quinta-feira, 14 de março de 2013
Sobre o ministro da justiça
Avaliando como um todo, o ministério da Dilma, é fraco. Possui algumas boas peças, mas não é um ministério confiável, técnico, muito menos brilhante (como deveria ser). Não é a toa que a presidente tanto se esforça por conferir item por item os detalhes do governo, chegando até a engessar a máquina pública. Só se dedica tanto assim porque não confia em seus ministros - e não confia porque eles são fracos, mesmo.
Já seu ministro da justiça se destaca: é uma nulidade completa. É mais fácil esperar algo de bom do Curupira ou do Saci-pererê do que de José Eduardo Cardozo.
O PSDB é uma vergonha como partido de oposição, isto esta mais do que provado. Agora, isto não dá margem para que se possua em cargo tão importante como o de ministro da justiça alguém tão frívolo, tão incompetente, tão irrelevante quanto o atual ministro. O Brasil precisa imensamente de uma pessoa extremamente capacitada para a área, a população esta atemorizada – já os bandidos vão bem, obrigado.
Qual é o desempenho do ministro da justiça neste quadrante?
Nosso país vive um estado caótico na segurança pública, todos os estados têm graves problemas (alguns com maior gravidade), a divisão de polícia civil e militar só é adotada em países extremamente atrasados, não há trabalho conjunto entre o juiz e os policiais no processo de investigação, ao contrário, um delegado vai apurar junto com os investigadores e depois de toda a investigação, o promotor pode comprar ou não a ideia, e todo um trabalho realizado vai por água abaixo. Em várias nações mais avançadas a ótica é outra (não à toa os promotores costumam ser candidatos a prefeitos), eles já trabalham juntos desde o início. A estrutura das polícias é radicalmente diferente.
Aqui no Brasil, policiais extremamente despreparados vão para as ruas, colocam uma arma na cintura, enchem-se de uma arrogância sem limites, acham que são Deus.
Qual é o trabalho do ministro da justiça para a atualização e unificação da estrutura policial, alguém sabe dizer?
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O código civil esta sendo alterado. Qual é a linha mestra desta alteração? A de que as cadeias estão cheias e é preciso esvaziá-las – não importa a que custo.
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| Só não vê sua nulidade quem não que ver nada Foto: Sérgio Lima / Folha press |
Se muitos e muitos bandidos que aterrorizam a população retornarão as ruas, quem se importa? Vão devolvê-los para as ruas, porque nas cadeias já não cabe mais – não importando as consequências disto para a população.
Ao invés de se melhorar o código, buscando uma diminuição das inúmeras chicanas que advogados competentes conseguem realizar, não, a preocupação matricial é diminuir as penas (¡agora sim o povo brasileiro vai ficar seguro!). Enquanto isto, com tantas progressões possíveis, é muito raro um condenado ficar mais de cinco anos na cadeia, por pior que tenha sido seu crime.
São estes e muitos outros problemas na reforma do código. Há incoerências que são até um escárnio. Por exemplo, estão diminuindo a pena para o usuário de drogas e aumentando para o traficante. É de uma insensatez absurda. Ou se adota uma legislação que permite o uso controlado e o Estado assume para si a distribuição da droga (como esta fazendo o Uruguai), ou se penalize tanto o consumo quanto o tráfico. Afinal, nenhum produto no planeta Terra que quis ser consumido deixou de sê-lo. É evidente que quem movimenta a cadeia é o usuário final, (praticamente) ninguém é obrigado a usar drogas, quem o faz escolheu assim, o traficante vai atrás da oportunidade econômica que se abre. Porém, seguindo uma linha adotada nos EUA – a de que o usuário seria uma vítima (!) -, permitirão que os usuários de entorpecentes permaneçam na santa paz, e os traficantes serão caçados, seguindo uma estratégia antiga, assassina e onerosa, que só enxuga gelo, pois, como eu já disse, nenhum país – por mais avançado que fosse – conseguiu impedir o consumo de algo que quis ser consumido.
Qual é o trabalho do ministro da justiça na reforma do código civil? Como ele esta contribuindo? Houve diálogo com as partes que lidam diariamente com o crime para saber o que eles acham desta alteração? Ninguém sabe dizer.
Tenho um conhecido bem próximo, policial civil há mais de vinte anos, que trabalhou um ano na delegacia de crimes cibernéticos. Ficou desesperado para sair, para ele era o trabalho mais frustrante possível, os estelionatários aplicavam crimes a torto e a direito via internet, mas a legislação os protege imensamente, em um ano de trabalho não conseguiu prender sequer um bandido (sendo que ele trabalha numa capital, Vitória). O policial conseguiu ser transferido desta delegacia, para sua sorte. Mas o povo pode esperar, casos de impunidade como este agora serão ainda mais abrangentes, como se não bastasse as imensas facilidades que o código civil já proporciona a quem pratica delitos diversos, agora a coisa vai ficar mais fácil ainda, se o bandido vier assaltar a sua casa e a polícia conseguir realizar a façanha prendê-lo, fique tranquilo, amanhã ele já estará solto (ou no mesmo dia), assim poderá retornar a sua residência e fazer o serviço mais bem feito desta vez (e espere a vingança por ele ter sido levado para a delegacia).
Estão criando um monstro a olhos vistos, mas o ministro da justiça é mais cego que a estátua que representa a justiça.
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Outro grave problema, a estrutura carcerária brasileira, que como um todo é hedionda (pra dizer o mínimo). Os presidiários são tratados como animais, voltam para as ruas ainda piores do que entraram, o que o ministro da justiça esta fazendo a respeito? Ninguém sabe, ninguém viu.
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Outro problema negligentemente tratado pelo ministro da justiça é o judiciário brasileiro, um poder monárquico. O judiciário é o poder mais abastado, que paga os melhores salários, porém, possui uma eficiência baixíssima. Nosso judiciário tem o mesmo número proporcional de funcionários que os EUA, mas é extremamente moroso, as ações ficam anos e anos perdidas em escaninhos até terem suas decisões finais, é uma vergonha – na parte trabalhista, então, a coisa é mais trágica ainda. Só para citar um exemplo, um amigo meu morou nos EUA, e certa vez precisou dirigir sem carteira, pois sua mulher, que tinha habilitação e cumpria esta função em sua empresa, estava na iminência de ter um filho. Para seu azar, ele foi parado pela polícia neste momento e foi preso por dirigir sem habilitação. O caso aconteceu numa quinta-feira. Ele foi julgado por um juiz de direito pela contravenção na terça-feira seguinte, cinco dias depois do ocorrido! Por que eles conseguem esta eficiência e nós estamos tão distantes, se temos uma estrutura de funcionários similar?
O ministro da justiça bem poderia se dedicar ao assunto, mas sua principal missão no judiciário é escolher ministros que prometam absolver os acusados da AP 470 – e, claro, em sua grande competência, nem isto José Eduardo Cardozo conseguiu, tomou um baile do Fux (aquele que é um pulha tanto por prometer o que não poderia, quanto por não entregar o que prometeu).
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| Despreparado e incompetente Foto: Sérgio Lima / Folha press |
Há outros elementos também a serem considerados, por exemplo, o TCU, que bem poderia ser uma estrutura do judiciário, e não do legislativo. Hoje, vivemos no pior dos mundos, o TCU só tem poder de mando em uma das partes (o governo), gerando não só atrasos em obras, mas imensos prejuízos financeiros para a população (justamente aquilo que o órgão visa combater). O TCU hoje é um órgão que atrapalha mais do que ajuda (diferentemente da CGU, por exemplo).
Mas o ministro da justiça, o que ele vai fazer sobre o assunto? Ele não é capaz sequer de ver o óbvio, não faz nada para corrigir insensatezes como esta. Ele esta preocupado com o arcabouço jurídico que tem prejudicado imensamente o governo?
A coisa é tão problemática que, para não passar uma vergonha internacional, o governo teve que recorrer a invencionice do Regime Diferenciado de Contratações (RDC) para a copa do mundo. Mas e nas outras obras que o país necessita? Se o RDC é bom, então porque não mudam a lei de licitações e o adotam?
O que o José Eduardo Cardozo vai fazer a respeito? Ninguém sabe, ninguém viu.
(Aliás, é triste a sina do país quando um personagem que carrega o sobrenome Cardozo - seja este nome com "S" ou com "Z" - esta no poder)
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Outro tema a ser debatido é a maioridade penal, já passou da hora de lidarmos com esta questão de maneira mais madura. Um jovem de 15 anos hoje tem uma quantidade de informações acumulada maior do que um idoso de 200 anos atrás. Eu, mesmo, quando tinha esta idade, me desesperava por ver que a sociedade me avaliava como se eu fosse um inepto, um idiota completo. Os jovens hoje têm, sim, plena noção do que fazem e não podem ser tratados como crianças quando cometem crimes hediondos. Se eles têm condições de praticar um crime bárbaro, tem condições de pagar por ele também, é evidente.
Há pessoas que nascem com distúrbios sérios de personalidade ou psicopatia (que muito raramente possuem cura). Daí manter estas pessoas presas por no máximo 3 anos em uma instituição de ressocialização é muito pouco e, na verdade, é mesmo um perigo, pois une pessoas que haviam cometidos pequenos delitos com criminosos da mais alta periculosidade.
O caso Champinha deve ser rememorado. Ele raptou, estuprou, torturou e matou a jovem Liana e seu namorado, e, hoje vive encarcerado de maneira flagrantemente ilegal num centro de recuperação (que não recupera nada, já que ele não esta tendo tratamento psicológico e, já foi alegado que não há cura para seu distúrbio psicológico). É um subterfúgio muito perigoso. Naquele local, sua pena pode ser perpétua. Como ele é um perigo para a sociedade, o Estado arrumou um “jeitinho” de mantê-lo encarcerado. Mas o que deveria mantê-lo preso é a lei, e não “jeitinho” como o que arrumaram. A lei esta errada e mantê-lo encarcerado com jeitinho também esta errado. Deveria ser corrigida a lei para que não fosse necessário recorrer a estas manobras espúrias.
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| Muito preocupado com a calamitosa situação da segurança pública no país |
E continuamos com o problema grave da consecução de crimes por jovens. Uma boa pauta para o ministro da justiça seria um plebiscito sobre a maioridade penal para crimes hediondos. Mas os que defendem a manutenção do desastroso sistema atual não querem nem ouvir falar de plebiscito – pois sabem que o desejo do povo é contrário ao deles. São daquela horda de políticos que dizem amar a democracia, mas fogem do povo feito o diabo da cruz.
O ministro da justiça esta preocupado com o assunto? Alguém viu ele agindo para resolver o problema? Nada vezes nada.
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E mais, a dificuldade que o judiciário brasileiro tem para lidar com a forma como as provas são colhidas. Ora, depois de toda uma investigação, onde são encontradas todas as provas de que uma pessoa roubou, delinquiu, fez o que quis e o que não quis, todo o processo pode ser anulado porque em determinado momento uma das provas foi colhida de maneira que o juiz julga irregular. A operação Castelo de Areia esta paralisada por isto, como bem sabemos. Ela foi sustada pelo STJ – um tribunal que não é conhecido nem pela competência técnica, tampouco pela lisura dos seus membros – apenas porque o processo foi aberto a partir de uma denúncia anônima. É um absurdo completo. A preocupação não é fazer justiça, mas atender a determinados interesses, se ater a determinadas filigranas que interessam aos poderosos.
Para sair deste imbróglio, o ministro da justiça deveria intervir, deveria ser o primeiro interessado em mudar a legislação, em fazer com que ocorra o mesmo que em países avançados: se uma prova foi colhida de maneira que julgam irregular, o processo segue da mesma maneira, e esta prova vale tanto quanto as outras, porém, pode ser aberto outro processo, afim de apurar a responsabilidade por este colhimento de provas irregular. Assim, nem se alimenta a impunidade por causa de filigranas jurídicas, tampouco se permite que um estado policial tome conta do país.
Mas alguém viu o ministro da justiça atuando para alterar isto?
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O que mais chamou a atenção para a atuação de José Eduardo Cardozo ao longo destes anos em que ficou a frente do ministério da justiça foi, por um lado, sua inação durante o julgamento da AP 470, e, por outro, sua péssima influência na indicação de nomes para o STF (basta ver como votaram a ministra Rosa “provas elásticas” Weber e Luiz “eu mato no peito” Fux na AP 470).
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Agora temos o caso Telexfree. O que podemos esperar dele? A inação de sempre.
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| A face de um charlatão Foto: Ueslei Marcelino - Reuters |
Ah, também é bom destacar. Antes tivemos o Pronasci (outro fracasso retumbante). Agora, o José Eduardo Cardozo inventou um tal plano “Brasil mais seguro” (¿alguém já ouviu falar disto?).
Só para constar, no final do ano passado, em evento com o governador de Alagoas, o ministro da justiça José Eduardo Cardozo comemorou a redução dos números da violência naquele estado. Disse que Alagoas alcançou “números suíços” no que tange a segurança pública e que o plano pode ser considerado “um sucesso”. Em suas próprias palavras: “São números suíços, governador. Vou dizer com franqueza, não esperava resultados tão bons em tão curto espaço de tempo”.
Talvez a Suíça a que José Eduardo Cardozo se refira seja a de outra galáxia, pois a da Via-Láctea, possui dados que estão a anos-luz de Alagoas.
Em Alagoas, são assassinadas em média 20 pessoas todos os finais de semana. No ano inteiro de 2012, foram assassinadas 52 pessoas na Suíça. O índice suíço de homicídios é de 0,7 a cada 100 mil habitantes por ano. O que Alagoas conseguiu depois do plano “Brasil mais Seguro” foi o de 63,98 para cada 100 mil habitantes. Ou seja, a Suíça é 91,4 vezes mais segura do que Alagoas. Mas no teatro do absurdo que é a realidade mental de Cardozo, Alagoas já atingiu a Suíça. Em menos de três semanas mata-se em Alagoas o mesmo que em um ano na Suíça – sendo que a população da Suíça é mais do que o dobro da Alagoana. De qualquer modo ambas estão no mesmo patamar para nosso desastroso ministro da justiça.
Ter uma pessoa como José Eduardo Cardozo como ministro da justiça é – no mínimo – um escárnio. E sua incompetência causa, em última instância, mortes, tristeza, abandono, desesperança, injustiças e saudades.
terça-feira, 12 de março de 2013
Manifesto sobre Neymar - por Sérgio Luiz Corrêa (Jornal da Orla - Coluna do Corrêa)
Não faltam opiniões a respeito de Neymar no local de trabalho, nas tertúlias de café e nos botecos, e entre blogueiros, colunistas e comentaristas de rádio e televisão. Afinal, somos um país com 190 milhões de entendidos de futebol. Dia desses, um dos meus onze leitores enviou-me um parecer sobre Neymar. O lado singular do manifesto é que este leitor foi jogador no passado e é torcedor do Santos, mas pediu-me gentilmente que não revelasse seu nome. "É que os meus filhos e os amigos dos meus filhos são torcedores do Santos e fãs de Neymar", justifica, objetivando com isso evitar a discórdia na família e, por tabela, no seu círculo de amizades. Mas jogou o ônus para a coluna "agasalhar". Aberto o espaço de forma democrática, portanto, segue abaixo a íntegra do seu artigo:
“Falta muito para Neymar ser considerado um craque. Por quê?
O Neymar, que arrasa defensores na maioria dos jogos na Vila Belmiro (em minha opinião ele, até então, tem se revelado um jogador de Vila Belmiro) e que por essas atuações e alguns gols espetaculares é endeusado pela mídia, tratado como joia pelos dirigentes praianos (especialmente pelo LAOR, o presidente do Santos FC) é enaltecido ensandecidamente pelos torcedores mais jovens. Nunca brilhou, nunca teve atuação destacada e nunca fez gols maravilhosos quando teve de enfrentar equipes do primeiro escalão do futebol mundial. Ele vem acumulando fracassos, como na decisão do Mundial Interclubes entre Santos e Barcelona, na Copa América de 2011 e na Olímpiada de Londres. Nas seis partidas que a seleção brasileira disputou contra adversários que venceram a Copa do Mundo ao menos uma vez - ou os que estão entre os dez primeiros colocados do ranking da FIFA - e que contou com o Neymar em campo, o saldo foi de dois empates e quatro derrotas frente à Argentina (duas derrotas), França, Alemanha, Colômbia e Inglaterra. Nesses jogos, Neymar fez apenas dois gols. E tem mais: se ante adversários brasileiros Neymar dribla incessantemente (com adversários mais frágeis), tripudia, faz e acontece, aplica o drible "lambreta", sassarica, penteia a bola, faz malabarismos e outros 'quetais´', ele está bem longe de apresentar o mesmo desempenho nos grandes jogos da seleção brasileira.
O Neymar é um driblador emérito e incomparável, tem uma habilidade incrivelmente fantástica, é criativo, imaginativo, inovador, tem velocidade, controle de bola, bate bem tanto com a direita quanto com a esquerda (com a cabeça é um desastre), mas é demasiadamente personalista, individualista, prende exageradamente a bola, quer decidir tudo sozinho, dribla desnecessariamente em zona de perigo para sua defesa, fantasia demais os lances abusando dos efeitos especiais. É um craque na verdadeira acepção da palavra? Na minha opinião, ainda assim ele não pode ser considerado. Tem potencial para sê-lo, mas ele tem de ouvir mais as vozes experientes (não só de Pelé como também de Coutinho, que não aprecia nenhum pouco o garoto Neymar).
O Neymar mostra ser muito inteligente quando adia eventual ida para Europa (ele decididamente e os números são irrefutáveis, pois não está preparado para enfrentar a marcação praticada na Europa). A seleção brasileira em março enfrentará a seleção da Itália e este será um novo teste para o Neymar. Eu não acredito que ele brilhará. Devo lembrar que na derrota para a Inglaterra o Neymar não luziu e não pode nem alegar que sofreu marcação violenta e implacável, pois sofreu apenas uma falta durante todo o jogo (no Brasil sofre 11 ou 12 faltas por jogo porque é um "cai cai" e os juízes são complacentes com ele).
E o Neymar é bonzinho?
Em 02/10/2010, Neymar, junto com outros jogadores do Santos, se recusou a distribuir ovos de páscoa para crianças com deficiências físicas que eram cuidadas por uma instituição espírita (Mensageiros da Luz) alegando razões religiosas - ele e toda a família são evangélicos.
Em 15/09/2010, em jogo contra o Atlético Goianiense, ao receber ordens do técnico Dorival Junior para não bater o pênalti, Neymar rebelou-se, discutindo com o treinador. No vestiário, ele continuou com seu ato insolente atirando um copo isotônico no auxiliar do treinador.
Em 06/10/2011, após o jogo contra o Grêmio, em Porto Alegre, Neymar e outros jogadores, inobservando instruções do treinador Dorival Júnior, saíram para a balada. O treinador solicitou punições para Neymar e companheiros e não foi atendido.
Em 06/04/2011, em jogo na Vila Belmiro contra o Colo-Colo, do Chile, válido para pela Libertadores, Neymar foi expulso após comemorar seu gol com uma máscara com a sua foto que os dirigentes do Santos haviam distribuído aos torcedores.
Temporada de 2011: até o dia 16 de agosto de 2011, Neymar acumulava 14 cartões amarelos e apenas 13 gols. Tinha mais cartão amarelo que gols feitos. Em 2011, ele recebeu um cartão amarelo a cada dois jogos (o zagueiro Durval havia recebido cinco cartões em 44 jogos). As maiores punições do Neymar foram atribuídas a atitudes antidesportiva.
NEYMAR E O APOIO DA MÍDIA
Quando Neymar faz três gols, o que é uma raridade, a imprensa nacional faz um carnaval tremendo com o feito do atleta.
Só para constar, eu devo lembrar que Neymar, nesta sua curta carreira profissional (2009-2013), disputou 231 jogos e fez 158 gols - média de 0,68 gols por jogo - e em apenas em oito jogos fez mais de três gols (foram três em seis partidas, quatro em uma partida e cinco gols em outra). Só para ilustrar, eu devo lembrar que Pelé, com os mesmos quatro anos de carreira do Neymar (07/09/56 a 07/09/60) tinha feito mais de três gols em 36 jogos (três gols em 22 jogos, quatro gols em 13 jogos e cinco gols em um jogo). E com os mesmos 21 anos do Neymar, Pelé tinha feito três gols em 47 jogos (três gols em 28 jogos, quatro gols em 16 jogos e cinco gols em três jogos). Ele tem de ouvir o Pelé referencialmente, com respeito e divinização ou não? E esse Wagner Ribeiro tem mais é que enfiar o rabo entre as pernas, pois quer defender o indefensável tendo em mira justamente o Pelé.
Quando Neymar completou 21 anos, a imprensa alardeou com espetacularização que enquanto ele ao completar essa idade totalizava 152 gols, o Messi, com a mesma idade, havia feito apenas 40 gols. E o Pelé? É uma afronta fazermos comparações. Pelé, quando completou 21 anos em 23/10/1961, tinha totalizado 441 gols na carreira profissional. Muitos podem estrebuchar que não se trata de fazer comparações com o Pelé. Como? A revista "Time" exibiu a foto do Neymar na capa com a alusão ao novo Pelé (o Neymar diplomaticamente sempre refuta comparações). Quanto novos Pelés se tentou "fabricar" nos últimos 35 anos?
A mídia tem iludido aos mais inexperientes leitores (estes sequiosos por um endeusamento cada vez mais profundo de Neymar) fazendo supor que ele é o maior artilheiro do Santos após Pelé. Um ledo, tendencioso e grave equívoco: Pepe fez 405 gols em 750 jogos, média de 0,98 gols por jogo; Coutinho fez 370 gols em 457 jogos, média de 0,81 gols por jogo; Toninho Guerreiro fez 283 gols em 373 jogos, média de 0,76 gols por jogo; Feitiço fez 216 gols em 151 jogos, média de 1,43 gols por jogo; Dorval fez 198 gols em 612 jogos, média 0,32 gols por jogo;
Edu fez 183 gols em 584 jogos, média de 0,31 gols por jogo; Araken Patuska fez 177 gols em 193 jogos, média 0,92 gols por jogo; Pagão fez 159 gols em 345 jogos, média de 0,46 gols por jogo; Tite fez 151 gols em 475 jogos, média de 0,32 gols por jogo; Camarão 150 gols em 270 jogos, média de 0,56 gols por jogo ; Antoninho fez 145 gols em 400 jogos, média 0,36 gols por jogo. Odair "Titica" fez 134 gols em 225 jogos, média de 0,60 gols por jogo; Neymar fez 131 gols em 214 jogos, média de 0,61 gols por jogo.
Neymar é fruto do mais audacioso, arrojado, profundo e prodigioso plano de marketing que se ousou criar no mundo inteiro. E os marqueteiros podem se considerar os mais iluminados do planeta".
Comentário
Poucas esperanças tenho com relação ao título da seleção brasileira em 2014. Acho, aliás, que a seleção sucumbirá facilmente ante a imensa pressão que receberá – que será a maior de todos os tempos que uma seleção brasileira já recebeu.
A fala da torcida é clara: ganhar é uma obrigação.
Porém, basta olhar o desempenho da seleção na Copa América para compreender que talvez sequer conseguíssemos nos classificar para a copa do mundo se não fôssemos os anfitriões.
Temos um técnico que passa por uma fase ruim, a fase dos jogadores brasileiros não é a desejável, não possuímos um centro-avante e um goleiro confiáveis; e, como se não bastasse, o Neymar, tenta ultrapassar o Kaká como o maior embuste do futebol de todos os tempos. Neymar NUNCA, NUNCA jogou bem contra uma boa defesa.
Aliás, o único jogador de ataque em que sinto confiança é o Hulk. Ademais, em minha singela opinião, todos têm muito mais nome que futebol.
“Falta muito para Neymar ser considerado um craque. Por quê?
O Neymar, que arrasa defensores na maioria dos jogos na Vila Belmiro (em minha opinião ele, até então, tem se revelado um jogador de Vila Belmiro) e que por essas atuações e alguns gols espetaculares é endeusado pela mídia, tratado como joia pelos dirigentes praianos (especialmente pelo LAOR, o presidente do Santos FC) é enaltecido ensandecidamente pelos torcedores mais jovens. Nunca brilhou, nunca teve atuação destacada e nunca fez gols maravilhosos quando teve de enfrentar equipes do primeiro escalão do futebol mundial. Ele vem acumulando fracassos, como na decisão do Mundial Interclubes entre Santos e Barcelona, na Copa América de 2011 e na Olímpiada de Londres. Nas seis partidas que a seleção brasileira disputou contra adversários que venceram a Copa do Mundo ao menos uma vez - ou os que estão entre os dez primeiros colocados do ranking da FIFA - e que contou com o Neymar em campo, o saldo foi de dois empates e quatro derrotas frente à Argentina (duas derrotas), França, Alemanha, Colômbia e Inglaterra. Nesses jogos, Neymar fez apenas dois gols. E tem mais: se ante adversários brasileiros Neymar dribla incessantemente (com adversários mais frágeis), tripudia, faz e acontece, aplica o drible "lambreta", sassarica, penteia a bola, faz malabarismos e outros 'quetais´', ele está bem longe de apresentar o mesmo desempenho nos grandes jogos da seleção brasileira.
O Neymar é um driblador emérito e incomparável, tem uma habilidade incrivelmente fantástica, é criativo, imaginativo, inovador, tem velocidade, controle de bola, bate bem tanto com a direita quanto com a esquerda (com a cabeça é um desastre), mas é demasiadamente personalista, individualista, prende exageradamente a bola, quer decidir tudo sozinho, dribla desnecessariamente em zona de perigo para sua defesa, fantasia demais os lances abusando dos efeitos especiais. É um craque na verdadeira acepção da palavra? Na minha opinião, ainda assim ele não pode ser considerado. Tem potencial para sê-lo, mas ele tem de ouvir mais as vozes experientes (não só de Pelé como também de Coutinho, que não aprecia nenhum pouco o garoto Neymar).
O Neymar mostra ser muito inteligente quando adia eventual ida para Europa (ele decididamente e os números são irrefutáveis, pois não está preparado para enfrentar a marcação praticada na Europa). A seleção brasileira em março enfrentará a seleção da Itália e este será um novo teste para o Neymar. Eu não acredito que ele brilhará. Devo lembrar que na derrota para a Inglaterra o Neymar não luziu e não pode nem alegar que sofreu marcação violenta e implacável, pois sofreu apenas uma falta durante todo o jogo (no Brasil sofre 11 ou 12 faltas por jogo porque é um "cai cai" e os juízes são complacentes com ele).
E o Neymar é bonzinho?
Em 02/10/2010, Neymar, junto com outros jogadores do Santos, se recusou a distribuir ovos de páscoa para crianças com deficiências físicas que eram cuidadas por uma instituição espírita (Mensageiros da Luz) alegando razões religiosas - ele e toda a família são evangélicos.
Em 15/09/2010, em jogo contra o Atlético Goianiense, ao receber ordens do técnico Dorival Junior para não bater o pênalti, Neymar rebelou-se, discutindo com o treinador. No vestiário, ele continuou com seu ato insolente atirando um copo isotônico no auxiliar do treinador.
Em 06/10/2011, após o jogo contra o Grêmio, em Porto Alegre, Neymar e outros jogadores, inobservando instruções do treinador Dorival Júnior, saíram para a balada. O treinador solicitou punições para Neymar e companheiros e não foi atendido.
Em 06/04/2011, em jogo na Vila Belmiro contra o Colo-Colo, do Chile, válido para pela Libertadores, Neymar foi expulso após comemorar seu gol com uma máscara com a sua foto que os dirigentes do Santos haviam distribuído aos torcedores.
Temporada de 2011: até o dia 16 de agosto de 2011, Neymar acumulava 14 cartões amarelos e apenas 13 gols. Tinha mais cartão amarelo que gols feitos. Em 2011, ele recebeu um cartão amarelo a cada dois jogos (o zagueiro Durval havia recebido cinco cartões em 44 jogos). As maiores punições do Neymar foram atribuídas a atitudes antidesportiva.
NEYMAR E O APOIO DA MÍDIA
Quando Neymar faz três gols, o que é uma raridade, a imprensa nacional faz um carnaval tremendo com o feito do atleta.
Só para constar, eu devo lembrar que Neymar, nesta sua curta carreira profissional (2009-2013), disputou 231 jogos e fez 158 gols - média de 0,68 gols por jogo - e em apenas em oito jogos fez mais de três gols (foram três em seis partidas, quatro em uma partida e cinco gols em outra). Só para ilustrar, eu devo lembrar que Pelé, com os mesmos quatro anos de carreira do Neymar (07/09/56 a 07/09/60) tinha feito mais de três gols em 36 jogos (três gols em 22 jogos, quatro gols em 13 jogos e cinco gols em um jogo). E com os mesmos 21 anos do Neymar, Pelé tinha feito três gols em 47 jogos (três gols em 28 jogos, quatro gols em 16 jogos e cinco gols em três jogos). Ele tem de ouvir o Pelé referencialmente, com respeito e divinização ou não? E esse Wagner Ribeiro tem mais é que enfiar o rabo entre as pernas, pois quer defender o indefensável tendo em mira justamente o Pelé.
Quando Neymar completou 21 anos, a imprensa alardeou com espetacularização que enquanto ele ao completar essa idade totalizava 152 gols, o Messi, com a mesma idade, havia feito apenas 40 gols. E o Pelé? É uma afronta fazermos comparações. Pelé, quando completou 21 anos em 23/10/1961, tinha totalizado 441 gols na carreira profissional. Muitos podem estrebuchar que não se trata de fazer comparações com o Pelé. Como? A revista "Time" exibiu a foto do Neymar na capa com a alusão ao novo Pelé (o Neymar diplomaticamente sempre refuta comparações). Quanto novos Pelés se tentou "fabricar" nos últimos 35 anos?
A mídia tem iludido aos mais inexperientes leitores (estes sequiosos por um endeusamento cada vez mais profundo de Neymar) fazendo supor que ele é o maior artilheiro do Santos após Pelé. Um ledo, tendencioso e grave equívoco: Pepe fez 405 gols em 750 jogos, média de 0,98 gols por jogo; Coutinho fez 370 gols em 457 jogos, média de 0,81 gols por jogo; Toninho Guerreiro fez 283 gols em 373 jogos, média de 0,76 gols por jogo; Feitiço fez 216 gols em 151 jogos, média de 1,43 gols por jogo; Dorval fez 198 gols em 612 jogos, média 0,32 gols por jogo;
Edu fez 183 gols em 584 jogos, média de 0,31 gols por jogo; Araken Patuska fez 177 gols em 193 jogos, média 0,92 gols por jogo; Pagão fez 159 gols em 345 jogos, média de 0,46 gols por jogo; Tite fez 151 gols em 475 jogos, média de 0,32 gols por jogo; Camarão 150 gols em 270 jogos, média de 0,56 gols por jogo ; Antoninho fez 145 gols em 400 jogos, média 0,36 gols por jogo. Odair "Titica" fez 134 gols em 225 jogos, média de 0,60 gols por jogo; Neymar fez 131 gols em 214 jogos, média de 0,61 gols por jogo.
Neymar é fruto do mais audacioso, arrojado, profundo e prodigioso plano de marketing que se ousou criar no mundo inteiro. E os marqueteiros podem se considerar os mais iluminados do planeta".
Comentário
Poucas esperanças tenho com relação ao título da seleção brasileira em 2014. Acho, aliás, que a seleção sucumbirá facilmente ante a imensa pressão que receberá – que será a maior de todos os tempos que uma seleção brasileira já recebeu.
A fala da torcida é clara: ganhar é uma obrigação.
Porém, basta olhar o desempenho da seleção na Copa América para compreender que talvez sequer conseguíssemos nos classificar para a copa do mundo se não fôssemos os anfitriões.
Temos um técnico que passa por uma fase ruim, a fase dos jogadores brasileiros não é a desejável, não possuímos um centro-avante e um goleiro confiáveis; e, como se não bastasse, o Neymar, tenta ultrapassar o Kaká como o maior embuste do futebol de todos os tempos. Neymar NUNCA, NUNCA jogou bem contra uma boa defesa.
Aliás, o único jogador de ataque em que sinto confiança é o Hulk. Ademais, em minha singela opinião, todos têm muito mais nome que futebol.
segunda-feira, 11 de março de 2013
A máquina do tempo - por Brian Weaver (Ilustração - site homônimo)
A primeira de uma série de três ilustrações retratando HG Wells, em seu livro A Máquina do Tempo.
Nesta cena, o viajante do tempo explica a seus convidados do jantar como ele criou um modelo da máquina do tempo (que pode ser visto descansando sobre a mesa octogonal).
Os argumentos do Viajante do Tempo sobre a viagem no tempo são recebidas com ceticismo pelos seus clientes até que ele puxa uma alavanca, branca pequena na máquina.
Chávez: o adeus a uma nêmesis do neoliberalismo – por Chris Nineham (Information Clearing House / Vila Vudu)
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| Chris Nineham |
Sua presença e sua política de esquerda já eram, elas mesmas, produto de ampla radicalização nos movimentos de base. As políticas neoliberais que Pinochet começou a implantar brutalmente no Chile nos anos 1970s, começaram a ser difundidas para todo o continente, a partir do início dos anos 1980. Na Venezuela, foi o Presidente Carlos Andrés Pérez quem introduziu o programa, gerido pelo FMI, “A Grande Virada”, no final dos anos 1980s. Entre 1981 e 1997, os 10% mais ricos na Venezuela viram sua fatia da renda bruta nacional crescer, de 22 para 33%. Os pobres venezuelanos responderam àquela “virada” com ocupações, protestos de massa e agitação: o “Caracazo”.
Inspirado por esses movimentos, o jovem Hugo Chávez, então jovem oficial do exército venezuelano, lançou uma tentativa de golpe, longamente planejada, em 1992. O golpe tinha apoio popular, mas foi contido pelo governo de Pérez. Ao ser preso, Chávez fez uma de suas típicas declarações de coragem: “Infelizmente”, disse, “não alcançamos, por hora, os objetivos que definimos. Novas possibilidades surgirão, e o país conseguirá andar na direção de futuro melhor”. Instantaneamente, a boina vermelha do uniforme do regimento de paraquedistas que Chávez usava e a expressão “por hora” tornaram-se símbolo de resistência para os pobres do país.
Marcha à esquerda
O golpe falhado desestabilizara o regime. A esquerda cresceu e a classe rica dividiu-se internamente. Chávez saiu da prisão em 1994 e lançou o Movimento 5ª República, que concorreu e venceu as eleições de 1998 e fez dele, filho de professores que sobreviviam com salários de miséria, o símbolo da oposição à austeridade que os EUA haviam conseguido impor ao país: era Presidente da Venezuela. Diferente de tantos líderes progressistas, Chávez moveu-se para a esquerda depois de eleito e empossado.
Um dos pontos cruciais desse processo foi a tentativa de golpe contra seu governo, em 2002. O golpe foi coordenado por generais, líderes religiosos e grandes empresários, com ativo apoio das empresas de imprensa e discretamente apoiado pelos EUA. Chávez foi sequestrado no palácio e levado de lá num helicóptero que decolou da cobertura do próprio prédio. Mas o golpe foi contido pela mobilização espontânea de dezenas de milhares de moradores dos barrios. Em cenas magnificamente gravadas e reunidas no documentário “Por dentro do golpe” [orig. Inside the Coup (2003), divulgado sob o título A revolução não será televisionada - assista logo abaixo edição legendada em português], a multidão cercou o palácio presidencial onde os líderes do golpe festejavam. À vista daquelas centenas de milhares de pessoas, o clima de festa mudou rapidamente. Houve negociações e Chávez foi trazido de volta ao palácio, no mesmo helicóptero que o sequestrara, para alegria da multidão.
http://youtu.be/MTui69j4XvQ
Uma segunda tentativa de golpe aconteceu no final daquele ano, ligada a um movimento de lockout das grandes petroleiras que operavam no país. Dessa vez, um movimento de massa de trabalhadores restabeleceu condições para que o governo, afinal, assumisse o controle sobre o petróleo nacional. Depois disso, e beneficiando-se dos preços crescentes do petróleo, Chávez lançou vários programas sociais que em muito melhoraram a vida dos pobres da Venezuela. Programas de moradias, de subsídios para alimentação, novos centros médicos e um programa de alfabetização em massa, todos organizados através de “missões” populares, e que tiveram impacto gigantesco na vida de milhões de pessoas. Quase metade da população, em momentos diferentes, por exemplo, passaram a receber subsídios estatais regulares para alimentação.
Chávez tomou, é claro, várias medidas para proteger-se contra golpes e golpistas. Mas o segredo de seu sucesso político nunca dependeu disso. Sempre foi homem de imensa energia. Manteve um programa semanal de televisão, “Alô Presidente”, no qual cantava, lia, contava histórias e falava, literalmente, por horas. Dizer que sabia falar ao povo é subquantificar e subqualificar esse processo. Mas nem por isso Chávez descuidou da atenção sempre ativa que sempre dedicou aos movimentos internacionais.
Conheci Chávez pessoalmente em 2006, como membro de uma delegação internacional de ativistas antiguerra. Típico dele, havia conseguido que Caracas recebesse aquela edição do Fórum Social Mundial, imenso conclave internacional antiglobalização. Falou-nos por quase uma hora, sobre socialismo, a história do movimento sindical nos EUA, as ideias de Chomsky, a questão campesina na América Latina e muito mais.
Entendia como poucos a dinâmica do imperialismo. Reconheceu, com alguma humildade, que a guerra do Iraque e os movimentos antiguerra dentro dos EUA haviam sido fatores determinantes, que de fato impediram que os EUA agissem mais ativa e mais diretamente contra seu governo
Eleito e reeleito
A imprensa o acusa de autoritarismo, provavelmente porque Chávez venceu mais eleições que qualquer outro presidente eleito, no mundo. Foi apoiado, consciente e profundamente por seus eleitores até seu último dia. Em dezembro passado, seu partido venceu as eleições regionais em todos os governoratos, exceto num. Hoje, até os jornalistas mais empenhados em derrotá-lo reconhecem que seu vice-presidente Nicolas Maduro dificilmente será derrotado nas novas eleições marcadas para dentro de 30 dias.
Chávez nunca atuou diretamente contra a elite de direita na Venezuela – nem por isso ela lhe fez oposição menos feroz. Quando nos recebeu, contou que o bem protegido palácio presidencial era o único local satisfatoriamente seguro, onde podia trabalhar. Sua força sempre veio de sua conexão com os pobres e os trabalhadores. Chávez foi presidente posto e mantido no poder por um sentimento popular de solidariedade, que periodicamente emergiu como movimento de massas. A continuação de seu trabalho e a transformação da sociedade venezuelana estão em andamento, longe de estarem concluídos e terão de continuar a ser disputadas. Chávez faz corar de vergonha muitos líderes ditos progressistas em todo o mundo, que se escondem atrás da opinião pública fabricada, para justificar a subserviência aos mercados e à direita reacionária. Provou que suas políticas radicais funcionam e geram votos. Mostrou que é possível – e muito popular – desafiar o império norte-americano.
É homem que será lembrado por muito tempo em cada esquina do mundo dos pobres [assim, portanto, os ricos não conseguirão esquecê-lo].
Comunicado da Vila Vudu: Aqui damos por encerrada a nossa homenagem ao Presidente Hugo Chávez Frías; todos trabalhamos sem parar durante mais de 48 horas, para encontrar e traduzir, distribuir e postar informação séria e pensamento progressista sobre o presidente Chávez. Pequena homenagem, para homem tão grandeOs pobres resistimos e vencemos, simplesmente, cada vez que não nos deixamos matar, nem calar, nem engambelar... Mas uma coisa é certa: em nenhum veículo da dita “grande imprensa” - a imunda imprensa-empresa brasileira - alguém encontrou melhores análises, melhor jornalismo e melhores comentários sobre o presidente Chávez, do que aqui, nessa blogosfera de trabalho comunista, voluntário e solidário, onde operamos. Só a luta ensina!
“Você é um donkey, Mister Bush”: uma seleção de frases de Chávez - por Diário do Centro do Mundo
Em homenagem ao falecido presidente venezuelano, o Diário organizou uma seleção de algumas de suas falas memoráveis.
1) “Cristóvão Colombo foi a ponta da lança da maior invasão e genocídio já visto na história da humanidade.”
2) “Eu não sou o demônio!”
3) “Ontem, o diabo veio aqui. E ainda sinto cheiro de enxofre”. ( A respeito do então presidente americano George W. Bush, em uma reunião da ONU em 2006.)
4) “Você se meteu comigo, passarinho. Você não sabe muito sobre história (…) O senhor possui uma grande ignorância, mister Danger. É um ignorante, mister Danger. É um burro (…) Para lhe dizer num inglês ruim: you are a donkey. Digo assim, para dizer com todas as letras a George W. Bush. You are a donkey, mister Bush (…) Você é um covarde. Por que não vai ao Iraque comandar suas forças armadas? É muito fácil comandar à distância. Se algum dia lhe ocorrer a loucura de invadir a Venezuela, lhe esperarei nessa savana, mister Danger. Come in here. Covarde, assassino, genocida. Você é um alcoólatra, um bêbado, mister Danger. É um imoral. É o pior que há, um assassino doentio.”
5) “Juro diante do meu povo que, sobre esta moribunda Constituição, farei cumprir, impulsionarei as transformações democráticas para que a república tenha uma nova Carta Magna adequada aos novos tempos.” – (Ao tomar posse, em 1999.)
6) “Sou um presidente aprisionado; não renunciei.” – (Durante um Golpe de Estado contra ele.)
8) “O neoliberalismo é o caminho que conduz ao inferno.”
9) “Ser rico é mau, é desumano. Assim eu digo, e condeno os ricos.” - (A empresários venezuelanos.)
10) “O senhor da guerra é Donald Rumsfeld, um dos cães do Inferno.” -(A respeito do Secretário da Defesa de Bush, Donald Rumsfeld.)
11) “Você é um peão imperialista… Vá direto para o inferno.” – (Ao então primeiro-ministro britânico Tony Blair.)
12) “Você é uma fraude, Obama… Vá e pergunte a várias pessoas na África, que podem ter acreditado em você por conta da cor de sua pele, porque seu pai era africano. Você pode ser um afro-descendente, mas é uma vergonha para todas aquelas pessoas.”
13) “Eu não acharia estranho caso houvesse vida em Marte, mas talvez o capitalismo tenha aparecido lá, o imperialismo tenha se instalado e acabado com o planeta.”
14) “Acho que estamos sofrendo de impotência política. Precisamos de um Viagra político.” (Em uma cúpula das nações sul-americanas em 2006.)
15) “Israel critica Hitler frequentemente, e nós também, mas eles fizeram algo muito similar.” – (Sobre Israel, durante uma visita ao Irã em 2006.)
16) “O papa não é nenhum embaixador de Cristo na Terra, como eles dizem. Pelo amor de Deus! O que é isso? Embaixador de Cristo… Cristo não precisa de embaixador, Cristo está no povo.”
17) “Você é o pai das revoluções neste continente, você é nosso pai.” - (Para Fidel Castro em uma viagem até Cuba, em 2007.)
18) “Eu lhes prometo que pelo menos farei o esforço de não ser tão, tão extenso.” - (Antes de seu discurso mais longo, de nove horas e meia.)
19) “A águia não caça a mosca.” – (Sobre um líder da oposição, no mesmo discurso.)
20) “Seria tão estranho que tivessem desenvolvido uma tecnologia para induzir o câncer e ninguém soubesse até agora, e se descubra isso dentro de 50 anos? Não sei, isso deixo para a reflexão.” – Deixando implícito que, talvez, a CIA tivesse envolvimento em sua doença
21) “Vão para o inferno, ianques de merda, aqui é lugar de um povo digno. Vão para o inferno centenas de vezes, nós somos os filhos de Bolívar!” – (Após expulsar o embaixador americano.)
22) “Bombeando os corajosos habitantes da Líbia para salvá-los? Ah, que estratégia brilhante lançada pelo Império insano. Onde estão os direitos internacionais? Isso é como a era do homem das cavernas.”
23) “Exijo respeito, porque eu também sou um chefe de Estado e eleito democraticamente. Ele (O rei) é tão chefe de Estado quanto eu, com a diferença de que fui eleito três vezes.” (Durante um ato acadêmico em uma universidade chilena, a respeito do rei Juan Carlos da Espanha.)
24) “Se eu me calar, gritariam as pedras dos povos da América Latina que estão dispostos a ser livres de todo o colonialismo após 500 anos de colonização.” (Resposta ao rei Juan Carlos da Espanha, que em uma cúpula lhe perguntou: ‘Por que não se cala?’)
25) “Seria mais fácil um burro passar por uma agulha do que a oposição ganhar essa eleição.” - Sobre as eleições de 2012
26) “Você tem o rabo de um porco, a orelha de um porco, você bufa como um porco, você é um porco desqualificado. Você é um porco, nem tente esconder.” Sobre o candidato da oposição, Capriles
27) “Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que num cenário que obrigaria a convocar de novo eleições presidenciais, vocês elejam Nicolas Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela. Eu lhes peço isso do fundo de meu coração.” – (Lançando Nicolas Maduro como possível sucessor.)
1) “Cristóvão Colombo foi a ponta da lança da maior invasão e genocídio já visto na história da humanidade.”
2) “Eu não sou o demônio!”
3) “Ontem, o diabo veio aqui. E ainda sinto cheiro de enxofre”. ( A respeito do então presidente americano George W. Bush, em uma reunião da ONU em 2006.)
4) “Você se meteu comigo, passarinho. Você não sabe muito sobre história (…) O senhor possui uma grande ignorância, mister Danger. É um ignorante, mister Danger. É um burro (…) Para lhe dizer num inglês ruim: you are a donkey. Digo assim, para dizer com todas as letras a George W. Bush. You are a donkey, mister Bush (…) Você é um covarde. Por que não vai ao Iraque comandar suas forças armadas? É muito fácil comandar à distância. Se algum dia lhe ocorrer a loucura de invadir a Venezuela, lhe esperarei nessa savana, mister Danger. Come in here. Covarde, assassino, genocida. Você é um alcoólatra, um bêbado, mister Danger. É um imoral. É o pior que há, um assassino doentio.”
5) “Juro diante do meu povo que, sobre esta moribunda Constituição, farei cumprir, impulsionarei as transformações democráticas para que a república tenha uma nova Carta Magna adequada aos novos tempos.” – (Ao tomar posse, em 1999.)
6) “Sou um presidente aprisionado; não renunciei.” – (Durante um Golpe de Estado contra ele.)
8) “O neoliberalismo é o caminho que conduz ao inferno.”
9) “Ser rico é mau, é desumano. Assim eu digo, e condeno os ricos.” - (A empresários venezuelanos.)
10) “O senhor da guerra é Donald Rumsfeld, um dos cães do Inferno.” -(A respeito do Secretário da Defesa de Bush, Donald Rumsfeld.)
11) “Você é um peão imperialista… Vá direto para o inferno.” – (Ao então primeiro-ministro britânico Tony Blair.)
12) “Você é uma fraude, Obama… Vá e pergunte a várias pessoas na África, que podem ter acreditado em você por conta da cor de sua pele, porque seu pai era africano. Você pode ser um afro-descendente, mas é uma vergonha para todas aquelas pessoas.”
13) “Eu não acharia estranho caso houvesse vida em Marte, mas talvez o capitalismo tenha aparecido lá, o imperialismo tenha se instalado e acabado com o planeta.”
14) “Acho que estamos sofrendo de impotência política. Precisamos de um Viagra político.” (Em uma cúpula das nações sul-americanas em 2006.)
15) “Israel critica Hitler frequentemente, e nós também, mas eles fizeram algo muito similar.” – (Sobre Israel, durante uma visita ao Irã em 2006.)
16) “O papa não é nenhum embaixador de Cristo na Terra, como eles dizem. Pelo amor de Deus! O que é isso? Embaixador de Cristo… Cristo não precisa de embaixador, Cristo está no povo.”
17) “Você é o pai das revoluções neste continente, você é nosso pai.” - (Para Fidel Castro em uma viagem até Cuba, em 2007.)
18) “Eu lhes prometo que pelo menos farei o esforço de não ser tão, tão extenso.” - (Antes de seu discurso mais longo, de nove horas e meia.)
19) “A águia não caça a mosca.” – (Sobre um líder da oposição, no mesmo discurso.)
20) “Seria tão estranho que tivessem desenvolvido uma tecnologia para induzir o câncer e ninguém soubesse até agora, e se descubra isso dentro de 50 anos? Não sei, isso deixo para a reflexão.” – Deixando implícito que, talvez, a CIA tivesse envolvimento em sua doença
21) “Vão para o inferno, ianques de merda, aqui é lugar de um povo digno. Vão para o inferno centenas de vezes, nós somos os filhos de Bolívar!” – (Após expulsar o embaixador americano.)
22) “Bombeando os corajosos habitantes da Líbia para salvá-los? Ah, que estratégia brilhante lançada pelo Império insano. Onde estão os direitos internacionais? Isso é como a era do homem das cavernas.”
23) “Exijo respeito, porque eu também sou um chefe de Estado e eleito democraticamente. Ele (O rei) é tão chefe de Estado quanto eu, com a diferença de que fui eleito três vezes.” (Durante um ato acadêmico em uma universidade chilena, a respeito do rei Juan Carlos da Espanha.)
24) “Se eu me calar, gritariam as pedras dos povos da América Latina que estão dispostos a ser livres de todo o colonialismo após 500 anos de colonização.” (Resposta ao rei Juan Carlos da Espanha, que em uma cúpula lhe perguntou: ‘Por que não se cala?’)
25) “Seria mais fácil um burro passar por uma agulha do que a oposição ganhar essa eleição.” - Sobre as eleições de 2012
26) “Você tem o rabo de um porco, a orelha de um porco, você bufa como um porco, você é um porco desqualificado. Você é um porco, nem tente esconder.” Sobre o candidato da oposição, Capriles
27) “Minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que num cenário que obrigaria a convocar de novo eleições presidenciais, vocês elejam Nicolas Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela. Eu lhes peço isso do fundo de meu coração.” – (Lançando Nicolas Maduro como possível sucessor.)
Congresso vira um picadeiro: cadê os partidos? – por Ricardo Kotscho (Balaio do Kotscho)
Daqui a pouco o presidente do Senado, Renan Calheiros, deverá informar o resultado da votação dos royalties. Foi uma lavada: 54 dos 63 senadores presentes e 349 dos 405 deputados derrubaram os vetos da presidente Dilma Rousseff ao projeto de lei aprovado pelo Congresso sobre a nova distribuição dos royalties do petróleo.
Foi a primeira votação e a primeira derrota do governo este ano no Congresso, onde a base aliada de Dilma tem, teoricamente, ampla maioria, tanto na Câmara como no Senado.
Os três Estados produtores - Rio, Espírito Santo e São Paulo -, que terão prejuízos bilionários com a nova lei, já anunciaram que recorrerão ao Supremo Tribunal Federal.
Deboche, bate-boca interminável, parlamentares aboletados na mesa diretora, cercando e xingando o presidente Renan Calheiros, bancadas se retirando do plenário, vaias, gritos _ um grande picadeiro foi montado no Congesso Nacional, na noite de quarta-feira, durante a votação dos vetos da presidente Dilma Rousseff ao projeto de redistribuição dos royaltines do petróleo.
Ao final de quatro horas de discussões, a esculhambação era geral, e o cenário, desolador. Nem o resultado da votação conseguiram anunciar, mas uma coisa é certa: a derrubada dos vetos levará, mais uma vez, um embate entre o Executivo e o Legislativo para o Supremo Tribunal Federal.
A judicialização da política é apenas sintoma de um problema maior: a falência dos partidos políticos, tanto do governo como da oposição. Qual a posição do PT de Dilma sobre os royalties do petróleo? Do PMDB de Temer, do PSDB de Aécio, do PSB de Eduardo Campos? Estão todos mais preocupados com 2014, ninguém quer entrar em bola dividida.
Cadê os partidos nestas horas em que ninguém é de ninguém, só interessa o aqui e agora, o meu pirão primeiro? O fato é que nessa geléia geral partidária, ninguém mais pensa nos problemas do país do presente, muito menos nos desafios do futuro. Acima de tudo, estão os interesses pessoais, locais, regionais, pela ordem.
"Isso é uma vergonha! Não vamos participar desta sessão", gritou o deputado Hugo Leal (PSC-RJ), enquanto deixava o plenário junto com o restante da bancada carioca.
"Vai lá pra baixo, se não vou suspender a sessão", ordenou Renan Calheiros a Anthony Garotinho (PR-RJ), que chegou a tomar o microfone das mãos do presidente do Senado.
Poucas horas antes, em cerimonia no Palácio do Planalto, a presidente Dilma tinha feito um derradeiro apelo aos parlamentares para defender a destinação dos royalties do petróleo para a educação.
"Vocês me perdoem, mas destinar os royalties do petróleo, as participações especiais e tudo o que o petróleo arrecadar para a educação é condição para o país mudar de patamar".
A presidente falou em vão. Quem está preocupado com isso? No meio da confusão, o mais comportado parecia ser o deputado Tiririca (PR-SP), palhaço por profissão e um deputado exemplar, que se limitava a segurar uma plaquinha em que se lia: "Não ao veto. Royalties para todos!"
Comentário
Também houve recentemente um grande protesto das centrais sindicais em Brasília, onde as principais pautas foram o fim do fator previdenciário e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.
Os congressistas, claro, não estavam nem aí para os trabalhadores. Só querem é dinheiro – bem sabemos para que.
Foi a primeira votação e a primeira derrota do governo este ano no Congresso, onde a base aliada de Dilma tem, teoricamente, ampla maioria, tanto na Câmara como no Senado.
Os três Estados produtores - Rio, Espírito Santo e São Paulo -, que terão prejuízos bilionários com a nova lei, já anunciaram que recorrerão ao Supremo Tribunal Federal.
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Deboche, bate-boca interminável, parlamentares aboletados na mesa diretora, cercando e xingando o presidente Renan Calheiros, bancadas se retirando do plenário, vaias, gritos _ um grande picadeiro foi montado no Congesso Nacional, na noite de quarta-feira, durante a votação dos vetos da presidente Dilma Rousseff ao projeto de redistribuição dos royaltines do petróleo.
Ao final de quatro horas de discussões, a esculhambação era geral, e o cenário, desolador. Nem o resultado da votação conseguiram anunciar, mas uma coisa é certa: a derrubada dos vetos levará, mais uma vez, um embate entre o Executivo e o Legislativo para o Supremo Tribunal Federal.
A judicialização da política é apenas sintoma de um problema maior: a falência dos partidos políticos, tanto do governo como da oposição. Qual a posição do PT de Dilma sobre os royalties do petróleo? Do PMDB de Temer, do PSDB de Aécio, do PSB de Eduardo Campos? Estão todos mais preocupados com 2014, ninguém quer entrar em bola dividida.
Cadê os partidos nestas horas em que ninguém é de ninguém, só interessa o aqui e agora, o meu pirão primeiro? O fato é que nessa geléia geral partidária, ninguém mais pensa nos problemas do país do presente, muito menos nos desafios do futuro. Acima de tudo, estão os interesses pessoais, locais, regionais, pela ordem.
"Isso é uma vergonha! Não vamos participar desta sessão", gritou o deputado Hugo Leal (PSC-RJ), enquanto deixava o plenário junto com o restante da bancada carioca.
"Vai lá pra baixo, se não vou suspender a sessão", ordenou Renan Calheiros a Anthony Garotinho (PR-RJ), que chegou a tomar o microfone das mãos do presidente do Senado.
Poucas horas antes, em cerimonia no Palácio do Planalto, a presidente Dilma tinha feito um derradeiro apelo aos parlamentares para defender a destinação dos royalties do petróleo para a educação.
"Vocês me perdoem, mas destinar os royalties do petróleo, as participações especiais e tudo o que o petróleo arrecadar para a educação é condição para o país mudar de patamar".
A presidente falou em vão. Quem está preocupado com isso? No meio da confusão, o mais comportado parecia ser o deputado Tiririca (PR-SP), palhaço por profissão e um deputado exemplar, que se limitava a segurar uma plaquinha em que se lia: "Não ao veto. Royalties para todos!"
Comentário
Também houve recentemente um grande protesto das centrais sindicais em Brasília, onde as principais pautas foram o fim do fator previdenciário e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.
Os congressistas, claro, não estavam nem aí para os trabalhadores. Só querem é dinheiro – bem sabemos para que.
domingo, 10 de março de 2013
Hugo Chávez – por Paulo Moreira Leite (IstoÉ)
Como tantos personagens da América Latina, Hugo Chávez morreu como objeto da história.
Não teve direito a contar sua própria versão dos fatos. Não foi ouvido nem pôde explicar-se. Foi explicado, analisado e julgado – por adversários e inimigos.
Num continente onde a elite política convive com a má consciência de quem nada fez de relevante pela melhoria das condições de vida do povo, mas nem por isso abre mão de 100% do conforto que só um imenso egoísmo social permite, o combate a toda liderança nascida fora de seu berço é uma necessidade permanente.
Se ainda em 2012, 58 anos depois daquele tiro no peito, ainda se publicam livros em que Getúlio Vargas é chamado de fascista, salazarista, franquista...
Sabemos o que se faz com Lula. Imagine-se o que será feito com Chávez.
Embora um de seus antecessores estivesse na lista de autoridades pagas pela CIA, Chávez é chamado de inimigo da democracia.
Embora tenha sido vítima de um golpe de Estado articulado por empresários e militares conservadores e com apoio imediato de Washington, foi chamado de autoritário. Fez um governo que pela primeira vez enfrentou um ambiente de desigualdade social histórica e foi chamado de populista. Melhorou a saúde pública, especialmente os índices de mortalidade infantil, para patamares aplaudidos pela OMS. Foi chamado de demagogo.
A retórica é conhecida. Para se recordar que há muito a ser feito – o que é certíssimo –, tenta-se minimizar o pouco que conseguiu ele realizar, ainda que este seja essencial para quem não tinha nada.
É um problema de ponto de vista. É assim na história daqueles que não conseguiram o direito de narrá-la. Mas algo está mudando e Chávez, com suas qualidades e seus defeitos, é parte dessa novidade. Sempre se evitará comparar Hugo Chávez com seus adversários, por uma razão muito simples.
Na soma de qualidades e defeitos, acertos, erros e desastres, seus antecessores foram muito piores. E é por isso que, mesmo com inflação alta, crescimento baixo e até falta de comida em determinados momentos, nunca deixou de vencer eleições, cuja legitimidade sempre foi reconhecida por observadores isentos, como Jimmy Carter.
A falta de espelho permite grandes atrocidades – morais, políticas, históricas – sem que seja possível corar de vergonha.
Não teve direito a contar sua própria versão dos fatos. Não foi ouvido nem pôde explicar-se. Foi explicado, analisado e julgado – por adversários e inimigos.
Num continente onde a elite política convive com a má consciência de quem nada fez de relevante pela melhoria das condições de vida do povo, mas nem por isso abre mão de 100% do conforto que só um imenso egoísmo social permite, o combate a toda liderança nascida fora de seu berço é uma necessidade permanente.
Se ainda em 2012, 58 anos depois daquele tiro no peito, ainda se publicam livros em que Getúlio Vargas é chamado de fascista, salazarista, franquista...
Sabemos o que se faz com Lula. Imagine-se o que será feito com Chávez.
Embora um de seus antecessores estivesse na lista de autoridades pagas pela CIA, Chávez é chamado de inimigo da democracia.
Embora tenha sido vítima de um golpe de Estado articulado por empresários e militares conservadores e com apoio imediato de Washington, foi chamado de autoritário. Fez um governo que pela primeira vez enfrentou um ambiente de desigualdade social histórica e foi chamado de populista. Melhorou a saúde pública, especialmente os índices de mortalidade infantil, para patamares aplaudidos pela OMS. Foi chamado de demagogo.
A retórica é conhecida. Para se recordar que há muito a ser feito – o que é certíssimo –, tenta-se minimizar o pouco que conseguiu ele realizar, ainda que este seja essencial para quem não tinha nada.
É um problema de ponto de vista. É assim na história daqueles que não conseguiram o direito de narrá-la. Mas algo está mudando e Chávez, com suas qualidades e seus defeitos, é parte dessa novidade. Sempre se evitará comparar Hugo Chávez com seus adversários, por uma razão muito simples.
Na soma de qualidades e defeitos, acertos, erros e desastres, seus antecessores foram muito piores. E é por isso que, mesmo com inflação alta, crescimento baixo e até falta de comida em determinados momentos, nunca deixou de vencer eleições, cuja legitimidade sempre foi reconhecida por observadores isentos, como Jimmy Carter.
A falta de espelho permite grandes atrocidades – morais, políticas, históricas – sem que seja possível corar de vergonha.
Prédio da OAB-RJ é evacuado após explosão; Ordem liga ataques a militares - por Terra
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| Prédio da OAB no Rio de Janeiro foi esvaziado após explosão, na tarde desta quinta-feira Foto: Luiz Roberto Lima / Futura Press |
A sede da seccional do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), no Centro, foi evacuada por recomendação do Corpo de Bombeiros, que teria recebido, através de uma denúncia anônima, a informação de que três bombas haviam sido escondidas no prédio. Um artefato explosivo não identificado explodiu na escadaria do edifício, entre o 8º e o 9º andares, mas ninguém ficou ferido.
De acordo com a nota oficial divulgada pela Ordem, a explosão ocorreu por volta das 15h50 e não provocou danos. O Corpo de Bombeiros e o Esquadrão Antibombas da Polícia Civil se dirigiram ao local.
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| Esquadrão anti-bomba Foto: Luiz Roberto Lima / Futura Press |
"Nós vivemos sob uma democracia e episódios como este não são aceitáveis. Agora vamos cobrar uma resposta da investigação", disse Santa Cruz. A Polícia Civil levou para análise não apenas o artefato que explodiu, que seria de festim, como outros dois que foram encontrados, mas não chegaram a ser acionados. Agentes da Polícia Federal também estiveram no prédio, mas não quiseram dar declarações.
Os bombeiros e policiais isolaram o prédio e ainda não deram maiores detalhes sobre o caso.
Com informações do Jornal do Brasil.
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| Presidente da OAB-RJ em frente à sede da entidade Foto: Mauro Pimentel / Terra |
Tudo como dantes no quartel de Abrantes.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Uma agenda à procura de um partido - por Saul Leblon (Carta Maior)
O PT não ganhou com a saída de Marina Silva, que deixou o partido em agosto de 2009.
E Marina ainda precisa provar que a ruptura fortaleceu a agenda ambiental no país.
O debate sobre o tema guarda silencio obsequioso no interior do partido desde então.
Mas mereceu sintomática salvaguarda de princípios nas conclusões do seu IV Congresso, em 2011:
"O Brasil não tratará a questão ambiental como apêndice, senão como parte essencial, de seu projeto de desenvolvimento. Como socialistas democráticos, queremos uma alternativa de civilização ao capitalismo".
Talvez tenha chegado a hora inadiável de adicionar nervos e musculatura a essa declaração de intenções.
Quatro anos e 18 milhões de votos depois, obtidos na campanha presidencial de 2010, Marina articula um novo partido.
A 'Rede' flerta com a trama evanescente da 'terceira via verde'.
Nem de esquerda, nem de direita. Nem situação, nem oposição.
Há um tipo de neutralidade que só enxerga os erros da esquerda.
E costuma rejuvenescer o cardápio da direita, sempre que esta se ressente de espaços e agendas para retomar a disputa pelo poder.
Não será algo propriamente inédito se vier a ocorrer de novo.
No México, os ambientalistas do Partido Verde Ecologista (PVEM), apoiaram o candidato vitorioso da direita, Henrique Peña Nieto, do PRI, contra Obrador.
Na Venezuela, o Movimento Ecológico Venezuelano entregou-se de corpo e alma à candidatura do engomadinho Henrique Capriles Randonski, com a qual golpistas de ontem testam a versão jovem' de hoje.
Em São Paulo, o PV apoiou José Serra, em 2010.
Em Salvador, embarcou na candidatura vitoriosa do demo Antonio Carlos Magalhães Neto, nas eleições municipais do ano passado.
O ziguezague verde reflete a dificuldade histórica de uma agenda complacente.
Ela agrega desde rótulos espertos de detergentes de limpeza, a militantes sinceros da resistência à destruição da natureza.
O ambientalismo precisa decidir se quer ser um rótulo, uma tecnologia ou uma proposta de nova sociedade.
Quer ser um guia de boas maneiras para o 'capitalismo sustentável'; ou um projeto alternativo à lógica desenfreada da exploração da natureza e do trabalho.
Não são escolhas postergáveis.
O mesmo se pode dizer em relação às do PT.
A dissociação entre a sigla e o empenho específico em evitar que a humanidade seja jogada a um ponto de não retorno no século 21, não deixa o partido em situação propriamente confortável.
Agora mais do que nunca.
Não se trata apenas de precificar o prejuízo eleitoral da 'Rede' – que existe
É mais grave que isso.
Agudiza-se um desafio objetivo, sobre o qual o partido não tem refletido nem avançado.
A saída em massa dos ambientalistas abriu um buraco na evolução do seu discernimento histórico e programático.
Perdeu-se a virtuosa tensão de um convívio e de um debate incômodo, inconcluso, nem sempre conduzido com habilidade, mas crucial.
Perdeu-se o sentido de urgência na construção das linhas de passagem que devem conduzir a um ponto de encontro entre socialismo, desenvolvimento, democracia e sociedade sustentável.
A história não oferece o mapa pronto de caminhos ainda não trilhados.
Tropeços são inevitáveis.
Mas ignorar as urgências sistêmicas escancaradas pela desordem do capitalismo, desde 2008, equivale a adotar como bússola os rótulos oportunistas das ''empresas ambientalmente responsáveis'.
Vive-se um crepúsculo histórico.
O colapso financeiro e a multiplicação de eventos climáticos extremos são evidencias de uma exaustão que atinge ao mesmo tempo a economia, a sociedade e a civilização.
Mas que tem um determinante claro.
A supremacia do capital financeiro – negligenciada pelos adeptos da 'terceira via'.
Ela condiciona todo o cálculo econômico com a ganância intrínseca a uma lógica dissociada da produção. Indiferente à sorte da sociedade.
É o moinho satânico do nosso tempo.
Taxas de retorno incompatíveis com a exploração sustentável dos recursos naturais – de ciclo mais lento e mais longo – tornaram-se o paradigma de um regime de extorsão insaciável.
Ele se instalou no metabolismo da economia, da sociedade e da natureza.
Dá as ordens no terreiro globalizado.
A voragem do capital fictício encontra na ganância dos acionistas um roteador à altura na esfera da produção.
Sob ameaça de migrar para opções especulativas de maior retorno, exige-se a maximização permanente dos dividendos pagos pelas corporações.
A espoliação irradia-se das plantas produtivas ao chão dos direitos sociais ('o custo Brasil').
Até contaminar as conexões com as reservas que formam as fontes da vida na Terra.
Dissemina-se um padrão globalizado de retorno financeiro, incompatível com a manutenção dos valores compartilhados que ordenam a vida em sociedade e com as taxas de regeneração dos sistemas naturais.
A dissociação entre socialismo e ambientalismo configura-se uma contradição nos seus próprios termos.
A atrofia de um desarma e derrota o outro.
E vice-versa.
Acenada por ambientalistas simpáticos à 'terceira via', a bandeira do 'não crescimento' elide a essência predatória do sistema de produção de mercadorias.
Em vez de respostas, atualiza velhas perguntas dirigidas às utopias centristas.
Quem decidirá o quê e quanto a sociedade vai produzir, ou deixar de produzir?
Que tipo de Estado é necessário para viabilizar esse planejamento?
Quais critérios definirão o rateio sustentável dos recursos entre nações e dentro de cada nação?
Como serão superadas as desigualdades históricas acumuladas até o presente?
A tese do não crescimento responde aos desequilíbrios sociais e ambientais tanto quanto a panaceia do crescimento é sinônimo de justiça social.
Não isenta o PT de responsabilidade na formulação desses contrapontos, o fato de ser o guarda-chuva de um governo de coalizão.
Distinguir entre 'consumismo' e sociedade justa, por exemplo, e extrair consequências práticas disso é obrigação de um partido de esquerda.
A década de governos do PT tirou 50 milhões de brasileiros da miséria.
Nunca é demais reiterar aquilo que desespera o conservadorismo: isso mudou a geografia política do país. Talvez de forma irreversível nos marcos da legalidade.
O que mais o PT tem a dizer a esse universo que ascendeu ao consumo e, sobretudo, como pretende chegar a ele?
Há nessa pergunta uma arguição sobre o que o partido entende por sociedade sustentável e justa.
O PT já foi capaz de respostas ousadas no passado, sendo depositário de um salto significativo na história da consciência ambiental.
A travessia se deu na prática.
Interior da Amazônia brasileira; anos 70/80.
Chico Mendes (1944-1988), associado às pastorais da terra, vinculou então, pioneiramente, a defesa da floresta à luta contra a miséria e a opressão.
Rompeu-se aí uma tradição preservacionista europeia, branca, elitista e excludente.
No limite, ela preconizava o ostracismo de populações pobres para salvar paisagens.
Políticas bem sucedidas de combate ao desmatamento (que caiu 75% na Amazônia nos últimos 4 anos e 50% no Cerrado); avanços significativos na expansão de reservas indígenas; incentivos às fontes renováveis de energia e zoneamentos agrícolas, como o da cana-de-açúcar, sucederam-se a esse salto nos dois governos Lula.
Nunca mais, porém, desde o estirão percorrido por Chico Mendes, houve um aprofundamento estratégico da interação entre desenvolvimento, justiça social e sociedade sustentável.
O maniqueísmo que marcou o debate sobre o papel das hidrelétricas na matriz brasileira de energia, ilustra o ônus decorrente do espaço exíguo reservado a essa reflexão. Dentro e fora do PT.
O saldo é desconcertante: reservatórios reduzidos das hidrelétricas atendem ao clamor ambiental; mas exigem a ativação permanente de termelétricas,de alto teor poluente...
Mitigar o cerco conservador ao governo Lula, com respostas rápidas, explica uma parte da atrofia do debate e do programa nessa esfera.
Mas nada justifica que o tema ambiental continue engavetado na prateleira dos desafios remotos.
Não é um problema brasileiro. A abrangência planetária apenas reforça a urgência de ação enquanto o mundo ainda rasteja em postergações.
O sopro da barbárie já respira entre nós.
Administrações de grandes manchas urbanas pagam o preço mais alto por essa convivência incômoda.
Picos de calor que costumavam ocorrer uma vez a cada 20 anos, obedecem agora a um padrão anual e bianual.
A informação é da Nasa.
No seu rastro, multiplicam-se eventos extremos de brutal teor destrutivo.
Populações das metrópoles, cada vez mais castigadas pela nova regularidade das descidas ao inferno, vão cobrar respostas estruturais de um poder público despreparado para fornecê-las.
O que os partidos de esquerda têm a dizer em seu socorro? O que tem a propor para ordenar a discussão na sociedade?
A equação é mais complexa do que a nova contabilidade eleitoral gerada pelo surgimento da ‘Rede’.
Há uma agenda à procura de um protagonista.
A mera recitação de boas intenções, como as do IV Congresso do PT, não basta para contemplá-la.
Todo o desafio da política é dar respostas coerentes com os princípios, no tempo certo dos acontecimentos, dentro da relação de forças existente.
É honesto admitir que nem o PT, nem a Rede, de Marina, ou a esquerda de um modo geral, têm propostas críveis para o desafio ambiental que atendam a essa consistência prática.
O V Congresso do PT, em fevereiro de 2014, ganhará muito em relevância política se for antecedido de um debate estratégico.
Que avance com desassombro sobre essa que é a mais importante fronteira de atualização do campo da esquerda em nosso tempo: o ponto de encontro entre socialismo e desenvolvimento sustentável.
A Fundação Perseu Abramo, o think tank do PT, desempenharia um papel encorajador se exercitasse essa reflexão reavivando o debate ambiental no interior do partido.
A partir de seminários tão ecumênicos quanto a complexidade dos desafios a serem tratados.
E Marina ainda precisa provar que a ruptura fortaleceu a agenda ambiental no país.
O debate sobre o tema guarda silencio obsequioso no interior do partido desde então.
Mas mereceu sintomática salvaguarda de princípios nas conclusões do seu IV Congresso, em 2011:
"O Brasil não tratará a questão ambiental como apêndice, senão como parte essencial, de seu projeto de desenvolvimento. Como socialistas democráticos, queremos uma alternativa de civilização ao capitalismo".
Talvez tenha chegado a hora inadiável de adicionar nervos e musculatura a essa declaração de intenções.
Quatro anos e 18 milhões de votos depois, obtidos na campanha presidencial de 2010, Marina articula um novo partido.
A 'Rede' flerta com a trama evanescente da 'terceira via verde'.
Nem de esquerda, nem de direita. Nem situação, nem oposição.
Há um tipo de neutralidade que só enxerga os erros da esquerda.
E costuma rejuvenescer o cardápio da direita, sempre que esta se ressente de espaços e agendas para retomar a disputa pelo poder.
Não será algo propriamente inédito se vier a ocorrer de novo.
No México, os ambientalistas do Partido Verde Ecologista (PVEM), apoiaram o candidato vitorioso da direita, Henrique Peña Nieto, do PRI, contra Obrador.
Na Venezuela, o Movimento Ecológico Venezuelano entregou-se de corpo e alma à candidatura do engomadinho Henrique Capriles Randonski, com a qual golpistas de ontem testam a versão jovem' de hoje.
Em São Paulo, o PV apoiou José Serra, em 2010.
Em Salvador, embarcou na candidatura vitoriosa do demo Antonio Carlos Magalhães Neto, nas eleições municipais do ano passado.
O ziguezague verde reflete a dificuldade histórica de uma agenda complacente.
Ela agrega desde rótulos espertos de detergentes de limpeza, a militantes sinceros da resistência à destruição da natureza.
O ambientalismo precisa decidir se quer ser um rótulo, uma tecnologia ou uma proposta de nova sociedade.
Quer ser um guia de boas maneiras para o 'capitalismo sustentável'; ou um projeto alternativo à lógica desenfreada da exploração da natureza e do trabalho.
Não são escolhas postergáveis.
O mesmo se pode dizer em relação às do PT.
A dissociação entre a sigla e o empenho específico em evitar que a humanidade seja jogada a um ponto de não retorno no século 21, não deixa o partido em situação propriamente confortável.
Agora mais do que nunca.
Não se trata apenas de precificar o prejuízo eleitoral da 'Rede' – que existe
É mais grave que isso.
Agudiza-se um desafio objetivo, sobre o qual o partido não tem refletido nem avançado.
A saída em massa dos ambientalistas abriu um buraco na evolução do seu discernimento histórico e programático.
Perdeu-se a virtuosa tensão de um convívio e de um debate incômodo, inconcluso, nem sempre conduzido com habilidade, mas crucial.
Perdeu-se o sentido de urgência na construção das linhas de passagem que devem conduzir a um ponto de encontro entre socialismo, desenvolvimento, democracia e sociedade sustentável.
A história não oferece o mapa pronto de caminhos ainda não trilhados.
Tropeços são inevitáveis.
Mas ignorar as urgências sistêmicas escancaradas pela desordem do capitalismo, desde 2008, equivale a adotar como bússola os rótulos oportunistas das ''empresas ambientalmente responsáveis'.
Vive-se um crepúsculo histórico.
O colapso financeiro e a multiplicação de eventos climáticos extremos são evidencias de uma exaustão que atinge ao mesmo tempo a economia, a sociedade e a civilização.
Mas que tem um determinante claro.
A supremacia do capital financeiro – negligenciada pelos adeptos da 'terceira via'.
Ela condiciona todo o cálculo econômico com a ganância intrínseca a uma lógica dissociada da produção. Indiferente à sorte da sociedade.
É o moinho satânico do nosso tempo.
Taxas de retorno incompatíveis com a exploração sustentável dos recursos naturais – de ciclo mais lento e mais longo – tornaram-se o paradigma de um regime de extorsão insaciável.
Ele se instalou no metabolismo da economia, da sociedade e da natureza.
Dá as ordens no terreiro globalizado.
A voragem do capital fictício encontra na ganância dos acionistas um roteador à altura na esfera da produção.
Sob ameaça de migrar para opções especulativas de maior retorno, exige-se a maximização permanente dos dividendos pagos pelas corporações.
A espoliação irradia-se das plantas produtivas ao chão dos direitos sociais ('o custo Brasil').
Até contaminar as conexões com as reservas que formam as fontes da vida na Terra.
Dissemina-se um padrão globalizado de retorno financeiro, incompatível com a manutenção dos valores compartilhados que ordenam a vida em sociedade e com as taxas de regeneração dos sistemas naturais.
A dissociação entre socialismo e ambientalismo configura-se uma contradição nos seus próprios termos.
A atrofia de um desarma e derrota o outro.
E vice-versa.
Acenada por ambientalistas simpáticos à 'terceira via', a bandeira do 'não crescimento' elide a essência predatória do sistema de produção de mercadorias.
Em vez de respostas, atualiza velhas perguntas dirigidas às utopias centristas.
Quem decidirá o quê e quanto a sociedade vai produzir, ou deixar de produzir?
Que tipo de Estado é necessário para viabilizar esse planejamento?
Quais critérios definirão o rateio sustentável dos recursos entre nações e dentro de cada nação?
Como serão superadas as desigualdades históricas acumuladas até o presente?
A tese do não crescimento responde aos desequilíbrios sociais e ambientais tanto quanto a panaceia do crescimento é sinônimo de justiça social.
Não isenta o PT de responsabilidade na formulação desses contrapontos, o fato de ser o guarda-chuva de um governo de coalizão.
Distinguir entre 'consumismo' e sociedade justa, por exemplo, e extrair consequências práticas disso é obrigação de um partido de esquerda.
A década de governos do PT tirou 50 milhões de brasileiros da miséria.
Nunca é demais reiterar aquilo que desespera o conservadorismo: isso mudou a geografia política do país. Talvez de forma irreversível nos marcos da legalidade.
O que mais o PT tem a dizer a esse universo que ascendeu ao consumo e, sobretudo, como pretende chegar a ele?
Há nessa pergunta uma arguição sobre o que o partido entende por sociedade sustentável e justa.
O PT já foi capaz de respostas ousadas no passado, sendo depositário de um salto significativo na história da consciência ambiental.
A travessia se deu na prática.
Interior da Amazônia brasileira; anos 70/80.
Chico Mendes (1944-1988), associado às pastorais da terra, vinculou então, pioneiramente, a defesa da floresta à luta contra a miséria e a opressão.
Rompeu-se aí uma tradição preservacionista europeia, branca, elitista e excludente.
No limite, ela preconizava o ostracismo de populações pobres para salvar paisagens.
Políticas bem sucedidas de combate ao desmatamento (que caiu 75% na Amazônia nos últimos 4 anos e 50% no Cerrado); avanços significativos na expansão de reservas indígenas; incentivos às fontes renováveis de energia e zoneamentos agrícolas, como o da cana-de-açúcar, sucederam-se a esse salto nos dois governos Lula.
Nunca mais, porém, desde o estirão percorrido por Chico Mendes, houve um aprofundamento estratégico da interação entre desenvolvimento, justiça social e sociedade sustentável.
O maniqueísmo que marcou o debate sobre o papel das hidrelétricas na matriz brasileira de energia, ilustra o ônus decorrente do espaço exíguo reservado a essa reflexão. Dentro e fora do PT.
O saldo é desconcertante: reservatórios reduzidos das hidrelétricas atendem ao clamor ambiental; mas exigem a ativação permanente de termelétricas,de alto teor poluente...
Mitigar o cerco conservador ao governo Lula, com respostas rápidas, explica uma parte da atrofia do debate e do programa nessa esfera.
Mas nada justifica que o tema ambiental continue engavetado na prateleira dos desafios remotos.
Não é um problema brasileiro. A abrangência planetária apenas reforça a urgência de ação enquanto o mundo ainda rasteja em postergações.
O sopro da barbárie já respira entre nós.
Administrações de grandes manchas urbanas pagam o preço mais alto por essa convivência incômoda.
Picos de calor que costumavam ocorrer uma vez a cada 20 anos, obedecem agora a um padrão anual e bianual.
A informação é da Nasa.
No seu rastro, multiplicam-se eventos extremos de brutal teor destrutivo.
Populações das metrópoles, cada vez mais castigadas pela nova regularidade das descidas ao inferno, vão cobrar respostas estruturais de um poder público despreparado para fornecê-las.
O que os partidos de esquerda têm a dizer em seu socorro? O que tem a propor para ordenar a discussão na sociedade?
A equação é mais complexa do que a nova contabilidade eleitoral gerada pelo surgimento da ‘Rede’.
Há uma agenda à procura de um protagonista.
A mera recitação de boas intenções, como as do IV Congresso do PT, não basta para contemplá-la.
Todo o desafio da política é dar respostas coerentes com os princípios, no tempo certo dos acontecimentos, dentro da relação de forças existente.
É honesto admitir que nem o PT, nem a Rede, de Marina, ou a esquerda de um modo geral, têm propostas críveis para o desafio ambiental que atendam a essa consistência prática.
O V Congresso do PT, em fevereiro de 2014, ganhará muito em relevância política se for antecedido de um debate estratégico.
Que avance com desassombro sobre essa que é a mais importante fronteira de atualização do campo da esquerda em nosso tempo: o ponto de encontro entre socialismo e desenvolvimento sustentável.
A Fundação Perseu Abramo, o think tank do PT, desempenharia um papel encorajador se exercitasse essa reflexão reavivando o debate ambiental no interior do partido.
A partir de seminários tão ecumênicos quanto a complexidade dos desafios a serem tratados.
Opressivo e cinzento? Não, crescer no comunismo foi a época mais feliz de minha vida - por Zsuzsanna Clark (Dailymail - Diário Liberdade)
Quando as pessoas me perguntam como era crescer atrás da Cortina de Ferro, na Hungria nos anos setenta e oitenta, a maioria espera escutar contos sobre polícia secreta, as filas nas padarias e outras declarações desagradáveis sobre a vida em um Estado de partido único.
Eles ficam sempre desapontados quando explico que a realidade era muito diferente, e a Hungria comunista, longe de ser o inferno na terra, era, na verdade, um ótimo local para viver. Os comunistas proporcionavam a todos com trabalho garantido, boa educação e atendimento médico gratuito.
Mas talvez o melhor de tudo fosse a sensação primordial da camaradagem, o espírito que falta em minha adotada Grã-Bretanha e, de igual forma, a cada vez que volto à Hungria atual.
Eu nasci em uma família de classe trabalhadora em Esztergom, uma cidade no norte da Hungria, em 1968. Minha mãe, Juliana, veio do este do país, a parte mais pobre. Nascida em 1939, teve uma infância dura. Deixou a escola aos 11 anos e foi diretamente trabalhar nos campos. Ela recorda ter tido que se levantar às 4 da manhã para caminhar cinco quilômetros e comprar um pão. De menina, ela tinha tanta fome que com frequência esperavam junto à galinha até que pusesse um ovo. Então abria-o e engoliam, crua, a gema e a clara.
Foi o descontentamento com aquelas condições dos primeiros anos do comunismo, que conduziu à revolta húngara de 1956.
Os distúrbios fizeram com que as lideranças comunistas compreendessem que só poderiam consolidar suas posições tornando as nossas vidas mais toleráveis. O estalinismo acabou e o 'comunismo goulash' -um tipo original de comunismo liberal- chegou.
Janos Kadar, o novo líder do país, transformou a Hungria na barraca mais feliz do Leste da Europa. Tínhamos provavelmente mais liberdades que em qualquer outro país comunista.
Uma das melhores coisas foi a maneira como as oportunidades de lazer e férias se abriram a todos. Antes da Segunda Guerra Mundial, as férias estavam reservadas para as classes altas e médias. Nos imediatos anos da pós-guerra também, a maioria dos húngaros estava trabalhando muito duro para reconstruir o país, as férias ficavam fora de questão.
Porém, nos anos sessenta, como em muitos outros aspectos da vida, as coisas mudaram para melhor. No final da década, quase todo mundo podia se dar ao luxo de viajar, graças à rede de subsídios a sindicatos, empresas e cooperativas de centros de férias.
Meus pais trabalhavam em Dorog, uma cidade próxima, por Hungaroton, uma companhia discográfica de propriedade estatal, de modo que ficamos no acampamento de férias da fábrica no lago Balaton, 'o mar húngaro'. O acampamento era similar à espécie de colônias de férias na moda na Grã-Bretanha da época, a única diferença era que os hóspedes tinham que fazer seu próprio entretenimento às noites. Nom havia campos de férias tipo Butlins Redcoats.
Algumas das minhas primeiras lembranças da vida no lar são os animais que meus pais mantinham no quintal. A cria de animais era algo que a maioria da gente fazia, bem como o cultivo de hortaliças. Fora de Budapeste e as grandes cidades, nós éramos uma nação de "Tom e Barbara Goods". (nota: referência à série da BBC dos anos 70 'The Good Life', protagonizada por uma família auto-suficiente)
Meus pais tinham por volta de 50 frangos, porcos, coelhos, patos, pombos e gansos. Mantivemos os animais não só para alimentar a nossa família, como também para vender a carne a nossos amigos. Utilizaram-se as penas de ganso para travesseiros e edredões.
O governo entendeu o valor da educação e da cultura. Antes da chegada do comunismo, as oportunidades para os filhos dos camponeses e da classe operária urbana, como eu, para ascender na escala educativa eram limitadas. Tudo isso mudou após a guerra.
O sistema educativo na Huntria era similar ao existente no Reino Unido na época. A Educação Secundária era dividida por níveis: Elementar, Secundário Especializado e Formação Profissional. As principais diferenças eram que estávamos no Ensino Básico até os 14 anos e nom até os 11.
Havia também ensino noturno, para crianças e para pessoas adultas. Os meus pais, que tinham abandonado a escola de novos, iam a aulas de Matemática, História e Literatura Húngara e Gramática.
Eu adorava os ir à escola e principalmente fazer parte dos Pioneiros - um movimento comum a todos os países comunistas.
Muitos em Ocidente achavam que era uma burda tentativa de doutrinar a juventude com a ideologia comunista, mas sendo pioneiros ensinaram-nos habilidades valiosas para a vida, tais como a cultura da amizade e a importância de trabalharmos para o benefício da comunidade. "Juntos um para o outro" era nosso lema, e assim foi como se nos encorajava a pensar.
Como pioneiro, se obtinha bons resultados em teus estudos, no trabalho comunal ou em competições escolarres, podia ser premiado com uma viagem a um acampamento de verão. Eu ia todos os anos, porque participava em quase todas as atividades da escola: competições, ginástica, atletismo, coro, fotografia, literatura e biblioteca.
Em nossa última noite no acampamento de Pioneiros, cantávamos canções ao redor da fogueira, como o Hino Pioneiro: 'Mint a mokus fenn a fan, az uttoro oly vidam' ("Somos tão felizes como um esquilo em uma árvore"), e outras canções tradicionais. Nossos sentimentos sempre foram misturados: tristeza ante a perspetiva de irmos embora, mas contentes ante a ideia de vermos nossas famílias.
Hoje em dia, inclusive os que não se consideram comunistas olham para atrás com saudade para seus dias de pioneiros.
As escolas húngaras não seguiam as chamadas ideias "progressistas" sobre a educação dominantes na altura em Ocidente. Os padrões acadêmicos eram extremamente altos e a disciplina era estrita.
Minha professora favorita ensinou-nos que sem o domínio da gramática húngara iriamos carecer de confiança para articular os nossos pensamentos e sentimentos. Só podíamos dar um erro se queríamos atingir a nota mais alta.
Diferentemente do Reino Unido, tínhamos exames orais em todas as matérias. Em Literatura, por exemplo, tínhamos que memorizar e recitar diferentes textos e depois a/o estudante teria que responder perguntas colocadas oralmente pola professora.
Sempre que tínhamos uma celebração nacional, eu era das que pediam para recitar um poema ou verso em frente de toda a escola. A Cultura era considerada extremamente importante pelo governo. Os comunistas não queriam restringir as coisas boas da vida para as classes altas e médias - o melhor da música, a literatura e a dança eram para o desfrute de todos.
Isto significava subsídios generosos para as instituições, incluindo orquestras, óperas, teatros e cinemas. Os preços dos ingressos eram subsidiados pelo Estado, daí que as visitas à ópera e ao teatro fossem acessíveis.
Abriram-se "Casas da Cultura" em cada vila e cidade, também provinciais, para que a classe trabalhadora, como meus pais, pudessem ter fácil acesso às artes cênicas, bem como aos melhores intérpretes.
A programação na televisão húngara refletia a prioridade do regime para levar a cultura às massas, sem estupidização.
Quando eu era adolescente, a noite do sábado em prime time pelo geral significava ver uma aventura de Jules Verne, um recital de poesia, um espetáculo de variedades, uma obra de teatro ao vivo, ou um simples filme de Bud Spencer.
Grande parte da televisão húngara era feita com produção própria, mas alguns programas de qualidade eram importados, não unicamente do Bloco do Leste, mas também do Oeste.
Os húngaros de inícios dos anos 70 acompanharam as aventuras e tribulações de Soames Forsyte em The Forsyte Saga, tal como o público britânico tinha feito poucos anos antes. The Onedin Line foi uma outra das séries populares da BBC que eu desfrutei, assim como os documentários de David Attenborough.
No entanto, o governo estava atento ao perigo de nos tornarmos uma nação de televidentes imbecilizados.
Todas as segundas-feiras, tínhamos 'noite familiar'. Aí a televisão estatal ficava fora do ar e isso encorajava as famílias a fazerem outras coisas juntas. Também era chamada "noite dos planos familiares" e eu tenho certeza que um estudo do número de crianças concebidas durante as segundas-feiras familiares seria uma boa leitura.
Ainda que vivêssemos no 'comunismo goulash' e tivéssemos sempre comida suficiente para comer, não eramos bombardeados com publicidade de produtos que não precisávamos.
Durante a minha juventude, vesti roupas em segunda mão, como a maior parte das pessoas novas. A minha mochila escolar era da fábrica onde meus pais trabalhavam. Que diferença com a Hungria de hoje, onde as crianças são intimidadas, tal como no Reino Unido, por usarem uns ténis da "pior" marca.
Como a maioria da gente na era comunista, meu pai não tinha obsessão com o dinheiro. Como mecânico, ele cobrava às pessoas com justiça. Uma vez vi um carro avariado com o capô aberto - um espetáculo que sempre o fazia reagir. Pertencia a um turista da Alemanha Ocidental. Meu pai arranjou o carro, mas negou-se a cobrar-lhe, nem que fosse com uma garrafa de cerveja. Para ele era natural que a ninguém pudesse aceitar dinheiro por ajudar a alguém com problemas.
Quando o comunismo na Hungria terminou em 1989, não só fui surpreendida, também estava entristecida, tal como muitos outros. Sim, tinha gente se manifestando contra o governo, mas a maioria das pessoas comuns - eu e minha família incluída - não participou nos protestos.
Nossa voz - a voz daqueles cujas vidas foram melhoradas pelo comunismo - rara vez se escuta quando se trata de discussões sobre como era a vida por trás da Cortina de Ferro. Em troca, os relatos que se escutam no Occidente são quase sempre da perspetiva de emigrantes ricos ou dos dissidentes anticomunistas com um interesse pessoal.
O comunismo na Hungria teve seu lado negativo. Enquanto as viagens a outros países socialistas não tinham nenhuma restrição, viajar para o oeste era problemático e só era permitido a cada dois anos. Poucos húngaros (eu incluída) desfrutaram das aulas de russo obrigatórias.
Tinha restrições menores e desnecessários setores burocráticos, e a liberdade para criticar o governo estava limitada. No entanto, apesar disto, acho que, em seu conjunto, as caraterísticas positivas ultrapassam as negativas.
Vinte anos depois, a maior parte destes benefícios foram destruídos.
As pessoas já não têm estabilidade no emprego. A pobreza e a delinquência vão em aumento. Pessoas da classe trabalhadora já não podem se dar ao luxo de ir à ópera ou ao teatro. Tal como na Grã-Bretanha, a televisão atonta em um grau preocupante - ironicamente, nunca tivemos Big Brother durante o comunismo, mas hoje temos. E o mais triste de tudo, o espírito de camaradagem que uma vez se desfrutou quase desapareceu.
Nas últimas duas décadas é possível que tenhamos aumentado o número de shoppings, a "democracia" multipartidarista, os celulares e a internet. Mas perdemos muito mais.
Eles ficam sempre desapontados quando explico que a realidade era muito diferente, e a Hungria comunista, longe de ser o inferno na terra, era, na verdade, um ótimo local para viver. Os comunistas proporcionavam a todos com trabalho garantido, boa educação e atendimento médico gratuito.
Mas talvez o melhor de tudo fosse a sensação primordial da camaradagem, o espírito que falta em minha adotada Grã-Bretanha e, de igual forma, a cada vez que volto à Hungria atual.
| A autora do artigo, Zsuzsanna Clark, como estudante de Ensino Primário na Hungria socialista |
Foi o descontentamento com aquelas condições dos primeiros anos do comunismo, que conduziu à revolta húngara de 1956.
Os distúrbios fizeram com que as lideranças comunistas compreendessem que só poderiam consolidar suas posições tornando as nossas vidas mais toleráveis. O estalinismo acabou e o 'comunismo goulash' -um tipo original de comunismo liberal- chegou.
Janos Kadar, o novo líder do país, transformou a Hungria na barraca mais feliz do Leste da Europa. Tínhamos provavelmente mais liberdades que em qualquer outro país comunista.
Uma das melhores coisas foi a maneira como as oportunidades de lazer e férias se abriram a todos. Antes da Segunda Guerra Mundial, as férias estavam reservadas para as classes altas e médias. Nos imediatos anos da pós-guerra também, a maioria dos húngaros estava trabalhando muito duro para reconstruir o país, as férias ficavam fora de questão.
Porém, nos anos sessenta, como em muitos outros aspectos da vida, as coisas mudaram para melhor. No final da década, quase todo mundo podia se dar ao luxo de viajar, graças à rede de subsídios a sindicatos, empresas e cooperativas de centros de férias.
Meus pais trabalhavam em Dorog, uma cidade próxima, por Hungaroton, uma companhia discográfica de propriedade estatal, de modo que ficamos no acampamento de férias da fábrica no lago Balaton, 'o mar húngaro'. O acampamento era similar à espécie de colônias de férias na moda na Grã-Bretanha da época, a única diferença era que os hóspedes tinham que fazer seu próprio entretenimento às noites. Nom havia campos de férias tipo Butlins Redcoats.
Algumas das minhas primeiras lembranças da vida no lar são os animais que meus pais mantinham no quintal. A cria de animais era algo que a maioria da gente fazia, bem como o cultivo de hortaliças. Fora de Budapeste e as grandes cidades, nós éramos uma nação de "Tom e Barbara Goods". (nota: referência à série da BBC dos anos 70 'The Good Life', protagonizada por uma família auto-suficiente)
Meus pais tinham por volta de 50 frangos, porcos, coelhos, patos, pombos e gansos. Mantivemos os animais não só para alimentar a nossa família, como também para vender a carne a nossos amigos. Utilizaram-se as penas de ganso para travesseiros e edredões.
O governo entendeu o valor da educação e da cultura. Antes da chegada do comunismo, as oportunidades para os filhos dos camponeses e da classe operária urbana, como eu, para ascender na escala educativa eram limitadas. Tudo isso mudou após a guerra.
O sistema educativo na Huntria era similar ao existente no Reino Unido na época. A Educação Secundária era dividida por níveis: Elementar, Secundário Especializado e Formação Profissional. As principais diferenças eram que estávamos no Ensino Básico até os 14 anos e nom até os 11.
Havia também ensino noturno, para crianças e para pessoas adultas. Os meus pais, que tinham abandonado a escola de novos, iam a aulas de Matemática, História e Literatura Húngara e Gramática.
Eu adorava os ir à escola e principalmente fazer parte dos Pioneiros - um movimento comum a todos os países comunistas.
Muitos em Ocidente achavam que era uma burda tentativa de doutrinar a juventude com a ideologia comunista, mas sendo pioneiros ensinaram-nos habilidades valiosas para a vida, tais como a cultura da amizade e a importância de trabalharmos para o benefício da comunidade. "Juntos um para o outro" era nosso lema, e assim foi como se nos encorajava a pensar.
| Com 14 anos, a Zsuzsanna (à direita) com uma amiga ainda antes da volta da Hungria ao capitalismo. |
Em nossa última noite no acampamento de Pioneiros, cantávamos canções ao redor da fogueira, como o Hino Pioneiro: 'Mint a mokus fenn a fan, az uttoro oly vidam' ("Somos tão felizes como um esquilo em uma árvore"), e outras canções tradicionais. Nossos sentimentos sempre foram misturados: tristeza ante a perspetiva de irmos embora, mas contentes ante a ideia de vermos nossas famílias.
Hoje em dia, inclusive os que não se consideram comunistas olham para atrás com saudade para seus dias de pioneiros.
As escolas húngaras não seguiam as chamadas ideias "progressistas" sobre a educação dominantes na altura em Ocidente. Os padrões acadêmicos eram extremamente altos e a disciplina era estrita.
Minha professora favorita ensinou-nos que sem o domínio da gramática húngara iriamos carecer de confiança para articular os nossos pensamentos e sentimentos. Só podíamos dar um erro se queríamos atingir a nota mais alta.
Diferentemente do Reino Unido, tínhamos exames orais em todas as matérias. Em Literatura, por exemplo, tínhamos que memorizar e recitar diferentes textos e depois a/o estudante teria que responder perguntas colocadas oralmente pola professora.
Sempre que tínhamos uma celebração nacional, eu era das que pediam para recitar um poema ou verso em frente de toda a escola. A Cultura era considerada extremamente importante pelo governo. Os comunistas não queriam restringir as coisas boas da vida para as classes altas e médias - o melhor da música, a literatura e a dança eram para o desfrute de todos.
Isto significava subsídios generosos para as instituições, incluindo orquestras, óperas, teatros e cinemas. Os preços dos ingressos eram subsidiados pelo Estado, daí que as visitas à ópera e ao teatro fossem acessíveis.
Abriram-se "Casas da Cultura" em cada vila e cidade, também provinciais, para que a classe trabalhadora, como meus pais, pudessem ter fácil acesso às artes cênicas, bem como aos melhores intérpretes.
A programação na televisão húngara refletia a prioridade do regime para levar a cultura às massas, sem estupidização.
Quando eu era adolescente, a noite do sábado em prime time pelo geral significava ver uma aventura de Jules Verne, um recital de poesia, um espetáculo de variedades, uma obra de teatro ao vivo, ou um simples filme de Bud Spencer.
Grande parte da televisão húngara era feita com produção própria, mas alguns programas de qualidade eram importados, não unicamente do Bloco do Leste, mas também do Oeste.
Os húngaros de inícios dos anos 70 acompanharam as aventuras e tribulações de Soames Forsyte em The Forsyte Saga, tal como o público britânico tinha feito poucos anos antes. The Onedin Line foi uma outra das séries populares da BBC que eu desfrutei, assim como os documentários de David Attenborough.
No entanto, o governo estava atento ao perigo de nos tornarmos uma nação de televidentes imbecilizados.
Todas as segundas-feiras, tínhamos 'noite familiar'. Aí a televisão estatal ficava fora do ar e isso encorajava as famílias a fazerem outras coisas juntas. Também era chamada "noite dos planos familiares" e eu tenho certeza que um estudo do número de crianças concebidas durante as segundas-feiras familiares seria uma boa leitura.
Ainda que vivêssemos no 'comunismo goulash' e tivéssemos sempre comida suficiente para comer, não eramos bombardeados com publicidade de produtos que não precisávamos.
Durante a minha juventude, vesti roupas em segunda mão, como a maior parte das pessoas novas. A minha mochila escolar era da fábrica onde meus pais trabalhavam. Que diferença com a Hungria de hoje, onde as crianças são intimidadas, tal como no Reino Unido, por usarem uns ténis da "pior" marca.
Como a maioria da gente na era comunista, meu pai não tinha obsessão com o dinheiro. Como mecânico, ele cobrava às pessoas com justiça. Uma vez vi um carro avariado com o capô aberto - um espetáculo que sempre o fazia reagir. Pertencia a um turista da Alemanha Ocidental. Meu pai arranjou o carro, mas negou-se a cobrar-lhe, nem que fosse com uma garrafa de cerveja. Para ele era natural que a ninguém pudesse aceitar dinheiro por ajudar a alguém com problemas.
Quando o comunismo na Hungria terminou em 1989, não só fui surpreendida, também estava entristecida, tal como muitos outros. Sim, tinha gente se manifestando contra o governo, mas a maioria das pessoas comuns - eu e minha família incluída - não participou nos protestos.
Nossa voz - a voz daqueles cujas vidas foram melhoradas pelo comunismo - rara vez se escuta quando se trata de discussões sobre como era a vida por trás da Cortina de Ferro. Em troca, os relatos que se escutam no Occidente são quase sempre da perspetiva de emigrantes ricos ou dos dissidentes anticomunistas com um interesse pessoal.
O comunismo na Hungria teve seu lado negativo. Enquanto as viagens a outros países socialistas não tinham nenhuma restrição, viajar para o oeste era problemático e só era permitido a cada dois anos. Poucos húngaros (eu incluída) desfrutaram das aulas de russo obrigatórias.
Tinha restrições menores e desnecessários setores burocráticos, e a liberdade para criticar o governo estava limitada. No entanto, apesar disto, acho que, em seu conjunto, as caraterísticas positivas ultrapassam as negativas.
Vinte anos depois, a maior parte destes benefícios foram destruídos.
As pessoas já não têm estabilidade no emprego. A pobreza e a delinquência vão em aumento. Pessoas da classe trabalhadora já não podem se dar ao luxo de ir à ópera ou ao teatro. Tal como na Grã-Bretanha, a televisão atonta em um grau preocupante - ironicamente, nunca tivemos Big Brother durante o comunismo, mas hoje temos. E o mais triste de tudo, o espírito de camaradagem que uma vez se desfrutou quase desapareceu.
Nas últimas duas décadas é possível que tenhamos aumentado o número de shoppings, a "democracia" multipartidarista, os celulares e a internet. Mas perdemos muito mais.
O mito da tributação elevada no Brasil - por Marcio Pochmann (Folha)
As especificidades do Brasil dificultam comparações. Cabem duas observações que desconstroem o mito da tributação elevada
O tema relativo ao peso dos impostos, taxas e contribuições no Brasil permanece ainda sendo tratado na superfície. A identificação de que a carga tributária supera 35% do PIB (Produto Interno Bruto) é um simples registro, insuficiente, por si só, para permitir comparações adequadas com outros países. Ou seja, mencionar que o Brasil possui carga tributária de país rico, embora se situe no bloco das nações de renda intermediária, ajuda pouco, quando não confunde o entendimento a respeito das especificidades nacionais. Elas dificultam análises comparativas internacionais e exigem maior investigação.
Por causa disso, cabem, pelo menos, duas observações principais que terminam por desconstruir o mito da tributação elevada no Brasil.
Em primeiro lugar, a observação de que os impostos, taxas e contribuições incidem regressivamente sobre os brasileiros. Como o país mantém uma péssima repartição da renda e riqueza, há segmentos sociais que praticamente não sentem o peso da tributação, ao contrário de outros submetidos ao fardo muito expressivo da arrecadação fiscal.
Os ricos brasileiros quase não pagam impostos, taxas e contribuições.
Os 10% mais ricos, que concentram três quartos de toda a riqueza do país, estão praticamente imunizados contra o vírus da tributação, seja pela falta de impostos que incidam direta e especialmente sobre eles - como o tributo sobre grandes fortunas-, seja porque contam com assessorias sofisticadas para encontrar brechas legais para planejar ganhos quase ausentes de impostos, taxas e contribuições.
Já os pobres não têm escapatória, pois estão condenados a compartilhar suas reduzidas rendas com o financiamento do Estado brasileiro. Isso porque a tributação brasileira é pesadamente indireta, ou seja, arrecada a maior parte em impostos sobre produtos e serviços - portanto, pesa mais para quem ganha menos.
Além disso, há uma tributação direta, sobre renda e bens, muito "tímida" em termos de progressividade. O Imposto de Renda, que, nos EUA, tem cinco faixas e alíquotas de até 40% e, na França, 12 faixas com até 57%, no Brasil tem apenas duas, com alíquota máxima de 27,5%. Aqui, impostos sobre patrimônio, como IPTU ou ITR, nem progressividade têm.
As habitações dos mais pobres, por exemplo, pagam, proporcionalmente à renda, mais tributos em geral do que aqueles que residem nas mansões, enquanto os grandes proprietários de terra convivem com impostos reduzidos e decrescentes.
Aqueles com renda acima de R$ 3.900 contribuem apenas com 23%.
No entanto, quem vive com renda média mensal de R$ 73 transfere um terço para a receita tributária.
Em síntese, a pobreza no Brasil não implica somente a insuficiência de renda para sobreviver, mas também a condição de pagar mais impostos, taxas e contribuições.
Em segundo lugar, a observação de que a carga tributária corresponde à capacidade efetiva de gasto da administração pública brasileiro, conforme comparações internacionais indicam ser. No Brasil, a cada R$ 3 arrecadados pela tributação, somente R$ 1 termina sendo alocado livremente pelos governantes.
Isso porque, uma vez arrecadado, configurando a carga tributária bruta, há a quase imediata devolução a determinados segmentos sociais na forma de subsídios, isenções, transferências sociais e pagamento dos juros do endividamento público.
Noutras palavras, R$ 2 de cada R$ 3 arrecadados só passeiam pela esfera pública antes de retornar imediata e diretamente aos ricos (recebimento de juros da dívida), às empresas (subsídios e incentivos) e aos beneficiários de aposentadorias e pensões.
Assim, o uso da carga tributária bruta no Brasil se transforma num indicador pouco eficaz para aferir o peso real da tributação.
Talvez o mais adequado possa ser análises sobre a carga tributária líquida, que é aquela que, de fato, indica a magnitude efetiva dos impostos, taxas e contribuições relativamente ao tamanho da renda dos brasileiros, pois é com essa quantia que os governantes conduzem (bem ou mal) o conjunto das políticas públicas.
Nesse sentido, a tributação elevada é um mito no Brasil. A carga tributária líquida permanece estabilizada em 12% do PIB já faz tempo. O que tem aumentado mesmo são impostos, taxas e contribuições que, uma vez arrecadados, são imediatamente devolvidos, o que impede de serem considerados efetivamente como peso da tributação elevada.
Marcio Pochmann, 46, economista, professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).
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