1 – Parcialidade do juiz interferiu no resultado da absolvição do mandante.
A atuação tendenciosa do Juiz Murilo Lemos Simão, na condução do processo e na presidência do tribunal do Júri, contribuiu para que José Rodrigues Moreira, mandante do assassinato do casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo Silva fosse absolvido pelos jurados com votos de 4 a 3. No interrogatório de José Rodrigues Moreira, o juiz permitiu que ele protagonizasse um verdadeiro espetáculo na frente dos jurados: de joelhos e aos prantos, o acusado usou a Bíblia para jurar inocência e pedir bênção especial ao juiz, aos jurados, aos advogados e às pessoas presentes no tribunal de júri. Parecia-se estar participando de um culto e não de um tribunal do júri. A única coisa que o juiz fez foi oferecer lenços para que o acusado enxugasse as lágrimas. Ao final do espetáculo uma jurada caiu em prantos. De acordo com informações já divulgadas pela imprensa, quando avisado em particular pelo Ministério Público (MP) da reação da jurada, fato que demonstrava claramente a sua parcialidade,
o juiz respondeu ao representante do MP que caso suscitasse a parcialidade da jurada e o júri fosse suspenso, ele iria revogar a prisão e mandar soltar imediatamente os três acusados. Frente à ameaça do juiz o MP recuou da decisão de pedir a suspeição da jurada. Ademais, durante toda a seção do júri, o Juiz teve um comportamento mais ríspido com as testemunhas e com os advogados de acusação, fato que não aconteceu com as testemunhas e com os advogados de defesa.
Durante a fase de investigação do crime, quando a polícia chegou ao nome de José Rodrigues como o primeiro acusado pelo crime, foi pedida de imediato a prisão temporária dele, contudo o Juiz Murilo Lemos, negou o pedido de prisão. Após mais alguns dias de investigação, a polícia chegou ao nome de Lindonjonson Silva, irmão de José Rodrigues, como um dos executores do duplo homicídio. Novamente foi requerida a prisão preventiva de José Rodrigues, desta vez juntamente com Lindonjonson. Mas o Juiz mais uma vez negou o pedido de prisão. Com mais provas colhidas a polícia requereu a prisão dos acusados pela terceira vez. O juiz então engavetou o pedido. Foi preciso que os familiares e os movimentos sociais denunciassem a parcialidade do juiz à imprensa, aos organismos de direitos humanos e ao próprio Tribunal de Justiça do Estado. Ao receber a denúncia, o Tribunal intimou a Juiz a responder em 24 horas. Frente à pressão da sociedade e a exigência do Tribunal é que o juiz decidiu então decretar a prisão dos acusados.
A parcialidade do Juiz ficou comprovada em sua própria declaração no texto da sentença final, ao afirmar que “o comportamento das vítimas contribuiu de certa maneira para o crime (…) pois tentaram fazer justiça pelas próprias mãos, utilizando terceiros posseiros, sem terras, para impedir José Rodrigues de ter a posse de um imóvel rural”. Uma afirmação absurda, mentirosa e sem qualquer fundamento, pois, de acordo com as investigações e as provas existentes no processo e, portanto, confirmadas por todas as testemunhas ouvidas no tribunal de júri, foi o mandante José Rodrigues que comprou ilegalmente lotes de terras na reserva extrativista onde três famílias já residiam há quase um ano. Foi ele que expulsou violentamente as famílias e queimou a casa de uma delas. José Claudio e Maria do Espírito Santo denunciaram o caso às autoridades constituídas e deu todo apoio para o retorno das famílias para seus lotes. Foi por causa disso que José Rodrigues decidiu mandar matar o casal, contratando, para isso, o seu irmão
Lindonjonson Silva Rocha e Alberto Lopes do Nascimento. Portanto, ao contrário da afirmação leviana do juiz, deturpando a fala de testemunhas e contrariando as provas do processo, foi o mandante do crime José Rodrigues Moreira que deu início ao conflito e que decidiu fazer justiça com as próprias mãos ao destruir os pertences e expulsar, de forma violenta, as famílias que estavam ocupando os lotes de terras que pretendia e mandar matar o casal. O juiz tenta de forma irresponsável criminalizar as vítimas e legitimar a ação do assassino. Uma tentativa de manchar a história e a memória de José Claudio e Maria do Espírito Santo, casal reconhecido internacionalmente pela defesa da floresta.
2 – A decisão dos jurados foi contraditória.
As investigações feitas pelas polícias civil e federal deixaram claro que os executores condenados (Lindonjonson e Alberto) não tinham nenhuma ligação com outras pessoas (madeireiros, carvoeiros) que ameaçavam José Cláudio e Maria do Espírito Santo, a não ser com o acusado José Rodrigues. Lindonjonson é irmão de José Rodrigues, ele e seu comparsa, isoladamente, não tinham razões particulares para assassinarem o casal. José Rodrigues confirmou perante a polícia e na presença do juiz que tinha em seu poder um equipamento completo de mergulho. No dia do crime, uma máscara de mergulho foi deixada para trás por Lindonjonson. Feito o exame de DNA em fios de cabelos encontrados na máscara o resultado comprovou que eram compatíveis com o DNA de Lindonjonson. José Rodrigues pagou 100 mil reias pelos lotes de terras onde já existiam famílias morando e deslocou para a área 130 cabeças de gado. A decisão do casal de extrativistas em apoiar as famílias contrariou os seus interesses, razão pela qual passou a ameaçar de morte o casal e, para isso, combinou com seu irmão Lindonjonson o assassinato dos dois. Portanto, a maioria dos jurados, ao absolver José Rodrigues, contrariou as provas existentes nos autos. É com base nesses fundamentos que a acusação pedirá ao Tribunal de Justiça do Estado a anulação da decisão dos jurados que absolveu o mandante do duplo homicídio José Rodrigues Moreira.
3 – O juiz Murilo absolveu um fazendeiro acusado de mandar matar um sindicalista em 2012.
No dia 09 de agosto de 2012, o Juiz Murilo Lemos Simão absolveu o fazendeiro Vicente Correia Neto e os pistoleiros Valdenir Lima dos Santos e Diego Pereira Marinho acusados do assassinato do líder sindical Valdemar Barbosa de Oliveira, o Piauí, crime ocorrido em junho de 2011, em Marabá. De acordo com depoimento prestado pelo pistoleiro Diego Pereira Marinho, o fazendeiro Vicente Correia pagou o valor de 3 mil reais para que a dupla assassinasse o sindicalista.
A confissão do pistoleiro foi sustentada em depoimentos prestados perante a polícia civil de Marabá e acompanhada pela imprensa local. Os dois pistoleiros foram presos após terem assassinado outras pessoas em Marabá. De acordo com informações da polícia, a dupla já assassinou mais de 20 pessoas na região. Após serem presos, Diego prestou novo depoimento perante a polícia afirmando que estava sendo ameaçado na cadeia e que o advogado do Fazendeiro Vicente Correia lhe mandou um recado através de Valdenir que se ele negasse o crime perante o Juiz seria financeiramente recompensado. Foi o que ele fez posteriormente. Mesmo com todas essas provas, o juiz Murilo impronunciou e absolveu o fazendeiro e os dois pistoleiros.
4 – Frente ao exposto os Movimentos Sociais abaixo assinados vão requerer:
- A anulação da decisão dos jurados que absolveu o mandante José Rodrigues e, posteriormente, o desaforamento do processo da comarca de Marabá para a comarca de Belém, por entender que o Juiz Murilo Lemos Simão não tem imparcialidade para presidir um futuro julgamento;
- A suspeição do Juiz Murilo em todos os processos que tramitam em Marabá e que apuram o assassinato de trabalhadores rurais e lideranças dos movimentos sociais;
Marabá, 07 de abril de 2013.
Familiares de José Claudio e Maria do Espírito Santo.
Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará – FETAGRI/ Pará.
Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra – MST/ Pará.
Comissão Pastoral da Terra – CPT/ Pará.
Pastorais Sociais da Diocese de Marabá/Pará.
Conselho Nacional das Populações Tradicionais – CNS/Marabá.
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Ipixuna.
Centro de Estudo e Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular – CEPASP/Marabá.
Movimento Humanos Direitos – MhuD/Rio de Janeiro.
Terra de Direitos/ Paraná.
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos/São Paulo.
Sociedade Paraense de Direitos Humanos – SDDH/ Pará.
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB/Pará.
Movimento Debate e Ação – UFPA/ Marabá.
Conselho Indigenista Missionário – CIMI/Pará.
Fórum Regional de Educação do Campo do Sul e Sudeste do Pará.
Colegiado de Licenciatura em Educação do Campo – UFPA/ Marabá.
Coordenação do Campus da UFPA/ Marabá.
Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP/Brasil
terça-feira, 16 de abril de 2013
Autor de ‘A Privataria Tucana’ vai disputar Academia Brasileira de Letras com FHC - por Carta Maior
Campanha que defende o nome de Amaury Ribeiro Jr. foi lançada nesta segunda (8) por um grupo de jornalistas, intelectuais e professores universitários. Objetivo é disputar cadeira de número 36, que está vaga desde que o jornalista e escritor paulista João de Scantimburgo morreu, em 22 de março passado.
São Paulo – Um grupo de jornalistas, intelectuais e professores universitários progressistas lança nesta segunda-feira (8) uma campanha para defender o nome do jornalista Amaury Ribeiro Júnior para a Academia Brasileira de Letras (ABL).
Jornalista premiado, hoje funcionário da TV Record, Ribeiro Jr. é autor do best-seller “A privataria tucana”, livro-reportagem denuncia irregularidades na venda de empresas estatais durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
A candidatura de Ribeiro Jr. visa se contrapor à do próprio Fernando Henrique, que está inscrito para disputar a cadeira de número 36, que está vaga desde que o jornalista e escritor paulista João de Scantimburgo morreu, em 22 de março passado.
As inscrições de candidaturas na ABL podem ser feitas até 26 de abril. Depois deste prazo, a entidade marca em até 60 dias uma reunião para a eleição, em que o novo imortal deve ter a metade mais um dos votos dos atuais imortais para ser eleito para a cadeira.
Leia, a seguir, o manifesto da candidatura de Amaury Ribeiro Jr.
“A PRIVATARIA É IMORTAL - Amaury Ribeiro Júnior para a Academia Brasileira de Letras
Não é a primeira vez que a Academia Brasileira de Letras tem a oportunidade de abrir suas portas para o talento literário de um jornalista. Caso marcante é o de Roberto Marinho, mentor de obras inesquecíveis, como o editorial de 2 de abril de 64:
"Ressurge a Democracia, Vive a Nação dias gloriosos" – o texto na capa de "O Globo" comemorava a derrubada do presidente constitucional João Goulart, e não estava assinado, mas trazia o estilo inconfundível desse defensor das liberdades. Marinho tornou-se, em boa hora, companheiro de Machado de Assis e de José Lins do Rego.
Incomodada com a morte prematura de "doutor" Roberto, a Academia acolheu há pouco outro bravo homem de imprensa: Merval Pereira, com a riqueza estilística de um Ataulfo de Paiva, sabe transformar jornalismo em literatura; a tal ponto que – sob o impacto de suas colunas – o público já não sabe se está diante de realidade ou ficção.
Esses antecedentes, "per si", já nos deixariam à vontade para pleitear – agora - a candidatura do jornalista Amaury Ribeiro Junior à cadeira 36 da Academia Brasileira de Letras.
Amaury, caros acadêmicos e queridos brasileiros, não é um jornalista qualquer. É ele o autor de "A Privataria Tucana" – obra fundadora para a compreensão do Brasil do fim do século XX.
Graças ao trabalho de Amaury, a Privataria já é imortal! Amaury Ribeiro Junior também passou pelo diário criado por Irineu Marinho (o escritor cubano José Marti diria que Amaury conhece, por dentro, as entranhas do monstro).
Mas ao contrário dos imortais supracitados, Amaury caminha por outras tradições. Repórter premiado, não teme o cheiro do povo. Para colher boas histórias, andou pelas ruas e estradas empoeiradas do Brasil. E não só pelos corredores do poder.
Amaury já trabalhou em "O Globo", "Correio Braziliense", "IstoÉ", "Estado de Minas", e hoje é produtor especial de reportagens na "TV Record". Ganhou três vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Tudo isso já o recomendaria para a gloriosa Academia. A obra mais importante do repórter, entretanto, não surge dos jornais e revistas. "A Privataria Tucana" – com mais de 120 mil exemplares comercializados – é o livro que imortaliza o jornalista.
A Privataria é imortal - repetimos!
O livro de Amaury não é ficção, mas é arte pura. Arte de revelar ao Brasil a verdade sobre sua história recente. Seguindo a trilha aberta por Aloysio Biondi (outro jornalista que se dedicou a pesquisar os descaminhos das privatizações), Amaury Ribeiro Junior avançou rumo ao Caribe, passeou por Miami, fartou-se com as histórias que brotam dos paraísos fiscais.
Estranhamente, o livro de Amaury foi ignorado pela imprensa dos homens bons do Brasil. Isso não impediu o sucesso espetacular nas livrarias - o que diz muito sobre a imprensa pátria e mais ainda sobre a importância dos fatos narrados pelo talentoso repórter.
A Privataria é imortal! Mas o caminho de Amaury Ribeiro Junior rumo à imortalidade, bem o sabemos, não será fácil. Quis o destino que o principal contendor do jornalista na disputa pela cadeira fosse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
FHC é o ex-sociólogo que – ao virar presidente – implorou aos brasileiros: "Esqueçam o que eu escrevi". A ABL saberá levar isso em conta, temos certeza. É preciso esquecer.
Difícil, no entanto, é não lembrar o que FHC fez pelo Brasil. Eleito em 1994 com o apoio de Itamar Franco (pai do Plano Real), FHC prometeu enterrar a Era Vargas. Tentou. Esmerou-se em desmontar até a Petrobras. Contou, para isso, com o apoio dos homens bons que comandam a imprensa brasileira. Mas não teve sucesso completo.
O Estado Nacional, a duras penas, resistiu aos impulsos destrutivos do intelectual Fernando.
Em 95, 96 e 97, enquanto o martelo da Privataria tucana descia velozmente sobre as cabeças do povo brasileiro, Amaury dedicava-se a contar histórias sobre outra página vergonhosa do Brasil - a ditadura militar de 64. Em uma de suas reportagens mais importantes, sobre o massacre de guerrilheiros no Araguaia, Amaury Ribeiro Junior denunciou os abusos cometidos pela ditadura militar (que "doutor" Roberto preferia chamar de Movimento Democrático).
FHC vendia a Vale por uma ninharia. Amaury ganhava o Prêmio Esso...
FHC entregava a CSN por uns trocados. Amaury estava nas ruas, atrás de boas histórias, para ganhar mais um prêmio logo adiante...
As críticas ao ex-presidente, sabemos todos nós, são injustas. Homem simples, quase franciscano, FHC não quis vender o patrimônio nacional por valores exorbitantes. Foi apenas generoso com os compradores - homens de bem que aceitaram o duro fardo de administrar empresas desimportantes como a Vale e a CSN. A generosidade de FHC foi muitas vezes incompreendida pelo povo brasileiro, e até pelos colegas de partido - que desde 2002 teimam em esquecer (e esconder) o estadista Fernando Henrique Cardoso.
Celso Lafer – ex-ministro de FHC – é quem cumpre agora a boa tarefa de recuperar a memória do intelectual Fernando, ao apresentar a candidatura do ex-presidente à ABL. A Academia, quem sabe, pode prestar também uma homenagem ao governo de FHC, um governo simples, em que ministros andavam com os pés no chão – especialmente quando tinham que entrar nos Estados Unidos.
Amaury não esqueceu a obra de FHC. Mostrou os vãos e os desvãos, com destaque para o caminho do dinheiro da Privataria na volta ao Brasil. Todos os caminhos apontam para São Paulo. A São Paulo de Higienópolis e Alto de Pinheiros. A São Paulo de 32, antivarguista e antinacional. A São Paulo de FHC e do velho amigo José Serra - também imortalizado no livro de Amaury.
Durante uma década, o repórter debruçou-se sobre as tenebrosas transações. E desse trabalho brotou "A Privataria Tucana".
Por isso, dizemos: se FHC ganhar a indicação, a vitória será da Privataria. Mas se Amaury for o escolhido, aí a homenagem será completa: a Privataria é imortal!
===
Se você apoia Amaury para a ABL, deixe abaixo seu nome, profissão e/ou entidade. Veja quem já aderiu à campanha "A Privataria é imortal":
Altamiro Borges
Antonio Cantisani Filho
Breno Altman
Daniel Freitas
Dermi Azevedo
Diogo Moysés
Elis Regina Brito Almeida
Emiliano José
Emir Sader
Enio Squeff
Ermínia Maricato
Flavio Wolf Aguiar
Gilberto Maringoni
Inácio Neutzling
Ivana Jinkins
Joaquim Ernesto Palhares
Joaquim Soriano
João Brant
José Arbex Jr.
Julio Guilherme De Goes Valverde
Katarina Peixoto
Ladislau Dowbor
Laurindo Leal Filho
Lúcio Manfredo Lisboa
Luiz Carlos Azenha
Luiz Fernando Emediato
Luiz Gonzaga Belluzzo
Marcel Gomes
Marcio Pochmann
Marco Aurelio Weissheimer
Marcos Dantas
Paulo Henrique Amorim
Paulo Salvador
Raul Millet Filho
Reginaldo Nasser
José Reinaldo Carvalho
Renato Rovai
Rodrigo Vianna
Samuel Pinheiro Guimarães
Venício Lima
Wagner Nabuco
São Paulo – Um grupo de jornalistas, intelectuais e professores universitários progressistas lança nesta segunda-feira (8) uma campanha para defender o nome do jornalista Amaury Ribeiro Júnior para a Academia Brasileira de Letras (ABL).
Jornalista premiado, hoje funcionário da TV Record, Ribeiro Jr. é autor do best-seller “A privataria tucana”, livro-reportagem denuncia irregularidades na venda de empresas estatais durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
A candidatura de Ribeiro Jr. visa se contrapor à do próprio Fernando Henrique, que está inscrito para disputar a cadeira de número 36, que está vaga desde que o jornalista e escritor paulista João de Scantimburgo morreu, em 22 de março passado.
As inscrições de candidaturas na ABL podem ser feitas até 26 de abril. Depois deste prazo, a entidade marca em até 60 dias uma reunião para a eleição, em que o novo imortal deve ter a metade mais um dos votos dos atuais imortais para ser eleito para a cadeira.
Leia, a seguir, o manifesto da candidatura de Amaury Ribeiro Jr.
“A PRIVATARIA É IMORTAL - Amaury Ribeiro Júnior para a Academia Brasileira de Letras
Não é a primeira vez que a Academia Brasileira de Letras tem a oportunidade de abrir suas portas para o talento literário de um jornalista. Caso marcante é o de Roberto Marinho, mentor de obras inesquecíveis, como o editorial de 2 de abril de 64:
"Ressurge a Democracia, Vive a Nação dias gloriosos" – o texto na capa de "O Globo" comemorava a derrubada do presidente constitucional João Goulart, e não estava assinado, mas trazia o estilo inconfundível desse defensor das liberdades. Marinho tornou-se, em boa hora, companheiro de Machado de Assis e de José Lins do Rego.
Incomodada com a morte prematura de "doutor" Roberto, a Academia acolheu há pouco outro bravo homem de imprensa: Merval Pereira, com a riqueza estilística de um Ataulfo de Paiva, sabe transformar jornalismo em literatura; a tal ponto que – sob o impacto de suas colunas – o público já não sabe se está diante de realidade ou ficção.
Esses antecedentes, "per si", já nos deixariam à vontade para pleitear – agora - a candidatura do jornalista Amaury Ribeiro Junior à cadeira 36 da Academia Brasileira de Letras.
Amaury, caros acadêmicos e queridos brasileiros, não é um jornalista qualquer. É ele o autor de "A Privataria Tucana" – obra fundadora para a compreensão do Brasil do fim do século XX.
Graças ao trabalho de Amaury, a Privataria já é imortal! Amaury Ribeiro Junior também passou pelo diário criado por Irineu Marinho (o escritor cubano José Marti diria que Amaury conhece, por dentro, as entranhas do monstro).
Mas ao contrário dos imortais supracitados, Amaury caminha por outras tradições. Repórter premiado, não teme o cheiro do povo. Para colher boas histórias, andou pelas ruas e estradas empoeiradas do Brasil. E não só pelos corredores do poder.
Amaury já trabalhou em "O Globo", "Correio Braziliense", "IstoÉ", "Estado de Minas", e hoje é produtor especial de reportagens na "TV Record". Ganhou três vezes o Prêmio Esso de Jornalismo. Tudo isso já o recomendaria para a gloriosa Academia. A obra mais importante do repórter, entretanto, não surge dos jornais e revistas. "A Privataria Tucana" – com mais de 120 mil exemplares comercializados – é o livro que imortaliza o jornalista.
A Privataria é imortal - repetimos!
O livro de Amaury não é ficção, mas é arte pura. Arte de revelar ao Brasil a verdade sobre sua história recente. Seguindo a trilha aberta por Aloysio Biondi (outro jornalista que se dedicou a pesquisar os descaminhos das privatizações), Amaury Ribeiro Junior avançou rumo ao Caribe, passeou por Miami, fartou-se com as histórias que brotam dos paraísos fiscais.
Estranhamente, o livro de Amaury foi ignorado pela imprensa dos homens bons do Brasil. Isso não impediu o sucesso espetacular nas livrarias - o que diz muito sobre a imprensa pátria e mais ainda sobre a importância dos fatos narrados pelo talentoso repórter.
A Privataria é imortal! Mas o caminho de Amaury Ribeiro Junior rumo à imortalidade, bem o sabemos, não será fácil. Quis o destino que o principal contendor do jornalista na disputa pela cadeira fosse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
FHC é o ex-sociólogo que – ao virar presidente – implorou aos brasileiros: "Esqueçam o que eu escrevi". A ABL saberá levar isso em conta, temos certeza. É preciso esquecer.
Difícil, no entanto, é não lembrar o que FHC fez pelo Brasil. Eleito em 1994 com o apoio de Itamar Franco (pai do Plano Real), FHC prometeu enterrar a Era Vargas. Tentou. Esmerou-se em desmontar até a Petrobras. Contou, para isso, com o apoio dos homens bons que comandam a imprensa brasileira. Mas não teve sucesso completo.
O Estado Nacional, a duras penas, resistiu aos impulsos destrutivos do intelectual Fernando.
Em 95, 96 e 97, enquanto o martelo da Privataria tucana descia velozmente sobre as cabeças do povo brasileiro, Amaury dedicava-se a contar histórias sobre outra página vergonhosa do Brasil - a ditadura militar de 64. Em uma de suas reportagens mais importantes, sobre o massacre de guerrilheiros no Araguaia, Amaury Ribeiro Junior denunciou os abusos cometidos pela ditadura militar (que "doutor" Roberto preferia chamar de Movimento Democrático).
FHC vendia a Vale por uma ninharia. Amaury ganhava o Prêmio Esso...
FHC entregava a CSN por uns trocados. Amaury estava nas ruas, atrás de boas histórias, para ganhar mais um prêmio logo adiante...
As críticas ao ex-presidente, sabemos todos nós, são injustas. Homem simples, quase franciscano, FHC não quis vender o patrimônio nacional por valores exorbitantes. Foi apenas generoso com os compradores - homens de bem que aceitaram o duro fardo de administrar empresas desimportantes como a Vale e a CSN. A generosidade de FHC foi muitas vezes incompreendida pelo povo brasileiro, e até pelos colegas de partido - que desde 2002 teimam em esquecer (e esconder) o estadista Fernando Henrique Cardoso.
Celso Lafer – ex-ministro de FHC – é quem cumpre agora a boa tarefa de recuperar a memória do intelectual Fernando, ao apresentar a candidatura do ex-presidente à ABL. A Academia, quem sabe, pode prestar também uma homenagem ao governo de FHC, um governo simples, em que ministros andavam com os pés no chão – especialmente quando tinham que entrar nos Estados Unidos.
Amaury não esqueceu a obra de FHC. Mostrou os vãos e os desvãos, com destaque para o caminho do dinheiro da Privataria na volta ao Brasil. Todos os caminhos apontam para São Paulo. A São Paulo de Higienópolis e Alto de Pinheiros. A São Paulo de 32, antivarguista e antinacional. A São Paulo de FHC e do velho amigo José Serra - também imortalizado no livro de Amaury.
Durante uma década, o repórter debruçou-se sobre as tenebrosas transações. E desse trabalho brotou "A Privataria Tucana".
Por isso, dizemos: se FHC ganhar a indicação, a vitória será da Privataria. Mas se Amaury for o escolhido, aí a homenagem será completa: a Privataria é imortal!
===
Se você apoia Amaury para a ABL, deixe abaixo seu nome, profissão e/ou entidade. Veja quem já aderiu à campanha "A Privataria é imortal":
Altamiro Borges
Antonio Cantisani Filho
Breno Altman
Daniel Freitas
Dermi Azevedo
Diogo Moysés
Elis Regina Brito Almeida
Emiliano José
Emir Sader
Enio Squeff
Ermínia Maricato
Flavio Wolf Aguiar
Gilberto Maringoni
Inácio Neutzling
Ivana Jinkins
Joaquim Ernesto Palhares
Joaquim Soriano
João Brant
José Arbex Jr.
Julio Guilherme De Goes Valverde
Katarina Peixoto
Ladislau Dowbor
Laurindo Leal Filho
Lúcio Manfredo Lisboa
Luiz Carlos Azenha
Luiz Fernando Emediato
Luiz Gonzaga Belluzzo
Marcel Gomes
Marcio Pochmann
Marco Aurelio Weissheimer
Marcos Dantas
Paulo Henrique Amorim
Paulo Salvador
Raul Millet Filho
Reginaldo Nasser
José Reinaldo Carvalho
Renato Rovai
Rodrigo Vianna
Samuel Pinheiro Guimarães
Venício Lima
Wagner Nabuco
Fux em reunião com João Paulo: ‘Mato no peito’ - por Josias de Souza (Uol)
José Dirceu não foi o único réu do mensalão a quem o ministro Luiz Fux sinalizou absolvição. Ainda no governo Lula, quando iniciou sua campanha para obter a indicação à cadeira do STF, o ministro reuniu-se com João Paulo Cunha (PT-SP). Testemunha da conversa, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), à época líder do governo, conta que Fux referiu-se ao processo nos seguintes termos: ‘Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar.’
Em notícia de dezembro de 2012, a repórter Mônica Bérgamo já havia revelado os encontros de Fux com Dirceu e João Paulo. Nessa época, Vaccarezza confirmara ter participado de uma conversa. Mas negara-se a revelar falar o teor. Eis o que dissera o deputado: “Participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, preferia não falar.”
Nesta quarta (10), depois que José Dirceu acusou Fux de submetê-lo a “assédio moral” e de prometer que iria absolvê-lo no julgamento do mensalão, Vaccarezza sentiu-se à vontade para falar. Disse que, no diálogo com João Paulo, o hoje ministro do Supremo chegou mesmo a sinalizar como daria tratos ao processo do mensalão. “Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.”
Lula deixou o governo sem formalizar a indicação. Coube a Dilma Rousseff enviar Fux ao STF. Para surpresa do petismo, o ministro foi, depois do relator Joaquim Barbosa, o julgador mas severo. Entre os réus que condenou estão Dirceu e João Paulo.
Procurado, mandou a assessoria dizer o seguinte: “Ministro do Supremo não polemiza com réu”. Erro. Não se trata de polemizar com réus, mas de explicar o porquê de ter confraternizado com eles. Vai abaixo a íntegra da entrevista de Cândido Vaccarezza:
— Como conheceu Luiz Fux? O primeiro encontro que tive com o Fux foi no gabinete do Paulo Maluf [protagonista de três processos no STF]. O deputado me disse que estava apoiando ele para o Supremo, que era uma pessoa de confiança. E queria me apresentar.
— O próprio Maluf o convidou para a reunião? Exato. Fui convidado pelo Maluf. Ele disse que queria levar o Fux no meu gabinete. Eu disse: ‘Vou ao seu gabinete.’
— O sr. ainda era líder do governo? Nessa época eu era líder do governo Lula. Ocupei o posto até abril do ano passado, já no governo Dilma.
— Por que preferiu ir ao gabinete de Maluf? Era uma praxe minha. Quando eu era líder do governo, eu ia sempre nos gabinetes dos deputados.
— Foi uma reunião a três? Sim. Estávamos na reunião só nos três. O Maluf me apresentou o Fux. Conversamos.
— Ficou nisso? Depois, o João Paulo me convidou para ir à casa de um empresário, aqui em Brasília, para conversar sobre o Fux. Disse que queria me apresentar. Eu não disse que já conhecia. Fui na casa.
— Era casa de quem? Prefiro não dizer o nome do empresário. Estávamos o João Paulo, o Fux e eu.
— A que horas ocorreu o encontro? Foi um café da manhã, numa casa do Lago Sul [bairro elegante de Brasília].
— Falou-se de mensalão nessa reunião? Nós não tocamos no assunto de mensalão. O empresário falou. Disse que podíamos confiar no Fux. E o Fux disse que matava no peito.
— O ministro Luiz Fux falou assim, com esses termos? Ele disse: ‘Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar’. Falou nesses termos.
— Estava claro que ele falava da ação penal do mensalão? Sim. Ao dizer que mataria no peito, ele fez um movimento com a mão.
— Que movimento? Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.
— Os senhores o apoiaram? Eu não declarei apoio a ele. Eu achava que devia ser uma outra pessoa.
Em notícia de dezembro de 2012, a repórter Mônica Bérgamo já havia revelado os encontros de Fux com Dirceu e João Paulo. Nessa época, Vaccarezza confirmara ter participado de uma conversa. Mas negara-se a revelar falar o teor. Eis o que dissera o deputado: “Participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, preferia não falar.”
Nesta quarta (10), depois que José Dirceu acusou Fux de submetê-lo a “assédio moral” e de prometer que iria absolvê-lo no julgamento do mensalão, Vaccarezza sentiu-se à vontade para falar. Disse que, no diálogo com João Paulo, o hoje ministro do Supremo chegou mesmo a sinalizar como daria tratos ao processo do mensalão. “Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.”
Lula deixou o governo sem formalizar a indicação. Coube a Dilma Rousseff enviar Fux ao STF. Para surpresa do petismo, o ministro foi, depois do relator Joaquim Barbosa, o julgador mas severo. Entre os réus que condenou estão Dirceu e João Paulo.
Procurado, mandou a assessoria dizer o seguinte: “Ministro do Supremo não polemiza com réu”. Erro. Não se trata de polemizar com réus, mas de explicar o porquê de ter confraternizado com eles. Vai abaixo a íntegra da entrevista de Cândido Vaccarezza:
— Como conheceu Luiz Fux? O primeiro encontro que tive com o Fux foi no gabinete do Paulo Maluf [protagonista de três processos no STF]. O deputado me disse que estava apoiando ele para o Supremo, que era uma pessoa de confiança. E queria me apresentar.
— O próprio Maluf o convidou para a reunião? Exato. Fui convidado pelo Maluf. Ele disse que queria levar o Fux no meu gabinete. Eu disse: ‘Vou ao seu gabinete.’
— O sr. ainda era líder do governo? Nessa época eu era líder do governo Lula. Ocupei o posto até abril do ano passado, já no governo Dilma.
— Por que preferiu ir ao gabinete de Maluf? Era uma praxe minha. Quando eu era líder do governo, eu ia sempre nos gabinetes dos deputados.
— Foi uma reunião a três? Sim. Estávamos na reunião só nos três. O Maluf me apresentou o Fux. Conversamos.
— Ficou nisso? Depois, o João Paulo me convidou para ir à casa de um empresário, aqui em Brasília, para conversar sobre o Fux. Disse que queria me apresentar. Eu não disse que já conhecia. Fui na casa.
— Era casa de quem? Prefiro não dizer o nome do empresário. Estávamos o João Paulo, o Fux e eu.
— A que horas ocorreu o encontro? Foi um café da manhã, numa casa do Lago Sul [bairro elegante de Brasília].
— Falou-se de mensalão nessa reunião? Nós não tocamos no assunto de mensalão. O empresário falou. Disse que podíamos confiar no Fux. E o Fux disse que matava no peito.
— O ministro Luiz Fux falou assim, com esses termos? Ele disse: ‘Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar’. Falou nesses termos.
— Estava claro que ele falava da ação penal do mensalão? Sim. Ao dizer que mataria no peito, ele fez um movimento com a mão.
— Que movimento? Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.
— Os senhores o apoiaram? Eu não declarei apoio a ele. Eu achava que devia ser uma outra pessoa.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Thatcher e a direita "de verdade" – por Paulo Moreira Leite (Istoé)
Nosso complexo de vira-lata é tão grande que já surgiram cronistas conservadores para lamentar que Margaret Thatcher não era brasileira.
O argumento é dizer assim: “Ah, aquilo sim é que era uma pessoa de direita... Não tinha escrúpulos nem queria se fazer de moderada...”
Conclusão: o Brasil é tão ruim e tão atrasado que nem possui uma direita que preste...
É uma reação característica. Pensadores importantes já chegaram a lamentar que, durante o império de Pedro II, nossos liberais não eram verdadeiros liberais porque conviviam pacificamente com a escravidão. Diziam que a prática não combinava com a teoria, que as ideias estavam fora do lugar.
É chique, é sofisticado. É complexo, como está na moda dizer, em Higienópolis e nos Jardins, mas é errado.
A verdade é que as noções políticas raramente estão fora do lugar, como lembrou o professor Venício Lima, em debate recente.
Não custa lembrar uma realidade até banal: ideias não são realidades com vida própria que saem dos livros para a vida concreta, nem obra de pensadores em seus escritórios high-tech, mas instrumentos que servem à luta social de homens e mulheres.
Quem estava fora do lugar eram nossos comentaristas e observadores, que enxergavam um liberalismo idealizado, postiço, ideológico – sem base na realidade. Construíam um mundo imaginário, procurando adaptar a realidade a seus pensamentos.
Deixando de lado casos patológicos e datados, a direita brasileira nunca teve a fisionomia de Thatcher por que sua realidade era diferente. O programa conservador britânico tinha uma função: quebrar o bem estar social, reduzir os direitos dos trabalhadores e destruir instrumentos do Estado para regulamentar a selvageria da economia de mercado. O objetivo era eliminar as instituições que permitiam ao Estado controlar os impulsos irracionais da economia de mercado, que haviam gerado a crise de 1929, efetivando políticas de garantia de crescimento e proteção do emprego que duraram mais de 30 anos.
Num resumo simplificador, pode-se dizer que, com menos Estado, Thatcher pretendia concentrar a renda com o argumento que seria uma forma de estimular o investimento, inclusive externo, e criar empregos. Pagando salários menores e oferecendo menores garantias, os empresários teriam maiores estímulos para investir, dizia o thatcherismo. Para tanto, era preciso eliminar os sindicatos, que garantiam uma jornada de trabalho mais suave, com pausa para o chá, vencimentos razoáveis e um sistema de saúde pública com uma eficiência sem igual no mundo desenvolvido.
Importando o debate para o Brasil, a pergunta é: como se poderia fazer isso, num país que já construiu, espontaneamente, digamos assim, uma das sociedades mais desiguais do planeta, onde ainda no início do século XXI se denuncia a existência de formas atualizadas de trabalho escravo?
Como fazer um programa extremo numa realidade já por si extrema?
Não havia e nunca houve um Estado de bem-estar no Brasil, motivo pelo qual não poderia surgir uma direita thatcherista, movimento de caráter regressivo. Havia fantasmagorias, como a República Sindical e a ameaça subversiva que a imprensa adorava denunciar em 64.
Mas o programa do golpe tinha um caráter preventivo, destinado a impedir mudanças que nem sequer haviam ocorrido ou se encontravam apenas em gestação muito inicial.
A desigualdade e o atraso eram tão grandes que Washington impôs ao governo de Castello Branco um compromisso de realizar a reforma agrária – que jamais saiu do papel, evidentemente, mas pode ser visto como uma demonstração do abismo social absoluto em que o país se encontrava.
Do ponto de vista da direita, não havia o que mudar. Havia o que conservar.
A situação é diferente, hoje. O modestíssimo mas real conjunto de políticas de distribuição de renda e melhorias sociais iniciado no país a partir da década passada colocou de pé um sistema de garantias e proteção social que, mesmo minúsculo em relação às necessidades reais, já é considerado insuportável pelos barões históricos.
Nos últimos anos eles se dedicam a construir templos de oração aos economistas da chamada escola austríaca. Inspiradores de Margaret Thatcher, eles consideravam os Estados de bem estar social como a antessala do comunismo.
Nossos conservadores assinam manifestos radicais, escrevem livros de baixo conteúdo e alta sonoridade. Seus autores mais ativos têm espaço garantido na maioria dos meios de comunicação. Combateram a política de cotas, denunciaram o Bolsa-Família como estímulo à preguiça, condenam o juro baixo e, quando não pega mal, já se mostram preocupados com o desemprego baixo e o salário mínimo alto.
Revelando compromissos superficiais com a democracia, questionam a ocorrência de tortura durante a ditadura e sempre dão um jeito que dizer que o golpe de 64 evitou um mal maior...
Não é preciso se impacientar, minha gente. O thatcherismo está vindo aí.
Depois de ajudar a forjar a crise que desabou em 2008, mantém-se no controle dos governos europeus, que aplicam programas de destruição de conquistas dos assalariados e da população pobre construídos no pós-Guerra.
Resta perguntar por seus compromissos democráticos.
A dificuldade da direita brasileira em apresentar um candidato para 2014 reside aí. Ela tem vários nomes à disposição. Também sabe, muito bem, o que pretende fazer, caso retorne ao Planalto.
Só não sabe como fazer isso por meio do voto. Este é o ponto em que a vida real se encontra. A população tem deixado claro, a cada levantamento, que aprova o que está aí e não vê razão para mudar.
Se o ambiente permanecer assim, a disputa do ano que vem aponta para a quarta vitória consecutiva de Lula e Dilma.
Os antecedentes do thatcherismo, nos países ao sul do Equador, chegam a ser horripilantes.
Falando sério. Apenas uma visão seletiva e instrumental de democracia explica o apoio absoluto a Augusto Pinochet, que Thatcher assegurou até o fim dos dias, inclusive quando todos os crimes da ditadura chilena se tornaram conhecidos – e se descobriu até que o general havia acumulado uma imensa fortuna clandestina em casa.
Nostalgia? Incoerência?
O argumento é dizer assim: “Ah, aquilo sim é que era uma pessoa de direita... Não tinha escrúpulos nem queria se fazer de moderada...”
Conclusão: o Brasil é tão ruim e tão atrasado que nem possui uma direita que preste...
É uma reação característica. Pensadores importantes já chegaram a lamentar que, durante o império de Pedro II, nossos liberais não eram verdadeiros liberais porque conviviam pacificamente com a escravidão. Diziam que a prática não combinava com a teoria, que as ideias estavam fora do lugar.
É chique, é sofisticado. É complexo, como está na moda dizer, em Higienópolis e nos Jardins, mas é errado.
A verdade é que as noções políticas raramente estão fora do lugar, como lembrou o professor Venício Lima, em debate recente.
Não custa lembrar uma realidade até banal: ideias não são realidades com vida própria que saem dos livros para a vida concreta, nem obra de pensadores em seus escritórios high-tech, mas instrumentos que servem à luta social de homens e mulheres.
Quem estava fora do lugar eram nossos comentaristas e observadores, que enxergavam um liberalismo idealizado, postiço, ideológico – sem base na realidade. Construíam um mundo imaginário, procurando adaptar a realidade a seus pensamentos.
Deixando de lado casos patológicos e datados, a direita brasileira nunca teve a fisionomia de Thatcher por que sua realidade era diferente. O programa conservador britânico tinha uma função: quebrar o bem estar social, reduzir os direitos dos trabalhadores e destruir instrumentos do Estado para regulamentar a selvageria da economia de mercado. O objetivo era eliminar as instituições que permitiam ao Estado controlar os impulsos irracionais da economia de mercado, que haviam gerado a crise de 1929, efetivando políticas de garantia de crescimento e proteção do emprego que duraram mais de 30 anos.
Num resumo simplificador, pode-se dizer que, com menos Estado, Thatcher pretendia concentrar a renda com o argumento que seria uma forma de estimular o investimento, inclusive externo, e criar empregos. Pagando salários menores e oferecendo menores garantias, os empresários teriam maiores estímulos para investir, dizia o thatcherismo. Para tanto, era preciso eliminar os sindicatos, que garantiam uma jornada de trabalho mais suave, com pausa para o chá, vencimentos razoáveis e um sistema de saúde pública com uma eficiência sem igual no mundo desenvolvido.
Importando o debate para o Brasil, a pergunta é: como se poderia fazer isso, num país que já construiu, espontaneamente, digamos assim, uma das sociedades mais desiguais do planeta, onde ainda no início do século XXI se denuncia a existência de formas atualizadas de trabalho escravo?
Como fazer um programa extremo numa realidade já por si extrema?
Não havia e nunca houve um Estado de bem-estar no Brasil, motivo pelo qual não poderia surgir uma direita thatcherista, movimento de caráter regressivo. Havia fantasmagorias, como a República Sindical e a ameaça subversiva que a imprensa adorava denunciar em 64.
Mas o programa do golpe tinha um caráter preventivo, destinado a impedir mudanças que nem sequer haviam ocorrido ou se encontravam apenas em gestação muito inicial.
A desigualdade e o atraso eram tão grandes que Washington impôs ao governo de Castello Branco um compromisso de realizar a reforma agrária – que jamais saiu do papel, evidentemente, mas pode ser visto como uma demonstração do abismo social absoluto em que o país se encontrava.
Do ponto de vista da direita, não havia o que mudar. Havia o que conservar.
A situação é diferente, hoje. O modestíssimo mas real conjunto de políticas de distribuição de renda e melhorias sociais iniciado no país a partir da década passada colocou de pé um sistema de garantias e proteção social que, mesmo minúsculo em relação às necessidades reais, já é considerado insuportável pelos barões históricos.
Nos últimos anos eles se dedicam a construir templos de oração aos economistas da chamada escola austríaca. Inspiradores de Margaret Thatcher, eles consideravam os Estados de bem estar social como a antessala do comunismo.
Nossos conservadores assinam manifestos radicais, escrevem livros de baixo conteúdo e alta sonoridade. Seus autores mais ativos têm espaço garantido na maioria dos meios de comunicação. Combateram a política de cotas, denunciaram o Bolsa-Família como estímulo à preguiça, condenam o juro baixo e, quando não pega mal, já se mostram preocupados com o desemprego baixo e o salário mínimo alto.
Revelando compromissos superficiais com a democracia, questionam a ocorrência de tortura durante a ditadura e sempre dão um jeito que dizer que o golpe de 64 evitou um mal maior...
Não é preciso se impacientar, minha gente. O thatcherismo está vindo aí.
Depois de ajudar a forjar a crise que desabou em 2008, mantém-se no controle dos governos europeus, que aplicam programas de destruição de conquistas dos assalariados e da população pobre construídos no pós-Guerra.
Resta perguntar por seus compromissos democráticos.
A dificuldade da direita brasileira em apresentar um candidato para 2014 reside aí. Ela tem vários nomes à disposição. Também sabe, muito bem, o que pretende fazer, caso retorne ao Planalto.
Só não sabe como fazer isso por meio do voto. Este é o ponto em que a vida real se encontra. A população tem deixado claro, a cada levantamento, que aprova o que está aí e não vê razão para mudar.
Se o ambiente permanecer assim, a disputa do ano que vem aponta para a quarta vitória consecutiva de Lula e Dilma.
Os antecedentes do thatcherismo, nos países ao sul do Equador, chegam a ser horripilantes.
Falando sério. Apenas uma visão seletiva e instrumental de democracia explica o apoio absoluto a Augusto Pinochet, que Thatcher assegurou até o fim dos dias, inclusive quando todos os crimes da ditadura chilena se tornaram conhecidos – e se descobriu até que o general havia acumulado uma imensa fortuna clandestina em casa.
Nostalgia? Incoerência?
Dilemas da esquerda no Brasil - por Diogo Costa (Blog do Nassif)
Escutam-se murmúrios, aqui e alhures, sobre o impasse da reforma política, da democratização das comunicações, da reforma agrária e de outros temas sensíveis aos anseios populares. Alguns mais afoitos são os primeiros a decretar: "A culpa é do PT"! Será?
Nem é preciso ser um cientista político renomado para saber que reformas estruturais não se fazem com uma varinha mágica de condão. Se fazem com a aprovação de projetos via legislativo, dentro dos marcos da democracia liberal burguesa clássica, ou através de uma revolução social como a Revolução Francesa de 1789 ou a Revolução Russa de 1917. No caso do Brasil, temos o horizonte das reformas dentro da democracia liberal, posta e garantida pela Constituição.
Uma pessoa medianamente informada sabe que para se aprovar um simples projeto de lei no Congresso Nacional, são necessários os votos de 257 deputados federais e de 41 senadores. Sabe também que para se aprovar uma Emenda Constitucional são necessários os votos de 308 deputados federais e de 49 senadores. Pois bem, o PT tem apenas 87 deputados (16,9% do total) e 12 senadores (14,8% do total). Logo, vê-se que o argumento de que o PT não faz reformas porque não quer fazê-las, ou porque tem medo, é uma falácia.
Mas é preciso ir mais além. Aqui e acolá surgem idéias de alguns apressados (e equivocados) dizendo que o PT deveria aprofundar e tornar preferencial sua aliança com o PMDB, tornando-a mais sólida no Congresso Nacional, pois os dois maiores partidos garantiriam, com folga, as votações mais importantes. É mesmo? Nem que o PMDB fosse o partido mais coeso e fiel da face da Terra estaria garantido que apenas ele e o PT pudessem implementar sozinhos qualquer tipo de reforma! A soma de PT e PMDB garante 168 deputados e 32 senadores. Ou seja, não aprovariam nem um mísero projeto de lei.
Agora vem o drama da esquerda. A esquerda (PT, PSB, PC do B, PDT e PSOL) não tem sequer 1/3 dos votos no Congresso Nacional. Destes menos de 1/3 dos votos o PT responde por pouco menos da metade. Pior do que isso é o fato de que em temas como a reforma política e a democratização dos meios de comunicação nem mesmo a esquerda é capaz de apresentar propostas conjuntas. O PSB e o PDT são contra a reforma política (já haviam votado contra em 2007) e contra uma Ley de Medios 'Made in Brazil'. Ou seja, é outra rotunda falácia dizer que o PT não faz reformas porque não quer fazê-las ou porque tem medo das mesmas. Se o PT não tem o apoio sequer de alguns dos partidos de esquerda, como uns e outros pretendem que as reformas estruturantes sejam aprovadas? Só se for com a famosa varinha mágica de condão...
Outro argumento falacioso é o de comparar a situação brasileira com a situação política totalmente distinta existente em outros países da América do Sul, notadamente na Venezuela, na Bolívia ou no Equador. Nada mais fantasioso e falso! Se o PT tivesse a força que tem o PSUV na Venezuela ou a força do MAS na Bolívia, todas as reformas estruturais já estariam feitas há muito tempo. Ocorre que o PT não tem toda essa força. O PT lidera uma coalizão de partidos, o PT não governa sozinho. O PT não tem 308 deputados federais e também não tem 49 senadores. Se tivesse essa maioria consolidada, como os congêneres partidos venezuelano e boliviano tem, e, ainda assim não fizesse as reformas, todas as críticas do mundo seriam corretas e pertinentes. Mas não levar em conta as diferenças dos processos sociais existentes em diferentes países torna as críticas inconsistentes.
Seria até interessante ver em 2014, por exemplo, uma vitória do PSOL para a presidência da república. Plínio de Arruda Sampaio eleito e subindo a rampa com seus hipotéticos 10 deputados federais e hipotéticos 05 ou 06 senadores. Certamente em seis meses o Brasil veria a concretização das aspirações dos movimentos populares! Em seis meses teríamos a aprovação de todas as reformas progressistas de que o país necessita há décadas! Tirando a ironia, vale destacar que isso não valeria só para o PSOL, se vencesse o pleito de 2014 ou outro pleito qualquer, isso valeria e vale também para o PSTU, para o PSB, enfim, vale para qualquer partido político. Ou seja, a vida não é um mar de rosas e nem se passa numa película em preto e branco. A disputa política envolve uma série de mediações que jamais podem ser desconsideradas. Entre o slogan e a vida real existe uma considerável distância que só é vencida com o acúmulo de forças, não com palavras de ordem ou arrivismos.
Os mais inocentes deveriam saber também que em 1964 o antigo PTB, que propugnava pelas corretíssimas reformas de base, tinha uma representatividade parlamentar muito maior que a representatividade parlamentar que o PT tem no Congresso Nacional nos dias de hoje. E aí, será que o antigo PTB, com força congressual muito maior que o PT atual, também não fez reformas porque não quis ou teve medo? Será que caiu por culpa de seus próprios defeitos e limitações?
Esse é o grande enigma da política brasileira atual e a origem do impasse que entrava e paralisa as reformas estruturais. O problema do país não é o PT ou a esquerda, mas a debilidade do PT e da esquerda. O PT precisaria ter o dobro do tamanho que tem! A esquerda precisaria ter o dobro do tamanho que tem! Esse é o fato concreto. E aí quando o PT propõe temas como a reforma política, que beneficiaria todos os partidos programáticos e enterraria os fisiológicos, setores da esquerda votam contra... A 'culpa' é de quem mesmo?
Enfim, na atual conjuntura não resta outra saída a não ser continuar lutando pelas transformações sociais, discutindo temas estruturais e fomentando a participação dos movimentos sindicais, estudantis e sociais. É preciso aumentar a massa crítica em favor das reformas e saber que, sem mobilizações sociais de grande monta, fica muito difícil aprovar qualquer tema mais polêmico. O que não dá é para cair no conto do vigário de que os males da humanidade são culpa da 'paúra' do PT. Isso é uma bobagem pueril.
Há um enorme espaço para o crescimento da esquerda em Pindorama, desde que os militantes de esquerda critiquem a direita! Enquanto esses militantes se detiverem na inglória tarefa de tentar destruir o Partido dos Trabalhadores, continuarão apenas a cumprir um triste e profundamente equivocado papel.
Nem é preciso ser um cientista político renomado para saber que reformas estruturais não se fazem com uma varinha mágica de condão. Se fazem com a aprovação de projetos via legislativo, dentro dos marcos da democracia liberal burguesa clássica, ou através de uma revolução social como a Revolução Francesa de 1789 ou a Revolução Russa de 1917. No caso do Brasil, temos o horizonte das reformas dentro da democracia liberal, posta e garantida pela Constituição.
Uma pessoa medianamente informada sabe que para se aprovar um simples projeto de lei no Congresso Nacional, são necessários os votos de 257 deputados federais e de 41 senadores. Sabe também que para se aprovar uma Emenda Constitucional são necessários os votos de 308 deputados federais e de 49 senadores. Pois bem, o PT tem apenas 87 deputados (16,9% do total) e 12 senadores (14,8% do total). Logo, vê-se que o argumento de que o PT não faz reformas porque não quer fazê-las, ou porque tem medo, é uma falácia.
Mas é preciso ir mais além. Aqui e acolá surgem idéias de alguns apressados (e equivocados) dizendo que o PT deveria aprofundar e tornar preferencial sua aliança com o PMDB, tornando-a mais sólida no Congresso Nacional, pois os dois maiores partidos garantiriam, com folga, as votações mais importantes. É mesmo? Nem que o PMDB fosse o partido mais coeso e fiel da face da Terra estaria garantido que apenas ele e o PT pudessem implementar sozinhos qualquer tipo de reforma! A soma de PT e PMDB garante 168 deputados e 32 senadores. Ou seja, não aprovariam nem um mísero projeto de lei.
Agora vem o drama da esquerda. A esquerda (PT, PSB, PC do B, PDT e PSOL) não tem sequer 1/3 dos votos no Congresso Nacional. Destes menos de 1/3 dos votos o PT responde por pouco menos da metade. Pior do que isso é o fato de que em temas como a reforma política e a democratização dos meios de comunicação nem mesmo a esquerda é capaz de apresentar propostas conjuntas. O PSB e o PDT são contra a reforma política (já haviam votado contra em 2007) e contra uma Ley de Medios 'Made in Brazil'. Ou seja, é outra rotunda falácia dizer que o PT não faz reformas porque não quer fazê-las ou porque tem medo das mesmas. Se o PT não tem o apoio sequer de alguns dos partidos de esquerda, como uns e outros pretendem que as reformas estruturantes sejam aprovadas? Só se for com a famosa varinha mágica de condão...
Outro argumento falacioso é o de comparar a situação brasileira com a situação política totalmente distinta existente em outros países da América do Sul, notadamente na Venezuela, na Bolívia ou no Equador. Nada mais fantasioso e falso! Se o PT tivesse a força que tem o PSUV na Venezuela ou a força do MAS na Bolívia, todas as reformas estruturais já estariam feitas há muito tempo. Ocorre que o PT não tem toda essa força. O PT lidera uma coalizão de partidos, o PT não governa sozinho. O PT não tem 308 deputados federais e também não tem 49 senadores. Se tivesse essa maioria consolidada, como os congêneres partidos venezuelano e boliviano tem, e, ainda assim não fizesse as reformas, todas as críticas do mundo seriam corretas e pertinentes. Mas não levar em conta as diferenças dos processos sociais existentes em diferentes países torna as críticas inconsistentes.
Seria até interessante ver em 2014, por exemplo, uma vitória do PSOL para a presidência da república. Plínio de Arruda Sampaio eleito e subindo a rampa com seus hipotéticos 10 deputados federais e hipotéticos 05 ou 06 senadores. Certamente em seis meses o Brasil veria a concretização das aspirações dos movimentos populares! Em seis meses teríamos a aprovação de todas as reformas progressistas de que o país necessita há décadas! Tirando a ironia, vale destacar que isso não valeria só para o PSOL, se vencesse o pleito de 2014 ou outro pleito qualquer, isso valeria e vale também para o PSTU, para o PSB, enfim, vale para qualquer partido político. Ou seja, a vida não é um mar de rosas e nem se passa numa película em preto e branco. A disputa política envolve uma série de mediações que jamais podem ser desconsideradas. Entre o slogan e a vida real existe uma considerável distância que só é vencida com o acúmulo de forças, não com palavras de ordem ou arrivismos.
Os mais inocentes deveriam saber também que em 1964 o antigo PTB, que propugnava pelas corretíssimas reformas de base, tinha uma representatividade parlamentar muito maior que a representatividade parlamentar que o PT tem no Congresso Nacional nos dias de hoje. E aí, será que o antigo PTB, com força congressual muito maior que o PT atual, também não fez reformas porque não quis ou teve medo? Será que caiu por culpa de seus próprios defeitos e limitações?
Esse é o grande enigma da política brasileira atual e a origem do impasse que entrava e paralisa as reformas estruturais. O problema do país não é o PT ou a esquerda, mas a debilidade do PT e da esquerda. O PT precisaria ter o dobro do tamanho que tem! A esquerda precisaria ter o dobro do tamanho que tem! Esse é o fato concreto. E aí quando o PT propõe temas como a reforma política, que beneficiaria todos os partidos programáticos e enterraria os fisiológicos, setores da esquerda votam contra... A 'culpa' é de quem mesmo?
Enfim, na atual conjuntura não resta outra saída a não ser continuar lutando pelas transformações sociais, discutindo temas estruturais e fomentando a participação dos movimentos sindicais, estudantis e sociais. É preciso aumentar a massa crítica em favor das reformas e saber que, sem mobilizações sociais de grande monta, fica muito difícil aprovar qualquer tema mais polêmico. O que não dá é para cair no conto do vigário de que os males da humanidade são culpa da 'paúra' do PT. Isso é uma bobagem pueril.
Há um enorme espaço para o crescimento da esquerda em Pindorama, desde que os militantes de esquerda critiquem a direita! Enquanto esses militantes se detiverem na inglória tarefa de tentar destruir o Partido dos Trabalhadores, continuarão apenas a cumprir um triste e profundamente equivocado papel.
O tempo urge: o papel da mídia alternativa – por Saul Leblon (CartaMaior)
O jogo do conservadorismo para 2014 está montado em duas cartas: uma de natureza diretamente política; outra, de manipulação das expectativas econômicas.
Com a primeira, pretende-se impedir que Lula transfira a força de seu prestígio ao palanque de Dilma.
O processo de investigação contra o ex-presidente, engendrado no circuito Gurgel, Valério & Associados, tem essa finalidade.
Com a segunda, trata-se de corroer a confiança do país no futuro, de modo a impedir que o capital privado migre do rentismo para o novo ciclo de investimento produtivo buscado pelo governo.
Ademais de jogar a economia num córner inflacionário , dado o desequilíbrio entre oferta e demanda, o êxito dessa dupla cartada deixaria Dilma ‘solteira’, num palanque cercada de difamação administrativa por todos os lados.
Esse é o jogo.
O primeiro tempo corre nas manchetes e escaladas noticiosas.
O segundo, com os acréscimos previsíveis de golpes baixos, tomará todo o ano de 2014.
Como na mesa de truco, o sucesso da empreitada depende d
o poder de convencimento daqueles cujo blefe não contagiou o Brasil em 2002, 2006 e 2010.
Por que haveria de ser diferente agora?
Distorções intrínsecas à macroeconomia das últimas décadas (juro sideral e câmbio valorizado) , acrescidas do contágio lento, mas cumulativo, da desordem planetária neoliberal , afetam o crescimento brasileiro nesse momento.
O vício rentista trazido dos anos 90, quando a taxa de juro chegou a estonteantes 40%, poupou o dinheiro graúdo dos percalços do mundo físico da produção, até meados de 2008.
A uma elite sempre dissociada do país, concedeu-se trocar o relevo acidentado da produção, pela planície financeira do ganho alto, com risco zero e liquidez imediata.
Esse dinheiro bronzeado em férias permanentes em paraísos fiscais e locais, está sendo induzido agora, a toque de juros baixos, a se sujar de graxa e poeira outra vez.
Não é uma travessia simples, mesmo quando todas as variáveis estão sob controle.
E, no caso, elas não estão.
A principal variável, a das expectati
vas em relação ao futuro brasileiro, está sendo minada, diariamente, pelo dispositivo midiático conservador.
O governo enfrenta aqui a sua principal desvantagem.
A questão decisiva da confiança não argui, propriamente, os projetos de investimento previstos e em curso.
Não se questiona a sua pertinência.
Nem seria possível. O Brasil precisa aproveitar a alavanca do pré-sal para se reindustrializar. Tem que readequar uma infraestrutura desenhada para a sociedade elitista do século XIX, ao gigantesco mercado de massa revelado sob o ciclo de governos do PT.
As dimensões do que já se encontra em andamento colocam o país no ranking dos maiores canteiros de obras do mundo.
Das 50 maiores tapumes de infraestrutura e energia erguidos no planeta, 14 estão no Brasil.
A Europa se liquefaz; os EUA ainda tropeçam; as taxas de juros são negativas em 90% dos mercados relevantes do globo.
Dados da associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema) informam que no Brasil, ao contrário, há
12.260 obras e investimentos importantes agendados para até 2016.
Em valores, R$ 1,5 trilhão. Pouco menos que a metade do PIB atual.
Onde a coisa emperra então?
Na barragem de fogo que fomenta a incerteza quanto à capacidade do atual governo de implantá-los.
A acusação é de intervencionismo.
'O governo Dilma quer decidir até a taxa de lucro dos projetos', uivam os órfãos nativos de Margareth Tatcher - 'a ladra do copo de leite'(leia sobre a construção do mito neoliberal na matéria do correspondente em Londres, Marcelo Justo; nesta pág).
O dispositivo midiático fala à elite e aos investidores, locais e forâneos.
A mensagem é: não se arrisquem agora; se o PT for derrotado em 2014, as regras do jogo mudam.
A pregação pela alta dos juros sinaliza o convite e o nome da recompensa.
À medida em que posterga prazos e projetos urgentes , a incerteza muda o pano de fundo econômico da disputa politica.
É esse manejo psicológico do futuro brasileiro que dá à mídia em 2014 uma importância ainda mais central
do que já teve em 2002, 2006 e 2010.
Em 2002, o governo era comandado pelo conservadorismo.
Sua inoperância estava tão evidente que nem mesmo a barragem da mídia seria capaz de acobertá-la.
Lula ganhou.
Em 2006, o cerco montado em torno das denúncias do ‘mensalão’ colidiu de frente com a resistência social, embalada por uma economia em ascensão, em contraposição à memória ainda fresca do desastre tucano no poder.
Lula foi reeleito.
Em 2010, o país contabilizava os ganhos do enfrentamento contracíclico oposto ao colapso da ordem neoliberal.
Dilma venceu.
Hoje, a disposição das peças do xadrez é mais complexa.
O mantra do ‘Brasil que não dá certo’, mesmo sendo essencialmente uma conveniência ideológica, pode interferir objetivamente no cenário econômico e político.
O cerco a Lula, na medida em que possa enfraquecer o fiador de última instância de Dilma, converge no mesmo sentido.
Por isso a dimensão midiática da luta eleitoral hoje é mais decisiva do que o foi em 2002, 2006 e 2010.
Desengavetar o marco regulatório da mídia é imperativo.
Mas talvez não seja mais suficiente. O processo, previsivelmente longo, não responde à urgência da hora.
Como diz o governador Tarso Genro, em sintomática entrevista concedida a Marco Aurélio Weissheimer, o Brasil vive sob o bloqueio da informação.
A mídia interdita o debate e a solução dos problemas nacionais.
‘Temos, frequentemente, que recorrer à mídia alternativa para romper o cerco’, resumiu o líder gaúcho.
Recorrer aos veículos alternativos e aos canais públicos talvez não possa mais ser encarado como a alternativa do desespero.
Chegou a hora de cogitá-la como a resposta da sensatez.
Com a primeira, pretende-se impedir que Lula transfira a força de seu prestígio ao palanque de Dilma.
O processo de investigação contra o ex-presidente, engendrado no circuito Gurgel, Valério & Associados, tem essa finalidade.
Com a segunda, trata-se de corroer a confiança do país no futuro, de modo a impedir que o capital privado migre do rentismo para o novo ciclo de investimento produtivo buscado pelo governo.
Ademais de jogar a economia num córner inflacionário , dado o desequilíbrio entre oferta e demanda, o êxito dessa dupla cartada deixaria Dilma ‘solteira’, num palanque cercada de difamação administrativa por todos os lados.
Esse é o jogo.
O primeiro tempo corre nas manchetes e escaladas noticiosas.
O segundo, com os acréscimos previsíveis de golpes baixos, tomará todo o ano de 2014.
Como na mesa de truco, o sucesso da empreitada depende d
o poder de convencimento daqueles cujo blefe não contagiou o Brasil em 2002, 2006 e 2010.
Por que haveria de ser diferente agora?
Distorções intrínsecas à macroeconomia das últimas décadas (juro sideral e câmbio valorizado) , acrescidas do contágio lento, mas cumulativo, da desordem planetária neoliberal , afetam o crescimento brasileiro nesse momento.
O vício rentista trazido dos anos 90, quando a taxa de juro chegou a estonteantes 40%, poupou o dinheiro graúdo dos percalços do mundo físico da produção, até meados de 2008.
A uma elite sempre dissociada do país, concedeu-se trocar o relevo acidentado da produção, pela planície financeira do ganho alto, com risco zero e liquidez imediata.
Esse dinheiro bronzeado em férias permanentes em paraísos fiscais e locais, está sendo induzido agora, a toque de juros baixos, a se sujar de graxa e poeira outra vez.
Não é uma travessia simples, mesmo quando todas as variáveis estão sob controle.
E, no caso, elas não estão.
A principal variável, a das expectati
vas em relação ao futuro brasileiro, está sendo minada, diariamente, pelo dispositivo midiático conservador.
O governo enfrenta aqui a sua principal desvantagem.
A questão decisiva da confiança não argui, propriamente, os projetos de investimento previstos e em curso.
Não se questiona a sua pertinência.
Nem seria possível. O Brasil precisa aproveitar a alavanca do pré-sal para se reindustrializar. Tem que readequar uma infraestrutura desenhada para a sociedade elitista do século XIX, ao gigantesco mercado de massa revelado sob o ciclo de governos do PT.
As dimensões do que já se encontra em andamento colocam o país no ranking dos maiores canteiros de obras do mundo.
Das 50 maiores tapumes de infraestrutura e energia erguidos no planeta, 14 estão no Brasil.
A Europa se liquefaz; os EUA ainda tropeçam; as taxas de juros são negativas em 90% dos mercados relevantes do globo.
Dados da associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema) informam que no Brasil, ao contrário, há
12.260 obras e investimentos importantes agendados para até 2016.
Em valores, R$ 1,5 trilhão. Pouco menos que a metade do PIB atual.
Onde a coisa emperra então?
Na barragem de fogo que fomenta a incerteza quanto à capacidade do atual governo de implantá-los.
A acusação é de intervencionismo.
'O governo Dilma quer decidir até a taxa de lucro dos projetos', uivam os órfãos nativos de Margareth Tatcher - 'a ladra do copo de leite'(leia sobre a construção do mito neoliberal na matéria do correspondente em Londres, Marcelo Justo; nesta pág).
O dispositivo midiático fala à elite e aos investidores, locais e forâneos.
A mensagem é: não se arrisquem agora; se o PT for derrotado em 2014, as regras do jogo mudam.
A pregação pela alta dos juros sinaliza o convite e o nome da recompensa.
À medida em que posterga prazos e projetos urgentes , a incerteza muda o pano de fundo econômico da disputa politica.
É esse manejo psicológico do futuro brasileiro que dá à mídia em 2014 uma importância ainda mais central
do que já teve em 2002, 2006 e 2010.
Em 2002, o governo era comandado pelo conservadorismo.
Sua inoperância estava tão evidente que nem mesmo a barragem da mídia seria capaz de acobertá-la.
Lula ganhou.
Em 2006, o cerco montado em torno das denúncias do ‘mensalão’ colidiu de frente com a resistência social, embalada por uma economia em ascensão, em contraposição à memória ainda fresca do desastre tucano no poder.
Lula foi reeleito.
Em 2010, o país contabilizava os ganhos do enfrentamento contracíclico oposto ao colapso da ordem neoliberal.
Dilma venceu.
Hoje, a disposição das peças do xadrez é mais complexa.
O mantra do ‘Brasil que não dá certo’, mesmo sendo essencialmente uma conveniência ideológica, pode interferir objetivamente no cenário econômico e político.
O cerco a Lula, na medida em que possa enfraquecer o fiador de última instância de Dilma, converge no mesmo sentido.
Por isso a dimensão midiática da luta eleitoral hoje é mais decisiva do que o foi em 2002, 2006 e 2010.
Desengavetar o marco regulatório da mídia é imperativo.
Mas talvez não seja mais suficiente. O processo, previsivelmente longo, não responde à urgência da hora.
Como diz o governador Tarso Genro, em sintomática entrevista concedida a Marco Aurélio Weissheimer, o Brasil vive sob o bloqueio da informação.
A mídia interdita o debate e a solução dos problemas nacionais.
‘Temos, frequentemente, que recorrer à mídia alternativa para romper o cerco’, resumiu o líder gaúcho.
Recorrer aos veículos alternativos e aos canais públicos talvez não possa mais ser encarado como a alternativa do desespero.
Chegou a hora de cogitá-la como a resposta da sensatez.
Os vendedores de vento - por Delfim Netto (CartaCapital)
Não há nenhuma razão para imaginar que a elevação do juro real, hoje, vá produzir alguma modificação importante na taxa de inflação ou na sua expectativa. O que existe é um estado de excitação provocado pelos “vendedores de vento”, intermediários da pura especulação financeira, ora espremidos pela baixa do juro e desesperadamente necessitados de uma alta da Selic.
Não são agentes de financiamento da produção, pois vivem de comprar e vender papéis da riqueza imaginária representada pelos famosos derivativos cáusticos, em transações cada vez mais complicadas, com a baixa dos juros.
Alguns desses “investidores financeiros” estão à beira do pânico. Eles precisam “vender” para a sociedade a ideia de que somente a elevação dos juros poderá evitar o crescimento da inflação. Pretendem, na realidade, receber antecipadamente as comissões relativas às aplicações dos incautos que pensam estar construindo uma poupança para reforçar a aposentadoria, mas em lugar disso estão empobrecendo.
Ninguém sabe se agora é o momento apropriado para mexer nos juros nem quando será. A ata da mais recente reunião do Copom fala de incertezas “remanescentes” e recomenda explicitamente a administração “com cautela” da política monetária. Acredito que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, tenha razões muito seguras para também pedir cautela no trato da questão dos juros. Na verdade, usa-se mais uma vez o axioma do também famoso economista Brainard, que diz o seguinte: “Quando você não sabe muito bem o que está fazendo, por favor, faça devagar!”
O grau de incertezas está refletido no parágrafo 28 da referida ata: “Embora a dinâmica inflacionária possa não representar um fenômeno temporário, mas uma eventual acomodação da inflação em patamar mais elevado, o Comitê pondera que incertezas remanescentes (de origem externa e interna) cercam o cenário prospectivo e recomendam que a política monetária deva ser administrada com cautela”.
O Banco Central tem razão ao recomendar cautela e notar a existência de muita incerteza. Há mais incertezas ainda capazes, se verificadas, de levar a uma redução da taxa de inflação e não a pressões de alta. É uma constatação evidente de que o aumento da safra agrícola, hoje em fase de colheita, terá consequências importantes no combate à inflação. No momento sofremos ainda os efeitos do choque de oferta produzido pela queda da produção agrícola no ano passado, a ser corrigida provavelmente com a maior oferta da safra 2012-2013.
Acresça-se a esse cenário o fato de os preços de nossas importações virem a pressionar menos os preços internos, não apenas por darem sinais de ter entrado em um período mais calmo, mas também porque a depreciação do real será menor. Os preços externos estão relativamente estáveis, em alguns casos até declinantes. A taxa de câmbio nominal não subiu como no ano passado e provavelmente ficará estável durante 2013. São fatores a favor da redução das tensões inflacionárias. Houve ainda a desoneração na tributação de importantes setores da produção e tudo isso embute a possibilidade de uma redução do ritmo da inflação.
Por outro lado, tem servido de estímulo às pressões altistas a frase do Copom, “eventualmente a taxa de inflação pode ter mudado de patamar”. Eventualmente, se mudou o patamar, o Banco Central observará o cenário de abril e, depois em maio, caso seja verdade, o Comitê, mais uma vez eventualmente poderá ter de corrigir os juros. Se não acontecer, não será preciso mexer, mesmo porque é provável a taxa de inflação se reduzir um pouco no segundo semestre em relação ao primeiro.
O grande drama disso é aceitar o cabo de guerra com os vendedores de vento. Caso ceda e comece a corrigir os juros já, quando se verificarem os fatos acima mencionados, todos sem relação com a alta dos juros, as pessoas dirão: “Está vendo, foi porque subiu o juro que a inflação baixou”. Será uma mistificação a mais nesse processo.
Por isso, Alexandre Tombini tem toda razão ao dizer que hoje, fundamentalmente, nós precisamos de bastante cautela. É necessário observar com tranquilidade os fatos, seja qual for a situação neste semestre. E acompanhar objetivamente o cenário até verificarmos se se trata de um fenômeno passageiro a ser superado no segundo semestre ou se houve uma mudança no comportamento da inflação, que exige tratamento completamente diferente.
Não são agentes de financiamento da produção, pois vivem de comprar e vender papéis da riqueza imaginária representada pelos famosos derivativos cáusticos, em transações cada vez mais complicadas, com a baixa dos juros.
Alguns desses “investidores financeiros” estão à beira do pânico. Eles precisam “vender” para a sociedade a ideia de que somente a elevação dos juros poderá evitar o crescimento da inflação. Pretendem, na realidade, receber antecipadamente as comissões relativas às aplicações dos incautos que pensam estar construindo uma poupança para reforçar a aposentadoria, mas em lugar disso estão empobrecendo.
Ninguém sabe se agora é o momento apropriado para mexer nos juros nem quando será. A ata da mais recente reunião do Copom fala de incertezas “remanescentes” e recomenda explicitamente a administração “com cautela” da política monetária. Acredito que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, tenha razões muito seguras para também pedir cautela no trato da questão dos juros. Na verdade, usa-se mais uma vez o axioma do também famoso economista Brainard, que diz o seguinte: “Quando você não sabe muito bem o que está fazendo, por favor, faça devagar!”
O grau de incertezas está refletido no parágrafo 28 da referida ata: “Embora a dinâmica inflacionária possa não representar um fenômeno temporário, mas uma eventual acomodação da inflação em patamar mais elevado, o Comitê pondera que incertezas remanescentes (de origem externa e interna) cercam o cenário prospectivo e recomendam que a política monetária deva ser administrada com cautela”.
O Banco Central tem razão ao recomendar cautela e notar a existência de muita incerteza. Há mais incertezas ainda capazes, se verificadas, de levar a uma redução da taxa de inflação e não a pressões de alta. É uma constatação evidente de que o aumento da safra agrícola, hoje em fase de colheita, terá consequências importantes no combate à inflação. No momento sofremos ainda os efeitos do choque de oferta produzido pela queda da produção agrícola no ano passado, a ser corrigida provavelmente com a maior oferta da safra 2012-2013.
Acresça-se a esse cenário o fato de os preços de nossas importações virem a pressionar menos os preços internos, não apenas por darem sinais de ter entrado em um período mais calmo, mas também porque a depreciação do real será menor. Os preços externos estão relativamente estáveis, em alguns casos até declinantes. A taxa de câmbio nominal não subiu como no ano passado e provavelmente ficará estável durante 2013. São fatores a favor da redução das tensões inflacionárias. Houve ainda a desoneração na tributação de importantes setores da produção e tudo isso embute a possibilidade de uma redução do ritmo da inflação.
Por outro lado, tem servido de estímulo às pressões altistas a frase do Copom, “eventualmente a taxa de inflação pode ter mudado de patamar”. Eventualmente, se mudou o patamar, o Banco Central observará o cenário de abril e, depois em maio, caso seja verdade, o Comitê, mais uma vez eventualmente poderá ter de corrigir os juros. Se não acontecer, não será preciso mexer, mesmo porque é provável a taxa de inflação se reduzir um pouco no segundo semestre em relação ao primeiro.
O grande drama disso é aceitar o cabo de guerra com os vendedores de vento. Caso ceda e comece a corrigir os juros já, quando se verificarem os fatos acima mencionados, todos sem relação com a alta dos juros, as pessoas dirão: “Está vendo, foi porque subiu o juro que a inflação baixou”. Será uma mistificação a mais nesse processo.
Por isso, Alexandre Tombini tem toda razão ao dizer que hoje, fundamentalmente, nós precisamos de bastante cautela. É necessário observar com tranquilidade os fatos, seja qual for a situação neste semestre. E acompanhar objetivamente o cenário até verificarmos se se trata de um fenômeno passageiro a ser superado no segundo semestre ou se houve uma mudança no comportamento da inflação, que exige tratamento completamente diferente.
sábado, 13 de abril de 2013
“O leitor que me fez mudar de ideia” - por Luiz Carlos Azenha (Vi o mundo - CartaCapital)
Depois de ter anunciado o fim do blog Viomundo, na sexta-feira 29, o jornalista Luiz Carlos Azenha publicou uma nota nesta segunda-feira 1º demonstrando a intenção de iniciar novos projetos jornalísticos. A decisão de deixar de editar o blog aconteceu após uma série de processos movidos contra ele em razão de críticas direcionadas à Rede Globo e ao diretor de Jornalismo da emissora, Ali Kamel. Em nota, Azenha disse que pretende contar com a colaboração de diversos profissionais da mídia alternativa neste projeto.
Segundo ele, o comentário de um leitor no Facebook o fez repensar a importância do trabalho desenvolvido no blog. “Achei muito bacana ver que um trabalho coletivo como o nosso, organizado por poucos mas que afeta muitos, ainda que precário e improvisado, seja capaz de tocar desta forma uma pessoa”, escreveu ele. Disse que, a partir disso, junto de Conceição Lemes e Leandro Guedes, pensou em refundar o site. “Acreditamos ter chegado a uma proposta que permitirá ao Viomundo não morrer, mas renascer das cinzas.”, encerrou Azenha.
Leia abaixo a nota originalmente publicada no blog Viomundo, por Luiz Carlos Azenha:
“A ideia de puxar o plug e simplesmente deslogar o Viomundo, depois de mais de 10 anos de existência, foi pessoal, familiar e amadurecida ao longo do tempo. Confesso: me emocionei com a tremenda onda de solidariedade de todos vocês nas redes sociais, que surpreendeu mesmo os meus melhores amigos. Minha mãe, de 88 anos de idade, recém-recuperada de uma operação de cataratas e, portanto, testando a nova
capacidade visual no computador, riu muito de uma foto inventada pelo Gerson Carneiro, ainda que não tenha entendido muito bem o motivo de todo aquele fuzuê: estava muito mais interessada no programa da Fátima.
Em minha participação no I Encontro Nacional de Blogueiros, fiz duas observações em meu discurso: revelei minha antipatia à ideia de depender de governos, que mudam de opinião e de prioridades ao longo do tempo e que, frequentemente, acreditam que o dinheiro do Estado, que deveria ser investido em políticas públicas de longo prazo — por exemplo, na promoção da diversidade cultural e pluralidade de ideias — lhe pertence, quando este dinheiro é, evidentemente, público. Propus, na ocasião, uma cooperativa de blogueiros que vendesse clics coletivamente no mercado.
Meu segundo ponto: a crítica da mídia estava desgastada, como se fosse um pensamento único de esquerda, e era preciso gerar pauta e conteúdo próprios.
Explico: o grande poder da mídia corporativa no Brasil é o de definir a agenda do debate pol
ítico. O tal consórcio midiático é formador de consensos: haverá um apagão que provará a incompetência geral do governo trabalhista, as filas de navios significam que é preciso privatizar os portos, a Petrobras é um fracasso e precisa ser “reestatizada” (isso do povo da Petrobrax, dos que faliram a indústria naval e que defendem a terceirização) e o mensalão foi o maior escândalo da História da República que merece um replay de 18 minutos no Jornal Nacional às vésperas da eleição municipal de São Paulo.
Embora não sejam mais completamente reféns da pauta da direita, os meios progressistas ainda subsistem dentro de um espaço de debate cujos marcadores são definidos pela grande mídia. Se o telejornal de maior audiência do Brasil tivesse dedicado uma boa parte de seus recursos e competência editorial aos incêndios nas favelas paulistanas, por exemplo, durante o governo do ex-prefeito Geraldo Kassab, é provável que um grupo muito maior de brasileiros se interessasse pelo assunto, cobrasse explicações e, lá no fi
m, seria levado pelo menos a especular se alguns episódios foram intencionais, obedecendo à politica de expulsar os pobres que tão bem serve à especulação imobiliária.
Nada disso aconteceu, obviamente e nenhum meio de esquerda que conheço detém os meios financeiros para bancar uma investigação de longo prazo sobre o assunto.
Portanto, voltamos à questão financeira e, apesar das generosas ofertas de ajuda que recebemos nas últimas horas, é óbvio que elas não resolvem os problemas de fundo, que são os que nos interessam. A ação que Ali Kamel venceu, apenas na primeira instância, nunca foi a questão central, mas sim a incapacidade de enfrentar a ofensiva da direita sem as mais simples ferramentas para fazê-lo.
Como tocar um blog que não aceita patrocínios de governos, empresas públicas ou estatais — uma decisão tomada porque esperamos que Globo, Veja, Folha e Estadão nos sigam — e ainda assim tenha capacidade de debater políticas públicas de forma relevante, sem apenas reproduzir opinionismo político? Acredit
amos que o Estado deva adotar políticas que incentivem a diversidade e a pluralidade, conforme previsto na Constituição. Que combata a propriedade cruzada. Acreditamos que o Parlamento deve cuidar do Direito de Resposta, uma forma de evitar a judicialização que leva desiguais para se enfrentarem num campo em que prevalece o poder econômico — dos advogados e lobistas.
Isso se agrava pela nossa leitura da conjuntura internacional, que continua muito negativa: depois dos baques de Wall Street e do euro, o neoliberalismo se reorganiza num poderoso tripé: na indústria financeira, que pendurou e continua pendurando a conta nas costas dos direitos sociais, na crescente influência do dinheiro no processo político — basta ver a decisão da Suprema Corte Americana que permite às corporações doarem a campanhas como se fossem ‘indivíduos’, de forma ilimitada — e, acima de tudo, em uma mídia oligopolizada, de discurso quase unificado, que acima de tudo defende seus interesses econômicos associados ao neoliberalismo. Quand
o foi o último trabalho de fôlego da imprensa paulistana sobre o adensamento da cidade, se saem todos aqueles anúncios da Abyara nas edições de domingo?
Com as grandes corporações de mídia, vivemos uma espécie de Gulag ao contrário: nosso corpo está livre, mas nosso pensamento frequentemente é prisioneiro de uma pauta que não nos interessa e, mais que isso, desconhece o interesse público, precariza as relações de trabalho e concentra ainda mais o capital na mão de poucos.
A contra-ofensiva neoliberal está em andamento, acreditem: pelo urânio do Mali, pelo petróleo da Líbia, pelas reservas do Orinoco na Venezuela, pelo gás boliviano, pelo pré-sal brasileiro. O neo-imperialismo não obedece apenas às regras clássicas, de conquista militar. Associado a interesses nacionais, ele faz lobby no Congresso, compra bancadas e trabalha silenciosamente nos bastidores. No Brasil, a mídia corporativa, concentrada em níveis inéditos, é uma espécie de aríete, capaz de arrombar a porta e implantar ministros-lobistas num gov
erno do Partido dos Trabalhadores!
Sempre perspicaz, o senador Roberto Requião revelou o que está por trás da “falência” da Petrobras, por exemplo.
Estamos entregues às grandes corporações, que implantam vastas extensões de eucalipto, criam empregos de alta qualidade em seus países de origem, agregam valor à terra e ao sol brasileiros, exportam água embutida em seus produtos e nos deixam com os danos ambientais. Vale o mesmo para o agronegócio.
Estamos entregues em Carajás, com o fenomenal trem que arranca o minério num ritmo que não obedece a prioridades brasileiras, mas às necessidades de lucro da associação entre o grande capital internacional e o trabalho escravo chinês, que produz as bugigangas posteriormente exportadas para os Estados Unidos, via Wal Mart, para entre outros motivos manter baixa a inflação e dar à classe média local a sensação de que ela consome, logo existe!
Como se diz no Amapá, foi o manganês da Serra do Navio que financiou o Plano Marshall!
Estamos entregues na transformação dos
rios amazônicos em fontes de energia para as grandes mineradoras; Tucuruí nasceu do interesse do Japão de se livrar de suas indústrias eletrointensivas e poluentes. O Brasil fica com o trabalho sujo, enquanto eles desenvolvem alta tecnologia e os empregos do futuro em solo japonês.
Nada disso é discutido com profundidade em nossa grande mídia.
Nosso único recurso — o daqueles que pretendem discutir questões essenciais ao futuro do Brasil sem o cabresto da mídia — é a solidariedade humana, que foi o que vocês demonstraram com profundidade nas últimas horas. Recentemente, li na revista Economist — de todos os lugares! — uma pesquisa sobre a necessidade que as pessoas têm de de sentirem úteis ao mundo, de deixarem sua contribuição, de acreditarem que fazem a diferença. Obviamente o viés da revista servia às grandes empresas, já que as estimulava a incentivar os empregados a se engajarem em ações filantrópicas. O altruísmo de funcionários utilizado para valorizar a marca!
Mas a solidariedade genuína, idealista e altruísta de todos vocês finalmente me convenceu. A mensagem decisiva veio do João Carlos Cassiano Ribeiro, que não conheço pessoalmente, via Facebook. Diz:
Boa noite!!!!
Não sei se o Azenha vai ler isto, mas gostaria que servisse de incentivo.
A um bom tempo me acostumei a ler blogs e abandonar jornais escritos.
Quando aconteceu o primeiro blog que conheci foi o Viomundo, desde então aprendi a conhecer o mundo pelo seu site.
Gosto dos colaboradores e fotos das reportagens históricas feitas pelo jornalista.
Hoje acordei incomodado com o papel que a tv e o CQC exercem na nossa vida. Passei o dia incomodado com o baixo nível intelectual da tv e o comportamento fascista que noto nela.
Até imaginei que se fosse eu no lugar do Genoino ou do Clodovil durante a agressão a que Pânico e CQC os submeteram, acho que não suportaria.
Ser humilhado em frente a tv toda semana, não sei se aguentaria.
Fiquei feliz ao ver seu post sobre seu pai, imaginei que os fascistas passarão mas os bons permanecem sempre. Foi um sopro de alegria na minha tristeza.
Como já havia acontecido em outras oportunidades com o Viomundo, resgatei um pouco da dignidade e do respeito ao ser humano, voltei a acreditar na capacidade criativa e na solidariedade humana.
Respeito sua decisão e compreendo sua necessidade, mas me sinto um pouco órfão com o fim do Viomundo e triste em ver o jornalista abandonando uma das frentes de trabalho por força da opressão.
Choro ao escrever essas palavras pois sei que perdemos um espaço vital para nossa luta. Não sou colaborador e nem costumo interagir com o blog, sou um leitor anônimo e aprendi a observar o seu blog como um filho observa o pai e aprende e se orgulha de estar por perto.
Nossa luta não é partidária ou governamental é pelos mais fracos e pela dignidade humana.
Sempre o terei como amigo sem nem o conhecer, pois me orgulho dos meus amigos e me orgulho muito de você!
Obrigado por ter tido no Viomundo os melhores exemplos de humanidade e um espaço em que sempre me senti à vontade.
Achei muito bacana ver que um trabalho coletivo como o nosso, organizado por poucos mas que afeta muitos, ainda que precário e improvisado, seja capaz de tocar desta forma uma pessoa.
Assim sendo, depois de longas horas de conversa com a Conceição Lemes e o Leandro Guedes, pensamos num jeito de refundar o site (com o nome provisório de, rsrsrs, Democratas).
Uma consulta ao Comitê Central, sempre munidos dos tomos leninistas, nos levou a decidir:
1. Conceição Lemes (conceicaolemes@uol.com.br) se torna a editora-chefe do site, encarregada também da relação com nossos 40 mil seguidores no twitter/facebook;
2. Leandro Guedes (leandro@cafeazul.com.br) adotará um mix de todas as sugestões que nos foram feitas por vocês sobre crowdfunding, além de perseguir eventuais patrocinadores que vocês nos sugerirem; o dinheiro arrecadado com o crowdfunding será todo reinvestido no site e não será utilizado para bancar advogados, dos quais já contamos com os competentíssimos Cesar Kloury, Idibal Pivetta, Airton Soares e um importante escritório de B
rasília que ofereceu ajuda solidária.
3. Eu me afasto do compromisso diário de passar de 5 a 10 horas diante de um computador aprovando comentários, traduzindo e publicando textos. Torno-me um repórter voluntário e não remunerado, além de escrever os tradicionais comentários sobre mídia e política.
4. Passo a aceitar, sempre que compatível com minha agenda profissional, todos aqueles pedidos de entrevistas de estudantes, palestras em universidades e conferências, se possível associadas a oficinas sobre as redes sociais oferecidas pela Conceição Oliveira (blogmariafro@gmail.com), que entende tudo do ramo.
5. Acima de tudo, passo a me dedicar à área de minha especialidade, que é a produção de vídeos, mini-docs e docs.
Aqui, uma explicação se faz necessária. No modelo acertado com o Leandro Guedes, da Café Azul, que há meses já vinha estudando o assunto, os leitores poderão tanto indicar as pautas quanto aprovar nossas propostas.
Exemplo: o Gilberto Nascimento quer escrever uma investigação sobre o poder da
Opus Dei no Brasil. Calcula o tempo que vai levar e a remuneração adequada, por valores de mercado, à tarefa. Colocamos uma espécie de contador para acompanhar o avanço da meta. As pautas financeiramente aprovadas serão feitas.
Outros exemplos hipotéticos: a Conceição Lemes quer ir a Minas Gerais investigar o choque de gestão dos governos Aécio/Anastasia.
Há mais de um interessado em fazer um mini-doc sobre o impacto da Globo nas eleições de 2006 e 2010.
Serão trabalhos jornalísticos, não de militância, sobre assuntos que a mídia corporativa brasileira simplesmente desconhece, por não se adequarem àquela pauta única a que me referi acima.
Eu, por exemplo, gostaria de investigar pessoalmente o massacre de Felisburgo, na Bahia, até hoje impune.
O Lino Bocchini poderia ser convidado para fazer a Coleção Folha: Como Rose Nogueira ‘abandonou’ o emprego durante a ditadura.
A Beatriz Kusnir, se aceitasse, poderia fazer uma versão em vídeo do livro Cães de Guarda, aquele que narra o colaboracionismo da mídia br
asileira com a ditadura militar.
O Amaury Ribeiro Jr. poderia ficar encarregado, à lá Andrew Jennings, de perseguir e exigir explicações dos privatas que andam por aí. Nosso Michael Moore.
Minha ênfase nos vídeos se deve ao fato de que, eventualmente, eles vão dominar a internet, à medida em que as conexões se acelerarem.
Finalmente, queremos aproveitar o imenso potencial de jornalistas — e quantos!!! — recentemente demitidos, que deixaram suas empresas com boas histórias para contar e projetos nunca realizados.
Quem sabe vocês nos ajudam a financiar o sonho destes colegas.
Portanto, depois de muito matutar, acreditamos ter chegado a uma proposta que permitirá ao Viomundo não morrer, mas renascer das cinzas.
Aguardem, que as mudanças serão implantadas lentamente, inclusive em todo o visual do site.”
Segundo ele, o comentário de um leitor no Facebook o fez repensar a importância do trabalho desenvolvido no blog. “Achei muito bacana ver que um trabalho coletivo como o nosso, organizado por poucos mas que afeta muitos, ainda que precário e improvisado, seja capaz de tocar desta forma uma pessoa”, escreveu ele. Disse que, a partir disso, junto de Conceição Lemes e Leandro Guedes, pensou em refundar o site. “Acreditamos ter chegado a uma proposta que permitirá ao Viomundo não morrer, mas renascer das cinzas.”, encerrou Azenha.
Leia abaixo a nota originalmente publicada no blog Viomundo, por Luiz Carlos Azenha:
“A ideia de puxar o plug e simplesmente deslogar o Viomundo, depois de mais de 10 anos de existência, foi pessoal, familiar e amadurecida ao longo do tempo. Confesso: me emocionei com a tremenda onda de solidariedade de todos vocês nas redes sociais, que surpreendeu mesmo os meus melhores amigos. Minha mãe, de 88 anos de idade, recém-recuperada de uma operação de cataratas e, portanto, testando a nova
capacidade visual no computador, riu muito de uma foto inventada pelo Gerson Carneiro, ainda que não tenha entendido muito bem o motivo de todo aquele fuzuê: estava muito mais interessada no programa da Fátima.
Em minha participação no I Encontro Nacional de Blogueiros, fiz duas observações em meu discurso: revelei minha antipatia à ideia de depender de governos, que mudam de opinião e de prioridades ao longo do tempo e que, frequentemente, acreditam que o dinheiro do Estado, que deveria ser investido em políticas públicas de longo prazo — por exemplo, na promoção da diversidade cultural e pluralidade de ideias — lhe pertence, quando este dinheiro é, evidentemente, público. Propus, na ocasião, uma cooperativa de blogueiros que vendesse clics coletivamente no mercado.
Meu segundo ponto: a crítica da mídia estava desgastada, como se fosse um pensamento único de esquerda, e era preciso gerar pauta e conteúdo próprios.
Explico: o grande poder da mídia corporativa no Brasil é o de definir a agenda do debate pol
ítico. O tal consórcio midiático é formador de consensos: haverá um apagão que provará a incompetência geral do governo trabalhista, as filas de navios significam que é preciso privatizar os portos, a Petrobras é um fracasso e precisa ser “reestatizada” (isso do povo da Petrobrax, dos que faliram a indústria naval e que defendem a terceirização) e o mensalão foi o maior escândalo da História da República que merece um replay de 18 minutos no Jornal Nacional às vésperas da eleição municipal de São Paulo.
Embora não sejam mais completamente reféns da pauta da direita, os meios progressistas ainda subsistem dentro de um espaço de debate cujos marcadores são definidos pela grande mídia. Se o telejornal de maior audiência do Brasil tivesse dedicado uma boa parte de seus recursos e competência editorial aos incêndios nas favelas paulistanas, por exemplo, durante o governo do ex-prefeito Geraldo Kassab, é provável que um grupo muito maior de brasileiros se interessasse pelo assunto, cobrasse explicações e, lá no fi
m, seria levado pelo menos a especular se alguns episódios foram intencionais, obedecendo à politica de expulsar os pobres que tão bem serve à especulação imobiliária.
Nada disso aconteceu, obviamente e nenhum meio de esquerda que conheço detém os meios financeiros para bancar uma investigação de longo prazo sobre o assunto.
Portanto, voltamos à questão financeira e, apesar das generosas ofertas de ajuda que recebemos nas últimas horas, é óbvio que elas não resolvem os problemas de fundo, que são os que nos interessam. A ação que Ali Kamel venceu, apenas na primeira instância, nunca foi a questão central, mas sim a incapacidade de enfrentar a ofensiva da direita sem as mais simples ferramentas para fazê-lo.
Como tocar um blog que não aceita patrocínios de governos, empresas públicas ou estatais — uma decisão tomada porque esperamos que Globo, Veja, Folha e Estadão nos sigam — e ainda assim tenha capacidade de debater políticas públicas de forma relevante, sem apenas reproduzir opinionismo político? Acredit
amos que o Estado deva adotar políticas que incentivem a diversidade e a pluralidade, conforme previsto na Constituição. Que combata a propriedade cruzada. Acreditamos que o Parlamento deve cuidar do Direito de Resposta, uma forma de evitar a judicialização que leva desiguais para se enfrentarem num campo em que prevalece o poder econômico — dos advogados e lobistas.
Isso se agrava pela nossa leitura da conjuntura internacional, que continua muito negativa: depois dos baques de Wall Street e do euro, o neoliberalismo se reorganiza num poderoso tripé: na indústria financeira, que pendurou e continua pendurando a conta nas costas dos direitos sociais, na crescente influência do dinheiro no processo político — basta ver a decisão da Suprema Corte Americana que permite às corporações doarem a campanhas como se fossem ‘indivíduos’, de forma ilimitada — e, acima de tudo, em uma mídia oligopolizada, de discurso quase unificado, que acima de tudo defende seus interesses econômicos associados ao neoliberalismo. Quand
o foi o último trabalho de fôlego da imprensa paulistana sobre o adensamento da cidade, se saem todos aqueles anúncios da Abyara nas edições de domingo?
Com as grandes corporações de mídia, vivemos uma espécie de Gulag ao contrário: nosso corpo está livre, mas nosso pensamento frequentemente é prisioneiro de uma pauta que não nos interessa e, mais que isso, desconhece o interesse público, precariza as relações de trabalho e concentra ainda mais o capital na mão de poucos.
A contra-ofensiva neoliberal está em andamento, acreditem: pelo urânio do Mali, pelo petróleo da Líbia, pelas reservas do Orinoco na Venezuela, pelo gás boliviano, pelo pré-sal brasileiro. O neo-imperialismo não obedece apenas às regras clássicas, de conquista militar. Associado a interesses nacionais, ele faz lobby no Congresso, compra bancadas e trabalha silenciosamente nos bastidores. No Brasil, a mídia corporativa, concentrada em níveis inéditos, é uma espécie de aríete, capaz de arrombar a porta e implantar ministros-lobistas num gov
erno do Partido dos Trabalhadores!
Sempre perspicaz, o senador Roberto Requião revelou o que está por trás da “falência” da Petrobras, por exemplo.
Estamos entregues às grandes corporações, que implantam vastas extensões de eucalipto, criam empregos de alta qualidade em seus países de origem, agregam valor à terra e ao sol brasileiros, exportam água embutida em seus produtos e nos deixam com os danos ambientais. Vale o mesmo para o agronegócio.
Estamos entregues em Carajás, com o fenomenal trem que arranca o minério num ritmo que não obedece a prioridades brasileiras, mas às necessidades de lucro da associação entre o grande capital internacional e o trabalho escravo chinês, que produz as bugigangas posteriormente exportadas para os Estados Unidos, via Wal Mart, para entre outros motivos manter baixa a inflação e dar à classe média local a sensação de que ela consome, logo existe!
Como se diz no Amapá, foi o manganês da Serra do Navio que financiou o Plano Marshall!
Estamos entregues na transformação dos
rios amazônicos em fontes de energia para as grandes mineradoras; Tucuruí nasceu do interesse do Japão de se livrar de suas indústrias eletrointensivas e poluentes. O Brasil fica com o trabalho sujo, enquanto eles desenvolvem alta tecnologia e os empregos do futuro em solo japonês.
Nada disso é discutido com profundidade em nossa grande mídia.
Nosso único recurso — o daqueles que pretendem discutir questões essenciais ao futuro do Brasil sem o cabresto da mídia — é a solidariedade humana, que foi o que vocês demonstraram com profundidade nas últimas horas. Recentemente, li na revista Economist — de todos os lugares! — uma pesquisa sobre a necessidade que as pessoas têm de de sentirem úteis ao mundo, de deixarem sua contribuição, de acreditarem que fazem a diferença. Obviamente o viés da revista servia às grandes empresas, já que as estimulava a incentivar os empregados a se engajarem em ações filantrópicas. O altruísmo de funcionários utilizado para valorizar a marca!
Mas a solidariedade genuína, idealista e altruísta de todos vocês finalmente me convenceu. A mensagem decisiva veio do João Carlos Cassiano Ribeiro, que não conheço pessoalmente, via Facebook. Diz:
Boa noite!!!!
Não sei se o Azenha vai ler isto, mas gostaria que servisse de incentivo.
A um bom tempo me acostumei a ler blogs e abandonar jornais escritos.
Quando aconteceu o primeiro blog que conheci foi o Viomundo, desde então aprendi a conhecer o mundo pelo seu site.
Gosto dos colaboradores e fotos das reportagens históricas feitas pelo jornalista.
Hoje acordei incomodado com o papel que a tv e o CQC exercem na nossa vida. Passei o dia incomodado com o baixo nível intelectual da tv e o comportamento fascista que noto nela.
Até imaginei que se fosse eu no lugar do Genoino ou do Clodovil durante a agressão a que Pânico e CQC os submeteram, acho que não suportaria.
Ser humilhado em frente a tv toda semana, não sei se aguentaria.
Fiquei feliz ao ver seu post sobre seu pai, imaginei que os fascistas passarão mas os bons permanecem sempre. Foi um sopro de alegria na minha tristeza.
Como já havia acontecido em outras oportunidades com o Viomundo, resgatei um pouco da dignidade e do respeito ao ser humano, voltei a acreditar na capacidade criativa e na solidariedade humana.
Respeito sua decisão e compreendo sua necessidade, mas me sinto um pouco órfão com o fim do Viomundo e triste em ver o jornalista abandonando uma das frentes de trabalho por força da opressão.
Choro ao escrever essas palavras pois sei que perdemos um espaço vital para nossa luta. Não sou colaborador e nem costumo interagir com o blog, sou um leitor anônimo e aprendi a observar o seu blog como um filho observa o pai e aprende e se orgulha de estar por perto.
Nossa luta não é partidária ou governamental é pelos mais fracos e pela dignidade humana.
Sempre o terei como amigo sem nem o conhecer, pois me orgulho dos meus amigos e me orgulho muito de você!
Obrigado por ter tido no Viomundo os melhores exemplos de humanidade e um espaço em que sempre me senti à vontade.
Achei muito bacana ver que um trabalho coletivo como o nosso, organizado por poucos mas que afeta muitos, ainda que precário e improvisado, seja capaz de tocar desta forma uma pessoa.
Assim sendo, depois de longas horas de conversa com a Conceição Lemes e o Leandro Guedes, pensamos num jeito de refundar o site (com o nome provisório de, rsrsrs, Democratas).
Uma consulta ao Comitê Central, sempre munidos dos tomos leninistas, nos levou a decidir:
1. Conceição Lemes (conceicaolemes@uol.com.br) se torna a editora-chefe do site, encarregada também da relação com nossos 40 mil seguidores no twitter/facebook;
2. Leandro Guedes (leandro@cafeazul.com.br) adotará um mix de todas as sugestões que nos foram feitas por vocês sobre crowdfunding, além de perseguir eventuais patrocinadores que vocês nos sugerirem; o dinheiro arrecadado com o crowdfunding será todo reinvestido no site e não será utilizado para bancar advogados, dos quais já contamos com os competentíssimos Cesar Kloury, Idibal Pivetta, Airton Soares e um importante escritório de B
rasília que ofereceu ajuda solidária.
3. Eu me afasto do compromisso diário de passar de 5 a 10 horas diante de um computador aprovando comentários, traduzindo e publicando textos. Torno-me um repórter voluntário e não remunerado, além de escrever os tradicionais comentários sobre mídia e política.
4. Passo a aceitar, sempre que compatível com minha agenda profissional, todos aqueles pedidos de entrevistas de estudantes, palestras em universidades e conferências, se possível associadas a oficinas sobre as redes sociais oferecidas pela Conceição Oliveira (blogmariafro@gmail.com), que entende tudo do ramo.
5. Acima de tudo, passo a me dedicar à área de minha especialidade, que é a produção de vídeos, mini-docs e docs.
Aqui, uma explicação se faz necessária. No modelo acertado com o Leandro Guedes, da Café Azul, que há meses já vinha estudando o assunto, os leitores poderão tanto indicar as pautas quanto aprovar nossas propostas.
Exemplo: o Gilberto Nascimento quer escrever uma investigação sobre o poder da
Opus Dei no Brasil. Calcula o tempo que vai levar e a remuneração adequada, por valores de mercado, à tarefa. Colocamos uma espécie de contador para acompanhar o avanço da meta. As pautas financeiramente aprovadas serão feitas.
Outros exemplos hipotéticos: a Conceição Lemes quer ir a Minas Gerais investigar o choque de gestão dos governos Aécio/Anastasia.
Há mais de um interessado em fazer um mini-doc sobre o impacto da Globo nas eleições de 2006 e 2010.
Serão trabalhos jornalísticos, não de militância, sobre assuntos que a mídia corporativa brasileira simplesmente desconhece, por não se adequarem àquela pauta única a que me referi acima.
Eu, por exemplo, gostaria de investigar pessoalmente o massacre de Felisburgo, na Bahia, até hoje impune.
O Lino Bocchini poderia ser convidado para fazer a Coleção Folha: Como Rose Nogueira ‘abandonou’ o emprego durante a ditadura.
A Beatriz Kusnir, se aceitasse, poderia fazer uma versão em vídeo do livro Cães de Guarda, aquele que narra o colaboracionismo da mídia br
asileira com a ditadura militar.
O Amaury Ribeiro Jr. poderia ficar encarregado, à lá Andrew Jennings, de perseguir e exigir explicações dos privatas que andam por aí. Nosso Michael Moore.
Minha ênfase nos vídeos se deve ao fato de que, eventualmente, eles vão dominar a internet, à medida em que as conexões se acelerarem.
Finalmente, queremos aproveitar o imenso potencial de jornalistas — e quantos!!! — recentemente demitidos, que deixaram suas empresas com boas histórias para contar e projetos nunca realizados.
Quem sabe vocês nos ajudam a financiar o sonho destes colegas.
Portanto, depois de muito matutar, acreditamos ter chegado a uma proposta que permitirá ao Viomundo não morrer, mas renascer das cinzas.
Aguardem, que as mudanças serão implantadas lentamente, inclusive em todo o visual do site.”
O risco do avanço - por Jânio de Freitas (Folha)
O que pode suceder quando um alvejado por agressões orais do presidente do Supremo reagir à altura?
O risco é grande e, pior ainda, crescente. O que pode suceder quando um alvejado por agressões orais do presidente do Supremo Tribunal Federal usar o direito de reagir à altura, como é provável que acabe acontecendo? Em qualquer caso, estará criado um embaraço extremo. Não se está distante nem da possibilidade de uma crise com ingredientes institucionais, caso o ministro Joaquim Barbosa progrida nas investidas desmoralizantes que atingem o Congresso e os magistrados.
O fundo de moralismo ao gosto da classe média assegura às exorbitâncias conceituais e verbais do ministro a tolerância, nos meios de comunicação, do tipo “ele diz a coisa certa do modo errado” - o que é um modo moralmente errado de tratar a coisa errada. Não é novidade como método, nem como lugar onde é aplicado.
Nem por isso o sentido dos atos é mudado. “Só se dirija a mim se eu pedir!” é uma frase possível nas delegacias de polícia. Dita a um representante eleito da magistratura, no Supremo Tribunal Federal, por seu presidente, é, no mínimo, uma manifestação despótica, sugestiva de sentimento ou pretensão idem. Se, tal como suas similares anteriores, levou apenas a mais uma nota insossa dos alvejados, não faz esperar que seja assim em reedições futuras desses incidentes.
Afinal, quem quer viver em democracia tem o dever de repelir toda manifestação de autoritarismo, arbitrariedade e prepotência. É o único dever que o Estado de Direito cobra e dele não abre mão.
FACILITÁRIO
A Câmara avança no projeto de tornar obrigatória a liberação, pelo governo federal, das verbas correspondentes às chamadas "emendas parlamentares". São as verbas destinadas, no Orçamento da União, às finalidades desejadas por cada deputado e cada senador. Na sua origem, as emendas eram um dispositivo de atendimento a necessidades e reivindicações mais conhecidas pelo parlamentar da região do que pelo governo federal.
Eis no que deram: na megaoperação feita anteontem em 12 Estados, pelo Ministério Público, contra a corrupção, em 79 cidades foram reprimidas fraudes e desvios de verbas provenientes, todas, de emendas parlamentares. Se a investigação continuar, chegará a parentes, sócios e laranjas dos parlamentares. Não é por outro motivo que desejam a obrigatoriedade da liberação de suas emendas pelo Tesouro Nacional.
POR UMA VEZ
Parte das tevês e dos jornalistas esportivos valem-se de uma CBF chegada ao “é dando que se recebe”, como atestam as longevidades de João Havelange e Ricardo Teixeira, incólumes, na presidência da entidade. Mas, se é para substituir o não menos deplorável José Maria Marin, talvez pudessem concordar, desta vez, com alguma dose de decência no comando do decomposto futebol brasileiro.
O risco é grande e, pior ainda, crescente. O que pode suceder quando um alvejado por agressões orais do presidente do Supremo Tribunal Federal usar o direito de reagir à altura, como é provável que acabe acontecendo? Em qualquer caso, estará criado um embaraço extremo. Não se está distante nem da possibilidade de uma crise com ingredientes institucionais, caso o ministro Joaquim Barbosa progrida nas investidas desmoralizantes que atingem o Congresso e os magistrados.
O fundo de moralismo ao gosto da classe média assegura às exorbitâncias conceituais e verbais do ministro a tolerância, nos meios de comunicação, do tipo “ele diz a coisa certa do modo errado” - o que é um modo moralmente errado de tratar a coisa errada. Não é novidade como método, nem como lugar onde é aplicado.
Nem por isso o sentido dos atos é mudado. “Só se dirija a mim se eu pedir!” é uma frase possível nas delegacias de polícia. Dita a um representante eleito da magistratura, no Supremo Tribunal Federal, por seu presidente, é, no mínimo, uma manifestação despótica, sugestiva de sentimento ou pretensão idem. Se, tal como suas similares anteriores, levou apenas a mais uma nota insossa dos alvejados, não faz esperar que seja assim em reedições futuras desses incidentes.
Afinal, quem quer viver em democracia tem o dever de repelir toda manifestação de autoritarismo, arbitrariedade e prepotência. É o único dever que o Estado de Direito cobra e dele não abre mão.
FACILITÁRIO
A Câmara avança no projeto de tornar obrigatória a liberação, pelo governo federal, das verbas correspondentes às chamadas "emendas parlamentares". São as verbas destinadas, no Orçamento da União, às finalidades desejadas por cada deputado e cada senador. Na sua origem, as emendas eram um dispositivo de atendimento a necessidades e reivindicações mais conhecidas pelo parlamentar da região do que pelo governo federal.
Eis no que deram: na megaoperação feita anteontem em 12 Estados, pelo Ministério Público, contra a corrupção, em 79 cidades foram reprimidas fraudes e desvios de verbas provenientes, todas, de emendas parlamentares. Se a investigação continuar, chegará a parentes, sócios e laranjas dos parlamentares. Não é por outro motivo que desejam a obrigatoriedade da liberação de suas emendas pelo Tesouro Nacional.
POR UMA VEZ
Parte das tevês e dos jornalistas esportivos valem-se de uma CBF chegada ao “é dando que se recebe”, como atestam as longevidades de João Havelange e Ricardo Teixeira, incólumes, na presidência da entidade. Mas, se é para substituir o não menos deplorável José Maria Marin, talvez pudessem concordar, desta vez, com alguma dose de decência no comando do decomposto futebol brasileiro.
Choque de oferta - por Delfim Netto (CartaCapital)
Um aumento forte no preço de produtos básicos da alimentação no ano passado (feijão e milho, basicamente) e de hortifrutigranjeiros (em destaque, o tomate, para variar…) neste início de ano chuvoso pressionou a taxa de inflação, pesou no orçamento doméstico e criou algumas dificuldades novas na administração da economia. Marginalmente a novidade estimula a reedição do “cabo de guerra” entre setores do mercado financeiro e a autoridade monetária: mesmo sabendo se tratar de fenômeno temporário, agentes permanentemente com sérias dificuldades em suas mentes voltam a clamar pela elevação das taxas de juro como remédio eficaz para conter os preços dos legumes, frutas e hortaliças, em geral.
Para entender os aumentos recentes, é preciso aceitar o fato de termos sofrido um importante choque de oferta, que começou com a queda da produção agrícola no ano passado. A safra terminada não foi das melhores, não houve a produção esperada de grãos. Em segundo lugar, tivemos pressões externas de aumento de preços. E houve a correção do câmbio, absolutamente necessária para salvar a indústria.
Tivemos uma queda na quantidade dos cereais e nos seus subprodutos, mas a pressão fundamental decorreu das perdas na colheita de verduras e frutas no começo de 2013, em razão de um verão extremamente chuvoso, o que dificultou a safra e, de forma ainda mais dramática, o transporte.
A produção do tomate é um exemplo, com crescimento de 35% do preço e cuja demanda depende da nossa cultura, mais do que dos níveis de renda. Nossas mães e avós aprenderam a cozinhar com o tomate, o que torna difícil tirá-lo do nosso regime. Logo, para conseguir reduzir o consumo, seria preciso fazer os preços subirem enormemente para as pessoas substituírem o molho de tomate em suas receitas. Quando cai a oferta de tomate, só existe uma quantidade fixa para atender a essa demanda obrigatória. Os preços sobem, mas 90 dias depois começa a haver a recuperação da oferta, e o preço volta.
Os mecanismos do mercado tendem a se autocorrigir, em certa medida, mas isso não impede o recomeço do cabo de guerra entre o sistema financeiro e o governo. Este age acreditando que essa pressão enorme (sobre os preços de alimentos) vai se reduzir no segundo semestre, a partir do momento que se recuperarem os preços dos legumes e das verduras. E com a entrada da nova safra de grãos muito melhor do que a anterior.
Como a expectativa é também de uma pequena desvalorização do câmbio, tudo indica que haverá uma redução no crescimento desses preços. É preciso sempre lembrar que inflação não é preço alto: inflação é crescimento de preços.
Há uma boa probabilidade de o governo estar certo, e a inflação arrefecer um pouco. Brasília resiste a aumentar a taxa de juros, por esperar uma pressão menor sobre os preços. Aumentar a taxa de juros agora só provocaria o travamento da produção e o desemprego que alguns economistas pedem alegremente, desprezando os enormes custos sociais decorrentes.
Seria preciso causar uma enorme depressão e desconsiderar a queda de renda necessária para ajustar o preço do tomate ao nível suficiente, capaz de provocar a queda do consumo. Sem contar com o extraordinário feito de mudar a cultura das famílias, os hábitos das donas de casa. Quem tiver autoridade para tanto, habilite-se…
É lamentável que alguns economistas e analistas repuxem o “cabo de guerra”, continuem a pensar na salvação da lavoura de uma taxa de juros “neutra”, elevada à categoria de divindade! Um ente divino (para outros, maligno), capaz de simplesmente, ao manipular a Selic, conduzir a economia ao pleno uso da capacidade produtiva e à taxa de inflação constante, determinada pela autoridade monetária.
Que taxa seria essa? Possivelmente aquela adivinhada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que, em 19 de novembro de 2012, escreveu que “não pode ser observada e não existe melhor método de estimá-la”, mas que ele sem o menor escrúpulo “estima entre 4,7% e 5,3%”! Por isso só as mentes com sérias dificuldades consigo mesmas podem defender ou imaginar que uma elevação da taxa de juros baixará o preço do tomate…
Para entender os aumentos recentes, é preciso aceitar o fato de termos sofrido um importante choque de oferta, que começou com a queda da produção agrícola no ano passado. A safra terminada não foi das melhores, não houve a produção esperada de grãos. Em segundo lugar, tivemos pressões externas de aumento de preços. E houve a correção do câmbio, absolutamente necessária para salvar a indústria.
Tivemos uma queda na quantidade dos cereais e nos seus subprodutos, mas a pressão fundamental decorreu das perdas na colheita de verduras e frutas no começo de 2013, em razão de um verão extremamente chuvoso, o que dificultou a safra e, de forma ainda mais dramática, o transporte.
A produção do tomate é um exemplo, com crescimento de 35% do preço e cuja demanda depende da nossa cultura, mais do que dos níveis de renda. Nossas mães e avós aprenderam a cozinhar com o tomate, o que torna difícil tirá-lo do nosso regime. Logo, para conseguir reduzir o consumo, seria preciso fazer os preços subirem enormemente para as pessoas substituírem o molho de tomate em suas receitas. Quando cai a oferta de tomate, só existe uma quantidade fixa para atender a essa demanda obrigatória. Os preços sobem, mas 90 dias depois começa a haver a recuperação da oferta, e o preço volta.
Os mecanismos do mercado tendem a se autocorrigir, em certa medida, mas isso não impede o recomeço do cabo de guerra entre o sistema financeiro e o governo. Este age acreditando que essa pressão enorme (sobre os preços de alimentos) vai se reduzir no segundo semestre, a partir do momento que se recuperarem os preços dos legumes e das verduras. E com a entrada da nova safra de grãos muito melhor do que a anterior.
Como a expectativa é também de uma pequena desvalorização do câmbio, tudo indica que haverá uma redução no crescimento desses preços. É preciso sempre lembrar que inflação não é preço alto: inflação é crescimento de preços.
Há uma boa probabilidade de o governo estar certo, e a inflação arrefecer um pouco. Brasília resiste a aumentar a taxa de juros, por esperar uma pressão menor sobre os preços. Aumentar a taxa de juros agora só provocaria o travamento da produção e o desemprego que alguns economistas pedem alegremente, desprezando os enormes custos sociais decorrentes.
Seria preciso causar uma enorme depressão e desconsiderar a queda de renda necessária para ajustar o preço do tomate ao nível suficiente, capaz de provocar a queda do consumo. Sem contar com o extraordinário feito de mudar a cultura das famílias, os hábitos das donas de casa. Quem tiver autoridade para tanto, habilite-se…
É lamentável que alguns economistas e analistas repuxem o “cabo de guerra”, continuem a pensar na salvação da lavoura de uma taxa de juros “neutra”, elevada à categoria de divindade! Um ente divino (para outros, maligno), capaz de simplesmente, ao manipular a Selic, conduzir a economia ao pleno uso da capacidade produtiva e à taxa de inflação constante, determinada pela autoridade monetária.
Que taxa seria essa? Possivelmente aquela adivinhada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que, em 19 de novembro de 2012, escreveu que “não pode ser observada e não existe melhor método de estimá-la”, mas que ele sem o menor escrúpulo “estima entre 4,7% e 5,3%”! Por isso só as mentes com sérias dificuldades consigo mesmas podem defender ou imaginar que uma elevação da taxa de juros baixará o preço do tomate…
A conspiração em marcha na grande mídia pela elevação dos juros básicos - por José Carlos de Assis (Blog do Nassif)
A Presidenta tem diante de si um teste sem precedentes. Depois de fazer todas as concessões possíveis ao setor privado no campo das privatizações de concessões de serviços públicos, depois de promover importantes desonerações tributárias e previdenciárias, depois de determinar ao BNDES a redução das taxas de juros para empréstimos de longa maturação, depois de tudo isso enfrenta agora a conspiração de economistas do mercado e de seus vocalizadores na mídia para aumentar os juros.
Raras vezes, em mais de quarenta anos de jornalismo econômico, tenho visto uma orquestração tão descarada em torno de um objetivo tão espúrio. As medidas assinaladas acima de incentivo ou mesmo subsídio ao setor privado, mesmo que controversas, podem ser justificadas como estímulo à produção. Já a pressão para aumentar a taxa de juros básica consiste na busca de um privilégio absurdo para a especulação financeira por parte de oportunistas, parasitas e vigaristas.
Do ponto de vista técnico, é um esbulho da opinião pública pretender que a taxa de inflação, nos níveis atuais, ameace sair do controle. De fato, ela continua dentro das margens da meta do Conselho Monetário. Visar exclusivamente o centro da meta, como têm cobrado os economistas de mercado, equivale a desqualificar a própria metodologia de controle de inflação operada pelo Banco Central. De fato, se não se pode ter inflação perto da margem, por que, afinal, se fixam as margens de tolerância, e não apenas o centro da meta?
Na realidade estamos diante da mitificação de um método operacional e político do Banco Central, introduzido arbitrariamente (sem cobertura de lei) pelo Governo FHC, cujo propósito fundamental tinha sido manter elevadas taxas básicas de juros. O tal modelo de metas não passa de uma fraude política sob uma máscara técnica. Escrevemos sobre isso, Francisco Antonio Doria e eu, num livro de dois anos atrás editado pela Civilização Brasileira, “O Universo Neoliberal em Desencanto”.
Nenhum banco central sério trabalha hoje com modelo de metas. O Fed nos Estados Unidos, o Banco Central do Japão, o conservadoríssimo Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra, nenhum deles, antes ou agora, se preocupa com inflação. Ao contrário, temem a deflação, e por isso fazem políticas monetárias expansionistas. E usam a política monetária para, de uma forma descarada, manipular a taxa de câmbio no sentido de estimular exportações e desestimular importações.
No nosso caso, é patético o que se tem visto na grande imprensa nessa verdadeira empreitada ideológica para subir os juros. Claro, quando o “Estadão” ou “O Globo” juntam seis economistas para palpitarem sobre as necessidades da economia, eles tomam o cuidado de escolher cinco favoráveis a sua tese – subir os juros -, e um contrário. Com isso, esse contrário legitima os outros cinco, e a impressão que fica é que a maioria esmagadora dos economistas está do mesmo lado.
Entretanto, mesmo que a inflação estivesse num nível elevado, e não está, é falsa a relação de causalidade entre taxa de juros e inflação. Já escrevi aqui que o que existe de inflação no Brasil é, principalmente, por pressão de demanda, fruto de uma favorável situação de emprego e de salário, influindo nos serviços pessoais e públicos. Nenhum aumento de juros básicos pode levar à redução dos preços da alimentação ou dos serviços pessoais. Essa relação é pura ficção. Assim, se se quer reduzir a inflação, é necessário buscar outros mecanismos, fora os juros.
Onde o aumento da taxa básica de juros pode ter influência indireta na inflação é através do câmbio. Atraindo capitais especulativos para o Brasil, ela induz a valorização do real, e o real mais forte favorece a redução do preço dos bens importados. Tudo bem, mas é isso que queremos para a economia brasileira? Atrair capitais especulativos, aumentando nosso risco cambial futuro, e concorrendo para destruir o parque produtivo e os empregos internos pela concorrência artificial dos importados? A Presidenta Dilma terá de recorrer a todo o seu arsenal de firmeza moral para resistir aos altistas dos juros e enfrentar o tsunami dos rentistas. É economista, ela própria, e portanto não tem a desculpa do Presidente Lula que de uma certa forma teve que se alienar da política monetária. Que recorra, se necessário, ao conselho de Delfim Netto, que não pode ser acusado de anticapitalista. E diante do coro grego dos economistas de mercado, deve lembrar-se do que disse o genial John Kenneth Galbraith: “Em economia não se de
ve levar em consideração a opinião de quem tem interesse próprio em jogo”.
P.S. Depois dessa barafunda que o Congresso criou equiparando famílias a empresas, só há uma forma de o Governo não perder votos da classe média indignada nas próximas eleições presidenciais: que autorize o desconto no Imposto de Renda dos salários com domésticos, como acontece com empregados de empresas.
José Carlos de Assis é economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, ed. Civilização Brasileira.
Raras vezes, em mais de quarenta anos de jornalismo econômico, tenho visto uma orquestração tão descarada em torno de um objetivo tão espúrio. As medidas assinaladas acima de incentivo ou mesmo subsídio ao setor privado, mesmo que controversas, podem ser justificadas como estímulo à produção. Já a pressão para aumentar a taxa de juros básica consiste na busca de um privilégio absurdo para a especulação financeira por parte de oportunistas, parasitas e vigaristas.
Do ponto de vista técnico, é um esbulho da opinião pública pretender que a taxa de inflação, nos níveis atuais, ameace sair do controle. De fato, ela continua dentro das margens da meta do Conselho Monetário. Visar exclusivamente o centro da meta, como têm cobrado os economistas de mercado, equivale a desqualificar a própria metodologia de controle de inflação operada pelo Banco Central. De fato, se não se pode ter inflação perto da margem, por que, afinal, se fixam as margens de tolerância, e não apenas o centro da meta?
Na realidade estamos diante da mitificação de um método operacional e político do Banco Central, introduzido arbitrariamente (sem cobertura de lei) pelo Governo FHC, cujo propósito fundamental tinha sido manter elevadas taxas básicas de juros. O tal modelo de metas não passa de uma fraude política sob uma máscara técnica. Escrevemos sobre isso, Francisco Antonio Doria e eu, num livro de dois anos atrás editado pela Civilização Brasileira, “O Universo Neoliberal em Desencanto”.
Nenhum banco central sério trabalha hoje com modelo de metas. O Fed nos Estados Unidos, o Banco Central do Japão, o conservadoríssimo Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra, nenhum deles, antes ou agora, se preocupa com inflação. Ao contrário, temem a deflação, e por isso fazem políticas monetárias expansionistas. E usam a política monetária para, de uma forma descarada, manipular a taxa de câmbio no sentido de estimular exportações e desestimular importações.
No nosso caso, é patético o que se tem visto na grande imprensa nessa verdadeira empreitada ideológica para subir os juros. Claro, quando o “Estadão” ou “O Globo” juntam seis economistas para palpitarem sobre as necessidades da economia, eles tomam o cuidado de escolher cinco favoráveis a sua tese – subir os juros -, e um contrário. Com isso, esse contrário legitima os outros cinco, e a impressão que fica é que a maioria esmagadora dos economistas está do mesmo lado.
Entretanto, mesmo que a inflação estivesse num nível elevado, e não está, é falsa a relação de causalidade entre taxa de juros e inflação. Já escrevi aqui que o que existe de inflação no Brasil é, principalmente, por pressão de demanda, fruto de uma favorável situação de emprego e de salário, influindo nos serviços pessoais e públicos. Nenhum aumento de juros básicos pode levar à redução dos preços da alimentação ou dos serviços pessoais. Essa relação é pura ficção. Assim, se se quer reduzir a inflação, é necessário buscar outros mecanismos, fora os juros.
Onde o aumento da taxa básica de juros pode ter influência indireta na inflação é através do câmbio. Atraindo capitais especulativos para o Brasil, ela induz a valorização do real, e o real mais forte favorece a redução do preço dos bens importados. Tudo bem, mas é isso que queremos para a economia brasileira? Atrair capitais especulativos, aumentando nosso risco cambial futuro, e concorrendo para destruir o parque produtivo e os empregos internos pela concorrência artificial dos importados? A Presidenta Dilma terá de recorrer a todo o seu arsenal de firmeza moral para resistir aos altistas dos juros e enfrentar o tsunami dos rentistas. É economista, ela própria, e portanto não tem a desculpa do Presidente Lula que de uma certa forma teve que se alienar da política monetária. Que recorra, se necessário, ao conselho de Delfim Netto, que não pode ser acusado de anticapitalista. E diante do coro grego dos economistas de mercado, deve lembrar-se do que disse o genial John Kenneth Galbraith: “Em economia não se de
ve levar em consideração a opinião de quem tem interesse próprio em jogo”.
P.S. Depois dessa barafunda que o Congresso criou equiparando famílias a empresas, só há uma forma de o Governo não perder votos da classe média indignada nas próximas eleições presidenciais: que autorize o desconto no Imposto de Renda dos salários com domésticos, como acontece com empregados de empresas.
José Carlos de Assis é economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, ed. Civilização Brasileira.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
As alegrias do corpo - por Ivan Martins (Época)
Felicidade física não se obtém apenas transando, comendo ou dormindo
Intelectuais e sedentários adoram ironizar as pessoas que fazem exercícios. Parece que quem corre, nada ou joga tênis é menos inteligente ou menos interessado em sexo do que as pessoas que não fazem nada. Ouvindo um deles falar, é possível imaginar que enquanto eu faço ioga e você caminha, ele está arfando na cama com três modelos – ou debruçado, de testa franzida, sobre um tratado de filosofia alemã.
Não é nada disso, claro. Há intelectuais que gostam de se exercitar exaustivamente e gente que transa intensamente e salta da cama às 6 da manhã para malhar. Da mesma forma como há sedentários que nadam em sexo e idiotas assexuados que só fazem exercícios. Na vida real há de tudo e tudo se mistura. Estereótipos não se aplicam.
Tenho a impressão que as pessoas que criticam os exercícios ainda não descobriram as outras alegrias do corpo. Felicidade física não se obtém apenas transando, comendo ou dormindo. Há um enorme prazer em transpirar, aprender movimentos complexos ou educar braços e pernas a resistir e avançar. Tira-se enorme satisfação pessoal da disciplina e da dedicação física. Aprende-se com ela, muda-se com ela, melhora-se com ela. E dela se extrai alegria.
Claro, os críticos gostam de apontar a vaidade exagerada de quem vai à academia ou ao estúdio de pilates. Falam como se eles mesmos não tivessem vaidade alguma, mas vivessem cercados por legiões de narcisos suarentos. Pura bobagem. Quem pratica alguma forma de exercício com dedicação sabe que isso não é um meio, é um fim. O cara levanta cedo para correr porque gosta. A garota que vai todo dia fazer ioga num bairro distante sente que isso muda a vida dela. Essas pessoas dormem melhor, comem melhor e trabalham melhor. Sentem-se bem fazendo o que fazem. Mudam por dentro. Ficar mais forte, mais magro e mais rápido é consequência, não essência. Tanto é assim que quando o corpo começa a enfeiar por causa do exercício exagerado, as pessoas não param. O barato principal não é estético.
Tendo presenciado o nascimento da onda do corpo nos anos 70, eu estou em paz com ela. Não me incomoda viver cercado por diferentes gerações de pessoas que acham o corpo importante e gostam de falar sobre o que fazem com ele. Há uma cumplicidade nisso que vai além da frivolidade. É o reconhecimento de que o corpo contém uma dimensão importante da nossa existência. Viver bem com ele, cuidar dele, envelhecer em paz com ele é parte essencial da experiência de estar vivo. No passado, as pessoas se destruíam ou se largavam da maneira mais triste, por ignorância ou modismo. Isso não acabou, mas diminuiu.
Como toda coisa boa, a valorização do corpo tem efeitos negativos. Há o culto exagerado à perfeição física, que banaliza a vida das pessoas (sobretudo as mulheres) e as torna dramaticamente infelizes. Há o preconceito contra as pessoas que não cabem no padrão e são discriminadas ou ignoradas. Há, sobretudo, uma forma de privação sexual e afetiva que me parece das mais perversas – e exige um pouco mais de discussão.
Acho que quando as pessoas se tornam excessivamente preocupadas com o corpo perdem parte importante e espontânea da sexualidade. Começam a condicionar o seu desejo a certo tipo de corpo da parceira ou do parceiro. Se for gordinha ou magrinha demais, não serve. Se for muito baixo ou tiver pernas curtas, não rola. Se faltar peito, bunda ou barriga durinha, não dá. Pior ainda, as pessoas voltam essas exigências contra elas mesmas. Se estiverem flácidas ou acima do peso, não transam e nem tiram a roupa na frente dos outros. Nem saem na rua, na verdade.
Esse tipo de restrição física vai contra a essência do próprio sexo. Ele não depende de beleza ou rigidez. Claro que gente bonita é mais atraente, mas há 600 mil maneiras de ser atraente que não passam pela padronização da beleza. O desejo é anárquico, a libido circula por canais invisíveis aos olhos. Os corpos podem provocar e extrair prazer mesmo fora de forma, mesmo fora de padrão, mesmo fora de moda. O gozo é fisicamente democrático. O tesão profundo envolve a personalidade do outro. É um tremendo equívoco, um enorme empobrecimento restringir os parceiros com base em estereótipos de boa forma. Quando se faz isso, muito prazer fica de fora. Talvez a maior parte dele.
Tenho um amigo uruguaio, mais velho, que gosta de repetir, em tom de comentário social, um velho bordão da sua juventude: o corpo é a alegria dos pobres. Isso é de um tempo em que os pobres não tinham direito a prazer algum, a diversão alguma que não fosse o sexo. Esse cenário de miséria está lentamente acabando entre nós. Mas eu gosto da frase. Acho que ela pode ser adaptada para esses novos tempos. Podemos dizer, quase utopicamente, que o corpo é a alegria de todos. O corpo que faz exercícios. O corpo que faz sexo. O corpo que trabalha, pensa, estuda. Um corpo inteiro na vida, em todas as suas dimensões. Um corpo capaz de ser feliz, em todos os sentidos.
Intelectuais e sedentários adoram ironizar as pessoas que fazem exercícios. Parece que quem corre, nada ou joga tênis é menos inteligente ou menos interessado em sexo do que as pessoas que não fazem nada. Ouvindo um deles falar, é possível imaginar que enquanto eu faço ioga e você caminha, ele está arfando na cama com três modelos – ou debruçado, de testa franzida, sobre um tratado de filosofia alemã.
Não é nada disso, claro. Há intelectuais que gostam de se exercitar exaustivamente e gente que transa intensamente e salta da cama às 6 da manhã para malhar. Da mesma forma como há sedentários que nadam em sexo e idiotas assexuados que só fazem exercícios. Na vida real há de tudo e tudo se mistura. Estereótipos não se aplicam.
Tenho a impressão que as pessoas que criticam os exercícios ainda não descobriram as outras alegrias do corpo. Felicidade física não se obtém apenas transando, comendo ou dormindo. Há um enorme prazer em transpirar, aprender movimentos complexos ou educar braços e pernas a resistir e avançar. Tira-se enorme satisfação pessoal da disciplina e da dedicação física. Aprende-se com ela, muda-se com ela, melhora-se com ela. E dela se extrai alegria.
Claro, os críticos gostam de apontar a vaidade exagerada de quem vai à academia ou ao estúdio de pilates. Falam como se eles mesmos não tivessem vaidade alguma, mas vivessem cercados por legiões de narcisos suarentos. Pura bobagem. Quem pratica alguma forma de exercício com dedicação sabe que isso não é um meio, é um fim. O cara levanta cedo para correr porque gosta. A garota que vai todo dia fazer ioga num bairro distante sente que isso muda a vida dela. Essas pessoas dormem melhor, comem melhor e trabalham melhor. Sentem-se bem fazendo o que fazem. Mudam por dentro. Ficar mais forte, mais magro e mais rápido é consequência, não essência. Tanto é assim que quando o corpo começa a enfeiar por causa do exercício exagerado, as pessoas não param. O barato principal não é estético.
Tendo presenciado o nascimento da onda do corpo nos anos 70, eu estou em paz com ela. Não me incomoda viver cercado por diferentes gerações de pessoas que acham o corpo importante e gostam de falar sobre o que fazem com ele. Há uma cumplicidade nisso que vai além da frivolidade. É o reconhecimento de que o corpo contém uma dimensão importante da nossa existência. Viver bem com ele, cuidar dele, envelhecer em paz com ele é parte essencial da experiência de estar vivo. No passado, as pessoas se destruíam ou se largavam da maneira mais triste, por ignorância ou modismo. Isso não acabou, mas diminuiu.
Como toda coisa boa, a valorização do corpo tem efeitos negativos. Há o culto exagerado à perfeição física, que banaliza a vida das pessoas (sobretudo as mulheres) e as torna dramaticamente infelizes. Há o preconceito contra as pessoas que não cabem no padrão e são discriminadas ou ignoradas. Há, sobretudo, uma forma de privação sexual e afetiva que me parece das mais perversas – e exige um pouco mais de discussão.
Acho que quando as pessoas se tornam excessivamente preocupadas com o corpo perdem parte importante e espontânea da sexualidade. Começam a condicionar o seu desejo a certo tipo de corpo da parceira ou do parceiro. Se for gordinha ou magrinha demais, não serve. Se for muito baixo ou tiver pernas curtas, não rola. Se faltar peito, bunda ou barriga durinha, não dá. Pior ainda, as pessoas voltam essas exigências contra elas mesmas. Se estiverem flácidas ou acima do peso, não transam e nem tiram a roupa na frente dos outros. Nem saem na rua, na verdade.
Esse tipo de restrição física vai contra a essência do próprio sexo. Ele não depende de beleza ou rigidez. Claro que gente bonita é mais atraente, mas há 600 mil maneiras de ser atraente que não passam pela padronização da beleza. O desejo é anárquico, a libido circula por canais invisíveis aos olhos. Os corpos podem provocar e extrair prazer mesmo fora de forma, mesmo fora de padrão, mesmo fora de moda. O gozo é fisicamente democrático. O tesão profundo envolve a personalidade do outro. É um tremendo equívoco, um enorme empobrecimento restringir os parceiros com base em estereótipos de boa forma. Quando se faz isso, muito prazer fica de fora. Talvez a maior parte dele.
Tenho um amigo uruguaio, mais velho, que gosta de repetir, em tom de comentário social, um velho bordão da sua juventude: o corpo é a alegria dos pobres. Isso é de um tempo em que os pobres não tinham direito a prazer algum, a diversão alguma que não fosse o sexo. Esse cenário de miséria está lentamente acabando entre nós. Mas eu gosto da frase. Acho que ela pode ser adaptada para esses novos tempos. Podemos dizer, quase utopicamente, que o corpo é a alegria de todos. O corpo que faz exercícios. O corpo que faz sexo. O corpo que trabalha, pensa, estuda. Um corpo inteiro na vida, em todas as suas dimensões. Um corpo capaz de ser feliz, em todos os sentidos.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Sobre Margaret Tatcher
Não ingressaria em uma esparrela de caluniar sobre a morte de uma pessoa (quem quer que seja), ou comemorar a sua morte, ou desejá-la que vá aos quintos dos infernos.
De qualquer modo, é bom se destacar, mantendo o respeito, que Margaret Tatcher foi a pior governante da história da humanidade (e olha que houve fortes concorrentes, como Golda Meir).
Tatcher era a face da direita, do neoliberalismo, da ditadura do mercado, do aumento da pobreza da grande maioria em benefício da riqueza de alguns poucos abastados.
Ela deixou um legado terrível na Grã-Bretanha (tanto que seu partido demorou mais de dez anos para retornar ao poder, e só o fez depois do malogrado apoio de Tony Blair – o cachorrinho poodle de George War Bush – a malfadada guerra do Iraque), legou um aumento do tamanho do estado para a minoria privilegiada, e diminuição para a imensa maioria da população.
Ela só conseguiu ser reeleita por causa de um erro histórico terrível dos argentinos de terem invadido as Malvinas militarmente (é evidente que a demanda Argentina pelas Ilhas Malvinas é justíssima, mas aquele ataque foi completamente equivocado, causando a morte desnecessária de centenas de pessoas).
Tatcher, juntamente com Reagan (e o lôbrego papado de João Paulo II) foram os principais responsáveis pelo domínio dos 1% sobre os demais 99% da era moderna.
Vai, mas ao menos politicamente, não deixa saudade nenhuma.
De qualquer modo, é bom se destacar, mantendo o respeito, que Margaret Tatcher foi a pior governante da história da humanidade (e olha que houve fortes concorrentes, como Golda Meir).
Tatcher era a face da direita, do neoliberalismo, da ditadura do mercado, do aumento da pobreza da grande maioria em benefício da riqueza de alguns poucos abastados.
Ela deixou um legado terrível na Grã-Bretanha (tanto que seu partido demorou mais de dez anos para retornar ao poder, e só o fez depois do malogrado apoio de Tony Blair – o cachorrinho poodle de George War Bush – a malfadada guerra do Iraque), legou um aumento do tamanho do estado para a minoria privilegiada, e diminuição para a imensa maioria da população.
Ela só conseguiu ser reeleita por causa de um erro histórico terrível dos argentinos de terem invadido as Malvinas militarmente (é evidente que a demanda Argentina pelas Ilhas Malvinas é justíssima, mas aquele ataque foi completamente equivocado, causando a morte desnecessária de centenas de pessoas).
Tatcher, juntamente com Reagan (e o lôbrego papado de João Paulo II) foram os principais responsáveis pelo domínio dos 1% sobre os demais 99% da era moderna.
Vai, mas ao menos politicamente, não deixa saudade nenhuma.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
Os comedores de quindins de ouro - por Saul Leblon (Carta Maior)
São graúdos, e contabilizáveis, os interesses que arrendam espaços e gargantas para vocalizar a luta diuturna pela alta dos juros no país.
O pleito está marmorizado em cada centímetro da menos imparcial de todas as seções do jornalismo: o noticiário de economia. Daí se irradia para afinar o jogral de vulgarizadores e agregados de orelhada e holerite.
A centralidade que une as tropas é compreensível. Trata-se de uma queda de braço decisiva.
Os sabichões que advogam a panaceia do ‘novo ciclo de alta’ da Selic sabem do que estão falando. E não estão falando apenas em adicionar mais 0,25% às taxas atuais, na reunião do Copom, do próximo dia 17.
Isso até pode acontecer. Mas não é esse o alvo, nem a dose cogitada.
O braço de ferro é para reverter um reordenamento estratégico.
É a história do país, estúpido!
É disso que se trata, embora eles dissimulem o seu lado na encruzilhada brasileira em versões amigáveis ao interesse da sociedade.
De ‘toda’ a sociedade.
Ou não seria o choque de juros o melhor protetor para os males da Nação, um Biotônico Fontoura que combate preços, maleita e bicho de pé?
Fatos.
A pátria rentista não admite que a prioridade do sistema econômico deixe de ser a que sempre foi, desde os anos 90, até o colapso de 2008.
Qual seja, a reprodução do capital fictício com as taxas de retorno mais elevadas de toda a economia, sem condicionalidades de qualquer natureza.
Exceto o lacre inoxidável da liquidez total, com risco zero.
É nessa espécie de platô marciano, comparado ao relevo habitado pelos que lutam com as incertezas da sobrevivência e da produção, que vive uma plutocracia rentista que acha normal pagar, como lembra o insuspeito jornal Valor, R$ 115 reais por um prato de comida.
Ou R$ 15 por um prosaico quindim, nos restaurantes dos Jardins, em São Paulo.
Os comedores de quindim de ouro dispunham, no final do ano passado, de nada menos que R$ 527 bilhões sob os cuidados de ‘private bankings’. Gerencias especiais, ligadas ou não aos bancos, que cuidam da gestão de grandes fortunas, pessoais ou familiares.
O saldo é oficial, divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O número é reiterado pelo mencionado jornal Valor.
Convém situa-lo no mundo das grandezas.
O valor é maior do que todo o investimento previsto pela Petrobrás em seu plano quadrienal para triplicar a produção do pré-sal até 2017 e atingir um milhão de barris/dia.
Esse é o tamanho do canhão dirigido contra uma política econômica tratada, em tom derrisório, como ‘desenvolvimentista'.
E essa é apenas a parte declarada do paiol que alimenta manchetes alarmistas e teclados prestativos.
O saldo submerso abriga-se em sigilos abissais.
Mas há gente que cavouca inconveniências em todos os lugares, mesmo os mais blindados.
A Tax Justice Network (‘rede de justiça fiscal’) é uma organização britânica especializadas nesse tipo de garimpo.
Seu relatório de 2012 estima que, entre 1970 e 2010, os endinheirados brasileiros acumularam depósitos da ordem de US$ 520 bilhões em contas mantidas em paraísos fiscais.
O valor, equivalente a R$ 1 trilhão de reais, garante à turma verde-amarela o 4º lugar no ranking dos maiores clientes dos ‘offshores’ do planeta. Chineses, russos e sul-coreanos lideram a fila.
É um desempenho robusto.
O PIB do país em 2012 foi da ordem de US$ 2,5 tri. A evasão flagrada pela Tax Justuce equivaleria assim a 1/5 de toda a riqueza anual acrescida à vida da sociedade.
Juro alto, liquidez imediata e risco zero são imiscíveis com o investimento pesado em infraestrutura e expansão industrial que o governo busca induzir.
Nos últimos três anos – reconheça-se, incentivado pela valorização do câmbio que descartou o investimento industrial, abalroado ainda pelo juro alto – a indução se deu no sentido oposto.
De 2009 ao final de 2012, o volume de recursos direcionado aos private bankings cresceu mais de 80%.
Saltou de R$ 291 bi para os mencionados R$ 527 bi, conforme a Anbima.
Nessa trincheira do ganho fácil reina inquietação nesse momento.
O pasto anda baixo. O governo Dilma ceifou o capim rentista trazendo-o à taxa real de juros mais baixa da história recente.
Com o soluço da inflação nos últimos meses, a dinheirama estabulada nesses piquetes de engorda, antes generosos, começa a perder peso em termos reais, descontada a variação dos preços.
Ninguém está sendo empurrado para o matadouro. Ao contrário.
O que o governo Dilma busca é induzir o dinheiro ocioso a galopar dos retiros rentistas para os campos indivisos, onde o aguardam as grandes fronteiras do investimento brasileiro neste início de século 21.
Insuflados por bicos longos e teclados ortodoxos, os rentistas evocam a prerrogativa de continuar comendo seu quindim de ouro, servidos pelo mesmo cardápio suculento. Sem sair do lugar.
A ver.
O pleito está marmorizado em cada centímetro da menos imparcial de todas as seções do jornalismo: o noticiário de economia. Daí se irradia para afinar o jogral de vulgarizadores e agregados de orelhada e holerite.
A centralidade que une as tropas é compreensível. Trata-se de uma queda de braço decisiva.
Os sabichões que advogam a panaceia do ‘novo ciclo de alta’ da Selic sabem do que estão falando. E não estão falando apenas em adicionar mais 0,25% às taxas atuais, na reunião do Copom, do próximo dia 17.
Isso até pode acontecer. Mas não é esse o alvo, nem a dose cogitada.
O braço de ferro é para reverter um reordenamento estratégico.
É a história do país, estúpido!
É disso que se trata, embora eles dissimulem o seu lado na encruzilhada brasileira em versões amigáveis ao interesse da sociedade.
De ‘toda’ a sociedade.
Ou não seria o choque de juros o melhor protetor para os males da Nação, um Biotônico Fontoura que combate preços, maleita e bicho de pé?
Fatos.
A pátria rentista não admite que a prioridade do sistema econômico deixe de ser a que sempre foi, desde os anos 90, até o colapso de 2008.
Qual seja, a reprodução do capital fictício com as taxas de retorno mais elevadas de toda a economia, sem condicionalidades de qualquer natureza.
Exceto o lacre inoxidável da liquidez total, com risco zero.
É nessa espécie de platô marciano, comparado ao relevo habitado pelos que lutam com as incertezas da sobrevivência e da produção, que vive uma plutocracia rentista que acha normal pagar, como lembra o insuspeito jornal Valor, R$ 115 reais por um prato de comida.
Ou R$ 15 por um prosaico quindim, nos restaurantes dos Jardins, em São Paulo.
Os comedores de quindim de ouro dispunham, no final do ano passado, de nada menos que R$ 527 bilhões sob os cuidados de ‘private bankings’. Gerencias especiais, ligadas ou não aos bancos, que cuidam da gestão de grandes fortunas, pessoais ou familiares.
O saldo é oficial, divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O número é reiterado pelo mencionado jornal Valor.
Convém situa-lo no mundo das grandezas.
O valor é maior do que todo o investimento previsto pela Petrobrás em seu plano quadrienal para triplicar a produção do pré-sal até 2017 e atingir um milhão de barris/dia.
Esse é o tamanho do canhão dirigido contra uma política econômica tratada, em tom derrisório, como ‘desenvolvimentista'.
E essa é apenas a parte declarada do paiol que alimenta manchetes alarmistas e teclados prestativos.
O saldo submerso abriga-se em sigilos abissais.
Mas há gente que cavouca inconveniências em todos os lugares, mesmo os mais blindados.
A Tax Justice Network (‘rede de justiça fiscal’) é uma organização britânica especializadas nesse tipo de garimpo.
Seu relatório de 2012 estima que, entre 1970 e 2010, os endinheirados brasileiros acumularam depósitos da ordem de US$ 520 bilhões em contas mantidas em paraísos fiscais.
O valor, equivalente a R$ 1 trilhão de reais, garante à turma verde-amarela o 4º lugar no ranking dos maiores clientes dos ‘offshores’ do planeta. Chineses, russos e sul-coreanos lideram a fila.
É um desempenho robusto.
O PIB do país em 2012 foi da ordem de US$ 2,5 tri. A evasão flagrada pela Tax Justuce equivaleria assim a 1/5 de toda a riqueza anual acrescida à vida da sociedade.
Juro alto, liquidez imediata e risco zero são imiscíveis com o investimento pesado em infraestrutura e expansão industrial que o governo busca induzir.
Nos últimos três anos – reconheça-se, incentivado pela valorização do câmbio que descartou o investimento industrial, abalroado ainda pelo juro alto – a indução se deu no sentido oposto.
De 2009 ao final de 2012, o volume de recursos direcionado aos private bankings cresceu mais de 80%.
Saltou de R$ 291 bi para os mencionados R$ 527 bi, conforme a Anbima.
Nessa trincheira do ganho fácil reina inquietação nesse momento.
O pasto anda baixo. O governo Dilma ceifou o capim rentista trazendo-o à taxa real de juros mais baixa da história recente.
Com o soluço da inflação nos últimos meses, a dinheirama estabulada nesses piquetes de engorda, antes generosos, começa a perder peso em termos reais, descontada a variação dos preços.
Ninguém está sendo empurrado para o matadouro. Ao contrário.
O que o governo Dilma busca é induzir o dinheiro ocioso a galopar dos retiros rentistas para os campos indivisos, onde o aguardam as grandes fronteiras do investimento brasileiro neste início de século 21.
Insuflados por bicos longos e teclados ortodoxos, os rentistas evocam a prerrogativa de continuar comendo seu quindim de ouro, servidos pelo mesmo cardápio suculento. Sem sair do lugar.
A ver.
Uma breve história da baderna - por Marco Weissheimer (Sul 21)
![]() |
| Marietta Baderna |
Vale a pena lembrar um pouco dessa história para entender um pouco melhor o presente. Em 2011, às vésperas de mais um aniversário do famigerado golpe civil-militar que derrubou o governo constitucional de João Goulart – que, aliás, pertencia ao partido da mesma linhagem do que aquele que abriga o atual prefeito de Porto Alegre -, os presidentes dos clubes militares do Exército, Marinha e Aeronáutica divulgaram a tradicional nota defendendo a lambança autoritária e fascista que patrocinaram em 1964. O uso da palavra “baderna” não poderia faltar na nota que afirma que o objetivo do golpe foi “impedir a tomada do poder e a sua entrega a um regime ditatorial”. E acrescente, em tom solene: “À baderna, espraiada por todo o território nacional, associavam-se autoridades governamentais entre os comandantes militares que procuravam conduzir seus subordinados à indisciplina e ao desrespeito aos mínimos padrões de hierarquia”. Ou seja, para impedir a tomada do poder e a sua entrega a um regime ditatorial, os golpistas t
omaram o poder e o entregaram a um regime ditatorial. O uso das palavras, como se sabe, nunca é inocente.
O que muita gente não sabe é a origem da palavra “baderna”. A etimologia do termo, nos ensina o Aurélio, está associada à figura da bailarina italiana Marietta Baderna, que esteve no Rio de Janeiro em 1851, provocando “um certo frisson”. A história da baderna é ótima e muito explicativa a respeito do uso posterior que a palavra passa a merecer. Maria Baderna era, como se dizia antigamente, uma moça liberal e liberada. Muito liberada para a época, na avaliação de alguns. Ela desembarcou no Rio de Janeiro no final do século XIX. Maria Baderna ganhou inimigos ao decidir introduzir, entre os passos da dança clássica, gestos do lundu, uma dança de origem africana. Para piorar, Baderna era dada à boemia e gostava de beber e cantar com os amigos. Esse comportamento inaceitável deu vida nova ao seu nome. A baderna virou sinônimo de barulho, confusão, arruaça, esculhambação.
Segundo o professor Ari Riboldi, formado em Letras pela Faculdade de Educação, Ciências e Letras (FAPA), pós-graduado em Literatura Brasileira na mesma universidade e um pesquisador da história de termos e expressões da língua portuguesa, Marietta e seu pai vieram ao Brasil fugindo de perseguição política na Itália, cujo território, então, estava em parte dominado pela Áustria. Talentosa, de espírito rebelde e contestador, Baderna logo conquistou uma legião de admiradores, especialmente entre o público jovem. Como costuma acontecer também, a conquista de admiradores andou de mãos dadas com a de inimigos entre as hostes mais conservadoras e moralistas da época, que viam Baderna como uma “ameaça às novas gerações”.
A fama de Baderna no Rio de Janeiro acabou afetando a sua carreira e diminuindo sua aparição nas apresentações de dança. Os seus seguidores, reza a lenda, passaram a protestar contra essa marginalização batendo os pés no chão durante os espetáculos. Seriam eles os primeiros “baderneiros” da história do Brasil. “Dela ficou como legado a ousadia de afrontar as ditas regras sociais e bons costumes e a palavra baderna, registrada como sinônimo de bagunça, confusão, desordem pública”, nos ensina o professor Riboldi.
Voltemos ao presente. Nos últimos meses, Porto Alegre parece ter gerado uma nova geração de “baderneiros”. Os protestos contra o aumento do preço das passagens de ônibus não são um ponto fora da curva. Em outubro de 2012, os “baderneiros” ganharam outra alcunha: vândalos. Naquele momento, os vândalos baderneiros protestavam contra a privatização de espaços públicos e culturais da cidade e também contra o cerceamento de espaços e tempos de lazer. Um desses protestos terminou em choque com a polícia no Largo Glênio Peres, tradicional área da cidade agora sob a responsabilidade da Coca-Cola, onde estava instalado um boneco inflável do Tatu-Bola, mascote da Copa de 2014, que acabou “vitimado” no confronto.
Na visão dos manifestantes, os verdadeiros vândalos estavam instalados em gabinetes da prefeitura, privatizando espaços públicos da cidade, abrindo espaço para a especulação imobiliária avançar sobre áreas públicas e de preservação ambiental, derrubando árvores, empurrando a população mais pobre da cidade cada vez mais para a periferia, entre outras depredações.
Hoje, como na época de Marietta Baberna, os baderneiros são tolerados e mesmo vistos com simpatia pelas mentes mais, digamos, progressistas. Desde que, é claro, não batam os pés no chão durante o espetáculo e não ofendam os bons costumes.
Para quem quiser conhecer um pouco mais da história da inspiradora dos baderneiros, fica aqui uma sugestão de leitura: “Maria Baderna, a bailarina de dois mundos” (Record), de Silverio Corvisieri, ex-deputado e militante do extinto Partido Comunista Italiano. Só podia ser coisa de comunista mesmo…
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O poder à vista - por Janio de Freitas (Folha)
O impasse sobre Feliciano é o 1º embate relevante em que os evangélicos se põem como um bloco orgânico
O impasse decorrente da presença do deputado-pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e de Minorias não é um caso político qualquer. Tanto expõe uma situação atual até aqui mal observada, como indica uma situação futura bastante problemática no Congresso, em particular na Câmara.
O caso em torno do pastor Marco Feliciano agrava-se mais, com sua decisão de afrontar os opositores e entregar a relatoria de projetos, na Comissão, a evangélicos notoriamente contrários a tais propostas, referentes a assuntos como aborto e sexo profissional.
Mas o comando da Câmara e a maioria dos líderes partidários estão acovardados, diante da dupla ameaça de reação do grupo de deputados-pastores à saída forçada de Marco Feliciano. Agora, tumultuariam a Câmara com ações deles próprios e com grandes mobilizações externas; depois, seriam campanhas acusatórias, nas eleições, aos autores de "perseguição religiosa" no Congresso.
Marco Feliciano está convidado para uma reunião, na terça-feira, com líderes das bancadas partidárias que tentariam demovê-lo da permanência como presidente daquela Comissão. Os sinais, até o final de semana, foram de provável ausência do convidado. E, a comparecer, seria para reafirmar a recusa à renúncia. É a posição transmitida por seus principais aliados entre os evangelistas da Câmara.
A reunião cordial foi adotada pelos líderes, ao fim de mais de duas horas de discussão, como alternativa à alegada falta de recurso do Regimento para a substituição compulsória de Marco Feliciano. A alegação é discutível, a começar de que a necessária atividade da Comissão está inviabilizada e, também para casos assim, a Câmara dispõe de Comissão de Ética e de Corregedoria. A alegação da falta de instrumentos resulta mais do temor de enfrentar o problema.
O impasse em torno do pastor-deputado Marco Feliciano, com suas manifestações racistas e anti-homossexuais, é o primeiro embate relevante em que os evangélicos se põem como um novo bloco orgânico, ideologicamente bem definido e poderoso. Este novo evangelista e o bloco ruralista não precisam estar de acordo em tudo para comprovar o adiantamento da direita, como bancada no Congresso, sobre os que se dizem "a esquerda".
A perspectiva dessa situação delineia-se neste fato incontestável: nenhum segmento político está em mais condições de crescer, nas eleições do ano próximo para o Congresso, do que os evangélicos. A contribuição que podem levar só é promissora para eles e seu projeto de poder político.
O impasse decorrente da presença do deputado-pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e de Minorias não é um caso político qualquer. Tanto expõe uma situação atual até aqui mal observada, como indica uma situação futura bastante problemática no Congresso, em particular na Câmara.
O caso em torno do pastor Marco Feliciano agrava-se mais, com sua decisão de afrontar os opositores e entregar a relatoria de projetos, na Comissão, a evangélicos notoriamente contrários a tais propostas, referentes a assuntos como aborto e sexo profissional.
Mas o comando da Câmara e a maioria dos líderes partidários estão acovardados, diante da dupla ameaça de reação do grupo de deputados-pastores à saída forçada de Marco Feliciano. Agora, tumultuariam a Câmara com ações deles próprios e com grandes mobilizações externas; depois, seriam campanhas acusatórias, nas eleições, aos autores de "perseguição religiosa" no Congresso.
Marco Feliciano está convidado para uma reunião, na terça-feira, com líderes das bancadas partidárias que tentariam demovê-lo da permanência como presidente daquela Comissão. Os sinais, até o final de semana, foram de provável ausência do convidado. E, a comparecer, seria para reafirmar a recusa à renúncia. É a posição transmitida por seus principais aliados entre os evangelistas da Câmara.
A reunião cordial foi adotada pelos líderes, ao fim de mais de duas horas de discussão, como alternativa à alegada falta de recurso do Regimento para a substituição compulsória de Marco Feliciano. A alegação é discutível, a começar de que a necessária atividade da Comissão está inviabilizada e, também para casos assim, a Câmara dispõe de Comissão de Ética e de Corregedoria. A alegação da falta de instrumentos resulta mais do temor de enfrentar o problema.
O impasse em torno do pastor-deputado Marco Feliciano, com suas manifestações racistas e anti-homossexuais, é o primeiro embate relevante em que os evangélicos se põem como um novo bloco orgânico, ideologicamente bem definido e poderoso. Este novo evangelista e o bloco ruralista não precisam estar de acordo em tudo para comprovar o adiantamento da direita, como bancada no Congresso, sobre os que se dizem "a esquerda".
A perspectiva dessa situação delineia-se neste fato incontestável: nenhum segmento político está em mais condições de crescer, nas eleições do ano próximo para o Congresso, do que os evangélicos. A contribuição que podem levar só é promissora para eles e seu projeto de poder político.
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