domingo, 18 de março de 2018
Sobre os direitos humanos e seus adversários
Que tempos são estes,
em que temos que defender o óbvio. (Bertolt Brecht)
Esta frase vem à mente
quando pudemos observar os múltiplos relinchos e vagidos a respeito da execução
da vereadora pelo Psol, socióloga e mestra em administração pública Marielle
Franco.
Uma das mais patéticas
argumentações a respeito de sua morte se dá pelos que advertem que ela era
“defensora dos direitos humanos” – o que seria uma espécie de xingamento para
os fascistas brasileiros.
É triste reconhecer
que se faz necessário explicar o óbvio, demonstrar o que são direitos humanos.
É um direito humano ter uma educação de qualidade, é um direito humano ter
saúde e não morrer sem atendimento na porta dos hospitais, é um direito humano
ter um salário coerente e razoável pelo seu trabalho, é um direito humano ter
uma aposentadoria justa e digna, é um direito humano não morar embaixo de ponte
ou viaduto, é um direito humano que a maternidade e a infância sejam
devidamente protegidas, é um direito humano poder se expressar e votar, é um
direito humano que ninguém seja escravizado ou torturado, é um direito humano
que ninguém passe fome, viva na indigência ou tenha que se submeter a condições
aviltantes para sobreviver e sustentar sua família, etc. Todos estes, dentre outros mais, são direitos
humanos. Também é um direito humano ter acesso a um julgamento justo, também é
um direito humano a possibilidade de defesa perante um tribunal imparcial (alô
Moro e companhia ilimitada) e, caso seja condenado, também é um direito humano
ir para uma prisão (e não para uma masmorra) pagar por seus crimes.
Porém, o que mormente
ocorre é que nossa sociedade não provê nada disso aos seus cidadãos. Bem ao
contrário, mais de 80% da população brasileira vive com menos de dois salários
mínimos. De maneira particularmente grave, um habitante de uma favela ou
comunidade carente não possui basicamente direito algum – só possui deveres.
Num lugar como este, naturalmente, todas as portas erradas estão abertas. Todas.
Adotar uma opção de
vida equivocada em local tão precário e carente de oportunidades não é cair em
tentação – mas sim, na verdade, seguir o caminho natural das coisas. Há um ímã
nocivo e macabro puxando nesta direção.
E então alguns
alienados esperam que o mesmo Estado, que não provê educação, não provê saúde,
não provê moradia, não provê cultura, não provê lazer, não provê transporte
digno, não provê oportunidade, que não provê basicamente nada, se faça presente
para massacrar e exterminar aqueles desajustados que, obviamente, surgirão em
uma sociedade degringolada e perdida como esta. Os conservadores, ao invés de
resolverem a causa do problema, querem atacar seu sintoma. Não é só estúpido. É
muito estúpido.
Ora, não é com mais
cadeias, com penas maiores, com mais prisões, com diminuição de maioridade
penal, com mais armas nas ruas que se resolverá esta problemática. Apenas o
mínimo de bom senso é necessário para se reconhecer que não é este o caminho.
Quando o Estado brasileiro cumprir com suas obrigações, quando ao cidadão
brasileiro for oferecida oportunidade de trabalho justo e razoavelmente
recompensado, quando os governantes se portarem com a decência devida, quando o
judiciário se portar como servidor da população (e não como uma aristocracia
dentro do serviço público), quando a elite se portar com respeito, dedicação e
compromisso para com o país (e não da maneira truculenta, parasitária e
antinacional que sempre a caracterizou), enfim, quando aqueles que vestem
fardas, ternos e togas cumprirem com suas obrigações, aí sim os direitos
humanos no Brasil passarão a ser respeitados – e viveremos no mesmo território
mas em outro país.
Neste momento,
consequentemente, o crime também será reduzido.
As paixões humanas são
similares. Proporcionalmente, não há mais psicopatas aqui do que na Noruega ou em
Portugal. O que faz com que estes
países tenham um índice de criminalidade muito inferior ao do Brasil não é o
fato de lá não haver defensores dos direitos humanos, não é o fato de lá a
polícia matar mais bandidos, ou terem mais cadeias, ou suas penas serem maiores
(na verdade, a pena máxima na Noruega é de 21 anos e em Portugal 25, ambas
menores do que os 30 do Brasil). O que há nestes países é uma estrutura social
compatível, que desfavorece o surgimento de criminosos. Este deve ser o foco de
quem deseja diminuir a violência no Brasil – e é por essa melhoria nas
condições de vida da população que os defensores dos direitos humanos lutam.
Espanta que os que
advogam a ideia de que “bandido bom é bandido morto” não consigam observar a
própria realidade do país em que vivem. A cada ano mais de 60 mil conterrâneos
nossos são assassinados, parte deles completamente inocente, vítimas da
terrível criminalidade que nos assola. Mas uma boa parte destas pessoas
assassinadas tinham envolvimento no crime, 80% dos assassinatos no país tem
vínculo direto com o tráfico de drogas (afora os assassinatos relacionados a
outros crimes). Se a ideia do ”bandido bom é bandido morto” resolvesse, nós
seríamos um dos países mais seguros do mundo – porque isso já está acontecendo
há décadas. Mais de um milhão de compatriotas nossos com algum tipo de
envolvimento com o crime morreram assassinados nos últimos 20 anos. Não está
suficientemente claro que não é este o caminho? Que isso não resolveu nada? Que
continuamos em um país violento, inseguro e desigual? É cada vez mais gente morrendo,
cada vez mais gente sendo presa, é mais custo para o Estado, é mais dor para as
famílias – e seguimos neste caminho funesto, de maneira trágica e inútil,
prendendo gente, matando gente, e ao fim das contas apenas enxugando gelo. A
política do confronto não está resolvendo nada, é preciso ter clareza com
relação a este fracasso retumbante.
Ademais, há de se
destacar que este argumento do “bandido bom é bandido morto” é inválido não só
por sua inutilidade. Estes irmãos nossos que tombaram, que se deixaram levar
por uma trilha errada, deveriam nesse momento estar trabalhando, obrando,
auxiliando na construção de um país que ainda está por ser erguido. Mas não,
deixaram apenas um rastro de angústia, dor e desamparo não só nas vítimas
inocentes que arrastaram pelo caminho, mas também em seus familiares e amigos,
que veem seus entes queridos se perderem num caminho sem volta.
Com a condição social
que vivemos, não poderia acontecer outra coisa: o Brasil se tornou uma máquina
de moer gente. E prosseguirá devorando almas e corpos, feito um Moloch
insaciável, se não cortarmos o mal pela raiz, se não cortarmos o que induz nossos
jovens ao crime: a desigualdade social, a falta de oportunidades, a pobreza, a
sensação de impunidade, o mau exemplo que vem de cima, a ausência de políticas
públicas, enfim, todas as coisas que fazem com que hoje, invertendo o aforismo
clássico, o crime compense.
Também há de se deixar
claro: os direitos humanos são desrespeitados porque a pobreza é um negócio.
Interessa a alguns poucos que exista este descalabro, que exista o exército
industrial de reserva – aquelas pessoas pobres e desassistidas por completo,
que pressionam os trabalhadores que vivem de bicos, que por si pressionam
aqueles que ganham um salário mínimo, que por si pressionam aqueles que ainda
ganham pouco mas já acima deste valor, e assim sucessivamente. Toda esta
pressão que vem de baixo, esta pressão oriunda da miséria, enquanto torna nossa
sociedade como um todo mais vil, mais bruta e mais podre, enriquece (ainda mais)
quem está em seu no topo.
Para ver como a
pobreza é um negócio, basta saber que em meio a uma crise econômica terrível, o
Brasil ganhou 12 novos bilionários em 2017. Estas pessoas não enriqueceram com
o fruto do próprio trabalho, até porque, ninguém pode enriquecer com o
fruto do próprio trabalho. Pode-se progredir com o fruto do próprio trabalho,
pode-se ser da classe média com o fruto do próprio trabalho, mas não existe
uma única pessoa rica que aufira esta dinheirama sem explorar outrem. Este é um
dos motivos pelo qual é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha
do que um rico entrar no reino dos céus. Porque um abastado só tem o que tem por
explorar outras pessoas – inclusive, com certeza, você que lê esse texto.
Aquilo que te falta, ou falta a pessoas próximas a você, outrem está
usufruindo. A pobreza, a carência e a privação de muitos corresponde
diretamente às regalias de poucos.
Diga-se de passagem,
foi em defesa das mordomias destes multimilionários que os manifestoches foram
às ruas.
“Plantai batatas, ó
geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de
ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas
horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta
que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães,
andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de
interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou
a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto
aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de
indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à
desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à
penúria absoluta, para produzir um rico? Cada homem rico, abastado, custa
centos de infelizes, de miseráveis.”
A direita não está
preocupada com a abominação que é o fato de apenas oito pessoas deterem 50% da
riqueza no mundo, tampouco com a desigualdade social e as múltiplas sequelas
que esta concentração de renda criminosa acarreta. A direita está preocupada em
atacar aqueles que defendem um mundo mais justo – por isso, de maneira
desesperada, inepta e covarde, ataca quem defende os direitos humanos. É uma
estratégia clara para manter as coisas como estão, favorecendo os poucos
beneficiários desta desigualdade.
Naturalmente, é fácil
observarmos pessoas – não ignorantes, mas ignorantizadas – rosnando, babando,
relinchando contra os direitos humanos. É o mesmo tipo de gente que agora,
diante do assassinato brutal da Marielle Franco, tenta arrumar algum tipo de
desculpa, de álibi ou de calúnia, de qualquer coisa pútrida, enfim, para
relativizar, para menosprezar a morte dela.
Quando você ver alguém
com estas bandeiras hediondas, saiba quais interesses ele está defendendo,
saiba por quem ele está lutando. Provavelmente, esta pessoa sequer compõe a
classe burguesa, mas se deixou enganar e, por conseguinte, está lutando contra
si mesma; se deixou manietar de modo tão patético pelo capital, que é uma
ardente defensora dele – quando na verdade sequer é uma de suas beneficiárias.
Cônscios desta
realidade, que cada um escolha seu lado. Há um lado que defende os direitos
humanos, que defende um mundo mais justo e solidário, que defende o auxílio aos
irmãos desassistidos, que é contrário a opulência e a privilégios que só fazem
sugar o sangue da ampla maioria da população. Este foi o lado pelo qual a
Marielle morreu lutando e este lado é a esquerda – da qual tenho muito orgulho
de fazer parte. Hoje e sempre.
“Marielle, presente”: a causa radical e sua apropriação pela mídia – por Sylvia Debossan Moretzsohn (Opera Mundi)
![]() |
| Ilustração: César Lobo |
É um vídeo forte,
poderoso, cortante: sobre a imagem noturna e estática do temporal na cidade, as
vozes se sobrepõem para falar que o Rio de Janeiro CHORAVA com a notícia de
“mais uma mulher ASSASSINADA”; porém, “não apenas uma MULHER”, “mas uma mulher
NEGRA”, “uma MILITANTE”, que movia estruturas e foi “EXECUTADA a sangue frio”,
e apela: “GENTE, PAREM DE MATAR GENTE, esse assunto é URGENTE. MARIELLE,
PRESENTE”.
O vídeo original
termina assim. Mas, ao final do Jornal Nacional do dia seguinte à execução da
vereadora Marielle Franco, do PSOL, numa ação que vitimou também seu motorista,
Anderson Pedro Gomes, esse vídeo foi
exibido com o acréscimo deste texto: “Esta homenagem a Marielle
Franco foi feita por Ana de Cesaro e circulou na internet. Agora está sendo
mostrada para todo o Brasil. Para que seja uma homenagem e também um alerta.
Tudo começa pelo respeito. À vida”.
Estudiosos de
linguística e comunicação teriam aqui um prato cheio para discorrer sobre essa
manobra discursiva muito óbvia: um vídeo que circula “na internet” – ou seja,
potencialmente, no mundo inteiro – finalmente é apresentado a um país. Pela
Globo, que é – com trocadilho – a voz do Brasil.
Mas isso é o de
menos. O principal é o que essa manobra revela como apropriação do discurso de
protesto contra a execução de uma vereadora jovem, negra, “cria da favela” (da
Maré), que estreava na Câmara um mandato promissor, com votação surpreendente –
foi a quinta mais votada em 2016, com mais de 46 mil votos – e se dedicava à
denúncia da violência contra os marginalizados de modo geral, com uma atuação
que expressava múltiplas causas identitárias associadas à questão fundamental
do pertencimento de classe.
Certamente tudo
começa pelo respeito à vida, mas estas serão apenas belas palavras se
desprovidas de seu conteúdo concreto. O que significa, exatamente, respeitar a
vida, quando se negam as condições objetivas de existência?
“Reforma
trabalhista, PEC dos Gastos, reforma da Previdência”, essas medidas que jogam
“um contingente de cidadãos e cidadãs para uma espiral de pobreza”, estão na
base do tal “respeito à vida” por onde tudo começa, e por onde começou o
artigo que HYPERLINK
"http://www.jb.com.br/jornaldigital/2018/03/16/21/"MarielleHYPERLINK
"http://www.jb.com.br/jornaldigital/2018/03/16/21/" enviou ao HYPERLINK
"http://www.jb.com.br/jornaldigital/2018/03/16/21/"Jornal do
Brasil – esse jornal recentemente ressuscitado em papel,
numa iniciativa cheia de críticas, incertezas e suspeitas que não cabe aqui
discutir, mas que se diferenciou dos demais no dia seguinte às manifestações de
protesto que se espalharam pelo país. A edição, para quem tem memória, lembrou
a do dia 12 de setembro de 1973, quando a censura da ditadura impediu manchetes
ou fotos sobre o golpe no Chile de Allende, e o JB driblou
brilhantemente a proibição com uma primeira página sem título, apenas com um
texto em corpo maior, relatando o ocorrido, e com isso se destacou de todos os
outros jornais.
![]() |
| JB de 1973 e o de 2018 |
O JB valoriza
– e valoriza-se com – as “últimas palavras” de Marielle, destacando a sua
condenação à intervenção militar na segurança do Rio, que é, na prática, uma
intervenção no estado. Entretanto, publica no rodapé uma ressalva que conduz ao
editorial, onde defende a intervenção até mesmo como “forma de honrar a memória
da vereadora”, que estaria equivocada: os beneficiários da medida seriam
justamente “os que ela supunha vítimas”.
Os demais jornais
cariocas incorporaram o discurso de protesto: O Globo manchetou
“MARIELLE PRESENTE” em maiúsculas, os outros repetiram a indignação da
vereadora ao denunciar mais uma morte atribuída à polícia: “Quantos mais terão
de morrer para que essa guerra acabe?”
Em tese, a
imprensa abraça uma causa que é de “todos”. No entanto, nos editoriais e nos
espaços de colunistas, usa esse episódio para inverter a lógica do argumento da
vereadora/militante executada e esvaziar sua causa, reforçando a atuação do
governo federal: a morte de Marielle e seu motorista seria, para HYPERLINK
"https://oglobo.globo.com/opiniao/assassinato-de-vereadora-afronta-democracia-22494021"O
Globo, “um símbolo contundente do descontrole a que chegou a
segurança do Rio, situação de anomia que levou à intervenção federal”.
Considerando que o Rio é um “laboratório” – como declarou recentemente o
general responsável pela intervenção –, não custa imaginar o que pode acontecer
às cobaias. Diante da “insana escalada de violência”, por que não a decretação
do estado de sítio?
É a mesma
operação discursiva que, em 2013, transformou uma reivindicação contra o
reajuste das passagens de ônibus – uma pauta claramente de esquerda, que tinha
o alcance mais amplo da luta pela melhoria do transporte público e, no fim das
contas, pelo direito à cidade – num protesto contra a corrupção na política,
rapidamente identificada ao governo federal, e resultou nas primeiras
manifestações de massa de direita desde o golpe de 64, que explodiriam em 2015
e dariam sustentação popular à derrubada de Dilma Rousseff.
A história se repete
Protestos
genéricos contra a “violência” têm esse poder alienante. Em 2001, na esteira do
episódio do ônibus 174 – um cerco policial a uma suposta tentativa de assalto
que resultou no sequestro dos passageiros, transmitido ao vivo por mais de
quatro horas, e que acabou com a morte de uma refém e do próprio pretenso
assaltante –, criou-se o movimento “Basta! Eu quero paz!”, que convocava para
um ato público encampado por toda a mídia. Rara voz dissonante acolhida nos
jornais, o historiador Joel Rufino dos Santos escreveu no Jornal do
Brasil de 11/7/2001 um artigo no qual rejeitava participar daquela
manifestação porque a considerava uma forma de preparar o espírito da população
para “indultar os produtores da violência” e dizia que não participaria daquele
ato justamente porque os violentos dissimulados, porém mais importantes, também
estariam lá.
“Há os que sofrem
a violência e os que a produzem. Estes têm interesse em esvaziar a violência do
seu conteúdo concreto. Num golpe inconsciente, mas de mestre, mobilizam as
vítimas para ato cívico, altamente emotivo, contra a violência. Gritam e fazem
a população gritar “Basta!”. Com isso, dão à violência, de que são os
produtores, um caráter abstrato. Eximem-se de qualquer responsabilidade. Os
violentos são os outros. Na verdade, não são ninguém. Podem, portanto, ser
demonizados – livrando a cara deles, os reais produtores de violência. Põem, no
lugar sua cara, a cara do pobre-coitado do ônibus 174” .
Hoje, a história
se repete. No Jornal Nacional – que abriu sua edição de 15 de março com um
editorial que reverberava a indignação dos “cidadãos de bem” –, o senador Jorge
Vianna, do PT, aparecia para dizer que “nós não podemos estar nos dividindo,
[discutindo] se a intervenção é boa ou não na área de segurança no Rio de
Janeiro, eu queria uma intervenção no Brasil inteiro”. E o presidente Temer,
como tantos outros políticos aliados, como tantos editorialistas e colunistas,
diluía o assassinato de Marielle no caldeirão genérico da insegurança pública:
“É inaceitável, inadmissível, como todos demais assassinatos que ocorreram no
Rio de Janeiro, é um verdadeiro atentado ao Estado de direito e um atentado à
democracia, por isso aliás nós decretamos a intervenção, para acabar com esse
banditismo desenfreado que se instalou naquela cidade por força das
organizações criminosas”.
A “afronta à
democracia”, não por acaso, foi o título do editorial do Globo no
dia seguinte.
Por isso é tão
importante definir bem as coisas, nesse momento em que as emoções afloram e
podem ser tão facilmente manipuladas. Ricardo Queiroz, mestre em Ciência da
Informação que trabalha na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do
Campo, resumiu exemplarmente a questão num post no Facebook:
“Marielle Franco acreditou na via política.
Morreu porque se posicionou claramente na luta de classes, demarcou sua posição
e sabia quais eram seus inimigos. Impossível despolitizar a sua morte.
Portanto, não é com niilismo, desqualificação
da política e discurso difuso, que vamos fazer o combate àqueles que mataram Marielle.
Se até Temer se diz indignado pela morte da
jovem, é fundamental o discernimento dessas indignações todas. Para que os
responsáveis não se passem por indignados”.
Sylvia Debossan Moretzsohn - Professora
aposentada de jornalismo na UFF, pesquisadora do ObjETHOS
sábado, 17 de março de 2018
Xadrez e o fator detonador com Marielle - por Luis Nassif (Jornal GGN)
Seja quem forem os responsáveis diretos pelo
assassinato de Marielle, entra-se em novo patamar da dissolução do Estado
brasileiro.
Etapa 1 – plantando o ódio
Os anos sucessivos, começando antes do
“mensalão”, das matérias diuturnas plantando e irrigando o ódio irracional
contra o governo Lula, com factoides sobre venezuelização, cubanização,
tapiocas e outros recursos conhecidos, o que passou a ser chamado, agora, de
fakenews.
Alimentamos o antipetismo, Lula perde as
eleições e tudo volta ao normal.
Etapa 2 – o “mensalão”
A entrada no jogo da Procuradoria Geral da
República (PGR) e do Supremo Tribunal Federal (STF) como agentes políticos,
montando a tese da “organização criminosa” em cima de uma fraude: o suposto
desvio de recursos da Visanet, que jamais ocorreu.
Como alertamos na época, tinha-se, descoberto,
ali, a fórmula da desestabilização política do PT. Dilma e o PT descobriram
essa novidade, alguns meses após o impeachment. O pacto democrático da
Constituição de 1988 começa a ruir. O desfecho é adiado pelo desempenho
imprevisto de Lula na crise econômica global de 2008.
Etapa 3 – a Lava Jato
O aparato repressivo retoma o protagonismo,
alimentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e todos os pecados
são perdoados, desde que contra o inimigo correto. Nessa etapa, todos os princípios
civilizatórios, de direitos individuais, de respeito aos ritos processuais,
tudo vai por água abaixo, mas ainda contra alvos definidos. Sem problema. Como
declarou o Ministro Luís Roberto Barroso, há a necessidade de medidas de
exceção para situações de exceção.
Mas depois que Lula e o PT forem anulados,
tudo volta ao normal.
Etapa 4 – o impeachment e o pós
O clima de ódio é potencializado e há um
liberou geral no Judiciário, Ministério Público Federal e Polícia Federal.
Inaugura-se um vale-tudo em que todos os abusos são permitidos e todos os
oposicionistas se sentem ameaçados. Qualquer promotor, delegado ou juiz de 1ª
instância se vê com autoridade para ordenar conduções coercitivas, prisões
temporárias.
Os piores sentimentos vêm à tona, as demonstrações
mais estapafúrdias de ignorância boiam que nem dejetos no esgoto. E ainda não
se está falando em Bolsonaro e companhia, mas na promotora de Campinas que se
declarou “indignada” com um seminário sobre maconha e denunciou o
cientista consagrado. Simples assim: sentiu-se indignada e do alto da sua
ignorância, fez valer sua autoridade. Ou a juíza e a delegada que levaram o
reitor ao suicídio. Ou os bravos desembargadores do TRF4, aparentados com os
sobrinhos do Pato Donald, aqueles que tinham tanta afinidade que um completava
a fala do outro. A mídia não poderia condenar os abusos, até escondeu o
episódio chocante do suicídio do reitor, porque poderia enfraquecer a maratona
pela condenação de Lua.
Mas depois que Lula for condenado, tudo volta
ao normal.
Etapa 5 – o assassinato de Marielle
E aqui se ingressa em um fator detonador,
independentemente de quem seja os responsáveis diretos, se as milícias da PM ou
milícias de ultra-direita. Por fator detonador se considere os tiros com que
Gravilo Princip executou o arquiduque Francisco Fernando, levando à Primeira
Guerra; a morte de Walther Rathenau, que desmontou a Republica de Weimar;
a morte de João Pessoa que detonou a Revolução de 30 e a do Major Rubem Vaz,
que levou ao suicídio de Vargas. Ou, ainda, a morte do estudante Edson Luis que
expôs a violência que já vinha sendo praticada pela ditadura e inaugurou a nova
etapa da repressão..
Peça 2 – o processo de desmanche
Quando se disseminou a repressão, no período
do impeachment, gênios jornalísticos minimizavam: é muito diferente da
ditadura, que matava e torturava pessoas. Era óbvio que aquele momento
representava, como num filme, o período 1964-1968, que precedeu o AI-5. Não se
preocuparam com os alertas que mostravam a lógica que sucedia períodos de
tolerância com o arbítrio e o ódio. A Noite de São Bartolomeu passou a ser
praticada em etapas.
Em 1963 nasceu o Comando de Caça aos
Comunistas (CCC), no bojo da campanha de ódio alimentada pela mídia. Depois de
1968, eles se limitavam a quebrar teatros e espancar artistas e estudantes. Nos
porões, torturavam-se e matavam-se pessoas. E militares planejavam atentados de
grandes extensões. Todos esses processos nasceram da mesma árvore do ódio
plantado.
Tempos atrás fui a uma pacata cidade do
interior. Lá, em conversas familiares, um jovem casal, de família temente a
Deus, sem histórico de violência, falava da sua vontade de ver Lula
morto. A campanha sistemática de ódio, a irracionalidade plantada em suas
cabeças, faziam-nos, pessoas incapazes de fazer mal a um bicho, entender como
natural – e necessária – a morte de uma pessoa! A mídia conseguiu naturalizar o
ódio no Brasil.
Hoje em dia, é um sentimento generalizado, que
se espalha por todas as regiões do país e que, até agora, tinha em Bolsonaro e
sua tropa sua mais grotesca expressão. Com a execução de Marielle entra-se em
uma nova etapa na qual a doença social plantada pela mídia poderá resultar em
loucuras maiores do que discursos de ódio nas redes sociais, tempos de
terremotos e furacões, que podem preceder a entrega do poder a Bolsonaro e sua
“bancada da metralhadora”. Ele, aliás, evitou comentar a tragédia de Marielle,
para não expor o que pensa.
E quem vai segurar essa onda? A indignação
retardatária da velha mídia? Certamente não a PGR Raquel Dodge, uma burocrata
"apparatchik", subproduto da corporação, sem qualquer brilho ou
luz própria, só frases obvias, ultra burocráticas "mandei instalar um
procedimento em meu gabinete”.
Personalidades opacas e sem qualquer brilho no
STF, na PGR, no Senado, uma organização barra-pesada no Executivo. E
completa-se o mapa com os últimos dados econômicos, a queda geral do nível de
atividade do setor de serviços em relação a qualquer período do ano passado,
desmontando definitivamente a fábula da recuperação irresponsavelmente vendida
por Henrique Meirelles e endossada pela Globo.
Tudo isso com as eleições a caminho. Mas não
tem problema.
O Lula vai preso, o PT perde e tudo volta ao
normal.
Por um tempo acreditei que a perspectiva do
desastre promovia a volta à racionalidade. De 2005 – quando a mídia iniciou
essa loucura – para cá, todas as esperanças de uma saída racional foram jogadas
fora.
Marielle e “a maldade de gente boa”, por Pedro Camilo (Revista Nice)
“Gente boa”, “gente honesta”, “homens e mulheres de
bem” – assim se define uma categoria de ser humano que tem a especial
capacidade de se tornar insensível a uma grande parcela das misérias que se abatem
sobre a sociedade, sobretudo as que nem de longe podem atingi-lo.
É essa “gente boa” que diz que racismo é vitimismo
exagerado de um bando de negros que insiste em negar o fim da escravidão; que
mulheres só sabem reclamar, ao invés de compensar suas “fragilidades” com mais
trabalho para “se igualarem” aos homens; que “desceu dos tamancos” quando as
leis trabalhistas conferiram maiores direitos a empregados domésticos, afetando
seus seculares privilégios; que comemoraram todas as restrições e diminuição de
direitos, aquelas que foram injustas, que a reforma trabalhista de 2017
implantou no Direito do Trabalho pátrio; que defende, mesmo sob vara, que
corrupção é um problema partidário, e não sistêmico, e que as agruras do Brasil
se devem a uma década de espoliação, e não a quinhentos anos de “tenebrosas
transações”; que fala em “orgulho hétero”, em “perseguição ao homem branco”, em
“ideologia de gênero”, em “violação do sagrado instituto familiar” e em
meritocracia; que ignora que a história dos poderes constituídos é uma história
de “abuso de poder”, que tem respondido por injustiças profundas e pelo caos em
que surpreendemos setores como educação, saúde e segurança; que defende, dentre
outros, que seres humanos “justos e honestos” – a gente boa! – tem todo
direito, sim, de exterminar os seres humanos “injustos e desonestos” – a gente
má! –, como se fosse possível reduzir a vida a um maniqueísmo infantil e
bisonho.
Essa “gente boa”, espalhada por todos os cantos, tem
festejado a morte da vereadora Marielle de muitos modos, sustentando argumentos
sofríveis, do tipo “ontem morreu uma médica branca num assalto e o país não
parou”, “Freixo, vai defender os bandidos que mataram sua amiga”, “isso é o que
dá se meter com gente ruim”, “quem procura, acha”, “defendia bandido e foi
morta por eles”.
Desrespeitosa, cega por opção, incapaz de um mínimo de
empatia, essa “gente boa”, grande parte da qual se diz cristã (sic), que diz
defender “a vida, a moral e os bons costumes”, não percebe o recado eloquente e
acintoso que a execução de uma ativista social, negra, de origem pobre, uma das
mais votadas vereadoras da terceira economia do País, que está sob intervenção
militar e sob os olhares atentos de todo o mundo – essa “gente boa”, repito,
não percebe o recado que uma execução dessas representa e que o Capitão/Coronel
Nascimento, aquele do “Tropa de Elite”, ainda hoje reverbera: “O sistema é
foda!”, e ai daquele que ouse ultrapassar os curtos limites por ele fixados…
Marielle foi morta não pelos
“bandidos que defendia”, mas pelos “bandidos que combatia”. Ela foi vítima de
um sistema corrompido, consumido pela corrupção, que tem bandidos vestidos de
heróis (não todos, por óbvio, mas uma parcela infelizmente significativa e
virulenta) e que, sem qualquer escrúpulo, é capaz de tudo para que “tudo
continue como está”. Ela foi morta por aqueles que, colocados do “lado bom” da
história, se dizem defensores dos “humanos direitos” em detrimento dos
“direitos dos manos”. Ela foi morta por aqueles que praticam todo tipo de
bandidagem sob o pretexto de proteger “a gente boa” dos bandidos – quando eles
também são bandidos altamente perigosos!
Essa “gente boa”, na verdade, é o símbolo de um “ser
humano sofrível”, como diz meu amigo, Prof. Urbano Félix. Uma gente cheia de
ódio, que se ressente da extinção de todos os privilégios que já perdeu, que
não deseja ver a ascensão de quem sempre foi ralé, que acredita num
determinismo social, que acha que “direitos humanos” é um cara barbudo ou uma
mulher cabeluda que quer proteger os maus em detrimento dos bons.
“Deus me defenda […] da maldade de gente boa”, já
cantou Chico Cesár. Que me defenda, sim, dessa maldade que se traveste de
honestidade e indignação e que, no fundo, apenas revela o quanto são sofríveis
os valores e os ideais desses seres que insistem em serem chamados de humanos –
os tais “humanos direitos”…
Assinar:
Postagens (Atom)








