sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Porque a presidente do CNJ não deve entrar no jogo corporativo dos juízes - por Eugênio José Guilherme de Aragão* (Blog do Marcelo Auller)
A liturgia do cargo público não é meroexercício de vaidade e de ego. Ela é um marco do republicanismo, que determina
ser o exercício de função pública uma atividade impessoal. Quem está investido
nela não deve a enxergar como um galardão adquirido em razão de qualidades
pessoais, mas precisamente porque foi chamado a servir ao público. A liturgia
lhe serve de proteção, para qualificar a função e não a si.
Eugênio Aragão: “Quando autoridades se comportam como moleques, como moleques serão tratadas”. Foto: Gil Ferreira/Agência CNJ. |
Juízes, por exemplo, lidam diariamente com
conflitos. Ao decidirem sobre uma causa, tornam um dos litigantes vencedor e
outro perdedor. Aquilo que pode significar, para o magistrado, apenas um número
em sua estatística de produção mensal, na alma do perdedor pode ser uma
catástrofe pessoal. O que o leva a não ir às vias de fato com aquele que vê
como seu malfeitor? É a aura da liturgia que inspira o respeito necessário a
criar uma barreira de blindagem relativa.
Quando, porém, autoridades se comportam
como moleques, como moleques serão tratadas. Se adotarem discurso e
comportamento de botequim, não poderão se queixar quando começarem a voar
garrafas e sopapos.
Temos assistido quase diariamente
comportamentos fora do script litúrgico por parte de magistrados, a começar por
alguns do andar de cima. Têm sido muito cúpidos em dar entrevistas, falar fora
dos autos, opinar sobre tudo e todos. Têm adotado posturas controvertidas e,
por vezes, até mesmo político-partidárias em discursos públicos, seja nos
tribunais ou fora deles.
A desfaçatez de mudar ostensivamente de
opinião, conforme o momento político e o alvo das ações jurisdicionais, chega a
causar náusea àqueles que assistem a esse circo quase cotidiano. Esse tipo de
atitude cai bem em conversa de bar, onde a inconsequência regada a álcool tudo
permite, tudo perdoa, mas não no exercício de função pública.
Dos magistrados se espera autocontenção e
não exibicionismo. Infelizmente há, entre nós, magistrado que se fez notório e
não é um bom exemplo de autocontenção.
A despeito de gozar de exclusividade para
cuidar só de um universo de processos supostamente conexos, decretada por seu
tribunal, aparentemente em virtude de sobrecarga que esse universo representa,
esse juiz tem viajado Brasil e mundo afora para dar palestras, receber prêmio
de bom-mocismo e participar de talk-shows.
Tem tido tempo de sobra para difundir seu
moralismo obsessivo sobre os fins da persecução penal de “corruptos”, a ponto
de virar super-herói de uma parte desorientada da sociedade, cuja bronca turva
sua visão sobre o crítico momento político vivido pelo País. Para fugir das
garrafadas e dos sopapos, anda com séquito de seguranças e deles vive cercado
no trabalho e em casa. Torna-se, assim, personagem controvertido, agente de
disseminação de incertezas, ao invés de se limitar a oferecer segurança
jurídica a seus jurisdicionados.
Isso não é vida de juiz. Mas, ainda que
não faça sentido, no sadio senso comum, essa imagem distorcida que se oferece
de um magistrado, tem sido exemplo para muitos outros de sua corporação, que
também querem compartilhar desse espaço de afago público a egos jurisdicionais.
Para tanto, assinam até abaixo-assinado de
defesa do colega premiado de bom-mocismo, quando se torna alvo de críticas mais
ou menos acerbas. Alguns foram às manifestações “contra a corrupção” convocadas
para derrubar governo, manifestam-se cheio de emoção em perfis de Facebook e,
depois, deram provimento liminar para impedir posse de ministro de estado.
Renan Calheiros: “tenho ódio e nojo a métodos fascistas” – Foto: reprodução |
Num ambiente desses, a reação de veemente
indignação pública do Presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, contra o
“jabaculê” determinado nas dependências daquela Casa Legislativa por juiz de
primeiro grau de Brasília, não deve causar surpresa.
Expressou nada mais que seu protesto
institucional contra aquilo que entendeu ser um abuso de magistrado
incompetente para tanto, pois o alvo da diligência da polícia judiciária eram
agentes da polícia legislativa que tinham procedido a varreduras
eletromagnéticas em locais de trabalho e residência de Senadores que seriam
alvos de investigação criminal.
Essas varreduras tinham sido determinadas
pela administração do Senado a pedido dos próprios Senadores alvejados. Se as
varreduras foram pedidas por estes e se entenda que elas constituem embaraço a
justiça, em tese são os Senadores objeto da escuta ambiental que deveriam ser
questionados sobre a iniciativa. Isso, evidentemente, atrairia a competência do
foro por prerrogativa de função que é o Supremo Tribunal Federal.
Tanto mais é surpreendente, isto sim, que
a Presidente do Conselho Nacional de Justiça vá à imprensa, não para admoestar
magistrados que ultrapassam a linha do bom senso em suas atitudes e decisões,
mas para se dirigir com dedo em riste ao Presidente do Senado Federal, com
discurso não menos surpreendente de se ver como destinatária de cada crítica
que se faça em tom mais ou menos contundente a magistrados que procedem de
forma, no mínimo, controvertida.
Carmem Lúcia: " quando um juiz é destratado, eu também sou". Foto: CNJ |
O Conselho Nacional de Justiça é órgão de
controle externo da magistratura e tem, também, uma atuação correcional em
relação a estes. Não deve a dirigente do órgão se confundir com aqueles que
deve disciplinar, pois assim fazendo, reforça os desvios de conduta e se porta
feito porta-voz de uma corporação e não de uma instituição.
Não é mais novidade para ninguém que
certos padrões de comportamento de elevado risco para o governo das
instituições no País têm fundo corporativo. É mostrando os dentes que as mais
poderosas categorias do serviço público se alavancam para negociar vantagens.
Não é à toa que suas associações de classe
são recebidas nos gabinetes parlamentares e em órgãos de gestão financeira do
executivo com tapete vermelho, água gelada e café, enquanto aos servidores
comuns e mortais só resta a via da greve e das manifestações públicas.
Não é à toa que essas categorias
musculosas estão no topo da cadeia alimentar do Estado brasileiro, recebendo
ganhos desproporcionalmente superiores a outros servidores que exercem suas
funções com igual ou maior denodo e risco pessoal que Suas Excelências.
Trata-se de grave distorção no sistema de remuneração do setor público
brasileiro, que em nada contribui para sua eficiência.
Ao invés de querer colocar limites aos
reclamos do Presidente do Senado Federal, a Senhora Presidente do CNJ faria
melhor em dar sua contribuição para a contenção de atitudes de risco dos
magistrados e buscar diálogo entre poderes para impor ordem ao sistema
remuneratório do serviço público federal.
O melhor caminho para isso seria a
desvinculação de todos os ganhos de servidores daqueles de atores que estão em
posição de puxar o trem e gastos com aumentos a seu favor: Presidente e
Vice-Presidente da República, Ministros de Estado, Ministros do Supremo
Tribunal Federal, Deputados e Senadores.
Norma constitucional deveria vedar essa
vinculação e dispor que o teto do serviço público (excluídos o dos atores
políticos mencionados) fosse estabelecido pela Lei de Diretrizes Orçamentárias
e o ganho de cada categoria devesse guardar proporção, com base nos vetores de
risco e complexidade, com as demais, de sorte que não se admita que um general
de exército ganhe brutos em torno de 14.000 reais mensais, um professor titular
de universidade receba cerca de 12.000 reais, quando um jovem membro do
ministério público seja remunerado com quase 30.000 reais no mesmo período.
Para articular essa revolução de ganhos,
que seja capaz de neutralizar condutas de risco de categorias por prestígio, é
fundamental o consenso entre os poderes da República, para constituir o
SINAGEPE – Sistema Nacional de Gestão de Pessoal, integrando os três poderes e,
aos poucos, as administrações estaduais e municipais através de matriz única de
ganhos, quiçá regionalizando-a e submetendo-a a um fundo solidário de
compensação de debilidades financeiras dos entes que compõem a Federação.
Só assim se coloca cada agente do Estado
em seu quadrado. Zela-se pelo controle universal de gastos de pessoal e se
moraliza a atuação dos diversos atores nos três poderes de modo a se
estabelecer, no Brasil, pela primeira vez, um “Berufsbeamtentum”, um funcionalismo
profissional como existe em outras economias mais fortes deste planeta.
* Eugênio
José Guilherme de Aragão: Ex-Ministro da Justiça e Professor da Faculdade de
Direito da Universidade de Brasília
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Dívida, o novo pesadelo - por Kim Brown (The Real News Network / Outras Palavras)
FMI admite não ver saída para a crise
global. Michael Hudson explica: peso dos juros paralisa economias, exaure
sociedades e amplia riscos de retrocessos. Saberemos enfrentar a aristocracia
financeira?
Michael
Hudson, entrevistado por Kim
Brown, em The
Real News Network | Tradução: Cauê Seignemartin Ameni
Como era de esperar, os jornais e TVs da
velha mídia nada noticiaram. Em sintonia com o governo Temer, estavam ocupados
em demonizar o tímido gasto social do Estado brasileiro. Mas em 5 de
outubro, um novo relatório do FMI sobre
a estabilidade financeira global lançou o alerta. Apesar de irrigado, desde
2008, por seguidas operações de “salvamento”, sempre com dinheiro público, o
sistema financeiro internacional não se recuperou. Embora a grande tempestade
tenha passado, “os riscos de médio prazo continuam a crescer”. E — mais
intrigante — mesmo no caso de uma recuperação sustentada das economias (algo
que não parece próximo), os problemas não estarão sanados.
Dias depois de lançado o relatório, o
economista norte-americano Michael Hudson analisou-o,
em entrevista à rede de webTV independente “The Real News“. Dedicado há décadas ao exame do
sistema financeiro, colaborador de dezenas de publicações e consultor de
governos como os da Grécia, Islândia e China, Hudson tem uma visão particular
sobre o papel das dívidas, nas sociedades capitalistas contemporâneas. Segundo
ele, o pagamento de juros tornou-se, na época pós-industrial, um fator crucial
de extração de mais-valia e, portanto, de ampliação das desigualdades.
Hudson vê no
relatório do FMI o reconhecimento de um ponto de impasse. O endividamento dos
Estados e das famílias tornou-se tão vasto e opressor que passou a comprometer
a própria dinâmica de reprodução do capital. Tanto os salários quanto a receita
de impostos são permanentemente corroídos pelas transferências aos banqueiros e
à aristocracia financeira. Em consequência, a capacidade de compra despenca. Os
investimentos estancam. A criação de empregos e ocupações retrocede. Forma-se
uma espiral descendente, que bloqueia as economias.
Pior: para sair do impasse, a aristocracia financeira procura,
permanentemente, avançar sobre as conquistas cidadãs. Calcula que os Estados
devem reduzirem o gasto social — para tornarem-se capazes de pagar mais juros…
Aí está a origem das políticas de “austeridade”, da devastação do Estado de
Bem-estar social na Europa e, no Brasil, de propostas como a PEC-241, que
estabelece o congelamento das despesas não-financeiras do Estado.
Como escapar desta
maré anticivilizatória? Em tempos anormais, é preciso propor o incomum. Hudson
vê uma alternativa — pouco debatida, mesmo entre a esquerda. Ele defende
políticas que promovam uma redução radical das dívidas e dos pagamentos à
aristocracia financeira. O relatório do FMI jamais proporá algo com este
sentido, zomba o economista. Mas ele mesmo provoca: enquanto não houve coragem
e força política para tal passo, permaneceremos sujeitos à estagnação, a crises
e à ameaça de retrocessos. Fique com a entrevista (Antonio
Martins)
O relatório sobre estabilidade financeira do FMI diz que, apesar
de os bancos serem mais fortes agora do que na crise econômica de 2007-2008,
cerca de 25% do bancos norte-americanos e 30% dos europeus estão muito fracos
até mesmo para se beneficiarem de possível aumento nas taxas de juros — ou de
qualquer auxílio para recuperação, caso a economia global sofra um novo abalo.
Mas antes de entrar em qualquer tema mais específico sobre a saúde dos bancos,
pergunto: nestas duas regiões, ainda estamos em recessão ou começamos a nos
recuperar?
Não estamos nem numa recuperação, nem numa recessão tradicional.
As pessoas pensam nos ciclos econômicos, nos quais há um boom seguido por uma
recessão, para que depois os estabilizadores automáticos reanimem a economia.
Mas agora, não há reanimação possível. A razão é que cada recuperação, desde 1945,
estabeleceu um alto nível de endividamento. Ele está tão alto agora que estamos
vivendo, desde a crise de 2008, o que chamo de deflação por dívida. As pessoas
têm de pagar tanto dinheiro aos bancos que não conseguem manter o suficiente
para comprar os bens e serviços produzidos. Por isso, não há novos
investimentos, nem geração de emprego (exceto empregos com salários-mínimos).
Os mercados estão encolhendo e as famílias estão quebrando. Por isso, muitas
empresas não podem pagar os bancos.

Era um modelo falso. Estamos no final do longo ciclo que começou
em 1945 e sobrecarregou as economias com dívidas. Não teremos condições de sair
do labirinto até que estas sejam canceladas. Mas é isso que o FMI acredita ser
impensável. Não pode dizer isso, porque se espera que represente o interesse
dos bancos. Tudo que o pode dizer é que os bancos não farão mais dinheiro,
mesmo que haja recuperação.
Mas na verdade não há recuperação, e não há sinais disso no
horizonte, porque as pessoa têm de pagar aos bancos. É um ciclo vicioso – ou
melhor, uma espiral descendente. Basicamente, os economistas do FMI estão
entregando os pontos e admitindo que não sabem o que fazer, dados os limites de
seu horizonte.
Você pode nos ajudar a compreender por que o crescimento foi tão
fraco nos últimos seis a oito anos?
Vamos analisar um orçamento familiar médio, estudando seus
números essenciais. As pessoas pagam entre 40% a 43% de sua renda para
habitação. Pagam planos de saúde, as dívidas do cartão de crédito, outros
débitos. Sobram, disponíveis, apenas 25% a 35% — digamos, um terço do salário —
para adquirir bens e serviços.
O problema é que quem emprega são justamente empresas que vendem
bens e serviços. Elas simplesmente não estão contratando, porque os
consumidores não tem dinheiro disponível para comprar esses mesmo bens e
serviços. Entramos numa deflação crônica por dívida. Não há recuperação
possível sem levar isso em conta. É este fato que o FMI compreendeu, mas deixa
apenas implícito em seu relatório.
Ao noticiar este relatório, em manchete, o site MarketWatch afirmou: “Esqueça o
[conceito de] ‘grandes demais para falir’. Os bancos estão fracos demais para
sobreviver”. Na época em que eram gigantes, os bancos quase destruíram o
sistema financeiro global. Bancos menores são melhores?
Pequenos bancos voltados para empréstimos ao público seriam
bons. Mas os bancos, em sua maioria – o Deutsch Bank, em graves dificuldades, é um caso típico – avaliam
que não são mais capazes de ganhar dinheiro emprestando aos clientes normais.
Partiram para um novo plano de negócios: emprestar dinheiro a capitalistas de
cassino. Isso é, emprestar para quem quer especular com derivativos.
Um derivativo é simplesmente uma aposta de que uma ação, um
título de dívida ou relacionado a um ativo imobiliário irá subir ou cair. Há um
vencedor e um perdedor. É como aposta numa corrida de cavalos. O maior banco
envolvido nestas apostas — ou seja, não em financiar a produção, ou o
investimento — era o Detsche Bank.
Grandes aplicadores tomavam emprestado para jogar.
Qual é, hoje a melhor aposta no mundo? É apostar que as ações do
Deutsche Bank irão cair. Especuladores tomam dinheiro emprestado dos seus
bancos para fazer apostas de que as ações do Deutsche Bank despencarão. Agora,
ele se contorce e diz: “Oh, os especuladores estão nos matando”. Mas são o
próprio Deutsche Bank e outros que
fornecem dinheiro para os especuladores fazerem apostas.
O relatório do FMI diz que, na zona do euro, se os governos
pudessem ajudar os bancos a se livrar de seus empréstimos ruins, isso teria um
efeito positivo sobre o capital destas instituições financeiras. Qual seria o
efeito sobre a população e a economia europeia?
A matemática desta proposta muito simples. Para executá-la, você
teria de abolir as aposentadorias e os gastos sociais — além de aumentar os
impostos. Você tem que obrigar pelo menos 50% da população europeia a emigrar —
quem sabe, para a Rússia ou China… Haveria fome em massa. Muito simples: esse é
o preço que alguns, na zona do euro, pensam que vale a pena pagar — e que se
tentou impor à Grécia Para salvar os bancos, você teria que converter toda a
zona do euro numa Grécia.
Os governos teriam de vender todo o setor público — inclusive
ferrovias e terras públicas. Estaríamos basicamente introduzindo o
neo-feudalismo, voltando o relógio da história para trás em mil anos e
reduzindo a população da Europa para dívidas escravocratas. É a solução que a
zona do euro impôs a Grécia. É a solução que os líderes e os bancos estão pedindo
para os economistas responsáveis promoverem à população em geral.
Vamos falar a respeito de outra informação divulgada pelo FMI
sobre a dívida. O endividamento global chegou recentemente a cerca de 152
trilhões de dólares. Isso inclui dívidas públicas, familiares e de empresas não
financeiras. O que isso significa para o sistema financeiro global e as
sociedades?
Significa que a única maneira que as pessoas têm de pagar a
dívida é cortando seus padrões de vida drasticamente. Significa concordar em
mudar suas aposentadorias atuais — em que você sabe quanto receberá ao deixar
de trabalhar — para “planos de contribuição definida”. Nestes, você investe o
dinheiro e não sabe o que receberá.
Para salvar os bancos de perdas que ameaçam varrer seu
patrimônio líquido, teríamos de nos livrar da Seguridade Social. Isso significa
basicamente abolir o governo para entregar o funcionamento do sistema aos
bancos, com a ideia de que o papel dos governos é extrair renda da economia
para pagar os acionistas e os bancos.
Quando se diz “pagar os bancos”, o que eles realmente querem
dizer é pagar os dententores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais
rico. O que estamos vendo realmente neste relatório, neste crescimento de
dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos.
Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de
perder um único centavo.
Todos os governos, de Barack Obama até Angela Merkel, da zona do
euro ao FMI, comprometem-se a salvar os bancos, não a economia. Nenhum preço é
muito alto para tentar fazer o sistema financeiro ir um pouco mais longe. Ao
final das contas, ele não poderá ser salvo, por causa da equação em que está
envolvido. As dívidas crescem sem parar. E quanto mais crescem, mais encolhem a
economia. Quando você encolhe a economia, reduz a capacidade de pagar as
dívidas. É uma ilusão pensar que o sistema pode ser salvo. A questão é: por
quanto tempo mais as pessoas estarão dispostas a viver nesta ilusão?
E por quanto tempo essa ilusão se sustenta antes de assistirmos
a um novo colapso econômico mundial? É algo inevitável, a que devemos
simplesmente esperar? Devemos nos preparar para isso?
Ainda estamos sofrendo os efeitos do colapso que começou em
2008. Não há novo colapso, nem recuperação. Os salários dos 99% caíram, de
forma constante, desde 2008. Especialmente para 25% da população que ganham
menos — nos Estados Unidos, negros, latino-americanos e outros trabalhadores.
O patrimônio liquido deles ficou negativo, e eles não têm dinheiro suficiente para
pagar as contas.
Uma das maiores consultorias mundiais — a Ernst & Young —
acaba de fazer o estudo sobre os muito jovens. Descobriu que 78% das pessoas
que nasceram por volta da virada do século [e que têm em torno de 18
anos] estão preocupados por imaginar que não encontrarão empregos que
lhes permitam pagar seus empréstimos estudantis. Além disso, 74% temem
não poder pagar tratamento, se ficarem doentes; 79% temem ficar sem renda
suficiente para viver, quando eles se aposentarem. Toda uma geração que emerge
— não apenas nos EUA, mas também na Europa — que não será capaz de ter empregos
assalariados que paguem bem. O único caminho é ter pais ricos o suficiente para
lhes oferecer uma renda.
Seu último livro é Killing
the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global
Economy [“Matando o hospedeiro: como os parasitas
financeiros e a escravidão por dívidas destroem a Economia Global”]. Você está
terminando outro, certo?
Sim, nas próximas semanas. Seu título será J is for Junk Economics.
Investiga por que os economistas prometem que em algum momento haverá uma
recuperação. Por que isso é basicamente uma promessa impagável [junk] e por que
hoje, para ser um economista, você tem que participar desse conto de fadas
segundo o qual poderemos nos recuperar e, ao mesmo tempo, conservar a saúde dos
bancos. Quero mostrar por que não funciona.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
O que fazer com a Rede Globo de comunicações? – por Wanderley Guilherme dos Santos (Segunda Opinião)
O que fazer com o sistema globo de comunicação é um dos mais difíceis problemas a solucionar pela futura democracia brasileira. A capacidade de fabricar super-heróis fajutos,
triturar reputações e transmitir versões selecionadas e transfiguradas do que acontece
no mundo, lhe dá um poder intimidante a que se foram submetendo o Executivo, o
Legislativo e o Judiciário. A referência aos três poderes constitucionais da
República resume a extensão do controle que o Sistema Globo detém e exerce
implacavelmente, hoje, sobre toda e qualquer organização ou cidadão brasileiro.
Só ínfima proporção do povo desdenha ser personagem de um fictício Brasil, nas
páginas de seus jornais e revistas, notícias radiofônicas e matérias
televisivas. Ainda menor é o número dos que não se abalam com a possibilidade
de soçobrar nos planos de perseguição e vingança do portentoso vozeirão do
Monstro comunicativo. Nenhum juiz, político, servidor público, organizações do
bem ou do mal, passantes inofensivos e supostos detentores de direitos posa de
valente diante das bochechas do mau humor Global. O Sistema Globo de
Comunicação superou as Forças Armadas e as denominações religiosas, inclusive a
inquisitorial Igreja Católica, na capacidade de distribuir pela sociedade os
terríveis sentimentos de medo, ansiedade e inquietação. Ele é a fonte do baixo
astral e baixa estima dos brasileiros e das brasileiras. O Sistema Globo
converteu-se no gerente corruptor e corruptível do medo político, econômico,
social e moral da sociedade brasileira, sem exceção.
Denunciar a gênese
não contribui para elaborar eficiente estratégia de destruição do Monstro.
Aliás, de que destruição se trata? O Sistema fabricou a mais abrangente e veloz
rede de transmissão de notícias, através de emissoras e retransmissoras associadas,
com comando centralizado e sem rival na sofisticação de sua aparelhagem e na
competência de seus operadores. O Sistema Globo de Comunicações é modelo de
excepcionalmente bem sucedido projeto de formação da opinião pública e de
interpretação conjuntural dos valores cívicos da nacionalidade. É ele quem cria
os amigos e os inimigos do País, mediante o controle, pelo medo, das
instituições políticas e judiciárias. Com extraordinária reserva de recrutas
intelectuais e especialistas, está aparelhada para a defesa de qualquer tese
que a mantenha como proprietária praticamente exclusiva do poder de anunciar,
em primeira mão, o que é a verdade – sobre tudo e sobre todos.
Não é esse poder
tecnológico e de competência que deve ser destruído. Ao contrário, preservado e
estimulado a manter-se na vanguarda da capacidade difusora de notícias e de
valores, bem como em sua engenhosidade empresarial capitalista. O que há a
fazer é expropriar politicamente o Sistema Globo de Comunicações, mantendo-o
autônomo em relação aos governos eventuais (ou frentes ideológicas de
infiltradas sanguessugas autoritárias), e implodir as usinas editoriais e
jornalísticas do medo e de catástrofes emocionais, restituindo isenção aos
julgamentos de terceiros. O Sistema Globo constitui, potencialmente, excelente
opção para um sistema público de notícias impressas, radiofônicas e
televisivas. Politicamente expropriados da tirania exercida sobre o jornalismo
da organização, seus proprietários jurídicos podem manter ações e outros
haveres econômicos das empresas conglomeradas, sem direito a voto na redação do
futuro manual do sistema público de comunicação.
Como está é que não
pode ficar. Ou não haverá democracia estável no país.
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
Junta financeira comanda o Brasil e impõe ditames a toque de caixa - por Vladimir Safatle (Folha)
Semana
passada, o dito “governo” resolveu apresentar à população seu plano de
emergência econômica diante da propalada crise. Conhecido como PEC 241, o plano
visa congelar os investimentos estatais nos próximos 20 anos, permitindo que
eles sejam, no máximo, reajustados pela inflação do período.
Isso significa, entre outras coisas, que o
nível do investimento em educação e saúde continuará no nível em que está,
sendo que o nível atual já é resultado de forte retração que afeta de forma
brutal hospitais públicos, universidades e escolas federais. Todos têm
acompanhado a situação calamitosa dos nossos hospitais, os limites do SUS, os
professores em greve por melhores condições de trabalho. Ela se perpetuará.
Para apresentar o novo horizonte de
espoliação e brutalidade social, o dito "governo" colocou em marcha
seu aparato de propaganda. Ao anunciar as medidas, foi convocado um
representante de quem verdadeiramente comanda o país, a saber, um banqueiro, o
senhor Meirelles.
Entrará para a história o fato de que uma
das mais impressionantes medidas econômicas das últimas décadas, uma que
simplesmente retira do Congresso a possibilidade de realmente discutir o
orçamento, que restringe o poder de representantes eleitos em aumentar
investimentos do Estado, que os transforma em peças decorativas de uma
pantomima de democracia, foi anunciada não pelo pretenso presidente da
República, mas por um banqueiro.
Este dado não é anódino. Ele simplesmente
demonstra que Michel Temer não existe. Não é por acaso que ele não aparece na
televisão e some em dia de eleição, indo votar no raiar do sol. Quem realmente
comanda o Brasil atualmente é uma junta financeira que impõe seus ditames a
toque de caixa usando, como álibi, a ideia de uma "crise" a destruir
o Brasil devido ao descontrole dos gastos públicos.
O script é literalmente o mesmo aplicado
em todos os países europeus com resultados catastróficos. No entanto, há de se
reconhecer que ele tem o seu quinhão de verdade.
De fato, há um descalabro nos gastos
públicos, mas certamente ele não vem dos investimentos parcos em educação,
saúde, assistência social, cultura etc. Por exemplo, segundo dados da OCDE, o
Brasil gasta 3.000 dólares por aluno do ensino básico, enquanto os outros
países da OCDE – a maioria europeus e da América do Norte, entre outros–
gastam, em média, 8.200 dólares.
A situação piorará nos próximos 20 anos,
já que os gastos continuarão no mesmo padrão enquanto a população aumentará e
envelhecerá, exigindo mais gastos em saúde.
Na verdade, os gastos absurdos do governo
não são com você, nem com os mais pobres, mas com o próprio sistema financeiro,
que se apropria do dinheiro público por meio de juros e amortização da dívida
pública, e lucra de forma exorbitante devido à taxa de juros brasileira. Uma
dívida nunca auditada, resultante em larga medida da estatização de dívidas de
entes privados.
Por incrível que pareça (mas que deveria
ser realmente sublinhado), o plano econômico do governo não prevê limitação do
dinheiro gasto com a dívida pública. Ou seja, fechar escolas e sucatear
hospitais é sinal de "responsabilidade", "austeridade",
prova que recuperamos a "confiança"; limitar os lucros dos bancos com
títulos do Estado é impensável, irresponsável, aventureiro. Isso demonstra
claramente que o objetivo da PEC não é o equilíbrio fiscal, mas a garantia do
rendimento da classe rentista que comanda o país.
Como se trata de ser o mais primário
possível, o dito "governo" e sua junta financeira comparam a economia
nacional a uma casa onde temos que cortar gastos quando somos
"irresponsáveis". Mas já que a metáfora primária está a circular, que
tal começar por se perguntar que gastos estão realmente destruindo o
"equilíbrio" da casa? Por que a casa não pede mais dinheiro para
aquele pessoal ocioso que mora nos quartos maiores e nunca contribui com nada?
Ou seja, já que estamos em crise, que tal
exigir que donos de jatos, helicópteros e iates paguem IPVA, que igrejas paguem
IPTU, que grandes fortunas paguem imposto, que bancos com lucros exorbitantes
tenham limitações de ganho, que aqueles que mais movimentam contas bancárias
paguem CPMF?
É claro que nada disso será feito, pois o
Brasil não tem mais governo, não tem mais presidente e tem um democracia de
fachada. O que o Brasil tem atualmente é um regime de exceção econômica
comandado por uma junta financeira.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Frases revelam um tempo - por Bob Fernandes (TV Gazeta / Facebook)
Certas frases, mais ainda as que escapam à
vigilância, se tornam tomografias de um Tempo, de seus líderes e seus próximos.
Aprovada na Câmara a PEC 241, que limita
investimentos públicos por 20 anos, Temer discursava. E deixou escapar:
- O Brasil não é só de gente como nós...
E, concluiu o presidente da República:
- (No Brasil)... existe gente pobre...
Esse é um Tempo em que se discute
Previdência, aposentadoria.
Temer, os ministros Padilha, Geddel, por exemplo, defendem aposentadoria aos 65 anos, no mínimo.
Temer se aposentou aos 55 anos. Recebe R$
30 mil ao mês como procurador inativo e R$ 27 líquidos mil como presidente.
Padilha, aposentado como deputado aos 53
anos, ganha R$ 19 mil ao mês. Além do salário de ministro da Casa Civil...
Geddel, ministro-secretário de governo,
aposentou-se aos 51 e recebe R$ 20 mil. E o salário de ministro.
O ditador Figueiredo dizia preferir "
o cheiro dos cavalos" ao "cheiro de povo", e um dia deixou
escapar:
- Se eu ganhasse salário mínimo dava um
tiro no coco...
Fernando Henrique Cardoso foi
compulsoriamente aposentado pela ditadura, aos 37 anos...
... Quando presidente, FHC disse: "Só
vagabundo se aposenta antes dos 50 anos".
Escândalo. Frases e mais frases de médicos
e suas associações quando chegaram os médicos cubanos; esses que já atenderam
mais de 60 milhões de pessoas.
Sobre a PEC que congela gastos também na
Saúde, nem um pio.
Já Drauzio Varela, um médico-símbolo, não
acredita no anunciado remanejamento de verbas que se daria para Saúde e
Educação, e antecipa:
- Vamos deixar grandes massas
desassistidas. O SUS é uma conquista, não tem sentido reduzir ainda mais
investimentos na Saúde...
O deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP), em
uma conversa gravada defendeu: "Quem não tem dinheiro não faz
universidade".
Diante do espanto provocado por sua frase
concedeu:
-... Vai estudar na USP...
Na USP, como se sabe, costumam ingressar
os que estudam nos melhores colégios, quase todos privados, pagos.
À repórter Thais Bilenky, da Folha, João
Dória confessou. Só teve noção da "dimensão da desigualdade" ao se
tornar candidato a prefeito de São Paulo. Aos 58 anos.
Já sua mulher, Bia Dória, perguntou ao
repórter Silas Marti, da Folha:
- O Minhocão pra que serve? Quase nunca
fui lá. É tipo um viaduto, né?
É...
Perguntas e respostas sobre a PEC 241 - por Laura Carvalho (Facebook)
Organizei 10 perguntas e respostas sobre a PEC 241, com base na minha apresentação de ontem na Comissão de Assuntos
Econômicos do Senado. Espero que ajude aqueles que estão sendo convencidos pelo
senso comum. Lembrem-se: o orçamento público é muito diferente do orçamento
doméstico.
1. A PEC serve para estabilizar a
dívida pública?
Não. A crise fiscal brasileira é sobretudo
uma crise de arrecadação. As despesas primárias, que estão sujeitas ao teto,
cresceram menos no governo Dilma do que nos dois governos Lula e no segundo
mandato de FHC. O problema é que as receitas também cresceram muito menos --
2,2% no primeiro mandato de Dilma, 6,5% no segundo mandato de FHC, já
descontada a inflação. No ano passado, as despesas caíram mais de 2% em termos reais,
mas a arrecadação caiu 6%. Esse ano, a previsão é que as despesas subam 2% e a
arrecadação caia mais 4,8%.
A falta de receitas é explicada pela
própria crise econômica e as desonerações fiscais sem contrapartida concedidas
pelo governo e ampliadas pelo Congresso. Um teto que congele as despesas por 20
anos nega essa origem pois não garante receitas, e serve para afastar
alternativas que estavam na mesa no ano passado, como o fim da isenção de 1995
sobre tributação de dividendos, o fim das desonerações e o combate à sonegação.
A PEC garante apenas que a discussão seja somente sobre as despesas.
A PEC também desvia o foco do debate sobre
a origem da nossa alta taxa de juros -- que explica uma parte muito maior do
crescimento da dívida, já que refere-se apenas às despesas primárias federais.
Uma elevação da taxa de juros pelo Banco Central tem efeito direto sobre o
pagamento de juros sobre os títulos indexados à própria taxa SELIC, por exemplo
-- uma jabuticaba brasileira.
A PEC é frouxa no curto prazo, pois
reajusta o valor das despesas pela inflação do ano anterior. Com a inflação em
queda, pode haver crescimento real das despesas por alguns anos (não é o
governo Temer que terá de fazer o ajuste). No longo prazo, quando a arrecadação
e o PIB voltarem a crescer, a PEC passa a ser rígida demais e desnecessária
para controlar a dívida.
2. A PEC é necessária no combate à
inflação?
Também não. De acordo com o Banco Central,
mais de 40% da inflação do ano passado foi causada pelo reajuste brusco dos
preços administrados que estavam represados (combustíveis, energia
elétrica...). Hoje, a inflação já está em queda e converge para a meta. Ainda
mais com o desemprego aumentando e a indústria com cada vez mais capacidade
ociosa, como apontam as atas do BC.
3. A PEC garante a retomada da
confiança e do crescimento?
O que estamos vendo é que o corte de
despesas de 2015 não gerou uma retomada. As empresas estão endividadas, têm
capacidade ociosa crescente e não conseguem vender nem o que são capazes de
produzir. Os indicadores de confiança da indústria, que aumentaram após o
impeachment, não se converteram em melhora real. Os últimos dados de produção
industrial apontam queda em mais de 20 setores. A massa de desempregados não
contribui em nada para uma retomada do consumo. Uma PEC que levará a uma
estagnação ou queda dos investimentos públicos em infraestrutura física e
social durante 20 anos em nada contribui para reverter esse quadro, podendo até
agravá-lo.
4. A PEC garante maior eficiência na gestão
do dinheiro público?
Para melhorar a eficiência é necessário
vontade e capacidade. Não se define isso por uma lei que limite os gastos. A
PEC apenas perpetua os conflitos atuais sobre um total de despesas já reduzido,
que costuma ser vencido pelos que têm maior poder econômico e político. Alguns
setores podem conquistar reajustes acima da inflação, e outros pagarão o preço.
5. A PEC preserva gastos com saúde e
educação?
Não, estas áreas tinham um mínimo de
despesas dado como um percentual da arrecadação de impostos. Quando a
arrecadação crescia, o mínimo crescia. Esse mínimo passa a ser reajustado
apenas pela inflação do ano anterior. Claro que como o teto é para o total de
despesas de cada Poder, o governo poderia potencialmente gastar acima do
mínimo. No entanto, os benefícios previdenciários, por exemplo, continuarão
crescendo acima da inflação por muitos anos, mesmo se aprovarem outra reforma
da Previdência (mudanças demoram a ter impacto). Isso significa que o conjunto
das outras despesas ficará cada vez mais comprimido.
O governo não terá espaço para gastar mais
que o mínimo em saúde e educação (como faz hoje, aliás). Gastos congelados
significam queda vertiginosa das despesas federais com educação por aluno e
saúde por idoso, por exemplo, pois a população cresce.
Outras
despesas importantes para o desenvolvimento, que sequer têm mínimo definido,
podem cair em termos reais: cultura, ciência e tecnologia, assistência social,
investimentos em infraestrutura, etc. Mesmo se o país crescer...
6. Essa regra obteve sucesso em outros
países?
Nenhum país aplica uma regra assim, não
por 20 anos. Alguns países têm regra para crescimento de despesas. Em geral,
são estipuladas para alguns anos e a partir do crescimento do PIB, e combinadas
a outros indicadores. Além disso, nenhum país tem uma regra para gastos em sua
Constituição.
7. Essa regra aumenta a transparência?
Um Staff Note do FMI de 2012 mostra que
países com regras fiscais muito rígidas tendem a sofrer com manobras fiscais de
seus governantes. Gastos realizados por fora da regra pelo uso de contabilidade
criativa podem acabar ocorrendo com mais frequência.
O país já tem instrumentos de
fiscalização, controle e planejamento do orçamento, além de metas fiscais
anuais. Não basta baixar uma lei sobre teto de despesas, é preciso que haja o
desejo por parte dos governos de fortalecer esses mecanismos e o
realismo/transparência da política fiscal.
8. A regra protege os mais pobres?
Não mesmo! Não só comprime despesas essenciais
e diminui a provisão de serviços públicos, como inclui sanções em caso de
descumprimento que seriam pagas por todos os assalariados. Se o governo gastar
mais que o teto, fica impedido de elevar suas despesas obrigatórias além da
inflação. Como boa parte das despesas obrigatórias é indexada ao salário
mínimo, a regra atropelaria a lei de reajuste do salário mínimo impedindo sua
valorização real -- mesmo se a economia estiver crescendo.
O sistema político tende a privilegiar os
que mais têm poder. Reajusta salários de magistrados no meio da recessão, mas
corta programas sociais e investimentos. Se nem quando a economia crescer, há
algum alívio nessa disputa (pois o bolo continua igual), é difícil imaginar que
os mais vulneráveis fiquem com a fatia maior.
9. A PEC retira o orçamento da mão de
políticos corruptos?
Não. Apesar de limitar o tamanho, são eles
que vão definir as prioridades no orçamento. O Congresso pode continuar
realizando emendas parlamentares clientelistas. No entanto, o Ministério da
Fazenda e do Planejamento perdem a capacidade de determinar quando é possível
ampliar investimentos e gastos como forma de combate à crise, por exemplo.
Imagina se a PEC 241 valesse durante a crise de 2008 e 2009?
10. É a única alternativa?
Não. Há muitas outras, que passam pela
elevação de impostos sobre os que hoje quase não pagam (os mais ricos têm mais
de 60% de seus impostos isentos de tributação segundo dados da Receita
Federal), o fim das desonerações fiscais que até hoje vigoram e a garantia de espaço
para investimentos públicos em infraestrutura para dinamizar uma retomada do
crescimento. Com o crescimento maior, a arrecadação volta a subir.
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