quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Wall Street: Rompendo 30 anos de controle sobre a imaginação humana

Occupy Wall Street redescobre a imaginação radical

David Graeber, no jornal britânico Guardian

Os jovens que protestam em Wall Street e além rejeitam esta ordem econômica vã. Eles vieram para resgatar o futuro

Por que as pessoas estão ocupando Wall Street? Por que a ocupação — apesar da mais recente repressão policial — espalhou fagulhas através dos Estados Unidos, inspirando em alguns dias centenas de pessoas a mandar pizzas, dinheiro, equipamento e, agora, a começar seus próprios movimentos chamados OccupyChicago, OccupyFlorida, Occupy Denver ou Occupy LA?

Existem razões óbvias. Estamos vendo o começo de uma desafiadora auto-afirmação de uma nova geração de norte-americanos, uma geração que está vendo um futuro de educação sem emprego, sem futuro, mas sob o peso de uma dívida enorme e sem perdão. A maioria, descobri, é da classe trabalhadora ou de origem modesta, meninos e meninas que fizeram tudo o que foi recomendado a eles: estudaram, entraram na faculdade, e agora não apenas estão sendo punidos, mas humilhados — diante da perspectiva de serem tratados como zeros à esquerda, moralmente reprovados.

É realmente surpreendente que eles gostariam de trocar uma palavra com os magnatas financeiros que roubaram seu futuro?

Assim como na Europa, estamos vendo o resultado colossal de um fracasso. Os ocupantes são pessoas cheias de ideias, cujas energias uma sociedade saudável deveria aproveitar para melhorar a vida de todos. Em vez disso, elas estão usando a energia em busca de ideias para derrubar todo o sistema.

Mas o fracasso maior aqui é da imaginação. O que estamos testemunhando pode ser também uma demanda para finalmente ter um debate que todos nós supostamente deveríamos ter tido em 2008. Aquele era um momento, depois do quase-colapso da arquitetura financeira do mundo, em que qualquer coisa parecia possível.

Tudo o que havia sido dito a nós nas décadas anteriores provou-se mentira. Os mercados não eram auto-reguláveis; os criadores de instrumentos financeiros não eram gênios infalíveis; e as dívidas não tinham de ser verdadeiramente pagas — na verdade, o dinheiro em si mostrou-se um instrumento político, trilhões de dólares podendo ser inventados durante a noite quando os bancos centrais ou governos assim quisessem. Mesmo a [revista britânica] Economist deu manchetes como “Capitalismo: Foi uma boa ideia?”.

Parecia o tempo para repensar tudo: a própria natureza dos mercados, do dinheiro, da dívida; de se perguntar para que serve uma ‘economia’. Isso durou talvez duas semanas. Então, numa das mais colossais faltas de coragem histórica, nós todos, coletivamente, colocamos nossas mãos sobre as orelhas e tratamos de tentar colocar as coisas o mais próximas do que tinham sido antes.

Talvez não seja surpreendente. Está se tornando crescentemente óbvio que a verdadeira prioridade daqueles que dirigiram o mundo nas últimas décadas não era criar uma forma viável de capitalismo, mas, em vez disso, nos convencer de que a atual forma de capitalismo é a única forma possível de sistema econômico, e que seus defeitos, portanto, são irrelevantes. Desta forma, todos assistimos sentados enquanto o aparato desaba.

O que aprendemos agora é que a crise econômica dos anos 70 na verdade nunca acabou. Foi superada com crédito barato e pilhagem maciça no Exterior — esta última, de nome “crise da dívida do Terceiro Mundo”. Mas o sul global lutou de volta. O movimento de ‘alter-globalização’ foi, no fim das contas, bem sucedido: o Fundo Monetário Internacional foi expulso do Leste da Ásia e da América Latina, assim como agora está sendo expulso do Oriente Médio. Como resultado, a crise da dívida chegou à Europa e à América do Norte, repleta do mesmo tipo de solução: declare uma crise financeira, indique tecnocratas supostamente neutros para gerenciá-la e em seguida se engaje numa orgia de pilhagem em nome da ‘austeridade’.

A forma de resistência que emergiu parece marcadamente similar ao velho movimento de justiça global, também: vemos a rejeição da antiga política partidária, a adoção da mesma diversidade radical, a mesma ênfase em inventar novas formas de democracia de baixo para cima. O que é diferente é o alvo: se em 2000 os protestos eram dirigidos ao poder das novas burocracias planetárias sem precedentes (Organização Mundial do Comércio, FMI, Banco Mundial, Nafta), instituições que não prestavam contas democraticamente, que existem apenas para servir aos interesses do capital transnacional; agora, é contra toda a classe política de países como a Grécia, a Espanha e agora, os Estados Unidos — exatamente pelas mesmas razões. É por isso que os manifestantes tem hesitado em fazer demandas formais, já que isso significa o reconhecimento implícito dos políticos contra os quais eles se revoltam.

Quando a história for finalmente escrita, no entanto, é provável que todo este tumulto — começando com a Primavera árabe — será lembrado como o tiro de largada de uma onda de negociações sobre a dissolução do Império Norte-Americano. Trinta anos de insistente prioridade na propaganda sobre a substância, do solapamento de qualquer coisa que pudesse parecer base política de uma oposição, pode fazer parecer aos jovens manifestantes que suas perspectivas são sombrias; e está claro que os ricos estão determinados a garantir uma fatia tão grande quanto possível das sobras, jogando uma geração inteira de jovens aos lobos para garantir isso; mas a História não está do lado deles.

Talvez seja bom a gente considerar as consequências do colapso dos impérios coloniais europeus. Não levou ao sucesso dos ricos em agarrar toda a comida disponível, mas à criação do estado de bem-estar social. Não sabemos exatamente o que vai acontecer agora. Mas se os ocupantes finalmente conseguirem romper o controle exercido durante 30 anos sobre a imaginação humana, como aconteceu nas primeiras semanas depois de setembro de 2008, tudo vai novamente estar em jogo — e os manifestantes de Wall Street e de outras cidades dos Estados Unidos terão feito por nós o maior dos favores.

PS do Viomundo: O movimento já atingiu 1015 cidades dos Estados Unidos.

Movimentos refletem era de exclusão, diz sociólogo – por Eleonora De Lucena (Folha de São Paulo)

Movimentos que aparecem e desaparecem, fluidos e persistentes. Fragmentados, gravitam em torno dos excluídos do capitalismo. Assim, Michael Burawoy, presidente da Associação Internacional de Sociologia, explica os movimentos sociais que pipocam no mundo e o recente Ocupe Wall Street.

Para o professor de sociologia na Universidade da Califórnia em Berkeley, que já trabalhou como operário para fazer suas pesquisas, a atual crise econômica vai ajudar o capitalismo a se reestruturar. E prevê que a catástrofe ambiental "vai forçar uma resposta a nível global".

Nesta entrevista ele compara os movimentos com o Maio de 68, fala do poder dos EUA e faz uma avaliação da China. "Acho que o Estado chinês é o mais brilhante do mundo. É incrivelmente sensível e flexível", afirma.

Ele estará no Brasil para a reunião anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), que acontece de 24 a 28 de outubro em Caxambu (MG).

Sobre sua profissão, sugere: "Acho que todos os acadêmicos como eu deveriam compulsoriamente passar um tempo em fábricas ou em situações similares, onde serão humilhados rotineiramente".

*

Folha - Como descreve o capitalismo hoje?
Michael Burawoy - É a terceira onda de mercadilização. A primeira foi no século 19 que espalhou o mercado pelo mundo, outra no século 20 e agora a terceira onda. A mudança começou nos anos 1970. Muitos chamam de neoliberalismo, mas pode confundir com ideologia. Prefiro chamar de terceira onda de mercadilização, a partir dos EUA e da Grã-Bretanha. Vivemos numa era de capitalismo de mercado. A queda da URSS renovou as energias, porque sugeriu que alternativas ao capitalismo não existem. A elite pós-soviética que tomou o poder abraçou o mercado com fervor revolucionário. A China hoje parece abordar o mercado de uma maneira diferente, embora seja muito comprometida com as economias centrais de mercados desregulados. O mundo virou pró-mercado e talvez a América Latina seja o lugar mais interessante de resistência a essa onda.

Mas hoje não há uma crise enorme, de fundo?
Não chamaria de crise de fundo. O significado das crises é que elas permitem o capitalismo reestruturar a si mesmo. Na crise de 2008 nos EUA, quando Obama chegou ao poder, muitos pensaram que haveria alguma mudança contra o mercado. Mas não aconteceu. O capitalismo se reestruturou e aprofundou a mercadilização. E o capital financeiro se fortaleceu. Os Estados salvaram os bancos. Dizíamos que era o socialismo para os ricos. A crise existe, mas não é uma oportunidade para progressivas transições ou transformações, mas reestruturar o capitalismo.

E para que direção vai a reestruturação agora?
O capitalismo financeiro ficou ainda mais forte, essencialmente fora do controle dos Estados individualmente. Acontece nos EUA, na Europa, com a desregulação. Nos anos 30 era possível para os Estados conter e redirecionar o capitalismo. Hoje é difícil para os Estados fazerem isso. É uma pergunta aberta se Estados e regiões poderão fazer isso hoje. Eles têm dificuldade em conter a crise nesse momento.

O que poderá ser feito?
Os mercados vão continuar do seu jeito. A grande crise do capitalismo virá quando chegar a catástrofe ambiental. Penso que haverá desastres cada vez mais frequentes e profundos. Haverá um momento de virada na história, uma espécie de barbárie ou alguma forma de regulação global dos mercados. Pode não é um cenário muito positivo. Regulação de mercados pode ter um caráter fascista ou comunista ou social-democrata. Não se sabe. A reação contra os mercados pode tomar muitas formas de regulação. Precisaria ter um caráter global por causa da catástrofe ambiental de proporção global. Outra questão é se teremos recursos para de fato conter o capitalismo. Não sei quando isso acontecerá, mas essa será a crise de fundo do capitalismo: destruir as condições de sua própria existência, destruindo o ambiente, modificando condições que nunca deveriam ter sido modificadas.

E o poder das finanças vai diminuir?
Sim, se houver um movimento contra essa terceira onda de mercadilização, deve haver um movimento contra o capitalismo financeiro. Também operando de forma global. É difícil para os Estados regularem o capital financeiro. Precisa ser um movimento global. Pode ser uma cooperação global de Estados ou movimentos sociais que perpassem fronteiras nacionais. O movimento contra o capitalismo financeiro de hoje precisaria ter uma proporção global. Isso é muito difícil, porque estamos trancados em políticas nacionais. Transcender isso é muito difícil. Essa herança de Estados forte é uma contenção nacional.

Mas há agora movimentos na Europa, no Norte da África, no Oriente Médio, nos EUA, o Ocupe Wall Street. Eles têm pontos em comum?
Sim. É interessante ver como são similares. Estive em Barcelona e vi os indignados. Agora também em Wall Street. São muito similares. Resistem a se engajar no sistema político, em levantar temas políticos. Isso reflete a ubiquidade dessa forma do capitalismo financeiro expressa. Política estatal, políticos locais não conseguem lidar com isso. É reconhecimento de que as novas formas de capitalismo não podem ser facilmente contidas pelos canais políticos normais. Todos esses movimentos refletem uma era de exclusão. Se você olha para os participantes desses movimentos eles são os excluídos, não são muito os explorados. O centro de gravidade desses movimentos são os excluídos, os desempregados, estudantes semiempregados, juventude desempregada, membros precários da classe média até. É um conglomerado de grupos diferentes todos vivendo um estado de precariedade porque foram excluídos da possibilidade de ter uma posição estável de exploração. Hoje a exploração, o dinheiro seguro é um privilégio para poucos. Muitos querem fazer parte da exploração para ter uma renda estável. Os políticos de hoje giram em torno de uma aristocracia de explorados. Isso no mundo todo, com diferenças. Na Espanha há os indignados, muito organizados nas praças. Organizam assembleia, sua forma de democracia participativa, nas praças dos centros das principais cidades. Na Inglaterra houve mais revoltas, o que reflete 30 anos de vazio na sociedade civil de lá. A direção desses movimentos está muito ligada à relação com o movimento sindical oficial. Nesta semana uma central sindical aderiu ao Ocupe Wall Street. O movimento sindical tem um papel importante no Egito e na Tunísia. Acho que o centro de gravidade dos trabalhadores está mudando das centrais que representam que representam os explorados, para os despossuídos.

Qual o futuro dos movimentos se sua organização é muitas vezes confusa?
Na minha opinião esses movimentos não são muito fortes, mas são persistentes. São oposições radicais. É uma das reações à terceira onda de mercadilização. Mas há muitas outras. Aqui há o Tea Party, os republicanos direitistas, que são uma outra forma de reação ao mesmo fenômeno. Na Europa há um avanço da direita, que é uma outra reação. Na América Latina há interessantes experiências de participação em democracias em nível local. Também é uma resposta à terceira onda de mercadilização. Há a resposta islâmica. Há o estado iraniano de um lado e o turco de outro. São diferentes, mas respostas ao mesmo fenômeno. Mas nenhuma dessas respostas tem uma coerência para se espalhar pelo mundo todo. São respostas fragmentadas. Essas respostas vão continuar, algumas de forma mais regressiva, ou progressista, ou emancipativa, ou democrática. Temos que esperar para ver qual delas vai assumir uma força dominante. No fim, acho que a crise ambiental vai forçar uma resposta a nível global. Mas por enquanto é muito fragmentada. As centrais sindicais reclamam que fizeram esse protestos antes, e ninguém deu atenção para eles. O interessante é que parte desses novos movimentos é a política simbólica. Eles têm a capacidade de atrair atenção para eles, usando técnicas inovadoras. Recusam fazer compromissos e concessões. Estão sendo muito bem sucedidos simbolicamente. A pergunta é se eles conseguiram transformar essa política simbólica em um movimento mais profundo. É fascinante. Não é muito forte. São poucos milhares pelo país. O que é significativo é o caráter simbólico. É uma posição muito clara que vivemos num período do capitalismo em que o bem estar está fora de controle e o estado frustra. É um ataque central ao âmago do capitalismo. O movimento sindical está numa posição mais defensiva, pois querem defender empregos e não de fato atacar o capitalismo. A significância não é de números, mas simbólica na crítica ao capitalismo.

E os partidos políticos tradicionais são totalmente por fora disso?
Sim, completamente. Os republicanos acusam os manifestantes de fomentar o choque de classes. Claro, que estão fomentando choque de classes contra o capitalismo. Eles dizem isso para tentar deslegitimizar o movimento imediatamente. Isso pode ser verdade para parte da população norte-americana.

Mas esse movimento pode ter alguma influência dentro do partido democrata, assim como o Tea Party tem no partido republicano, para revitalizar o partido e conquistar algo de efetivo?
Acho que o partido democrata deve ser revitalizado, mas isso não está na pauta do movimento. É uma política formal com a qual eles não vão se engajar. Podem estimular mudanças no partido democrático? Eu pessoalmente duvido. Isso é tão profundamente diferente do partido democrata. Esse movimento também expressa a desilusão com a administração Obama.

Mas esse movimento pode ter alguma importância nas eleições do ano que vem?
Suspeito que pode. Pode ser explorado o fato de ser um ano eleitoral e pode engajar políticos. Podem usar o ano eleitoral para disseminar suas ideias. Mas não imagino que vão se candidatar. Não é um movimento de política eleitoral. É distante da política eleitoral. A questão é como movimentos assim desligados das principais instituições da sociedade podem sobreviver. Acho que é o seguinte: eles aparecem, se sustentam por algumas semanas ou meses. Depois perdem a atenção da mídia, perdem o apoio, desaparecem. E depois reaparecem. É um processo contínuo de aparecimento e desaparecimento. É como se houvesse um movimento giratório pelo mundo. Esses movimento aparecem por causa de alguma fagulha, um incidente qualquer, e se sustentam por algumas semanas, desaparecem e aparecem em algum outro lugar. Há um senso de continuidade, mas não num mesmo lugar. É um movimento transespacial dessa forma. Fundamentado muito por razões locais, mas transespacial.

Tudo isso é muito novo, não?
Sim, mas é preciso ver tudo isso no contexto do capitalismo. É um movimento muito fluido e flexível. Fui a Wall Street alguns dias atrás. Dá para ver que é fluído e flexível. Eu estava lá e nem sabia que haveria uma marcha. Há espontaneidade, flexibilidade. É fascinante. Aparecer, desaparecer. É parte de sua força e de sua fraqueza.

Nesse contexto, crescem as ideias de esquerda?
Sim, os participantes são de esquerda, são radicais democratas participativos, que preferem estruturas horizontais a verticais. Protestam contra o capitalismo que enxergam ao seu redor. Tudo acontece de forma muito transparente. É uma antítese da terceira onda de mercadilização. Mas quero enfatizar que não é a única reação a esse fenômeno do capitalismo. Há reações à direita também, com fundamentos mais autoritários. Os indignados também são uma forma democrática de política. Não sei se pretendem usar a palavra socialismo. Democracia é a palavra. Já os estudantes, como no Chile, também estão protestando contra essa onda do capitalismo, que essencialmente privatizou as universidades. Não só isso, mas a produção de conhecimento se tornou um projeto comercial e isso significa que se você quer educação precisa pagar por isso. Vi isso recentemente na Ucrânia, onde os estudantes estão protestando. E o movimento estudantil é claramente contra isso, contra a comercialização da universidade. Os países podem ter abraçado o mercado, mas os estudantes reconhecem as enormes limitações e o que o mercado significa para eles. No período soviético a educação era gratuita. Ninguém imaginava a privatização da educação. O mundo pós-soviético era para ser de emancipação. Mas eles verificaram rapidamente que não houve solução para os problemas que a planificação soviética criou. É também um problema sociológico. Também o movimento estudantil é fragmentado, aparecendo e desaparecendo, tentando construir algo pelo mundo com os temas em comum, mas é muito difícil ainda. É frágil, mas persistente.

O sr. faz alguma comparação com maio de 68?
Não, é um mundo diferente. Maio de 68 foi o fim da era de Keynes, uma reação à segunda onda de mercadilização. Era o período de Keynes na economia, as universidades eram entendidas como instituições públicas, a economia de mercado era regulada. As lutas tinham um caráter muito diferente. Hoje as lutas são defensivas do ponto de vista do interesse material. Uma defesa contra o mercado. Em 68 tiveram um caráter mais político do que econômico. Nos EUA havia a luta pelos direitos civis, pelo direito de liberdade de expressão, contra a guerra do Vietnã. Em Paris, o Maio de 68 foi também uma luta política. Hoje os estudantes estão enfrentando uma situação econômica impossível. Os estudantes não estão ganhando a luta pela defesa de seus interesses econômicos, em defesa da universidade pública, em defensa da educação semigratuita.

O que o sr. acha do papel da China?
Eu vi a transição na Rússia. Do Estado socialista para a economia de mercado. A estratégia era muito simples: destruir tudo do passado. Tudo que tinha a ver com coletivização, planificação da economia, destruir, destruir, destruir. E fizeram isso com o Estado: destruir, destruir. Achavam que se destruíssem o passado, destruíssem as instituições do Estado, as regulações do mercado, a economia de mercado iria chegar espontaneamente ao paraíso. Mas o que ocorreu foi que não chegou ao paraíso, mas, de fato, ao inferno. A economia russa afundou de uma maneira nunca vista em tempos de paz no século 20. É um contraste. Enquanto a Rússia caia, a China estava se expandindo e crescendo nos anos 1990 e até hoje. Isso porque a China não disse: destruir, destruir. Disse: vamos construir o mercado com a moldura da regulação de mercado, na moldura do partido de Estado. Assumiram que os mercados precisam de instituições para que funcionem de maneira efetiva. Acho que os terapeutas de choque, das teorias de big-bang no que era a antiga URSS não entenderam que os mercados não cresceram como mercados. É preciso ter instituições. Os chineses entenderam isso. A transição deles foi alimentar, incubar os mercados na moldura do partido de Estado. E eles foram extremamente bem sucedidos e continuam a sê-lo. O problema deles é que ser tão bem sucedido também gera todo o tipo de tensões. Particularmente os diferentes níveis de iniquidade, entre áreas rurais e urbanas, entre classes, entre ocupações. A questão é se os chineses podem conter essas tensões e conflitos gerados pelo sucesso do modelo econômico. Acho que o Estado chinês é o mais brilhante do mundo. É incrivelmente sensível e flexível. Sabe exatamente onde novos conflitos vão aparecer e tem uma enorme capacidade de contornar esses conflitos, ora criando um aparato legal de flexibilização dentro da arena legal, ora fazendo concessões econômicas. Há uma enorme máquina, uma série de estratégias para diluir os conflitos. Ninguém sabe até quando isso vai durar, mas eles têm sido bem sucedidos até agora. Eles estão fazendo uma mudança lenta das fábricas das áreas da costa para as áreas mais baratas do interior. Novas cidades são criadas do dia para a noite. Alguns capitais acham muito caro e vão para o Camboja ou Taiwan. Há uma reestruturação do capital na China. Há estudos sobre a ida dos capitalistas chineses para a África. E eles exploraram as riquezas de lá de modo muito diferente do das empresas capitalistas do Ocidente. Eles têm um tempo muito maior. Uma das características do capitalismo é o curto prazo, o lucro imediato. Então, quando o preço do cobre vai para baixo, saem da Zâmbia. Mas os chineses não vão embora. Eles vão ficar e olhar para o longo prazo porque eles têm a retaguarda do Estado. Eles têm uma visão melhor do que precisam para o futuro, o que significa muitos recursos naturais. Estão tomando conta silenciosamente de várias partes do mundo, direta ou indiretamente, sem ambições políticas.

O poder os EUA está caindo?
É difícil de responder, porque é difícil o significado de poder. A economia não está numa boa forma, mas é uma economia extremamente forte. Politicamente é muito poderosa. Mas acho que está enfrentando um super estresse, não sabendo como lidar com os conflitos que emergem no mundo, mas ainda consegue manter pontos cruciais, o principal deles é Israel. Manter Israel é sempre uma condição sine qua non na geopolítica. Mas é difícil responder a pergunta porque o poder é multidimensional.

O sr. acha que Obama será reeleito?
É muito cedo para dizer, mas diria que sim.

O sr. fez um trabalho interessante atuando como operário. O que pode dizer sobre isso e sobre os seus projetos atuais?
Eu não trabalho mais como operário.

Sente falta?
Não. Odiei cada momento. Acho que todos os acadêmicos como eu deveriam compulsoriamente passar um tempo em fábricas ou em situações similares, onde serão humilhados rotineiramente. Estou estudando minha própria fábrica agora que é a universidade. Esse é o meu projeto: estudar universidades em crise pelo mundo afora. É entender o que acontece com as universidades, como elas lidam com as pressões do mercado de um lado e do Estado de outro. A maioria das universidades está em crise. Há uma comercialização da produção do conhecimento e do consumo do conhecimento.

Comentário
Sou operário. 
Escuso-me de comentar a respeito.

Clichês da imprensa sobre greve: banqueiro$ mocinhos, bancários vilões - por Claudio Ribeiro (Palavras Diversas)



Por que grevistas são demonizados pela imprensa?

A greve dos bancários tem se prolongado por causa de uma difícil negociação da pauta de reivindicações dos trabalhadores desta categoria e pela intransigência patronal em negociar, revela, também, o quanto ainda persiste um modelo atrasado de concentração absurda de renda nas mãos de poucos executivos, em detrimento do trabalho da maioria trabalhadora.

Mas o que se vê na mídia em geral sobre a greve dos bancários, principalmente na TV, é um apelo demasiado ao telespectador contra os grevistas, com histórias do cotidiano em que mostram o quanto o cidadão comum é prejudicado pelas paralisações.

É óbvio que, qualquer movimento grevista, causa algum prejuízo à sociedade e esta ferramenta só é utilizada em última instância, justamente, para pressionar patrões e mostrar a população o quanto seus serviços são importantes e que merecem ser mais valorizados.
Da maneira como a cobertura jornalística é feita, fica a impressão que é um instrumento banal, acionado por qualquer motivo insignificante, apenas para causar prejuízos.

A imprensa constrói uma imagem de baderneiros sem causa e vagabundos irresponsáveis.
As pautas são subvalorizadas e as falas das lideranças grevistas contrapostas de maneira desigual com o discurso do apelo racional dos patrões, que sempre evocam o momento instável da economia global e a dificuldade em cumprir reivindicações radicais, declarando, finalmente, que as últimas negociações tem havido avanços importantes.

Conflito de intere$$e$

Em vários momentos é possível perceber, pela condução do noticiário das greves, o quão injusta é a luta pelo acordo entre as partes. Os bancos brasileiros obtêm, ano após ano, lucros exorbitantes e mantém um ritmo de intenso de redução de postos de trabalho causada pela automação dos serviços.

Mas esta pauta não é discutida ou anunciada pela imprensa, com o devido destaque que deveria ter. Não há, na cobertura da imprensa, uma análise honesta da perda da massa salarial de categorias que contribuem para o aumento substancial dos lucros das empresas em que trabalham.

A realidade destes trabalhadores não é explorada para mostrar as pessoas comuns o quanto, de acordo com os lucros que ajudam a constituir, são mal remunerados.

Os bancários pedem 11% de reajuste salarial e pagamento de PLR maior, proporcional ao aumento dos ganhos do setor, entre outros itens. Porém, o que não é dito é que o crescimento médio dos lucros dos maiores bancos do país superou os 20% se comparado a 2010, que já havia sido um ótimo ano.

Já os bônus pagos aos executivos cresce, desproporcionalmente aos salários dos empregados, somente o exemplo do Itaú torna evidente a falta de compromisso em tornar justa a distribuição dos ganhos obtidos para todos: A cada membro da diretoria, conforme anunciado, será pago R$5,84 milhões no ano, ou seja, 221 vezes a mais do que o piso do bancário, incluindo PLR e ticket !

Talvez o fato dos bancos serem os maiores patrocinadores de programas jornalísticos da TV brasileira explique, em parte, tamanha má vontade da imprensa contra o movimento grevista dos bancários. O Jornal Nacional, jornalístico de maior audiência da TV aberta brasileira, é patrocinado pelo Bradesco e o Jornal da Globo, pelo Itaú, futebol e Fórmula 1 também possuem patrocínios significativos dos maiores bancos privados do país.

Há certo deboche na divulgação de matérias quando trabalhadores exigem aumento real nos salários, muitas vezes menores que o aumento dos lucros na atividade em que exercem suas funções.

Cobertura de greves com viés político

Até 2002 os movimentos grevistas eram utilizados pela imprensa para amedrontar a classe média brasileira contra a CUT, o PT e Lula, quando as eleições se aproximavam a pauta era recheada de paralisações, país afora, para mostrar o quê seria do país se a esquerda chegasse ao poder: uma ditadura do proletariado...

Os contextos econômico e social eram extremamente adversos, os movimentos grevistas explodiam para resguardar direitos trabalhistas, ameaçados seriamente pelas reformas neoliberais em curso e para preservar minguados e pouco remunerados postos de trabalho.

A chegada ao poder de Lula reverteu isto e hoje os movimentos dos trabalhadores tem como principal pauta dos acordos a valorização da massa salarial do trabalhador brasileiro, como recompensa do esforço de categorias que elevaram economia brasileira da décima primeira para a sétima maior do planeta, o que torna justo e urgente receberem suas partes na produtividade que alcançaram coletivamente.

O governo estabeleceu, recentemente, uma política de valorização do salário mínimo que prevê somar a inflação do ano anterior com o crescimento do PIB de dois anos atrás, como forma de reconhecer a participação da força do trabalho no crescimento da economia do país.

“O Brasil precisa distribuir renda, e isso só acontece por força da mobilização dos trabalhadores por remuneração digna”, é o que defende Carlos Cordeiro, presidente da Contraf e coordenador do Comando Nacional dos Bancários e vai de encontro a este novo momento.

Com informações de agências.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Os urubus que pretendiam escolher o próximo presidente – por Greg Palast (Truthout – Vi o mundo)

O magnata dos fundos hedge Paul Singer gosta de comer carcaças em decomposição no café da manhã. O que ele mastiga e engole é de embrulhar o estômago, mas os convivas dele também provocam enjoo: os bilionários Ken Langone e os irmãos Koch, Charles e David.

Singer convocou reunião do clube dos meninos bilionários com o propósito de escolher o próximo presidente para nós. O estilo antigo de escolher presidentes – democracia, contagem de votos e tudo isso – nunca foi o favorito dessa turma. Posso falar isso com base nas minhas investigações sobre cada um destes cavalheiros para o The Guardian. Quando a Estátua da Liberdade tem pesadelos, ela sonha que esses caras vão se juntar para tomar a América através de um golpe de estado via dinheiro.

Benvindos ao pesadelo. Singer, Langone e os Koch decidiram, no mês passado, eleger Chris Christie para nós. A pseudo-campanha do governador de Nova Jersey naufragou antes de decolar. Mas isso não importa. Agora que a Suprema Corte efetivamente acabou com os limites de financiamento de campanhas e permitiu contribuições secretas através das corporações, essa nova combinação de ultra ricos não deve ser vista como apenas como uma ameaça aos Democratas e sim à Democracia.

Deixe-me apresentar uma lista dos arquivos que cheiram a enxofre desse homens que querem dar as cartas.

Bilionário 1: Ken Langone


Langone gosta de ser identificado como o fundador do Home Depot, um sujeito simples, de avental azul levando uma sacola de parafusos.

Mas ele também foi o homem, com seus colegas da extrema direita, por trás da Database Technologies (DBT). Foi na minha primeira investigação sobre o Langone, em 2000, que descobri que a DBT tinha criado uma lista de vários milhares de “criminosos” – quase todos negros, todos inocentes, todos eliminados das listas de eleitores da Flórida pela cliente da DBT, Katherine Harris. E a empresa do Langone sabia exatamente o que estava acontecendo.

O que qualifica o Langone para escolher nosso presidente? Nas palavres dele mesmo: “Eu sou doido, eu sou rico”.

Bilionários 2 e 3: David e Charles Koch

Você acha que já leu tudo sobre os irmãos bilionários. Bem, aqui vai mais:

Em 1996, Richard Elroy, agente do FBI, disse à minha equipe que petróleo havia sido roubado da reserva indígena Osage, em Oklahoma. Ele e outro homem filmaram o furto, segundo testemunhas pessoalmente encomendado por Charles Koch. Uns barris aqui, uns barris ali.

E foram somando: cerca de um bilhão e meio de barris de petróleo roubado, diz um especialista, um terço da fortuna dos Koch naquela época. David e Charles dividiram o produto do furto através da empresa privada deles, a Koch industries.

Bilionário 4: Paul Singer

Agora chegamos ao rei da carcaça, Paul Singer, conhecido como Singer O Urubu. Não fui eu que o apelidei. O nome Urubu foi dado a eles pelo primeiro ministro britânico e pelo Banco Mundial. Recentemente, o ex-enviado das Nações Unidas Winston Tubman sugeriu que eu perguntasse ao Singer ou aos sócios deles, “Você sabe que está provocando a morte de bebês?”

O que esse cara faz, bota veneno no leite das crianças? Pior: ele retira o leite.

O modus operandi do Singer é encontrar pequenas dívidas de nações pobres esquecidas (Peru e Congo estavam no cardápio dele). Ele espera os contribuintes dos Estados Unidos e da Europa perdoarem a dívida da nação pobre, depois espera um pouco mais pelas ofertas de ajuda em alimentos, medicamentos e empréstimos para investimentos. Aí Singer ataca. Legalmente, toma todos os recursos e todo o dinheiro que estava indo para o país em desespero. As trocas comerciais param, os fundos ficam congelados e toda a economia efetivamente se torna refém.

Singer, então, exige das nações que estão oferecendo ajuda que paguem regates monstruosos para permitir que as trocas comerciais recomecem. No programa Newsnight da TV BBC nós descobrimos que Singer exigiu 400 milhões de dólares do Congo por conta de uma dívida que ele comprou por 10 milhões de dólares. Se ele não recebe seus 4.000% de lucro, ele pode efetivamente matar a nação de fome. E eu não digo isso figurativamente – digo matar de fome, sem comida. No Congo-Brazzaville, no ano passado, um quarto de todas as mortes de crianças com menos de cinco anos de idade foram provocadas por má nutrição.

Para a BBC, tentei fazer ao Urubu Singer a pergunta do diplomata sobre a matança de bebês, mas não pude ir além de George Gershwin. (Na torre de Nova York que abriga o poleiro do bilionário, um sósia de Gershwin, de fraque e cartola, toca canções em um piano de calda para a entrada triunfal de Singer).

E não são apenas pobres carcaças africanas. Durante as investigações para o meu livro “Vulture’s Picnic” (em português seria piquenique do urubu), descobri que o primeiro grande ataque de urubu do Singer foi às vítimas americanas de amianto.

Pano de fundo: Os executivos de três empresas – a operadora de minas WR Grace, a construtora de chapas para revestimento de paredes USG e a empresa de materiais de construção Owens Corning – sabiam que a exposição ao amianto em suas operações estava matando os trabalhadores. Quando foram pegas e processadas, as empresas entraram com pedido de falência e concordaram em dar quase toda a receita bruta das operações às pessoas que estavam morrendo ou que ficaram doentes por causa do amianto.

Mas o Singer teve uma ideia melhor. Essas empresas, como você pode imaginar, valiam quase nada e o Singer comprou a Owens Corning por uns trocados.

Se ele pudesse reduzir o montante pago às vítimas, Singer poderia aumentar muito o valor da Corning. Então, começou a campanha de relações públicas, atacando os trabalhadores que estavam morrendo, dizendo que todos estavam fingindo.

Um dos atacantes era um cara chamado George W. Bush.

Em Janeiro de 2005, o presidente organizou um encontro televisionado para promover um “especialista” que declarou que mais de meio milhão de trabalhadores que processavam a indústria do Singer eram mentirosos. Se os trabalhadores não podiam respirar, ele disse ao presidente, não era culpa do amianto.

O “especialista” não era um médico mas, notavelmente, sua “pesquisa” foi em parte financiada por… Paul Singer. Como Bush também foi. Depois da morte de Ken Lay, da Enron, Singer e seu bando de urubus do fundo hedge Elliot International se tornaram os maiores contribuintes do Comitê Nacional Republicano. É difícil medir com precisão sua generosidade porque parte desta ajuda chega por portas laterais. Por exemplo, Singer colocou dinheiro na campanha difamatória do Swift Boat, contra o adversário de Bush, John Kerry. (Nota do Viomundo: o anúncio, na televisão, distorcia a atuação de Kerry na guerra do Vietnã).

O ataque legal, político e de relações públicos aos trabalhadores a beira da morte reduziu as compensações que seriam pagas pelas empresas de amianto, aumentando seu valor. Singer então revendeu a Corning com o belo lucro de um bilhão de dólares.

É legal. É brilhante. É doente. É Singer.

Um dos meus gols favoritos do Singer foi a trama bem sucedida para legalmente roubar o Tesouro do Peru.Um dos advogados americanos do país me disse, de boca aberta, como o Singer deixou o velhaco presidente do Peru, Alberto Fujimori, fugir do país para escapar de acusações de assassinato. Singer tomou o avião de Fujimori. E o urubu deu seu preço: um dos últimos atos de Fujimori como presidente antes de fugir foi fazer com que sua pobre nação pagasse 58 milhões de dólares ao Singer.

Por que os bilionários precisam comprar a Casa Branca

Um executivo da Koch Industries (ele não sabia que estava sendo gravado) disse que perguntou a Charles Koch, que já tinha um bilhão de dólares de herança, porque Koch estava usurpando alguns dólares, por semana, dos índios americanos. Koch disse a ele: “eu quero a minha justa parte, e é tudo isso”.

Tudo isso, claro, inclui a Casa Branca.

Colocar Bush na Casa Branca valeu ouro para esses cavalheiros – mais, na verdade. E agora, os Koch, Singer e Langone se juntaram para escolher um candidato que, rezam, possa tomar de volta o imóvel 1600 da Avenida Pensilvânia.

Langone

A lista de “criminosos” da empresa DBT, do Langone, incluía apenas pessoas inocentes por isso, certamente, você não encontraria ali o nome do Langone. Em 2004, o Procurador Geral de Nova York, Eliot Spitzer, apresentou acusação formal contra o Langone de conspiração, acusando o bilionário de subverter as investigações de reguladores da bolsa de valores sobre negócios suspeitos do banco de investimentos do Langone.

Um detalhe técnico encerrou a ação civil de conspiração.

Mas agora, a reforma bancária e de ações do Obama, apesar de fraca, dá aos reguladores novos poderes para manter um olho independente sobre as travessuras no mercado de ações. Para Langone, escolher o presidente significa cerrar o olho regulador.

Os Koch

Elroy, o homem do FBI, disse aos nossos investigadores que o Departamento de Justiça iria permitir que o FBI algemasse Charles Koch por conta da acusação de roubo do petróleo dos índios Osage. Porém, diz Elroy furioso, os amigos bem financiados pelos Koch, na época senadores Bob Dole e Don Nickles, entraram em cena – e Koch saiu livre. Sem acusação.

Dennis DeConcini, senador do Arizona na época, quis saber por que acusações civis ou criminais nunca foram apresentadas contra os Koch. Essa não era uma pergunta muito sábia. O senador me disse que os Koch ameaçaram destruí-lo politicamente no comitê do Congresso que ele presidia se ele fosse adiante com as investigações a respeito do roubo do petróleo dos indígenas. Ele continuou, mas sua carreira política não.

Durante o governo Clinton, as indústrias dos Koch foram acusadas criminalmente por violarem a Lei da Água Limpa. Sob o presidente Bush, as acusações, mas não a água, foram lavadas.

Em outras palavras, o crime paga bem – se você escolher quem vai ser o xerife.

Paul Singer

Paul Singer apostou pesado na indústria de amianto e depois foi arrumar o cassino, ajudando a instalar Bush na Casa Branca. Ou seja, ele tinha um presidente disposto a bater nos trabalhadores de amianto e apoiar a chamada “reforma ilícita” que solapou as alegações das vítimas. O que as vítimas perderam, Singer ganhou.

Mas existem problemas no horizonte para Singer. Em 2007, o governo Britânico proibiu Singer e todos os especuladores-urubus de dívidas do Terceiro Mundo de coletarem suas libras de carne no Reino Unido. Outras nações europeias estão seguindo o mesmo caminho.

Vários congressistas americanos estão brigando por uma proibição ao estilo britânico das atividades do Singer. (Até mesmo a Corporação Chevron está reclamando dos ataques dos urubus. Quando a Chevron chama banqueiros de inescrupulosos, eles devem ser realmente muito inescrupulosos). Sem uma caneta de veto sobre o Congresso, Singer pode perder centenas de milhões de dólares.

Singer está jogando na defesa, mas é melhor no ataque: para coletar contra a Argentina, seus lobistas conseguiram aprovar no congresso uma lei que estrangulava as trocas comerciais com a nação da América do Sul. Obama e a Secretária Hillary Clinton bloquearam esse ato louco contra nosso aliado. Como resultado Singer não é um gaúcho contente. Vai haver sangue. Obama terá que pagar.

Todos eles

Existe uma coisa que todo bilionário quer: outro bilhão. E isso está ameaçado pelos planos do Obama de taxar os lucros hoje isentos.

Caras como Singer e Langone não pagam impostos como eu e você. Enquanto pagamos impostos sobre salários, os lucros de especulações tipo urubu e arbitragem são via de regra declaradas como “carried interest”, efetivamente não são taxados. É um benefício de um bilhão de dólares para os bilionários, e todos os candidatos republicanos juraram manter essa brecha na legislação aberta e garantir que eu e você paguemos os impostos para o Singer.

Infelizmente, para Singer, os Koch e Langone, os candidatos republicanos que estão beijando a bunda dos bilionários não parecem ser elegíveis.

Então, o Clube dos Meninos Bilionários instigou o Governador Christie, o bully de Jersey, a usar os músculos para entrar no Escritório Oval. Christi não decolou, o que não foi surpresa. Mas se eles vão escolher o candidato republicano ou recuar para a tática de difamar nos bastidores, uma frágil coisa chamada democracia tem poucas chances contra o poder de tsunami dos talões de cheques somados do quarteto.

As reportagens investigativas de Greg Palast são veiculadas no programa Newsnight da BBC. O livro dele, “Vulture’s Picnic: in Pursuit of Petroleum Pigs, Power Pirates, and High-Fincance Carnivores” será lançado pela Penguin USA no dia 14 de Novembro de 2011.

Tradução: Heloisa Villela

A insurreição americana – por Mauro Santayana (Coisas da Política – JB)

O movimento norte-americano contra a desigualdade social nos Estados Unidos ganhou um aliado de peso, a AFL-CIO, a antes toda poderosa organização sindical, que se encontrava em período letárgico, desde a morte de seu lendário presidente, George Meany, um pragmático e anticomunista, que se somava a qualquer governo.

A retirada de Meany, em 1979, depois de 14 anos de mando, e sua morte, logo em seguida, coincidiram com a eleição de Reagan, o fim do welfare state, o thatcherismo, o neoliberalismo e a globalização da economia – enfim, com o que está aí. Não que Meany fosse exatamente um progressista, uma vez que o movimento sindical declinou sob sua liderança, mas o fato é que, ainda assim, a confederação de sindicatos dispunha de forte presença política.

Para os trabalhadores dos Estados Unidos, reduzidos os empregos e salários, a rearticulação de seu movimento sindical é uma esperança. Para os manifestantes contra Wall Street, que começam a assustar os meios conservadores do grande país, trata-se de uma aliança necessária, não para destruir o sistema capitalista, mas para que o Estado volte a domar as atividades econômicas e restaure as regras do jogo, nas relações entre o trabalho e o capital. Elas nunca foram justas, mas eram pelo menos suportáveis. A reação dos leitores do New York Times, divulgada em sua edição on-line, de ontem, é significativa. A imensa maioria dos comentários é de solidariedade com o movimento; e de protesto contra a renovada e crescente injustiça social do mais poderoso país do mundo.

Um leitor de Nova Iorque se diz sem saber o que fazer, porque não pode deixar o trabalho, a fim de participar das manifestações, nem dar parte de doente, porque necessita de atestado médico, mas deixa claro que “os republicanos que dizem que a regulamentação impede a expansão dos negócios, não passam de um monte de esterco de cavalo”. E acrescenta que gostaria de não usar mais o Chase e o Citibank, mas não pode. E termina mandando um recado para Washington e Wall Street: o povo está enraivecido e todos querem respostas contra o seu sistema corrupto.

Talvez seja ainda cedo para tocar finados pelo sistema capitalista. Ele é intrinsecamente astuto e, quando percebe que a situação está quase perdida, recua, concede alguma coisa aos trabalhadores, reduz seus ganhos, sacrifica alguns peões – e volta a imperar. Quando chega a oportunidade, recupera a posição anterior e volta à sua diretriz, de obtenção do maior lucro, com o aumento da carga de trabalho e a redução ao extremo dos salários. Muitos leitores consideram que é urgente colocar freios no capitalismo, sobretudo o financeiro.

Enfim, e de acordo com a sucinta observação de outro leitor, é preciso retornar ao contrato político inicial dos Estados Unidos, que previa a busca da igualdade entre todos os seus cidadãos.

Quando o governo impõe suas regras, como as impôs durante a administração Roosevelt e, de uma forma ou de outra, continuou a impô-las, até 1980, a prosperidade se faz sem o sacrifício insuportável dos trabalhadores. Os 48 anos de New Deal permitiram uma vida confortável para os norte-americanos e possibilitaram o fortalecimento bélico dos Estados Unidos, embora com a desapiedada exploração de outros povos.

As crises cíclicas do capitalismo, conforme a conhecida teoria de Kondratiev, são explicáveis em uma equação simples: maior renda para poucos e quase nenhuma renda para a imensa maioria correspondem a uma diminuição do consumo de bens, e essa diminuição do consumo atinge os produtores, no círculo vicioso que leva ao desemprego e à correspondente falência dos negócios. Enfim, sem salários não há consumo, sem consumo não há lucros, sem lucros, não há capitalismo.

O sistema bancário é o eixo da economia capitalista. Mas, no caso americano – que passou a ser o modelo mundial – desde a criação do FED, em 1913, os controladores fizeram da administração da moeda um segredo quase religioso. O famoso banqueiro Nicholas Biddle, que se opôs ao Presidente Andrew Jackson, e foi por ele derrotado durante seu mandato (1828-36) dizia, insolentemente, que seu banco – que tinha o privilégio da emissão da moeda – não tinha satisfações a dar, quer ao governo, quer ao público. Em 1829, antes que o conflito se agravasse, um grupo de cidadãos de Filadélfia (três jornalistas, um grande homem de negócios e dois líderes do incipiente movimento sindical) se reuniu, para discutir o problema bancário, e concluiu, em análise atualíssima do sistema:

Os bancos são úteis, como instituições de depósito e transferências, admitimos sem qualquer dúvida, mas não podemos ver como esses benefícios que conferem possam ser assim tão grandes a ponto de compensar os males que produzem, na criação de artificial desigualdade da riqueza, e, por meio dela, de artificial desigualdade de poder” ( Free Trade Advocate, 9 de maio de 1829, citado por Arthur Schlesinger, Jr. em The Age of Jackson, 1945).

Troquem-se os nomes de Nicholas Biddle, o arrogante banqueiro de Filadélfia, pelo dos dirigentes do Goldman Sachs, e o de Jackson pelo de Obama, e temos situação semelhante – com uma diferença. Jackson era Jackson, que peitou os banqueiros e os venceu, com a fragmentação do sistema e o surgimento dos pequenos e médios bancos estaduais, possibilitando a grande expansão industrial dos oitocentos. E Obama é apenas uma esperança quase desfeita.

Mas hoje, como os fatos mostram, as massas podem reunir-se rapidamente, graças à comunicação instantânea – e, apesar da repressão – dizer o que pensam da realidade e exigir as mudanças.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O país da liberdade

Não deixa de ser cômico que o país que se jacte de ser o mais liberal e democrático do mundo mostre sua verdadeira face quando de fato é incomodado.

Os Estados Unidos incorrem nos mais variados desvios democráticos: não bastasse o criminoso bloqueio econômico contra Cuba, as torturas em Abu Ghraib e Guantánamo, a ocupação de países, o apoio seletivo a ditadores sanguinários, dentre outros tantos equívocos atualmente perpetrados (afora o passado tétrico), quando os protestos se dão de maneira contrária ao que o status quo deseja, aí é um Deus nos acuda.
Recentemente, aturdidos com os protestos de ocupação em Wall Street, a imprensa se calou diante das manifestações – que, a despeito da censura velada, só aumentava de volume. Claro, se fosse um protesto do fascista tea party, como bem destacou um colunista, e houvesse dois mil zumbis no protesto, haveria o mesmo número de jornalistas (também zumbis) cobrindo o evento (a parte mitológica fica por minha conta).
Como se não bastasse a censura branca – tão e tão comum cá por estas plagas – o site Yahoo!, deliberadamente, censurou mensagens que contivessem os termos “protest” e “Occupy Wall Screet”, impedindo que as mesmas fossem enviadas. Quando alguém tentava enviar um e-mail que continha estes termos, recebia de volta a mensagem “Sua mensagem não foi enviada. Sua conta de usuário está associada com uma atividade suspeita”.
Com a pressão da própria internet, o Yahoo! teve de admitir o erro e pedir desculpas.

O fato evidencia, entretanto, como é descabida a interpretação que vivemos em países democráticos, que uma imprensa livre e aberta é garantia indissolúvel de que todas as vozes serão ouvidas. Mesmo após admitir o erro, os protestos prosseguem sendo alijados das notícias, calados, censurados, bem como suas ideias – demasiado incômodas a quem financia a imprensa.
Por aqui, exemplo claro, sequer a vergonha que o Yahoo! atravessou nós ficamos sabendo através dos grandes e velhos veículos de comunicação. E por que não? Ora, como os protestos não são mostrados com a relevância que possuem, como eles poderiam destacar a censura que eles receberam? Seria como dar manchete a algo que não existe. Porque a censura tinha de ocorrer contra alguma coisa. Contra o que? Ora, se o protesto não é mostrado, a censura a ele também não pode ser mostrada.

A verdade é que Rupert Murdoch não era um caso específico, um câncer a ser tratado. Ele é apenas um dos sintomas da metástase.

A Justiça e o Judiciário – por Franssinete Florenzano

Hoje eu fiquei com vergonha alheia. O TJE-PA absolveu o médico, empresário e ex-deputado Luiz Afonso Sefer de ter estuprado uma criancinha de 9 anos, durante quatro anos seguidos, em sua própria casa. Pior: quem assistiu à sessão teve a sensação de que a menina é que foi culpada por todo o horror que sofreu, sozinha, sem amparo da família, de ninguém, muito menos do Estado e do Judiciário. A procuradora de Justiça que representou o MP foi meramente protocolar, sequer se deu ao trabalho de fazer sustentação oral, preferindo dizer que tudo já estava nos autos e entregou todo o tempo para o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos que, a peso de ouro – para ciúme dos defensores locais, correu à boca pequena no Fórum que Sefer pagou-lhe honorários de R$6 milhões – deitou e rolou para a plateia.

Sefer foi condenado pela juíza Maria das Graças Alfaia Fonseca, titular da Vara Penal de Crimes Contra Crianças e Adolescentes de Belém, em 6 de junho de 2010, a 21 anos de prisão, mas hoje o algoz da menor S. B. G. foi absolvido. O relator da apelação penal, desembargador João Maroja, acolheu o argumento da defesa de – vejam só! - insuficiência de provas, apesar do farto material probante, com detalhes medonhos, atrozes, que levam às lágrimas qualquer ser humano com um mínimo de sensibilidade. O revisor, desembargador Raimundo Holanda, acompanhou seu voto. O juiz convocado Altemar da Silva Paes foi o único a divergir, votando pela manutenção da condenação. E fez questão de dizer que não violentaria sua consciência. Bravo, professor! O senhor foi voto vencido mas fez sua parte para a aplicação da Justiça, com “J” maiúsculo.

Segundo a denúncia do Ministério Público, confirmada pela sentença em 1º Grau, em meados de 2005 Sefer trouxe para Belém, do município de Mocajuba, para ser companhia de sua filha - que à época já era adolescente e nem morava com ele (!) - uma criança de 9 anos. E abusou sexualmente dela desde os primeiros dias, além de torturá-la física e psicologicamente.

Hoje, dois dos três membros da a 3ª Câmara Criminal Isolada adotaram a tese da defesa de que a palavra da ofendida seria prova insuficiente para a condenação, que o acusado não tinha perfil psicológico de abusador e que não havia precisão sobre o período e nem a quantidade de vezes em que o abuso teria sido praticado (!).
O relator acolheu todos os argumentos, e ainda destacou que o núcleo das acusações residia apenas no depoimento da vítima. Mais: invocando o princípio do “in dubio pro reo”, preferiu inocentar o acusado, sendo acompanhado pelo desembargador revisor.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Constituição Federal – ancoradas em séculos de lutas vitoriosas em busca de seu reconhecimento - preveem que todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção. Esse princípio forçosamente deve ser aplicado com o da proporcionalidade, a fim de que seja eficaz. Assim, têm que ser levadas em conta as diferenças e desproporções da vida e as injustiças que fatalmente resultam do mesmo tratamento a desiguais. Todo homem – e mulher, e criança – tem direito a receber dos tribunais remédio efetivo para os atos que violem direitos fundamentais.

Alguém duvida de que Luiz Afonso Sefer foi presumido inocente até sua culpabilidade ter sido provada de acordo com a lei, em julgamento no qual lhe foram asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa, no devido processo legal?

E à criança violentada e torturada, foi assegurado o pleno acesso à Justiça?

O mestre Norberto Bobbio, com muita propriedade, não raro leciona que fala-se muito de direitos do homem, entre eruditos, filósofos, juristas, sociólogos e políticos, muito mais do que de fato foi feito até agora para que eles sejam efetivamente reconhecidos e protegidos, e deixem de ser aspirações – nobres, mas vagas -, exigências – justas, mas débeis – e virem direitos propriamente ditos (no sentido de sua implementação nos tribunais, como se viu hoje no TJE-PA).

Além de ter que repetir sucessivamente ao longo do inquérito e da ação penal os detalhes sórdidos do estupro continuado a que foi submetida – o que por si só representa novas violências - a vítima de Sefer, sem luzes a não ser aquelas natas, sem apoio familiar, sem poder pagar advogado, foi repetida e publicamente violentada em sua honra, enxovalhada de todos os modos, exposta de modo aviltante, submetida a um circo de horrores que só prolongou e intensificou a grande noite de sua infância roubada.

Essa menina – miseravelmente pobre, maltratada, indefesa, demandando um homem rico e poderoso, com fortes ligações políticas - obteve a prestação jurisdicional imprescindível?

Ora, a palavra da vítima, em sede de crime sexual, é de vital importância, revestida de especial valor probatório, principalmente pelas circunstâncias clandestinas em que é perpetrado, e só pode ser desprestigiada com a produção de provas cabais a demonstrar a falácia de suas declarações. O que absolutamente não aconteceu no caso Sefer.

Quem diz isto não sou eu, é o Supremo Tribunal Federal, cuja orientação expressa é a condenação baseada somente na palavra da vítima ante a inexistência da materialidade da infração e de testemunhas, quase impossível nesses casos.

Muitas mulheres, vítimas de violência sexual, preferem se calar a procurar a autoridade policial ou judiciária em busca de providências. Boa parte delas acredita que, como o estupro não foi presenciado, ou que a violência não deixou marca no corpo, será impossível prender o criminoso. O resultado do julgamento de hoje só confirma esses justos receios.

O Ministério Público tem o dever de recorrer. Espera-se que na próxima vez pelo menos designe representante que conheça o processo (a procuradora do Parquet nem se incomodou de dizer à imprensa que a peça que não sustentou era da lavra de outra colega, e que desconhecia os termos acusatórios!). Uma vergonha para o órgão que tem a obrigação de fazer valer a lei. Ou pelo menos usar de todos os seus meios para esse fim.

E dos membros do Judiciário – a esperança sempre há de existir – que cumpra seu dever constitucional e a finalidade para a qual os princípios foram elaborados e o poder instituído.

Comentário
É tanta coisa ruim que chega a ser difícil comentar. Destaco então só uma coisa: o desvio moral absoluto que o senhor Marcio Thomaz Bastos incorre ao defender este monstro.
Que lástima. Tudo, neste caso, uma lástima.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Os 99% que ocuparam Wall Street - por Amy Goodman (Democracy Now)


Duas mil pessoas ocuparam Wall Street no dia 17 de setembro. A sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”. Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas cobrindo o acontecimento. Mas o interesse da mídia em divulgar protestos contra Wall Street parece ser bem menor. O artigo é de Amy Goodman.

Se dois mil ativistas do movimento conservador Tea party se manifestassem em Wall Street, provavelmente haveria a mesma quantidade de jornalistas a cobrir o acontecimento. Duas mil pessoas ocuparam de fato Wall Street no dia 17 de setembro. Não levavam cartazes do Tea party, nem a bandeira de Gadsden com a serpente em espiral juntamente com a ameaça “Não te metas comigo”. Mas a sua mensagem era clara: “Somos os 99% da população que não toleram mais a ganância e a corrupção do 1% restante”, diziam. Ali estava uma maioria de jovens a protestar contra a especulação praticamente incontrolável de Wall Street, que provocou a crise financeira mundial.

Um dos multimilionários mais conhecidos de Nova York, o presidente da Câmara, Michael Bloomberg, comentou sobre o momento que vivemos: “Muitos jovens saem da universidade e não encontram trabalho. Foi isso que aconteceu no Cairo e em Madri. Não queremos este tipo de distúrbios aqui”. Distúrbios? A Primavera Árabe e os protestos na Europa trataram-se disso?

É provável que, para desilusão do presidente da Câmara Bloomberg, o que aconteceu no Egito e na Europa seja justamente o que inspirou muitas pessoas a ocupar Wall Street. Em comunicado recente, a coligação de organizações que protestam em Nova York informou: “No sábado, realizámos uma assembleia geral com duas mil pessoas. Na segunda-feira, às 20h, ainda estávamos ocupando a praça, apesar da constante presença policial. Estamos construindo o mundo que queremos, tomando por base as necessidades humanas e a sustentabilidade, no lugar da ganância das empresas”.

Falando de Tea Party, o governador do Texas, Rick Perry, tem provocado polêmica durante os debates presidenciais republicanos com a sua declaração de que o elogiado sistema de segurança social dos Estados Unidos é “um esquema do tipo Ponzi”. Charles Ponzi dedicou-se a fraudar milhares de pessoas em 1920 com a promessa enganosa de que receberiam enormes ganhos a partir de investimentos. Um típico esquema Ponzi consiste em tomar o dinheiro de vários investidores e pagá-los com o dinheiro de novos investidores, em vez de pagar a partir de ganhos reais. O sistema de segurança social dos Estados Unidos é de fato sério: tem um fundo confiável de mais de 2,6 mil milhões de dólares. O verdadeiro esquema que ameaça o povo norte-americano é a insaciável ganância dos bancos de Wall Street.

Entrevistei um dos organizadores do protesto “Ocupemos Wall Street”. David Graeber é professor em Goldsmiths, Universidade de Londres, e é autor de vários livros. A sua obra mais recente é "Dívida: os primeiros 5.000 anos". Graeber assinala que, no meio da crise financeira de 2008, renegociaram-se dívidas enormes de bancos. No entanto, pouquíssimas hipotecas receberam o mesmo tratamento. Graeber disse: “As dívidas entre os mais ricos ou entre governos podem sempre ser renegociadas e, de fato, sempre foi assim na história mundial. Não estão gravadas em pedras. Em termos gerais, quando os pobres têm dívidas com os ricos, automaticamente as dívidas convertem-se numa obrigação sagrada, mais importante do que qualquer outra coisa. A ideia de renegociá-las é impensável”.

O presidente Barack Obama propôs recentemente um plano de criação de emprego e maiores esforços para reduzir o défice público. Uma das propostas é o chamado “imposto sobre os milionários”, que conta com o apoio do multimilionário e partidário de Obama Warren Buffet. Os republicanos denominaram o imposto de “guerra de classes”.

Graeber explica: “Durante os últimos 30 anos vimos os mais ricos da nossa sociedade liderarem uma guerra política contra todos os demais, e esta é considerada a mais recente disputa, uma medida totalmente disfuncional do ponto de vista político e económico. Esse é o motivo pelo qual os jovens simplesmente abandonaram qualquer ideia de recorrer aos políticos. Todos sabemos o que acontecerá. Os impostos de Obama são uma espécie de simulação com carácter populista, que todos sabem que será rechaçado. Na realidade, o que provavelmente vai acontecer é que haverá mais cortes nos serviços sociais”.

Lá fora, na manhã fria de quarta-feira, os manifestantes iniciaram o quarto dia de protestos com uma marcha no meio de forte presença policial. Fizeram soar a campainha de abertura da “bolsa do povo” às 9h30, exactamente na mesma hora em que soa a campainha da Bolsa de Nova York. Enquanto os banqueiros continuam seguros dentro dos seus bancos resgatados, lá fora, a polícia prende manifestantes. Num mundo justo, com uma economia justa, caberia perguntar: quem deveria estar passando frio lá fora? Quem deveria ser preso?

(*) Artigo publicado em "Democracy Now" em 22 de Setembro de 2011. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Texto em espanhol traduzido para o português por Rafael Cavalcanti Barreto, e revisto por Bruno Lima Rocha para Estratégia & Análise.

A alma da UDN – por Brizola Neto (Tijolaço)

A entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, hoje, no Estadão, deve ser lida abaixo da linha das palavras, na linha de visão de mundo neoliberal que domina a mente vaidosa do “príncipe” destronado.

Ele reage, em parte, aos “conselhos” da  professora americana Frances Hagopian, que sugeriu que o PSDB precisa assumir-se como um partido de centro-direita.

A certa altura, ele se expõe:

Não se deve, então, falar em esquerda e direita ?

Há uma insistência nessa dicotomia. Isso se deve à falta de analisar os processos reais, o mundo concreto. Não é que inexista uma esquerda, mas… o que significa a esquerda hoje? Ninguém mais pensa, como no passado, coisas como coletivização dos bens privados, feita por um partido que dominasse o Estado em nome de uma classe. Isso não ocorre mais.

Fernando Henrique, a quem não falta conhecimento teórico para saber disso, tem perfeita compreensão que, há mais de 50 anos, não se pode definir assim o pensamento de esquerda. Ele próprio, quando ainda não havia transitado de lado, era um intelectual de esquerda sem jamais ter defendido a coletivização dos bens privados ou o domínio do Estado por um partido em nome do Estado.

Ser de esquerda – sobretudo aqui e progressivamente, desde os anos Vargas – foi sinônimo de defender um nacionalismo inclusivo que, de um lado, protegesse o país do saque colonial – de riquezas naturais e, mais tarde, financeiro – e, de outro, promovesse o resgate, longe de ser concluído, de imensos contingentes da população de uma condição de miséria.

Seu governo fez exatamente o contrário. Sobre a entrega e abertura das entranhas do país, nem é preciso falar, todos sabem. Sobre a exclusão, alguém duvida do quanto se alargou o fosso entre elite e povão, nesse período. Não, claro, não foi ele quem a inventou. Mas tomou gosto nela, pela sua própria alma deslumbrada e a palavra “moderno” passou a ocupar na sua mente um lugar que eclipsava totalmente a palavra “justo”.

“Quem defende a direita no Brasil? Ninguém. Mas na prática ela existe – mas a nossa direita é muito mais o atraso, o clientelismo, fisiologismo, esse tipo de questão, do que a defesa dos valores intrínsecos da propriedade, da hierarquia”.

Perfeito. Reduzimos, então, a direita no Brasil a alguns políticos sem-vergonhas, nepotistas ou a figuras tristemente folclóricas.

A propriedade e a hierarquia que fazem deste país um dreno de riquezas e de trabalho, em proveito de uma ínfima elite e de uma ordem econômica mundial decrépita são defendidos por quem?

Ah, sim, pelos “modernos”.

“(…) Temos (o PSDB) uma tradição republicana, nos diferenciamos bastante nisso. A coisa pública tem que ser respeitada como tal e não ser objeto nem de apropriação privada nem político-partidária. Isso é uma linha. Não é esquerda nem direita, é republicana”.

Mais uns anos de tal tradição republicana, não sobraria República.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Porque o PSD não quer Serra – por Luis Nassif

Há uma lista infindável de fatores que desaconselham o PSD a receber José Serra
O primeiro, é que Serra não tem nada a oferecer.

Certa vez, nos anos 80, Guilherme Afif Domingos – um dos melhores quadros políticos da direita – me esclareceu a respeito da capacidade de Paulo Maluf em arregimentar seguidores: "Ele tem credibilidade no mercado político futuro", disse ele. A credibilidade decorria de dois fatores: tinha potencial político e cumpria a palavra empenhada.

Serra não tem mais futuro político nem se distingue pela lealdade partidária e pessoal. Na verdade, é um ególatra altamente desagregador – conforme o PSDB está testemunhando.

O segundo fator é a falta de discurso político.

Um partido vive de bandeiras. Desde início dos anos 90 Serra é um vazio cercado de ghost writers – que já debandaram. Não tem noção mínima sobre nenhum dos temas portadores de futuro: gestão, inovação, educação, desenvolvimentismo. Sua retórica atual consiste em analisar qualquer ato de governo e apontar o que a medida não contempla - recurso de um primarismo intelectual clamoroso -, com uma superficialidade tal que é incapaz de entender as contraindicações das medidas que abraça por efeito-oposição.

Hoje em dia, a imagem de Serra está indissoluvelmente ligada ao obscurantismo religioso, à intolerância, à dissimulação, tudo o que o PSD quer esconjurar para se firmar como um centro-direita civilizado.

O terceiro fator é a incapacidade de agregar mais quadros técnicos ao partido
Kassab já tem o que queria, os quadros tucanos que Serra legou quando deixou a prefeitura. E que continuarão com ele simplesmente porque Serra não lhes oferece mais nenhuma perspectiva política.

Por outro lado, o que menos Kassab deseja é a volta dos quadro barras-pesadas que fazem parte do círculo íntimo de Serra – como Andrea Matarazzo e a ex-vereadora Soninha Francine. Nos tempos em que assumiu a subprefeitura da Lapa, Soninha tinha o hábito de desfeitear Kassab na frente de outros subprefeitos, para mostrar que estava acima dele e do lado direito de Deus Pai – Serra. O mesmo comportamento, aliás, de Andréa.

Além disso, quando a campanha eleitoral desnudou o político infame que era, Serra perdeu também qualquer capacidade de aglutinar pensadores social-democratas ligados à Universidade, sem nunca ter conseguido convencer os pensadores mais conservadores.

As ligações com Serra tornaram-se tão comprometedoras que o próprio FHC teve que se afastar dos seus maus fluidos, para não afetar definitivamente sua imagem.
O quinto fator é que a influência de Serra sobre a velha mídia é declinante. Ele nada mais tem a oferecer além de dossiês sobre adversários, esquemas de espionagem e aliados incômodos.

Como não existe vácuo em política, em breve a velha mídia estará caminhando rumo a Aécio Neves ou outro pré-candidato que venha a preencher o espaço da oposição.
Por tudo isso, o habilidoso Kassab certamente já deve ter definido sua estratégia. Não se afasta formalmente de Serra, aguardando que as próprias indecisões dele o confinem e a seus seguidores ao seu espaço político real, que não é maior que uma Kombi.

O julgamento da memória – por Nilmário Miranda (CartaCapital)

É um equívoco decretar o fracasso antecipado da Comissão da Verdade.

A presidenta Dilma Rousseff não deixa dúvidas sobre sua defesa da Comissão Nacional da Verdade em pronunciamentos, inclusive recentemente na abertura da reunião da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Também a atuação do ex-presidente Lula foi decisiva, quando, no auge do bombardeio que tinha como alvo o Programa Nacional de Direitos Humanos 3, defendeu a Comissão e enviou ao Congresso o PL 7376, em 10 de maio de 2010, elaborado pelo ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, em acordo com o ministro da Defesa à época, Nelson Jobim.

O projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados no último dia 21, com duas emendas que não alteram sua essência, e aguarda votação no Senado sob o número 88/2011, como foi renumerado.

A criação da Comissão Nacional da Verdade é mais um passo na construção da nossa vigorosa democracia, com a mesma importância da Lei da Anistia de 1979, que apressou o fim da ditadura, apesar da autoanistia aos torturadores, da Lei dos Mortos e Desaparecidos Políticos de 1995 e da lei que instituiu a Comissão de Anistia em 2001. Por mais importante que seja também não é o ponto de chegada, o último capítulo de avaliação sobre o período ditatorial. A impunidade da tortura permanece como um desafio a ser enfrentado.

O tema direito à memória e à verdade é novo e polêmico para nós, debatê-lo é saudável e necessário. Mas a mídia não contribui para o esclarecimento da sociedade com a difusão de críticas baseadas em inverdades. De onde um colunista tirou a informação de que a Comissão da Verdade só pode convidar e não convocar? A lei é clara: A Comissão Nacional da Verdade poderá “convocar, para entrevistas ou testemunho, pessoas que possam guardar qualquer relação com os fatos e circunstâncias examinados”.

Como é possível afirmar que a Comissão incluirá militar? A lei sequer foi votada no Senado e, obviamente, os sete integrantes que a comporão ainda não foram escolhidos. Aliás, 5 mil militares foram excluídos das Forças Armadas por se oporem à ditadura e vários outros deram a vida por resistirem a ela.

E, ainda, de onde saiu a constatação de que as comissões da verdade em outros países foram compostas por centenas de pessoas? A argentina teve 13 membros e a chilena, oito integrantes.

Outro mito que vem sendo difundido é de que os trabalhos da Comissão serão sigilosos. Pela lei, a CNV poderá requisitar dados, documentos e informações sigilosos, mas não poderá divulgá-los ou disponibilizá-los a terceiros. Aliás, poderá-, inclusive, se valer do Poder Judiciário para garantir essa prerrogativa.

É evidente a supervalorização de algumas considerações de pessoas de boa-fé. Por exemplo, “sete componentes para a tarefa é pouco”. Em comparação com as outras comissões, pela primeira vez, os membros trabalharão em tempo integral, terão assessores vocacionados, disporão dos acervos das comissões de Mortos e Desaparecidos, de Anistia, do Memórias Reveladas e de uma enorme rede que existe ou está em formação nos estados e universidades.

“Dois anos de duração é pouco e que a Comissão não terá orçamento próprio.” Em outros países, as comissões trabalharam por um ano ou um pouco mais. Caso não conclua a tarefa em dois anos, a CNV poderá ter seu tempo de duração estendido pelo Congresso. Com relação ao orçamento, terá o respaldo inequívoco da presidenta Dilma e estará alocada na Casa Civil, o pulmão do governo, que tem força institucional, orçamento e poder de requisitar funcionários.

Enfim, antes de existir, trabalhar e produzir um relatório, a CNV já teve seu fracasso sentenciado por pessoas que avaliaram o que ainda não aconteceu, fazendo o caminho inverso de projetar o acontecido.

Nilmário Miranda é ex-ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos e atual presidente da Fundação Perseu Abramo

O perfeito imbecil politicamente incorreto - por Cynara Menezes (CartaCapital)

No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo. 

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.
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Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios – os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ensinamentos de Mino Carta sobre jornalismo - por Chico Bicudo (blog do Chico)

O mediador levou cerca de cinco minutos para fazer as devidas apresentações e relembrar apenas algumas das experiências profissionais vividas pelo convidado da noite de abertura da 19 Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Ele subiu ao palco e, ao receber o microfone, confessou que naquelas situações fica sempre tentado a cantar “Strangers in the night”, imortalizada na voz de ninguém menos que Frank Sinatra. A plateia (o auditório estava lotado) se animou e insistiu, entoando o tradicional coro de “canta, canta!”. “A tentação é forte. Mas vou conter a empolgação. Resistirei”, recusou elegantemente o jornalista Mino Carta, diretor de redação da revista Carta Capital. O que se ouviu então, e durante quase as duas horas seguintes, foram sinceras e mais do que relevantes lições sobre elementos e princípios do (bom) Jornalismo.

Mino reconheceu que não seria exatamente portador de boas notícias. Apesar de vislumbrar que no longo prazo o Brasil será um país feliz e muito importante no cenário internacional, ressaltou que ainda não alcançamos tal estágio justamente por conta de nossas elites – que classifica como uma das piores e mais atrasadas do mundo. “A elite herdeira do ideal da Casa Grande cuidou para que as coisas por aqui continuassem medievais. É assim que nossas oligarquias sobrevivem”.

Por consequência lógica, completou Mino, o jornalismo não escapa desse cenário. Expressa e representa o que somos, como somos, os nossos conflitos – e atrasos. Ele citou como exemplo a cobertura feita pela mídia grande na semana passada a respeito do título de doutor honoris causa recebido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condecorado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po, uma das instituições mais importantes e renomadas do mundo na área), por conta da “revolução econômica e social pacífica promovida no Brasil nos últimos oito anos”.

Na entrevista coletiva ocorrida após a homenagem, repórteres brasileiros presentes à cerimônia faziam questão de não esconder o inconformismo com a conquista. Como lembrou Mino, um deles perguntou ao diretor do Instituto francês como era possível alguém receber o título sem que jamais tivesse lido livro algum… Um segundo questionou: como entregar algo tão grandioso a alguém que permitiu a corrupção em larga escala? E um terceiro ainda explicitou que era inexplicável que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não tivesse alcançado o mesmo grau. “Essas perguntas provam muita coisa”, alertou Mino, reconhecendo que Lula, durante os dois mandatos, deixou de promover mudanças que o jornalista considerava importantes, mas também destacando que o balanço final que faz da “Era Lula” é positivo, além de reforçar que a eleição e o governo de um ex-metalúrgico significaram um divisor de águas na História do país, pela simbologia que carregam. “Naquele momento, indignados, os jornalistas estavam expressando o discurso dos patrões e claramente manifestando seu ódio de classe”, confirmou. “Os donos de nossos meios de comunicação adorariam viver em uma democracia sem povo. E somos o único país do mundo onde jornalista chama o patrão de colega”, completou, contrariado.

Sem minimizar a importância da universidade, Mino disse que é nas redações que se aprende a ser jornalista. Para tanto, segundo ele, é preciso reunir alguns talentos. O primeiro: lidar bem com o vernáculo. Segundo: desenvolver sólido conteúdo moral. Foi nesse momento que Mino recordou de seus tempos de enfrentamento com a ditadura militar, quando, revelou, entendeu com profundidade a serventia do jornalismo – se não para mais nada, para narrar as histórias daquele tempo horroroso, a partir do viés dos vencidos, daqueles que não tinham voz.

Mino contou que foi também durante os anos de chumbo que leu “Entre o passado e o presente”, da filósofa alemã Hannah Arendt. De forma bem resumida, na obra a pensadora analisa a verdade que cada um carrega consigo – “são nossas opiniões ou tentativas de interpretação”, diferenciou o jornalista, para em seguida acrescentar: “mas há uma verdade factual, contra a qual o jornalista não pode brigar”. Mino fez uma pausa e tomou um longo gole d’água. “Tomei água. Eis uma verdade factual. É a ela que o jornalista deve fidelidade canina. É mais um fundamento básico da profissão”. A partir do fato, o desafio é dar voz a todos os envolvidos, de maneira plural, sem preconceitos – e a opinião do repórter, admite Mino, pode até ser evidenciada, desde que honestamente anunciada como tal.

Para o diretor de redação de Carta Capital, no entanto, o jornalismo brasileiro não respeita essa premissa básica do buscar a verdade factual. “Omite quando convém ao dono do veículo, ao político, ao empresário. Isso quando não patrocina conscientemente a distorção, a invenção, a mentira. E dizia Hannah Arendt que, quando uma verdade vai ao fundo do mar, não pode mais ser recuperada”, lamentou. Por fim, Mino fez questão de dizer com muita convicção que o jornalista precisa ainda ser movido por candente espírito crítico, para fiscalizar os poderes – os donos do poder, como diria Raymundo Faoro- e todos eles, não apenas o político.

Um aluno na plateia perguntou: se o cenário será diferente no longo prazo, o senhor consegue avaliar de onde virão as transformações? Mino foi incisivo: não tem fórmulas mágicas. Mas reconheceu que as mudanças passam pela democratização, pela regulamentação e pelo controle social da mídia. “É procedimento absolutamente normal em outros países democráticos. É indispensável para definir limites e deveres”, afirmou. O problema, completou, é que os barões da mídia não querem nem pensar nessa hipótese e, sempre que o debate vem a público, saem gritando “estão querendo nos censurar, cercear a liberdade de expressão”. O governo então recua, acomoda-se, lamentou mais uma vez Mino. Para ele, é uma dinâmica semelhante àquela que resultou na criação da Comissão da Verdade. “É difícil acreditar que, do jeito como foi concebida, poderá mesmo revelar alguma coisa”. E fulminou, sem tergiversar: “O problema é que o poder, inclusive o petista, adora aparecer na TV Globo e dar entrevistas para as páginas amarelas da revista Veja”.

Sobre a revista semanal da editora Abril, que Mino Carta ajudou a idealizar e a criar, ainda no final dos anos 1960, em plena época de terror da ditadura, o jornalista não dourou a pílula: “Veja é hoje monstruosa, hedionda. Eu criei um monstro”. Para ilustrar, e mais uma vez provocado pela plateia, ele citou a recente matéria de capa sobre as “relações perigosas” do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. “Pois é, não tenho admiração divina alguma pelo senhor José Dirceu. Mas com aquele texto o que Veja conseguiu foi só imitar à perfeição o jornalismo feito por Rupert Murdoch. Mas o que esperar da Veja? É assim mesmo. É a Veja”, disparou.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Deflação: o fantasma que assombra os governos do mundo – por Saul Leblon (Carta Maior)

Na última 6ª feira, em discurso a empresários, em São Paulo, a Presidenta Dilma Rousseff rebateu as críticas do conservadorismo, reiteradas um dia antes pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo o tucano, a decisão brasileira de reduzir em meio ponto a taxa de juro mais alta do mundo teria sido 'precipitada'.
A resposta da Presidenta veio em tom de alerta: "...diante da crise e da ameaça de deflação e depressão em algumas economias desenvolvidas, (estamos abrindo espaço para que o BC) possa iniciar um ciclo cauteloso e responsável de redução da taxa básica de juros. Não é admissível que, se de fato se configure uma recessão e um processo deflacionário no resto do mundo, nós aqui estejamos sem levar isso em conta'.

A deflação temida pela presidenta e desconhecida do sociólogo cosmopolita é uma espiral baixista de preços que se auto-alimenta.

Trata-se de uma das doenças mais graves do capitalismo.

Para muitos economistas, mais grave que a sua contrapartida de sinal trocado, a hiperinflação, que costuma ser equacionada com a arma clássica do coquetel conservador: recessão, arrocho salarial e juros estratosféricos.

A deflação, ao contrário se instala dentro da recessão. É uma espécie de síntese das contradições do sistema, que assume a forma de uma paralisia progressiva. Ataca, sobretudo, metabolismos com baixa resistência, caso dos EUA hoje, onde a taxa de juro real já é negativa e os recursos de intervenção do Estado estão imobilizados politicamente.

Se as taxas de juros são negativas quem tem dinheiro prefere guardá-lo em segurança no cofre do Tesouro norte-americano a correr o risco de emprestá-lo em troca de rendimentos mínimos e incertos.

Essa escolha quando feita pelos bancos amplifica a contração da atividade econômica pela retração do crédito. O crédito é a alma e o motor do capitalismo. Sem ele o sistema desfalece. É o que tem ocorrido nos EUA, onde mais de US$ 1,3 tri estão empoçados nos caixas dos bancos.

Historicamente, a tentativa de quebrar esse círculo de ferro, nem sempre bem sucedida, inclui doses cavalares de gasto fiscal em obras públicas, oxigênio negado à paralisia norte-americana pelo radicalismo neoliberal.

Na Europa há espaço para novos cortes de juros (hoje em torno de 1,5%). Mas o predomínio de burocratas ortodoxos e governos conservadores, entre os quais se incluem socialdemocratas colonizados pelo neoliberalismo, restringe o uso desse instrumento, tanto quanto a alavanca do investimento público.

O elevado custo de uma deflação pode ser inferido dos desdobramentos causados pela explosão da bolha imobiliária nos EUA, em 2008, que até hoje não cessaram.

A espiral descendente dos preços dos imóveis criou um fosso entre o valor da dívida hipotecária das famílias e o valor de mercado de suas residências. Em muitos casos, o patrimônio passou a valer a metade da dívida.

Em apenas um mês, em novembro de 2008, o preço médio dos imóveis residenciais nos EUA caiu mais de 20%.

Não raro, isso foi acompanhado da perda do emprego ou da troca involuntária por outro de salário inferior. O peso da dívida adquiriu assim um peso insuportável no orçamento familiar.

O efeito imediato é a redução da demanda, que agrava a recessão, que deprime ainda mais o valor dos imóveis. E assim sucessivamente.

Para desafogar os mutuários seria necessário estender o processo de deflação ao valor dos empréstimos, impondo perdas equivalentes aos bancos, construtoras, investidores, ações de companhias ligadas à construção etc.

A resistência do capital financeiro a esse compartilhamento de perdas é uma das causas da encruzilhada paralisante enfrentada pela crise mundial nesse momento. Toda ela está amarrada no impasse em torno de uma conta de chegar explosiva entre passivos e ativos Ou seja, entre a catastrófica massa de capital fictício sedimentada pela desregulação financeira do ciclo neoliberal – nas mãos de fundos, bolsas, investidores, empresas, bancos etc – e a riqueza real disponível. Se a referência for o PIB mundial essa desproporção é de 10 para 1.

Sem impor perdas ao capital fictício o que sobra é um ajuste selvagem que se faz via desemprego, perda salariais e falência de nações. É o que assistimos nesse momento.

Alerta recente da OIT informa que o mundo já tem mais de 200 milhões de desempregados. A oferta de trabalho cresce aquém do crescimento populacional. O estoque incha em vez de diminuir. A retração do mercado sinaliza um déficit de 40 milhões de empregos entre 2011 e 2012.

Fecha-se o círculo de ferro: consumidores não compram por falta de dinheiro ou pela expectativa de que os bens venham a sofrer novas reduções. Bancos não emprestam porque o juro é baixo e os riscos são altos. Empresas não produzem porque não há demanda – e não investem porque suas máquinas estão ociosas Quem tem estoque fica encurralado por dívidas com fornecedores que o retorno das vendas já não cobre. O conjunto gera novas quedas de preços reproduzindo a mecânica da deflação em patamares cada vez mais subterrâneos. Mas as dívidas financeiras resistem blindadas pelo poder político dos bancos e grandes corporações.

Os indicadores de preços nos EUA ou na Europa não apontam ainda um cenário de deflação. Mas as previsões do FMI são de recuos pronunciados. Estimativas do Fundo feitas no início de setembro para a zona do euro apontavam uma taxa de inflação de 2,5% para este ano, caindo para 1,5% em 2012. Já nos Estados Unidos, a inflação passaria de 1,6% a 3% até o final de 2011, para recuar a 1,3% em 2012.

Expectativas de quedas mais pronunciadas ganham força até mesmo entre aqueles que costumam manifestar confiança nas virtudes auto-depurativas dos mercados. O presidente do banco central de Israel é um deles.

Ortodoxo de carteirinha, ex-dirigente do FMI, Stanley Fischer reduziu a taxa de juros do país de 3,25% para 3% ao ano, mesmo com a inflação acima da meta oficial. Fischer foi taxativo ao se justificar. A inflação nesse momento, explicou, é questão "irrelevante". E advertiu: "em 2012 o mundo pode ter deflação, não alta de preços".

Há indicativos fortes nessa direção. Eles partem de uma das roletas preferidas do capital especulativo, as bolsas de commodities. Embora a base de comparação ainda seja elevada, as cotações das commodities agrícolas e minerais fecharam setembro com as maiores quedas desde 2008. A soja teve um recuo de 16%; o cobre acumulou uma perda de 25% em relação ao pico de alta em 2010.

À fuga de especuladores ariscos somam-se agora sinais crescentes de desaceleração da economia chinesa, cuja produção industrial acumula três quedas mensais consecutivas. O que acontecer com a economia chinesa nos próximos meses terá impacto decisivo no movimento deflacionista das matérias-primas, que tem na China o maior importador mundial.

A precaução da Presidenta Dilma em armar o país contra o risco de uma deflação - incluindo-se uma redução mais acentuada da Selic - é mais que justificável. Uma vez iniciado é muito difícil reverter um processo deflacionário, mesmo em países dotados de grande poder de fogo fiscal.

A deflação japonesa, por exemplo, perdurou por toda a década de 90. O Estado japonês investiu US$ 1,4 trilhão em obras públicas, incluindo desde garagens urbanas a muros de contenção contra tsunamis, passando por pontes de duvidosa relevância. Entre elas a maior ponte pênsil do mundo entre Kobe e a ilha de Awaji. A obra custou US$ 7,4 bi e, segundo Paul Krugman, registra um tráfego desprezível de apenas 4 mil veículos por dia. Nem assim o Japão conseguiu engatar um novo ciclo de expansão sustentável.

Na deflação norte-americana de 29, os preços chegaram a cair 25%, em média. O desemprego saltou de 1,5 milhão de pessoas, em 1929, para 12,8 milhões em 1933, atingindo 24,9% da força de trabalho; em 1939 era ainda de 17%. O PIB diminuiu de US$104 bi para US$ 56 bi, entre 1929 e 1933.

Os EUA contaram com Roosevelt , o New Deal e uma relação de forças polarizada pela expansão dos ideais socialistas que arrancou concessões do capitalismo em benefício da renda, do emprego e do consumo. Mesmo assim foi preciso uma guerra mundial para que o sistema reencontrasse o caminho do pleno emprego e da produção.