quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Conversações com Hugo Chávez e Raúl Castro - por Sean Penn (The Nation / Agência Cartamaior)

Em uma visita realizada a Venezuela e Cuba, em outubro deste ano, o ator e cineasta Sean Penn conversou demoradamente com Hugo Chávez e Raúl Castro. Ao final da entrevista com Castro, ele reflete: "a maior parte das questões básicas sobre soberania nos permitem entender o antagonismo norte-americano contra Cuba e Venezuela, assim como contra as políticas desses países. Eles sempre tiveram só duas escolhas: serem imperfeitamente nossos ou imperfeitamente deles mesmos".
Sean Penn, para o The Nation

O ator e cineasta Sean Penn visitou Venezuela e Cuba, em outubro deste ano, quando se econtrou com os presidentes dos dois países, Hugo Chávez e Raul Castro. Ele relatou essas conversas em um artigo publicado no The Nation.

Joe Biden, que em breve seria eleito vice-presidente, falava vigorosamente para as tropas: “Não podemos mais ser dependentes de energia de um ditador da Arábia Saudita ou da Venezuela”. Bem, eu sei o que é a Arábia Saudita. Mas, tendo estado na Venezuela em 2006, visitando favelas, me misturando com a rica oposição e passando dias e horas com os apoiadores do presidente, eu me pergunto, sem me perguntar, a quem o Senador Biden estava se referindo. Hugo Chávez Frias é o presidente democraticamente eleito da Venezuela (e por democraticamente eleito eu quero dizer que ele foi repetidas vezes apresentado perante os eleitores em eleições reconhecidas por observadores internacionais e obteve larga vantagem de votos, num sistema que, apesar de seus defeitos e irregularidades, permitiu aos seus opositores que lhe atacassem e ocupassem o seu cargo, tanto no referendo nacional no ano passado como nas recentes eleições regionais no último novembro).

As palavras de Biden foram do tipo de retórica que nos levou recentemente a uma guerra com perdas de vida e de altíssimo custo financeiro, a qual, enquanto derrubou um patife no Iraque, também derrubou a maior parte dos princípios dinâmicos sobre os quais os Estados Unidos foi fundado, intensificando o recrutamento para a AlQaeda e desconstruindo as Forças Armadas dos EUA.

Nestas alturas, em outubro de 2008, eu já tinha digerido minhas primeiras visitas a Venezuela e a Cuba e o tempo que passei com Chávez e com Fidel Castro. Tenho estado cada vez mais intolerante com a propaganda. Apesar de o próprio Chávez ter uma queda pela retórica, esta nunca foi causa de uma guerra. Esperando “desmitificar” esse “ditador”, decidi lhe fazer uma outra visita. Nesse momento eu tinha dito a amigos, privadamente: “É verdade, Chávez pode não ser um homem bom. Mas também é possível que seja um grande homem.”

Entre os amigos a quem disse isso estavam o historiador Douglas Brinkley e o colunista da Vanity Fair, Cristopher Hitchens. Esses dois se complementavam perfeitamente. Brinkley é um intelectual sólido, notável, cujo código de ética de historiador lhe assegura adesão suprema a evidências arrazoadas. Hitchens, um ardiloso operador de palavras, sempre muito imprevisível em suas preferências, é elemento insuspeito sob qualquer ponto de vista, já que uma vez, num programa de televisão, referiu-se a Chávez como um “palhaço rico em petróleo”. Ainda que eu pense que Hitchens é tão brilhante como íntegro, ele pode ser combativo ao ponto de agredir, como o fez uma vez com comentários pesados sobre a santa ativista antiguerra Cindy Sheehan. Brinkley e Hitchens equilibrariam qualquer viés em minha escrita. Além disso, são dois caras com quem tenho muita alegria e por quem tenho muita afeição.

Então, pedi a Fernando Sulichin, um velho amigo argentino e produtor independente de cinema, muito bem relacionado, que ele conseguisse uma entrevista com Chávez. Além disso, queríamos voar da Venezuela a Havana, e eu pedi a Fernando que solicitasse, em meu nome, entrevistas com os irmãos Castro, mais urgentemente com Raúl, que tomou as rédeas do poder de um Fidel doente em fevereiro – e que nunca deu uma entrevista a um estrangeiro. Eu tinha viajado a Cuba em 2005, quando tive a grande sorte de encontrar Fidel, e estava ávido por uma entrevista com o novo presidente. O telefone tocou às duas da tarde do dia seguinte: “Mi hermano”, disse Fernando. “Está feito”.

Nosso vôo de Houston a Caracas atrasou devido a problemas mecânicos. Era uma da manhã e, enquanto esperávamos, Hitchens dizia, andando, impaciente: “muito raramente só uma coisa dá errado”. Ele deve ter gostado do jeito que soou, porque disse de novo. Ele era o pessimista de Deus. Eu disse: “Hitch, vai dar tudo certo. Vão nos arranjar um outro avião e chegaremos lá a tempo”. Mas o pessimista de Deus é na verdade o ateísta pessimista de Deus. E eu seria lembrado depois da clareza desse ateísmo. Alguma outra coisa ia na verdade dar errado. Bem, errado ou certo, como você dirá. Em duas horas estávamos chegando.

Quando aterrissamos no aeroporto de Caracas, Fernando estava lá para nos receber. Ele nos levou a um terminal privado, onde esperamos pela chegada do Presidente Chávez, que nos levaria numa agenda eleitoral da campanha para governador na bela Ilha Margarita.

A Doutrina Monroe tem de ser quebrada”, disse Chávez. “Nós estamos presos nela há mais de 200 anos".

Passamos os dois dias seguintes na companhia constante de Chávez, com muitas horas de encontros privados entre nós quatro. No compartimento privado do avião do presidente, achei que quando se trata de baseball o domínio do inglês de Chávez aumenta. Quando Douglas pergunta se a Doutrina Monroe deveria ser abolida, Chávez, querendo escolher suas palavras cuidadosamente, verte-as para o espanhol para detalhar as nuances de sua posição contra essa doutrina, que justificou a intervenção norte-americana na América Latina por quase dois séculos. “A Doutrina Monroe tem de ser quebrada”, ele disse. “Nós estamos presos nela há mais de 200 anos. Isso sempre nos traz de volta o velho confronto de Monroe versus Bolívar. Jeferson costumava dizer que a América deveria engolir uma a uma das repúblicas do sul. O país em que você nasceu baseou-se numa atitude imperialista.”

A inteligência venezuelana diz-lhe que o Pentágono tem planos para invadir seu país. “Eu sei que eles estão pensando em invadir a Venezuela”, diz Chávez. Parece que ele vê a destruição da Doutrina Monroe como medida de seu destino. “Ninguém vai mais chegar aqui e explorar nossos recursos naturais”. Ele está preocupado com a reação norte-americana às suas declarações ousadas sobre a Doutrina Monroe? Ele cita o militante uruguaio pela liberdade José Gervasio Artigas: “Com a verdade eu não ofendo nem temo”.

Qual a diferença entre você e Fidel?” Chávez diz, “Fidel é um comunista. Eu não sou. Eu sou um social-democrata. Fidel é um marxista-leninista. Eu não sou. Fidel é um ateísta. Eu, não.

Hitchens estava sentado quieto, tomando notas ao longo da conversa. Chávez reconhece uma centelha de ceticismo nos seus olhos. “CRIS-tó-fer, faz-me uma pergunta. Faz a pergunta mais difícil!”. Eles trocaram um sorriso. Hitchens diz: “Qual a diferença entre você e Fidel?” Chávez diz, “Fidel é um comunista. Eu não sou. Eu sou um social-democrata. Fidel é um marxista-leninista. Eu não sou. Fidel é um ateísta. Eu, não. Um dia discutimos sobre Deus e Cristo. Eu disse a Castro que sou um cristão. Eu acredito nos Evangelhos Sociais de Cristo. Ele, não. Simplesmente, não. Mais de uma vez, Castro me disse que Venezuela não é Cuba e que não estamos nos anos 60”.

“Você vê”, diz Chávez, “a Venezuela deve ter um socialismo democrático. Castro tem sido um professor para mim. Um mestre. Não em ideologia, mas em estratégia”. Talvez ironicamente, John Kennedy é o presidente dos EUA favorito de Chávez. “Eu era um menino”, ele disse. Kennedy era a força motriz das reformas na América”. Surpreso pela afinidade de Chávez com Kennedy, Hitch entra na conversa referindo o plano econômico para a América Latina de Kennedy, contra Cuba. “A Aliança para o Progresso era uma coisa boa?” “Sim”, diz Chávez. “A Aliança para o Progresso era uma proposta política para melhorar condições. Foi pensada para diminuir as diferenças sociais entre culturas”.

As conversas entre nós quatro continaram em ônibus, comícios e inaugurações em toda a Ilha Margarita. Chávez não cansa. Ele falava com cada novo grupo de pessoas por horas debaixo de um sol a pino. Dorme no máximo 4 horas por noite, gastando a primeira hora de sua manhã lendo as notícias do mundo. E, uma vez de pé, ele é incansável, a despeito do calor, umidade e das duas camadas de camisetas vermelhas revolucionárias que ele veste.

Eu tinha três motivações centrais para essa viagem: incluir as vozes de Brinkley e de Hitchens, aprofundar meu entendimento de Chávez e da Venezuela e estimular minha mão de escritor e me engajar pelo apoio de Chávez para que os irmãos Castro encontrem a nós três em Havana. Ainda que Fernando tenha me assegurado que essa terceira peça do quebra-cabeças estava encaixada, houve algum mal-entendido cultural ou linguístico nas nossas conversas telefônicas. Enquanto isso, a CBS News aguardava uma reportagem de Brincley, Vanity Fair uma de Hitchens e eu estava escrevendo para o The Nation.

Se Barack Obama for eleito presidente dos Estados Unidos, o senhor aceitaria um convite para voar até Washington encontrá-lo?”. Chávez respondeu imediatamente: “Sim”.

No nosso terceiro dia na Venezuela nós agradecemos ao Presidente Chávez por seu tempo, os quatro entre seguranças pessoais e imprensa no aeroporto de Santiago Marino na Ilha Margarita. Brincley tinha uma questão final e eu também: “Senhor Presidente”, disse ele, “se Barack Obama for eleito presidente dos Estados Unidos, o senhor aceitaria um convite para voar até Washington encontrá-lo?”. Chávez respondeu imediatamente: “Sim”.

Quando chegou minha vez de perguntar, eu disse: “Presidente, é muito importante para nós encontrarmos os irmãos Castro. É impossível contar a história da Venezuela sem incluir Cuba – e impossível contar a história de Cuba sem os Castro”. Chávez nos prometeu que iria ligar para o Presidente Castro no momento em que entrasse no avião e pedir-lhe em seu nome pelo encontro, mas nos alertou que seria improvável que seu irmão mais velho, Fidel, pudesse responder tão rapidamente ao convite, já que ele estava escrevendo e refletindo muito nesses dias, sem ver muita gente. Ele tampouco faria promessas sobre Raúl. Chávez subiu no seu avião e nós vimos ele voar embora.

Na manhã seguinte saímos para Havana. Vou revelar tudo: estávamos num avião emprestado pelo Ministério de Energia e Petróleo da Venezuela. Se alguém quer se referir a isso como um suborno, fique à vontade. Mas quando você ler a próxima reportagem de um jornalista voando no Air Force One [o avião presidencial norte-americano], ou a bordo de um avião de transporte das forças armadas dos EUA, seja tão gentil como o está sendo ao rejeitar este artigo aqui. Nós gostamos do luxo na viagem, mas nossa reportagem permanece independente.

Para mim os riscos pessoais eram bastante altos. Pegar o avião até Havana sem uma mínima garantia de acesso a Raúl estava me deixando ansioso. Cristopher tinha cancelado algumas palestras importantes na última hora para fazer essa viagem. Não era hábito seu deixar os outros esperando. Então, para ele, era pegar ou largar e ele estava ficando agitado. Douglas, um professor de História na Universidade Rice, teria de retornar rapidamente para suas obrigações acadêmicas. Fernando sentia o peso de nossa expectativa de que ele fosse nosso batedor. E eu, bem, contava com o telefonema de Chávez a Raúl, tanto para conseguir a entrevista como para salvar minha reputação com meus companheiros.

Aterrissamos em Havana ao meio-dia e nos encontramos, na pista de aterrissagem, com Omar Gonzalez Jimenez, presidente do Instituto Cubano de Cinema, e Luis Alberto Notario, cabeça da ala de co-produção internacional do Instituto. Eu tinha passado um tempo com ambos na minha viagem anterior a Cuba. Começamos a falar de coisas pessoais enquanto caminhávamos até a alfândega, até que Hitch deu um passo à frente e, sem pudor algum, disse: “Senhor, precisamos ver o Presidente!”. “Sim”, disse Omar. “Nós estamos sabendo do pedido, e ele foi passado ao presidente. Ainda estamos esperando por sua resposta”.

Mas pelo resto do dia até a tarde do dia seguinte, torturamos nossos anfitriões com a batida incessante de Raúl, Raúl, Raúl. Eu acho que se Fidel tivesse condições e pudesse ter arranjado tempo, ele telefonaria. E, se não, eu continuaria grato pelo nosso encontro anterior e disse isso na nota que lhe escrevi e passei através de Omar. Raúl eu só conhecia através do que li, e não tinha a mínima idéia se ele iria ou não nos encontrar.

Mesmo o visitante sente o espírito de uma cultura que proclama, de várias maneiras: “Este é o nosso lugar especial”.

Os cubanos são um povo especialmente caloroso e hospitaleiro. Como nossos anfitriões, nos levaram para dar uma volta na cidade, onde notei que o número de carros americanos dos anos 50 diminuiu mesmo nos poucos anos que se passaram desde a minha última visita, dando lugar aos russos de design menor. Numa volta pela aparição invasiva da Secção de Interesses dos EUA (Sina) pelo Malecón, onde as ondas quebram contra a parede molhando os carros, vi algo quase indescritível sobre a atmosfera de Cuba. É a presença palpável da arquitetônica e humana história viva num pedaço de terra rodeado de água. Mesmo o visitante sente o espírito de uma cultura que proclama, de várias maneiras: “Este é o nosso lugar especial”.

Demos voltas pela Havana Velha e numa exposição envidraçada fora do Museu da Revolução, vimos o Granma, o barco usado para transportar revolucionários do México em 1956. Passamos pelo Palácio de Belas Artes, com sua coleção de peças apaixonadas e políticas de um corte transversal da profunda reserva de talento de Cuba. Fizemos então um passeio pelo Instituto Superior de Artes e depois fomos jantar com o presidente da Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón e com Roberto Fabelo, um pintor que eles convidaram depois que eu expressei meu apreço por seu trabalho no museu, naquela tarde. Já pela meia-noite ainda não havia uma palavra de Raúl Castro. Depois disso fomos levados à casa de protocolo, onde descansaríamos até o amanhecer.

Ao meio-dia do dia seguinte, o despertador estava disparando alto nos nossos ouvidos. Nós ainda tínhamos dezesseis horas em Havana antes de pegar nosso vôo de volta para casa. Estávamos sentados numa mesa em La Castellana, um restaurante luxuoso de Havana Velha, com um grande grupo de artistas e músicos que, liderados pelo famoso pintor cubano Kcho, tinham criado a Brigada Martha Machado, uma organização de voluntários que estão ajudando às vítimas dos furacões Ike e Gustav na Ilha da Juventude. A Brigada tem pleno apoio do governo, em dólares, aviões e pessoal, coisa que daria inveja aos nossos enviados para a costa do golfo depois do furacão Katrina. Também conosco estava Antonio Castro Soto del Valle, um rapaz bonito e humilde que é o filho de 39 anos de Fidel Castro. Antonio, que estudou medicina, é chefe da equipe médica do time de baseball cubano. Eu tive uma rápida mas agradável conversa com ele e re-enfatizei nossa agenda Raúl.

O relógio não estava mais funcionando. Estava pesando. Omar me disse que nós escutaríamos a decisão do presidente em breve. Dedos cruzados, Douglas, Hitch, Fernando e eu voltamos à casa de protocolo para pegar nossas bagagens, antes. Por volta de 6 horas da tarde, estávamos a dez horas da nossa volta. Eu estava sentado no térreo na sala de estar, lendo sob a fraca luz de fim de tarde. Hitch e Douglas estavam nos seus quartos, no primeiro andar, eu acho que descansando para afastar a ansiedade. E no sofá ao meu lado estava Fernando, roncando.

Então, Luis apareceu na porta aberta da frente. Eu olhei de soslaio sobre os meus óculos como se ele tivesse me dado uma resposta muito direta. Sem palavras, apontei para cima, onde meus companheiros estavam descansando. Mas Luis mexeu a cabeça se desculpando. “Só você”, ele disse. O presidente tinha tomado a decisão.

Eu poderia escutar as palavras de dúvida de Hitch no meu ouvido, “Muito raramente uma só coisa dá errado”. Ele estava falando de mim? Et mi, Brute? Em todo caso, pus a mão nos bolsos para ter certeza de que estava com as notas tomadas na Venezuela, com minha caneta, meus óculos e saí com Luis. Logo antes de eu bater a porta do carro que estava esperando, eu escutei a voz de Fernando me chamando. “Sean!” Nós partimos no carro.

Nos EUA, o Presidente cubano Raúl Castro, ex-ministro das forças armadas da ilha, tem sido tratado como um “militarista frio” e um “fantoche” de Fidel. Mas o jovem comandante de Sierra Maestra está provando que as serpentes estão erradas.

Nos EUA, o Presidente cubano Raúl Castro, ex-ministro das forças armadas da ilha, tem sido tratado como um “militarista frio” e um “fantoche” de Fidel. Mas o jovem comandante de Sierra Maestra está provando que as serpentes estão erradas. Na verdade, o “Raulismo” está em alta, ao lado do recente boom econômico industrial e agrícola. O legado de Fidel, como o de Chávez, dependerá da sustentabilidade de uma revolução flexível, que possa sobreviver à partida de seus líderes pela morte ou renúncia. Mais uma vez Fidel foi subestimado pelo Norte. Na escolha por seu irmão Raúl, ele pôs a política do dia-a-dia do país em mãos formidáveis. Num informe do Conselho para Assuntos Hemisféricos, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, John Casey, admitiu que o Raulismo poderia levar o país a “maior abertura e liberdade para o povo cubano”.

Logo, logo estou sentado numa pequena mesa polida no gabinete do governo com o Presidente Castro e um tradutor. “Fidel ligou há alguns minutos”, ele me disse. “Ele quer que eu telefone depois que conversemos”. Há um humor na voz de Raúl que lembra uma vida de tolerância afetuosa pelo olhar atento do seu irmão mais velho. “Ele quer saber tudo o que falamos”, disse com sorriso de sabedoria. “Eu nunca gostei da idéia de conceder entrevistas”, disse. “Diz-se muitas coisas mas, quando são publicadas tornam-se curtas, condensadas. As idéias perdem seu sentido. Eu soube que você faz filmes longos. Talvez também faça longo jornalismo”. Eu prometi a ele que escreveria o mais rápido que pudesse, e que publicaria tanto como escrevesse. Informalmente ele me disse que havia prometido sua primeira entrevista como presidente a outros, e não queria multiplicar o que poderia ser construído como um insulto; por isso escolheu a mim só e não aos meus companheiros.

A reforma agrária de 1959 foi o Rubicão de nossa revolução. Uma sentença de morte para as nossas relações com os EUA”.

Castro e eu tomamos uma xícara de chá. “Quarenta e seis anos atrás, hoje, exatamente a esta hora do dia, mobilizamos tropas, Alameda no oeste, Fidel em Havana, eu em Areda. Ao meio-dia me disseram que em Washington o Presidente Kennedy discursaria. Foi durante a crise dos mísseis. Nós estávamos esperando um discurso que fosse uma declaração de guerra. Depois da humilhação na Baía dos Porcos, a pressão dos mísseis [que Castro afirma ser estritamente defensiva] representaria uma grande derrota para Kennedy. Kennedy não suportaria esse fracasso. Hoje nós estudamos os candidatos norte-americanos muito cuidadosamente, focando em McCain ou Obama. Observamos todas as suas falas antigas. Particularmente aquelas feitas na Flórida, onde a oposição a Cuba se tornou um negócio lucrativo para muita gente. Em Cuba temos um partido, mas nos EUA há muito pouca diferença. Ambos os partidos são uma expressão da classe dominante”. Ele diz que hoje os membros do lobby Miami cubano são descendentes da era de riqueza de Batista, ou proprietários de terras internacionais “que só pagaram centavos por sua terra”, quando Cuba passou sessenta anos sob o domínio absoluto dos EUA.

“A reforma agrária de 1959 foi o Rubicão de nossa revolução. Uma sentença de morte para as nossas relações com os EUA”. Castro parece estar me avaliando enquanto toma outro gole de seu chá. “Naquele momento não havia discussão sobre o socialismo, ou sobre a relação de Cuba com a Rússia. Mas a sorte estava lançada”.

Depois que a administração Eisenhower bombardeou dois navios carregados de armas para Cuba, Fidel estendeu a mão a antigos aliados. Raúl diz: “Pedimos a Itália. Não! Pedimos a Tchecoslováquia. Não! Ninguém nos daria armas para nos defendermos porque Eisenhower havia lhes pressionado. Então, quando obtivemos as armas da Rússia, não tivemos tempo de aprender como usá-las antes do ataque na Baía dos Porcos!” Ele ri e se desculpa, indo rapidamente para uma sala ao lado, de trás de uma parede, só para voltar imediatamente à sala em que estávamos e fazer a piada: “Aos 77 isso é culpa do chá”.

Piadas à parte, Castro se move com a agilidade de um jovem. Ele se exercita todos os dias, seus olhos são brilhantes e sua voz, forte. Ele retoma de onde tinha parado. “Você sabe, Sean, há uma famosa foto de Fidel da invasão da Baía dos Porcos. Ele está na frente de um tanque russo. Não sabíamos ainda como pôr aqueles tanques em marcha ré. “Então”, ri, “entregar-se não era uma opção!” É demais para um “frio militarista”. Raúl Castro era caloroso, aberto, enérgico e de uma inteligência espirituosa.

"Bloqueio é um ato de guerra, então os americanos preferem embargo, uma palavra usada em procedimentos legais".

Eu retomo o assunto das eleições nos EUA repetindo a questão que Brinkley tinha feito a Chávez: Castro aceitaria um convite a Washington para encontrar com o Presidente Obama, se ele vencesse a eleição algumas semanas depois? Castro se torna reflexivo. “Essa é uma pergunta interessante”, ele diz, seguido de um longo, embaraçoso, silêncio. Até que: “Os EUA tem o processo eleitoral mais complicado do mundo. Há ladrões treinados em eleições do lobby cubano norte-americano na Flórida...” Eu o interrompo: “Eu acho que esse lobby está se quebrando”. E então, com a certeza de um otimista incorrigível, digo: “Obama será nosso próximo presidente”. Castro sorri, parece que de minha ingenuidade, mas o sorriso desaparece e ele diz: “Se ele não for assassinado antes de 4 de novembro, ele será seu próximo presidente.” Noto que ele ainda não respondeu a minha pergunta sobre o encontro em Washington. “Você sabe”, ele diz, “Eu tenho lido os discursos que Obama tem feito, que vai manter o bloqueio”. Eu digo “Seu termo é embargo”. “Sim”, diz Castro, “bloqueio é um ato de guerra, então os americanos preferem embargo, uma palavra usada em procedimentos legais...mas em todo caso, sabemos que isso é discurso pré-eleição, e que ele também disse que está aberto à discussão com qualquer um”.

Raúl interrompe a si mesmo: “Você provavelmente está pensando, Oh, o irmão fala tanto como Fidel!” Nós rimos. “Não é comum ser assim mas, você sabe, certa vez Fidel tinha recebido uma delegação, nesta sala, da China. Muitos diplomatas e um jovem tradutor. Eu acho que era a primeira vez do tradutor com dirigentes de Estado. Eles todos tinham tido um longo vôo e estavam sob efeito do fuso. Fidel, é claro, sabia disso, mas ainda assim falou por horas. Rapidamente, um dos visitantes, próximos ao fim da mesa, logo ali [aponta para a uma cadeira vizinha a minha], seus olhos começaram a pesar. Então outro, depois outro. Mas Fidel continuou a falar. Logo logo todos, inclusive os mais poderoso deles, a quem Fidel dirigia suas palavras diretamente, fizeram o barulho de ronco nas suas cadeiras. Então, Fidel dirigiu o olhar para a única pessoa acordada, o jovem tradutor, e continuou conversando com ele até amanhecer”. A essas alturas da história, tanto Raúl como eu estavámos às gargalhadas. Eu só tinha tido um encontro com Fidel, cuja mente assombrosa e paixão inundavam as palavras. Mas era suficiente para fazer a figura. Só o nosso tradutor não ria, quando Castro retornou ao ponto.

“No meu primeiro discurso depois que Fidel ficou doente, eu disse que estávamos querendo discutir nossa relação com os EUA em pé de igualdade. Depois, em 2006, eu disse isso de novo na Praça da Revolução. Eu era motivo de risos na mídia norte-americana por estar aplicando medidas cosméticas à ditadura”. Eu ofereço uma nova oportunidade para falar ao povo americano. Ele responde: “O povo americano está entre os nossos vizinhos mais próximos. Deveríamos respeitar uns aos outros. Nós nunca tivemos nada contra o povo norte-americano. Ter boas relações seria vantajoso para ambos. Talvez não possamos resolver todos os nossos problemas, mas podemos resolver muitos deles”. Ele parou agora, vagarosamente considerando um pensamento. “Eu vou lhe dizer uma coisa que nunca disse publicamente antes. Informações sobre mim tinham sido vazadas, em determinada altura, por alguém no Departamento de Estado dos EUA, mas isso foi rapidamente silenciado por conta da preocupação sobre o eleitorado da Flórida, ainda que agora, enquanto conto isso a você, o Pentágono venha a me considerar indiscreto”.

Temos tido contato permanente com as forças armadas dos EUA, através de acordos secretos, desde 1994.”

Eu dou uma parada na respiração e espero. “Temos tido contato permanente com as forças armadas dos EUA, através de acordos secretos, desde 1994”, Castro me conta: “Esses acordos se baseavam na premissa de que discutiríamos unicamente questões relacionadas a Guantánamo. Dezessete de fevereiro de 1993, atendendo a uma solicitação dos EUA para discutir questões relativas à localização de bóias para navegação na baía foi o primeiro contato entre nós na história da revolução. Entre 4 de março e 1 de julho, a crise dos balseiros tomou lugar. Uma linha de contato militar para militar foi estabelecida, e em 9 de maio de 1995 concordamos em ter encontros mensais com altos representantes de ambos os governos. Até hoje foram 157 reuniões, e há uma fita gravada de cada uma. Os encontros ocorrem a cada terceira sexta-feira, todo mês. Alternamos locais entre a base norte-americana de Guantánamo e em território cubano.

Temos feitos manobras conjuntas de respostas de emergência. Por exemplo, nós botamos fogo e helicópteros norte-americanos trazem água da baía, junto com helicópteros cubanos. [Antes disso] a base americana de Guantánamo tinha gerado um caos. Nós tínhamos perdido guardas de fronteira, e havia evidência documental disso. Os EUA encorajaram uma emigração ilegal e perigosa, com os barcos da Guarda Costeira norte-americana interceptando cubanos que tentavam sair da ilha. Eles os trariam para Guantánamo, e uma cooperação mínima começou. Deixaríamos de vigiar nossas costas. Se alguém quisesse deixar o país, diríamos, vá em frente.

E assim, com as questões de navegação começou essa colaboração. Agora, nos encontros das sexta-feiras há um representante do Departamento de Estado norte-americano”. Nenhum nome foi dado. Ele continua: “O Departamento de Estado norte-americano tende a ser menos razoável do que o Pentágono. Mas ninguém levanta sua voz porque...Eu não tomo partido. Porque eu falo alto. Este é o único lugar do mundo em que essas duas forças militares se encontram em paz”.

Havendo um encontro entre você e o nosso próximo presidente, qual seria a prioridade de Cuba?" Sem pestanejar, Castro responde: “Normalizar o comércio.”

“E quanto a Guantánamo?” Eu pergunto. “Eu vou lhe dizer a verdade”, diz Castro. “A base é nossa hóspede. Como presidente, eu digo que o EUA deveria partir. Como um militar, eu os deixo ficar”. Por dentro, eu me perguntava: será que tenho uma boa história nova para contar, aqui? Ou isso é de pouca relevância? Ninguém deveria surpreender-se com o fato de que inimigos se encontram por trás dos cenários. O que é surpresa é que ele está me contando isso. E, com isso, eu retorno à questão do encontro com Obama. “Havendo um encontro entre você e o nosso próximo presidente, qual seria a prioridade de Cuba?” Sem pestanejar, Castro responde: “Normalizar o comércio. A indecência do embargo norte-americano jamais foi tão evidente como agora, quando da passagem de três furacões devastadores. As necessidades do povo cubano nunca foram mais desesperadoras. O embargo é simplesmente desumano e completamente improdutivo”.

Raúl continua: “A única razão para o bloqueio é nos fazer sofrer. Nada pode deter a revolução. Deixem os cubanos visitarem suas famílias. Deixem os americanos virem a Cuba”. Parece que ele está dizendo “deixem eles virem ver essa terrível ditadura comunista sobre a qual continuam a escutar na imprensa, onde mesmo representantes do Departamento de Estado dos EUA e dissidentes proeminentes reconhecem que, em eleições abertas e livres hoje, em Cuba, o Partido Comunista que está no poder venceria com 80% do eleitorado. Eu listo vários conservadores norte-americanos que têm sido críticos ao embargo, do recém falecido Milton Friedman a Colin Powell, até mesmo o Senador Republicano do Texas, Kay Bailey Hutchison, que disse: “Eu acreditei por um tempo que deveríamos buscar uma nova estratégia para Cuba. E esta é abrir mais o comércio, especialmente o comércio de alimentos, sobretudo se podemos oferecer às pessoas mais contato com o mundo exterior. Se pudermos erguer a economia, isso pode fazer com que o povo se torne capaz de lutar contra a ditadura”. Castro, com certo ar de descaso, responde prontamente: “O desafio nos é bem-vindo”.

Nós somos tão pacientes como os chineses. Setenta por cento de nossa população nasceu sob o bloqueio.

Até aqui fomos levados do chá ao vinho tinto e ao jantar. “Deixe-me dizer uma coisa”, ele diz. “Nós temos pesquisas recentes que sugerem fortemente que temos reservas de petróleo em águas profundas, que as companhias norte-americanas podem vir aqui perfurar. Nós podemos negociar. Os EUA é protegido pelas mesmas leis de comércio de Cuba, como qualquer país. Talvez possa haver alguma reciprocidade. Há cem mil quilômetros quadrados de mar na área dividida. Deus seria injusto em não nos dar algum petróleo. Eu não acredito que ele nos privaria dessa maneira”. De fato, o US Geological Survey especula que há na área 9 bilhões de barris de petróleo e 21 trilhões de pés cúbicos de reservas de gás na bacia norte de Cuba. Agora que ele vem melhorando as relações com o México, Castro também está buscando fazê-lo com a União Européia. “As relações com a União Européia devem melhorar com a saída de Bush”, ele diz, confidencialmente.

“E os EUA?”, eu pergunto. “Escuta”, ele diz, “nós somos tão pacientes como os chineses. Setenta por cento de nossa população nasceu sob o bloqueio. Eu sou o mais antigo ministro das Forças Armadas da história. Quarenta e oito anos e meio até o último outubro. É por isso que estou neste uniforme e continuo a trabalhar no meu antigo escritório. No gabinete de Fidel nada foi tocado. Nos exercícios militares do Pacto de Varsóvia, eu era o mais jovem, e o que terá sido o mais velho. O Iraque é uma brincadeira de criança se comparado com o que aconteceria se os EUA invadisse Cuba”. Depois de outra taça de vinho, Castro diz, “Prevenir uma guerra é o mesmo que vencer uma. Essa é nossa doutrina”.

Com nosso jantar terminado, eu caminhei com o presidente através das portas corridas de vidro e entramos num jardim de inverno com plantas tropicais e pássaros. Enquanto bebíamos mais vinho, ele disse, “Há um filme americano – a elite está sentada numa mesa, decidindo quem será o próximo presidente. Eles olham para fora da janela, onde vêem o jardineiro. Você conhece o filme de que estou falando?”. “Being There” [Muito Além do Jardim, no Brasil], eu digo. “Sim!” Castro responde com entusiasmo, “Being There, eu gosto muito desse filme. Com os EUA, qualquer possibilidade objetiva existe. Os chineses dizem 'Em caminhos logos, você começa com o primeiro passo'. O presidente dos EUA deveria dar ele mesmo esse passo, mas sem ameaça à nossa soberania. Isso não é negociável. Podemos fazer acordos sem dizer ao outro o que fazer no interior de suas fronteiras”.

“Senhor Presidente”, eu digo, “vendo o último debate presidencial nos EUA, escutamos John McCain defender um acordo de livre comércio com a Colômbia, um país em que esquadrões da morte são notórios e onde vêm ocorrendo assassinatos de líderes de trabalhadores e que, ainda assim, continua a manter relações próximas com os EUA, tanto que a administração Bush está tentando passar esse acordo no Congresso. Como você sabe, eu acabei de vir da Venezuela que, como Cuba, a administração Bush considera inimigo nacional, ainda que, claro, compremos muito petróleo de lá. Me ocorreu que a Colômbia pode se tornar nosso parceiro estratégico na América do Sul, como Israel o é no Oriente Médio. O que você diria disso?”.

Ele pensa com cuidado sobre a pergunta, falando num tom lento e compassado. “Neste momento”, ele diz, “nós temos boas relações com a Colômbia. Mas eu diria que, se há um país na América do Sul em que há um ambiente vulnerável a isso...é a Colômbia”. Pensando na suspeita de Chávez das intenções de Bush em intervir na Venezuela, respiro fundo.

Vai ficando tarde e eu não queria deixá-lo sem perguntar sobre as alegações de violações dos direitos humanos e da suposta facilitação do narco-tráfico pelo governo cubano. Um informe de 2007 da Human Rights Watch afirma que Cuba “permanece sendo o único país na América Latina que reprime praticamente todas as formas de divergência política”. Mais ainda, que há algo como 200 prisioneiros políticos em Cuba, hoje, aproximadamente 4% deles condenados por dissenso não-violento. Enquanto aguardava os comentários de Castro, não conseguia parar de pensar na vizinha prisão norte-americana de Guantánamo e nas horrendas ofensas contra os direitos humanos que lá ocorrem.

“Nenhum país está 100% livre de abusos dos direitos humanos”, Castro me conta. Mas, ele insiste: “informes na mídia dos EUA são altamente exagerados e hipócritas”. De fato, mesmo grandes figuras dissidentes de Cuba, como Eloy Gutierrez Menoyo, reconhecem as manipulações, acusando a Secção de Interesses dos EUA de comprar o testemunho de dissidentes em dinheiro vivo. Ironicamente, em 1992 e 94, Human Rights Watch também descreveu ilegalidades e intimidações nos grupos anti-Castristas em Miami, que o escritor/jornalista Reese Erlich chamou de “violações normalmente associadas às ditaduras latino-americanas”.

Tendo dito isso, quero dizer que sou um americano orgulhoso e infinitamente consciente de que se eu fosse um cidadão cubano e escrevesse um artigo como esse sobre o governo de Cuba eu seria preso. Mais ainda, eu tenho orgulho do sistema criado pelos nossos pais fundadores que, ainda que não esteja exatamente intacto hoje, jamais foi dependente de um grande líder por época. Essas coisas permanecem em questão para os heróis românticos de Cuba e da Venezuela. Eu pensei em mencionar isso, e talvez devesse, mas eu tinha outra coisa na mente.

“Podemos falar sobre drogas?”, eu perguntei a Castro. Ele responde, “Os EUA é o maior consumidor de narcóticos no mundo. Cuba está situada diretamente entre os EUA e seus fornecedores. Isso é um grande problema para nós...Com a expansão do turismo, desenvolveu-se um novo mercado e nós lutamos contra isso. Também é dito que nós permitimos que narcotraficantes viajem através do espaço aéreo cubano. Nós não permitimos isso. Estou certo de que alguns desses aviões passam por nosso espaço aéreo. Isso se deve simplesmente à restrição econômica que faz com que não tenhamos mais um radar de baixa altitude funcionando”.

Os cubanos são nossos melhores parceiros nas guerras contra a droga e contra o terror no Caribe. São melhores inclusive que o México".

Por mais que isso soe exagerado, não o é, de acordo com o Coronel Lawrence Wikerson, um ex-assessor de Colin Powell. Wilkerson disse a Reese Erlich numa entrevista em janeiro: “Os cubanos são nossos melhores parceiros nas guerras contra a droga e contra o terror no Caribe. São melhores inclusive que o México. As forças armadas olham para Cuba como um parceiro bastante competitivo”.

Eu quero perguntar uma última vez a Castro minha questão não respondida, enquanto nossa múltipla linguagem corporal sugeria que estava chegando a hora de terminar. Já passava de uma da manhã, mas ele iniciou: “Agora”, ele diz, “você me pergunta se eu aceitaria me encontrar com [Obama] em Washington. Eu teria de pensar sobre isso. Iria discutir com todos os meus camaradas da direção. Pessoalmente, eu penso que não seria justo eu ser o primeiro a visitá-lo, porque sempre os presidentes da América Latina vão aos EUA primeiro. Mas também seria injusto ter a expectativa de que o presidente dos EUA venha a Cuba. Nós deveríamos nos encontrar num lugar neutro.

Ele faz uma pausa, deixando sua taça de vinho vazia na mesa. “Talvez pudéssemos nos encontrar em Guantánamo. Nós devemos nos encontrar e começar a resolver nossos problemas e, no fim do encontro, poderíamos dar um presente ao presidente...poderíamos levá-lo para casa com a bandeira dos EUA que tremula na baía de Guantánamo”.

Quando deixamos seu gabinete, somos acompanhados pelos assessores enquanto o Presidente Castro desce comigo ao lobby e me conduz ao carro que me esperava. Eu o agradeço pela generosidade de seu tempo. Quando meu motorista pôs o carro em marcha, o presidente bateu no vidro da janela ao meu lado. Eu o abaixei enquanto o presidente checou em seu relógio, vendo que sete horas tinham se passado desde o começo da entrevista. Sorrindo, ele disse “Vou telefonar para Fidel, agora. Posso prometer a você isso. Quando Fidel descobrir que eu passei sete horas falando com você ele terá certeza de que vai lhe dar sete horas e meia quando você retornar a Cuba”. Nós rimos e apertamos a mão em despedida.

Tinha chovido no começo da noite. Nas primeiras horas escuras, os pneus do nosso carro jorravam água sobre o calçadão húmido de uma quieta manhã de Havana, me dou conta de que a maior parte das questões básicas sobre soberania nos permitem entender substancialmente o antagonismo norte-americano contra Cuba e Venezuela, assim como contra as políticas desses países. Eles sempre tiveram só duas escolhas: serem imperfeitamente nossos ou imperfeitamente deles mesmos.

Viva Cuba, Viva Venezuela. Viva os Estados Unidos.

Quando volto à casa de protocolo, era quase duas da manhã. Meu velho amigo Fernando, imaginando que eu tivesse chegado bêbado, esperou por mim. Meus companheiros tinham tido uma noite ruim. O pobre Fernando teve de arcar com o peso da frustração deles. Eles não tinham ficado sabendo onde eu tinha ido, nem por que tinha lhes deixado para trás. E os oficiais cubanos com que eles podiam fazer contato insistiram para que eles estivessem a postos, caso um dos irmãos Castro lhes oferecesse espontaneamente uma entrevista. Assim eles perderam a última noite cubana na cidade. Depois de ter me deixado a par das coisas, Fernando foi tirar umas duas horas de sono. Eu fiquei acordado, revisando minhas notas e fui o primeiro na mesa do café da manhã, às 4:45hs. Quando Douglas e Hitch desceram as escadas, eu pus a ponta da toalha da mesa na minha cabeça, fingindo que estava com vergonha, de brincadeira. Eu acho, dadas as circunstâncias, que era um pouco cedo (não apenas com relação às horas) para testar o humor deles. A piada não funcionou. Enquanto Fernando tomou um vôo separado para Buenos Aires, nós tivemos um café da manhã e um vôo silencioso de volta ao lar doce lar.

Quando nós chegamos em Houston, eu me dei conta de que tinha subestimado o pelo duro desses dois grandes profissionais. Um gelo qualquer foi derretido. Dissemos nossos adeus, comemorando a viagem de vários dias. Nenhum deles foi malicioso para perguntar sobre o conteúdo da minha entrevista, mas Cristopher, quando foi pegar sua conexão para o leste me disse, na nossa partida: “Bem...eu acho que vamos todos lê-la”.

Sí, Se Puede!

Estava sentado num canto de minha cama com minha mulher, meu filho e minha filha, lágrimas caíndo do meu rosto, enquanto Barack Obama falava pela primeira vez como presidente-eleito dos Estados Unidos da América. Eu fechei meus olhos e comecei a ver o filme na minha cabeça. Também podia escutar a música, que muito apropriadamente era Dixie Chicks cantando uma música de Fleetwood Mac, sobre imagens montadas em baixa velocidade. Lá estavam eles: Bush, Hannity, Cheney, McCain, Limbaugh e Robertson. Eu os vi todos. E a música soava mais alto quando a imagem de Sarah Palin entrou em cena. Natalie Maines cantava docemente:

E eu vi meu reflexo nas montanhas cobertas de neve
até que a vitória acachapante me derrubou
A vitória acachapante me derrubou...(1)

(*) Sean Penn é ator e diretor de cinema

Texto publicado em The Nation

Tradução: Katarina Peixoto

(1) Em caso de interesse no complemento da peça cinematográfica imaginada por Sean Penn, pode-se ver e escutar a performance musical (sic) por ele referida via este link:http://www.youtube.com/watch?v=hGErtl9HZ7I&feature=related. N.deT.


Comentário: Numa reportagem longa e bela como esta, às vezes perdemos os detalhes. Raúl Castro afirma no meio da reportagem: "Fidel é um comunista. Eu não sou. Eu sou um social-democrata. Fidel é um marxista-leninista. Eu não sou".
Extremamente preocupante.
Acho que depois que Fidel falecer a coisa não ficará boa para Cuba. Desfalecer-se-á, como a Rússia, que era uma potência em muitos sentidos, e hoje... A influência que (ainda) possui é baseada no resto do arsenal militar que possuía do período comunista.

Aflora a semente - por Gianni Carta (Cartacapital)

Litvinov, segunda-feira 17: a polícia da República Tcheca tem um violento confronto com um grupo de cerca de 500 manifestantes extremistas que se dirigia a um bairro de roma (ciganos) com coquetéis molotov. Os extremistas usam seus coquetéis contra a policia, que reage. Os extremistas não conseguem chegar ao bairro. Saldo do confronto: sete manifestantes e o mesmo número de policiais feridos. Outras quinze pessoas presas.

Londres, setembro de 2008: Edrielson Ferreira Machado Mortari, mineiro de 35 anos, em situação regular no Reino Unido, é detido, embora não tenha cometido crime algum. Na delegacia de Snow Hill, centro de Londres, alegou que só forneceria impressões digitais diante de seu advogado. Mortari diz ter recebido então joelhadas e socos no rosto.

Milão, setembro de 2008: Abba, apelido de Abdul Wiliam Guibre, jovem de 19 anos de Burkina Fasso, é morto a cacetadas pelos proprietários do bar onde trabalhava. Fausto e Daniele Cristofoli, pai e filho, suspeitaram que Abba estaria roubando dinheiro. Pego em flagrante com um pacote de bolachas, o africano foi agredido pelos Cristofoli, que o chamaram de “negro sujo”.

Notre-Dame de Lorette, abril de 2008: no cemitério militar próximo a Arras, norte da França, vândalos profanam 148 túmulos de soldados muçulmanos arregimentados nas então colônias francesas da Argélia e Tunísia durante a Primeira Guerra Mundial. A cabeça de um porco é pendurada em uma lápide de sepultura.

Pesquisa realizada em novembro de 2005 pelo Institut CSA revelou que um terço dos franceses se declara racista. Ainda segundo a mesma enquete, divulgada pelo diário Le Monde, 63% dos cerca de mil entrevistados consideram que “certos comportamentos podem justificar reações racistas”. Já uma pesquisa realizada pelo governo da Grã-Bretanha mostrou-se reveladora: 56% dos entrevistados acreditam haver mais preconceito racial hoje do que cinco anos atrás. De acordo com o mais recente relatório do Eurobarômetro, há discriminação nos 27 países da União Européia.

A que se deve essa nova onda de racismo, responsável por duas devastadoras guerras mundiais no século passado, ambas iniciadas neste continente? A globalização, que em tese iria tornar as economias desenvolvidas e emergentes mais iguais, provocou efeitos contrários. O resultado é que uma nova leva de imigrantes empobrecidos invadiu a Europa, ao mesmo tempo que o continente atravessava um período de baixo crescimento e pequena geração de empregos. Os estrangeiros, antes bem-vindos em países como a Espanha, passaram a ser vistos como aqueles que vieram roubar o trabalho dos nativos.

As políticas antiimigratórias adotadas pela União Européia, e por diferentes líderes europeus, não ajuda a imagem do imigrante. E os discursos antiimigratórios e xenófobos de extremistas como Jean-Marie Le Pen, que ao liderar o Frente Nacional chegou no segundo turno das eleições presidenciais de 2002, foram adotados por direitistas como o presidente francês Nicolas Sarkozy, e até por líderes de centro-esquerda como o premier britânico Gordon Brown.

Na França, por exemplo, são realizados testes de DNA em estrangeiros que aqui vêm viver com suas famílias. Mais: Sarkozy, filho de húngaro com uma judeo-grega, pretende neste ano expulsar 25 mil clandestinos. Leis para impedir a entrada de pessoas com baixa qualificação profissional têm sido reforçadas. O premier italiano, Silvio Berlusconi, também aprecia os testes de DNA, mas só para os ciganos. Berlusconi alega que as impressões digitais dos roma (com inspiração na ideologia fascista dos anos 30) são necessárias para o recenseamento da população. Detalhe: os roma são legalmente reconhecidos como habitantes da União Européia.

Gustavo Behr, da Casa Brasil de Lisboa, oferece motivos válidos a favor da imigração: “Os imigrantes são um importante elemento de sustentação da segurança social, e também um dos poucos fatores de combate ao crescente e inevitável desequilíbrio demográfico europeu. Como é sabido, a taxa de natalidade em alguns países é inferior à da mortalidade”.

Behr diz que certos veículos da mídia associam “imigração à criminalidade” e graças a essa “equação” o imigrante virou bode expiatório. De fato, um terço dos presos na Itália, para citar um exemplo, são estrangeiros. Os motivos podem ser vários, como a falta de emprego ou por serem marginalizados, mas o fato é que mais estrangeiros que cidadãos com nacionalidade local vão ao cárcere. Contudo, Behr tem razão ao dizer que políticos (e não só de direita) e a mídia, principalmente a popular, estereotipam os imigrantes. Na França, o encanador polonês virou, em 2005, o símbolo da mão-de-obra barata na campanha da esquerda contra a Carta Européia. Em Londres, o tablóide Daily Mail pintou e bordou com os encanadores poloneses, que desde a integração de seu país à UE fluíram em massa para a ilha. Consta, porém, que contribuem com cerca de 2,3 bilhões de libras anuais ao Tesouro britânico.

Após serem discriminados anos a fio, os poloneses estão voltando para seu país por causa da crise econômica, da libra enfraquecida e de uma Polônia em melhor situação econômica. Hoje, as remessas que fazem aos seus familiares na Polônia são 30% inferiores às do período anterior à crise.

Por motivos econômicos, mas também devido a guerras e catástrofes climáticas, imigrantes do Terceiro Mundo, incluindo significante fatia das ex-colônias, vieram tentar uma vida melhor na Europa. Depois das pesadas restrições à entrada de estrangeiros nos Estados Unidos, após os atentados de 11 de setembro de 2001, muitos imigrantes tomaram o caminho do Velho Mundo. Mas os ataques terroristas a Madri e Londres também provocaram um endurecimento das políticas na União Européia. As fronteiras se tornaram verdadeiros muros de fortalezas, com o uso de tecnologias que registram, além das impressões digitais, a cor dos olhos e da pele, ossatura, postura, voz e o comportamento de um modo geral.

Mesmo assim, as ondas migratórias, de brasileiros em particular, não têm diminuído. Em Portugal, os brazucas formam a maior comunidade estrangeira (15,2% do total de estrangeiros, à frente dos imigrantes de Cabo Verde). Segundo Behr, essa estatística não inclui os cerca de 20 mil brasileiros em situação ilegal no país.

Enquetes realizadas pela S.O.S. Racismo revelaram que havia 30 mil brasileiros na Espanha em 2005. Em 2007, o número subiu a 80 mil. Segundo Carlos Mellinger, ex-árbitro profissional de futebol e agora diretor da Associação Brasileira no Reino Unido (Abras), a comunidade brasileira no Reino Unido soma 300 mil indivíduos. Mellinger sustenta que não existe, na ilha, discriminação contra o brasileiro, tido como “trabalhador, eficaz e higiênico”. A Abras, financiada por taxas de adesão e com 14 voluntários, também está envolvida no já citado caso do mineiro Edrielson Mortari. A associação confirmou à revista brasileira publicada em Londres, Leros, que, de fato, Mortari foi “espancado” e “chegou quase a perder os sentidos”. Sobre se casos como o de Mortari e o da brasileira que não foi atendida num hospital público (e tinha todo direito) não se trata de ações com base em preconceito racial, Mellinger repete: “Veja, há casos de discriminação, mas não necessariamente porque o estrangeiro é brasileiro. E é algo pessoal, entre, por exemplo, a enfermeira e a brasileira que vai ao hospital. A verdadeira discriminação contra o estrangeiro vem dos altos cargos políticos, principalmente às vésperas de eleições, para satisfazer parte dos eleitores”.

Sentado a uma mesa no Bar Italia, no Soho, bairro de vanguarda no centro de Londres, o afável Vicente Lou, editor da Leros, publicação fundada há 17 anos para a comunidade e lida por 70 mil brasileiros, concorda com Mellinger. “Há racismo contra estrangeiro, mas não contra brasileiros”, observa.

Contudo, medidas impostas pelas autoridades indicam que o brasileiro é detectado entre outros estrangeiros. O Brasil permanece no topo da lista dos países com o “maior número de expulsos” do reinado. Ano passado 11,4 mil foram enviados para casa. Destes, 4,7 mil não conseguiram ultrapassar as fronteiras das Ilhas Britânicas e 6,7 mil ilegais foram deportados. A lista de enviados ao Brasil de 2008 incluirá o cantor Seu Jorge, convidado de um programa televisivo em Londres, mas barrado no aeroporto de Heathrow. Motivo dado: falta de visto, embora brasileiros não precisem de visto para entrar no Reino Unido.

Os brasileiros também não têm sorte na Espanha. De janeiro a setembro de 2008 foram os estrangeiros mais barrados em Madri. Mais de 2 mil brasileiros tiveram de voltar. A maioria, como no Reino Unido, não apresenta bilhete de retorno, não tem cartão de crédito, ou meios para se sustentar. Mas não são somente os pobres brasileiros que sofrem ao querer melhorar suas vidas em outras terras. Veja o caso de Rachid (ele pede anonimato, como vários entrevistados). Aos 47 anos, é empresário nascido em Londres, filho de européia com paquistanês. Os traços de seu rosto são anglo-saxônicos, os olhos claros. Porém, seu nome não ajuda.

Em Nova York, para onde viaja com freqüência, Rachid é, apesar do passaporte britânico, interrogado horas a fio nos aeroportos. Em Londres, também é interrogado nos aeroportos, mas, devido a sua chamada “etnia visível”, nas ruas não é sujeito ao racial profiling pela polícia. Os costumeiros suspeitos são negros e asiáticos, a maioria oriunda da Índia e do Paquistão.

Com 5 milhões de muçulmanos, ou 8% da população do país, a França tem a maior comunidade muçulmana da Europa. O que explica, em abril, a profanação dos túmulos de soldados árabes que defenderam o país durante a Primeira Guerra Mundial. Rachida Dati, a ministra da Justiça de origem magrebina (Norte da África), denunciou as “conotações racistas que mancham a memória dos mortos, os veteranos que deram suas vidas pela França”.

A islamofobia é tangível nas ruas. Nos bairros burgueses de centros como Paris e Lyon cidadãos se sentem ameaçados por uma juventude muçulmana de menos de 20 anos, geralmente oriunda de subúrbios. Encapuzados, vários pertencem a gangues.

Esses jovens são filhos e netos de habitantes das colônias francesas no Norte da África encorajados a vir trabalhar aqui a partir dos anos 50. Trabalharam em indústrias, e fizeram parte do crescimento econômico. Para abrigar esses operários e famílias, subúrbios como Clichy-sous-Bois, ao nordeste de Paris, foram erguidos às pressas e pelo menor preço possível. Resultado: hediondos edifícios, supermercados e escolas. Não há sequer uma estação de metrô em Clichy-sous-Bois.

Hoje, o nível de desemprego lá é de 40%, três vezes mais elevado que a taxa nacional. Nas ruas, com muros repletos de grafite, perambulam jovens encapuzados, traficantes de drogas e pequenos criminosos. Nasceram na França, mas são tratados como cidadãos de segunda categoria. Por conta de seus nomes árabes, eles têm maior dificuldade em encontrar empregos. São jovens em busca de uma identidade.

Não causa surpresa, portanto, que essa outra França tenha se revoltado no final de outubro de 2005, quando dois muçulmanos, Zyed Benna e Bouna Traoré, 17 e 15 anos, morreram eletrocutados numa estação de transmissão elétrica. Habituados a produzir documentos, e cientes de que um interrogatório poderia terminar na delegacia, e durar mais de quatro anos, preferiram se esconder da polícia.

Os violentos confrontos entre jovens dos subúrbios e a polícia de choque se esparramaram por toda a França. Lembravam cenas de insurreições do Terceiro Mundo. À época, Sarkozy, então ministro do Interior, chamou os jovens de “escória”, algo que Le Pen teria dito com prazer. A ira dos jovens só aumentou.

Ataques físicos e verbais contra judeus, na França, sempre existiram e, no seu auge, em 2004, foram registradas mil agressões. Devido a esses atos, quase 3 mil judeus fizeram o liyah, ou emigração para Israel, em 2007. Na França vivem 600 mil judeus, ou 1% da população. Certas gangues de muçulmanos encapuzados dificilmente conseguirão acertar um soco em Sarkozy, mas eles buscam outros cidadãos, e de preferência jovens judeus. O 11º Arrondissement, bairro ao nordeste de Paris, foi o centro de uma dessas disputas: jovens árabes deixaram um judeu de 17 anos em estado de coma.

O bairro tem alto nível de desemprego e é habitado por árabes de classes sociais pobres. Judeus escolhem moradias no local por causa presença de uma escola judaica. Suásticas sobram nos muros e caixas postais, e no parque do bairro as brigas entre gangues de árabes e judeus são freqüentes.

Um senegalês de 28 anos foi morto a facadas no início de setembro, em Roquetas de Mar, ao sul da Espanha, ao tentar apartar uma briga entre um compatriota e um roma. A comunidade negra saiu em massa pelas ruas, queimando duas casas dos supostos assassinos, vandalizando e enfrentando a polícia. Houve dezenas de feridos, quatro presos. Na Itália, mais particularmente em Nápoles e vizinhanças, a Camorra, a máfia local, instiga os italianos de classes menos abastadas a atacar os roma. Talvez porque os ciganos, ao contrário de cidadãos ilegais, se recusaram a vender sua cocaína e bolsas Prada falsificadas? Grupos vigilantes, comandados pela Camorra, perpetraram atos de inenarrável violência contra ciganos. O ministro do Interior, Roberto Maroni, pôs mais lenha na fogueira: “É isso o que acontece quando ciganos roubam bebês”. Meses depois, duas irmãs ciganas, Cristina e Violetta Djeordsevic, de 13 e 11 anos, nascidas na Itália, morreram afogadas em Torregaveta, balneário próximo de Nápoles. Seus corpos foram cobertos por toalhas, ficaram na praia à espera de remoção por três horas. Enquanto isso, quem estava por perto voltou a suas atividades normais, sem se preocupar com os corpos.

Sociólogos alegam que o país tem sido, há séculos, uma monocultura. Um negro italiano é uma novidade. No entanto, nada justifica a atuação perante estrangeiros. Nos últimos dois meses sobram incidentes. O negro Guibre foi morto a cacetadas em Milão por ter “roubado” um saco de bolachas, um homem de Gana apanhou em Parma num confronto com a polícia, um chinês foi espancado por uma gangue de jovens em Roma, outros seis africanos foram assassinados pela Camorra. Maroni, o ministro do Interior, novamente fez uma observação insólita: “Foram casos isolados”. Mas Jean-Leonard Touadi, o primeiro deputado negro (do Congo) no Parlamento italiano, disse: “Trata-se de uma seqüência de eventos preocupantes que não podem ser catalogados como incidentes isolados’’.

O mesmo vale para toda a Europa.

PT envelheceu internamente e precisa se revigorar" - por Emir Sader (Agência Cartamaior)

O impulso inicial que deu vida ao PT e desembocou no governo Lula, se esgotou. O dinamismo, a referência hoje está no governo e não no PT. Este precisa revigorar-se social e ideologicamente, para voltar a desempenhar um papel importante no campo político e ideológico do país, que tem na conjuntura já aberta da sucessão presidencial a maior das suas batalhas contemporâneas. A análise é de Emir Sader.
Emir Sader

O PT foi a maior esperança da esquerda brasileira – e talvez mundial, em um momento de esgotamento da esquerda tradicional. Depois de mais de duas décadas de existência, desembocou no governo Lula que, medido pela imagem ideológica que o partido tinha na sua fundação ou que exibiu na sua primeira década de vida, seria irreconhecível.

Não se trata agora de fazer uma breve história do partido e saber onde aquele fio original foi cortado e outro perfil foi se desenhando. Certamente ele tem a ver com a projeção da imagem de Lula, por cima e, de certa forma, de maneira independente do partido. Trata-se agora de tentar entender a situação em que se encontra o partido – paradoxalmente com um perfil político extremamente baixo, quando Lula exibe níveis recordes de apoio, de 80%. Em suma, o sucesso do governo não é o sucesso do PT, que ainda não saiu das duas crises que o envolveram nos últimos anos.

O PT sofreu dois duros golpes desde a vitória de Lula, em 2002. O primeiro, o perfil assumido pelo governo, com Palocci funcionando quase como um primeiro-ministro e impondo uma hegemonia neoliberal e continuísta ao governo. Tal como havia se configurado na parte final e decisiva da campanha eleitoral, se constituiu em torno de Lula um núcleo dirigente do governo, que tinha em dois dos arquitetos da vitória – Palocci, com a Carta aos brasileiros, e Duda, com o “Lulinha, paz e amor” -, referências fundamentais.

Palocci dava a linha geral, manejava os recursos, impunha – até mesmo a Lula – o discurso geral do governo. O PT presenciou tudo isso, ferido pela crise de expulsão e posterior saída de outros de seus membros, impotente. Não conseguir defender a reforma da previdência, que atentava contra tudo o que havia defendido, nem as orientações econômicas do duo Palocci-Meirelles, se defendia das posições de ultra-esquerda, que prenunciavam um caminho de isolamento, sectarismo e derrota.

Pouco tempo depois, quando o governo ainda não decolava, veio a chamada “crise do mensalão”, em um momento em que o partido ainda não tinha se refeito da primeira crise. Foram os piores anos da história do PT – 2003-2005. A imagem do partido foi revertida de partido ético, da transparência, para partido vinculado a negociatas e à corrupção, uma reversão da qual não conseguiu e dificilmente conseguirá sair. Apesar das eleições internas, que recuperaram um pouco da auto-estima, sem forjar uma nova direção com capacidade de redefinir o papel do PT e suas relações com o governo.

Lula e o governo se safaram da crise a partir dos efeitos das políticas sociais que se fortaleceram com as mudanças dentro do governo – especialmente a queda de Palocci e o enfraquecimento das suas orientações dentro do governo – e com o papel dinâmico que Dilma Rouseff passou a imprimir nas ações governamentais.

Mas, de alguma maneira o governo se safou com a crise exportada para o PT. A imagem que ficou foi a de que “os petistas” haviam cometido graves erros, que quase comprometeram irremediavelmente o governo Lula. E as acusações sobre José Dirceu e sobre os principais dirigentes partidários confirmavam essa versão. E o baixo perfil das direções posteriores, tanto a que foi eleita no PEC, quanto posteriormente pelo Congresso, foram na mesma direção, pelo baixo perfil dessas direções, pela falta de capacidade de iniciativa política e de mobilização da própria militância do PT.

O Congresso, ao invés de um grande balanço do primeiro governo de esquerda, conquistado ao longo das lutas de toda a história do PT, acabou sendo mais um acerto de contas entre as tendências sobre a crise do partido. Criticas à política econômica reafirmaram certo grau de independência diante do governo, mas em geral a avaliação deste e, sobretudo, as propostas para o segundo governo, não foram o centro do Congresso, desperdiçado para recuperar a capacidade de ação do PT.

No entanto, os problemas vêm de mais atrás e são mais profundos. A via moderada escolhida pelo PT já se assentava numa perda do peso da militância jovem e da militância social, marcante já no Congresso de 2000, realizado em Pernambuco. O partido perdeu capacidade de empolgar e mobilizar os que lutam ou poderiam ser despertados para a luta por um outro país, por “um outro mundo possível”. Uma parte destes trabalham em torno do MST ou de outros movimentos sociais, outros permanecem no PT, mas sem ímpeto de ação. O envelhecimento interno do partido é óbvio, não apenas na idade dos seus membros, mas também na falta de idéias, de criatividade, de alegria, de encarar os novos desafios com um rico e pluralista debate interno.

É como se o PT estivesse ainda sofrendo os efeitos de uma quase morte da experiência de governo, tivesse se safado por pouco, mas tivesse exaurido suas energias na sobrevivência, não voltando a ganhar ímpeto, criatividade, iniciativa, capacidade de liderança e, principalmente, de mobilização de novas camadas.

A elaboração de uma plataforma pós-neoliberal e o apoio decidido à organização das bases sociais pobres que apóiam substancialmente ao governo Lula – se constituem nas duas maiores tarefas que o PT tem que enfrentar, para se renovar, se revigorar. Encarar frontalmente o tema da plataforma com que vai lutar para o governo posterior ao de Lula e recompor suas bases sociais de apoio, na direção das grandes massas do nordeste e das periferias das grandes metrópoles – onde residem os imensos bolsões de pobreza beneficiados pelas políticas sociais do governo – para reconquistar energia, capacidade de luta, de mobilização.

Porque o impulso inicial, o que deu vida ao PT e desembocou no governo Lula, se esgotou. O dinamismo, a referência hoje está no governo e não no PT. Este precisa revigorar-se social e ideologicamente, para voltar a desempenhar um papel importante no campo político e ideológico do país, que tem na conjuntura já aberta da sucessão presidencial a maior das suas batalhas contemporâneas. É uma nova grande possibilidade para o PT, onde se disputa o futuro do Brasil na primeira metade do século – na consolidação, correção de rumos, aprofundamento das linhas progressistas do governo atual ou no catastrófico retorno do bloco de direita ao governo.

O papel do PT será essencial se assumir a luta pelo cumprimento desses dois objetivos essenciais: formulação da plataforma pós-neoliberal para a campanha de 2010 e trabalho duro na organização das grandes camadas pobres que dão sustentação ao governo Lula.

Mendes quer que o Supremo cale o ministério público - por PHA

http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/?p=1712 - por Paulo Henrique Amorim.

“Passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais” - Entrevista com Daniel Bensaïd (Agência Cartamaior)

De passagem pelo Brasil, filósofo francês concede entrevista exclusiva à Carta Maior, na qual analisa a crise financeira, comenta as situações dos EUA e da Europa e aponta os desafios para a esquerda construir uma alternativa ao modelo atual.
Maurício Thuswohl

RIO DE JANEIRO - No Brasil para uma série de palestras que acompanham o lançamento de um de seus livros - Os Irredutíveis, teoremas de resistência para o tempo presente (Ed. Boitempo) - o cientista político e filósofo francês Daniel Bensaïd, em entrevista exclusiva à Carta Maior, analisa a crise financeira global e seus possíveis desdobramentos. Durante a conversa, que aconteceu antes da palestra realizada segunda-feira (3) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bensaïd apontou as contradições dos líderes europeus de direita que falam em um “novo acordo de Bretton Woods” e afirmou - ainda sem saber o resultado das eleições - que a liderança dos Estados Unidos sofre um declínio irreversível e que a hegemonia norte-americana só se sustenta atualmente graças ao poderio militar e político do país.

Renomado teórico trotskista, Bensaïd fez também duras críticas à social-democracia européia e apontou a falta de um projeto de esquerda na Europa. O francês afirma não conhecer muito bem a situação da América Latina, mas acredita que os governos de esquerda da região podem constituir uma alternativa local à crise. Ele afirma também que chegou a hora de dizer qual “outro mundo possível” realmente queremos. Leia abaixo a entrevista de Daniel Bensaïd [...].

Carta Maior – Quais são suas impressões, em linhas gerais, sobre a atual crise financeira mundial? Estamos diante de uma crise terminal do sistema capitalista?

Daniel Bensaïd – O capitalismo não vai acabar sozinho. Esta é uma crise histórica, e não somente uma crise ordinária, como o capitalismo conheceu a cada dez ou quinze anos. Essa crise era também previsível, porque é impossível exigir_ como fazem os acionistas _ um retorno sobre seus investimentos da ordem de quinze por cento ao ano frente a um crescimento que em média, no caso dos países desenvolvidos, é de dois ou três por cento ao ano. Alguns dizem que a crise financeira pode chegar à economia real, o que é uma fórmula um pouco absurda porque as finanças fazem parte da economia, elas não são irreais, efetivamente. Por trás dessa crise financeira já havia uma crise de produção. Ao menos para os países europeus - eu não conheço as estatísticas sobre o Brasil - a divisão do valor agregado entre salário e trabalho se deslocou dez por cento em favor do capital, ou seja, do ganho do capital em detrimento do trabalho, o que provoca uma crise incontrolável. Para continuar a vender - porque se existe o produto é preciso vendê-lo - houve um aumento totalmente louco do crédito, e não somente do crédito hipotecário imobiliário nos Estados Unidos. Também aumentou o crédito ao consumo, o crédito às empresas, etc. A crise, desse ponto de vista, era previsível.

Por outro lado, ela não é simplesmente uma fatalidade, é o resultado de decisões políticas que se acumularam por vinte anos, porque a desregulamentação das bolsas, a livre circulação de capitais, o desenvolvimento dos ganhos do capital não fiscalizados, tudo isso foi precedido por uma série de medidas legislativas tomadas pelos diferentes parlamentos na Inglaterra, na França, na Alemanha, etc. No que concerne à Europa, isso foi sistematizado pelos diferentes tratados da União Européia, de Maastrich em 1992 até o Tratado de Lisboa no ano passado, que codificaram o livre mercado europeu. Portanto, essa era uma crise previsível e ela é muito grave porque é globalizada, esse é seu caráter inédito. Mas, por trás de tudo isso, eu creio que o capitalismo poderá se restabelecer, ele já resistiu a outras crises. O problema é saber a qual preço e quem vai pagar o preço, pois essa é, afinal de contas, uma crise mais profunda. No jargão marxista, podemos dizer que a lei do valor atualmente funciona muito mal. Hoje, não podemos medir pelo tempo do relógio um trabalho social muito complexo, que cada vez mais mobiliza conhecimento acumulado, como não podemos tampouco medir a crise ecológica pela flutuação das bolsas de valores.

CM – A crise ambiental, com o problema do aquecimento global, torna a crise financeira ainda mais grave. Estamos vivendo uma crise da humanidade?

DB – Sim, e a crise ambiental não é um problema qualquer. Quando pensamos nas conseqüências, que virão durante séculos ou talvez milhares de anos, da estocagem de lixo nuclear, da destruição das florestas, da poluição dos oceanos e, agora, das mudanças climáticas, vemos que todos esses problemas não poderão ser controlados simplesmente pelos mecanismos do mercado que, por definição, são mecanismos que arbitram no curto prazo ou de maneira instantânea. Está no centro do que chamamos de organização social a prática de medir toda riqueza, toda relação social, e mesmo a relação da sociedade humana com a natureza, pelo único critério do tempo de trabalho abstrato.

CM – Os países da Europa tomaram a dianteira contra a crise com medidas protecionistas e forte presença do Estado. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os países devem caminhar para um novo Bretton Woods. Como o senhor analisa a posição européia?

DB – Existe uma contradição em uma crise como esta. Como a globalização esta aí e é, em parte, irreversível, todo mundo hoje, e mesmo os antigos liberais fanáticos de outrora, pensa que é preciso estabelecer uma regulação e novas regras do jogo. Todo mundo fala de uma regulação em escala mundial, um novo Bretton Woods, ou ao menos em escala continental como, se pegarmos o exemplo da Europa, a criação do Fundo Soberano Europeu. Estas são as intenções. Ao mesmo tempo, dentro de uma crise grave como esta, cada um tenta jogar de forma solitária, e nós observamos desde o início da crise interesses diferentes como, por exemplo, na Alemanha e na Irlanda, que quiseram proteger seus próprios capitais e seus próprios bancos.

É cedo demais para dizer quem vai levar a melhor ou se haverá uma espécie de solidariedade entre capitalistas suficientemente forte para criar mecanismos de controle da crise e de solução para os nossos problemas. Ou ainda, ao contrário, se vamos assistir a um agravamento muito forte da concorrência intercapitalista, interimperialista ou entre os grandes blocos. Uma crise como a atual cria também tendências centrífugas muito fortes.

CM – O senhor acredita que esta crise consolida o declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica mundial?

DB – Do ponto de vista econômico, o declínio do império americano começou há muito tempo. Os EUA é o país mais endividado do mundo, que continua a desempenhar um papel hegemônico, em grande parte, por causa do seu poderio militar, que representa 60% dos armamentos e das despesas com armamentos em todo o mundo. E, atualmente, existe um efeito perverso, pois a dívida americana havia sido neutralizada pelo deslocamento de capitais dos países produtores de petróleo e da China aos EUA sob forma de Obrigações do Tesouro, ou seja, em dólares. Se esse capitais se retiram, eles fazem o dólar cair e os EUA perdem de todo jeito. Portanto, do ponto de vista econômico, existe uma espécie de mecanismo que deixa os EUA na condição de refém. Enquanto os EUA mantiver a hegemonia militar, o cenário atual poderá durar, mas a gente vê muito bem hoje, e via mesmo antes da crise, que o euro - ou mesmo o yen, mas, sobretudo o euro - pode se tornar a moeda de reserva no lugar do dólar, que ainda guarda seu papel de moeda de troca internacional muito mais por causa da potência política e militar estadunidense do que por causa da solidez da economia dos Estados Unidos. Por isso, eu creio que hoje o declínio dos EUA é irreversível.

CM – Qual sua avaliação sobre o posicionamento da esquerda frente à crise financeira? O senhor acredita que os governos de esquerda da América Latina podem ter papel importante na busca de soluções para a crise?

DB – Eu não conheço muito bem o contexto da América Latina. Eu não sei qual vai ser, por exemplo, a capacidade da Venezuela se o preço do petróleo continuar a cair, portanto é mesmo possível que os efeitos da crise sejam mais duros para países como a Bolívia ou a Venezuela do que para o Brasil, que tem uma exportação mais diversificada. Eu penso que a crise se fará sentir também no Brasil, mas talvez menos forte. Agora, se a reação à crise vai começar a partir de um pólo bolivariano ou a partir da tentativa do Banco do Sul para se tornar autônomo em relação ao dólar, se vai ser criada uma solidariedade energética e alimentar entre os países da América Latina, se isso tudo vai avançar ou não, a questão está aqui e a resposta está aqui. Eu não tenho resposta.

CM – E na Europa, existe um projeto da esquerda?

DB – A social-democracia, que é a maior força de esquerda na Europa, vem destruindo metodicamente nos últimos vinte anos os mecanismos do Estado-providência e do Estado de Bem Estar Social. Atualmente, diante da brutalidade da crise, vemos dirigentes do Partido Socialista na França falarem novamente de nacionalização. O que fez Sarkozy não foi em hipótese alguma a nacionalização dos bancos. O que ele fez foi dar aos bancos a segurança do Estado sem nem mesmo solicitar o direito a voto nos conselhos de administração, foi meramente um socorro aos bancos.

Certas vozes de esquerda pedem o relançamento de uma política de aumento dos salários, mas isso exigiria uma política séria em escala européia, porque existe o desafio de fazer em nível europeu o contrário do que fizeram os partidos socialistas nos governos nacionais nos últimos vinte anos, ou seja, reconstruir os serviços públicos europeus, harmonizar a fiscalização européia, desenvolver uma fiscalização fortemente progressiva e retomar o poder de compra. Isso significa destruir todos os tratados sobre os quais foi construída a União Européia desde 1992. Eu não acredito que exista nem a vontade política de fazer isso nem a força social para fazer. Por uma razão, pois, através do processo que atravessou, a social-democracia européia perdeu muito do seu apoio popular. Por outro lado, ela se integrou muito fortemente ao topo, às empresas privadas e às finanças globalizadas. O símbolo disso é a presença de dois social-democratas franceses como homens de confiança do capital à frente da OMC (Dominique Strauss-Khan) e do FMI (Pascal Lamy). Isso resume um pouco a situação.

CM – O economista François Chesnais afirma que esta crise é a primeira etapa de um processo muito longo e que não sabemos como ele vai acabar. O senhor sempre foi um crítico contumaz tanto do capitalismo e da globalização financeira quanto dos regimes socialistas constituídos sob a ótica stalinista. O senhor acredita que a humanidade está preparada para construir uma terceira via?

DB – A terceira via não passa nem pela gestão estatal e burocrática que faliu nos países do Leste da Europa, notadamente na União Soviética, nem pelo liberalismo. Muita gente diz hoje em dia que a crise não foi causada pelo capitalismo em si, mas pelos excessos e abusos cometidos. Não, a crise foi causada fundamentalmente pela própria lógica do capitalismo. Eu acredito que passamos da fase dos slogans simpáticos dos fóruns sociais. Se um outro mundo é possível, chegou a hora de dizer qual. Nós saímos de um século que terminou, sob o meu ponto de vista, com uma derrota histórica das esperanças de emancipação. Nós entramos no século XXI com muito menos ilusão do que nossos ancestrais entraram no século XX, sobretudo os socialistas, que acreditavam no fim das guerras e da exploração.

O problema atual é que estamos no início de uma longa reconstrução, mas, ao mesmo tempo, numa corrida contra o relógio, mais do que nunca, pois vivemos uma crise de destruição não somente social, mas também ecológica. Para mim, há somente uma alternativa: opor à concorrência e à lógica do todos contra todos uma lógica do bem comum, dos serviços públicos e da solidariedade. Podemos chamar isso de socialismo, comunismo ou democracia autogestionária. É preciso tentar. Se nós não tentarmos mudar o mundo, ele vai nos esmagar.

Movimentos Sociais querem novo modelo de desenvolvimento - por Agência Cartamaior

Documento entregue à Presidência da República defende que país deve aproveitar a brecha da crise para mudar a política macroeconômica de natureza neoliberal e construir um novo modelo de desenvolvimento nacional, baseado na distribuição de renda, na geração de emprego e no fortalecimento do mercado interno.
Redação - Carta Maior

Movimentos Sociais do campo e da cidade entregaram, quarta-feira (26), uma carta ao Governo Lula contendo preocupações e propostas sobre a situação social e econômica do país. O documento, assinado por cerca de 60 entidades, foi articulado mediante reunião convocada pela Secretaria-Geral da Presidência da República entre o Presidente Lula e Movimentos Sociais e ONGs. Participaram da reunião com os movimentos sociais os ministros Luiz Dulci (Secretaria Geral), Dilma Roussef (Casa Civil) e Guido Mantega (Fazenda).

Publicamos, abaixo, a íntegra da carta dos movimentos sociais:

Cumprimentamos o governo federal pela iniciativa de ouvir os movimentos sociais e sindicais, populares, pastorais sociais e entidades que atuamos organizando nosso povo, diante do grave quadro de crise que já se faz sentir, e que - tudo leva a crer - se aprofundará sobre nossa economia, nossa sociedade e em especial sobre o povo brasileiro.

Queremos aproveitar essa oportunidade para manifestar nossas propostas concretas que o governo federal deve tomar para preservar, sobretudo, os interesses do povo, e não apenas das empresas e do lucro do capital.

O conjunto dessas propostas se insere no espírito geral, de que devemos aproveitar a brecha da crise para mudar a política macroeconômica de natureza neoliberal, e ir construindo um novo modelo de desenvolvimento nacional, baseado em outros parâmetros, sobretudo na distribuição de renda, na geração de emprego e no fortalecimento do mercado interno.

Nossa preocupação fundamental é aproveitar para que nessa mudança se logrem medidas concretas que visem melhorar as condições de vida de nosso povo, garantindo os direitos à educação pública, gratuita, democrática e de qualidade em todos níveis, à moradia digna, ao acesso à cultura e às reformas urbana e agrária.

Infelizmente, a maioria do nosso povo não tem acesso a esses direitos básicos. Sabemos que poderosos interesses dos capitalistas locais, das empresas transnacionais e, sobretudo do sistema financeiro, concentra cada vez mais riqueza, renda, e impedem que nosso povo usufrua da riqueza por ele produzida.

Já estamos cansados de tanta dominação capitalista, e agora assistimos às crises financeiras e à ofensiva dos interesses do império que controla as riquezas naturais, minerais, a água, as sementes, o petróleo, a energia e o resultado de nosso trabalho.

Diante disso, queremos apresentar-lhe algumas propostas concretas para que possamos resolver, de fato, os problemas do povo, e impedir que de novo as grandes empresas transnacionais e os bancos transfiram para o povo o custo da crise:

Propostas de articulações internacionais:

1 – Defendemos como resposta à crise o fortalecimento da estratégia de integração regional, que se materializa a partir dos mecanismos como: Mercosul, Unasul e Alba.

2 – Apoiamos medidas como a substituição do dólar nas transações comerciais por moedas locais, como recentemente fizeram Brasil e Argentina, e sugerimos que esta medida deva ser adotada pelo conjunto dos paises da América Latina.

3 – Defendemos a consolidação o mais rápido possível do Banco do Sul, como um agente que promova o desenvolvimento regional e que auxilie o crescimento do mercado interno entre os paises da América Latina e como um mecanismo de controle de nossas reservas, para impedir a especulação dos bancos, do FMI, e dos interesses do capital dos Estados Unidos.

4 – Nós afirmamos que a atual crise econômica e financeira é de responsabilidade dos países centrais e dos organismos dirigidos por eles, como a OMC, o Banco Mundial e o FMI. Defendemos uma nova ordem internacional, que respeite a soberania dos povos e nações.

5 – Pedimos vosso empenho e compromisso pela retirada imediata de todas as forças estrangeiras do Haiti. Nenhum país da América Latina deve ter bases e presença militar estrangeira. Propomos, em seu lugar, a constituição de um fundo internacional solidário para reconstrução econômica e social daquele país. Apresentamos também nossa oposição à reativação da Quarta Frota da Marinha de Guerra dos Estados Unidos em águas da América Latina.

Propostas de políticas internas

1 – Controlar e reduzir imediatamente as taxas de juros.

2 – Impor um rigoroso controle da movimentação do capital financeiro especulativo, instituindo quarentenas e impedindo o livre circular, penalizando com elevados impostos suas ganâncias.

3 – Defendemos que todos os governos devem utilizar as riquezas naturais, da energia, do petróleo, dos minérios, para criar fundos solidários para investir na solução definitiva dos problemas do povo, como direito ao emprego, educação, terra e moradia. Para isso, o governo brasileiro precisa cancelar imediatamente o novo leilão do petróleo, marcado para dia 18 de dezembro.

4 – O governo federal deve revisar a política de manutenção do superávit primário, que é uma velha e desgastada orientação do FMI - um dos responsáveis pela crise econômica internacional. E devemos usar os recursos do superávit primário para fazer volumosos investimentos governamentais, na construção de transporte publico e de moradias populares para a baixa renda, dando assim uma grande valorização à reforma urbana e agrária, incentivando a produção de alimentos pela agricultura familiar e camponesa. É preciso investimentos maciços, na construção de escolas, contratação de professores para universalizar o acesso à educação de nossos jovens, em todos os níveis, em escolas públicas, gratuitas e de qualidade.

5 – Defendemos que o governo estabeleça metas para a abertura de novos postos de empregos, a partir de um amplo programa de incentivo à geração de empregos formais, em especial entre os jovens. Reajustar imediatamente o salário mínimo e os benefícios da previdência social, como principal forma de distribuição de renda entre os mais pobres.

6 – Controlar os preços dos produtos agrícolas pagos aos pequenos agricultores, implantando um massivo programa de garantia de compra de alimentos, através da Conab. Hoje, as empresas transnacionais que controlam o comércio agrícola estão penalizando os agricultores, reduzindo em 30%, em média os preços pagos do leite, do milho, dos suínos e das aves. Mas, no supermercado, o preço continua subindo.

7 – Revogar a Lei Kandir e voltar a ter imposto sobre as exportações de matérias primas agrícolas e minerais, para que a população não seja mais penalizada, para estimular sua exportação.

8 – O governo federal não pode usar dinheiro público para subsidiar e ajudar a salvar os bancos e empresas especuladoras, que sempre ganharam muito dinheiro e agora, na crise querem transferir seu ônus para toda sociedade. Quem sempre defendeu o mercado como seu ''deus-regulador'', agora que assuma as conseqüências dele. Nesse sentido os bancos públicos (BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) deveriam estar orientados não para socorrer o grande capital e sim para o benefício de todos os povos.

9 – Reduzir a jornada de trabalho, em todo o país e em todos os setores, sem redução de salário, como uma das formas de aumentar as vagas. E penalizar duramente as empresas que estão demitindo.

10 – A mídia permanece concentrada nas mãos de poucos grupos econômicos. Este quadro reforça a difusão de um pensamento único que privilegia o lucro em detrimento das pessoas e exclui a visão dos segmentos sociais e de suas organizações do debate publico. Para reverter esta situação e colocar a mídia a serviço da sociedade, é preciso ampliar o controle da população sobre as concessões de rádio e TV, fortalecer a comunicação pública e garantir condições para o funcionamento das rádios comunitárias, acabando com a repressão sobre elas. Por tudo isso, é urgente que o governo federal convoque a Conferencia Nacional de Comunicação.

11 – Para garantir os territórios e a integridade física e cultural dos povos indígenas e quilombolas como determina a Constituição, o governo federal deve continuar demarcando as terras e efetivando a desintrusão desses territórios em todo o país, sem ceder às crescentes pressões dos setores antiindígenas – tanto políticos, como econômicos. Na luta por seus direitos territoriais, os povos indígenas e quilombolas têm enfrentado a violência e a discriminação cada vez mais forte em todo o país. Chamamos especial atenção, nesse momento, para a urgência de se demarcar as terras tradicionais do povo indígena Guarani Kaiowá que vive no Mato Grosso do Sul. Atualmente, eles estão confinados em ínfímas porções de terra e, principalmente por causa disso, há um alto índice de suicídios entre o povo.

12 – Realizar a auditoria integral da dívida pública para lançar as bases técnicas e jurídicas para a renegociação soberana do seu montante e do seu pagamento, considerando as dívidas histórica, social e ambiental das quais o povo trabalhador é credor.

13 – Defendemos uma reforma política que amplie os espaços de participação do povo nas decisões políticas. Uma reforma não apenas eleitoral, mas que amplie os instrumentos de democracia direta e participativa.

14 – Em tempos de crise, há uma investida predatória sobre os recursos naturais como forma de acumulação fácil e rápida, por isso não podemos aceitar as propostas irresponsáveis de mudanças na legislação ambiental por parte dos representantes do agronegócio, que pretende reduzir as áreas de reservas legais na Amazônia e as áreas de encosta, topo de morros e várzeas no que resta da Mata Atlântica. Propomos a criação de uma política de preservação e recuperação dos biomas brasileiros.

15 – Contra a criminalizacao da pobreza e dos movimentos sociais. Pelo fim da violência e pelo livre direito de manifestação dos que lutam em defesa dos direitos econômicos, sociais e culturais dos povos.

Esperamos que o governo ajude a desencadear um amplo processo de debate na sociedade, em todos os segmentos sociais, para que o povo brasileiro perceba a gravidade da crise, se mobilize e lute por mudanças.

Atenciosamente,

Via Campesina
Assembléia Popular – AP
Coordenação dos Movimentos Sociais – CMS
Grito dos Excluídos Continental
Grito dos Excluídos Brasil
Associação Nacional de Ong’s – Abong
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
Central Única dos Trabalhadores – CUT
União Nacional dos Estudantes – UNE
Marcha Mundial de Mulheres – MMM
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB
Central Geral dos Trabalhadores do Brasil – CGTB
Central de Movimentos Populares – CMP
Associação Brasileira de Imprensa – ABI
Confederação das Associações das Associações de Moradores – Conam
Caritas Brasileira
CNBB/Pastorais Sociais
Comissão Pastoral da Terra – CPT
Conselho Indigenista Missionário – CIMI
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB
Movimento das Mulheres Camponesas – MMC
União Brasileira de Mulheres – UBM
Coordenação Nacional de Entidades Negras – Conen
Movimento dos Trabalhadores Desempregados – MTD
Movimento Trabalhadores Sem Teto – MTST
União Nacional Moradia Popular – UNMP
Confederação Nacional das Associações de Moradores – Conam
Movimento Nacional de Luta por Moradia – MNLM
Ação Cidadania
Conselho Brasileiro de Solidariedade com Povos que Lutam pela Paz – Cebrapaz
Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço
Coletivo Brasil de Comunicação – Intervozes
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Jubileu Sul Brasil
Movimento pela Libertação dos Sem Terras – MLST
União Estudantes Secundaristas – Ubes
União Juventude Socialista – UJS
Evangélicos pela Justiça – EPJ
União nacional de Entidades Negras – Unegro
Federação Estudantes de Agronomia do Brasil – Feab
Pastoral da Juventude do Meio Rural – PJR
Associação dos Estudantes de Engenharia Florestal – Abeef
Movimento dos Trabalhadores Desempregados – MTD
Confederação Nacional Trabalhadores Entidades de Ensino – Contee
Confederação Nacional Trabalhadores da Educação – CNTE
Confederação Nacional do Ramo Químico – CNQ/CUT
Federação Única dos Petroleiros – FUP
Sindicato Nacional dos Aposentados e Pensionistas – SintaP/CUT
Associação Nacional de Pós-graduandos – ANPG
Confederação Nacional dos Metalúrgicos – CNM/CUT
Movimento Camponês Popular – MCP
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – Couab
Conselho Indigenista de Roraima – CIR
Federação Trabalhadores Metalúrgicos do Rio Grande do Sul
Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade
Instituto Nacional Estudos Sócio-econômicos - Inesc

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Pergunta aos ministros

Este é um e-mail que acabo de encaminhar a quem de "direito".

Olá, queridos ministros do STF.

Infelizmente, devido a minha profunda ignorância, meu léxico é restrito. Por isto tenho tido algumas dificuldades para com a língua portuguesa. Tanto por isto, recorro a esta douta instituição, para tentar mitigar minha dúvida.

Não sei qual é o significado da palavra “facilidades”.

Os ministros do STF poderiam me ajudar?

Tenho convicção que vocês sabem o significado desta palavra.

Caso tenham dúvida com relação ao contexto da fala, por favor, é no mesmo sentido do que Daniel Dantas afirmou recentemente, em relação ao próprio STF, onde diz possuir “facilidades”.

Os queridos ministros do STF poderiam me ajudar, ensinando a este ignorante que vos escreve o que uma pessoa quer dizer quando diz ter tais “facilidades”?

Da arte da mentira reiterada - por Luis Nassif

Por Paulo

Incrível a coluna Radar na Veja desta semana.

Em nota de destaque ela afirma (o que todos nós já sabíamos) que as contas dos grampos na CPI não fecham porque nelas estão incluídas as renovações quinzenais do MESMO NÚMERO.

Cadê o estardalhaço? A matéria de capa? A retratação a respeito da "farra das escutas telefônicas"? A Folha? O Estado?

E agora Itagiba?

Guerra de números

Empenhado em derrubar a informação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que divulgou haver no país 12 000 escutas legais, o presidente da CPI dos Grampos, Marcelo Itagiba, juntou dados já enviados pelas sete maiores operadoras do país e constatou: só na primeira semana de março havia 21 731 telefones interceptados. Mas e os tais 400 000 grampos feitos em 2007, divulgados no início do ano pela CPI? Bem, nessa conta incluíam-se as renovações quinzenais das interceptações feitas nas mesmas linhas.

Comentário

E aí se encerra mais um factóide, nessa série infindável de manipulações amadoras que, a cada dia, torna mais vergonhosa a imagem pública dos Itagibas, Jungmanns, Vejas e quetais.

Quem “se enganou” com os números foi um delegado federal, um ex-Secretário de Segurança perfeitamente informado sobre a metodologia de dados da área de segurança.
Esse número falso permitiu os seguintes rompantes de Itagiba:

Grampos passam de 400 mil

Autor: O Globo em 07/03/2008 11:28:10

As operadoras de telefonia fixa e celular informaram à CPI das Escutas Telefônicas que foram feitas escutas em 409 mil linhas, por ordem judicial, no ano de 2007. As empresas disseram que montaram esquemas de segurança para evitar o vazamento de dados.

Os números - quase 1.120 pedidos a cada dia - surpreenderam os deputados da comissão, que falaram em abuso no uso de grampos em investigações. Foram ouvidos representantes das seis empresas que atuam hoje no mercado.

- É um número estarrecedor, muito maior que poderia se imaginar. A grande pergunta que fica é: quem é capaz de controlar isso tudo? Na minha opinião, ninguém - disse o presidente da CPI, Marcelo Itagiba (PMDB), ex-secretário de Segurança do Rio e ex-superintendente da Polícia Federal no estado
.

E permitiu à Veja montar mais um de seus factóides, a capa sobre a grampolândia:




Por Cascudo

Nassif,
Eu comentei há 1 ou 2 meses atras, de uma entrevista do Itagiba a um canal de TV onde ele afirma "existirem 400 mil grampos e, se 10 pessoas ligaram para essas pessoas, então existiriam 4 milhoes de cidadãos grampeados."
Brinquei atá que na proxima entrevista seriam 40 milhôes, já que ele estava utilizando o mesmo argumento em cima de um número de 10 mil, que já era conhecido em março.
Bem, pelo menos, agora tem um órgão do judiciário que o Itagiba não consegue contestar.

A lavagem da notícia - Luis Nassif

Por Fabio

O "esquema DD" não lava somente dinheiro.

Existe uma "técnica" repetida em tudo o que essa quadrilha faz.

Além da "lavagem de dinheiro", Dantas estruturou também a "lavagem da credibilidade da notícia" e a "lavagem do posicionamento político".

Me explico. Ninguém tem dúvidas que Raul Jungmann faz parte da "Bancada Dantas". Em tudo que realmente interessa ao banqueiro ele está lá. Representa contra o juiz Dr Sanctis, ataca a ABIN, faz da CPI do Grampo um show patético de defesa de um bandido, etc. Suas motivações certamente não são de interesse público. Mas aí, para "lavar a aparente isenção" do deputado, ele ataca a BROI e pede ajuda ao Governo americano para abrir os HDs de Dantas. Note que essas ultimas coisas são só bla bla bla, onde a ação de Jungmann não faz a menor diferença. Em resumo, ajuda Dantas de forma eficaz, e é contra ele "de mentirinha".

A mesma coisa vale para a imprensa. Diogo Mainardi por exemplo. Nunca, repito NUNCA fez uma coluna com algo que realmente representasse um problema para Dantas, como esse Opportunity Fund, o dinheiro que Dantas levou da Telecom Italia, ou as sacanagens conjuntas com Mangabeira Unger. Mas tem gente leiga que pensa que Mainardi é "contra Dantas", porque liga Dantas ao Mensalão e outras coisas que só servem à chantagem de Dantas, mas aparentemente "falam mal". É a lavagem da notícia.

Por Luiz Fernando

Adorei este termo "lavagem da notícia". Um ótimo exemplo é encontrado na Veja (não me diga!) desta semana. Numa reportagem "bombástica" da revista, intitulada "O ROSTO CLANDESTINO DA ABIN", que não diz nada com nada, vemos o seguinte trecho:

"O alvo principal da investigação é o tal ex-banqueiro Daniel Dantas, um tipo sempre encrencado com a Justiça e a polícia, que se julga mais esperto do que a esperteza e que, fossem os policiais menos amadores, já teria sido facilmente flagrado em delito."

Se a Veja afirma com tanta certeza que Daniel Dantas praticou delitos, por que ela mesma não produziu uma única reportagem contra o banqueiro, diferentemente da Carta Capital e da Teletime? Por que todas as reportagens da Veja sobre a Satiagraha têm como alvo somente Protógenes Queiroz e Paulo Lacerda?

Por Hugo Albuquerque

Nassif,
Mas é isso que torna DD o primeiro grande corruptor brasileiro realmente inserido no século XXI.

Vivemos na Era da Informação, o que, por mais contraditório que pareça, é o atestar da importância da narrativa como forma de se vencer todo tipo de guerras e desafios.
Isso não quer dizer que antes a informação não fosse fundamental, só que nós não compreendíamos sua importância.

Sendo a informação a base de tudo e Dantas o tendo percebido, ele a lavou, pois sem fazê-lo não seria possível levar seus planos adiante; deste modo a lavou até onde pôde e acabou escondendo do público um esquema desse tamanho até limites temporais inacreditáveis.

No entanto, a mesma revolução da qual Dantas se deu conta - e usou tão bem ao seu favor - é a mesma que, paradoxalmente, representa o único risco para a sua fonte de renda - que talvez tenha sido comprometida para sempre agora que ele se tornou "manjado" .

Hoje a Internet é um meio de comunicação cuja importância cresce a cada dia materializando-se num fenômeno que certamente encerrará com a mídia como nós a conhecemos. Isso, por sua vez, tem sido fundamental para minar o esquema Dantas, amparado numa ancoragem na Grande Mídia tradicional.

Dantas percebeu a Revolução, só não percebeu que era uma Revolução com várias outras Revoluções em seu interior e acabou levado pela correnteza. Quem viver verá.

A manchete campeã - por Luis Nassif

Curioso O Globo. É o jornal com maior pique para grandes coberturas. E é capaz de ataques de “folhite” para ninguém botar defeito. Às vezes consegue superar amplamente o concorrente (clique aqui).

Confira a manchete principal de hoje:

CEF não ouviu auditores no socorro jumbo à Petrobrás”.

Também não me ouviu, nem a Mirian Leitão, nem Henrique Meirelles. E por que haveria de ouvir? Para a manchete ter alguma justificativa, a matéria teria que explicar a grande indagação: por que ouvir os auditores?

Vamos à matéria:

Devido ao tamanho e ao ineditismo do empréstimo de R$ 2 bilhões feito pela Caixa Econômica Federal (CEF) à Petrobras, os auditores da instituição financeira avaliam que deveriam ter sido consultados previamente para verificar os termos e as condições do negócio”.

É o tipo da frase arrancada da fonte, daquelas em que o aquário incumbe o repórter de conseguir a declaração salvadora. A operação não ultrapassou nenhum limite autorizado. O risco, zero, pois na outra ponta há uma empresa prime, controlada pelo próprio Estado nacional.

Vamos ao restante da matéria, para entender onde se encontrou argumento para a manchete e como o pobre do repórter precisou suar sangue para atender ao aquário:

O anúncio do acordo despertou curiosidade entre os 370 auditores da instituição. Eles só ficaram sabendo por meio de uma notícia, em tom entusiasmado, divulgada em 31 de outubro na intranet (página interna) da Caixa. O texto, com a foto de apertos de mãos no ato da assinatura do contrato, cita o vice-presidente de Atendimento da Caixa, Carlos Borges, para quem a transação concretiza uma parceria iniciada em 1999 com a Petrobras e indica que a instituição quer fazer dele uma alavanca para novos negócios.

A Caixa vive um momento privilegiado, com o reconhecimento do mercado de que somos também um banco comercial. Essa operação fortalece a parceria de duas grandes empresas que são instrumentos da política de desenvolvimento social do país”, afirmou Borges na nota.

Ou seja, internamente a operação foi considerada um feito para a CEF.

O texto ainda registra o depoimento do diretor de Finanças da Petrobras, Almir Barbassa, que comemorou a assinatura do contrato. Para ele, seria a evidência de que o Brasil caminha na direção certa. “É auto-suficiente em todos os sentidos, incluindo o financeiro, ao obter um empréstimo dessa magnitude de uma empresa brasileira”, afirma a nota, reproduzida no site da Funcef (fundo de pensão dos funcionários da Caixa.

Voltemos aos auditores, segundo a a matéria

Para os auditores, em uma avaliação preliminar, não há indícios de problemas técnicos ou legais no acordo.
Segundo Souza, não haveria impedimento de a Caixa emprestar para uma empresa de petróleo, apesar de a maior parte de os financiamentos da instituição ser destinada à habitação
.

O restante da matéria é recheada com as seguintes frases:

(...) O montante emprestado representa 90% do valor permitido para a Caixa. Isso não representa um problema (segundo o entrevistado), mas não pudemos avaliar os detalhes.

Há um total desconhecimento das razões que cercaram essa operação
.

Finalmente, explica para que servem as auditorias:

As auditorias, em geral, são planejadas com antecedência. As não previstas têm a anuência da direção da Caixa. Em casos rumorosos, os auditores são acionados. Um deles foi a avaliação dos contratos arrolados na Operação João de Barro, deflagrada em junho, que investigou desvios de recursos repassados pela União a estados e municípios em convênios ou empréstimos cedidos pela Caixa. Os auditores também fizeram uma devassa nos contratos envolvendo a Construtora Gautama, denunciada por desvio de dinheiro público.

Ou seja, nada a ver com a operação feita com a maior empresa do país, que tem como acionista controlador o próprio Estado brasileiro.

Internamente, a coluna da Mirian, também chamada na primeira página. A crítica dela se resume ao fato da Petrobrás ter contratado o crédito para a compra de um diesel poluidor.

Por Roberto São Paulo/SP

Creio que estão discutindo o assundo menos preocupante no momento neste caso do empréstimo concedido pela CEF e pelo Banco do Brasil a Petrobrás.

O devemos avaliar é as consequências na queda da entrada dos financiamentos externos, colocando em risco o equilíbrio na Balança de Pagamentos.

Se mesmo um empresa como a Petrobrás está encontrando dificuldade para rolar os financiamentos externos, o que dirá as demais empresas brasileiras. Isto torna mais urgente ainda a correção do déficit em conta corrente.

Por alexandre

nassif
o globo de hoje, domingo, na pág 27 numa coluna fininha e pequena(bem escondidinha) deu mais uma nota desmentindo a manchete de ontem. Reafirma que não é obrigatório a análise de auditores no empréstimo. E o Élio Gaspari fala sobre o empréstimo sobre o título : "veneno tucano na petrobras"

Caixa: auditores não precisam ser consultados

`A função deles é auditar as operações já realizadas´, diz CEF


BRASÍLIA. A direção da Caixa Econômica Federal (CEF) disse ontem, em nota, que na operação de crédito de R$ 2 bilhões concedidos à Petrobras não havia necessidade de consultar previamente o corpo de auditores da instituição.
Segundo a assessoria de imprensa da CEF, nesse tipo de procedimento não é praxe um aval dos auditores.
“Os auditores não precisam ser ouvidos antes das operações.
A função deles é auditar as operações já realizadas”, diz a nota da assessoria de Imprensa da Caixa.
Segundo o presidente da Associação Nacional dos Auditores Internos do banco (Audicaixa), Antonio Augusto de Miranda e Souza, apesar de não ser obrigatória, essa consulta ao corpo técnico seria um procedimento desejável e prudente neste caso atípico, conforme informou ontem O GLOBO, pois isso daria mais conforto à direção da Caixa na tomada de decisão de um pedido de crédito tão alto como o feito pela Petrobras
.

Comentário


Segue-se uma infindável seqüência de "mas, porém, contudo, todavia, entretanto".


Ontem O Globo teve um ataque de “folhite” ao cometer a manchete mencionada. Devia continuar se espelhando na Folha e resolver a questão com um singelo “erramos”. Simples. O contorcionismo para explicar que “não é bem assim” só piora o quadro.

Do Blog do Alon


O editorialista do Estadão voltou das férias (29/11)


De um editorial de hoje de O Estado de S.Paulo (A Petrobrás deve respostas):


O espanto foi justificado, também, pelo fato de a Petrobrás ser uma empresa com ações cotadas no exterior e com acesso fácil, pelo menos até agora, ao mercado financeiro internacional. Em condições normais, não precisaria, portanto, concorrer com empresas nacionais - e, mais que isso, com empresas muito menores - na busca de empréstimos concedidos no mercado interno, especialmente de recursos destinados ao capital de giro, hoje muito escasso e muito caro para a maior parte das companhias.

O editorial, como sempre muito bem escrito, trata da polêmica sobre o empréstimo da Caixa Econômica Federal (CEF) à Petrobrás. Aliás, eu gostei de o Estadão ter escrito "Petrobrás" assim, com acento. Mas vamos ao que interessa. Diz o editorialista que a empresa petrolífera estatal (graças a Deus!) tem "acesso fácil" ao mercado financeiro internacional. E que, "em condições normais", não precisaria portanto "concorrer com empresas nacionais na busca de empréstimos concedidos no mercado interno". Pois eu tenho uma notícia exclusiva para o editorialista do Estadão. É um verdadeiro furo. Eu revelo agora a ele -e talvez ao país- que as condições do mercado financeiro internacional não têm sido "normais" nos últimos tempos. Há uma certa escassez de crédito e a situação das bolsas de valores não é exatamente propícia para operações de capitalização. Talvez o escriba esteja voltando de férias agora e tenha ficado meio desconectado. Mas isso não é problema. Ele pode acessar o excelente site www.estadao.com.br/economia e vai obter ali toda a informação necessária para ficar por dentro de como anda o mundo
.

As semanais e a Satiagraha - por Luis Nassif

A edição da Carta Capital desta semana é um clássico para guardar, sobre os tempos bicudos que vivemos.
Primeiro, uma reportagem excepcional de Leandro Fortes sobre o exílio de Paulo Lacerda. Sozinho, em uma ala isolada do Planalto, Lacerda segue firme, aguardando o fim do inquérito que apura o grampo sobre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres. A opinião pública que acompanha o noticiário acredita, maciçamente, que o grampo é falso; e que Paulo Lacerda é verdadeiro. Será um nó a ser desatado por Lula.
A segunda matéria é um artigo arrasador de Walter Maiarovitch sobre o Supremo Tribunal Federal.
A terceira reportagem é de dos jornalistas Rubens Glasberg e Samuel Possebon sobre as ausências no inquérito do delegado Ricardo Saadi.
O delegado apurou a ilegalidade das operações offshore do Opportunity. Glasberg foi alvo de uma avalanche de processos quando denunciou o ex-presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Francisco Cantidiano, como conivente com o jogo. Cantidiano foi o advogado que montou as operações de Dantas em Delaware e, depois, como presidente da CVM, engavetou os inquéritos. Grande parte da revelação das operações de Dantas se deve ao trabalho pertinaz e competente de ambos.
Mas, aí, sou mais a lógica do juiz De Sanctis. Se for esperar apurar tudo para fazer denúncia, cria-se uma obra inacabada. Quanto maior o inquérito, maior a dificuldade em se chegar a punições.
Melhor um relatório com o que existe de concreto. Depois, vai se desdobrando em novas denúncias e relatórios.
Comprovado que o fundo offshore é ilegal, nada impede que ex-dirigentes da CVM e do Conselhinho da Fazenda - que absolveram Dantas - sejam intimados.

Época

A revista Época traz uma boa reportagem sobre os novos procuradores e delegados federais que estão revascularizando a organização.
Duas ressalvas apenas.
A primeira é que deixou-se para segundo plano a parte principal, os programas de gestão da Polícia Federal e a criação de uma nova cultura com corporativismo na melhor acepção dop termo. A conversa entre Protógenes e os demais delegados – divulgada tempos atrás – é uma comprovação de que a PF está sendo remontada em cima de valores republicanos e de profissionalismo. Contar esse processo seria bastante instrutivo para os demais setores da administração pública. Mas, aí, teria que se compartilhar o mérito com Paulo Lacerda e o atual diretor, Luiz Fernando.
A segunda questão é que a individualização dos méritos sempre me assusta. Fico com um baita medo de estar se criando “vingadores”, como foi o caso da primeira leva de Procuradores Federais com autonomia – que acabaram inebriados pelos holofotes, comprometendo a imagem da corporação com ações arbitrárias.

De Rubens Glasberg

1. Francisco Cantidiano foi o advogado do Opportunity Fund para legalizar sua operação junto a a CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Como presidente da CVM, ele nunca informou sua condição, embora corresse inquérito contra o Opportunity Fund.
2. O Inquérito da Polícia Federal que tinha brasileiro residente como cotista do Opportunity Fund, o que é muito grave. A alegação do advogado de Dantas, Nélio Machado, é que fundo sempre agiu dentro da legalidade, tanto assim que foi absolvido pelo Conselhinho – instância do Ministério da Fazenda para onde sobem as apelações de condenações em instâncias inferiores - depois de ter recebido uma punição branda na CVM.
3. O escândalo foi a absolvição no Conselhinho. Aceitaram o parecer do Opportunity e viraram as costas para todos os demais argumentos. O próprio representante da CVM votou contra o parecer da CVM, assim como o do Banco Central votou, mesmo o BC já tendo apurado todas as ilegalidades. É essa decisão que caracteriza a existência de crime organizado. Sem a conivência de todos essas instâncias, Dantas não existiria.

Feios, sujos e malvados - por Luis Nassif

Em sua coluna de hoje, na Folha, Clóvia Rossi liquida com qualquer pretensão de união dos BRICs (os quatro grandes emergentes).

A razão? É que todos são feios, sujos e malvados:

Razão 1 - Outro dia, (Jim) O'Neill (sujeito que apenas criou a expressão BRICs) admitiu ter se equivocado ao fazer outra previsão, a de que haveria o famoso "decoupling" (descasamento) entre os países ricos e os emergentes na crise global. Ora, se foi incapaz de enxergar o que aconteceria meses à frente, quem pode levar a sério uma previsão sua feita para 20 anos à frente, já que o termo Bric foi cunhado em 2001? É uma imensa bobagem achar que há alguma comunhão entre os quatro países só porque uma entidade financeira com interesses em todos eles viu numa bola de cristal embaçada um grande futuro para o grupo.

Em vez de levar em conta que O’Neill batizou o fenômeno, Rossi considera que, batizando-o, O’Neil na verdade criou o fenômeno. E, como ele errou sobre o descolamento, logo o fenômeno não existe.

Razão 2 – A Índia tem “Violência sectária, conflitos de fronteira, atentados terroristas e assassinatos de políticos marcam os 51 anos de história da Índia independente".

Razão 3 - A Rússia é uma ditadura com verniz democrático leve e um ambiente de negócios em que só prosperam os incondicionais do Kremlin.

Razão 4 - A China é uma ditadura. Ponto.

E os EUA? Tem Guantanamo e o Iraque. A Inglaterra? Tem um passado colonialista feroz. A França e a Espanha? Estão contra os imigrantes. A Alemanha? Esqueceram-se do nazismo?
Logo... Aguardaremos a volta do Rei Arthur e do Reino da Távola Redonda para pensar em qualquer ação diplomática afirmativa.