhos.

O soldado americano é o mais bem equipado e também o pior soldado do mundo.

O julgamento do militar será acompanhado à devida distância, conforme é sempre o caso nos Estados Unidos.

Duas coisas nessa história me chamaram a atenção. Primeiro, a maior parte da imprensa americana prefere enfatizar que ele assassinou 16 (17) pessoas, não particularizando que 9 delas eram crianças dormindo e 3 outras mulheres, também entegues aos braços de al-Morfeu.

A outra coisa é o fato de que nunca ouvi falar dos inimigos da maior nação do mundo (vietnamitas, norte-coreanos, panamenhos, talibãs e por aí afora) sofrerem do que foi chamado de "psicose de guerra" e, hoje, leva mais acrônimo do que bala ou granada explodindo no meio da multidão de estrangeiros sempre hostis.

O preço da liberdade é esse e quem paga é aquele que está em dia com seus impostos. O sargento Bates, tudo indica, quando de seu julgamento, deverá pegar a pena máxima para casos como o dele, é meu palpite. Os severos juízes, também militares, deverão dar-lhe uma pena de pelo menos 6 meses de “aconselhamento psicológico” acompanhados de 200 horas de “serviços comunitários”.

No Rio, paraquedistas da reserva comemoraram a “revolução” se 1964 saltando de aviões, em homenagem à redentora data, envoltos no engenho que lhes dá o nome.

Alguns populares, consta, ficaram na orla marítima admirando ou admirando-se do fato. Consta que um ou outro tenha aplaudido.

Desconhece-se quem pagou pelo aluguel do avião, se alugado foi, pelo combustível ou pelos paraquedas utilizados.

Em uma nota, alguém especulou que os festejos, primeiro aéreos e depois terráqueos, foram debitados às suas pensões.

Os paraquedistas ex-revolucionários, limitaram-se, felizmente, a só se atirarem dos aparelhos voadores, poupando assim, ao contrário dos anos 60 e 70, o voo sem nenhum auxílio mecânico de qualquer civil, subversivo ou não. Ninguém, desta feita, foi sacrificado em nome da nobre data.

Para não ficarem atrás, e também no último dia de março, coronéis da reserva, cujas aposentadorias são mais gordas do que as dos paraquedistas, contrataram um avião de propaganda, e fizeram cruzar o céu de anil do Rio primaveril com uma longa cauda amarela ostentando os seguintes dizeres, “Parabéns Brasil – 31/março/64”, seguidos de uma bandeira brasileira.

36 pessoas se queixaram de ter sido usada a palavra “revolução” e não "ditadura militar". 23 ponderaram que a grafia correta da palavra é “revolussão”.

Há sempre inocentes e desavisados olhando para o alto quando o mais interessante sempre se passa ao lado.

Ao menos não foi cometido nenhum erro grosseiro de português nem empregadas, nestes dias de liberdade de imprensa e tanta coisa mais, expressões ora proibidas pelo Dicionário Houaiss eletrônico.

E se tivesse dado na telha da milicalha de apodar o nobre golpe de “Operação Cigano Negro”? Como é que iria ser? Não teria existido nem mesmo como termo de baixo calão. Se do jeito que foi, e como está, mal é lembrada pelo cidadão comum, teria ido parar, com toda certeza, na vala comum do esquecimento em que nos acostumamos a viver.

Nova Era - por Yvan Feusi (Coolvibe)

O maior desafio da imprensa – por Luis Nassif (Blog do Nassif) & outros mais

Nos próximos meses, a liberdade de imprensa no Brasil enfrentará um dos maiores desafios da sua história: demonstrar capacidade de se abstrair do corporativismo e proceder a uma análise corajosa e isenta sobre fatos que começarão a jorrar nos próximos dias.

Trata-se da ligação da revista Veja com o crime organizado. Mais especificamente com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seu oficial maior, senador Demóstenes Torres.
Cachoeira elegeu Demóstenes. A revista transformou-o em um político influente, graças à apologia que fazia dele. Juntos, as três pontas produziam escândalos, em um esquema articulado.

Cachoeira armava escândalos, muitos dos quais contra adversários criminosos. A revista repercutia. Graças a essa repercussão, os adversários eram alijados dos esquemas, permitindo a Cachoeira tomar conta do pedaço.

Grande parte dos escândalos eram avalizados por Demóstenes Torres - como o caso Francisco Escórcio, figura folclórica do Senado, acusado pela revista de tentar espionar Demóstenes e o governador goiano Marconi Perillo. A denúncia foi fundamental para o afastamento do presidente do Senado, Renan Calheiros. Depois, comprovou-se que tinha sido fruto de uma mentira orquestrada entre Demóstenes e a revista (http://migre.me/8tWID). Jamais saiu o desmentido.

Até que a Polícia Federal entrasse na parada, todos ganharam.

A revista vendia mais e se tornava mais e mais temida. Cachoeira expulsava inimigos do seu território. Demóstenes se valia do poder conferido pela revista para atuar em favor dos interesses de Cachoeira na administração pública e dos interesses da revista na geração de escândalos.

Escrevi sobre esse tema em 2008, na série "O caso de Veja". Trata-se do capítulo "O repórter e o araponga" (http://migre.me/8tWrc).

Nele conto como Cachoeira, em parceria com a revista, montou o escândalo da propina dos Correios - um grampo mostrando um funcionário recebendo R$ 3 mil de propina. De posse do grampo, a revista monta o escândalo. Como consequência, cai dos Correios o esquema liderado pelo deputado Roberto Jefferson, e assume o esquema do próprio Carlinhos Cachoeira.

Dois anos depois, a Polícia Federal liquidou com o novo esquema, mas a revista poupou seu parceiro.

Agora, a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, chega ao âmago do poder de Cachoeira, e flagra 200 ligações entre ele e o diretor da revista em Brasília.
Há advogados que se valem da prerrogativa da profissão para atividades criminosas. O mesmo pode ocorrer com setores da mídia.

O grande desafio da mídia será mostrar sua capacidade de autocorreção.

Na Inglaterra, o caso News Corp trouxe lições preciosas. Um veículo ligado ao magnata Rupert Murdoch aliou-se a setores da polícia e afrontou direitos individuais de dezenas de pessoas. Foi denunciado por outro jornal, o The Guardian. As investigações levaram a punições severas aos envolvidos na trama, mas resguardou o valor maior da liberdade de imprensa – justamente porque foi a própria imprensa soube se autopoliciar. Aqui, a Veja se aliou ao crime organizado.

Vamos ver como se comportará a nossa, quando novos detalhes dessa parceria Cachoeira-Veja vierem à tona.

As matérias que Cachoeira plantou na Veja - por Luis Nassif

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/as-materias-que-cachoeira-plantou-na-veja#more

Cachoeira filmou corrupção nos Correios para vingar Demóstenes - por Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada)

http://www.viomundo.com.br/denuncias/cachoeira-filmou-corrupcao-nos-correios-para-vingar-demostenes.html

Cisnes Refletindo Elefantes - por Salvador Dalí

Crise Política e Eleição - por Marcos Coimbra (Correio Braziliense)

Nosso presidencialismo está sujeito, por natureza, a crises como a que o governo enfrenta. E não é de hoje.
Elas aconteceram ao longo da República de 1945 inteira e só foram interrompidas pela ditadura. Depois da redemocratização, tornaram-se constantes.

A origem de todas é a mesma: a fragmentação de nosso quadro partidário, dividido entre muitos partidos, a grande maioria dos quais não-programáticos. Em outras palavras, disperso e desorganizado do ponto de vista ideológico.

O sistema político brasileiro sempre se caracterizou por um multipartidarismo sem hegemonia, no qual nunca nenhum conseguiu tamanho suficiente para governar sozinho. Sequer para liderar uma coalizão sem depender de outros no dia a dia do relacionamento entre Executivo e Legislativo.

No Brasil, o normal sempre foi haver quatro ou cinco partidos maiores, outros tantos de porte médio e alguns pequenos. Em 1964, havia 13. Hoje, são 29. Quantos têm, de fato, conteúdo e ideias?

De 1985 para cá, não houve um governo que não vivesse as dificuldades decorrentes da proliferação de partidos sem estrutura e ideologia. Conseguir contar com a maioria do Congresso foi um desafio para Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula, assim como está sendo para Dilma.

Em todos, a história se repetiu. Depois de um começo sem sobressaltos, em que suas maiorias funcionavam - seja por terem recém saído de vitórias eleitorais, seja por haverem assumido em ambiente de tensão institucional -, passaram a enfrentar turbulências.

A cada novo problema, seus operadores políticos precisavam ter mais argumentos para formá-las e mantê-las. Se a popularidade baixasse, o preço subia. Se o tema em pauta fosse delicado, idem.

Hoje, no cálculo de seus principais estrategistas, o governo não conta, de verdade, com mais de 150 deputados. E as oposições sabem que os seus mal chegam a 100.

Trocando em miúdos: governismo e oposicionismo – em sentido programático e ideológico – representam, somados, apenas a metade da Câmara. A segunda metade, a rigor, nem é uma coisa, nem outra. Pode tanto estar aqui, como lá.

Tende a ser, por conveniência, governista, enquanto isso significa algum ganho. Quando as torneiras se fecham, amotina-se. Com números um pouco diferentes, algo parecido ocorre no Senado.
Como sair de uma situação como essa?

Para o PT - que está e pretende continuar no poder depois de 2014 -, só há um caminho: crescer, de sorte que sua dependência de coalizões governativas instáveis se reduza em um próximo governo. Daqui a dois anos, a meta do partido seria, portanto, reconquistar a presidência e, ao mesmo tempo, ampliar as bancadas na Câmara e no Senado.

O alcance desse objetivo passa, pelo menos em parte, pelas eleições municipais deste ano. Conquistar prefeituras, especialmente em cidades médias, ajuda a atingi-lo.

Alguns de seus parceiros veem isso com clareza. E não com bons olhos. Particularmente o PMDB, o que mais prefeituras possui.

O primeiro sinal da crise de agora foi um manifesto de cerca de 50 deputados do baixo clero peemedebista – logo encampado por algumas de suas principais lideranças. Entre outras queixas, dizia: “Estamos vivendo uma encruzilhada, onde o PT se prepara, com ampla estrutura governamental, para tirar do PMDB o protagonismo municipalista e assumir seu lugar como maior partido com base municipal do país”.

É fato. Mas o que está em jogo não é o “protagonismo municipalista”, e sim o peso relativo dos partidos no Congresso a ser eleito em 2014.

Ao PT, é o que resta fazer. E é que o PSDB faria, se estivesse em seu lugar.

Comentário

Quando os senadores do PR declaram-se como de oposição ao governo por não possuírem mais o ministério dos transportes, creio que mais pessoas deveriam se questionar e se indignar. 


Se questionar sobre quais são as reais necessidades deste partido possuir este ministério. Pra que o querem, mesmo?A resposta é muito suja (pra quem quer enxergar, claro).

E se indignar pela leviandade, pela cara de pau quando estes mesmos senadores admitem explicitamente o porquê de estarem indo para a oposição. Devido ao conteúdo programático do partido incoerente com o do governo? Por não poderem aplicar o choque de gestão que gostariam? Pela eficiência que levariam a pasta dos transportes (no caso, prosseguiriam dando)? Nada disto, cara pálida. A resposta do porquê de desejarem, ansiarem, necessitarem, deste ministério, como já disse, todos nós já sabemos. E ao exporem de maneira tão clara a chantagem a que se prestam, muitas pessoas mais deveriam se indignar. 


Mesmo a imprensa, tão seletiva em suas denúncias, deveria aplaudir quando o governo resiste – fato raro – aos larápios do erário. Mas fica tudo por isto mesmo, grande parte da velha mídia quase aplaudindo o “erro político” do governo.

De fato, a política nacional é uma verdadeira lástima.

domingo, 1 de abril de 2012

Ansel Adams, Corbis - Snake River in the Teton Range, 1942

A boa consciência faz a esquerda dormir - por Por Jean Bricmont* (Le Monde Diplomatique Brasil)


Reduzidos a uma luta entre o bem e o mal, longe de qualquer referência à história e à sociedade, os conflitos das últimas décadas desembocaram na estigmatização do antigo terceiro mundo e na instrumentalização dos direitos humanos. Tudo isso em nome de uma ideologia fundada sobre falsas simetrias

A queda do comunismo provocou um grande número de efeitos colaterais, em particular na maneira de pensar da esquerda. Enquanto existia, o comunismo forçava tanto seus partidários quanto seus adversários a refletir politicamente, quer dizer, a propor programas a curto e longo prazo, a fixar prioridades e a avaliar as correlações de força.

A filosofia moral subjacente, “científica” ou “materialista”, consistia em inserir as tragédias e os crimes, grandes ou pequenos, na cadeia de causas e consequências, e em pensar que a condição humana só podia ser melhorada por mudanças nas estruturas socioeconômicas. Além de estar presente nos comunistas, essa maneira de pensar se encontrava também nos social-democratas, quando eles realmente o eram, assim como na maior parte dos movimentos anticolonialistas. Toda a elaboração do direito internacional e a maioria dos esforços na busca pela paz eram ligadas a essa filosofia.


....A atitude oposta, que poderíamos chamar de religiosa e que era muito forte tanto nos “novos filósofos” quanto no discurso do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush, consistia em ver o mal e o bem como existindo “em si”, quer dizer, independentemente das circunstâncias históricas dadas. Os “malvados” – Adolf Hitler, Joseph Stalin, Osama bin Laden, Slobodan Milosevic, Saddam Hussein etc. – são demônios que saem de uma caixa, consequências sem causa. Para combater o mal, há uma única solução: mobilizar o bem, armá-lo, tirá-lo de sua letargia e lançá-lo ao ataque. É a filosofia da boa consciência perpétua e da guerra sem fim. A reação aos atentados de 11 de setembro de 2001 e às suas continuações ilustra a diferença entre as duas filosofias. Aqueles que, minoritários no Ocidente, procuravam entender “por que eles nos odeiam” foram considerados apóstatas por aqueles que “entendiam” a reação norte-americana (dois países invadidos, um conflito interminável, dezenas, talvez centenas, de milhares de mortos). Estes últimos são frequentemente os mesmos que “entendem” a reação israelense quando três de seus soldados são capturados. Mas seria preciso então “entender” da mesma forma a vontade dos soviéticos, desde 1945, de fazer do Leste Europeu uma zona tampão depois dos milhões de mortos em consequência da Segunda Guerra Mundial. “Entender” também a reação chinesa de isolamento, na época maoísta, resultado das Guerras do Ópio, das múltiplas humilhações da China pelas potências ocidentais e da invasão japonesa. E “entender”, enfim, a reação do mundo árabe à traição franco-britânica na época do fim do Império Turco em 1918, da criação de Israel em 1948 e do apoio ocidental constante a esse Estado, inclusive durante as cinco guerras árabe-israelenses.

Todos os seres humanos têm medos irracionais e, quando atacados, reações excessivas, entre as quais desejos de vingança. Mas a violência contrarrevolucionária, a opressão das classes dominantes e as invasões estrangeiras precedem e engendram a violência revolucionária, e não o contrário. O caso do regime de Pol Pot, no Camboja, é sem dúvida o exemplo preferido dos intelectuais pró-Ocidente. Mas como imaginar que esse regime poderia chegar ao poder sem os bombardeios sobre o Camboja, o golpe de Estado de março de 1970 contra o príncipe Norodom Sihanouk e a desestabilização desse Estado pelos norte-americanos?1

Desprezo pela história

Longe de admitir o que o precede, o discurso dominante sobre os países do Sul combina a estigmatização e o chamado à intervenção. A estigmatização baseia-se, em geral, nos direitos humanos, na democracia e, com relação ao islã, no direito das mulheres. Nos Estados onde existem ditaduras, faz-se destas a principal fonte de todos os problemas. No caso contrário, suas eleições nunca são transparentes o suficiente, sua imprensa nunca é pluralista o suficiente, suas minorias nunca estão protegidas o suficiente, suas mulheres nunca são livres o suficiente.

Esse discurso despreza a história. As sociedades ocidentais só se tornaram mais respeitadoras dos direitos humanos depois de um longo período de acumulação econômica e de evolução cultural, ambas acompanhadas da violência mais brutal (colonialismo, exploração operária, guerras mundiais). É irrealista exigir que países que há apenas sessenta anos viviam sob o jugo colonial ou feudal atinjam subitamente as normas de respeito aos direitos humanos existentes em nossos países (e ainda assim em tempos de paz; em tempos de guerra, vejam-se Guantánamo ou o destino que Israel reserva às populações palestinas e libanesas).

Outra objeção é ainda mais séria. O discurso sobre os direitos humanos coloca sempre a tônica nos direitos políticos e individuais ao mesmo tempo que ignora os direitos econômicos e sociais, que entretanto participam igualmente da Declaração Universal. Para ilustrar esse problema, citemos os economistas Jean Drèze e Amartya Sen. Eles calcularam que, partindo de uma base similar, a China e a Índia seguiram caminhos de desenvolvimento diferentes e que a diferença entre seus sistemas sociais (em matéria de cuidados com a saúde, por exemplo) tinha provocado 3,9 milhões de mortes suplementares por ano na Índia.2

Comparações semelhantes podem ser feitas hoje entre Cuba e o resto da América Latina. Em nome de quais organizações não governamentais ocidentais como os Repórteres sem Fronteiras, cujos membros gozam em geral de dois tipos de direitos (políticos e sociais), decidem qual deles é prioritário?

Enfim, imaginemos por um instante os Estados Unidos e a Europa sem o fluxo constante de matéria-prima, a mão de obra imigrante, os bens manufaturados produzidos por trabalhadores com salários de miséria, os fluxos financeiros indo do Sul para o Norte (reembolso das “dívidas”, fuga de capitais) e mesmo sem a matéria cinzenta que vem remediar o naufrágio de nosso sistema educativo e de saúde. O que aconteceria com esses magníficos sucessos que nossas economias supostamente constituem? Elas estão, por enquanto, drogadas pelo imperialismo; mas essa droga provavelmente não será fornecida eternamente nas condições atuais.

Diante da instrumentalização dos direitos humanos, o pensamento crítico ou de esquerda está extraordinariamente fraco, em particular quando se trata de se opor às guerras norte-americanas na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque, todas justificadas pela defesa das minorias, das mulheres ou da democracia. Essa fraqueza reflete talvez o mal-estar sentido por muitos “ex” (comunistas, trotskistas, maoístas), pelo fato de que os direitos individuais e políticos tenham sido, durante o período “leninista”, mandados para o espaço. Mas de nada serve substituir uma cegueira por outra.

Fora do espaço e do tempo

Uma boa ilustração dessa fraqueza da esquerda é a ideologia do “nem-nem” que dominou os tímidos protestos contra os conflitos recentes: nem Milosevic nem a Otan; nem Bush nem Saddam; ou ainda nem Ehud Olmert nem o Hamas. Existem diversas falsas simetrias. Em primeiro lugar, em todas essas guerras, existe um agressor e um agredido. Colocar ambos no mesmo plano é abandonar qualquer noção de soberania nacional. Depois, o poder e a capacidade prejudicial das duas partes não são comparáveis. Os Estados Unidos e seu poderio militar são os pilares da ordem mundial na qual vivemos. São os Estados Unidos, e não os países já citados, a quem as forças progressistas afrontam e continuarão a afrontar durante a maior parte dos conflitos.

Enfim, o “nem-nem” age como se estivéssemos situados acima do conflito corpo a corpo, fora do espaço e do tempo, enquanto vivemos, trabalhamos e pagamos nossos impostos nos países agressores ou nos de seus aliados (a postura “nem Bush nem Saddam” tinha um sentido completamente diferente para os iraquianos, que foram forçados a viver os dois regimes). Em vez de partilhar a visão que o Ocidente tem do resto do mundo, a esquerda ocidental poderia se esforçar para fazer os “ocidentais” entenderem a visão que o resto do mundo tem deles, e lutar contra tudo o que reforça um sentimento de superioridade e de pureza moral.

Se o século XX não foi o do socialismo, ele foi o da descolonização, que permitiu que centenas de milhões de pessoas escapassem de uma forma extrema de opressão. Pode-se imaginar que o século que começa será o do fim da hegemonia norte-americana. Um “outro mundo” se tornará então realmente possível, e, quando nossas economias estiverem privadas dos benefícios provenientes da posição dominante dos Estados Unidos no sistema mundial, rediscutiremos talvez seriamente a questão do socialismo.


1 Acrescentemos a isso que, assim que o regime do Khmer Vermelho foi derrubado pelos vietnamitas em 1979, ele passou a ser imediatamente apoiado pelos ocidentais.
2 Jean Drèze e Amartya Sen, Hunger and public action [Fome e ação pública], Clarendon Press, Oxford, 1989.

* Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade de Louvain, Bélgica, autor de Imperialisme humanitaire (Bruxelas, Ed. Aden, 2005) e organizador, com Julie Franck de um Cahier de l´Herne sobre Noam Chomsky.

O rei do vulcão - por Kuang Hong (Cool vibe)

Esqueçam Policarpo: o chefe é Roberto Civita - por Luis Nassif (blog do Nassif)

Veja se antecipou aos críticos e divulgou um dos grampos da Policia Federal em que o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o araponga Jairo falam sobre Policarpo. Pinça uma frase – “o Policarpo nunca vai ser nosso” – para mostrar a suposta isenção do diretor da Veja em relação ao grupo.

É uma obviedade que em nada refresca a situação da Veja. Policarpo realmente não era de Carlinhos Cachoeira. Ele respondia ao comando de Roberto Civita. E, nessa condição, estabeleceu o elo de uma associação criminosa entre Cachoeira e a Veja.

Não haverá como fugir da imputação de associação criminosa. E nem se tente crucificar Policarpo ou o araponga Jairo ou esse tal de Dadá. O pacto se dá entre chefias – no caso, Roberto Civita, pela Abril, Cachoeira, por seu grupo.

Como diz Cachoeira, “quando eu falo pra você é porque tem que trabalhar em grupo. Tudo o que for, se ele pedir alguma informação, você tem que passar pra mim as informações, uai”.

O dialogo abaixo mostra apenas arrufos entre subordinados – Jairo e Policarpo.

Os seguintes elementos comprovam a associação criminosa:

1. Havia um modus operandi claro. Cachoeira elegeu Demóstenes. Veja o alçou à condição de grande líder politico. E Demóstenes se valeu dessa condição – proporcionada pela revista – para atuar em favor dos dois grupos.

2. Para Cachoeira fazia trabalho de lobby, conforme amplamente demonstrado pelas gravações até agora divulgadas.

3. Para a Veja fazia o trabalho de avalizar as denúncias levantadas por Cachoeira.

Havia um ganho objetivo para todos os lados:

1. Cachoeira conseguia afastar adversários, blindar-se contra denúncias e intimidar o setor público, graças ao poder de que dispunha de escandalizar qualquer fato através da Veja.

2. A revista ganhava tiragem, impunha temor e montava jogadas políticas. O ritmo frenético de denúncias – falsas, semi-falsas ou verdadeiras – conferiu-lhe a liderança do modelo de cartelização da mídia nos últimos anos. Esse poder traz ganhos diretos e indiretos. Intimida todos, anunciantes, intimida órgãos do governo com os quais trabalha.

3. O maior exemplo do uso criminoso desse poder está na Satiagraha, nos ataques e dossiês produzidos pela revista para atacar Ministro do STJ que votou contra Daniel Dantas e jornalistas que ousaram denunciar suas manobras.

Em “O caso de Veja”, no capítulo “O repórter e o araponga” narro detalhadamente – com base em documentos oficiais – como a cumplicidade entre as duas organizações permitiu a Cachoeira expulsar um esquema rival dos Correios e se apossar da estrutura de corrupção, até ser desmantelado pela Polícia Federal. E mostra como a Veja o poupou, quando a PF explodiu com o esquema.

Civita nem poderá alegar desconhecimento desse ganho de Cachoeira porque a série me rende cinco ações judiciais por parte da Abril - sinal de que leu a série detalhamente.

Os próprios diálogos divulgados agora pela Veja mostram como se dava o acordo:

Cachoeira: Esse cara aí não vai fazer favor pra você nunca isoladamente, sabe? A gente tem que trabalhar com ele em grupo. Porque os grande furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz. Todos eles fomos nós que demos. Então é o seguinte: se não tiver um líder e a gente trabalhar em conjunto... Ele pediu uma coisa? Você pega uma fita dessa aí e ao invés de entregar pra ele fala: "Tá aqui, ó, ele tá pedindo, como é que a gente faz?". Entendeu? 

Desde 2008 – quando escrevi o capítulo – sabia-se dessa trama criminosa entre a revista e o bicheiro. Ao defender Policarpo, a revista, no fundo, está transformando-o em boi de piranha: o avalista do acordo não é ele, é Roberto Civita.

Em Londres, a justiça processou o jornal de Rupert Murdoch por associação indevida com fontes policiais para a obtenção de matérias sensacionalistas. Aqui, Civita se associou ao crime organizado.

Se a Justiça e o Ministério Público não tiverem coragem de ir a fundo nessa investigação, sugiro que tranquem o Brasil e entreguem a chave a Civita e a Cachoeira.

Da Veja

Cachoeira, em gravação: 'O Policarpo nunca vai ser nosso'

Conversa telefônica mostra Cachoeira reclamando a ex-agente da Abin Jairo Martins porque ele havia passado informações ao jornalista, um dos redatores-chefes de VEJA e diretor da sucursal da revista em Brasília


Convocado em 2005 por uma comissão do Senado a explicar sua participação no transporte de mais de 1 milhão de dólares ilegais usados na campanha petista de 2002, o economista Vladimir Poleto disse que fora violentamente constrangido pelo jornalista Policarpo Junior, que teria obtido a declaração gravando-o sem seu consentimento. O sistema de som do plenário, então, reproduziu a íntegra da entrevista. A conversa entre Policarpo e Poleto foi transmitida pela TV Senado para todo o Brasil. Diante da gravidade das denúncias feitas pelo economista, Policarpo pediu autorização para gravar a entrevista, registrando a hora, o local e o contexto em que ela estava ocorrendo. Poleto respondeu em voz clara: "Pode gravar". Os senadores em plenário caíram na gargalhada. Desmascarado, Poleto tentou desajeitadamente se explicar, mas foi interrompido pelo então senador Tasso Jereissati: "É melhor se calar, senhor Poleto, pois o correto seria o senhor sair preso daqui por ter mentido sob juramento".

Assim, com total transparência de propósitos, trabalha o jornalista Policarpo Junior, um dos redadores-chefes de VEJA e diretor da sucursal da revista em Brasília. Seu nome é citado algumas vezes nas gravações legais de conversas telefônicas entre Carlinhos Cachoeira e o ex-agente da Abin Jairo Martins, apontado pela Polícia Federal como um dos vários agentes públicos pagos pelo contraventor para fechar casas de jogos que não integravam sua "franquia" da jogatina. VEJA teve acesso ao diálogo, captado em 8 de julho do ano passado. Cachoeira - que foi fonte de informações de Policarpo e de muitos outros jornalistas - reclama com o policial porque soube que ele havia passado informações ao diretor da sucursal de VEJA em Brasília. A íntegra em texto e áudio da conversa interceptada se encontram a seguir:

Cachoeira: Fala, Jairo.


Jairo: Fala, doutor, tranquilo? Deixa eu te falar: o Dadá ontem me ligou, pô, me falando uma história aí que você ficou puto comigo, me xingou e o casseta, disse que eu tô trabalhando contra você e tal... Eu falei: pô, cara, de novo o homem lá fala um negócio desse, cara? Eu falei: porra, cara, se eu fiz um favor pro cara lá é justamente pra ficar próximo dele, pra saber o que ele anda me falando. Por quê? Eu pessoalmente uso da minha atividade, eu não preciso dele... Nem... E ele pra mim não influencia em nada, entendeu? Mas se ele me pediu um favor e eu fiz é pra ficar próximo dele e ouvir o que ele anda me falando, entendeu? Como me falou ontem à noite umas coisas. Como me falou anteriormente que eu contei pro Dadá, entendeu? Eu falei: porra, não tô entendendo o homem, não.

Cachoeira: Não, Jairo, foi isso não. Deixa eu falar pra você. Se Dadá estiver aí pode pôr até no viva-voz. Olha, é o seguinte: a gente tem que trabalhar em grupo e tem que ter um líder, sabe? O Policarpo, você conhece muito bem ele. Ele não faz favor pra ninguém e muito menos pra você. Não se iluda, não. E fui eu que te apresentei ele, apresentei pro Dadá também. Então é o seguinte: por exemplo, agora eu dei todas as informações que ele precisava nesse caso aí. Por que? É uma troca. Com ele tem q ser uma troca. Não pode dar as coisas pra ele, igual você sai correndo pra fazer um favor pra ele, pega e dá de graça, enquanto isso ele mete o pau no Dadá pra mim, e deve meter o pau no Dadá pra você também. Então você não deve aceitar ele falar mal do Dadá porque você não trabalha pra ele. E eu também não trabalho pro Policarpo. Eu já ajudei ele demais da conta. Entendeu? Demais da conta! Então, quando eu falo pra você é porque tem que trabalhar em grupo. Tudo o que for, se ele pedir alguma informação, você tem que passar pra mim as informações, uai.

Jairo: Não, beleza. Eu te peço até desculpa disso ai. Mas eu não tô sabendo que você tá. Ultimamente eu não tô sabendo quando você vem aqui, às vezes a gente não se fala. Muito difícil a gente se falar, e eu não ter ido aí, às vezes quem vai é o Dadá. Então de repente eu não tô sabendo que você tá trocando alguma informação com ele. E também não admito ele falar mal do Dadá pra mim. Não admito, corto logo, falo: "O cara é meu amigo, é meu parceiro". Entendeu? Esses dias ele veio falar uma historia que tava rolando aqui na cidade, de um negócio aí, entendeu, de um dinheiro, de uma gravação. Eu chamei o Dadá, falei: Dadá, liga pra ele, fala porque tem uma história assim, assim, eu já falei pra ele. Isso não existe, não é ele, não sou eu, isso não é a empresa, entendeu? Aí o Dadá ligou pra ele, tal, tal tal. Mas, então, cara, eu te peço desculpas. E não é trabalhar nunca contra você. Pelo contrário, pô. Eu não sou louco, né, Carlinhos!? Eu não posso ser burro.

Cachoeira: Jairo, põe um trem na sua cabeça. Esse cara aí não vai fazer favor pra você nunca isoladamente, sabe? A gente tem que trabalhar com ele em grupo. Porque os grande furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz. Todos eles fomos nós que demos. Então é o seguinte: se não tiver um líder e a gente trabalhar em conjunto... Ele pediu uma coisa? Você pega uma fita dessa aí e ao invés de entregar pra ele fala: "Tá aqui, ó, ele tá pedindo, como é que a gente faz?". Entendeu? Até pra fortalecer o Dadá. Por que Dadá... Ele tá puto. E ele vai pegar o Dadá na revista ainda, você pode ter certeza. Ele vai pegar o Dadá na revista. Ele não gosta do Dadá. Falou ontem pro Cláudio. Porra, tá arrumando tudo pra ele... Eu fiquei puto porque ontem ele xingou o Dadá tudo pro Cláudio, entendeu? E você dando fita pra ele, entendeu? Então, o seguinte: você não fala mais do Dadá, porque a gente trabalha em conjunto. Entendeu? Então chega. [Diz a ele:] Então qualquer coisa agora você conversa com o Carlinhos. Fala assim, porra.

Jairo: Não, beleza, porra. Agora eu tô orientado dessa maneira. Eu não to sabendo q vocês tão tratando de outro assunto com ele, entendeu? Até ele me falou realmente que falou com o Cláudio uma época aí. Ele me falou: “Ah, falei com o Cláudio, o cara parece que é gente boa”. Eu falei: "Não, o cara é gente boa, tal, tal, tal, é um cara sério. Mas outras coisas eu não tô sabendo. Não tá chegando até a mim. Por exemplo, não tão falando comigo. Aí eu te digo o seguinte: eu te peço desculpa porque realmente eu errei, porque ele quando me pediu esse favor eu poderia realmente ter falado contigo, mas tem tanto tempo que a gente não senta e não conversa que pra mim você não tava nem falando com ele. Eu não tô sabendo dessa articulação.

Cachoeira: Olha, Jairo. É porque, assim mesmo, você tem que chegar perto de mim qualquer pedido dele. Cara, ele não vai fazer nada isolado. E outra coisa: com ele, daqui pra frente tem que ser na base da troca. Porque dessa forma tá te fortalecendo, fortalecendo o Dadá, fortalecendo eu, o Cláudio. Entendeu? Porque com ele, você sabe, ele não vai fazer nada procê. Ainda mais meter o pau no Dadá? Ah, vai pra puta que pariu, uai.

Jairo: Pô, eu não tava sabendo, cara. Eu não tava sabendo. Mesmo. Eu peço desculpa pra você, pro Cláudio. Não admito. Sempre quando ele vem falar do dadá eu não admito.. nunca admiti dele falar de Dadá ou de você. Nunca admiti. Não admito. Quando ele veio falar do Claudio eu só rasguei de elogio. Então aí realmente eu te peço desculpa, realmente eu errei. Eui deveria ter dfalado contigo realmente. Mas passei assim batido, sabe? Quando ele me chegou me abordou, me pediu, porra você travbalha aqui na ´parea você me conhece. conheço, tal. Não eu falei com eles, tal. Então tem como você ver isso pra mim? Eu falei: tem. Aí eu peguei esse negócio tão rápido. Ainda comentei com Dadá: pô o cara me peiu um negócio assim, assim, eu vou ajudar esse filho da puta porque tem q ficar perto dele, pra saber algumas coisas que ele anda me falando ai sobre o que interessa à gente. Mas passei assim batido, entendeu?

Cachoeira: Pois é. Mas ele não vai soltar nunca nada pra você, o Jairo. Eu conheço o Policarpo, você conhece também. O Policarpo é o seguinte, ele pensa que todo mundo é malandro. E o seguinte, ele pensa que você e o Dadá trabalham pra ele, rapaz. Você sabe disso. Eu já cansei de falar isso pro Policarpo: ‘Policarpo, põe um negócio na sua cabeça, o Jairo e o Dadá não trabalham pra você. A gente trabalha no grupo. Então se tiver algum problema, você tem que falar comigo´. Já discuti com ele, você sabe disso, já presenciou eu falando com ele. Ele pensa que o Dadá, devido àqueles problemas que o Dadá teve, tinha de passar por ele sempre. Vai tomar no rabo. Nunca fez nada pra gente, rapaz. Que que esse cara já fez?

Jairo: É, não, isso é verdade aí. Aí eu te peço desculpa cara, mas nunca foi negócio de trabalhar contra vocês, trabalhar contra o grupo, estar passando a perna em vocês e admitir que ele fale mal do Dadá. Isso aí nunca, nunca. Falo na frente dele. Nunca. Sempre falei, ´O, lá é meu parceiro, tal´ Os caras, sempre... Em lugar nenhum eu menti que sou amigo do Dadá, em lugar nenhum eu menti que sou teu amigo, entendeu? Não é falando não, mas porra hoje eu tenho até restrição na minha ficha devido a reportagem de Globo lá, que consta na minha ficha que eu disse que sou seu amigo. E quem me pergunta, eu falo. Então às vezes a gente erra aí, mas não é errando querendo sacanear não, é errando às vezes sendo burro realmente como você falou. Sendo burro.

Cachoeira: Não. Tá tudo tranquilo. Agora, vamos trabalhar em conjunto porque só entre nós, esse estouro aí que aconteceu foi a gente. Foi a gente. Quer dizer: mais um. O Jairo, conta quantos foram. Limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do caralho pro Brasil, essa corrupção aí. Quantos já foram, rapaz. E tudo via Policarpo. Agora, o cara vai pensar que o Dadá trabalha para ele? Porque o Dadá não fez o que ele queria ele tem o direito de ficar chateado com o Dadá, rapaz? Um dia ele chegou perto de mim e falou assim: ‘Não, o Jairo eu gosto, mas aquele rapaz eu não gosto dele não. Aquilo é um malandro’. Vai tomar no cu. Ninguém trabalha para ele não, rapaz.

Jairo: E nós não estamos aqui para ele gostar da gente ou desgostar. A gente tem uns objetivos que às vezes infelizmente tem que passar por ele. Mas não tem nada de ele gostar ou deixar de gostar. Mas realmente eu nunca admiti que ele falasse mal do Dadá na minha frente não, nunca aceitei. E eu não tava sabendo dessa situação toda que você me colocou agora, entendeu, de ele ter metido o pau no Dadá pro Claudio. Aí é sacanagem dele, entendeu? Aí mais uma vez eu peço desculpa aí, Carlinhos. Desculpa mesmo. Jamais eu tive a intenção de sacanear nada, de sacanear ninguém. Pelo contrário, entendeu?

Cláudio: Não, porque se fosse com você, ô Jairo, eu tomaria as mesmas dores. Agora, não é bom você falar isso com o Policarpo não, sabe. É só afastar dele, sabe? Você tem que afastar dele e a barriga dele doer, sabe? É isso que nós temos de fazer. Tem que ter a troca, ô Jairo. Nunca cobramos a troca.

Jairo: Isso é verdade. De antemão ele está atrás de uma outra situação aí que veio me perguntar. Ou eu afasto dele ou se eu conseguir, aí eu te passo aí, tá? Mas, de antemão eu vou me afastar.

Cachoeira: E fala pra ele, Jairo, na hora que ele falar com você: ´O Policarpo, não vou ajudar mais não, sabe por que? Eu fiquei chateado aí, o Dadá está chateado com você porque você anda falando mal dele. O problema é que eu não trabalho para você, cara, eu não fico indo atrás das coisas para trabalhar pra você. Eu ganho algum centavo seu, Policarpo? Não ganho. Então o seguinte, na hora que eu pedi alguma coisa pra você, você nunca pode fazer. Você nunca faz, você corre. Então você tem que pôr isso na sua cabeça. Quantas matérias nós já te demos, o grupo já te deu? Quantas? E você nunca fez nada em troca, cara.

Jairo: Não. Beleza, beleza. A partir de agora eu vou me afastar dele. Apesar de ele ter um negócio aí de um retorno aí já antes dessa situação que você tá me colocando. Mas se eu colocar a mão nesse negócio, aí eu vou te entregar aí e tu decide o que faz aí.

Cachoeira: Certamente, rapaz. Nós temos de ter jornalista na mão, ô Jairo. Nós temos que ter jornalista. O Policarpo nunca vai ser nosso. A gente vai estar sempre trabalhando para ele e ele nunca traz um negócio. Entendeu? Por exemplo, eu quero que ele faça uma reportagem de um cara que está matando a pau aqui, eu quero que eles façam uma reportagem da educação, sabe, um puta de um projeto de educação aqui. Pra você ver: ontem ele falou para mim que vai fazer a reportagem, mas acabando esse trem ai, ele pega e esquece de novo. Quer dizer, não tem o troco sabe.

Jairo: É, não tem não, não tem não. Ele não tem mesmo não. Ele é f...

Cachoeira: Não, não (Glória a Deus - ?) Então tá, um abraço, Jairo.

Jairo: Falou, meu irmão, Desculpa aí, tá?