quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Fotografia manipulada - por Michał Karcz (Site homônimo)

Xadrez da teoria do choque e do capitalismo de desastre - por Luis Nassif (Jornal GGN)

Há um conjunto de peças soltas no golpe que, quando devidamente organizadas, permitem entender de modo muito mais claro um dos aspectos mais relevantes: a influência externa.
São elas:
  • 1.     A campanha sistemática da mídia de destruição da autoestima nacional.
  • 2.     Recém instalado o golpe, a corrida do ouro entre Eduardo Cunha e José Serra, para ver quem se antecipava na aprovação da nova legislação do petróleo.
  • 3.     A ida repentina do senador Aloysio Nunes aos Estados Unidos, para conversar com membros do Senado.
  • 4.     Antes dele, a ida do Procurador Geral da República aos Estados Unidos, para reuniões com o Departamento de Justiça e outros setores sensíveis.
  • 5.     A bandeira mágica que acompanha o golpe, de colocar a salvação do Brasil no trinômio reforma da Previdência-livre fluxo de capital-desregulação/privatização.
Para juntar as peças acima, vale a pena um mergulho no livro “Teoria do Choque” da norte-americana Naomi Klein.

Peça 1 – o início da “teoria do choque”

A base do livro é a descrição de estudos psicológicos nos Estados Unidos, que teriam contribuído igualmente para o aprimoramento dos métodos de tortura da CIA e das intervenções político-econômicos em países conflagrados. Tratam-se dos estudos de 1963 de Ewen Cameron e Donald Hebb, sistematizando os princípios do que veio a ser vulgarmente conhecido como lavagem cerebral através do uso de eletrochoques.  A conclusão principal era a de que “a privação de estímulos (através da tortura) induz à regressão, despojando a mente do indivíduo do contato com o mundo exterior e forçando à regressão”.
Quando o prisioneiro mergulha em um estado de “choque psicológico”, ou “vivacidade interrompida”, é sinal de que está mais aberto a sugestões, mais disposto a ceder. Em situações mais brandas, mas nem por isso menos drásticas, mantem-se o réu detido, sem contato com o mundo exterior, com família, sem acesso a notícias, até que entre no estado da “vivacidade interrompida”. Se o trabalho for bem feito, delata até o casamento da princesa Leopoldina em Diamantina, onde nasceu JK (apud “Samba do crioulo doido”).
Para haver cura, seria preciso eliminar tudo o que existia antes. “Cameron estava seguro de que se varresse para bem longe os hábitos, modelos e lembranças dos seus pacientes, chegaria àquele espaço vazio primitivo”, diz Naomi. Em geral, os resultados alcançados foram os de deixar os pacientes com suas memórias fraturadas e sua confiança traída, constata ela. Mas abrindo o bico, que é o que interessava.
Cameron transpôs suas teses para o campo das ciências sociais, através de um livro onde pontificava sobre como preparar a reconstrução da Alemanha no pós-guerra. Propôs-se a desenvolver uma nova ciência social e comportamental, na qual os cientistas do comportamento passariam a agir como planejadores sociais. Nessa nova utopia não haveria lugar para os doentes e os fracos, que deveriam ser removidos para não influenciar as novas gerações.

Peça 2 – o capitalismo de desastre

Segundo Naomi, essa mesma tese da destruição-reconstrução foi desenvolvida pelo chamado capitalismo de desastre, a partir dos estudos e da pregação de Milton Friedman, da Escola de Chicago, inspirada nas teses de Cameron.
Em um de seus ensaios fundamentais, Friedman desenvolveu a estratégia de como se prevalecer de situações de crise – “crise real ou pressentida” enfatizou. Quando a crise acontece, dizia ele, as ações que são tomadas dependem das ideias que estão à disposição. “Esta, eu acredito, é a nossa função primordial: desenvolver ideias alternativas às políticas existentes, mantê-las em evidência e acessíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente viável”. 
Tão logo uma crise se instale, defendia Friedman, é essencial agir rapidamente, “impondo mudanças súbitas e irreversíveis, antes que a sociedade abalada pela crise possa voltar à tirania do status quo”. Nas suas contas, uma administração teria de seis a nove meses para realizar as principais mudanças. “Caso não agarre a oportunidade de agir de modo decisivo durante esse período, não terá outra chance igual”.
A fórmula salvadora consistia em medidas irreversíveis que atendam ao trinômio liberdade total para o capital-privatização/desregulação-cortes nos serviços e benefícios sociais. Alguma semelhança com o caso brasileiro?
Há inúmeros episódios em que se aplicou a teoria do choque, desde o golpe contra Allende, no Chile, ao enorme fracasso da ocupação do Iraque e ao desmonte total do sistema de educação pública de Nova Orleans, após o terremoto Katrina.
Foi o que Naomi testemunhou na guerra do Iraque. “Os arquitetos da invasão norte-americana e britânica imaginaram que o seu uso da força seria tão chocante, tão esmagador, que os iraquianos mergulhariam em um estado de vivacidade interrompida, muito parecida com aquele descrita no manual Kubark (da CIA)”.
O certo é que parte dos grandes empresários norte-americanos, evangelizados por Friedman, se imbuíram do chamado “destino manifesto”, de levar o capitalismo em estado puro para os povos primitivos. Personagens contemporâneos, como os irmãos Kock repetem os W.R.Grace, católicos de origem irlandesa que, nos anos 60, bancavam o padre Peyton e sua cruzada pelo “rearmamento moral”.
Desde Adlai Stevenson, a CIA tornou-se a parceria fundamental nessa cruzada capitalista, em que se misturam interesses empresariais, a pregação evangélica, a síndrome do “destino manifesto” e a geopolítica do Departamento de Estado. A última tentativa (fracassada) foi quando Otto Reich, do Departamento de Estado, articulou com os grupos de mídia venezuelanos a deposição do presidente Hugo Chávez.

Peça 3 – a “vivacidade interrompida” no golpe brasileiro

Em algum lugar do passado recente, o Brasil era uma nação prestes a entrar para o primeiro time. Indústria naval, cadeia produtiva do pré-sal, grandes empreiteiras, montagem de uma forte indústria nacional de medicamentos, multinacionais brasileiras começando a conquistar o mundo, a diplomacia brasileira se impondo nos principais fóruns globais.
Em pouco tempo o país entrou na fase da “vivacidade interrompida”, a sensação da crise terminal, da falta de saídas, o pessimismo repetido 24 horas por dia, o fim do mundo ao alcance da próxima manchete. Instaurou-se a tal crise pressentida.
O que aconteceu?
A partir da AP 470, a imprensa explorou duas estratégias paralelas. Uma, a da luta contra a corrupção, personificada no PT e em Lula. Outra, a luta de classes, levantando diuturnamente as ameaças chavistas, estigmatizando as políticas sociais, enfatizando a falta de cultura e de verniz dos adversários. É por aí que tem início a cooptação das classes médias, da elite das corporações públicas e do próprio Ministério Público Federal, o reino dos PhDs contra o primarismo dos chavistas.
O brilhante desempenho de Lula e Dilma de 2008 a 2012 anulou a estratégia. Mas a imprensa não interrompeu sua campanha massacrante, sistemática, de desconstrução do que estava sendo feito. Valeram-se de diversos subterfúgios. Se se levantavam grandes obras, com 90% concluídas, enfatizavam os 10% que faltavam. Em um programa social com 15 milhões de famílias assistidas, a manchete era a pequena corrupção identificada em um ponto qualquer do país. Na Copa do Mundo, enquanto os estádios e aeroportos eram construídos, destacava-se o fato de não estarem prontos. Entregues, o destaque era para a falta de sabonete nos banheiros.
Com os sinais de bonança revertendo, as manifestações de junho de 2013 foram o primeiro alerta de que que o pêndulo da opinião pública começava a inverter.
Instalada a crise, a “teoria do choque” pode colocar a cabeça de fora. Parlamentares como Aécio Neves, no Senado, e Eduardo Cunha, na Câmara, trataram de bloquear toda a atividade parlamentar, negando ao governo Dilma as ferramentas mínimas para consertar os erros. Aécio, José Serra e Fernando Henrique Cardoso tornaram-se os porta-vozes do caos estimulando o movimento golpista nas ruas e nos jornais, enquanto a parceria PGR-Lava Jato-mídia tratava de incendiar a classe média com as denúncias de corrupção focadas exclusivamente no PT e em Lula.
Nesse período, para preparar o bote final o Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot foi ao Departamento de Estado pedir a bênção e voltou com malas digitais repletas de informações sobre as contas das empreiteiras no exterior e sobre a corrupção na Eletronuclear. Ali, na cooperação internacional, os Estados Unidos deram a contribuição mais ostensiva para o golpe. Outras contribuições demandarão algum tempo para virem à tona.
O discurso anticorrupção foi o mote que juntou todas as pontas, criando o sentimento da classe e fornecendo o álibi para quem pretendesse pular no barco da conspiração.

Peça 4 - o fator Dilma

Sob esse céu coalhado de bombas, há o fator Dilma Rousseff, é verdade.
Poucas vezes na história teve-se governo mais desastrado e indefeso.
Montou a mais ousada política industrial desde o 2o PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) em torno do pré-sal e da Petrobras. Estaleiros, renascimento da indústria de máquinas e equipamentos, atração de laboratórios de grandes multinacionais ao país, montagem pela Petrobras de programas de compras públicas que dotariam o país de competência interna imbatível para tecnologia de extração de petróleo em águas profundas, internacionalização das empreiteiras. Toda essa responsabilidade nas costas da Petrobras. E, de repente, a Petrobras passa a ser sufocada pelos sub-reajustes de combustíveis, como parte da tática de empurrar a inflação com a barriga.
Dilma se fechou para todos os segmentos, dos movimentos sociais aos empresários, e ainda assistiu inerte a Lava Jato completar a destruição de parte relevante do PIB sem esboçar um gesto de resistência.
O ciclo se fecha com sua teimosia em se candidatar à reeleição e a falta de vontade de Lula de enfrentar a bucha que surgia no horizonte.
Dilma não entendeu o terceiro tempo das eleições, que se iniciou no dia seguinte à abertura das urnas, trancou-se no Palácio, fez dieta e reapareceu em público no dia da posse, com um ministério tirado do colete, sem nenhuma espécie de articulação política e com um pacote econômico desastroso.
Consumou-se o desastre com o plano Joaquim Levy, uma tragédia óbvia e cantada, de que ajuste fiscal com recessão seria um desastre econômico e uma sinuca política.  Aliás, mote repetido várias vezes por Dilma em sua apresentação no Senado – mostrando que sempre descobre o caminho certo com alguns anos de atraso.
Dilma foi apenas o desastre que facilitou o golpe, mas que jamais poderia servir de álibi para a implantação do estado de exceção. A economia teria condições de se recuperar, não fosse o cerco do Congresso e da mídia. Estava-se longe do estado de caos retratado na cobertura jornalística, especialmente na pregação massacrante da Globo. Mas, o cavalo de Troia do governo – a PGR – já tinha deflagrado a ofensiva final.

Peça 5 – a corrida contra o relógio

Agora se entra naquele período crítico previsto por Friedman, de seis a nove meses sob a égide do “vazio primitivo” para enfiar goela abaixo do país as reformas previstas. Daí esse braço de guerra, com jornais abrindo manchetes esbaforidas, tipo se a reforma da Previdência não acontecer nos próximos dias, o futuro estará comprometido, e outras baboseiras destinadas à ralé da opinião pública. Ou a pressa de Serra e associados de correr com a lei do petróleo e a privatização acelerada na Petrobras, mesmo com a economia na bacia das almas.
A blitzkrieg esbarra, no entanto, nos seguintes fatores:
O Fora Temer
É o fato novo, que vem em um crescendo, entrando por todos os poros do mercado de opinião, inclusive nas brechas abertas inadvertidamente pela mídia, é o Fora Temer. Há o risco concreto de que o tema ganhe os leitores de jornais. Daí a montagem do sistema de repressão e da tentativa de envolver as Forças Armadas, através dos factoides dos supostos terroristas islâmicos, como têm demonstrado as extraordinárias reportagens de Marcelo Auler (https://is.gd/kX67p6).
Há alguma probabilidade de que pegue o discurso das “diretas-já”.
A ilegitimidade das reformas
Nenhum investidor minimamente informado apostará em reformas que dependem de um golpe para serem implementadas. Lula e Dilma avançaram em algumas reformas relevantes, pelo fato de possuírem credibilidade junto aos movimentos sociais e às esquerdas. Temer não tem nem credibilidade institucional nem pessoal. O que acontecerá a partir de 2018?
A construção de Temer
Daí, a uma tentativa bisonha de construir uma imagem pública minimamente defensável para Temer. Repare na foto ao lado. É a cara do governo, Eliseu Padilha, cercado pelos holofotes da mídia. Uma breve pesquisa no Google mostrará uma extensa capivara do Ministro-Chefe da Casa Civil. Como tornar o governo legítimo? É o Eliseu de Canoas, do DNIT, dizendo-se defensor da Lava Jato e das reformas.
../../Pictures/Fototeca.photoslibrary/Masters/2016/09/12/20160912-141359/IMG_2384.JPGA tentativa de isolar Temer, como se fosse uma jovem virginal envolvida por malandros, não cola. Só o eminente jurista Celso Antônio Bandeira de Mello tenta acreditar nisso. A vida política de Temer está estreitamente ligada às de Eliseu Padilha, Eduardo Cunha, Moreira Franco, José Serra, Geddel Vieira Lima.
Mesmo abstraindo a biografia, Temer não conseguirá compor o figurino do estadista, ou meramente do presidente que paire acima das quizílias do dia-a-dia. É miúdo, vingativo, tem um linguajar antiquado, baixíssimo nível de informação, nenhuma empatia com o público. O jornal O Globo abriu uma enorme oportunidade para mostrar o lado “humano” de Temer e ele jogou fora dando um golpe no rei Arthur e colocando em seu lugar Carlos Magno, que, por sua vez, abriu mão dos Doze Pares de França para comandar os Cavaleiros da Távola Redonda, provavelmente em uma escaramuça lá em Diamantina, onde nasceu JK.
A alternativa encontrada foi focar em uma primeira dama jovem, bonita, discreta e... muda. Foi ridícula a solução encontrada, de tirar conclusões políticas do “look” branco que ela utilizou em uma solenidade qualquer. Ridícula por expor a necessidade dos jornais de arrostar o impossível e o ridículo para atender o governo Temer e fazer jus à bolsa mídia prometida por Eliseu Padilha.
O fator Lava Jato
Na Lava Jato há dois personagens acusados de jogo político, de perseguição ao PT e de proteção ao PSDB: o PGR Rodrigo Janot e o juiz Sérgio Moro. Janot não conseguirá desvencilhar-se do estigma simplesmente por não ter nem vontade nem condição política de indiciar Aécio Neves.
No entanto, há alguns sinais no horizonte de que Moro pretenda passar no teste de imparcialidade investindo na delação de Eduardo Cunha.
Consumada a cassação de Eduardo Cunha, a maior probabilidade é de que em poucos dias ele seja conduzido preso à Curitiba e submetido a uma delação conduzida por Moro. Isso ocorrendo, sairia das asas de Janot e se abriria alguma possibilidade de rompimento da blindagem sobre Aécio Neves e de ameaças concretas contra o governo Temer.
Há uma probabilidade - pequena, por enquanto - de crescimento do "diretas já" e de abreviação do governo Temer.

Fotografia - por David Doubilet (National Geographic)

sábado, 10 de setembro de 2016

Por dentro estou triste, por fora...

     E numa parede em Vitória...

Fotografia manipulada - por Planwallpaper

Sobre o que é acidente e o que não é




     Assistindo aos dois vídeos, pode-se chegar a conclusões bem precisas.
     Um jovem colocou um rojão no chão (veja bem que se trata de um artefato muito menos perigoso do que a arma disparada pelo policial), que infelizmente subiu e explodiu exatamente quando passou perto da cabeça do cinegrafista, vindo a matá-lo. O vídeo não mostra, mas os manifestantes de imediato foram prestar socorro a vítima – algo bem diferente do que os policiais fizeram.
     Dois manifestantes foram presos por conta da morte do cinegrafista. Um, por ter acendido o rojão. Nunca ficou claro pra mim qual seria a causa desta prisão. Acender um rojão não pode ser crime. Quem direcionou-o para um local inapropriado pode ter cometido um crime. Já quem o acendeu, de forma alguma o fez.

      O jovem que acendeu o rojão, bem como o que o pôs no chão e infelizmente ocasionou este acidente trágico, foram acusados pelo MP (órgão que mais parece um cão a colher os ossos que a imprensa lança) de homicídio triplamente qualificado. Apenas para que se compare, os homicídios triplamente qualificados no Brasil foram o do caso Nardoni, da Eliza Samudio ou da Suzane von Richthofen. Casos bárbaros, que nem se comparam ao descrito aqui. Foi uma morte, trágica como sempre para um trabalhador que esta exercendo seu ofício, porém, é óbvio que se tratou de um acidente. Basta avaliar serenamente os fatos.
     Eu já estive em inúmeras festas (especialmente juninas), que lançaram rojões no meio da multidão. Nunca aconteceu nada demais onde estive, os dois casos que ouvi falar foram justamente este e mais um, do rojão lançado da torcida do Corinthians sobre a torcida do San Jose num jogo na Bolívia pela Copa Libertadores da América.

     Agora podemos confrontar o que este jovem fez (aqui escrevo mais sobre ele), o erro que cometeu, o acidente fatal pelo qual é responsável, ao que o policial faz.
     Reparem que o policial esta, desde o início, sedento, desesperado para arrumar algum tipo de álibi, para descarregar sua sanha fascista.
    É só um criminoso, um reles bandido que porta farda.
    Por acaso, o resultado foi diferente entre as duas ações foi diferente, já que balas de borracha a curta distância podem matar, cegar, etc
     O de um rojão colocado no chão acabou em morte. O de um ataque brutal, um tiro a queima-roupa disparado por um covarde, não. 

    Eles deveriam ser tratados diferentemente porque são casos diferentes. Um, homicídio culposo. O outro, tentativa de homicídio.
    Mas serão tratados de formas distintas por outros motivos.
     Uma lástima.


P.S.: São muitas opções, mas para ver outro caso, há este gif.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Fotografia - por Audun Rikardsen (site homônimo)

A arma mais forte será ampliar a não cooperação com o governo - por Vladimir Safatle (Folha)

Marcelo Cipis/Editoria de Arte/Folhapress
     Cada época tem sua imagem. Há momentos nos quais a essência de tempos históricos determinados encontra sua figura sensível. A ditadura militar teve, por exemplo, a figuração precisa de sua barbárie bruta na foto de Vladimir Herzog enforcado em uma cela, com os joelhos dobrados quase no chão. Demonstrava-se, de forma grotesca, o descaso com qualquer princípio elementar de verossimilhança. Isto é essência mesma de um estado policial: um regime no qual você deve acreditar que alguém morreu enforcado, mesmo que sua foto demonstre exatamente o contrário.

     Desde então alguns dizem que o país mudou, mas certamente não para a polícia militar. Ela continua agindo como se devêssemos acreditar que pessoas se enforcam com o joelho dobrado no chão. Não é por acaso que, segundo estudos da socióloga norte-americana Kathryn Sikkink, o Brasil é o único país na América Latina no qual tortura-se mais hoje do que na época da ditadura militar. É porque aqui a imprensa e a classe política dão carta branca para a polícia agir da maneira como convier na defesa dos interesses do seu partido. Sim, não se enganem pois a polícia tem partido. Enquanto o sr. Alexandre Frota e o coral gospel "Jesus ama Ustra e seus amigos" entoam o hino Escola sem Partido, alguém deveria começar por exigir uma Polícia sem partido.

     Desde os tempos mais remotos da humanidade, a tática da provocação e da infiltração é utilizada para desqualificar quem contesta o poder. Foi assim em Roma, na Babilônia e nas manifestações de 2013. Vimos inúmeras vezes em que a polícia provocava, jogando bombas em manifestações até então pacíficas, infiltrando-se, atirando a esmo. Ou seja, a função da polícia brasileira não era garantir a ordem, mas produzir e gerenciar a desordem. Produzir imagens de terror para minar o apoio popular às manifestações. Enquanto isto, o Ministério Público, especialmente o de São Paulo, nem cogitava agir a fim de enquadrar o uso da força do braço armado do Estado. O que não era de se estranhar, já que o governador do nosso cafezal, assim como outros governadores pelo país, aplaudiam enquanto seus soldados matavam oito manifestantes, feriam 837 e prendiam 2.608 só em 2013 (dados da ONG Artigo 19). Em outros lugares do mundo, isto seria descrito como uma carnificina. No Brasil, é defesa da ordem.

     Então vieram as manifestações pelo impeachment e o milagre aconteceu: uma polícia ordeira, catracas abertas para manifestantes passarem gratuitamente, confraternização entre a polícia e as senhoras com sua nostalgia por "intervenção militar". Em troca a PM fazia o milagre da multiplicação e anunciava ter 500 mil manifestantes em um espaço no qual só cabiam 200 mil. Mas como lembra a foto de Herzog, verossimilhança não é o forte da corporação.

     Agora, 62% da população quer que o sr. Michel Miguel devolva ao povo o cargo que ele usurpou e convoque eleições gerais. As ruas voltaram a se encher e a polícia voltou a mostrar qual é o seu partido. Domingo, São Paulo foi palco de uma enorme manifestação, sem patrocínio da mídia e com proibição do governo de São Paulo. Como tudo ia bem, a polícia precisava produzir sua desordem, fornecer imagens de caos. Assim, bloqueia-se previamente novas adesões da população.

     Michel Miguel, ao tomar de assalto a república, prometeu ao país a "pacificação". Na sua novilíngua isto significa: bomba, bala e "cadeia preventiva". A imprensa pode, pela enésima vez, insuflar o espantalho dos black blocs e auxiliar o governo em sua luta desesperada por não cair. Mesmo esta Folha publicou um editorial no qual eles eram comparados a fascistas exatamente um dia depois da estudante Deborah Fabri ter perdido um olho por ação da polícia. Não houve o mesmo tom de indignação com o segundo fato, nem com o fato de um tenente-coronel ter descrito essa violência inaceitável com um singelo: "quem planta rabanete, colhe rabanete".

     Prefiro não acreditar que alguém entenda que vidraças de bancos e lixeiras sejam mais importantes do que a integridade física de nossos cidadãos. Por outro lado, que fique claro: a arma mais forte atualmente será ampliar as formas de não cooperação com o governo e de não violência. A violência black bloc só serve para fortalecer o estado atual das coisas. Mas se estivermos realmente interessados em não violência a primeira coisa a fazer é ter uma crítica implacável da violência da polícia, de suas práticas primárias de provocação e de seu comprometimento político-partidário.

sábado, 3 de setembro de 2016

Fotografia - por Christopher Zacharia (Site homônimo)

Porque hoje é sábado - por Miltom Temer (Facebook)

     O fenômeno dos VIRA-CASACA não é novo. A valer apenas o meu horizonte existencial, Carlos Lacerda já despontava como o primeiro grande renegado – exemplo extremo, inalcançável - lá pelos fins da primeira metade do século passado. 

     Da liderança juvenil do saudoso e glorioso Partido Comunista Brasileiro, gerou-se um trânsfuga que navegou da delação de ex-camaradas ao mais eficaz e rancoroso agente do golpismo de direita. Do golpismo que se embandeirou contra Vargas e Kubitschek nos anos 50, para se revelar de forma mais cruel na sequência do golpe de 64.

     Confesso não conseguir entender como o cidadão com a experiência da vida de assalariado; o intelectual preocupado com o combate permanente à desigualdade; o ser humano capaz de entender a impossibilidade de ser feliz, cercado de insegurança e a infelicidade daí consequente, consegue se transformar num agente defensor do regime que causa todas mazelas que antes sempre pretendeu suprimir.

     Sou ateu; não ajo por sentimento caritativo. Ajo exclusivamente por opções racionais. Busco, na verdade, a minha felicidade. Será que sou eu o panaca incapaz de entender que, rebelde na quase octagésima idade , com a vida pessoal satisfatoriamente resolvida, só pode realmente ser um panaca?

     Bem...toda essa lenga-lenga inicial tem um sentido de desabafo diante do que venho contendo contra dois amigos muito próximos, de anos difíceis: Zuenir Ventura e Ana Maria Machado, que há tempos vêm publicando artigos na mesma linha do sempre cretino Cristovam Buarque, nas páginas opinativas do boletim oficial da direita mais reacionária do País – o Globo. Hoje, aliás, o pilantra tem a desfaçatez de dizer que nova esquerda é a que entende a importância da propriedade e da ação do "livre mercado", na conjuntura atual.

     Zuenir foi o companheiro com quem passei um dia inteiro – o da edição do AI-5 , em 1968 – rodando a cidade num Fusquinha, para escapar ao que ocorria com outros amigos do peito que eram buscados e encarcerados pelos beleguins da ditadura. Camarada, que sempre admirei pela competência e coragem com que exercia o melhor jornalismo, nos períodos mais tenebrosos da repressão, sem ceder nos princípios.

     Ana Maria Machado, então jovem linda e inteligente, era parceira das tertúlias no apartamento do muito saudoso Darwin Brandão, baiano da melhor cepa, que tinha papel fundamental nas assembleias de jornalistas democratas e de esquerda, onde quase sempre era o “mesa". 

     Quando os vejo – Ana Maria, de forma explícita, e Zuenir com mais sofisticação – se postando entre os mais frequentes portadores das bandeiras tucanas, não deixo de me sentir mal. E até de me perguntar: que tipo de substância gera o organismo para nos impor a capacidade de ser incoerentes com a história de defesa da coerência progressista pela qual sempre optamos anteriormente?

     Ou pior: será que os regimes autoritários, pelo que produzem de execrável, podem permitir a confusão que permita ocultar, num “revolucionário libertário”, um verdadeiro liberal radical de direita? Pró-regime capitalista? Penso que foi em Thomas Mann que li algo a respeito. 

     Afinal, entre eles, era eu o “reformista” do Partidão, que não mostrava, como eles, simpatia pela alternativa – corajosa, legítima, mas já então visivelmente voltada ao fracasso – da luta armada.

     Não são poucos os meus amigos, ou camaradas, ou as duas coisas simultaneamente, de então, atualmente mergulhados nesse retrocesso de consciência. 

     De negação prática do que antes defendiam de forma radical. 

     O que hoje, depois da partida dos insubstituíveis Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho, me faz sentir quase solitário em minha geração. A me ver dividindo intimidade e afinidade ideológica e política com companheiros de pelo menos 15 anos de diferença na idade. Alguns, até com meio século de distância.

     Mas não vou me manter na lamentação. Porque isto também é bom pois me dá o sentimento de que toda uma vida de lutas não foi em vão. Gente muito melhor e mais capaz do que eu está vindo por aí. O que garante sentido quando termino minhas ranzinzices com um Luta que Segue! Fui.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Fotografia manipulada - por Michał Karcz (Site homônimo)

Sobre a manifestação de hoje em Vitória

     Hoje o protesto contra o senhor Temer vinha tranquilo, desde a UFES até a Assembleia Legislativa. Chegando lá, quando os manifestantes ocuparam as escadarias, sem ocorrência de nenhuma ordem, a tropa de choque partiu com tudo pra cima, de maneira completamente desnecessária. Fosse manifestação para defender o status quo, fosse para defender pautas que atentam contra o próprio povo, fosse manifestação de fascistas, com certeza o tratamento seria outro.

     Virou uma praça de guerra, foi tiro e porrada, bomba e gás pra todo lado.

     Obviamente, só nos restou reagir. Pedrada cantou solta (sinto que estou um pouco velho pra isto).

     Mas, a despeito de tudo, não teve arrego.

     Salve o poder popular.


P.S.: Temer diz querer “pacificar” o país, enquanto simultaneamente quer levar a aposentadoria de todos nós (acordem enquanto é tempo, companheiros) para – no mínimo – 65 anos, esta entregando a maior riqueza da história do nosso país que é o pré-sal às petrolíferas estrangeiras, um crime maior do que a venda da Vale. E, como se não bastasse, destrói a EBC, congela os gastos em saúde, educação, segurança para canalizar toda a renda nacional a banqueiros e rentistas; acaba com o Ciência sem Fronteiras, acaba com o Minha Casa, Minha vida, nomeia a pior escumalha possível para os ministérios (José Serra, Geddel Vieira Lima, Eliseu Padilha, Moreira Franco, etc.), sempre mantendo, claro, a grande sombra de seu melhor amigo e contumaz parceiro de negócios, Eduardo Cunha – que segue operando normalmente.
     Como sabemos que sua relação com o Capiroto é bem próxima, vá pacificar o inferno, Temer. Aqui não vai ter descanso.   












   

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Barco perdido - por Miroslav Vajdić (Openphoto)

A farsa da democracia burguesa

     Sem a menor paciência para escrever aqui sobre os episódios dantescos dos últimos dias.

     Haveria muito o que dizer sobre os erros do Lula, da Dilma e do PT - especialmente os ocorridos em 2003 - e acertos que culminaram neste golpe patético. 

     Mas, em resumo, crer na farsa eleitoral, crer na democracia burguesa é coisa para os completos estultos. Há excessivas provas para ficar se apegando a um cadáver.

     A solução não passa por mais uma eleição em que o eleito não pode mudar nada. Mesmo que quisesse, mesmo que munido das melhores intenções, qualquer candidato de esquerda será confrangido por instituições que foram tomadas pelo fascismo. O Estado em todas as suas instâncias,  polícias, legislativo, judiciário na sua totalidade (passando pelo STF, MP, TCU, etc.), a grande mídia, a maior parte das igrejas,  enfim, com honrosas exceções, a totalidade da sociedade brasileira esta tomada pelo fascismo.

   A solução não passa por eleição, mas isto é pouco, é preciso avançar. Não basta a crítica. A solução verdadeira passa por uma revolução socialista. É preciso dizê-lo em alto e bom som, é preciso lutar por isto. Despudoradamente, de peito aberto, por um mundo melhor pra nós e nossos filhos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Fotografia - por Chelseas Flowercrow (site homônimo)

Cegueira e linchamento – por Raduan Nassar (Folha)

     O inglês Robert Fisk, em artigo no jornal londrino "The Independent", afirma que, segundo as duras conclusões do relatório Chilcot sobre a invasão do Iraque, o ex-primeiro ministro Tony Blair e seu comparsa George W. Bush deveriam ser julgados por crimes de guerra, a exemplo de Nuremberg, que se ocupou dos remanescentes nazistas.

     O poodle Blair se deslocava a Washington para conspirar com seu colega norte-americano a tomada do Iraque, a pretexto de este país ser detentor de armas de destruição em massa, comprovado depois como mentira, mas invasão levada a cabo com a morte de meio milhão de iraquianos.

     Antes, durante o mesmo governo Bush, o brutal regime de sanções causou a morte de 1,7 milhão de civis iraquianos, metade crianças, segundo dados da ONU.

     Ao consulado que representava um criminoso de guerra, Bush, o então deputado federal Michel Temer (como de resto nomes expressivos do tucanato) fornecia informações sobre o cenário político brasileiro. "Premonitório", Temer acenava com um candidato de seu partido à Presidência, segundo o site WikiLeaks, de Julian Assange.

     Não estranhar que o interino Temer, seu cortejo de rabo preso e sabujos afins andem de braços dados com os tucanos, que estariam governando de fato o Brasil ou, uns e outros, fundindo-se em um só corpo, até que o tucanato desfeche contra Temer um novo golpe e nade de braçada com seu projeto de poder – atrelar-se ao neoliberalismo, apesar do atual diagnóstico: segundo publicação da BBC, levantamento da ONG britânica Oxfam, levado ao Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, a riqueza acumulada pelo 1% dos mais ricos do mundo equivale aos recursos dos 99% restantes. Segundo o estudo, a tendência de concentração da riqueza vem aumentando desde 2009.

     O senador Aloysio Nunes foi às pressas a Washington no dia seguinte à votação do impeachment de Dilma Rousseff na exótica Câmara dos Deputados, como primeiro arranque para entregar o país ao neoliberalismo norte-americano.

     Foi secundado por seu comparsa tucano, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também interino-itinerante que, num giro mais amplo, articula "flexibilizar" Mercosul, Brics, Unasul e sabe-se lá mais o quê.

     Além de comprometer a soberania brasileira, Serra atira ao lixo o protagonismo que o país tinha conseguido no plano internacional com a diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, retomando uma política exterior de vira-lata (que me perdoem os cães dessa espécie; reconheço que, na escala animal, estão acima de certos similares humanos).

     A propósito, o tucano, com imenso bico devorador, é ave predadora, atacando filhotes indefesos em seus ninhos. Estamos bem providos em nossa fauna: tucano, vira-lata, gato angorá e ratazanas a dar com pau...

     Episódio exemplar do mencionado protagonismo alcançado pelo Brasil aconteceu em Berlim (2009), quando, em tribunas lado a lado, a então poderosa Angela Merkel, depois de criticar duramente o programa nuclear do Irã, recebeu a resposta de Lula: os detentores de armas nucleares, ao não desativá-las, não têm autoridade moral para impor condições àquele país. Lula silenciou literalmente a chanceler alemã.

     Vale também lembrar o pronunciamento de Lula de quase uma hora em Hamburgo (2009), em linguagem precisa, quando, interrompido várias vezes por aplausos de empresários alemães e brasileiros, foi ovacionado no final.

     Que se passe à Lava Jato e a seus méritos, embora supostos, por se conduzirem em mão única, quando não na contramão, o que beira a obsessão. Espera-se que o juiz Serio Moro venha a se ocupar também de certos políticos "limpinhos e cheirosos", apesar da mão grande do inefável ministro do STF Gilmar Mendes.

     Por sinal, seu discípulo, o senador Antonio Anastasia, reproduz a mão prestidigitadora do mestre: culpa Dilma e esconde suas exorbitantes pedaladas, quando governador de Minas Gerais.

     Traços do perfil de Moro foram esboçados por Luiz Moniz Bandeira, professor universitário, cientista político e historiador, vivendo há anos na Alemanha. Em entrevista ao jornal argentino "Página/12", revela: Moro esteve em duas ocasiões nos EUA, recebendo treinamento. Em uma delas, participou de cursos no Departamento de Estado; em outra, na Universidade Harvard.

     Segundo o WikiLeaks, juízes (incluindo Moro), promotores e policiais federais receberam formação em 2009, promovida pela embaixada norte-americana no Rio.

     Em 8 de maio, Janio de Freitas, com seu habitual rigor crítico, afirmou nesta Folha que "Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador, talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo".

     Lula não assumiu a Casa Civil, foi rechaçado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Gilmar Mendes, um goleirão sem rival na seleção e, no álbum, figurinha assim carimbada por um de seus pares, Joaquim Barbosa, popstar da época e hoje estrela cadente: "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro... Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar".

     Sugiro a eventuais leitores, mas não aos facciosos que, nos aeroportos, torciam o nariz ao ver gente simples que embarcava calçando sandálias Havaianas, que acessem o site Instituto Lula – o Brasil da Mudança.

     Poderão dar conta de espantosas e incontestes realizações. Limito-me a destacar o programa Luz para Todos, que tirou mais de 15 milhões de brasileiros da escuridão, sobretudo nos casebres do sertão nordestino e da região amazônica. E sugiro o amparo do adágio popular: pior cego é aquele que não quer ver.

     A não esquecer: Lula abriu as portas do Planalto aos catadores de matérias recicláveis, profissionalizando-os, sancionou a Lei Maria da Penha, fundamental à proteção das mulheres, e o Estatuto da Igualdade Racial, que tem como objetivo políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e combate à discriminação.

     Que o PT tenha cometido erros, alguns até graves (quem não os comete?), mas menos que Fernando Henrique Cardoso, que recorria ao "Engavetador Geral da República", à privataria e a muitos outros expedientes, como a aventada compra de votos para sua reeleição.

     A corrupção, uma enfermidade mundial, decorre no Brasil do sistema político, atingindo a quase totalidade dos partidos. Contudo, Lula propiciou, como nunca antes, o desempenho livre dos órgãos de investigação, como Ministério Público e Polícia Federal, ao contrário do que faziam governos anteriores que controlavam essas instituições.

     A registrar ainda, por importante: as gestões petistas nunca falaram em "flexibilizar" a CLT, a Previdência, a escola pública, o SUS, as estatais, o pré-sal inclusive e sabe-se lá mais o quê, propostas engatilhadas pelos interinos (algumas levianamente já disparadas), a causar prejuízo incalculável ao Brasil e aos trabalhadores.

     Sem vínculo com qualquer partido político, assisto com tristeza a todo o artificioso esquema de linchamento a que Lula vem sendo exposto, depois de ter conduzido o mais amplo processo de inclusão social que o Brasil conheceu em toda a sua história.

RADUAN NASSAR, 80, é autor dos livros "Lavoura Arcaica" (1975), "Um Copo de Cólera" (1978) e "Menina a Caminho e Outros Textos" (1997). Recebeu neste ano o Prêmio Camões, principal troféu literário da língua portuguesa