sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sobre a ida de Kassab para o PMDB - por Andre Araujo (blog do Nassif)

Cada análise ruim, cruz credo. O PT mostraria inteligência se ajudasse Serra a ser tudo. Ele é a chave para o PT continuar no poder por mais oito anos. Serra racha e divide por onde passa, desagrega, confunde, é o cavalo de tróia do PT na oposição.
Já o campo da ""base aliada"" está armando uma operação GOL CONTRA da pior qualidade, patrocinando a ida de Kassab para o PMDB para ser candidato a Governador de SP pelo PMDB com o possível apoio do PT. Kassab é muito ruim, é péssimo. É o pior prefeito de São Paulo nos últimos 50 anos.
A cidade de São Paulo está em um momento critico, precisa de um líder com visão de futuro, que pense a cidade para os próximos 20 anos, que perceba sua vocação e suas limitações, São Paulo caminha na direção de Londres e Nova York, para ser um centro mundial de serviços financeiros, de moda, de turismo de negócios, de cultura e lazer, mas essa conversão exige planejamento, organização, boa gestão. Kassab é o nada, não tem um secretario ou um administrador de alto nível, não tem um urbanista para organizar o caos urbano, sua especialidade é o conchavinho com vereadores, coisa miúda, enquanto nada fez joga contra o munícipe paulistano uma sanha arrecadatória jamais vista, multas de trânsito numa escala nunca antes tentada, não para organizar o transito, mas apenas para arrecadar, nada é investido no transito, nos farois, num plano viário mais moderno. Kassab não tem um único secretário conhecido, apresentável, com perfil de grande administrador, nenhum, só nulidades completamente desconhecidas, coisa rara em São Paulo, outros Prefeitos sempre tiveram algumas estrelas no Secretariado, é uma metrópole muito importante para não ter cara alguma na Prefeitura.
São Paulo ainda funciona pelo resultado de três grandes intervenções antigas no tecido urbano, a de Prestes Maia que pensou e implementou as grandes avenidas cruciais de fundo de vale, do Coronel Fontenelle, diretor do trânsito no tempo do governo militar, cuja plano viário é o que ainda hoje funciona e o Prefeito Paulo Maluf, que fez avenidas fundamentais para a São Paulo moderna, a extensão da JK, a Helio Pelegrino, o prolongamento da Faria Lima, a Roberto Marinho, túneis de excelente qualidade sob o Rio Pinheiros, a Jacu Pêssego, foi um prefeito realizador, a despeito dos problemas com a Justiça.
A ida de Kassab para o PMDB, partido nascido da oposição ao regime militar, sendo ele Kassab o dono inconteste e presidente do antigo PFL de São Paulo, o partido nascido do apoio ao regime militar, mostra a absoluta inconsistência ideológica desse tipo de político que tanto pode estar na extrema direita como na esquerda, tanto faz, não tem programa, não tem linha política, não tem proposta alguma, é só manipulação de máquina partidária para ocupar postos, que destino cruel para São Paulo, quem será que rogou essa praga para a grande metrópole mundial? São Paulo no momento definidor de seu futuro não tem cérebros pensantes vocacionados para essa grande tarefa. São Paulo e seus onze milhões de habitantes não merecem isso, a cidade que tem a maior concentração de executivos de classe mundial do País não tem para sua gestão nada alem de mediocridades assustadoras.

Comentário
Saudades da época em que a então deputada Rita Camata, que à época freqüentava as hostes do PMDB, tentou ingressar no PT. Ela sempre votou contra FHC, e, tanto por isto, pleiteou junto a Lula o ingresso no PT – e este aderiu. Porém, o PT era outro, tanto no Brasil quanto no Espírito Santo, e por isso barrou o ingresso da deputada, devido a nebulosidade que sua biografia apresenta.
Mais adiante, com uma tremenda cara de pau que notabiliza a política tupiniquim, ela foi candidata a vice na chapa guiada por José Serra (em sua primeira fragorosa derrota presidencial), sendo que havia sido do “PMDB de oposição” durante todo o mandato de FHC. Foi escolhida, obviamente, porque era um “rostinho bonito” ante a expressão intragável do cabeça de chapa.
Observava-se com este tipo de comportamento, uma coerência petista – e um acerto neste tipo de decisão, já que a própria postura da Rita Camata (que hoje, pasmem, é do PSDB – e tomou uma surra na última eleição para o senado) evidenciava como é improfícuo admitir para seus quadros pessoas que não possuem vínculos ideológicos claros.
Agora por outro lado... vê-se a degradação cada vez mais clara da ideologia (que torna-se quase um palavrão na política).
A vinda de Kassab para a “bancada governista” é um desastre sobre qualquer ponto de vista.
Exceto para o da esperteza.

Quem herda a Satiagraha - por H. C. Paes (blog do Nassif)

Vai ser engraçado se Mazloum for para a sexta criminal. Quanto à decisão sobre a Satiagraha, pode ser que o juiz substituto, Marcelo Costenaro Cavali, tenha tempo de emitir o julgamento antes que o novo titular chegue. Ele é da turma do de Sanctis, podemos ficar tranqüilos.
De Sanctis vai para a quinta turma, que freqüentemente é quem recebe as apelações da sexta criminal. Ou seja, se Mazloum fizer muita besteira, de Sanctis terá a oportunidade de reformar algumas delas.
Vamos esperar. No momento, há quatro titulares de varas criminais com mais antiguidade que Mazloum, e que teriam prerrogativa sobre ele no concurso de remoção:
- O primeiro juiz logo abaixo de Sanctis, Nino Oliveira Toldo, que é ou foi vice-presidente da Ajufe, é o titular da décima criminal. Uma rápida busca na Internet mostra que ele parece ser alvo da contrariedade do Conjur, o que fala a favor dele. Se quiser, ele assume a sexta criminal.
- Toru Yamamoto (terceira criminal, logo em seguida a Toldo). Tanto ele quanto Toldo se inscreveram no concurso de antigüidade que resultou na promoção de De Sanctis. Logo, têm interesse no desembargo. Yamamoto parece gente boa, foi quem condenou os réus do escândalo do Banco Econômico. Também revogou a prisão preventiva de sindicalistas recentemente (mas não sei detalhes, nem todo sindicalista é santo; a notícia é da Folha, logo devemos encará-la com suspeita).
- Adriana Pileggi de Soveral (oitava criminal, catorze degraus abaixo de Yamamoto). Essa é polêmica: foi mencionada na Satiagraha como fonte de vazamentos para Dantas, e já andou sendo investigada por improbidade administrativa. Um processo contra ela chegou ao STJ. Ela foi inocentada. A bem de se evitar uma crucificção pública, não pesam condenações sobre ela.
- Sílvia Maria Rocha (segunda criminal, logo abaixo de Soveral e logo acima de Mazloum). Foi quem tentou tirar o processo contra Dantas das mãos de De Sanctis. Também suspendeu ações contra Paulo Maluf.
Ou seja, Mazloum é a menor de nossas preocupações. E se Soveral decidir concorrer à sexta vara?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A direita reinicia a segregação nos EUA – por Patricia J. Williams (Opera Mundi)

Enquanto passamos de 2010 para o novo ano, o Congresso retoma as atividades em sua configuração dominada pelos conservadores. Esta nova onda é sustentada por uma base de poder direitista informada por ideólogos que extirpariam a promessa de igualdade da 14ª Emenda restringindo os direitos de voto e limitando os gastos públicos com os "parasitas" que sugam o bem-estar da América "deles".

Muitas dessas visões, embora empacotadas no "egoísmo ético" individualista de Ayn Rand, protegem uma ordem política e social baseada na riqueza e no privilégio de um grupo impermeável, também enraizada em uma mentalidade segregacionista de "nós contra eles", mas persistindo muito além da divisão racial. Cristãos versus os outros. Nativos versus imigrantes. Anglófonos versus cosmopolitas arrogantes. O privilégio hereditário versus a igualdade como um direito inato.

Considerem essas manifestações recentes: o senador do Arizona Russell Pearce está tão preocupado com o "sequestro" da 14ª Emenda que patrocinou um projeto de lei que impediria a emissão de certidões de nascimento estaduais para crianças nascidas no estado cujos pais não fossem cidadãos legais.

Rand Paul, senador novato de Kentucky, acredita que a Lei de Habitação Justa está errada porque "uma sociedade livre aceita a discriminação privada, não-oficial, mesmo quando isso significa permitir que grupos cheios de ódio excluam pessoas com base na cor de sua pele".

John Cook, conhecido membro do Comitê Executivo Republicano do Texas, quer substituir o republicano Joe Straus, que é judeu, na presidência da Câmara dos Representantes estadual porque "elegemos uma Câmara com valores cristãos, conservadores. Agora queremos um verdadeiro cristão, conservador, na liderança". E Judson Phillips, líder da Tea Party Nation, endossou "a intenção original" de restringir o direito ao voto a cidadãos donos de propriedades, porque, "se você é dono de uma propriedade, realmente tem um interesse adquirido na comunidade".

Muitas políticas promulgadas originalmente para manter a supremacia econômica controlando o movimento e a força política dos negros no Sul Profundo parecem ter completado o ciclo, afligindo não só os imigrantes recentes, mas também os brancos pobres e de classe média. Um exemplo claro é o destino de Gene Cranick, um branco idoso de cadeira de rodas morador do Condado de Obion, no Tennessee. Quando uma fogueira de lixo no quintal incendiou sua casa, em outubro, os bombeiros chegaram, mas apenas assistiram a sua casa ser destruída pelo fogo, porque Cranick não havia pagado uma taxa anual de US$ 75 para ter direito à água que salvaria a residência. Cranick teve o azar de morar em uma área não incorporada que contava com serviços limitados historicamente associados a bairros negros - quando os serviços de combate a incêndios, esgoto e polícia paravam na beira de uma cidade com base nas fronteiras da segregação.

O livro Simple Justice, de Richard Kluger, relata como, nos anos 1950, a casa do ativista pró-direitos civis Joseph DeLaine na Carolina do Sul foi aparentemente atacada por incendiários: "Membros do corpo de bombeiros de Summerton, habitada só por brancos, estavam disponíveis enquanto a casa de madeira era consumida pelas chamas, mas não fizeram nenhum esforço para apagar o fogo porque a casa de DeLaine, disseram eles, estava além dos limites da cidade. E eram 30 metros." (Para aqueles interessados nos detalhes das batalhas legais e políticas em torno da promessa da 14ª Emenda de igualdade de cidadania, recomendo enfaticamente Lift Every Voice: The NAACP and the Making of the Civil Rights Movement, de Patricia Sullivan).

Há poucas semanas, ao falar de sua juventude em Yazoo City, Mississippi, durante a época mais violenta do movimento pró-direitos civis, o governador Haley Barbour pareceu trazer à memória algo agradável: "Simplesmente não me lembro de ter sido tão ruim." Quanto não foi ruim? Segundo Barbour, o Conselho dos Cidadãos Brancos garantiu heroicamente a integração escolar e, bravamente, manteve a Ku Klux Klan à distância.

Na verdade, o Conselho dos Cidadãos Brancos criou um sistema de academias privadas só para brancos que fez com que as escolas públicas do Mississippi fossem frequentadas quase exclusivamente por negros, e todas miseravelmente financiadas. É verdade que, até certo ponto, o Conselho dos Cidadãos Brancos adotou com frequência posições públicas contrárias à KKK, mas essa oposição declarada não vinha do apoio aos direitos civis dos negros, mas do fato de a violência da Klan ter atraído atenção internacional, o que costumava ser "ruim para os negócios". Por isso, o conselho tendia a aderir à resistência à integração por meio de ameaças econômicas e do isolamento de comunidades inteiras.

De fato, o irmão mais velho de Haley, Jeppie, foi eleito prefeito de Yazoo City em 1968 com uma plataforma de isolamento econômico de qualquer negro (ou branco) que defendesse a integração. O livro de Willie Morris Yazoo: Integration in a Deep-Southern Town, de 1971, detalha o que Jeppie descrevia como os esforços dos negros para "nos deixar de joelhos, a fim de nos dizer o que fazer". "Quando tomei posse, eu pretendia promover algumas melhorias de pavimentação e esgoto para as pessoas de cor", disse Jeppie. "Mas agora não consigo me entusiasmar muito com isso." Chegaria a hora, avisou Jeppie, em que os brancos retaliariam com demissões e outras medidas.

Recentemente, The Huffington Post publicou trechos de um artigo de 1956 de David Halberstam no qual Nick Roberts, do Conselho dos Cidadãos de Yazoo City, explicava por que 51 dos 53 negros que haviam assinado uma petição de integração haviam retirado seus nomes: "Se um homem trabalha para você e você acredita em algo, e aquele homem está trabalhando contra isso e abalando isso, por que você não quer que ele trabalhe para você - é claro que você não quer."

Esse tipo de pensamento imagina o poder coletivo do Conselho dos Cidadãos Brancos como nada mais que as escolhas individuais de "um homem" em sua relação com "aquele homem" - ambos sintaticamente brindados igualitariamente com opções e oportunidades. No conjunto, porém, essas "preferências" se tornam disfarces pérfidos para uma mentalidade de gângster pela qual o pronome "nós" - os que têm direitos - elimina tudo, à exceção do mais restrito senso de comunidade. O resto do grupo, marcado como "eles", permanece alienígena - e ao mesmo tempo é forçado a pagar, pagar e pagar para poder jogar. O fato de isto criar uma classe dominante dos privilegiados economicamente - ou seja, uma oligarquia - parece passar totalmente despercebido hoje em dia.

*Patricia J. Williams é doutora em Direito pela Universidade de Harvard e professora da Universidade de Columbia, EUA. Artigo originalmente publicado no The Nation.

http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1359

Sobre o discurso de Obama – por Creuzo Geovani (blog do Nassif)

Agora eu posso afirmar
De maneira contundente:
De fato Barack Obama
Não será bom presidente,
E digo sem arrogância
Que a força das circunstâncias
Mostra o declínio iminente.

O que Obama quer fazer
A dona de casa faz
Controlar seu orçamento
Depois de gastar demais,
Por isso eu posso afirmar
Que o Obama vai governar
Olhando sempre pra trás.

Uma revolução verde
O Obama disse querer
E em março vem ao Brasil
Pra com Dilma debater,
Mas sobre a guerra ferina
Nas terras da palestina
Nada poderá fazer.

Não existe papai bom
Sem dinheiro pra gastar
Por isso Barack Obama
Vê seu cartaz definhar
E agora daqui pra frente
Nem futuro, nem presente
Só contas para pagar.

As famílias de imigrantes
O Obama vai maltratar
Porque faltará dinheiro
Para o povão sustentar
E quem tiver seus netinhos
Morando naquele ninho
Pode começar chorar.

Nem Cícero, nem Demóstenes
Com toda aquela eloquência
Nem Péricles nem Catão
Ao longo da existência
Fizeram com seu saber
Discursos pra inglês ver
Com tamanha competência.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Para onde vai a social-democracia europeia? - por Vicenç Navarro (blog do Nassif)

Um dos indicadores mais claros da enorme crise e desorientação de alguns partidos social-democratas na Europa é o seguinte fato: de acordo com pesquisas recentes entre os membros do Partido Socialista Francês, um dos candidatos preferidos para representar o partido como na eleição presidencial local é nada menos que o “socialista” Dominique Strauss-Kahn, diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), a instituição financeira internacional que conduz a suposta solução para a crise econômica com base em medidas de austeridade em massa, que são prejudiciais à qualidade de vida e ao bem-estar das populações dos países da União Europeia.

O exemplo mais recente dessas políticas têm sido as medidas impostas à Irlanda, que incluem a eliminação de 24.750 empregos públicos (8% da força de trabalho), um decréscimo de 10% dos salários, uma redução drástica das transferências públicas para as famílias de baixa renda e para a saúde pública, bem como o congelamento das pensões por aposentadoria, um incremento da regressão fiscal e um aumento do IVA, que passará de 21% para 24% até 2014; a inclusão das famílias de baixa renda (até agora isentas de pagar impostos) na base de contribuintes, uma redução em 11% do salário mínimo e uma longa lista de medidas que estão prejudicando a classe trabalhadora e outras camadas da população.

Todas estas medidas foram impostas às classes populares da Irlanda, como condição para o FMI emprestar ao governo 22 mil milhões de euros (a juros claramente inflacionados de 5,7% a.a.). Estes fundos, no entanto, não serão dirigidos à melhoria do bem-estar da classe trabalhadora irlandesa, mas sim para pagar a dívida do governo irlandês com os bancos que compraram essa dívida pública. A assim chamada “ajuda” do FMI à Irlanda não se destina ao povo irlandês, mas aos bancos estrangeiros (ingleses, alemães, franceses, belgas e outros) que haviam emprestado dinheiro ao governo para que este, naturalmente, pudesse salvar bancos irlandeses que desmoronaram após especular no mercado imobiliário. O déficit do governo irlandês passou de 14% em 2009 para 32% em 2010 em grande parte devido à “ajuda” do governo para os bancos irlandeses, especuladores em alto grau.

A Irlanda, na verdade, tinha sido apresentada pelos neoliberais como o exemplo do acerto de suas políticas. O fracasso dessas políticas foi exposto pelo colapso do sistema bancário e enormes subsídios estatais a favor dos bancos. Além disso, nenhum banco estrangeiro pode perder dinheiro, o que se consegue através do pacote de “ajuda” do FMI, disfarçado como um auxílio para a Irlanda. Na realidade, os bancos estrangeiros, que receberam empréstimos do BCE a um custo de apenas 1%, agora possuem títulos do governo irlandês, que, graças ao FMI, pagarão juros mais de cinco vezes maiores. Em outras palavras, um ganho especial em detrimento da classe trabalhadora irlandesa. E tudo sob a supervisão de uma instituição, o FMI, liderada por um “socialista”, e que é um dos favoritos do Partido Socialista Francês para a disputa das próximas eleições presidenciais em França. À luz destes e de outros dados é fácil entender por que a social-democracia na França está em crise profunda, resultante da sua enorme confusão e desorientação.

Outro exemplo de confusão: A promoção de Blair e Clinton nos Fóruns Sociais

Outro exemplo de confusão é a promoção, pelos principais think tanks dos partidos social-democratas europeus (incluindo o espanhol) dos valores encarnados em Tony Blair e Bill Clinton, apresentando-os como indivíduos progressistas e que têm assento nas reuniões sobre o futuro das forças progressistas em o mundo. Tony Blair foi o maior responsável pelo colapso do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha. Como mencionei em outro artigo, "A crise da social-democracia na Europa" (18/06/2010), o Partido Trabalhista caiu da preferência de 33% do eleitorado total em 1997 para 25% em 2001 e 22% em 2005. Se o Reino Unido tivesse um sistema eleitoral proporcional, teria perdido a maioria já na eleição seguinte à que ganhou em 1997. O viés eleitoral que favorece os dois grandes partidos atenuou a situação, de modo que, apesar da queda acentuada junto ao eleitorado, o Partido Trabalhista (New Labour) manteve a maioria parlamentar até 2010. Esta foi a causa da longevidade do mandato de Blair, que não se deveu à sua popularidade (como Anthony Giddens e outros porta-vozes liberal-sociais da Terceira Via atualmente argumentam), que caiu drasticamente, e sim ao sistema bipartidário e aos enormes problemas internos do Partido Conservador. Passando ao ex-presidente Clinton, suas políticas foram responsáveis pela enorme derrota do Partido Democrata nas eleições para o Congresso em 1994, devido à abstenção massiva de seus eleitores (como aconteceu no RU com o New Labour), e que resultou numa grande vitória para o Partido Republicano. O presidente Clinton e seu ministro das Finanças, o Sr. Robert Rubin, banqueiro de Wall Street, e Alan Greenspan, confirmado em seu cargo como chefe do Banco Central dos EUA pelo presidente Clinton, eram os executores das políticas de desregulamentação do capital financeiro (com ênfase na revogação do Glass-Steagall Act), responsáveis pela catástrofe e pela crise que enfrentamos. O papel histórico destas duas figuras foi deletério para a social-democracia e as forças progressistas em ambos os lados do Atlântico. Surpreendentemente, damos a eles um fórum de reflexão sobre temas sociais para promover as suas ideias, o mesmo espaço que é negado a dirigentes e intelectuais com comprovadas credenciais progressistas. É esta a reflexão que a social-democracia pretende fazer sobre o seu futuro?

Comentário
Não é a toa que não sou social-democrata, e sim socialista. E socialista, mesmo, não como este pseudo-socialista Dominique Strauss-Kahn, que, pasmem, mantém esta nomenclatura  e tem a cara de pau de compor o FMI.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

WikiLeaks, crise econômica e outros temas - por Amy Goodman, do Democracy Now (Envolverde – Brasil de Fato)

A estação alternativa de rádio estadunidense Democracy Now (http://www.democracynow.org/) entrevistou à distância o linguista, filósofo e ativista libertário Noam Chomsky, em vésperas do seu 82º aniversário.
Numa entrevista exclusiva falamos com o dissidente político e linguista de fama mundial Noam Chomsky sobre a publicação de mais de 250.000 telegramas secretos do Departamento de Estado dos EUA, por parte da WikiLeaks. Em 1971 Chomsky ajudou o informador de dentro do governo [estadunidense] Daniel Ellsberg a publicar os “Documentos do Pentágono”, um relatório interno secreto dos Estados Unidos sobre a guerra do Vietnam. Em comentário a uma das revelações, de que vários líderes árabes pressionam os EUA para atacarem o Irã, Chomsky diz: “As últimas sondagens mostram que a opinião dos árabes é que a maior ameaça na região é Israel, com 80% dos entrevistados, e em segundo lugar vêm os EUA com 77%. O Irã aparece como uma ameaça para 10%”, explica. “Isto pode não aparecer na imprensa, mais é certo que os governos israelita e estadunidense, e os seus embaixadores, sabem. O que isto revela é o profundo ódio à democracia por parte dos nossos dirigentes políticos”.


Amy Goodman: Encontramo-nos com o distinto dissidente político e linguista de reputação mundial Noam Chomsky, professor emérito do Massachusetts Institute of Technology e autor de mais de cem livros, incluindo o seu mais recente Esperanças e realidades, para obter a sua reação aos documentos da WikiLeaks. Há quarenta anos, Noam e Howard Zinn ajudaram o denunciante de dentro do governo Daniel Ellsberg a editar e publicar os “Documentos do Pentágono”, a história interna ultra-secreta dos EUA da guerra do Vietname. Noam Chomsky fala-nos a partir de Boston… Antes de falarmos da WikiLeaks, qual foi a sua participação nos “Documentos do Pentágono”? Não creio que a maioria das pessoas esteja informada sobre isso.
Noam Chomsky: Dan e eu éramos amigos. O Tony Russo também os preparou e ajudou a filtrá-los. Recebi cópias do Dan e do Tony e várias pessoas as distribuíram à imprensa. Eu fui uma delas. Então o Howard Zinn e eu, como você disse, editamos um volume de ensaios e indexamos os documentos.
Amy Goodman: Explique como funcionou. Penso sempre que é importante contar essa história, especialmente aos jovens. Dan Ellsberg – funcionário do Pentágono com acesso ao máximo segredo – saca da sua caixa de fundos essa história da intervenção dos EUA no Vietnam, fotocopia-a, e então como veio parar às suas mãos? Entregou-lha diretamente a si?
Noam Chomsky: Chegou-me por intermédio de Dan Ellsberg e de Tony Russo, que tinham feitos as fotocópias e preparado o material.

Amy Goodman: Foi muito editado?
Noam Chomsky: Bem, nós não modificamos nada. Não corrigimos os documentos. Ficaram na sua forma original. O que fizemos, o Howard Zinn e eu, foi preparar um quinto volume além dos quatro que apareceram, que continha ensaios críticos de muitos peritos sobre os documentos, o que significavam, etc. E um índice, que é quase imprescindível para poderem ser seriamente utilizados. É o quinto volume da série da Beacon Press.

Amy Goodman: Então foi um dos primeiros a ver os documentos do Pentágono?
Noam Chomsky: Sim, para além do Dan Ellsberg e do Tony Russo. Quer dizer, talvez tenha havido alguns jornalistas que puderam vê-los, mas não tenho a certeza.

Amy Goodman: E atualmente, o que pensa? Por exemplo, acabamos de reproduzir o vídeo do congressista republicano Peter King, que diz que se deveria declarar a WikiLeaks como organização terrorista estrangeira.
Noam Chomsky: Penso que é revoltante. Temos de compreender – e os Documentos do Pentágono são outro exemplo claro – que uma das principais razões do segredo governamental é proteger o governo contra a sua própria população. Nos Documentos do Pentágono, por exemplo, houve um volume – o volume das negociações – que poderia ter tido influência nas atividades em curso, e o Daniel Ellsberg não o revelou logo. Apareceu pouco depois. À vista dos documentos propriamente ditos, há coisas que os estadunidenses deveriam ter sabido e que outros queriam que não se soubessem. E, que eu saiba, pelo que eu próprio vi deste caso, agora é o mesmo. De fato, as revelações atuais – pelo menos as que eu vi – são interessantes, sobretudo pelo que nos esclarecem sobre como funciona o serviço diplomático.

Amy Goodman: As revelações dos documentos acerca do Irã aparecem precisamente no momento em que o governo iraniano aceitou uma nova ronda de conversações nucleares para o começo do próximo mês. Na segunda-feira, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse que os telegramas reivindicam a posição israelita de que o Irã constitui uma ameaça nuclear. Netanyahu disse: “A nossa região tem estado presa a uma narrativa que é o resultado de sessenta anos de propaganda que apresenta Israel como principal ameaça. De fato, os dirigentes compreendem que esse ponto de vista está na falência. Pela primeira vez na história existe um acordo de que a ameaça é o Irã. Se os dirigentes começarem a dizer às claras aquilo que têm dito à porta fechada, podemos realizar uma mudança radical na caminhada para a paz.” A secretária de Estado Hillary Clinton também falou do Irã na sua conferência de imprensa em Washington. Disse o seguinte:
Hillary Clinton: “Creio que não deveria ser surpresa para ninguém que o Irã é uma fonte de grande preocupação, não só para os EUA. Em todas as reuniões que tenho, em qualquer parte do mundo, aparece a preocupação com as ações e as intenções do Irã. Por isso, qualquer dos alegados comentários dos telegramas confirma que o Irã representa uma ameaça muito séria do ponto de vista dos seus vizinhos e uma preocupação muito séria muito para além da sua região. Por isso a comunidade internacional se reuniu para aprovar as sanções mais duras possíveis contra o Irã. Isso não aconteceu porque os EUA tivessem dito ‘Por favor, façam isso por nós!’. Aconteceu porque os países – depois de avaliarem as provas quanto às ações e às intenções do Irã – chegaram à mesma conclusão que os EUA: que temos de fazer o que pudermos com o fim de unir a comunidade internacional para que ela atue e impeça o Irã de se converter em um Estado com armas nucleares. De modo que, se os que lerem as histórias sobre esses, em supostos telegramas, pensarem cuidadosamente, chegarão à conclusão de que as preocupações com o Irã são bem fundadas, são amplamente partilhadas e continuarão a ser fundamento para a política que mantemos com os países que têm a mesma opinião, para impedir que o Irã adquira armas nucleares.”
Amy Goodman: Assim falou a secretária Hillary Clinton, ontem, numa conferência de imprensa. Qual o seu comentário sobre Clinton, sobre o comentário de Netanyahu, e o fato de Abdullah da Arábia Saudita – o rei que está a ser operado às costas em Nova Iorque – ter incitado os EUA a atacarem o Irã.
Noam Chomsky: Isso só vem reforçar o que eu disse antes, que o significado principal dos telegramas que têm sido publicados é, até agora, o que nos dizem sobre os dirigentes políticos ocidentais. Hillary Clinton e Benjamin Netanyahu com certeza conhecem as cuidadosas sondagens da opinião pública árabe. O Brookings Institute publicou há poucos meses amplas sondagens sobre o que pensam os árabes acerca do Irã. Os resultados são bastante impressionantes. Mostram que 80% da opinião árabe considera que a maior ameaça na região é Israel. A segunda maior ameaça são os EUA, com 77%. E o Irã só é referido como ameaça por 10%. No que diz respeito às armas nucleares, de um modo bastante notável, há 57% que diz que, se o Irã possuísse armas nucleares, isso teria um efeito positivo na região. Pois bem, não se trata de cifras pequenas. 80% e 77%, respectivamente, dizem que Israel e os EUA constituem a maior ameaça. 10% dizem que o Irã é a maior ameaça.
Claro que, aqui, os jornais nada dizem sobre isso – dizem-no na Inglaterra – mas é certamente algo que os governos de Israel e dos EUA e os seus embaixadores sabem muito bem. Mas não se vê aparecer uma palavra sobre isso. O que isso revela é o profundo ódio à democracia por partes dos nossos dirigentes políticos e dos dirigentes políticos israelitas. São coisas que nem referidas podem ser. Isso impregna todo o serviço diplomático. Não há nenhuma referência a isso nos telegramas.
Quando falam dos árabes referem-se aos ditadores árabes, não à população, que se opõe rotundamente às conclusões dos analistas, neste caso Clinton e os médias [a mídia]. Também há um problema menor que é o maior problema. O problema menor é que os telegramas não nos dizem o que pensam e dizem os dirigentes árabes. Sabemos o que foi selecionado daquilo que disseram. De modo que há um processo de filtragem. Não sabemos o quanto a informação é distorcida. Mas não restam dúvidas: o que é mesmo uma distorção radical – ou nem sequer uma distorção, mas sim um reflexo – é a preocupação de que o que importa são os ditadores. A população não importa, mesmo se se opõe totalmente à política estadunidense. Há coisas semelhantes noutros sítios, como as que têm a ver com essa região.
Um dos telegramas mais interessantes foi aquele de um embaixador dos EUA em Israel para Hillary Clinton, que descrevia o ataque a Gaza – que deveríamos chamar o ataque israelo-estadunidense a Gaza – em Dezembro de 2008. Indica corretamente que houve uma trégua. Não acrescenta que durante a trégua – que de fato Israel não respeitou, mas o Hamas respeitou escrupulosamente segundo o próprio governo israelita –, não foi disparado um só míssil. É uma omissão. Mas logo surge uma mentira direta: diz que em Dezembro de 2008 o Hamas retomou o disparo de mísseis e que por isso Israel teve de atacar para se defender. Acontece que o embaixador não pode deixar de saber que há alguém na embaixada dos EUA que lê a imprensa israelita – a imprensa israelita dominante – e nesse caso a embaixada tem de saber que é exatamente o contrário: o Hamas estava a pedir uma renovação do cessar-fogo. Israel considerou a oferta, recusou-a e preferiu bombardear em vez de optar pela segurança. Também omitiu que Israel nunca respeitou o cessar-fogo – manteve o cerco [a Gaza] em violação do acordo de trégua – e em 4 de Novembro, dia da eleição de 2008 nos EUA, o exército israelita invadiu Gaza e matou meia dúzia de militantes do Hamas, o que motivou trocas de tiros em que todas as vítimas, como de costume, foram palestinas. De imediato, em Dezembro, quando terminou oficialmente a trégua, o Hamas pediu que ela fosse renovada. Israel recusou e os EUA e Israel preferiram lançar a guerra. O relatório da embaixada é uma falsificação grosseira, e é muito significativa porque tem a ver com a justificação do ataque assassino, o que significa que ou a embaixada não fazia ideia do que estava a acontecer ou estava a mentir descaradamente.

Amy Goodman: E o último relatório que acaba de aparecer – da Oxfam, da anistia Internacional e de outros grupos – sobre os efeitos do cerco de Gaza? O que está a acontecer agora?
Noam Chomsky: Um cerco é um ato de guerra. Se alguém insiste nisso é Israel. Israel desencadeou duas guerras – 1956 e 1967 – em parte na base de que o seu acesso ao mundo exterior estava muito restringido. Esse mesmo cerco parcial que consideraram como um ato de guerra e como justificação – bem, uma entre várias justificações – para o que chamaram “guerra preventiva” ou, se preferir, profilática. Assim o entendem perfeitamente e o argumento é correto. Um cerco é, desde logo, um ato criminoso. O Conselho de Segurança, e não só, instaram Israel a que o levantasse. Tem o propósito – como declararam os funcionários israelitas – de manter o povo de Gaza num nível mínimo de existência. Não querem matá-los todos porque não seria bem visto pela opinião internacional. Como eles dizem, “mantê-los em dieta”.
Esta justificação começou pouco depois da retirada oficial israelita. Houve umas eleições em Janeiro de 2006 – as únicas eleições livres em todo o mundo árabe – cuidadosamente monitorizadas e reconhecidas como livres, mas tiveram um defeito. Ganharam os que não deviam ganhar. Ou seja, o Hamas, os que Israel e os EUA não queriam. Rapidamente, em muito poucos dias, os EUA e Israel impuseram duras medidas para castigar o povo de Gaza por ter votado mal em eleições livres. O passo seguinte foi que eles – os EUA e Israel – trataram, em colaboração com a Autoridade Palestina, de provocar um golpe militar em Gaza para derrubar o governo eleito. Fracassou. O Hamas derrotou a tentativa de golpe. Foi em Julho de 2007. Então endureceram consideravelmente o assédio. Entretanto ocorreram numerosos atos de violência, bombardeamentos, invasões, etc.
Mas basicamente Israel afirma que, quando se estabeleceu a trégua no verão de 2008, o motivo por que Israel não a observou, retirando o cerco, foi o fato de um soldado israelita – Gilad Shalit – ter sido capturado na fronteira. Os comentadores internacionais consideram isso um crime terrível. Bem, pode-se pensar o que for, a captura de um soldado de um exército atacante – e o exército estava a atacar Gaza – não chega aos calcanhares do crime que é sequestrar civis. Precisamente na véspera da captura de Gilal Shalit na fronteira, as tropas israelitas tinham entrado em Gaza, sequestraram dois civis – os irmãos Muammar – e levaram-nos para o outro lado da fronteira. Desapareceram algures no sistema carcerário de Israel, onde centenas de pessoas, talvez mil, são detidas sem acusação por vezes durante anos. Também há prisões secretas. Não sabemos a que se passa nelas. Isto é, por si só, um crime muito pior do que o sequestro de Shalit. De fato, poder-se-ia argumentar que houve uma razão para se ter silenciado o fato. Israel, durante anos, de fato durante décadas, tem vindo a comportar-se assim: raptos, capturas de pessoas, sequestros de barcos, assassinatos, levar gente para Israel por vezes como reféns durante anos e anos. De modo que isso é uma prática habitual; Israel pode fazer o que entende. Mas a reação, aqui e no resto do mundo, ao sequestro de Shalit – que não é um sequestro, não se sequestra um soldado, mas captura-se – é considerá-lo um crime horrendo e uma justificação para manter o cerco e assassinar… uma desgraça.

Amy Goodman: Então temos a Anistia Internacional, a Oxfam, a Save The Children e outras dezoito organizações de ajuda a instarem Israel para que levante, sem condições, o bloqueio a Gaza. E a WikiLeaks publica um telegrama diplomático estadunidense – transmitido ao Guardian pela WikiLeaks – que conta: “Diretiva nacional de recolha de informações humanas: Pede-se ao pessoal dos EUA que obtenha pormenores de planos de viagem, como itinerários e veículos utilizados por dirigentes da Autoridade Palestina e membros do Hamas”. O telegrama pede: “Informação biográfica, financeira, biométrica de dirigentes e representantes mais importantes da A.P. e do Hamas, incluindo a Jovem Guarda, dentro de Gaza e da Cisjordânia, e fora”, diz.
Noam Chomsky: Isso não deveria ser uma surpresa. Contrariamente à imagem que é projetada neste país, os EUA não são um intermediário honesto. São participantes, e participantes diretos e cruciais, nos crimes israelitas, tanto na Cisjordânia como em Gaza. O ataque a Gaza foi um caso claro: utilizaram armas estadunidenses, os EUA bloquearam as tentativas de cessar-fogo e deram apoio diplomático. O mesmo vale para os crimes diários na Cisjordânia, e não devemos esquecê-los. Na realidade, a [ONG] Save The Children informou que na área C – a parte da Cisjordânia controlada por Israel – as condições são piores do que em Gaza. Também isto acontece porque há um apoio crucial e decisivo dos EUA, tanto no plano militar como no econômico; e também ideológico – o que tem a ver com a distorção da situação, como acontece também, dramaticamente, com os telegramas.
O próprio cerco é, em si mesmo, simplesmente criminoso. Não somente bloqueia a ajuda desesperadamente necessária como, além disso, afasta os palestinos da fronteira. Gaza é um local pequeno e superpovoado. E os tiros e os ataques israelitas afastam os palestinos do território árabe junto da fronteira e também impõe aos pescadores de Gaza o limite das águas territoriais. São forçados por canhoneiras israelitas – é tudo o mesmo, claro está – a pescar junto à costa onde a pesca é quase impossível porque Israel destruiu os sistemas elétricos e de saneamento e a contaminação é terrível. É apenas um estrangulamento para castigar as pessoas por estarem ali e por insistirem em votar “mal”. Israel decidiu: “Não queremos mais isto. Livremo-nos deles.”
Também deveríamos lembrar que a política israelo-estadunidense – desde Oslo, desde o começo dos anos 1990 – foi separar Gaza da Cisjordânia. É uma violação direta dos acordos de Oslo, mas foi sendo implementada sistematicamente e teve muitas consequências. Significa que quase metade da população palestina ficaria à margem de qualquer possível acordo político a que se pudesse chegar. Também significa que a Palestina perde o seu acesso ao mundo exterior. Gaza deveria ter aeroportos e portos marítimos. Até agora Israel apoderou-se de cerca de 40% do território da Cisjordânia. As últimas ofertas de Obama oferecem-lhe ainda mais, e certamente os israelitas planeiam apoderar-se de mais. O que resta são pedaços de território cercados. É o que o planificador Ariel Sharon chamou bantustões. E estão também na prisão, enquanto Israel se apodera do Vale do Jordão e expulsa os palestinos. Todos esses são crimes de uma só peça. O cerco de Gaza é particularmente grotesco dadas as condições de vida a que obriga as pessoas. Quero dizer, se uma pessoa jovem em Gaza – estudante em Gaza, por exemplo – quer estudar numa universidade da Cisjordânia, não pode fazê-lo. Se uma pessoa de Gaza precisa de um estágio ou de um tratamento médico sofisticado num hospital de Jerusalém Oriental, não pode lá ir! E não deixam passar os medicamentos. É um crime escandaloso, tudo isso.

Amy Goodman: Em sua opinião, que deveriam fazer os EUA neste caso?
Noam Chomsky: Aquilo que os EUA deveriam fazer é muito simples: deveriam unir-se ao mundo. Quero dizer que supostamente existem negociações. Tal como são apresentadas aqui, o quadro tipicamente traçado é de que os EUA são um intermediário honesto que procura unir os opositores recalcitrantes – Israel e Autoridade Palestina. Isso não passa de uma farsa.
Se houvesse negociações sérias, seriam organizadas por uma parte neutral e os EUA e Israel estariam de um lado e o mundo estaria do outro. Não é um exagero. Não deveria ser segredo que desde há muito tempo existe um consenso internacional completo para uma solução diplomática, política. Todos conhecem as linhas básicas. Alguns detalhes, sim, poderão ser discutidos. [Nesse consenso] incluem-se todos, exceto os EUA e Israel. Os EUA têm vindo a bloquear a solução ao longo de 35 anos, com derivas ocasionais, e breves. [Esse consenso] inclui a Liga Árabe. Inclui a Organização dos Estados Islâmicos, que inclui o Irã. Inclui todos os protagonistas relevantes com exceção dos EUA e de Israel, os dois Estados que o recusam. De modo que, se houvesse alguma vez negociações sérias, é assim que seriam organizadas. As negociações que há chegam apenas ao nível da comédia. O tópico que está a ser discutido é uma nota de rodapé, uma questão menor: a expansão dos colonatos. Claro que é ilegal. De fato, tudo o que Israel está a fazer em Gaza e na Cisjordânia é ilegal. Nem sequer tem sido polêmico, desde 1967 (…)

Amy Goodman: Quero ler-lhe agora a mensagem-twitter de Sarah Palin – a ex-governadora do Alaska, claro, e candidata republicana à vice-presidência. É o que ela colocou no twitter sobre a WikiLeaks. Retifico, foi colocado no Facebook. Ela diz: “Primeiro, e antes de mais, que passos foram dados para impedir que o diretor da WikiLeaks, Julian Assange, distribuísse esse material confidencial altamente delicado, sobretudo depois de ele já ter publicado material, não uma vez mas duas, nos meses anteriores? Assange não é um jornalista, é-o tanto como um editor da nova revista da al-Qaeda em inglês “Inspire”. É um agente anti-EUA que tem sangue nas mãos. A sua anterior publicação de documentos classificados revelou aos talibãs a identidade de mais de 100 das nossas fontes afegãs. Porque não persegui-lo com a mesma urgência com que perseguimos os dirigentes da al-Qaeda e dos talibãs?” Que lhe parece?
Noam Chomsky: É exatamente o que se esperaria de Sarah Palin. Não sei o que ela entende ou não, mas acho que devemos dar atenção ao que nos dizem as revelações [da WikiLeaks]… Talvez a revelação, ou referência, mais dramática seja o ódio amargo à democracia revelado tanto pelo governo dos EUA – Hillary Clinton e outros – como pelo corpo diplomático. Dizer ao mundo – bem, de fato estão a falar lá entre eles – que o mundo árabe considera o Irã como a principal ameaça e que deseja que os EUA bombardeiem o Irã, é extremamente revelador, sabendo eles, como sabem, que cerca de 80% da opinião árabe considera os EUA e Israel como a maior ameaça, que 10% consideram o Irã como a maior ameaça, e que uma maioria de 57% pensa que a região teria a ganhar se o Irã tivesse armas nucleares, que funcionariam como um dissuasor. Isso, eles nem sequer o referem. Tudo o que referem é apenas o que foi dito pelos ditadores árabes, os brutais ditadores árabes. Isso é que conta.
Não sabemos até que ponto é representativo do que dizem, porque ignoramos qual é o filtro. Mas isto não importa muito. O aspecto mais importante é que [para eles] a população é irrelevante. Só interessam as opiniões dos ditadores que apoiamos. Se nos apoiam, então eles são o mundo árabe. É um quadro bem revelador da mentalidade dos dirigentes políticos dos EUA e, pode-se presumir, da opinião das elites. A avaliar pelos comentários que têm aparecido aqui. E é também o modo como tem sido apresentado na imprensa. O que pensam os árabes, isso não interessa.
Essa é a segunda parte da entrevista do Noam Chomsky postada ontem:



AG: Agora, sobre o seu artigo “Outrage Misguided” [“Indignação desviada”] publicado a seguir às eleições intercalares [de começos de Novembro de 2010] e sobre o que, depois delas, irá acontecer aqui. Pode falar do movimento Tea Party [corrente da direita mais conservadora no interior do Partido Republicano]?
NC: O Tea Party representa talvez uns 15 ou 20% do eleitorado. Gente relativamente abastada, branca, autóctone, claro, de tendência tradicionalista. Mais de metade da população diz ter-lhe dado algum apoio, ou ter apoiado a sua mensagem. O que essa gente pensa é extremamente interessante. Quero dizer que as sondagens revelam taxativamente que as pessoas estão zangadas, descontentes, hostis, contra tudo.
A causa mais importante é seguramente o desastre econômico. Não é apenas uma catástrofe financeira, é um desastre econômico. Na indústria manufatureira, por exemplo, a taxa de desemprego está ao nível da Grande Depressão, esses postos de trabalho não serão recriados. Os proprietários e os administradores estadunidenses há muito tempo tomaram a decisão de que podem obter mais lucros por meio de complicados negócios financeiros do que através da produção. De modo que as finanças – e isto vem dos anos sessenta, aumentou sobretudo com Reagan, e depois – … A economia foi “financiarizada”. No conjunto dos lucros das empresas, a parte das instituições financeiras cresceu enormemente. Poderá ser algo como um terço, na atualidade. Ao mesmo tempo, exportou-se a produção. Se compramos algum artefato, é chinês. A China é uma fábrica de montagem para o centro de produção do nordeste asiático. As peças e componentes chegam dos países mais avançados e dos EUA, assim como a tecnologia. Por isso, sim, é um sítio barato para montar coisas e, na volta, vendê-las aqui. Semelhando ao que acontece com o México, e agora com o Vietnam, etc. É a maneira de conseguir lucros.
Isso destrói a sociedade neste país, mas isso não preocupa a classe proprietária e a classe dos gerentes. Esses só se preocupam com os lucros. É o que impulsiona a economia. O resto é consequência. As pessoas andam muito zangadas com isso, mas parece que não o entendem. De modo que essa mesma gente, que constitui uma maioria, e que diz que Wall Street [o principal centro financeiro dos EUA, em Nova Iorque] é que tem a culpa da crise atual, vota nos republicanos. Os partidos estão completamente nas mãos de Wall Street, mas os republicanos muito mais do que os democratas. E o mesmo vale para outros temas que venham a seguir. O antagonismo contra todos é muito forte – um autêntico antagonismo, a população não gosta dos democratas, mas odeia ainda mais os republicanos. Está contra as grandes fortunas. Está contra o governo. Está contra o Congresso. Está contra a ciência.

AG: Noam, gostaria de lhe perguntar: se fosse o principal assessor do presidente Obama, que conselho lhe daria neste momento?
NC: Dir-lhe-ia para fazer o que fez Franklin Delano Roosevelt perante a oposição das grandes fortunas: ajudar a organizar, a estimular a oposição pública e introduzir um grande programa populista, o que é possível. Estimular a economia. Não dar tudo de presente aos financeiros. Impor uma verdadeira reforma do sistema de saúde. A reforma da saúde que foi feita poderá ser uma ligeira melhora, mas deixa de fora alguns problemas importantes. Se o déficit o preocupa, ele que preste atenção ao fato de que é quase totalmente atribuível às despesas militares e a este sistema de saúde absolutamente disfuncional.
A economia está um desastre. Oficialmente há 10% de desemprego, realmente será provavelmente o dobro. Muita gente desempregada há anos é uma imensa tragédia humana, mas é também uma tragédia econômica. São recursos não utilizados que poderiam estar ativos a produzir as coisas de que este país precisa. Os EUA estão-se convertendo numa espécie de país do terceiro mundo.
Há dias apanhei um combóio [trem] de Boston para Nova Iorque, a estrela do sistema ferroviário da Amtrak. A viagem durou uns vinte minutos menos do que o combóio que eu e a minha mulher tomávamos há sessenta anos entre Boston e Nova Iorque. Em qualquer país europeu, ou realmente em qualquer país industrial, teria demorado metade do tempo. E em muitos países não industriais. A Espanha, que também não é um país super-rico está a construir um combóio que anda a 300 km por hora. É só um exemplo. Os EUA precisam desesperadamente de muitas coisas: infra-estruturas decentes, um sistema educativo decente, melhor salário e mais apoio para os professores, todo o tipo de coisas. E as políticas que são levadas a cabo foram pensadas para enriquecer sobretudo as instituições financeiras. E há que lembrar: muitas das maiores empresas, como por exemplo a General Electric ou a General Motors, são também instituições financeiras, as finanças constituem grande parte das suas atividades. É bem pouco claro se essas manigâncias [tramóias] fazem algo pela economia; alguns economistas deste país – da tendência dominante – começam a levantar esse problema. Podem mesmo estar a prejudicar a economia, na realidade. O que fazem é enriquecer os ricos, e é esse o propósito das políticas.
Uma alternativa seria estimular a economia. A procura é muito fraca – essas grandes empresas estão atulhadas de dinheiro, conseguem lucros enormes. Mas não o querem gastar, não querem investir. O que querem é obter mais lucros com ele. As instituições financeiras não produzem nada, só movimentam o dinheiro e ganham dinheiro com diversos negócios. O público tem procurado consumo, mas pouco. Há que lembrar que houve uma bolha da habitação de 8 mil milhões [8 bilhões] de dólares que rebentou, destruindo os ativos da maioria das pessoas. Agora tentam desesperadamente poupar um pouco para se safar. A única fonte de procura, neste momento, seriam as despesas do governo. Nem sequer têm de afetar o déficit; podem ser feitas com empréstimos da Reserva Federal que envia os juros diretamente ao Tesouro. Se alguém se preocupa com o déficit que é, de fato, um tema menor, creio, esse é que é o problema importante.
Deveria haver um investimento massivo em infra-estruturas, deveria haver gastos com coisas simples como o meio ambiente. Deveríamos ter um programa substancial para reduzir a gravíssima ameaça do aquecimento global. Mas, infelizmente, isso é pouco provável com as novas legislaturas republicanas e os efeitos da propaganda massiva das grandes empresas para convencer as pessoas de que isso é um engano liberal. As últimas sondagens mostram que cerca de um terço dos estadunidenses acreditam no aquecimento global antropogênico – isto é, a contribuição humana para o aquecimento global. É quase um golpe mortal para a espécie. Se os EUA não fizerem nada, ninguém o fará.



AG: Que pensa da cimeira global sobre as mudanças climáticas que se celebra em Cancún?
NC: Bem, a cimeira de Copenhaga [Copenhaguen] foi um desastre, não aconteceu nada. Esta, de Cancún, fixou objetivos muito menores na esperança de conseguir alguma coisa. Mas suponhamos que atinjam todos os seus objetivos, o que é muito pouco provável; será uma gota de água no oceano. Há muitos outros problemas graves nesse campo.
Estamos agora numa situação em que os negacionistas das mudanças climáticas se estão a apoderar das comissões relevantes da Câmara de Representantes – ciência, tecnologia, etc. De fato, um deles disse recentemente: “Não temos que nos preocupar com essa questão porque Deus se encarregará de resolvê-la”. É incrível que isto esteja a acontecer no país mais rico e mais poderoso do mundo. É uma área importante em que deveria haver uma mudança substancial e melhoras. De contrário, não haverá muito mais de que falar dentro de uma ou duas gerações.

Outros consideram a simples reconstrução da economia deste país, para que as pessoas possam voltar ao trabalho, possam produzir coisas de que o país precisa, possam viver vidas decentes. Tudo isso pode ser feito. Os recursos existem, faltam as políticas.

AG: Noam, acerca do novo Congresso leio no The New Yorker: “Darrell Issa, um representante republicano da Califórnia, é um dos homens mais ricos do Congresso. Enriqueceu a vender alarmes para automóveis, o que é interessante porque foi acusado, por duas vezes, de roubar automóveis. Disse que teve uma ‘juventude pitoresca’. Agora que os republicanos estão prestes a tomar o controlo da Câmara, Issa prepara-se para chegar a presidente da Comissão de Supervisão. O lugar concede amplos poderes de intimação de comparência [comparecimento] e Issa já indicou como tenciona usá-los. Não lhe interessa – assegurou a um grupo de republicanos da Pensilvânia durante o verão – andar a cavar informações que possam embaraçar outros multimilionários: ‘Não vou usá-los para fazer os EUA empresariais viverem assustados’. Em vez disso, ele quer chegar onde se encontra a verdadeira maldade. Quer investigar os climatólogos. À cabeça da sua lista estão os pacientes e sofridos investigadores cujos correios eletrônicos foram pirateados no ano passado, a partir da Universidade de East Anglia na Grã-Bretanha. Embora o trabalho [desses investigadores] tenha sido tema de três investigações separadas do ‘Climagate’ – tendo todas elas estabelecido que as alegações de manipulação de dados careciam de fundamento –, Issa não está satisfeito. Disse recentemente: ‘Vamos querer outra oportunidade’.”

Darrell Issa

NC: Pois. Isso faz parte da ofensiva massiva, basicamente uma ofensiva das grandes empresas. E não o esconderam. A Câmara do Comércio, o maior dos lobbys empresariais, o Instituto Estadunidense do Petróleo e outros disseram, de forma bastante pública, que estão a fazer uma “campanha educativa” massiva para convencer a população de que o aquecimento global não existe. E dá resultados. Vê-se até na forma como é apresentado nos médias [na mídia]: lê-se, digamos, numa discussão no New York Times sobre a mudança climática. Como têm de ser objetivos, apresentam os dois lados, onde, de um lado, estão 98% dos cientistas qualificados e, do outro, Issa e alguns cépticos da mudança climática. Mas, se repararem, falta aí uma terceira parte, isto é, uma quantidade muito substancial de destacados cientistas que afirmam que o consenso está longe de ser suficientemente alarmista e que, de fato, a situação é muito pior. Os EUA andam a arrastar este assunto há muito tempo, e agora está ainda pior.
Não há muitos dias apareceu um relatório sobre uma análise da produção de tecnologia verde. Dele resulta que a China vai à frente, seguida pela Alemanha, com a Espanha já muito adiantada e sendo os EUA um dos [países] mais atrasados. De fato, o investimento em tecnologia verde é maior na China – creio que duas vezes maior – do que nos EUA e na Europa juntos. São verdadeiras patologias sociais, exacerbadas pelas últimas eleições, mas é só um dos aspectos em que a política se move numa direcção totalmente errada. Há alternativas significativas, e se não forem levadas em conta pode ser um verdadeiro desastre. Pode não demorar muito.

AG: Gostava de mudar de tema por um momento, Noam Chomsky, e falar das eleições que acabam de ter lugar no Haiti.

Eleições no Haiti. Foto: Eduardo Munoz (Reuters)

NC: “Eleições” devia ser posto entre aspas. Se tivéssemos eleições nos EUA nas quais os partidos democrata e republicano fossem excluídos e os seus dirigentes políticos exilados na África do Sul, não seriam consideradas eleições sérias. Mas é exatamente o que aconteceu no Haiti. Os principais partidos políticos estão proibidos – como sabemos, os EUA e a França invadiram essencialmente o Haiti em 2004, sequestraram o presidente e mandaram-no para a África central. O seu partido continua proibido. A maioria dos analistas supõe que, como no passado, se lhe fosse permitido apresentar-se como candidato provavelmente ganharia a eleição. O ex-presidente Aristide é, segundo toda a informação disponível, a personalidade política mais popular do Haiti. Não só não lhe permitiram apresentar-se, essencialmente os EUA, como além disso não permitem que ele regresse ao seu país. Trataram de o manter fora do hemisfério. Não pode voltar ao Haiti mas, além disso, os EUA tratam de o manter fora do hemisfério. O que teve lugar foi uma espécie de farsa. Quero dizer, foi alguma coisa. Os haitianos tentam exprimir-se. E devíamos respeitar isso. Mas as principais alternativas que poderiam ter são excluídas pelas potências estrangeiras, o poder dos EUA e da França, que é o segundo dos torturadores históricos do Haiti.

AG: As Honduras. É interessante que, no meio destes telegramas que vieram à luz do dia com a publicação da WikiLeaks, se encontre o telegrama diplomático dos EUA de 2008 que diz exatamente aquilo que o governo dos EUA não se dispôs a dizer em público: que o golpe contra Manuel Zelaya foi totalmente ilegal. Como reage, Noam?
NC: Sim, é isso. É uma análise da embaixada em Tegucigalpa, [capital das] Honduras, onde dizem terem feito uma cuidadosa análise dos antecedentes legais e constitucionais e que conclui – pode ler o resumo na conclusão – que não há dúvidas de que o golpe foi ilegal e inconstitucional. O governo de Washington, como você disse, não se dispôs a dizê-lo. E de fato, depois de algumas dúvidas, Obama acabou, no essencial, por reconhecer a legitimidade do golpe. Apoiou a realização de eleições sob o regime golpista, que a maior parte da América Latina e da Europa se recusou a reconhecer. Mas os EUA reconheceram. De fato, o embaixador dos EUA acusou publicamente os latino-americanos que discordaram de estarem “seduzidos pelo realismo mágico”, como nos romances de Garcia Márquez ou assim, uma pura declaração de desdém. Que deveriam estar conosco e apoiar o golpe militar, que é ilegal e inconstitucional. E que tem muitas consequências. Uma delas é que preserva, para os EUA, uma grande base aérea, a base aérea Palmerola, uma das últimas que restam na América Latina. Os Estados Unidos foram expulsos de todas as outras.

AG: Tenho duas perguntas e só nos restam dois minutos. Uma sobre a Coreia do Norte. Os documentos da WikiLeaks mostram diplomatas chineses afirmando que os dirigentes chineses “têm cada vez mais dúvidas sobre a utilidade da vizinha Coreia do Norte” e apoiariam a reunificação. Que significa isto?
NC: Sou muito céptico acerca dessa declaração. Não há nenhum sinal de que a China esteja disposta e ter tropas dos EUA na sua fronteira, e essa seria uma conseqüência muito provável de uma Coreia reunificada. Eles [os chineses] têm objetado severamente contra as manobras navais dos EUA no Mar Amarelo, não longe da sua costa – a que chamam “águas econômicas territoriais”. A última coisa que querem é a expansão das forças militares dos EUA próximo das suas fronteiras. Talvez pensem – não sei – que a Coreia do Norte simplesmente não é viável e que terá de ser derrubada, e é um problema difícil de muitos pontos de vista, mas isso eu não sei. Mas sou muito céptico acerca dessa revelação.

AG: Finalmente, Noam, acerca do seu mais recente livro Esperanças e Perspectivas. O que é que lhe dá esperanças?
NC: Bem, a parte das esperanças nesse livro tem a ver sobretudo com a América do Sul, onde realmente houve algumas mudanças significativas e espetaculares na última década. Pela primeira vez em 500 anos estão caminhando para a integração, que é um requisito prévio para a independência, e começaram a enfrentar alguns dos seus problemas internos realmente desesperados. Existe uma imensa disparidade entre ilhas de extrema riqueza e de pobreza massiva. Uma série de países, incluindo o mais destacado, o Brasil, deram passos nesse sentido. A Bolívia foi bastante espetacular, com a vitória da população indígena em importantes eleições democráticas. São fatos importantes.

AG: Noam Chomsky, obrigado por ter estado conosco. Ah, e feliz aniversário!
NC: Muito obrigado.


Tradução do inglês: Passa Palavra
Original (em inglês), em DemocracyNow
http://passapalavra.info/?p=34319
*Tradução do inglês: Passa Palavra (http://passapalavra.info/)
(Envolverde/Brasil de Fato)
http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=85445&edt=1

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Em defesa de Paulo Renato – por Fernando Bueno (Blog do Nassif)

Prezado Nassif,
Como avalio que o seu blog é bastante democrático, penso que há algumas desproporções que devem ser corrigidas.
A gestão de Paulo Renato no MEC, no que tange ao ensino superior, precisa ser melhor avaliada. Houve problemas gravíssimos. Os relatos apresentados são, realmente, verdadeiros. Outros ainda poderiam ser acrescidos, como por exemplo, a desrregulamentação (para não dizer desrregramento) no campo do ensino superior privado - que levou, por exemplo, ao pedido de demissão do professor José Artur Gianotti (!!!) do Conselho Nacional de Educação.
Contudo, houve aspectos importantes na gestão de Paulo Renato no MEC. NO ensino superior, a pós-graduação cresceu e consolidou-se. Na educação básica, houve uma focalização no ensino fundamental, que foi muito criticada, mas que, se analisarmos com rigor, era estrategicamente a melhor opção - tanto que isso levou a termos, no final da década de 1990, pela primeira vez na história do país, a universalização do acesso ao ensino fundamental. O impacto disso será a redução do analfabetismo nas próximas décadas e uma ampliação (que já é percebida) da escolaridade média da população.
Mas, no ensino fundamental, o melhor foi a criação do modelo de financiamento do FUNDEF que acabou sendo ampliado, no governo Lula, para toda a educação básica (FUNDEB). O FUNDEF tinha problemas? - Tinha (e muitos por sinal). Mas, é um modelo de gestão de recursos (na verdade é uma mini reforma fiscal) muito bom (tanto que foi mantido e ampliado).
Por isso, penso que, num blob ga qualidade do seu, caberia uma melhor avaliação da gestão de Paulo Renato no MEC (o que vale para qualquer outra pasta ou ministro): apontanto sim os equívocos e graves problemas mas, principalemente, avaliando com ponderação as políticas desenvolvidas.

Comentário

Muito poderia escrever sobre este senhor por quem nutro profunda aversão, que é o Paulo Renato. A época em que ele era ministro, eu era aluno do então CEFET-ES, e tive minhas aulas suspensas por mais de dois meses simplesmente porque o MEC não pagava os professores do curso (técnico em mecânica com ênfase em petróleo e gás natural).
Afora a crônica falta de verbas, as universidades e Cefet’s caindo aos pedaços, a falta de apreço ao funcionalismo – e as consequentes greves intermináveis, a perda de 1/3 dos mestres e doutores das universidades federais durante o exercício de seu mandato, a permissividade com institutos de ensino superior que foram abertos e tinham estrutura mais próxima de uma padaria do que de uma universidade, a não substituição dos professores que se aposentavam/demitiam – tendo então de ser contratados precariamente, a aprovação automática (como secretário estadual), dentre outras muitas e muitas deletérias ações. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvida, que este senhor e seu projeto de educação foram absolutamente nocivos ao país e que atrasamos nosso desenvolvimento por termos tido pessoas tão descomprometidas com a causa PÚBLICA (palavra odiada por certos partidos/jornalistas) como ele e seu chefe (ou ele preferiria que eu escrevesse “boss”).
O Fundef foi muito mais nome que outra coisa devido à precariedade de recursos ali destinados, e ainda mais se levando em conta que, concomitantemente a presença de FHC no governo, houve uma migração da arrecadação de impostos para contribuições, aumentando a parcela da arrecadação concentrada no governo federal. Ao destinar recursos federais para a educação fundamental, ao mesmo tempo em que retirava – em volume muito maior – dos estados e municípios a arrecadação de seus impostos, o governo tucano nada mais fez que criar uma dificuldade para vender uma facilidade. E mais, é evidente que, no fim das contas, os estados e municípios saíram perdedores, pois, o montante destinados às contribuições (CPMF e CIDE, por exemplo), são muito superiores que os investimentos realizados pelo Fundef.
Portanto, ao se gabar que “universalizou” o ensino fundamental no país, o governo FHC comete só mais uma das infâmias do opróbrio que lhe é habitual, pois se jacta de coisa pela qual não é responsável. A universalização se deu, isto sim, pela própria evolução da sociedade que atravessa a era do conhecimento. Hoje, mesmo o pai mais humilde sabe da importância de que seus filhos estudem – coisa que não era natural algumas décadas atrás. É o país mudando. A universalização não se deu por méritos pontuais de governos e, se ainda fosse pelo mérito de algum, seria dos governos estaduais e municipais, que levaram essa barra nas costas, aos trancos e barrancos, e, por ser assim, com a devida falta de qualidade que todos sabem, e que faz com que a classe media fuja do ensino público. E quando a classe media – egoísta por concepção – se esquiva do ensino público, aí mesmo é que a tendência é que ele não seja revitalizado.
Fazendo esforço, até poderia enumerar alguns fatores positivos da longuíssima gestão de Paulo Renato: a valorização do mérito, premiando os professores com cursos de pós-graduação nas instituições federais, e a criação dos CEFET’s.
Porém, a criação dos CEFET’s foi feita de uma maneira tão mal debatida, tão imposta (autoritarismo habitual de suas gestões, já destacado aqui no blog), que seus efeitos foram muito menos positivos do que poderiam ser. A dissociação do curso técnico do ensino médio (inerente aos CEFET’s) é benéfica para o país, por vários motivos:

1) Os cursos técnicos ficam mais curtos, e desta maneira mais rapidamente uma mão-de-obra necessária ao país pontualmente (como para a construção civil ou cadeia do petróleo no momento atual) pode ser lançada no mercado de trabalho.

2) Muitos alunos faziam o ensino médio (frise-se conjugado ao curso técnico com duração de extensos 4 anos) e, depois, optavam por fazer um curso superior de área divergente da formação técnica, desperdiçando enorme quantia de recursos ali aplicada.

3) Conjugar o curso técnico ao ensino médio obriga um jovem de 14, 15 anos, escolher uma carreira que poderá definir toda a sua vida posterior. Pra não me estender muito, exigir tal decisão em idade tão prematura é, no mínimo, uma covardia.

Pois bem, a criação dos CEFET’s mitigaria estes problemas supracitados, e ainda agregaria pontos positivos com a criação dos tecnólogos, quais sejam:

1) Dissocia a parte teórica (para as engenharias) da prática (tecnólogos), como ocorre amplamente em diversos países que possuem educação mais evoluída que a nossa nos cursos de graduação, como os EUA.

2) São cursos mais focados e menos dispersos, diferentemente das engenharias destinadas a indústria, por exemplo, em que o estudante é obrigado a estudar cálculos e mais cálculos absolutamente inúteis na grande maioria dos casos (que não para os poucos profissionais que trabalharão com projetos).

3) Também são cursos mais céleres e de mais fácil aplicação de quando houver necessidade específica.

4) Forma um profissional mais gabaritado que o de curso técnico e mais específico que um de engenharia.
Porém, a forma desastrosa como foi implementada a mudança originou tal oposição que os CEFET’s fracassaram.

Como é consabido, não se consegue promover mudanças positivas em uma organização com os trabalhadores sobre ataque – ainda mais em funcionários públicos, que possuem uma proteção praticamente absoluta contra a demissão por baixa produtividade.
Destarte, com todo o arcabouço negativo imposto pela gestão tucana de FHC-Paulo Renato, houve forte aversão aos CEFET’s desde seu início, pelos próprios profissionais que nele trabalhavam. A ideia era boa, porém, foi aplicada por gestores incompetentes, aferrados na concepção de que os seus subordinados na verdade eram seus inimigos. É claro, que a recíproca passou a ser verdadeira.
Já havia que se enfrentar o pesado lobby dos engenheiros que não desejam perder seu status quo ante profissionais mais modernos que se inserem no mercado de trabalho. Somado a este fato, o que se viu foi os CEFET’s irem definhando.
O governo Lula entrou e – em minha singela opinião – se equivocou ao não dar continuidade a ideia, melhorando-a onde houvesse necessidade. Os CEFET’s foram transformados em Institutos federais, (sem oposição dos seus subordinados, exatamente pela forma respeitosa com que foram tratados), oferecendo os mesmíssimos e velhos cursos de engenharia já oferecidos nas universidades. Um erro histórico, sem dúvida. Erro originário, creio eu, na expectativa de não dar continuidade as políticas do seu antecessor (aliás, a ideia dos CEFET’s é anterior a gestão tucana, mas foi amplamente difundida nela). No caso, a ideia dos Cefet’s não é conceitualmente equivocada. Apenas a maneira como foi aplicada é que foi errônea.
Por fim, os concursos públicos federais, tanto para a administração direta quanto para estatais também desconsideram os tecnólogos. Ou seja, desconsideram os profissionais formados pelo próprio governo federal (!).
É uma lástima, todo este histórico, mas é inevitável que, quando o país se embrenhe por trilhas equivocadas, governado por pessoas descompromissadas com os seus, que possuíam de maneira explícita aversão a população e aos trabalhadores (e, claro, aversão de maneira especial àqueles que os representam, os sindicalistas), quando o país passa a ser conduzido de maneira a aquinhoar apenas alguns escolhidos (mercado financeiro-imprensa, no caso), não poderia ocorrer outra coisa que não erros estratégicos graves como este, que fatalmente nos atrasarão por muito tempo ainda.
E os profissionais formados em curso de tecnologia, como eu, ficam perdidos no espaço, pois veem que a falta de compromisso com o público e, depois, a falta de continuidade das políticas públicas acabaram solapando todo nosso esforço, nosso compromisso, nosso tempo que despendemos cursando um tecnólogo.
Penso que o legado negativo que o presidente Lula deixa sejam, especialmente, o STF, o ministro da defesa e o câmbio.
Já os de FHC são tantos, que me falta tempo para preencher as laudas necessárias para descrever todos. Dentre eles, a desastrosa “política educacional” promovida por Paulo Renato.

P.S: tenho curso técnico, tecnólogo, trabalho na indústria há vários anos e namoro uma professora de engenharia.

Entendendo a posição vendida dos bancos e a política do BC – por Pedro Rossi (blog do Nassif)

O tema do câmbio é inerentemente complicado, basta ver o esforço das reportagens do jornal televisivo em persistentemente dar voltas e voltas para explicar o efeito do câmbio sobre importadores, exportadores e o consumidor-telespectador. Essa complicação não é percebida apenas pelos não-economistas, pelo contrário, quando o debate ganha especificidades técnicas ele fica mais obscuro e embaralhado. Isso é de certa forma natural quando se tem que explicar, por exemplo, a relação entre a posição vendida em dólares dos bancos (conseqüentemente comprada em reais) e as compras de dólares do banco central acima do fluxo cambial e como ela afeta a taxa de câmbio brasileira. Soma-se a esse embaraço as diferentes opiniões que carregam consigo matrizes teóricas heterogêneas e, por vezes, um fundo ideológico.
Diante disso, talvez seja importante dar uns passos para trás para lançar um pouco de luz sobre tema um tanto complexo. Um primeiro passo é entender o mercado de câmbio em uma forma mais simples, sem o mercado de derivativo e sem as intervenções do banco central. Nesse caso a cotação da taxa de câmbio depende de duas coisas:
1) do fluxo cambial líquido - que é dado pela entrada e saída de divisas do país
2) da vontade dos bancos em manter ou variar sua posição cambial. (Isso considerando que somente os bancos podem carregar posições cambiais à vista.)
Dessa forma, pode haver situações em que a entrada líquida de dólares é importante, mas o real se desvaloriza já que os bancos querem aumentar a posição comprada em dólares. Ou seja, os dólares do mercado são disputados a tapa pelos bancos que oferecem preços melhores pela moeda americana, o que desvaloriza o real.
A situação oposta ocorre quando não há fluxo positivo de divisas, mas os bancos querem se livrar de posições compradas em dólar. Nesse caso, (faça você o raciocínio) a taxa de cambio do real se valoriza. Isso explica algo que é objeto de muita incompreensão – o fato do movimento da taxa de câmbio não ser explicado pelo fluxo de divisas.
Para dar passo à frente precisamos incluir o banco central em nosso esquema. Esse intervém no mercado à vista comprando ou vendendo divisas e essa intervenção tem impacto na posição cambial dos bancos. Ou seja, dado um fluxo cambial (FC) nulo, uma operação de compra de dólares do banco central (BC) implicará em uma variação na posição vendida dos bancos (-PB) no mesmo valor, sendo FC=BC+PB.
Em 2010, o que ocorreu no Brasil foi que o banco central comprou mais dólares que o fluxo cambial (BC>FC) logo os bancos venderam dólares e construíram enormes posições vendidas. Contudo, não se pode afirmar que o banco central é responsável pela posição vendida dos bancos, esses não são obrigados a vender ao banco central, eles vendem porque há algo rentável na operação. Além disso, não se pode afirmar que os bancos estão especulando pela valorização do real simplesmente por estarem vendidos em dólar no mercado à vista. Um banco pode estar vendido à vista e comprado no futuro, de forma que sua exposição cambial (não é mais posição!) seja nula.
O mercado de derivativos de câmbio traz duas questões importantes além do hedge acima citado: primeiro ele é um lócus de especulação de diversos agentes que, vendendo dólar futuro, apostam na valorização da moeda brasileira. Segundo, ele dá oportunidades de arbitragem aos bancos entre as cotações à vista e futura. Isso, porque a pressão especulativa sobre o dólar futuro torna seu preço barato em relação ao preço à vista o que leva os bancos a tomarem empréstimos externos, venderem dólar internamente (ao banco central!) e comprarem dólar futuro para fazer o hedge da operação. O resultado final dessa arbitragem, além da valorização do real, é um lucro sem riscos e um aumento da posição vendida de dólar à vista.
Finalmente, essa demorada explanação presta-se a embasar algumas expectativas quanto ao impacto da circular 3520 do banco central que institui o recolhimento de compulsório sobre a posição vendida em câmbio dos bancos.
Em um primeiro momento espera-se o abrandamento do canal de arbitragem dos bancos descrito nesse artigo, fazendo com que o preço do dólar futuro se ajuste ao à vista – e não o contrário. Adicionalmente, é esperada uma leve corrida dos bancos ao mercado para comprar os dólares disponíveis de forma a ajustar sua posição à vista, valorizando a moeda americana, e desvalorizando o real.
Nesses termos, a função de enxugar a liquidez em dólar, originalmente da autoridade monetária, passa temporariamente para os bancos. Isso não impede que o banco central faça leilões de compra, o que muda é o tamanho do apetite dos bancos em vender. E quais as limitações dessa medida? Bom, a circular 3520 não onera os influxos de capitais, portanto, uma nova onda de entrada de recursos motivada por expectativas de aumentos na Selic ou por uma nova rodada de afrouxamento monetário do FED exigirá medidas de outra natureza.

Pedro Rossi, economista, é pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da UNICAMP (Cecon).

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Nem com o vento contra - entrevista de Delfim Netto à Luiz Gonzaga Beluzzo e Sergio Lirio (CartaCapital)

Otimista em relação ao Brasil, apreensivo com o cenário internacional, Delfim Netto fala das perspectivas da nossa economia sob Dilma Rousseff.

CartaCapital: Qual seria sua principal recomendação à presidente?
Delfim Netto: Até agora estou muito satisfeito com o que a Dilma está fazendo. Ela tem dado uma demonstração clara de que vai ser, na minha opinião, uma excelente presidente. Tem noção clara das necessidades do Brasil. E dos nossos limites. A formação do governo foi muito esperta. Ela tranquiliza a área economia e a Defesa. E o resto vai compondo e arrumando. Acho que ela deu uma demonstração clara de que vai enfrentar um grande problema brasileiro, a ineficiência da máquina pública. Não vai fazer nenhuma maluquice fiscal – não é preciso inclusive –, não vai fazer choque fiscal. O choque, sabemos, morre no papel. Logo depois se dissolve. O (Guido) Mantega foi um bom ministro. É um sujeito prático e organizou as coisas corretamente. Foi excelente a escolha do (Alexandre) Tombini para o Banco Central. A indicação da Míriam Belchior para o Planejamento é muito correta e ela continuará o trabalho de Paulo Bernardo, que foi um senhor ministro. Há dois fatos pouco visíveis a permitir uma melhora dramática na gestão. Primeiro, o governo está construindo um instrumento de apuração do déficit nominal por unidade de governo. Será um avanço espetacular. Segundo, a Dilma convidou o (Jorge) Gerdau para auxiliar na melhora da gestão do setor público. O Gerdau traz com ele a grande experiência da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, de muito boa qualidade.

CC: Mas o cenário externo mudou, para pior.
DN: O cenário internacional mudou radicalmente. Só tem vento de frente agora. A favor, não mais. Não acredito que isso vá se resolver sem uma renegociação das dívidas. O caso da Irlanda é, talvez, o mais típico e significativo. Ela havia feito uma reforma fiscal inteligente e conseguiu obter um desenvolvimento enorme. Mas acabou por incorporar o prejuízo do sistema bancário que nem era dela. Incorporou o prejuízo dos bancos alemães, franceses, norte-americanos. Foi a sua ruína. A Alemanha faz propaganda do fato de ter entrado no pacote de socorro à Irlanda. Mas não é para salvar a Irlanda, é para salvar os bancos alemães. E o sistema financeiro alemão terá de pagar um preço também. Isso é um processo que está apenas no começo. Vamos ter, primeiro, as consequências políticas. Cada eleição na Europa vai colocar no poder um governo mais nacionalista e mais burro que os anteriores. Vão imaginar que a solução é simples. É muito complicada. Enquanto não se impuser algum custo para quem fez a patifaria, não vai haver solução.

CC: De qualquer maneira, a grande questão é como vão resolver essa enorme transferência de dívida do setor privado para o setor público.
DN: Exatamente. Como é que a sociedade vai se conformar com o fato de que 30 milhões de sujeitos que ganhavam a vida honestamente, trabalhando, foram desempregados por 30 desonestos. É uma questão moral, não econômica. Não vai ter solução. Simplesmente, porque querem socializar os prejuízos que se converteram, na verdade, em lucro dos bancos. Eles não perderam nada até agora.

CC: Ao longo da segunda metade do século, sobretudo a partir dos anos 70, as crises começaram a se suceder e a operação de última instância do governo, dos tesouros, começou a acostumar os mercados de que não havia punição.
DN: Na verdade, os mercados sabem – e agora com consciência plena – que o governo cai, mas continua sustentando-os. Quer dizer, quem está na balança não é o sistema que roubou, que assaltou, mas o governo que permitiu a falta. É um problema que, à medida que a sociedade incorpora, entende a injustiça implícita nesse tipo de solução, resolve-se na urna. Não tem conversa. Urna e mercado têm um diálogo permanente. Quando o mercado faz suas artes, a urna o pune. Se a urna faz muita arte, o mercado a pune. Acho que está chegando a hora em que a urna vai punir o mercado duramente.

CC: A União Europeia vai resistir?
DN: A União Europeia é uma grande contribuição à estabilidade política. A Europa sempre foi um continente conturbado desde o século IX: tem gente subindo e descendo, passando pelos outros e voltando. Tem um valor político muito importante, só que exige um trabalho muito maior. A grande verdade é que os países ainda não estão preparados para isso. Um sujeito não sai da Turquia, vai trabalhar na Alemanha e tem as mesmas oportunidades. São séculos de discriminação. É provável que a Comunidade Econômica Europeia murche por algum tempo, mas não vai se dissolver. Seria muito custosa a dissolução. O risco é a Europa ter um crescimento muito lento durante uma dezena de anos.

CC: E os programas de redução da dívida vão tornar a situação muito mais difícil ainda.
DN: Muito mais. Por isso nada se resolve sem enfrentar o problema da dívida. Vamos ter o mundo crescendo um pouco menos, vamos ter a China crescendo um pouco mais, a Índia crescendo um pouco mais. O Brasil precisa prestar atenção nesse negócio, pois a China é uma linha de montagem. É o maior importador e o maior exportador do mundo. Se a economia chinesa murchar, as importações também murcham, e haveria um efeito sobre nós. A minha convicção é que temos um mercado interno muito importante, parecido com aquele dos Estados Unidos nos anos 1970. Há condições, desde que não haja uma situação dramática no mundo, para continuar a crescer 5%, 5,5%, nos próximos 15 ou 20 anos. O que abortava o crescimento brasileiro era, de um lado, a crise de energia e, do outro, a crise de balanço de pagamentos. Os dois estão relativamente superados. O que precisamos hoje é dessa arrumação que está sendo feita.

CC: Mas e quanto a esse déficit crescente nas contas externas e o câmbio valorizado?
DN: Isso não vai continuar. Ao ser indicada, a Míriam Belchior disse quatro palavras mágicas: fazer mais com menos. Ou seja, há o compromisso de aumentar a produtividade. E parece haver também o objetivo de buscar uma taxa de juros real de 2% a 3%, parecida com a do resto do mundo. O Guido deu a garantia de que vai pôr em prática uma política fiscal musculosa para permitir ao Banco Central adotar uma política um pouco mais corajosa. Precisamos de um pouco de coragem para enfrentar essa massa de falso conhecimento que o setor financeiro divulga. Segundo essa visão do mercado, o Brasil é tão teratológico que, com a queda da taxa de juros real, ele desaparece. Mas acho que as coisas estão se estabelecendo com mais clareza.

CC: Temos visto manifestações, principalmente em São Paulo, a favor de uma cabeça do setor privado no BC. O que configura uma grave insatisfação com a composição atual do Banco Central. Isso tem a ver com as convicções dos cientistas, como o senhor chama, não?
DN: Há muito tempo defendo uma medida importante: a estatização do Banco Central. A ideia de que quem está no setor privado tem conhecimento muito maior do que quem os controla é falsa. Os funcionários que estão lá são de alta qualidade, tão alta que logo que deixam o governo o sistema financeiro privado vai capturá-los, cooptá-los.

CC: É um típico caso em que a urna disse uma coisa e os mercados querem outra.
DN: O presidente Lula, na sua intuição, disse algo certeiro: "O que vocês queriam? Que eu convidasse quem perdeu a eleição para vir para o governo?" É um inconformismo, no fundo um certo ranço autoritário por trás dessas manifestações. Em resumo: "Somos os portadores da virtude, do conhecimento e da ciência e da salvação, e esse povo burro não nos elegeu".

CC: Por falar em virtude, a história do Brasil é de muita fortuna e pouca virtude no geral. O senhor vê mudanças?
DN: Estamos num caminho iniciado no passado, com a Constituição de 1988. A despeito de tudo o que se fala da Constituição, ela asseverou a preferência da população brasileira por uma sociedade- democrática, republicana e que caminha para a justiça. Ou seja, aumentar cada vez mais a igualdade de oportunidade. O capitalismo, a economia de mercado, é muito eficiente. Não há dúvida nenhuma nem foi descoberto por ninguém. O homem encontrou na história, há quase 300 anos. É compatível com a liberdade de iniciativa, mas é altamente produtor de desigualdade. O homem não se conforta quando a desigualdade é muita. Então esse é o papel do Estado, empurrar o sistema na direção de desigualdade de oportunidades, civilizar o capitalismo.

CC: Não houve um empobrecimento da atuação dos bancos centrais, que começaram a restringir exclusivamente a taxa de juros de curto prazo?
DN: É uma observação perfeita. Aliás, um dos avanços de Henrique Meirelles no fim do governo foi sua declaração sobre o mundo inteiro estar à procura de novos instrumentos. Na verdade, são os velhos. Os bancos centrais tentam recuperar os instrumentos que jogaram fora quando, em 12, 13 anos, forjaram uma grande mentira, a de que eles produziam a moderação. É mentira. Os banqueiros centrais foram conduzidos pela solução mais simplista: mexo na taxa de juros e acontece isso. O mais impressionante é que eles só mexiam na taxa de juros depois. Eles não comandavam o mercado, eram comandados. Mas havia uma aura de ciência, uma publicidade que dava para eles esse poder, que foi desmascarado completamente. Ninguém propõe deixar de controlar a inflação. O que se observa é a existência de mecanismos que provavelmente permitem o controle da inflação sem esse custo imenso que é ter de aumentar os juros a cada dia.

CC: No momento da crise, o Banco Central brasileiro foi na contramão. Enquanto todo mundo baixou os juros rapidamente, o nosso ficou atrás da curva. Agora estamos com o seguinte dilema: a taxa de juros relativa é muito alta e ao mesmo tempo vivemos uma retomada inflacionária. Mas, se mexermos meio ponto ou um ponto na taxa, teremos uma inundação de dólares.
DN: E mais uma valorização do real. Na minha opinião, não sabemos direito de onde vem essa pressão inflacionária.- Não adianta falar em excesso de demanda e que isso é visível no resultado da conta corrente. O déficit em conta corrente é produto de uma supervalorização do real. Tudo se resume sempre nisso. A diferença na taxa de juros produz um câmbio fora do lugar. Além disso, há uma pressão inflacionária no mundo, não só aqui. Na China, em alguns países asiáticos, nos emergentes. Não sei bem o que a produz. Com a elevação do compulsório, ganhou-se um tempinho, uns 45 dias. Tanto que baixou a expectativa de juros de curto prazo, subiu a expectativa de longo prazo. Como você pode prevenir? Apresentando um programa transparente, crível em equilíbrio fiscal. Isso eles têm tudo para fazer. Se a presidente apresentar esse programa e o setor privado der um voto de confiança, os efeitos serão antecipados. Essa é a característica do sistema: vive-se de expectativas.

CC: O que o senhor acha da proposta de reduzir a dívida líquida para 30% do PIB? O Tesouro não deveria emitir, com um pouco mais de ousadia, títulos em reais?
DN: Ele emite. Outro setor que funcionou bem foi a Secretaria do Tesouro. A gestão da dívida melhorou dramaticamente. Acho que estamos preparados para esse ajuste. Acredito nele porque não vai precisar nada dramático. Vai estabelecer o seguinte: as minhas despesas de custeio e transferência, ou seja, aquilo que não é investimento vai crescer um pouco menos do que o PIB. Não precisa fazer mais nada, não precisa pôr gente na rua, não precisa baixar salário, não precisa fazer o que os europeus e (Barack) Obama estão fazendo. Só será preciso enfrentar os interesses. Estamos em um regime democrático, os sindicatos vão tentar aumentar o salário mínimo. Mas os sindicatos têm 3 milhões de votos, se tiverem. E a presidente teve 58 milhões de votos. Quem ganha?

CC: Como o senhor explica, diante do quadro comparativo entre o Brasil e o resto do mundo, a angústia de alguns, como se a situação fiscal fosse desastrosa?
DN: Acho que o terrorismo é para tentar manter a taxa de juros onde está. Eu fico mais espantado é alguém levar a sério as agências de rating. Outro dia vi um funcionário de uma dessas agências dando palpite. Elas só fecham o portão depois de todos os gatos terem ido embora. E continuam sendo ouvidas. E a turma continua pagando os serviços dessa gente. É um mercado de uma bondade que a gente não acredita. Os indicadores brasileiros hoje provavelmente são melhores do que aqueles de todos os países europeus chamados de PIIGs. No entanto, estamos lá no último BBB. E o pior é que essa gente que não sabe nada, que vende vento, 171 típico, fica dando palpite. "Se não fizer um aperto fiscal monstruoso..." Estão ameaçando nos rebaixar.

CC: Tem um economista norte-americano que diz que, na cadeia alimentar da fraude, a coisa começa com a venda da hipoteca e termina na avaliação de risco.
DN: Esse mecanismo, na minha visão, está em processo de desmoralização. A nossa profissão está readquirindo a economia política que ela jogou fora nessa aventura de ter formalizado tudo e ter esquecido que nós somos uma ciência moral. Nós nunca vamos ter esse padrão: eu faço uma hipótese, construo um modelo, testo o modelo e o modelo que vale. O conhecimento da economia política é fundamental para a boa administração pública, não há dúvida. E nós destruímos isso. Mas estamos reconstruindo. E vai ser muito mais gostoso reconstruir essa teoria econômica do que tê-la destruído.

CC: Keynes, por exemplo, escrevia com objetivos práticos. Mas a clássica economia dos anos 1970 para cá não se transformou em uma maquinaria ideológica para justificar certas práticas?
DN: Keynes era muito mais que um economista. Era um gênio. O problema é que um gênio hoje, o grande gênio da teoria econômica atual, diz o seguinte: "O desemprego é ataque de vagabundagem dos trabalhadores". E Keynes dizia: "Não, o desemprego é uma consequência do desarranjo de funcionamento do sistema". Essa é a grande diferença.

CC: O que o senhor acha que vai acontecer nos Estados Unidos, além do risco de eleger Sarah Palin?
DN: Não acredito que ela vá se eleger. Obama vai ter de fazer muito bonito para se reeleger, mas acho que, se o candidato da oposição for Sarah Palin, ele se reelege. Há um limite para essas coisas. Os Estados Unidos são um país no qual existe inovação e crédito. Não funciona no momento porque o sistema econômico não tem motor de partida. Há 3 trilhões de dólares nas caixas das empresas não financeiras, e elas só investem em tecnologia poupadora de mão de obra. O oposto do que o governo quer. Os bancos têm excesso de reservas, mais de 1 trilhão de dólares. Mas o governo coloca outros 600 bilhões. Para quê? Comprar papéis dos bancos. Isso aumenta a reserva do setor, mas as instituições financeiras não emprestam porque ninguém pega emprestado. O trabalhador não acredita que manterá seu emprego. É um problema de confiança. Em algum momento, se Obama conseguir fazer pegar esse motor, as coisas andam.

CC: Você não tem ponto de demanda efetiva. Ou seja, são as duas variáveis – consumo e investimento – que determinam a renda.
DN: São mesmo. O consumo é mais importante e o investimento depende daquele espírito animal que produz essas flutuações conhecidas. Na verdade, o que existe hoje nos Estados Unidos simplesmente é a ideia de que Obama, com toda a farolagem dele, com toda aquela apresentação, aqueles aspectos teatrais, escolheu economistas que trabalharam para salvar os bancos e pôr na rua o trabalhador. É isso que o norte-americano pensa. E tem de Obama a pior imagem. Acho que o programa de Saúde que ele propôs era formidável, um negócio civilizador. Mas os EUA recusaram. Ele cooptou as aspirações americanas, os Estados Unidos estavam imaginando o seguinte: "Esse vai ser um líder extraordinário que vai nos levar pra frente". De repente, ele usou todo aquele patrimônio para servir aos bancos.

CC: Fez o oposto que o (Franklin) Roosevelt fez. Roosevelt que era um aristocrata, a primeira coisa que fez foi enfrentar os barões do setor financeiro e botá-los na linha.
DN: Exatamente. É só olhar o Relatório Pecora. O (Ferdinand) Pecora foi um procurador na década de 1920. Como do costume, tinham feito uma CPI e não estava dando em nada. Cerca de 90 dias antes de encerrar a CPI, ficava muito ruim apresentar para o mundo um relatório inútil. Pegaram um procurador em Nova York, o Pecora, com a missão de fazer a CPI funcionar. Ele pôs os procuradores nos bancos e descobriu todas as patifarias. Aí chamou para o banco dos réus o JP Morgan. Mostrou que era um canalha, que tinha lista secreta, que protegia seus clientes, que enganava as pessoas. Esclareceu tudo o que tinha sido feito. Depois de 80 anos, os bancos conseguiram fazer de novo tudo que tinha sido condenado. Hoje é a mesma coisa. E agora que estão apurando, mesmo que lentamente, são as mesmas patifarias. Quer dizer, o banqueiro volta para o lugar do crime, não adianta ter ilusão.

CC: JP Morgan, descendo do seu iate em certa ocasião, fez um discurso raivoso contra Roosevelt.
DN: O sistema financeiro é fundamental para o desenvolvimento econômico. Só que o sistema financeiro não pode ser senhor da economia real. Ele tem de estar a serviço da economia real. Por isso é preciso um Banco Central realmente forte para controlar esse mecanismo. Porque o papel fundamental do Banco Central não é controlar a inflação, é controlar a rigidez do financiamento do sistema real.

O velho e o novo Tea Party - por Luiz Horacio (blog do Nassif)

Seria bom a gente entender melhor essa coisa do novo Tea Party. Originalmente, foi um evento de protesto dos colonos americanos contra os colonizadores ingleses, motivado pelo monopólio do comércio do chá (devia ser uma bebida muito apreciada e consumida na época) e pelos impostos que os ingleses cobravam dos americanos, para que pudessem beber chá. Foram ao porto e jogaram no mar todo o chá que chegava na América (na época não era EUA). Foi um protesto nativista e também emancipador, fez parte do processo da Independência americana. O dinheiro ia embora do país e fortalecia a dominação do território americano pelos ingleses, mantendo a América como colônia.
Mas o que pretende o "neo" Tea Party? A organização de pequenos grupos locais de oposição e combate ao "poder central"? E em geral em pequenas cidades. O "poder central" agora é a própria democracia americana, são os Estados Unidos da América. Quer dizer, o dinheiro retorna para as comunidades, em escolas, estradas, investimentos e na organização e administração de seu próprio país, que por acaso ainda é a maior potência mundial, mesmo em crise profunda. Não faz sentido, não é racional. Os cidadãos voltando-se contra o Estado que os socorre, em uma grande crise que foi provocada justamente por aqueles que desejavam um Estado mínimo e não atuante, um Estado títere, que "não os atrapalhasse" em seus negócios, talvez esquecendo-se que o Estado é que cria as condições básicas para os bons negócios.
Parece que o Tea Party é um "levante" dos setores mais atrasados da sociedade americana. Uma forma de transformar em dividendos políticos e em poder real uma reação contra as mudanças que são necessárias nos EUA, por causa do tempo, por causa da história, por que as coisas mudam, o mundo muda, e mudou bastante. Uma tentativa não de discutir a política conservadora e de direita (o que é democrático e válido), mas de impor a mesma receita dos modos sociais vigentes nos EUA nos séculos 19 e 20. E isto se mistura justamente com o atraso político de determinadas regiões, geralmente ainda marcadas pelo divisionismo da Guerra Civil, pela resistência dos "rebeldes" ao Estado "ianque".
Sob esses aspectos, o papel que o Tea Party poderá desempenhar não é o de buscar alternativas para seu próprio país, mas sim o de aprofundar e complicar a grande crise americana. O conflito não gera solução; gera mais conflito.