A rede inglesa “Sky News” noticiou, com destaque, as corajosas declarações do Arcebispo de Canterbury no sentido de que “a invasão do Iraque tem provocado danos terríveis à região”.
Criticando a ação da Inglaterra e dos Estados Unidos da América, que tachou de “imperialista”, o Arcebispo chegou a dizer que, no Iraque, “a definição ocidental de humanidade não está sendo observada”.
O Coronel T. E. Lawrence, do Exército Inglês, horrorizado com a barbárie imposta ao sofrido povo iraquiano, também foi à imprensa dar o seu testemunho e protestar. Eis as suas declarações, publicadas pelo jornal “Sunday Times”:
sp;"O povo inglês caiu numa armadilha na Mesopotâmia. Ele dificilmente poderá sair de lá com dignidade e honra. Ele está sendo enganado pela dissimulação constante da verdade. Os comunicados de Bagdá estão defasados relativamente aos acontecimentos; eles faltam com a sinceridade e são incompletos. A realidade é pior do que aquela que nos tem sido dita. Nossa administração é mais ineficaz e mais sangrenta do que aquela que nos descrevem. Ela é indigna de nossa história imperial e revelar-se-á brevemente muito abjeta para um tratamento ordinário. Nós estamos às vésperas de um desastre".
Na mesma entrevista, este Coronel denunciou fatos gravíssimos:
"Cidades inteiras foram arrasadas pela aviação inglesa. Em quatro meses, 10.000 pessoas morreram. Os blindados, por terra, forçavam as populações em pânico rumo a campo aberto, onde poderiam exterminá-las melhor".
Pessoas corajosas e de ideal, o Arcebispo de Canterbury e o Coronel T. E. Lawrence. Merecem o reconhecimento das pessoas de bem.
Porém, mais importantes do que estas duas entrevistas são as datas nas quais elas foram dadas. As datas dos jornais é que devem ser motivo de reflexão para todos nós, como mostrarei a seguir.
O Arcebispo de Canterbury condenou a invasão do Iraque em uma entrevista publicada pela rede “Sky News” no dia 25 de novembro de 2007.
O Coronel T. E. Lawrence condenou a invasão do Iraque em uma entrevista publicada pelo jornal “Sunday Times” no dia 22 de outubro de 1920. Sim, 1920! 87 anos antes!
Em verdade, este “Coronel T. E. Lawrence” vem a ser o famoso “Lawrence da Arábia”, retratado em tantos filmes, e que andava pela região das “1.001 noites” no início do século passado.
É aí, no detalhe das datas, que ficamos chocados com a absoluta falta de sensibilidade e até de clemência da orgulhosa e cristã civilização ocidental, há quase um século causando dor e sofrimento a um mesmo povo.
E maior a indignação quando constatamos que todas estas invasões foram feitas em nome do bem, e por pessoas que se dizem de bem. A elas, as palavras de Victor Hugo: “ninguém é mau, e quanto mal foi feito”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem religiosas. A elas, as palavras de Voltaire: “o maravilhoso da guerra é que cada general há de bendizer suas bandeiras e invocar solenemente seu Deus antes de exterminar seu próximo”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem moralistas. A elas, as palavras de Bertrand Russel: “a humanidade tem dupla moral: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem civilizadas. A elas, as palavras de Auguste Rodin: “a civilização não é, em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava”.
Todas estas invasões foram feitas em nome da Justiça e por pessoas que se dizem justas. A elas, as palavras de Thomas Jefferson: “eu temo pela minha espécie quando penso que Deus é justo”.
Todas estas invasões, enfim, foram feitas em nome de Deus. Àqueles que as determinaram, dediquemos as palavras de Blaise Pascal: “nunca o ser humano pratica o mal tão completamente e com tanto prazer como quando o faz por convicção religiosa”.
PEDRO VALLS FEU ROSA é Desembargador do Poder Judiciário Brasileiro, relator da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Espírito Santo.
Comentário
Belas palavras de Feu Rosa. Porém, devo salientar que ele tem sua história conspurcada pela defesa convicta do juiz Antônio Leopoldo Teixeira.. Quando os juízes Carlos Lemos e Alexandre Martins de Castro Filho apresentaram denúncias das estripulias que o juiz Leopoldo cometia , Feu Rosa não só defendeu Leopoldo, como atacou com tudo os que fizeram a (verdadeira) denúncia.
Resultado: o juiz Alexandre foi assassinado a mando de Leopoldo (que prossegue solto, contando com a anuência da justiça que ele bem representa).
O outro juiz viveu muitos anos (se ainda não vive) com escolda policial.
Se o posicionamento de Feu Rosa, à época, fosse outro, a história de Alexandre poderia ter sido maior e ainda mais bela.
De qualquer modo, fica aqui o exemplo de justiça que este representa.
Alexandre é um anti Gilmar Dantas, por assim dizer.
terça-feira, 6 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Educação em pânico
Abro um parêntese para escrever sobre o “Pânico na TV” de ontem.
O programa apresentou populares xingando o ex-técnico da seleção brasileira, Dunga, e sua mãe, de todos os nomes possíveis.
Bem, é uma pena que o programa se utilize deste tipo de postura, absolutamente lamentável. Pode-se falar: “ah, é o povo expressando sua voz”, “é o que a população pensa”, e outras leviandades similares. A questão, é que antes da última partida, mais de 60% da população apoiava o técnico conforme pesquisa realizada. E, mesmo que este percentual tenha mudado, há os que – apesar de discordar dele em alguns pontos – ainda o apóiam. Além do mais, ao citarem só aqueles xingamentos todos, parece que é “a voz do povo” falando. Porém, ¿fizeram algum levantamento estatístico para verificar se realmente a população inteira o detrata desta forma? ¿Ou selecionaram justamente os mais escatológicos para aparecerem na TV?
Dunga errou em alguns pontos e acertou em vários outros. Normal, ele é falível, como qualquer pessoa.
Porém, demonizá-lo não é uma estratégia correta, e xingá-lo abjetamente é desrespeitoso, arbitrário e injusto.
Especialmente por aquele que, pelo menos dos capitães da seleção brasileira que eu vi, foi – de longe – o melhor, mais raçudo, que mais coordenava o time, que se impunha dentro de campo, colocava os árbitros no seu devido lugar, era, enfim, um capitão, na plena acepção da palavra.
Além disso, como técnico, foi o primeiro colocado nas eliminatórias, conquistou a copa América e a Copa das Confederações. Se por um lado podemos elogiar uma serie de posturas que ele tomou, sua seriedade e comprometimento, por outro lado, podemos criticar o fato dele não ter levado Ronaldinho Gaúcho, Ganso e Neymar. Porém, daí destratá-lo desta maneira é absolutamente injustificável.
Foi lamentável o programa ter apelado a este tipo de baixaria e deixo aqui meu singelo protesto.
O programa apresentou populares xingando o ex-técnico da seleção brasileira, Dunga, e sua mãe, de todos os nomes possíveis.
Bem, é uma pena que o programa se utilize deste tipo de postura, absolutamente lamentável. Pode-se falar: “ah, é o povo expressando sua voz”, “é o que a população pensa”, e outras leviandades similares. A questão, é que antes da última partida, mais de 60% da população apoiava o técnico conforme pesquisa realizada. E, mesmo que este percentual tenha mudado, há os que – apesar de discordar dele em alguns pontos – ainda o apóiam. Além do mais, ao citarem só aqueles xingamentos todos, parece que é “a voz do povo” falando. Porém, ¿fizeram algum levantamento estatístico para verificar se realmente a população inteira o detrata desta forma? ¿Ou selecionaram justamente os mais escatológicos para aparecerem na TV?
Dunga errou em alguns pontos e acertou em vários outros. Normal, ele é falível, como qualquer pessoa.
Porém, demonizá-lo não é uma estratégia correta, e xingá-lo abjetamente é desrespeitoso, arbitrário e injusto.
Especialmente por aquele que, pelo menos dos capitães da seleção brasileira que eu vi, foi – de longe – o melhor, mais raçudo, que mais coordenava o time, que se impunha dentro de campo, colocava os árbitros no seu devido lugar, era, enfim, um capitão, na plena acepção da palavra.
Além disso, como técnico, foi o primeiro colocado nas eliminatórias, conquistou a copa América e a Copa das Confederações. Se por um lado podemos elogiar uma serie de posturas que ele tomou, sua seriedade e comprometimento, por outro lado, podemos criticar o fato dele não ter levado Ronaldinho Gaúcho, Ganso e Neymar. Porém, daí destratá-lo desta maneira é absolutamente injustificável.
Foi lamentável o programa ter apelado a este tipo de baixaria e deixo aqui meu singelo protesto.
domingo, 4 de julho de 2010
Serra e a derrota do Brasil - por José Ribamar Bessa Freire
O candidato a presidente da República, José Serra, pode ser culpado pela derrota da seleção brasileira? Há controvérsias. De qualquer forma, revelo aqui os bastidores do dia em que Serra deu uma de Dunga e levou o nosso futebol a um clamoroso fracasso. Mas não quero influenciar ninguém. Conto o caso como o caso foi. Que os leitores e leitoras tirem suas próprias conclusões dessa história edificante, comparando-a com o recente discurso feito por Serra na Confederação Nacional da Agricultura.
Comecemos pelo começo, desenhando o cenário e apresentando os personagens. Foi assim… Tudo começou há mais de quarenta anos, com o golpe militar que levou ao exílio milhares de brasileiros. O Chile acolheu um sem-número deles que, evitando a prisão e a tortura, fizeram o caminho de Santiago em duas ondas de exilados: uma em 1964, a outra em 1969.
Da primeira faziam parte ministros, deputados, jornalistas, professores como Fernando Henrique Cardoso, Almino Afonso, Plínio Arruda Sampaio, Paulo Freire, e tantos outros, entre os quais José Serra, ex-presidente da UNE, que se qualificou no exílio cursando mestrado em Economia na Escolatina da Universidade do Chile. Com boa formação acadêmica, ocuparam cargos bem remunerados no Governo chileno e em organismos internacionais, da OEA e da ONU, sediados naquele país.
A segunda onda era composta, em sua maioria, por peixe pequeno: militantes, estudantes, profissionais jovens em começo de carreira, gente que atravessou a fronteira do Uruguai, a pé, sem dinheiro, sem passaporte e de lá foi de ônibus ou avião para o Chile. Entre eles estava o ator Euclides Coelho de Souza, o repórter Tarcisio Lage e esse que digita essas mal traçadas linhas. Quando em outubro de 1969, com a diferença de alguns dias, chegamos à capital chilena, nenhum de nós três tinha onde cair morto. Quem matou nossa fome foi a Caixinha. Bendita Caixinha!
A Caixinha
Caixinha foi o nome que os exilados deram a uma instituição criada no Chile por brasileiros, destinada a ajudar os compatriotas enquanto não encontravam trabalho. Aqueles que tinham altos cargos em organismos internacionais, com salário em dólares, contribuíam mensalmente e pagavam, assim, a hospedagem dos desempregados. Desta forma, tínhamos casa e comida. Roupa lavada? Cada um cuidava pessoalmente da sua.
A primeira pensão que nos hospedou, de propriedade da dona Adriana, ficava na Calle Michimalongo, onde a comida servida pela Juanita era muito boa: sopa de aspargos, alcachofra, porotos granados, empanadas, caudillo de congrio. Mas a repressão no Brasil se acirrou e com ela cresceu a enxurrada de exilados que chegavam aos potes, desequilibrando as finanças da Caixinha. Fomos, então, transferidos para uma pensão muito mais barata na Calle Grajales. Lá, um dia sim e o outro também, nos serviam rim cortado em cubinhos com cheiro de carne mijada.
Foi lá, na pensão da Grajales, que a ‘seleção brasileira’, formada pelo pessoal da Caixinha, se concentrou antes da partida decisiva contra a ‘seleção chilena’, no campeonato de pelada que rolava todos os sábados num campinho de um colégio jesuíta. O nosso half direito Euclides, o Dadá, era uma peça ofensiva fundamental. Rápido e habilidoso, tinha forte arrancada, bom drible, realizava cruzamentos mortais e ainda por cima recuava para defender.
Acontece que Dadá não podia jogar por uma razão prosaica: não tinha calção, nem dinheiro para comprá-lo. Procuramos a Caixinha que, como todo banco, era controlado por um mineiro: o escritor Edmur Fonseca. Embora generoso, ele alegou inexistência de fundos para aquisição de supérfluos. Acionamos outros mineiros: o advogado Antônio Romanelli e os jornalistas Guy de Almeida e José Maria Rabelo. Tudo em vão.
Foi aí que Teodoro Buarque de Holanda, primo do Chico, doou à ‘seleção brasileira’ um jeans velho, mas de marca, comprado em boutique. A Adair Therezinha Chevonika, mulher do Dadá, pegou uma tesoura, cortou as pernas e transformou o jeans num bermudão. Quando o Dadá entrou em campo, vocês podem não acreditar, mas José Serra, que dava uma de técnico improvisado, gritou:
- Quem estraga uma calça cara só para jogar futebol é porque tem dinheiro, deve ser muito rico, não precisa da Caixinha. Você não deve mais receber ajuda.
Índios en la costa
Meninos, eu vi, e ouvi. Se fosse nos Estados Unidos, o Dadá processava o Serra por danos morais e ganhava uma grana preta. Mas naquelas condições, no Chile, ele ficou arrasado, sem condições psicológicas. A ‘seleção brasileira’, com seu half direito moralmente contundido, perdeu de 4 x0. Dadá fez até gol contra. Serra organizou essa derrota do Brasil? Só Deus sabe.
No dia seguinte - meninos, essa eu não vi, mas circulou entre os exilados - Tarcisio Lage chamou Serra de “reacionário” nos corredores da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), onde ambos trabalhavam. Serra reagiu:
- Você é um maoísta sectário e fanático, Tarcísio. Você faz parte da esquerda pueril!
- Vai-te pra pqp – respondeu Tarcisio, que é bom de rima. Os dois se engalfinharam, verbalmente, e quem desapartou a briga foi Fernando Henrique Cardoso, ajudado pelo professor Deodato Rivera, que sonhava em fazer o maior fichário de ciências sociais do mundo. Meu amigo Tarcísio, que hoje vive na Holanda e mantém um blog (www.anarco.net) pode confirmar a história, que talvez nos ajude a entender a contradição do Serra.
Um lado do Serra é generoso; o outro é pão-duro e sovina. Na quinta-feira, em debate na Confederação Nacional de Agricultura, o lado mesquinho emergiu. Para puxar o saco da senadora Kátia Motoserra Abreu, Serra se manifestou contra a distribuição de cesta básica para o MST: “Não quero que o governo gaste dinheiro com isso”. A cesta do MST é o bermudão do Dadá.
Serra, Dilma, Marina e Plínio – qualquer um deles tem competência e biografia para exercer a presidência da República. O diabo é que os dois mais cotados nas pesquisas não podem renunciar ou morrer no cargo. Imaginem o Brasil governado pelo mordomo de vampiro, o Michel Temer, o rei do fisiologismo, ou por essa caricatura, esse paspalhão sub-collorido – o Índio da Costa, envolvido com desvio da merenda escolar no Rio de Janeiro!
Dizem que nessa sexta-feira, depois do primeiro tempo Brasil x Holanda, comunicaram ao Felipe Mello que Índio da Costa foi escolhido para ser o vice de Serra. O jogador ficou tão baratinado como o Dadá. Deu no que deu. Essas alianças vergonhosas com o DEM e a parte podre do PMDB representam grande risco para o país. Como dizem os espanhóis para advertir uma situação de perigo: Atenção, Brasil, hay moros en la costa.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .
Comecemos pelo começo, desenhando o cenário e apresentando os personagens. Foi assim… Tudo começou há mais de quarenta anos, com o golpe militar que levou ao exílio milhares de brasileiros. O Chile acolheu um sem-número deles que, evitando a prisão e a tortura, fizeram o caminho de Santiago em duas ondas de exilados: uma em 1964, a outra em 1969.
Da primeira faziam parte ministros, deputados, jornalistas, professores como Fernando Henrique Cardoso, Almino Afonso, Plínio Arruda Sampaio, Paulo Freire, e tantos outros, entre os quais José Serra, ex-presidente da UNE, que se qualificou no exílio cursando mestrado em Economia na Escolatina da Universidade do Chile. Com boa formação acadêmica, ocuparam cargos bem remunerados no Governo chileno e em organismos internacionais, da OEA e da ONU, sediados naquele país.
A segunda onda era composta, em sua maioria, por peixe pequeno: militantes, estudantes, profissionais jovens em começo de carreira, gente que atravessou a fronteira do Uruguai, a pé, sem dinheiro, sem passaporte e de lá foi de ônibus ou avião para o Chile. Entre eles estava o ator Euclides Coelho de Souza, o repórter Tarcisio Lage e esse que digita essas mal traçadas linhas. Quando em outubro de 1969, com a diferença de alguns dias, chegamos à capital chilena, nenhum de nós três tinha onde cair morto. Quem matou nossa fome foi a Caixinha. Bendita Caixinha!
A Caixinha
Caixinha foi o nome que os exilados deram a uma instituição criada no Chile por brasileiros, destinada a ajudar os compatriotas enquanto não encontravam trabalho. Aqueles que tinham altos cargos em organismos internacionais, com salário em dólares, contribuíam mensalmente e pagavam, assim, a hospedagem dos desempregados. Desta forma, tínhamos casa e comida. Roupa lavada? Cada um cuidava pessoalmente da sua.
A primeira pensão que nos hospedou, de propriedade da dona Adriana, ficava na Calle Michimalongo, onde a comida servida pela Juanita era muito boa: sopa de aspargos, alcachofra, porotos granados, empanadas, caudillo de congrio. Mas a repressão no Brasil se acirrou e com ela cresceu a enxurrada de exilados que chegavam aos potes, desequilibrando as finanças da Caixinha. Fomos, então, transferidos para uma pensão muito mais barata na Calle Grajales. Lá, um dia sim e o outro também, nos serviam rim cortado em cubinhos com cheiro de carne mijada.
Foi lá, na pensão da Grajales, que a ‘seleção brasileira’, formada pelo pessoal da Caixinha, se concentrou antes da partida decisiva contra a ‘seleção chilena’, no campeonato de pelada que rolava todos os sábados num campinho de um colégio jesuíta. O nosso half direito Euclides, o Dadá, era uma peça ofensiva fundamental. Rápido e habilidoso, tinha forte arrancada, bom drible, realizava cruzamentos mortais e ainda por cima recuava para defender.
Acontece que Dadá não podia jogar por uma razão prosaica: não tinha calção, nem dinheiro para comprá-lo. Procuramos a Caixinha que, como todo banco, era controlado por um mineiro: o escritor Edmur Fonseca. Embora generoso, ele alegou inexistência de fundos para aquisição de supérfluos. Acionamos outros mineiros: o advogado Antônio Romanelli e os jornalistas Guy de Almeida e José Maria Rabelo. Tudo em vão.
Foi aí que Teodoro Buarque de Holanda, primo do Chico, doou à ‘seleção brasileira’ um jeans velho, mas de marca, comprado em boutique. A Adair Therezinha Chevonika, mulher do Dadá, pegou uma tesoura, cortou as pernas e transformou o jeans num bermudão. Quando o Dadá entrou em campo, vocês podem não acreditar, mas José Serra, que dava uma de técnico improvisado, gritou:
- Quem estraga uma calça cara só para jogar futebol é porque tem dinheiro, deve ser muito rico, não precisa da Caixinha. Você não deve mais receber ajuda.
Índios en la costa
Meninos, eu vi, e ouvi. Se fosse nos Estados Unidos, o Dadá processava o Serra por danos morais e ganhava uma grana preta. Mas naquelas condições, no Chile, ele ficou arrasado, sem condições psicológicas. A ‘seleção brasileira’, com seu half direito moralmente contundido, perdeu de 4 x0. Dadá fez até gol contra. Serra organizou essa derrota do Brasil? Só Deus sabe.
No dia seguinte - meninos, essa eu não vi, mas circulou entre os exilados - Tarcisio Lage chamou Serra de “reacionário” nos corredores da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), onde ambos trabalhavam. Serra reagiu:
- Você é um maoísta sectário e fanático, Tarcísio. Você faz parte da esquerda pueril!
- Vai-te pra pqp – respondeu Tarcisio, que é bom de rima. Os dois se engalfinharam, verbalmente, e quem desapartou a briga foi Fernando Henrique Cardoso, ajudado pelo professor Deodato Rivera, que sonhava em fazer o maior fichário de ciências sociais do mundo. Meu amigo Tarcísio, que hoje vive na Holanda e mantém um blog (www.anarco.net) pode confirmar a história, que talvez nos ajude a entender a contradição do Serra.
Um lado do Serra é generoso; o outro é pão-duro e sovina. Na quinta-feira, em debate na Confederação Nacional de Agricultura, o lado mesquinho emergiu. Para puxar o saco da senadora Kátia Motoserra Abreu, Serra se manifestou contra a distribuição de cesta básica para o MST: “Não quero que o governo gaste dinheiro com isso”. A cesta do MST é o bermudão do Dadá.
Serra, Dilma, Marina e Plínio – qualquer um deles tem competência e biografia para exercer a presidência da República. O diabo é que os dois mais cotados nas pesquisas não podem renunciar ou morrer no cargo. Imaginem o Brasil governado pelo mordomo de vampiro, o Michel Temer, o rei do fisiologismo, ou por essa caricatura, esse paspalhão sub-collorido – o Índio da Costa, envolvido com desvio da merenda escolar no Rio de Janeiro!
Dizem que nessa sexta-feira, depois do primeiro tempo Brasil x Holanda, comunicaram ao Felipe Mello que Índio da Costa foi escolhido para ser o vice de Serra. O jogador ficou tão baratinado como o Dadá. Deu no que deu. Essas alianças vergonhosas com o DEM e a parte podre do PMDB representam grande risco para o país. Como dizem os espanhóis para advertir uma situação de perigo: Atenção, Brasil, hay moros en la costa.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .
Brasil e Irã: os nossos motivos – por Tomás Rosa Bueno (blog do Nassif)
Apesar do que não se cansam de repetir os adeptos da diplomacia descalça, não há nada sequer remotamente parecido a antiamericanismo na posição brasileira sobre o Irã: os nossos motivos, ao contrário dos do trio de intrometidos (EUA, França, Reino Unido), são claros e transparentes, declarados abertamente diversas vezes.
Somos a favor do desenvolvimento pacífico da energia nuclear. Não acreditamos que haja provas de que o Irã tenha um programa nuclear militar secreto. Defendendo o Irã, estamos defendendo o nosso próprio direito a dominar o ciclo completo da fabricação de combustível nuclear, estamos defendendo o nosso direito a desenvolver a nossa própria tecnologia de enriquecimento, estamos defendendo o nosso direito a construirmos nós mesmos os reatores que vão mover os nossos submarinos nucleares que vão defender a nossa soberania. Nem mais, nem menos. Queremos para o Irã apenas o que queremos para nós mesmo.
Não há nenhuma prova de que o Irã esteja tentando fazer armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, único organismo internacional que tem autoridade para falar do assunto e é relativamente isento, porque dirigido por um conselho de 32 países, difícil de manipular e pressionar. Não é preciso acreditar no que eu digo, basta ler os relatórios da AIEA, aqui, na página da AIEA sobre o Irã; e o mais recente, aqui, em espanhol.
O que a AIEA faz para deixar felizes o trio de intrometidos e os sócios menores deles, a China e a Rússia, é afirmar, depois de dizer com todas as letras que o programa nuclear iraniano é inteiramente monitorado e vigiado e que não há nenhum indício de “desvio de propósitos”, que não é possível afirmar que não haja um programa secreto. Ora, a mesmíssima coisa pode ser dita sobre o Brasil, sobre a Coreia do Sul, sobre Taiwan, até sobre a Argentina. O Irã é signatário do TNP e, segundo afirmou a AIEA repetidas vezes, cumpre estritamente todas as salvaguardas estabelecidas por esse órgão da ONU.
A AIEA, porém, marotamente, queixa-se de que o Irã se nega a cumprir resoluções do Conselho de Segurança que são ilegais, posto que é um direito do Irã ter um programa de enriquecimento de urânio, e ninguém, nem o Conselho de Segurança, tem o poder legal de impedir que o Irã desenvolva tecnologia nuclear dentro dos limites estabelecidos pelo TNP sem haver provas cabais de que esses limites estejam sendo excedidos. Queixa-se de que o Irã não adere aos Protocolos Adicionais, que são de adesão voluntária – o Brasil, por exemplo, não aderiu e denuncia os PAs como atentatórios à soberania nacional (e o primeiro que se recusou a assiná-los foi o FHC, antes que os diplomatas descalços comecem a ladainha do antiamericansmo, pelos mesmos motivos que o Lula). E pretende que o Irã permita que os inspetores da ONU visitem os locais onde as centrífugas são projetadas e fabricadas, o que não só não é obrigação nem do Irã nem de nenhum outro signatário do TNP como é uma exigência absurda: um país sob ameaça de um ataque militar por duas potências nucleares (uma das quais acaba de reformar as suas posturas nucleares para incluir a possibilidade de um ataque nuclear contra um país não nuclear -- uma óbvia violação dos princípios do TNP) não pode revelar os locais onde é fabricado o equipamento que lhe permitirá reconstruir o que for bombardeado, ou esses locais serão os primeiros alvos.
O Irã garante aos inspetores da ONU mais acesso que o Brasil, por exemplo, que, alegando razões de segredo industrial, não permite que eles nem vejam o que acontece dentro das nossas centrífugas: podem ver o que entra por uma ponta elas e o que sai pela outra, mas não o que acontece entre uma ponta e outra; o Brasil, a Coreia do Sul e Taiwan tampouco revelam os locais de produção das centrífugas; e não sei sobre os outros, mas o Brasil, em plena conformidade com as salvaguardas negociadas com a AIEA pelo governo brasileiro por ocasião da nossa adesão ao TNP, em 1997, não permite nenhum acesso ao programa de desenvolvimento dos reatores que serão usados em submarinos, alegando segredo militar – nós temos um programa nuclear militar, o Irã, não.
O governo iraniano chegou inclusive a assinar voluntariamente os termos invasivos dos Protocolos Adicionais do TNP em 2003, permitindo acesso irrestrito e não anunciado de inspetores da ONU a qualquer lugar do país em que pudesse haver, na opinião deles, qualquer coisa relacionada ao desenvolvimento de armas atômicas; mas retirou-se deles quase dois anos depois, ao verificar que escancarar tudo e submeter-se a ter inspetores escarafunchando por toda parte não adiantava nada para diminuir as suspeitas do “Ocidente” – porque, é claro, essas “suspeitas” são e sempre foram infundadas, e por isto resistem a qualquer prova contrária.
Portanto, se apesar de todas as garantias e tentativas de negociação do Irã desde a morte do Khomeini, apesar de o Irã não ter capacidade tecnológica para enriquecer urânio aos níveis necessários para fazer armas atômicas, apesar de o Irã não dominar a tecnologia de reprocessamento e de produção de plutônio, apesar de o programa nuclear iraniano estar sujeito à estrita vigilância da AIEA na forma de inspeções in loco e em câmeras instaladas em todos os locais ligados à produção de UBE a 3,5% e a 20%, apesar de o Irã ter adiado o início do enriquecimento a 20% para que a AIEA pudesse inspecionar as centrífugas e instalar câmeras de vigilância, apesar de todo o material físsil iraniano estar plenamente contabilizado e rastreado, apesar de o Irã, para facilitar as negociações, ter em diversas ocasiões aceitado suspender as atividades de enriquecimento a que tem direito, apesar de o Irã ter acertado com o Brasil e a Turquia uma acordo de exportação da maior parte do seu UBE segundo os exatos termos propostos pelo Grupo de Viena e estar cumprindo a sua parte mesmo tendo sido sujeito a novas sanções, mesmo assim continua sendo oficialmente acusado de ser “pouco transparente” e de ter um programa militar secreto, e extra-oficialmente de estar à beira de fazer uma bomba atômica (ler aqui como se faz para mentir sobre o Irã sem parecer). E, aos poucos, o que era extrapolação da imprensa mais raivosa vai-se transformando na base da próxima rodada de mentiras oficiais.
Ou seja, é evidente que a possibilidade de o Irã estar tentando fazer armas nucleares não passa de uma desculpa, sustentada por mentiras, com motivos inconfessáveis.
Logo, se foi possível mentir descaradamente sobre as “armas de destruição em massa” do Saddam Hussein e depois devastar o Iraque, se é possível mentir despudoradamente sobre o programa nuclear militar do Irã e ameaçar os iranianos com um ataque militar, o que é que garante que a mesma coisa não vai acontecer conosco amanhã? Hoje somos amigos e aliados dos Estados Unidos, e até acabamos de assinar um acordo de cooperação militar com eles; mas quem pode dizer em que estado estarão as nossas relações dentro de dois, dez, vinte anos? Se os EUA, a França e o Reino Unido têm hoje motivos para quererem atacar o Irã, que não se sabe muito bem quais são, quem seria capaz de jurar que não vão encontrar uma penca de motivos semelhantes para querer atacar o Brasil, ou impedir que desenvolvamos esta ou aquela tecnologia, se isto lhes for conveniente?
Se permitirmos que o Irã seja ilegalmente impedido de desenvolver o programa nuclear pacífico a que tem direito, o TNP será letra morta, e poderemos ser submetidos ao mesmo tratamento no futuro. O ataque ilegal contra os direitos do Irã e a preparação de mais uma intervenção militar ilegal contra um país soberano sob pretextos evidentemente falsos precisa ser detido agora, enquanto ainda é possível. O Brasil tem o dever de defender os direitos dos iranianos hoje, sob pena de pôr em risco os nossos próprios direitos no futuro. A nossa condição de potência com influência global a que nos leva o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos e a própria continuidade desse desenvolvimento dependem do apoio irrestrito ao direito do povo iraniano de desenvolver um programa nuclear pacífico, sem interferências, ameaças e agressões.
A Rússia e a China têm lá os seus motivos, alguns até compreensíveis mas quase todos venais e nenhum relativo ao programa nuclear, para apoiarem a tentativa de empurrar o Irã contra a parede. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França têm uma longuíssima folha corrida de intromissão nos assuntos dos países do Oriente Médio, e não é surpresa nenhuma que queiram agora atacar mais um da lista de países da região que invadiram desde o século XVIII – todos, com exceção do Irã e da Turquia moderna, pós-império otomano. E os outros sete países, entre os quais dois – Bósnia-Herzegovina e Uganda, cujos PIBs equivalem ao orçamento do Bolsa-Família e um – o Togo - com um PIB menor que o orçamento de educação do estado da Bahia, cederam ao formidável poder de pressão e chantagem, dos Estados Unidos e das ex-potências coloniais que mais miséria causaram no Oriente Médio ao longo dos últimos dois séculos. O poder de pressão do trio intrometido foi ensaiado até contra nós e quase teve êxito contra a Turquia às vésperas do acordo BIT – que só saiu por insistência do presidente brasileiro.
Os países que não foram submetidos a essas pressões, a Indonésia, a Índia, os países da Ásia Central, o Paquistão, a Africa do Sul e a maioria dos países africanos que se manifestaram sobre o assunto, Portugal, Noruega (ambos parte da UE, oficialmente pró-sanções), toda a América do Sul com exceção da Colômbia e do Chile, toda a América Central com exceção do Panamá, os 57 países da Organização da Conferência Islâmica e os 116 países do Movimento Não Alinhado, Egito à frente, declararam-se contra a imposição de novas sanções. E todos os países do mundo, inclusive a França e com exceção dos poucos que ficaram quietos a respeito, dos EUA, do Canadá, da Austrália e do Reino Unido, aclamaram o acordo BIT.
O Brasil tem agora a obrigação de estar à altura da confiança e da solidariedade de que foi objeto por parte da comunidade internacional real e ser fiel aos princípios afirmados nas negociações que levaram ao acordo, defendendo por todos os meios o caminho da negociação e do diálogo na solução do impasse iraniano.
Comentário
O problema não são as armas nucleares do Ahmadinejad, que, aliás, nada leva a crer que ele esteja buscando. E, mesmo que buscasse, friso, seria do seu direito, afinal, se Israel as têm, ¿por que o Irã não pode tê-las?
O problema de Ahmadinejad é que ele é um ditador, sumariamente abusa de sua autoridade, foi eleito de forma no mínimo questionável, ataca os direitos privados dos cidadãos iranianos, arma uma polícia política e religiosa capaz de lembrar Fleury e seus apaniguados, comete toda sorte de atrocidades contra os que se opõem ao seu governo.
O fato do conceito democrático ocidental não ser aplicado aos países orientais, devido à raízes culturais e religiosas específicas, não justifica o comportamento autoritário de Ahmadinejad.
Por outro lado, é extremamente irritante ver os EUA cobrar determinadas posturas do Irã quando não o faz com outros países estritamente similares. E não os faz, tão e tão somente pelo fato de serem países aliados, como Israel, China, Rússia, Arábia Saudita, etc.
Ah, claro. O EUA, nunca é demais lembrar, país responsável pelos crimes de guerra de Abu Ghraib e Guantánamo.
Somos a favor do desenvolvimento pacífico da energia nuclear. Não acreditamos que haja provas de que o Irã tenha um programa nuclear militar secreto. Defendendo o Irã, estamos defendendo o nosso próprio direito a dominar o ciclo completo da fabricação de combustível nuclear, estamos defendendo o nosso direito a desenvolver a nossa própria tecnologia de enriquecimento, estamos defendendo o nosso direito a construirmos nós mesmos os reatores que vão mover os nossos submarinos nucleares que vão defender a nossa soberania. Nem mais, nem menos. Queremos para o Irã apenas o que queremos para nós mesmo.
Não há nenhuma prova de que o Irã esteja tentando fazer armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, único organismo internacional que tem autoridade para falar do assunto e é relativamente isento, porque dirigido por um conselho de 32 países, difícil de manipular e pressionar. Não é preciso acreditar no que eu digo, basta ler os relatórios da AIEA, aqui, na página da AIEA sobre o Irã; e o mais recente, aqui, em espanhol.
O que a AIEA faz para deixar felizes o trio de intrometidos e os sócios menores deles, a China e a Rússia, é afirmar, depois de dizer com todas as letras que o programa nuclear iraniano é inteiramente monitorado e vigiado e que não há nenhum indício de “desvio de propósitos”, que não é possível afirmar que não haja um programa secreto. Ora, a mesmíssima coisa pode ser dita sobre o Brasil, sobre a Coreia do Sul, sobre Taiwan, até sobre a Argentina. O Irã é signatário do TNP e, segundo afirmou a AIEA repetidas vezes, cumpre estritamente todas as salvaguardas estabelecidas por esse órgão da ONU.
A AIEA, porém, marotamente, queixa-se de que o Irã se nega a cumprir resoluções do Conselho de Segurança que são ilegais, posto que é um direito do Irã ter um programa de enriquecimento de urânio, e ninguém, nem o Conselho de Segurança, tem o poder legal de impedir que o Irã desenvolva tecnologia nuclear dentro dos limites estabelecidos pelo TNP sem haver provas cabais de que esses limites estejam sendo excedidos. Queixa-se de que o Irã não adere aos Protocolos Adicionais, que são de adesão voluntária – o Brasil, por exemplo, não aderiu e denuncia os PAs como atentatórios à soberania nacional (e o primeiro que se recusou a assiná-los foi o FHC, antes que os diplomatas descalços comecem a ladainha do antiamericansmo, pelos mesmos motivos que o Lula). E pretende que o Irã permita que os inspetores da ONU visitem os locais onde as centrífugas são projetadas e fabricadas, o que não só não é obrigação nem do Irã nem de nenhum outro signatário do TNP como é uma exigência absurda: um país sob ameaça de um ataque militar por duas potências nucleares (uma das quais acaba de reformar as suas posturas nucleares para incluir a possibilidade de um ataque nuclear contra um país não nuclear -- uma óbvia violação dos princípios do TNP) não pode revelar os locais onde é fabricado o equipamento que lhe permitirá reconstruir o que for bombardeado, ou esses locais serão os primeiros alvos.
O Irã garante aos inspetores da ONU mais acesso que o Brasil, por exemplo, que, alegando razões de segredo industrial, não permite que eles nem vejam o que acontece dentro das nossas centrífugas: podem ver o que entra por uma ponta elas e o que sai pela outra, mas não o que acontece entre uma ponta e outra; o Brasil, a Coreia do Sul e Taiwan tampouco revelam os locais de produção das centrífugas; e não sei sobre os outros, mas o Brasil, em plena conformidade com as salvaguardas negociadas com a AIEA pelo governo brasileiro por ocasião da nossa adesão ao TNP, em 1997, não permite nenhum acesso ao programa de desenvolvimento dos reatores que serão usados em submarinos, alegando segredo militar – nós temos um programa nuclear militar, o Irã, não.
O governo iraniano chegou inclusive a assinar voluntariamente os termos invasivos dos Protocolos Adicionais do TNP em 2003, permitindo acesso irrestrito e não anunciado de inspetores da ONU a qualquer lugar do país em que pudesse haver, na opinião deles, qualquer coisa relacionada ao desenvolvimento de armas atômicas; mas retirou-se deles quase dois anos depois, ao verificar que escancarar tudo e submeter-se a ter inspetores escarafunchando por toda parte não adiantava nada para diminuir as suspeitas do “Ocidente” – porque, é claro, essas “suspeitas” são e sempre foram infundadas, e por isto resistem a qualquer prova contrária.
Portanto, se apesar de todas as garantias e tentativas de negociação do Irã desde a morte do Khomeini, apesar de o Irã não ter capacidade tecnológica para enriquecer urânio aos níveis necessários para fazer armas atômicas, apesar de o Irã não dominar a tecnologia de reprocessamento e de produção de plutônio, apesar de o programa nuclear iraniano estar sujeito à estrita vigilância da AIEA na forma de inspeções in loco e em câmeras instaladas em todos os locais ligados à produção de UBE a 3,5% e a 20%, apesar de o Irã ter adiado o início do enriquecimento a 20% para que a AIEA pudesse inspecionar as centrífugas e instalar câmeras de vigilância, apesar de todo o material físsil iraniano estar plenamente contabilizado e rastreado, apesar de o Irã, para facilitar as negociações, ter em diversas ocasiões aceitado suspender as atividades de enriquecimento a que tem direito, apesar de o Irã ter acertado com o Brasil e a Turquia uma acordo de exportação da maior parte do seu UBE segundo os exatos termos propostos pelo Grupo de Viena e estar cumprindo a sua parte mesmo tendo sido sujeito a novas sanções, mesmo assim continua sendo oficialmente acusado de ser “pouco transparente” e de ter um programa militar secreto, e extra-oficialmente de estar à beira de fazer uma bomba atômica (ler aqui como se faz para mentir sobre o Irã sem parecer). E, aos poucos, o que era extrapolação da imprensa mais raivosa vai-se transformando na base da próxima rodada de mentiras oficiais.
Ou seja, é evidente que a possibilidade de o Irã estar tentando fazer armas nucleares não passa de uma desculpa, sustentada por mentiras, com motivos inconfessáveis.
Logo, se foi possível mentir descaradamente sobre as “armas de destruição em massa” do Saddam Hussein e depois devastar o Iraque, se é possível mentir despudoradamente sobre o programa nuclear militar do Irã e ameaçar os iranianos com um ataque militar, o que é que garante que a mesma coisa não vai acontecer conosco amanhã? Hoje somos amigos e aliados dos Estados Unidos, e até acabamos de assinar um acordo de cooperação militar com eles; mas quem pode dizer em que estado estarão as nossas relações dentro de dois, dez, vinte anos? Se os EUA, a França e o Reino Unido têm hoje motivos para quererem atacar o Irã, que não se sabe muito bem quais são, quem seria capaz de jurar que não vão encontrar uma penca de motivos semelhantes para querer atacar o Brasil, ou impedir que desenvolvamos esta ou aquela tecnologia, se isto lhes for conveniente?
Se permitirmos que o Irã seja ilegalmente impedido de desenvolver o programa nuclear pacífico a que tem direito, o TNP será letra morta, e poderemos ser submetidos ao mesmo tratamento no futuro. O ataque ilegal contra os direitos do Irã e a preparação de mais uma intervenção militar ilegal contra um país soberano sob pretextos evidentemente falsos precisa ser detido agora, enquanto ainda é possível. O Brasil tem o dever de defender os direitos dos iranianos hoje, sob pena de pôr em risco os nossos próprios direitos no futuro. A nossa condição de potência com influência global a que nos leva o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos e a própria continuidade desse desenvolvimento dependem do apoio irrestrito ao direito do povo iraniano de desenvolver um programa nuclear pacífico, sem interferências, ameaças e agressões.
A Rússia e a China têm lá os seus motivos, alguns até compreensíveis mas quase todos venais e nenhum relativo ao programa nuclear, para apoiarem a tentativa de empurrar o Irã contra a parede. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França têm uma longuíssima folha corrida de intromissão nos assuntos dos países do Oriente Médio, e não é surpresa nenhuma que queiram agora atacar mais um da lista de países da região que invadiram desde o século XVIII – todos, com exceção do Irã e da Turquia moderna, pós-império otomano. E os outros sete países, entre os quais dois – Bósnia-Herzegovina e Uganda, cujos PIBs equivalem ao orçamento do Bolsa-Família e um – o Togo - com um PIB menor que o orçamento de educação do estado da Bahia, cederam ao formidável poder de pressão e chantagem, dos Estados Unidos e das ex-potências coloniais que mais miséria causaram no Oriente Médio ao longo dos últimos dois séculos. O poder de pressão do trio intrometido foi ensaiado até contra nós e quase teve êxito contra a Turquia às vésperas do acordo BIT – que só saiu por insistência do presidente brasileiro.
Os países que não foram submetidos a essas pressões, a Indonésia, a Índia, os países da Ásia Central, o Paquistão, a Africa do Sul e a maioria dos países africanos que se manifestaram sobre o assunto, Portugal, Noruega (ambos parte da UE, oficialmente pró-sanções), toda a América do Sul com exceção da Colômbia e do Chile, toda a América Central com exceção do Panamá, os 57 países da Organização da Conferência Islâmica e os 116 países do Movimento Não Alinhado, Egito à frente, declararam-se contra a imposição de novas sanções. E todos os países do mundo, inclusive a França e com exceção dos poucos que ficaram quietos a respeito, dos EUA, do Canadá, da Austrália e do Reino Unido, aclamaram o acordo BIT.
O Brasil tem agora a obrigação de estar à altura da confiança e da solidariedade de que foi objeto por parte da comunidade internacional real e ser fiel aos princípios afirmados nas negociações que levaram ao acordo, defendendo por todos os meios o caminho da negociação e do diálogo na solução do impasse iraniano.
Comentário
O problema não são as armas nucleares do Ahmadinejad, que, aliás, nada leva a crer que ele esteja buscando. E, mesmo que buscasse, friso, seria do seu direito, afinal, se Israel as têm, ¿por que o Irã não pode tê-las?
O problema de Ahmadinejad é que ele é um ditador, sumariamente abusa de sua autoridade, foi eleito de forma no mínimo questionável, ataca os direitos privados dos cidadãos iranianos, arma uma polícia política e religiosa capaz de lembrar Fleury e seus apaniguados, comete toda sorte de atrocidades contra os que se opõem ao seu governo.
O fato do conceito democrático ocidental não ser aplicado aos países orientais, devido à raízes culturais e religiosas específicas, não justifica o comportamento autoritário de Ahmadinejad.
Por outro lado, é extremamente irritante ver os EUA cobrar determinadas posturas do Irã quando não o faz com outros países estritamente similares. E não os faz, tão e tão somente pelo fato de serem países aliados, como Israel, China, Rússia, Arábia Saudita, etc.
Ah, claro. O EUA, nunca é demais lembrar, país responsável pelos crimes de guerra de Abu Ghraib e Guantánamo.
O Fim da Pré-Campanha – por Marcos Coimbra (Correio Braziliense)
Quem tinha razão era Magalhães Pinto, velha raposa política e ex-governador de Minas Gerais.
A política é mesmo como nuvem. Uma hora, você olha e vê uma coisa. Olha de novo e ela já mudou.
Se estivesse vivo, seria o que ele diria sobre o período da campanha presidencial que agora se encerra. Do início de abril, quando se desincompatibilizaram os principais candidatos, ao fim de junho, quando começa a reta final da sucessão, tudo ficou diferente.
A entrada em campo de Serra era aguardada há meses. É verdade que ele teve que disputar, até dezembro, o posto de candidato com Aécio, ainda que não se preocupasse muito com as aspirações do mineiro. Estava convencido de que o PSDB terminaria por lhe entregar a vaga.
De qualquer maneira, o fato é que, desde quando Aécio saiu do páreo, nada mais restava em seu caminho. Com a candidatura assegurada, teve amplo tempo para se preparar, montar sua estratégia, organizar sua equipe. Ainda que continuasse, de janeiro a março, com suas obrigações de governo, pôde pensar com calma no que faria quando saísse do Palácio dos Bandeirantes.
Com algum retardo (que ajudou a manter o suspense sobre sua decisão até a véspera do prazo fatal), ele finalmente renunciou ao cargo de governador e virou candidato. Juntou-se a Dilma que, dias antes, havia deixado o ministério.
Entre o começo de abril e meados de maio, Serra viveu seus melhores 45 dias desde quando iniciou sua jornada em busca da Presidência. Quem tiver alguma memória se lembrará do que andaram dizendo seus correligionários e publicaram aqueles que por ele torcem na imprensa carioca e paulista.
Era como se estivesse ali começando para valer a sucessão, com um goleador nato, em momento inspirado, mostrando seu melhor futebol. Para eles, Serra fazia um gol atrás do outro, com postura serena, palavras sempre bem escolhidas, hábeis manobras.
Pelo que se lia nesses jornais, enquanto Serra conquistava novos apoios, Dilma perdia os dela. Era apenas questão de tempo até que as pesquisas assinalassem seu crescimento. Enquanto não vinham, as colunas estavam cheias de especulações sobre “pesquisas internas”, que já o mostrariam bem à frente da adversária.
Se era esse o tom da cobertura a respeito do candidato tucano, via-se o inverso no que era publicado sobre a petista. Parecia que uma desastrada havia entrado em campo, cometendo um erro depois do outro. Precipitação, amadorismo, inabilidade, incompetência, era isso que se falava dela e de sua campanha. Chegaram a dizer que Lula andava nervoso, agitado, irritadiço.
As nuvens, no entanto, mudaram. Se o sol parecia brilhar para Serra até o meio de maio, a chuva desabou de lá para cá. Viu-se que a falta de traquejo eleitoral não prejudicava Dilma. Ela cresceu nas pesquisas, suas alianças se confirmaram, outras surgiram. Gorou a esperança de que a propaganda partidária de PSDB, DEM, PPS e PTB, somadas, mudassem o panorama. Na maioria dos estados, alegrias para o governo, decepções para a oposição. Lula já não franzia mais a testa. Quando junho chegou ao fim, ele era só sorrisos.
Ficou, no entanto, para o apagar das luzes da “pré-campanha”, o pior momento. O episódio da escolha do companheiro de chapa de Serra tem tudo para entrar para a história.
Desde a quarta-feira, quando Índio da Costa foi confirmado, já se falou tanto que é até cruel insistir no assunto. Qualquer argumento em favor de seu nome chega a ser risível, desde o potencial de seus 40 anos atraírem a juventude e provocarem a reversão do voto no Sudeste, à densidade de sua biografia de “ficha limpa”.
Mas resta uma pergunta: por mais que as pessoas se julguem imortais, um candidato a presidente não tem a obrigação de raciocinar com a hipótese de vir a faltar, por qualquer motivo? Não foi, talvez, pensando assim que Collor escolheu Itamar, que Fernando Henrique convidou Marco Maciel, que Lula optou por José Alencar?
Goste-se ou não de Michel Temer, nem seus inimigos negam que tem experiência e qualificações para, se imperativo, substituir Dilma. E Índio da Costa?
Comentário
Quanto as “nuvens” que surgem numa campanha, eles são exatamente coerentes com o crescimento/decrescimento nas pesquisas.
Discordo especialmente do último parágrafo. Quanto a Michel Temer e Índio da Costa, é tarefa árdua, ou talvez mesmo impossível, detetar quem é pior que o outro.
A política é mesmo como nuvem. Uma hora, você olha e vê uma coisa. Olha de novo e ela já mudou.
Se estivesse vivo, seria o que ele diria sobre o período da campanha presidencial que agora se encerra. Do início de abril, quando se desincompatibilizaram os principais candidatos, ao fim de junho, quando começa a reta final da sucessão, tudo ficou diferente.
A entrada em campo de Serra era aguardada há meses. É verdade que ele teve que disputar, até dezembro, o posto de candidato com Aécio, ainda que não se preocupasse muito com as aspirações do mineiro. Estava convencido de que o PSDB terminaria por lhe entregar a vaga.
De qualquer maneira, o fato é que, desde quando Aécio saiu do páreo, nada mais restava em seu caminho. Com a candidatura assegurada, teve amplo tempo para se preparar, montar sua estratégia, organizar sua equipe. Ainda que continuasse, de janeiro a março, com suas obrigações de governo, pôde pensar com calma no que faria quando saísse do Palácio dos Bandeirantes.
Com algum retardo (que ajudou a manter o suspense sobre sua decisão até a véspera do prazo fatal), ele finalmente renunciou ao cargo de governador e virou candidato. Juntou-se a Dilma que, dias antes, havia deixado o ministério.
Entre o começo de abril e meados de maio, Serra viveu seus melhores 45 dias desde quando iniciou sua jornada em busca da Presidência. Quem tiver alguma memória se lembrará do que andaram dizendo seus correligionários e publicaram aqueles que por ele torcem na imprensa carioca e paulista.
Era como se estivesse ali começando para valer a sucessão, com um goleador nato, em momento inspirado, mostrando seu melhor futebol. Para eles, Serra fazia um gol atrás do outro, com postura serena, palavras sempre bem escolhidas, hábeis manobras.
Pelo que se lia nesses jornais, enquanto Serra conquistava novos apoios, Dilma perdia os dela. Era apenas questão de tempo até que as pesquisas assinalassem seu crescimento. Enquanto não vinham, as colunas estavam cheias de especulações sobre “pesquisas internas”, que já o mostrariam bem à frente da adversária.
Se era esse o tom da cobertura a respeito do candidato tucano, via-se o inverso no que era publicado sobre a petista. Parecia que uma desastrada havia entrado em campo, cometendo um erro depois do outro. Precipitação, amadorismo, inabilidade, incompetência, era isso que se falava dela e de sua campanha. Chegaram a dizer que Lula andava nervoso, agitado, irritadiço.
As nuvens, no entanto, mudaram. Se o sol parecia brilhar para Serra até o meio de maio, a chuva desabou de lá para cá. Viu-se que a falta de traquejo eleitoral não prejudicava Dilma. Ela cresceu nas pesquisas, suas alianças se confirmaram, outras surgiram. Gorou a esperança de que a propaganda partidária de PSDB, DEM, PPS e PTB, somadas, mudassem o panorama. Na maioria dos estados, alegrias para o governo, decepções para a oposição. Lula já não franzia mais a testa. Quando junho chegou ao fim, ele era só sorrisos.
Ficou, no entanto, para o apagar das luzes da “pré-campanha”, o pior momento. O episódio da escolha do companheiro de chapa de Serra tem tudo para entrar para a história.
Desde a quarta-feira, quando Índio da Costa foi confirmado, já se falou tanto que é até cruel insistir no assunto. Qualquer argumento em favor de seu nome chega a ser risível, desde o potencial de seus 40 anos atraírem a juventude e provocarem a reversão do voto no Sudeste, à densidade de sua biografia de “ficha limpa”.
Mas resta uma pergunta: por mais que as pessoas se julguem imortais, um candidato a presidente não tem a obrigação de raciocinar com a hipótese de vir a faltar, por qualquer motivo? Não foi, talvez, pensando assim que Collor escolheu Itamar, que Fernando Henrique convidou Marco Maciel, que Lula optou por José Alencar?
Goste-se ou não de Michel Temer, nem seus inimigos negam que tem experiência e qualificações para, se imperativo, substituir Dilma. E Índio da Costa?
Comentário
Quanto as “nuvens” que surgem numa campanha, eles são exatamente coerentes com o crescimento/decrescimento nas pesquisas.
Discordo especialmente do último parágrafo. Quanto a Michel Temer e Índio da Costa, é tarefa árdua, ou talvez mesmo impossível, detetar quem é pior que o outro.
Serra tenta levar a eleição para o segundo turno - por Luiz Carlos Azenha (Vi o mundo)
Muito se escreveu nas últimas horas a respeito de um suposto fracasso dos tucanos na escolha do candidato a vice-presidente na chapa de José Serra. Bons textos foram escritos, sacadas interessantes foram expostas. A nossa mídia ama esse tipo de futrica que o twitter ajuda a disseminar: as fofocas políticas de bastidores rendem muitas manchetes, ainda que não iluminem o verdadeiro jogo.
Acho que Serra tomou a decisão certa ao tentar emplacar Álvaro Dias de vice, dada a conjuntura eleitoral. Como se sabe, candidato a vice raramente rende algum voto. Ou pelo menos não rende votos em número suficiente para decidir a eleição. A decisão de Serra era a mais adequada não pelos votos que o vice traria, mas por neutralizar um perigo para a candidatura dele no Sudeste/Sul, o palanque unificado de PT-PMDB-PDT no Paraná.
A aritmética é razoavelmente simples. Serra precisa de vitória por ampla margem no Sudeste e no Sul para levar a eleição de outubro para o segundo turno. Não é certo que conseguirá vencer pela margem necessária nem mesmo em São Paulo (por baixo, mais de 60% dos votos). No Rio de Janeiro a situação é desfavorável para a oposição. Em Minas, igualmente.
No Paraná, no entanto, dadas as circunstâncias especiais da relação de Osmar (agora candidato a governador, com Lula e Dilma) e o irmão dele, Álvaro Dias, Serra tinha a oportunidade de usar a indicação do vice para golpear um forte palanque governista.
Não deu certo, por causa da reação do DEM. Os Democratas aparentemente concluiram que a presença de um vice na chapa de Serra é a melhor oportunidade para dar ao partido a exposição necessária, em nível nacional, para evitar uma derrota catastrófica que esmague a representação no Congresso.
É disso que se trata: Serra, para sobreviver, pretendia jogar o DEM aos leões.
As fofocas, intrigas e futricas dos últimos dias, no entanto, duvido que resultem em um só voto ganho (ou perdido) para José Serra em função do nome escolhido (tanto faz Álvaro Dias, Índio da Costa ou um poste).
Dados:
1. A alta aprovação popular do governo Lula;
2. A excelente conjuntura econômica;
3. A capacidade política exibida pela ex-ministra Dilma Rousseff para aglutinar apoios;
José Serra tem sido forçado a se defender no que acreditava ser seu terreno mais favorável, o Sul e o Sudeste. No Paraná, fracassou.
O PT e partidos aliados do governo já engoliram todos os sapos necessários à formação da aliança em torno da ex-ministra Dilma. Olhando os palanques estaduais, fica claro não apenas o poder extraordinário do presidente Lula de delicadamente torcer os braços dos que se colocam no caminho. Ele tem a força e já deixou claro que pretende usá-la para fazer a sucessora. Para o bem e para o mal, esta é a nova realidade política do Brasil. Somos todos, para usar a frase de um colunista, “lulodependentes”.
Comentário
De fato, fazer o PT apoiar Hélio Costa em Minas Gerais e Roseana Sarney no Maranhão são atitudes explicáveis, porém, absolutamente condenáveis.
Como bem disse certa vez Che Guevara: “as concessões são a ante-sala da traição”. Porém, a pureza ideológica do revolucionário não é coerente com a tal da “realpolitik”.
Uma lástima.
Acho que Serra tomou a decisão certa ao tentar emplacar Álvaro Dias de vice, dada a conjuntura eleitoral. Como se sabe, candidato a vice raramente rende algum voto. Ou pelo menos não rende votos em número suficiente para decidir a eleição. A decisão de Serra era a mais adequada não pelos votos que o vice traria, mas por neutralizar um perigo para a candidatura dele no Sudeste/Sul, o palanque unificado de PT-PMDB-PDT no Paraná.
A aritmética é razoavelmente simples. Serra precisa de vitória por ampla margem no Sudeste e no Sul para levar a eleição de outubro para o segundo turno. Não é certo que conseguirá vencer pela margem necessária nem mesmo em São Paulo (por baixo, mais de 60% dos votos). No Rio de Janeiro a situação é desfavorável para a oposição. Em Minas, igualmente.
No Paraná, no entanto, dadas as circunstâncias especiais da relação de Osmar (agora candidato a governador, com Lula e Dilma) e o irmão dele, Álvaro Dias, Serra tinha a oportunidade de usar a indicação do vice para golpear um forte palanque governista.
Não deu certo, por causa da reação do DEM. Os Democratas aparentemente concluiram que a presença de um vice na chapa de Serra é a melhor oportunidade para dar ao partido a exposição necessária, em nível nacional, para evitar uma derrota catastrófica que esmague a representação no Congresso.
É disso que se trata: Serra, para sobreviver, pretendia jogar o DEM aos leões.
As fofocas, intrigas e futricas dos últimos dias, no entanto, duvido que resultem em um só voto ganho (ou perdido) para José Serra em função do nome escolhido (tanto faz Álvaro Dias, Índio da Costa ou um poste).
Dados:
1. A alta aprovação popular do governo Lula;
2. A excelente conjuntura econômica;
3. A capacidade política exibida pela ex-ministra Dilma Rousseff para aglutinar apoios;
José Serra tem sido forçado a se defender no que acreditava ser seu terreno mais favorável, o Sul e o Sudeste. No Paraná, fracassou.
O PT e partidos aliados do governo já engoliram todos os sapos necessários à formação da aliança em torno da ex-ministra Dilma. Olhando os palanques estaduais, fica claro não apenas o poder extraordinário do presidente Lula de delicadamente torcer os braços dos que se colocam no caminho. Ele tem a força e já deixou claro que pretende usá-la para fazer a sucessora. Para o bem e para o mal, esta é a nova realidade política do Brasil. Somos todos, para usar a frase de um colunista, “lulodependentes”.
Comentário
De fato, fazer o PT apoiar Hélio Costa em Minas Gerais e Roseana Sarney no Maranhão são atitudes explicáveis, porém, absolutamente condenáveis.
Como bem disse certa vez Che Guevara: “as concessões são a ante-sala da traição”. Porém, a pureza ideológica do revolucionário não é coerente com a tal da “realpolitik”.
Uma lástima.
Condenados controladores do caos aéreo – por Rodrigo Couto (Correio Braziliense)
Sete profissionais do Cindacta IV receberam penas de até dois anos e meio de cadeia por liderarem greve em 2007
Acusados de liderarem uma greve e atentarem contra os princípios da hierarquia e da disciplina militar em 30 de março de 2007, sete controladores de voo do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta IV), em Manaus, foram condenados ontem pelo Superior Tribunal Militar (STM) a penas que variam de quatro meses a dois anos e seis meses de prisão. Eles foram acusados pelos crimes de incitamento à desobediência ou à prática de crime militar, desrespeito a superior, e publicação de crítica indevida a superior, infrações previstas no Código Penal Militar. Os operadores de Brasília e de Curitiba, que também participaram dos protestos, ainda não foram sentenciados.
Condenado a exatos dois anos, seis meses e 9 dias de prisão, o controlador licenciado Wilson de Alencar Aragão disse ao Correio que o julgamento no STM não é imparcial. "Não tivemos a intenção de provocar revolta. Estávamos apenas buscando o exercício pleno de liberdade de expressão", afirma. De acordo com Alencar, "o tribunal não se ateve às provas e nem aos autos. Foi uma decisão afastada dos critérios jurídicos". Aprovado em concurso público fora da esfera militar, o operador de voo pretende recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). "Acompanhei o julgamento pela internet e vi que houve divergências em relação ao período da minha pena. Vou aguardar a publicação do acórdão do STM e espero por um julgamento imparcial no STF", acrescenta.
Dos 40 militares indicados do Cindacta IV, sete foram condenados, 32 sofreram punições disciplinares, e um foi absolvido. Durante a leitura de seu parecer, o ministro-relator Marcos Leal de Azevedo destacou que "a liberdade de expressão é um direito constitucional que resguarda tanto o direito do cidadão quanto o da democracia, mas nenhum princípio é absoluto, podendo ser válido em algumas situações e não válido em outras". O STM julgou recurso contra a condenação, em primeira instância, de oito controladores de Manaus.
Depois da queda do Boeing 737-800 da Gol, em 29 de setembro de 2006, com 154 pessoas a bordo, após se chocar com jato Legacy, os controladores de voo decidiram realizar manifestações que reivindicavam a desmilitarização do controle do tráfego aéreo e a melhoria dos salários. Em 30 de março de 2007, a paralisação dos operadores praticamente paralisou os embarques e desembarques nos aeroportos de todo o país.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/07/02/brasil,i=...
Comentário
Os militares sendo militares. É por essas e outras que nutro absoluto desprezo pelos milicos.
Acusados de liderarem uma greve e atentarem contra os princípios da hierarquia e da disciplina militar em 30 de março de 2007, sete controladores de voo do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta IV), em Manaus, foram condenados ontem pelo Superior Tribunal Militar (STM) a penas que variam de quatro meses a dois anos e seis meses de prisão. Eles foram acusados pelos crimes de incitamento à desobediência ou à prática de crime militar, desrespeito a superior, e publicação de crítica indevida a superior, infrações previstas no Código Penal Militar. Os operadores de Brasília e de Curitiba, que também participaram dos protestos, ainda não foram sentenciados.
Condenado a exatos dois anos, seis meses e 9 dias de prisão, o controlador licenciado Wilson de Alencar Aragão disse ao Correio que o julgamento no STM não é imparcial. "Não tivemos a intenção de provocar revolta. Estávamos apenas buscando o exercício pleno de liberdade de expressão", afirma. De acordo com Alencar, "o tribunal não se ateve às provas e nem aos autos. Foi uma decisão afastada dos critérios jurídicos". Aprovado em concurso público fora da esfera militar, o operador de voo pretende recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). "Acompanhei o julgamento pela internet e vi que houve divergências em relação ao período da minha pena. Vou aguardar a publicação do acórdão do STM e espero por um julgamento imparcial no STF", acrescenta.
Dos 40 militares indicados do Cindacta IV, sete foram condenados, 32 sofreram punições disciplinares, e um foi absolvido. Durante a leitura de seu parecer, o ministro-relator Marcos Leal de Azevedo destacou que "a liberdade de expressão é um direito constitucional que resguarda tanto o direito do cidadão quanto o da democracia, mas nenhum princípio é absoluto, podendo ser válido em algumas situações e não válido em outras". O STM julgou recurso contra a condenação, em primeira instância, de oito controladores de Manaus.
Depois da queda do Boeing 737-800 da Gol, em 29 de setembro de 2006, com 154 pessoas a bordo, após se chocar com jato Legacy, os controladores de voo decidiram realizar manifestações que reivindicavam a desmilitarização do controle do tráfego aéreo e a melhoria dos salários. Em 30 de março de 2007, a paralisação dos operadores praticamente paralisou os embarques e desembarques nos aeroportos de todo o país.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/07/02/brasil,i=...
Comentário
Os militares sendo militares. É por essas e outras que nutro absoluto desprezo pelos milicos.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Quem acredita ainda na FSP (Força Serra Presidente)? – por Emir Sader (Agência Carta Maior)
O jornal que emprestou seus carros para a Operação Bandeirantes, disfarçada de jornalistas, levar a cabo prisões arbitrárias, fuzilamentos sumários de detidos, conduzir os sobreviventes para tortura, para a desaparição, para a morte.
O jornal que considerou a ditadura militar – o mais ditatorial dos regimes, de imposição do terror, o mais antidemocrático – como a salvação do país, pregou sua realização, saudou a ruptura da democracia e a deposição de um presidente legitimamente eleito pelos cidadãos, apoio a ditadura, ajudou a escondeu seus crimes e, mais recentemente, chamou-o de “ditabranda”.
O jornal que publicou uma ficha falsa da Dilma em manchete de primeira página de um domingo. Pego em flagrante, nunca corrigiu sua brutal manipulação.
Uma executiva do jornal declarou que, dada a fraqueza dos partidos da oposição, a imprensa assume o papel de partido da oposição. Isto é, o jornaleco virou boletim de um partido opositor, os jornalistas não são mais jornalistas, todos eles militantes desse partido opositor. A direção, que nunca foi eleita por ninguém, mas designada pela família, o Comitê Central desse partido. O seu diretor, escolhido por seu pai para sucedê-lo na direção da empresa familiar, presidente do partido.
Suas pesquisas são pesquisas internas dos tucanos, feitas por encomenda e atendendo às penúrias do candidato-colunista do jornal, que passeia pela redação do jornal como pela sua casa, dá broncas no que não gosta, nomeia empregados, como a chefe da sucursal de Brasília, nomeada por ele, porque tucana e porque casada com publicitário – ex funcionário da Globo – que codirige a campanha derrotada em 2002 e agora em 2010.
Quem acredita nas pesquisas do Databranda?
Quem compraria um jornal usado da família Frias?
Que lê o Diario Oficial dos Tucanos, com todos os editorais cheios de pluma tucana da página 2?
O povo não é tonto. Com tudo o que eles dizem, apenas 3% aceitam seus argumentos e rejeitam Lula.
Ou será 0%, na margem de erro?
A derrota de Serra e seu vice de ocasião é também a derrota da imprensa das oligarquias familiares, da imprensa mercantil, da imprensa mentirosa e manipuladora, a derrota dos Frias, dos Marinhos, dos Mesquitas, dos Civitas e dos seus associados regionais e internacionais.
Daí seu desespero, daí sua depressão, daí mentiras como essa pesquisa encomendada pelos tucanos e em que nem eles mesmos acreditam.
Otávio Frias Filho (que ocupa o cargo por ser filho de Otávio Frias pai), seus parentes e militantes do seu partido, não conseguem mais ditabrandar em nome do país.
Prêmio Corvo do semestre para Otávio Frias Filho e sua trupe!
Comentário
O Data Folha nunca foi confiável, além do mais com relação ao seu editor-chefe, José Serra. Porém, agora, perdeu completamente o pudor em mentir. Suas pesquisas contrariam as tendências de todos os outros institutos de pesquisa, até, pasmem, do Ibope (altamente vinculado ao PSDB).
Se se repetir o que ocorreu no início do ano, quando todos os institutos apontavam crescimento da Dilma e o Datafolha o contrário, pode-se fechar este instituto de pesquisa, pois ele deixará de poder ser alcunhado desta maneira, e poderá ser chamado como de fato é: um braço eleitoral de José Serra.
O jornal que considerou a ditadura militar – o mais ditatorial dos regimes, de imposição do terror, o mais antidemocrático – como a salvação do país, pregou sua realização, saudou a ruptura da democracia e a deposição de um presidente legitimamente eleito pelos cidadãos, apoio a ditadura, ajudou a escondeu seus crimes e, mais recentemente, chamou-o de “ditabranda”.
O jornal que publicou uma ficha falsa da Dilma em manchete de primeira página de um domingo. Pego em flagrante, nunca corrigiu sua brutal manipulação.
Uma executiva do jornal declarou que, dada a fraqueza dos partidos da oposição, a imprensa assume o papel de partido da oposição. Isto é, o jornaleco virou boletim de um partido opositor, os jornalistas não são mais jornalistas, todos eles militantes desse partido opositor. A direção, que nunca foi eleita por ninguém, mas designada pela família, o Comitê Central desse partido. O seu diretor, escolhido por seu pai para sucedê-lo na direção da empresa familiar, presidente do partido.
Suas pesquisas são pesquisas internas dos tucanos, feitas por encomenda e atendendo às penúrias do candidato-colunista do jornal, que passeia pela redação do jornal como pela sua casa, dá broncas no que não gosta, nomeia empregados, como a chefe da sucursal de Brasília, nomeada por ele, porque tucana e porque casada com publicitário – ex funcionário da Globo – que codirige a campanha derrotada em 2002 e agora em 2010.
Quem acredita nas pesquisas do Databranda?
Quem compraria um jornal usado da família Frias?
Que lê o Diario Oficial dos Tucanos, com todos os editorais cheios de pluma tucana da página 2?
O povo não é tonto. Com tudo o que eles dizem, apenas 3% aceitam seus argumentos e rejeitam Lula.
Ou será 0%, na margem de erro?
A derrota de Serra e seu vice de ocasião é também a derrota da imprensa das oligarquias familiares, da imprensa mercantil, da imprensa mentirosa e manipuladora, a derrota dos Frias, dos Marinhos, dos Mesquitas, dos Civitas e dos seus associados regionais e internacionais.
Daí seu desespero, daí sua depressão, daí mentiras como essa pesquisa encomendada pelos tucanos e em que nem eles mesmos acreditam.
Otávio Frias Filho (que ocupa o cargo por ser filho de Otávio Frias pai), seus parentes e militantes do seu partido, não conseguem mais ditabrandar em nome do país.
Prêmio Corvo do semestre para Otávio Frias Filho e sua trupe!
Comentário
O Data Folha nunca foi confiável, além do mais com relação ao seu editor-chefe, José Serra. Porém, agora, perdeu completamente o pudor em mentir. Suas pesquisas contrariam as tendências de todos os outros institutos de pesquisa, até, pasmem, do Ibope (altamente vinculado ao PSDB).
Se se repetir o que ocorreu no início do ano, quando todos os institutos apontavam crescimento da Dilma e o Datafolha o contrário, pode-se fechar este instituto de pesquisa, pois ele deixará de poder ser alcunhado desta maneira, e poderá ser chamado como de fato é: um braço eleitoral de José Serra.
A Selic e o jogo das previsões – por Luis Nassif
Batata! Vocês acompanharam aqui as análises sobre o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2010. Um conjunto de argumentos fortes mostrando que o crescimento foi atípico e não se repetiria nos trimestres seguintes. Portanto, não haveria necessidade de aumento na taxa Selic para conter a demanda.
O Banco Central e o mercado ignoraram espertamente as evidências. Agora, com o aumento da Selic sacramentado, aparece a confirmação do que dizíamos, a produção industrial não se mantém. E as consultorias mais manjadas - integrantes da orquestração dos juros - passam a repetir, a posteriori, as explicações sobre a razão da produção industrial ter arrefecido. Mas, agora, sem risco de segurar a alta da Selic - que já ocorreu.
Estadão
Produção industrial surpreende e desacelera
Com crescimento zero em maio em relação a abril, estabilidade é interpretada como 'acomodação'; aumento acumulado de 17,3% de janeiro a maio é recorde
Jacqueline Farid / RIO - O Estado de S.Paulo
A produção industrial surpreendeu economistas com crescimento zero em maio. A estabilidade foi interpretada como "acomodação", provocada por "fatores pontuais", pelo técnico do IBGE André Macedo. Mas analistas apontam desaceleração no ritmo de expansão do setor, cuja velocidade vinha gerando preocupação por causa de possíveis reflexos na inflação. Em relação a maio do ano passado, houve alta de 14,8%.
As projeções de analistas ouvidos pela Agência Estado apontavam, em média, crescimento de 1,5% na produção em maio ante abril. Apesar do resultado fraco no mês nessa comparação, o aumento acumulado de 17,3% na produção de janeiro a maio é o maior para o período apurado na série histórica iniciada em 1991.
Macedo argumentou que é difícil mensurar em indicadores antecedentes o desempenho dos bens de consumo semi e não duráveis (alimentos, carburantes, remédios). "A indústria se encontra muito próxima do seu patamar mais elevado, de março de 2010, e agora atinge uma acomodação", disse Macedo. "É preciso esperar os resultados seguintes para ter uma visão mais exata de como está se comportando o setor industrial."
Macedo cita, como exemplo de impacto negativo pontual, a parada técnica programada que atingiu em maio o setor de refino de petróleo e álcool (a gasolina está na categoria de semi e não duráveis), causando queda mensal de 4,6% nessa atividade. Outro exemplo foi o recuo, também de 4,6%, na indústria farmacêutica, após meses de crescimento.
Ainda do lado do consumo, os bens duráveis (automóveis, eletrodomésticos) também mostraram acomodação ante abril, com expansão de apenas 0,1%. Na avaliação de Macedo, a retirada de benefícios fiscais, como a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), está levando a uma perda de ritmo no crescimento dessa categoria.
A economista do Santander Luiza Rodrigues concorda que os dados não permitem avaliar que o forte aquecimento industrial ficou no passado. "Mantemos nossa previsão de alta de 13,6% para o crescimento da produção industrial em 2010." Para ela, o saldo abaixo do esperado "não é sinal de desaceleração generalizada, mas adaptação".
Para o analista da Tendências Consultoria Bernardo Wjuniski, o resultado aponta desaceleração do ritmo de expansão no segundo trimestre, em parte pela retirada dos estímulos fiscais e monetários e pelo fim do processo de recomposição de estoques.
O estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, vê um processo de desaceleração no crescimento não apenas da indústria, mas de toda a economia. "A impressão que tenho é que assistimos, no segundo trimestre, a um processo de mudança de ritmo de crescimento."
Investimentos. A produção de bens de capital, que sinaliza o desempenho dos investimentos, apontou, em maio, o 14.º crescimento seguido ante o mês anterior, destacou Macedo. "Talvez esse seja o grande resultado positivo de maio, em razão da qualidade que os bens de capital trazem para a indústria, significando aumento de capacidade e ampliação do parque industrial." No acumulado de 12 meses (0,8%) essa categoria mostrou, em maio, o primeiro resultado positivo desde abril de 2009.
Segundo Macedo, os bens de capital vêm apresentando, nos últimos meses, desempenhos acima da média industrial, com aceleração no crescimento. A produção dessa categoria aumentou 1,2% em maio ante abril e subiu 38,5% ante maio do ano passado. Em relação a maio de 2009, a alta foi puxada por bens de capital para transporte (34,2%, com destaque para caminhões) e para uso misto (46,7%, com destaque para equipamentos para telefonia e de informática), além de bens de capital para construção (154,7%), uso industrial (33,6%) e agrícola (51,2%). /
COLABOROU FLAVIO LEONEL
O Banco Central e o mercado ignoraram espertamente as evidências. Agora, com o aumento da Selic sacramentado, aparece a confirmação do que dizíamos, a produção industrial não se mantém. E as consultorias mais manjadas - integrantes da orquestração dos juros - passam a repetir, a posteriori, as explicações sobre a razão da produção industrial ter arrefecido. Mas, agora, sem risco de segurar a alta da Selic - que já ocorreu.
Estadão
Produção industrial surpreende e desacelera
Com crescimento zero em maio em relação a abril, estabilidade é interpretada como 'acomodação'; aumento acumulado de 17,3% de janeiro a maio é recorde
Jacqueline Farid / RIO - O Estado de S.Paulo
A produção industrial surpreendeu economistas com crescimento zero em maio. A estabilidade foi interpretada como "acomodação", provocada por "fatores pontuais", pelo técnico do IBGE André Macedo. Mas analistas apontam desaceleração no ritmo de expansão do setor, cuja velocidade vinha gerando preocupação por causa de possíveis reflexos na inflação. Em relação a maio do ano passado, houve alta de 14,8%.
As projeções de analistas ouvidos pela Agência Estado apontavam, em média, crescimento de 1,5% na produção em maio ante abril. Apesar do resultado fraco no mês nessa comparação, o aumento acumulado de 17,3% na produção de janeiro a maio é o maior para o período apurado na série histórica iniciada em 1991.
Macedo argumentou que é difícil mensurar em indicadores antecedentes o desempenho dos bens de consumo semi e não duráveis (alimentos, carburantes, remédios). "A indústria se encontra muito próxima do seu patamar mais elevado, de março de 2010, e agora atinge uma acomodação", disse Macedo. "É preciso esperar os resultados seguintes para ter uma visão mais exata de como está se comportando o setor industrial."
Macedo cita, como exemplo de impacto negativo pontual, a parada técnica programada que atingiu em maio o setor de refino de petróleo e álcool (a gasolina está na categoria de semi e não duráveis), causando queda mensal de 4,6% nessa atividade. Outro exemplo foi o recuo, também de 4,6%, na indústria farmacêutica, após meses de crescimento.
Ainda do lado do consumo, os bens duráveis (automóveis, eletrodomésticos) também mostraram acomodação ante abril, com expansão de apenas 0,1%. Na avaliação de Macedo, a retirada de benefícios fiscais, como a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), está levando a uma perda de ritmo no crescimento dessa categoria.
A economista do Santander Luiza Rodrigues concorda que os dados não permitem avaliar que o forte aquecimento industrial ficou no passado. "Mantemos nossa previsão de alta de 13,6% para o crescimento da produção industrial em 2010." Para ela, o saldo abaixo do esperado "não é sinal de desaceleração generalizada, mas adaptação".
Para o analista da Tendências Consultoria Bernardo Wjuniski, o resultado aponta desaceleração do ritmo de expansão no segundo trimestre, em parte pela retirada dos estímulos fiscais e monetários e pelo fim do processo de recomposição de estoques.
O estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, vê um processo de desaceleração no crescimento não apenas da indústria, mas de toda a economia. "A impressão que tenho é que assistimos, no segundo trimestre, a um processo de mudança de ritmo de crescimento."
Investimentos. A produção de bens de capital, que sinaliza o desempenho dos investimentos, apontou, em maio, o 14.º crescimento seguido ante o mês anterior, destacou Macedo. "Talvez esse seja o grande resultado positivo de maio, em razão da qualidade que os bens de capital trazem para a indústria, significando aumento de capacidade e ampliação do parque industrial." No acumulado de 12 meses (0,8%) essa categoria mostrou, em maio, o primeiro resultado positivo desde abril de 2009.
Segundo Macedo, os bens de capital vêm apresentando, nos últimos meses, desempenhos acima da média industrial, com aceleração no crescimento. A produção dessa categoria aumentou 1,2% em maio ante abril e subiu 38,5% ante maio do ano passado. Em relação a maio de 2009, a alta foi puxada por bens de capital para transporte (34,2%, com destaque para caminhões) e para uso misto (46,7%, com destaque para equipamentos para telefonia e de informática), além de bens de capital para construção (154,7%), uso industrial (33,6%) e agrícola (51,2%). /
COLABOROU FLAVIO LEONEL
Investimento vai chegar a 19,4% do PIB, diz CNI – por Fabio Graner (O Estado de S.Paulo)
Participação do investimento no PIB seria a maior em aproximadamente 40 anos
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê um ritmo ainda mais acelerado de expansão dos investimentos na economia brasileira este ano. De acordo com o Informe Conjuntural da organização, a Formação Bruta de Capital Fixo (que é o nome técnico para o conjunto de investimentos privados e públicos da economia) deve ter expansão de 24,5% em 2010.
Com esse resultado, o nível de investimentos passa dos atuais 18% do Produto Interno Bruto (PIB) para 19,4%, o mais elevado da história recente, mas ainda perdendo para os anos 70.
O gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, afirmou que os investimentos vão liderar o processo de expansão da economia neste ano.
A CNI acaba de rever sua previsão para o crescimento de 2010, elevando a previsão para 7,2%. Antes, a estimativa era de uma alta de 6% para o PIB, mas o dado do primeiro trimestre veio forte e forçou a uma revisão para cima na previsão, que ficou bem próxima do PIB projetado pelo Banco Central, de 7,3%.
Na avaliação de Castelo Branco, o aumento nos investimentos é fundamental para a sustentabilidade do crescimento econômico brasileiro e vai promover uma acomodação no nível de utilização da capacidade instalada no segundo semestre, na casa de 83% a 84%.
Esse indicador é um dos mais atentamente monitorados pelo BC para a tomada de decisões de política monetária, pois evidencia a capacidade de a oferta de bens atender à demanda.
O economista lembrou que o ritmo dos investimentos neste ano ultrapassa 2008, período de forte crescimento da economia brasileira.
A CNI também elevou a estimativa de expansão para o PIB industrial, de 8% para 12,3%, e do consumo das famílias de 6,2% para 7,3%. A organização também enxerga um menor nível médio de desemprego este ano, de 7% (ante 7,2% na projeção anterior), mas manteve em 5,4% a projeção de alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o indicador oficial de inflação.
Outra mudança promovida pelo departamento econômico da CNI foi a elevação da estimativa para taxa básica de juros (Selic) no fim do ano, que passou de 11% para 11,50%. Mesmo assim, o cenário da indústria é de que o ciclo de aperto na política monetária será um pouco menor do que o esperado pelo mercado financeiro, que trabalha com pelo menos 12% ao final de 2010.
Desaceleração. Segundo Castelo Branco, a atividade econômica já começou a dar sinais de desaceleração no segundo trimestre e deve reduzir seu ritmo na segunda metade do ano. Além disso, a inflação vai desacelerar e o nível de uso da capacidade produtiva se estabilizar.
Some-se a isso uma contribuição menor da política fiscal para o aquecimento econômico, a crise na Europa e o próprio efeito da política monetária que tem subido os juros desde abril.
Diante desse cenário, na visão da CNI, o BC deve promover mais uma elevação de 0,75 ponto porcentual na Selic e fechar o ciclo em setembro, com mais 0,5 ponto porcentual.
A entidade dos empresários industriais elevou de US$ 50 bilhões para US$ 54 bilhões a estimativa de déficit na conta corrente? que registra as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior ?, mas manteve em U$S 10 bilhões a projeção de superávit comercial. Para a CNI, as exportações somarão US$ 190 bilhões (ante US$ 185 bilhões previstos em maio) e as importações, US$ 180 bilhões (US$ 175 bilhões antes).
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê um ritmo ainda mais acelerado de expansão dos investimentos na economia brasileira este ano. De acordo com o Informe Conjuntural da organização, a Formação Bruta de Capital Fixo (que é o nome técnico para o conjunto de investimentos privados e públicos da economia) deve ter expansão de 24,5% em 2010.
Com esse resultado, o nível de investimentos passa dos atuais 18% do Produto Interno Bruto (PIB) para 19,4%, o mais elevado da história recente, mas ainda perdendo para os anos 70.
O gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, afirmou que os investimentos vão liderar o processo de expansão da economia neste ano.
A CNI acaba de rever sua previsão para o crescimento de 2010, elevando a previsão para 7,2%. Antes, a estimativa era de uma alta de 6% para o PIB, mas o dado do primeiro trimestre veio forte e forçou a uma revisão para cima na previsão, que ficou bem próxima do PIB projetado pelo Banco Central, de 7,3%.
Na avaliação de Castelo Branco, o aumento nos investimentos é fundamental para a sustentabilidade do crescimento econômico brasileiro e vai promover uma acomodação no nível de utilização da capacidade instalada no segundo semestre, na casa de 83% a 84%.
Esse indicador é um dos mais atentamente monitorados pelo BC para a tomada de decisões de política monetária, pois evidencia a capacidade de a oferta de bens atender à demanda.
O economista lembrou que o ritmo dos investimentos neste ano ultrapassa 2008, período de forte crescimento da economia brasileira.
A CNI também elevou a estimativa de expansão para o PIB industrial, de 8% para 12,3%, e do consumo das famílias de 6,2% para 7,3%. A organização também enxerga um menor nível médio de desemprego este ano, de 7% (ante 7,2% na projeção anterior), mas manteve em 5,4% a projeção de alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o indicador oficial de inflação.
Outra mudança promovida pelo departamento econômico da CNI foi a elevação da estimativa para taxa básica de juros (Selic) no fim do ano, que passou de 11% para 11,50%. Mesmo assim, o cenário da indústria é de que o ciclo de aperto na política monetária será um pouco menor do que o esperado pelo mercado financeiro, que trabalha com pelo menos 12% ao final de 2010.
Desaceleração. Segundo Castelo Branco, a atividade econômica já começou a dar sinais de desaceleração no segundo trimestre e deve reduzir seu ritmo na segunda metade do ano. Além disso, a inflação vai desacelerar e o nível de uso da capacidade produtiva se estabilizar.
Some-se a isso uma contribuição menor da política fiscal para o aquecimento econômico, a crise na Europa e o próprio efeito da política monetária que tem subido os juros desde abril.
Diante desse cenário, na visão da CNI, o BC deve promover mais uma elevação de 0,75 ponto porcentual na Selic e fechar o ciclo em setembro, com mais 0,5 ponto porcentual.
A entidade dos empresários industriais elevou de US$ 50 bilhões para US$ 54 bilhões a estimativa de déficit na conta corrente? que registra as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior ?, mas manteve em U$S 10 bilhões a projeção de superávit comercial. Para a CNI, as exportações somarão US$ 190 bilhões (ante US$ 185 bilhões previstos em maio) e as importações, US$ 180 bilhões (US$ 175 bilhões antes).
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Para a elite de São Paulo, Lula é um jumento e um caloteiro - por Paulo Henrique Amorim
http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/06/30/para-a-elite-de-sao-paulo-lula-e-um-jumento-e-um-caloteiro/
Comentário
É impressionante tamanha afronta, ainda mais quando se comparada aos resultados alcançados pelo governo deste presidente (expresso em algumas reportagens do próprio jornal, como as de economia publicadas mais abaixo).
É uma lástima.
Comentário
É impressionante tamanha afronta, ainda mais quando se comparada aos resultados alcançados pelo governo deste presidente (expresso em algumas reportagens do próprio jornal, como as de economia publicadas mais abaixo).
É uma lástima.
Sem sorte, sem arte e sem bater um bolão – por Maria Inês Nassif (Valor Econômico)
Um velho amigo jornalista, o José Roberto de Alencar e Silva, resolveu ser setorista de paraíso há uns anos e de forma pouco leal: um cara que nunca teve saúde, convenhamos que não podia simplesmente ter se livrado da pouca que tinha sem preparar muito bem seu séquito de irmãos, irmãos tortos, amigos, ex-mulheres, namoradas, ex-namoradas, que continuam irredutivelmente órfãos dele. Pois bem, Alencar tinha um humor invejável e um texto maravilhoso, usados especialmente quando as situações eram muito ruins. Para contar histórias de "furos" - fantásticos, inacreditáveis, cujo script era sempre um "causo" comprido de narrador mineiro -, o Zezão escreveu o "Sorte e Arte". Botava a sorte na frente da arte, para não parecer que se achava com mais arte do que sorte - coisa antipática esta, de achar que você é tão Deus do "furo" que ele chega à sua mão trazido pela sua genialidade, sem que nada se tenha interposto entre ela e o pedaço de papel que vai estar na banca amanhã, e depois de amanhã sabe-se lá que volta vai dar para cumprir uma outra função muito distante daquela de informar distintos leitores que os tempos são bicudos mas que as coisas podem melhorar - ou piorar, vai saber.
Nesses três últimos dias que o DEM e o PSDB se separaram mais uma vez (eles racharam em 2002, lembram-se?) fiquei pensando no Zezão. Será que ele atribuiria o fracasso da aliança do DEM com José Serra à falta de sorte, ou à falta de arte, do próprio Serra, na impossibilidade de atribuir a um jornalista a sorte ou a arte de dar um furo sobre o azar da aliança oposicionista? Acho que, na cabeça do Zé (o meu amigo), a avaliação seria a de que faltou inteligência, tato; sobrou uma certa arrogância; passou pela frente também um espelho daqueles de parque de diversões, que mostra pessoas e coisas muito maiores do que elas são. Se o Zé (o Alencar) não tivesse tido a infeliz ideia de ver se tem alguma notícia relevante no céu, acho que ele iria ficar pasmo com a falta de sorte e a falta de arte dos personagens das notícias aqui do nosso pedaço.
Aqui conversando com o Zé (Alencar, bem entendido), o que mais me intriga é o espelho de aumento. Quando puxaram o tapete do DEM, lançando pelo twitter do Roberto Jefferson (PTB-RJ) - vejam só, do Roberto Jefferson - o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice de Serra, o PSDB agiu como se o DEM não tivesse qualquer opção a não ser estar com ele, em qualquer circunstância. Isto é, que o ex-PFL era tão destituído de sorte e de arte que tinha mesmo era de comer o prato feito, e de sobremesa a observação do miniblog de Jefferson, de que "o DEM é um partido de m..."
Daí, a realidade, que não depende nem de sorte, nem de arte, em algum momento aparece. O DEM elegeu 65 deputados em 2006. O PSDB elegeu 66. Os dois têm direito rigorosamente ao mesmo tempo de propaganda eleitoral gratuita que o outro. O PTB, que agiu com toda a desenvoltura a que está acostumado Jefferson, carrega para a coligação 22 deputados. O tempo de televisão e rádio é proporcional à bancada eleita em 2006. Seria uma arte conseguir, por meio dessa aritmética esquisita onde os 66 do PSDB passaram a valer muito mais do que os 65 do DEM, uma aliança em torno de uma chapa puro sangue com Álvaro Dias, o senador do Paraná cujo irmão, Osmar, é do PDT e vai se coligar com a candidata do PT, Dilma Rousseff. Seria também uma baita sorte. Não foi nem uma coisa, nem outra. Nem azar foi. O espelhão do circo deu ao PSDB uma ideia muito maior do que a que tinha sobre si mesmo. O Serra agiu por impulso. E a candidatura de Dias durou alguma coisa próxima a três dias.
Pois bem, o Zé que infelizmente não está aqui veria também o lado do DEM. Como o espelho deles não os diminuiu; como o partido tem consciência de que ele e o PSDB estão em situações muito ruim (ninguém pode se gabar nem um pouquinho do outro); como não lhes sobrou muita alternativa senão brigar pela vice - e olha, tem gente que nem queria brigar nada, bastava continuar do lado do Serra -, o DEM deu a volta por cima e conseguiu um vice. Sem qualquer uso de sorte ou arte. No grito, simplesmente. Se tivesse feito arte, o resultado teria que ser melhor do que um Índio da Costa (DEM-RJ). Mas daí é pedir muito: é torcer para o dono da bola, José Serra, ser um artista, e para a bola, por pura sorte, ser depositada nos pés do time. É pedir demais.
Ainda mais sabendo que o candidato Serra agiu sem sorte, e sem arte, em 2002, com situações, aliás, tão favoráveis a ele, que um pouquinho de arte teria ajudado muito. No mês de junho de 2002, quando os partidos se preparavam para fazer as convenções que oficializariam os candidatos a presidente, Serra foi o alvo de uma campanha de correligionários, destinada a tirá-lo da disputa. Os fiéis aliados do mercado financeiro e do mundo da economia, que vinham de uma lua de mel com Fernando Henrique Cardoso, armaram um "balão de ensaio" para tirá-lo do páreo. O balão é um boato que você espalha na mídia para ver se cola junto ao eleitor e junto ao partido. Se colar, vira fato. Serra, que já havia passado por cima de uma candidatura do então PFL, a de Roseana Sarney (MA), e comprado uma briga feia com Tasso Jereissati para ser o candidato de seu partido à Presidência, bancou sua pretensão. O balão furou. Sem nenhuma sorte, e sem nenhuma arte.
Nesses três últimos dias que o DEM e o PSDB se separaram mais uma vez (eles racharam em 2002, lembram-se?) fiquei pensando no Zezão. Será que ele atribuiria o fracasso da aliança do DEM com José Serra à falta de sorte, ou à falta de arte, do próprio Serra, na impossibilidade de atribuir a um jornalista a sorte ou a arte de dar um furo sobre o azar da aliança oposicionista? Acho que, na cabeça do Zé (o meu amigo), a avaliação seria a de que faltou inteligência, tato; sobrou uma certa arrogância; passou pela frente também um espelho daqueles de parque de diversões, que mostra pessoas e coisas muito maiores do que elas são. Se o Zé (o Alencar) não tivesse tido a infeliz ideia de ver se tem alguma notícia relevante no céu, acho que ele iria ficar pasmo com a falta de sorte e a falta de arte dos personagens das notícias aqui do nosso pedaço.
Aqui conversando com o Zé (Alencar, bem entendido), o que mais me intriga é o espelho de aumento. Quando puxaram o tapete do DEM, lançando pelo twitter do Roberto Jefferson (PTB-RJ) - vejam só, do Roberto Jefferson - o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice de Serra, o PSDB agiu como se o DEM não tivesse qualquer opção a não ser estar com ele, em qualquer circunstância. Isto é, que o ex-PFL era tão destituído de sorte e de arte que tinha mesmo era de comer o prato feito, e de sobremesa a observação do miniblog de Jefferson, de que "o DEM é um partido de m..."
Daí, a realidade, que não depende nem de sorte, nem de arte, em algum momento aparece. O DEM elegeu 65 deputados em 2006. O PSDB elegeu 66. Os dois têm direito rigorosamente ao mesmo tempo de propaganda eleitoral gratuita que o outro. O PTB, que agiu com toda a desenvoltura a que está acostumado Jefferson, carrega para a coligação 22 deputados. O tempo de televisão e rádio é proporcional à bancada eleita em 2006. Seria uma arte conseguir, por meio dessa aritmética esquisita onde os 66 do PSDB passaram a valer muito mais do que os 65 do DEM, uma aliança em torno de uma chapa puro sangue com Álvaro Dias, o senador do Paraná cujo irmão, Osmar, é do PDT e vai se coligar com a candidata do PT, Dilma Rousseff. Seria também uma baita sorte. Não foi nem uma coisa, nem outra. Nem azar foi. O espelhão do circo deu ao PSDB uma ideia muito maior do que a que tinha sobre si mesmo. O Serra agiu por impulso. E a candidatura de Dias durou alguma coisa próxima a três dias.
Pois bem, o Zé que infelizmente não está aqui veria também o lado do DEM. Como o espelho deles não os diminuiu; como o partido tem consciência de que ele e o PSDB estão em situações muito ruim (ninguém pode se gabar nem um pouquinho do outro); como não lhes sobrou muita alternativa senão brigar pela vice - e olha, tem gente que nem queria brigar nada, bastava continuar do lado do Serra -, o DEM deu a volta por cima e conseguiu um vice. Sem qualquer uso de sorte ou arte. No grito, simplesmente. Se tivesse feito arte, o resultado teria que ser melhor do que um Índio da Costa (DEM-RJ). Mas daí é pedir muito: é torcer para o dono da bola, José Serra, ser um artista, e para a bola, por pura sorte, ser depositada nos pés do time. É pedir demais.
Ainda mais sabendo que o candidato Serra agiu sem sorte, e sem arte, em 2002, com situações, aliás, tão favoráveis a ele, que um pouquinho de arte teria ajudado muito. No mês de junho de 2002, quando os partidos se preparavam para fazer as convenções que oficializariam os candidatos a presidente, Serra foi o alvo de uma campanha de correligionários, destinada a tirá-lo da disputa. Os fiéis aliados do mercado financeiro e do mundo da economia, que vinham de uma lua de mel com Fernando Henrique Cardoso, armaram um "balão de ensaio" para tirá-lo do páreo. O balão é um boato que você espalha na mídia para ver se cola junto ao eleitor e junto ao partido. Se colar, vira fato. Serra, que já havia passado por cima de uma candidatura do então PFL, a de Roseana Sarney (MA), e comprado uma briga feia com Tasso Jereissati para ser o candidato de seu partido à Presidência, bancou sua pretensão. O balão furou. Sem nenhuma sorte, e sem nenhuma arte.
Investimento de empresas bate recorde – por Marcelo Rehder (O Estado de S. Paulo)
Levantamento mostra que, no primeiro trimestre, o investimento representou 8,3% do faturamento líquido de um grupo de 500 empresas
SÃO PAULO - Puxado pelo setor de infraestrutura, o investimento das empresas brasileiras não só superou o ritmo do período anterior à crise como bateu o recorde de dez anos, quando se leva em conta o primeiro trimestre do ano.
Levantamento da empresa de dados financeiros Serasa Experian mostra que, no primeiro trimestre de 2010, o investimento representou 8,3% do faturamento líquido de um grupo de 500 empresas cujas demonstrações contábeis foram analisadas. Nos três primeiros meses de 2008, o número era menor, de 7,7%.
O aumento do investimento reflete o bom desempenho da economia, com crescimento de 9% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009, e a confiança dos empresários na expansão do consumo.
"O que chamou nossa atenção foi que o indicador de 8,3% é quase o mesmo do ano passado como um todo (8,6%), e num período em que historicamente o investimento não é forte", diz o gerente de análise de Crédito da Serasa Experian, Marcio Torres. "A gente nunca teve um primeiro trimestre tão forte."
Pelo vigor dos números do trimestre, Torres já estima que o indicador de investimento de 2010 deve bater o recorde de 2008, na série histórica do estudo, iniciada em 2000. Apesar do agravamento da crise financeira mundial no último trimestre, o indicador atingiu 10,2% em 2008. O executivo pondera, no entanto, que o ciclo de alta dos juros iniciado pelo Banco Central pode reduzir um pouco as taxas de crescimento nos próximos meses.
No primeiro trimestre do ano, o destaque foi o setor de serviços, que inclui infraestrutura, e cujo indicador de investimento chegou a 12,6% do faturamento líquido. Em igual período de 2008, o indicador era de 10,8% e subira para 11,7% no ano passado. "A gente está falando de investimentos para resolver os grandes gargalos do País, que estão na infraestrutura, como saneamento, transportes e concessão de rodovias", cita o gerente da Serasa.
Queda na indústria
As empresas do comércio apresentaram recuperação nos níveis de investimento, de 1,9% em 2009 para 2,5% do faturamento agora. Somente a indústria mostrou ligeira queda, 6,3% para 6,2%. O setor foi o mais afetado pela crise financeira, que freou a demanda mundial e derrubou as exportações. No primeiro trimestre de 2008, o indicador de investimento da indústria era de 7,6%.
Os dados da Serasa são reforçados pelos números de desembolsos do BNDES. De janeiro a abril, o banco desembolsou R$ 35,606 bilhões para financiar investimentos, valor 39,4% superior ao de igual período de 2009.
As empresas de infraestrutura levaram R$ 14,1 bilhões, um aumento de 41,3% em relação ao primeiro trimestre de 2009. Na indústria, houve queda de 2,1%, para R$ 10,5 bilhões, enquanto o comercio e outros serviços cresceu 144%, para R$ 7,5 bilhões.
Entre as empresas de infraestrutura, o crescimento do desembolso foi maior para transporte rodoviário (115%), construção (53% ) e serviços de utilidade pública (160%).
SÃO PAULO - Puxado pelo setor de infraestrutura, o investimento das empresas brasileiras não só superou o ritmo do período anterior à crise como bateu o recorde de dez anos, quando se leva em conta o primeiro trimestre do ano.
Levantamento da empresa de dados financeiros Serasa Experian mostra que, no primeiro trimestre de 2010, o investimento representou 8,3% do faturamento líquido de um grupo de 500 empresas cujas demonstrações contábeis foram analisadas. Nos três primeiros meses de 2008, o número era menor, de 7,7%.
O aumento do investimento reflete o bom desempenho da economia, com crescimento de 9% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009, e a confiança dos empresários na expansão do consumo.
"O que chamou nossa atenção foi que o indicador de 8,3% é quase o mesmo do ano passado como um todo (8,6%), e num período em que historicamente o investimento não é forte", diz o gerente de análise de Crédito da Serasa Experian, Marcio Torres. "A gente nunca teve um primeiro trimestre tão forte."
Pelo vigor dos números do trimestre, Torres já estima que o indicador de investimento de 2010 deve bater o recorde de 2008, na série histórica do estudo, iniciada em 2000. Apesar do agravamento da crise financeira mundial no último trimestre, o indicador atingiu 10,2% em 2008. O executivo pondera, no entanto, que o ciclo de alta dos juros iniciado pelo Banco Central pode reduzir um pouco as taxas de crescimento nos próximos meses.
No primeiro trimestre do ano, o destaque foi o setor de serviços, que inclui infraestrutura, e cujo indicador de investimento chegou a 12,6% do faturamento líquido. Em igual período de 2008, o indicador era de 10,8% e subira para 11,7% no ano passado. "A gente está falando de investimentos para resolver os grandes gargalos do País, que estão na infraestrutura, como saneamento, transportes e concessão de rodovias", cita o gerente da Serasa.
Queda na indústria
As empresas do comércio apresentaram recuperação nos níveis de investimento, de 1,9% em 2009 para 2,5% do faturamento agora. Somente a indústria mostrou ligeira queda, 6,3% para 6,2%. O setor foi o mais afetado pela crise financeira, que freou a demanda mundial e derrubou as exportações. No primeiro trimestre de 2008, o indicador de investimento da indústria era de 7,6%.
Os dados da Serasa são reforçados pelos números de desembolsos do BNDES. De janeiro a abril, o banco desembolsou R$ 35,606 bilhões para financiar investimentos, valor 39,4% superior ao de igual período de 2009.
As empresas de infraestrutura levaram R$ 14,1 bilhões, um aumento de 41,3% em relação ao primeiro trimestre de 2009. Na indústria, houve queda de 2,1%, para R$ 10,5 bilhões, enquanto o comercio e outros serviços cresceu 144%, para R$ 7,5 bilhões.
Entre as empresas de infraestrutura, o crescimento do desembolso foi maior para transporte rodoviário (115%), construção (53% ) e serviços de utilidade pública (160%).
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Mudar ou continuar – por Marcos Coimbra (Correio Braziliense)
Já faz algum tempo, começou a se generalizar no meio político a convicção de que Dilma vai ganhar as eleições. Embora nem todos admitam, é o que pensam até as principais lideranças da oposição, assim como a quase totalidade dos formadores de opinião e da imprensa.
Para consumo externo, continuam a dizer que o processo está aberto, que nada está definido.
Mas não é o que, no íntimo, acreditam que vai acontecer.
Do lado governista, nem se fala. Não é de agora que os principais estrategistas do Planalto e do PT trabalham com o cenário de crescimento e vitória da candidata de Lula. A rigor, é nisso que apostam desde 2008, quando o presidente deixou claras duas coisas: que ele próprio não tentaria mudar as regras do jogo para disputar um terceiro mandato; e que achava que conseguiria ganhar as eleições com alguém que o representasse.
Tudo que está acontecendo na sua sucessão, até o momento, confirma seu cálculo. Ele não se baseava no que diziam as pesquisas sobre as intenções de voto do conjunto do eleitorado. Ao contrário, o raciocínio sempre foi sobre o potencial de crescimento de uma candidatura identificada com ele e com o governo, avaliados, pela grande maioria da população, como ótimos ou bons.
Nunca foi relevante considerar os resultados agregados das pesquisas (normalmente os que a imprensa divulga), pois misturavam respostas de quem sabia e quem não sabia qual era a candidatura apoiada por Lula. Enquanto não aumentasse a proporção dos que tinham essa informação, a vantagem de Serra era ilusória e não preocupava quem, no PT, sabia fazer as contas.
É de se notar que, na oposição, as pessoas pensaram de maneira oposta. A opção por Serra, em detrimento de Aécio, mostrou que ela preferia escolher em função do desempenho presente dos pré-candidatos, deixando em segundo plano seu potencial de crescimento. Serra prevaleceu pelo patamar de largada, não pela perspectiva de chegada.
Há quem defenda que é cedo para decretar que a eleição está resolvida. De fato, é preciso admitir que muita água ainda pode rolar por baixo da ponte.
Não é impossível que Dilma, sua campanha, seus apoiadores e o vasto conjunto de forças políticas mobilizadas para elegê-la cometam erros calamitosos.
É, apenas, pouco provável.
Em função da possibilidade cada vez mais concreta de que Dilma venha a ganhar (talvez já no primeiro turno), alguns setores da oposição andam à cata de novos argumentos para tentar convencer os eleitores a mudar de ideia. Um dos mais engraçados tem a ver com o conceito de alternância do poder.
Trata-se da tese de que é bom, para a democracia, que as eleições ensejem a mudança do partido ou da coalizão que está no poder, assim permitindo que ocorra uma salutar alternância de pontos de vista e de prioridades.
A continuidade seria ruim, ao impedir que novas agendas sejam discutidas e que outras políticas, mais adequadas a um novo momento, sejam formuladas.
O ápice dessa argumentação aconteceu outro dia, quando uma importante revista semanal entrevistou o candidato do PSDB e perguntou "por que é positivo" para "a democracia brasileira" experimentar "uma alternância de poder depois de oito anos de governo Lula".
Difícil imaginar algo mais sem sentido, a começar pelo fato da pergunta ser feita ao candidato interessado na alternância. É o mesmo que perguntar ao macaco se quer banana.
Ou alguém supõe que Serra diria que o melhor, para o país, é a continuidade? Mas o importante não é isso. A democracia não está na ideia abstrata de alternância. Para o ideal democrático, o relevante não é o conteúdo da escolha.
Tanto faz que os cidadãos prefiram continuar ou mudar. O que torna uma sociedade democrática é haver instituições que assegurem, a cada cidadão, a possibilidade real de escolher.
Se a maioria da sociedade brasileira quer a continuidade e votará em Dilma, é bom que todos se acostumem — incluindo os que querem a alternância. Em si, ela só é importante como uma possibilidade. Se não, nem seria preciso haver eleições. Bastaria trocar o governo a cada período estipulado. (O problema é que ninguém saberia como fazê-lo.)
Para consumo externo, continuam a dizer que o processo está aberto, que nada está definido.
Mas não é o que, no íntimo, acreditam que vai acontecer.
Do lado governista, nem se fala. Não é de agora que os principais estrategistas do Planalto e do PT trabalham com o cenário de crescimento e vitória da candidata de Lula. A rigor, é nisso que apostam desde 2008, quando o presidente deixou claras duas coisas: que ele próprio não tentaria mudar as regras do jogo para disputar um terceiro mandato; e que achava que conseguiria ganhar as eleições com alguém que o representasse.
Tudo que está acontecendo na sua sucessão, até o momento, confirma seu cálculo. Ele não se baseava no que diziam as pesquisas sobre as intenções de voto do conjunto do eleitorado. Ao contrário, o raciocínio sempre foi sobre o potencial de crescimento de uma candidatura identificada com ele e com o governo, avaliados, pela grande maioria da população, como ótimos ou bons.
Nunca foi relevante considerar os resultados agregados das pesquisas (normalmente os que a imprensa divulga), pois misturavam respostas de quem sabia e quem não sabia qual era a candidatura apoiada por Lula. Enquanto não aumentasse a proporção dos que tinham essa informação, a vantagem de Serra era ilusória e não preocupava quem, no PT, sabia fazer as contas.
É de se notar que, na oposição, as pessoas pensaram de maneira oposta. A opção por Serra, em detrimento de Aécio, mostrou que ela preferia escolher em função do desempenho presente dos pré-candidatos, deixando em segundo plano seu potencial de crescimento. Serra prevaleceu pelo patamar de largada, não pela perspectiva de chegada.
Há quem defenda que é cedo para decretar que a eleição está resolvida. De fato, é preciso admitir que muita água ainda pode rolar por baixo da ponte.
Não é impossível que Dilma, sua campanha, seus apoiadores e o vasto conjunto de forças políticas mobilizadas para elegê-la cometam erros calamitosos.
É, apenas, pouco provável.
Em função da possibilidade cada vez mais concreta de que Dilma venha a ganhar (talvez já no primeiro turno), alguns setores da oposição andam à cata de novos argumentos para tentar convencer os eleitores a mudar de ideia. Um dos mais engraçados tem a ver com o conceito de alternância do poder.
Trata-se da tese de que é bom, para a democracia, que as eleições ensejem a mudança do partido ou da coalizão que está no poder, assim permitindo que ocorra uma salutar alternância de pontos de vista e de prioridades.
A continuidade seria ruim, ao impedir que novas agendas sejam discutidas e que outras políticas, mais adequadas a um novo momento, sejam formuladas.
O ápice dessa argumentação aconteceu outro dia, quando uma importante revista semanal entrevistou o candidato do PSDB e perguntou "por que é positivo" para "a democracia brasileira" experimentar "uma alternância de poder depois de oito anos de governo Lula".
Difícil imaginar algo mais sem sentido, a começar pelo fato da pergunta ser feita ao candidato interessado na alternância. É o mesmo que perguntar ao macaco se quer banana.
Ou alguém supõe que Serra diria que o melhor, para o país, é a continuidade? Mas o importante não é isso. A democracia não está na ideia abstrata de alternância. Para o ideal democrático, o relevante não é o conteúdo da escolha.
Tanto faz que os cidadãos prefiram continuar ou mudar. O que torna uma sociedade democrática é haver instituições que assegurem, a cada cidadão, a possibilidade real de escolher.
Se a maioria da sociedade brasileira quer a continuidade e votará em Dilma, é bom que todos se acostumem — incluindo os que querem a alternância. Em si, ela só é importante como uma possibilidade. Se não, nem seria preciso haver eleições. Bastaria trocar o governo a cada período estipulado. (O problema é que ninguém saberia como fazê-lo.)
Obras públicas têm expansão de 80% - por Renata Verissimo, Adriana Fernandes (Estado de São Paulo)
De janeiro a maio, o governo gastou com obras quase dez vezes mais do que os 8,4% de crescimento da folha de pagamento do funcionalismo
Os gastos do governo tiveram uma significativa mudança de perfil nos cinco primeiros meses de 2010. Enquanto em igual período do ano passado os investimentos cresciam a um ritmo muito semelhante ao dos gastos com pessoal, neste ano, o governo pisou forte no acelerador e levou as obras públicas para uma expansão de 80%, quase dez vezes mais do que os 8,4% de crescimento da folha de pagamentos do funcionalismo.
Além dos investimentos, o aumento dos benefícios previdenciários também teve forte peso nos aumentos das despesas este ano. Dos R$ 39,8 bilhões de expansão das despesas de janeiro a maio, R$ 12,1 bilhões foram com pagamento de aposentadorias e pensões, em função do reajuste do salário mínimo e dos benefícios acima do piso, além da ampliação dos beneficiários.
Por outro lado, os investimentos pagos tiveram aumento de R$ 7,4 bilhões no mesmo período, saltando de R$ 9,2 bilhões, de janeiro a maio de 2009, para R$ 16,7 bilhões este ano. A recuperação das receitas é que tem sustentado a expansão dos gastos públicos. Enquanto, de janeiro a maio de 2009, as receitas do governo apresentavam queda de 0,8%, no mesmo período deste ano houve um aumento de 17,9%.
O crescimento dos investimentos também provocou uma mudança na dinâmica do resultado primário do governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) com o registro de déficit em meses que tradicionalmente apresentavam resultados positivos.
As contas do governo central apresentaram déficit primário de R$ 509,7 milhões, o pior dos últimos 11 anos para meses de maio. Os superávits elevados de janeiro (R$ 13,9 bilhões) e abril (R$ 16,6 bilhões) compensaram as contas vermelhas dos outros três meses.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, disse que a tendência é que o resultado das contas do governo central em junho seja positivo. "A tendência é que seja positivo, mas um número normal. Não se esperam grandes emoções", disse
Augustin previu que o aumento dos investimentos é forte e deverá continuar assim até o fim do ano. Ele arriscou uma estimativa, que classificou de pessoal.
Segundo o secretário, os investimentos devem fechar o ano entre 1,3% e 1,5% do PIB. Em 2009, os investimentos pagos ficaram pouco acima de 1% do PIB.
Salários. As despesas com as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) somaram R$ 7,1 bilhões de janeiro a maio, alta de 89% em relação ao mesmo período de 2009. Embora os recursos usados no PAC possam ser abatidos das despesas, para cálculo do superávit primário, Augustin disse que o governo trabalha para cumprir a meta de 3,3% do PIB neste ano sem abatimentos dos investimentos do programa ou uso dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB). "O governo decidiu fazer uma meta cheia. É isso que temos construído ao longo do ano e achamos que vamos conseguir", afirmou.
Augustin avaliou que o arrefecimento no ritmo de crescimento dos gastos com pessoal mostra que os reajustes salariais para servidores públicos, concedidos pelo governo nos últimos 4 anos, foram compatíveis com o crescimento econômico. "Como o PIB voltou a crescer, voltamos a ter uma tendência de queda com gastos com pessoal", disse. Mas afirmou que novos aumentos não devem ocorrer. Segundo ele, as carreiras do funcionalismo público já estão alinhadas e novos reajustes, como o que tramita no Congresso para o poder Judiciário, trariam "enormes preocupações" fiscais para o País.
Comentário
A imprensa passou anos clamando, implorando por um aumento dos investimentos e destratando o aumento dos gastos públicos. Agora, com estes resultados, eu pergunto: ¿e agora, José?
Os gastos do governo tiveram uma significativa mudança de perfil nos cinco primeiros meses de 2010. Enquanto em igual período do ano passado os investimentos cresciam a um ritmo muito semelhante ao dos gastos com pessoal, neste ano, o governo pisou forte no acelerador e levou as obras públicas para uma expansão de 80%, quase dez vezes mais do que os 8,4% de crescimento da folha de pagamentos do funcionalismo.
Além dos investimentos, o aumento dos benefícios previdenciários também teve forte peso nos aumentos das despesas este ano. Dos R$ 39,8 bilhões de expansão das despesas de janeiro a maio, R$ 12,1 bilhões foram com pagamento de aposentadorias e pensões, em função do reajuste do salário mínimo e dos benefícios acima do piso, além da ampliação dos beneficiários.
Por outro lado, os investimentos pagos tiveram aumento de R$ 7,4 bilhões no mesmo período, saltando de R$ 9,2 bilhões, de janeiro a maio de 2009, para R$ 16,7 bilhões este ano. A recuperação das receitas é que tem sustentado a expansão dos gastos públicos. Enquanto, de janeiro a maio de 2009, as receitas do governo apresentavam queda de 0,8%, no mesmo período deste ano houve um aumento de 17,9%.
O crescimento dos investimentos também provocou uma mudança na dinâmica do resultado primário do governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) com o registro de déficit em meses que tradicionalmente apresentavam resultados positivos.
As contas do governo central apresentaram déficit primário de R$ 509,7 milhões, o pior dos últimos 11 anos para meses de maio. Os superávits elevados de janeiro (R$ 13,9 bilhões) e abril (R$ 16,6 bilhões) compensaram as contas vermelhas dos outros três meses.
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, disse que a tendência é que o resultado das contas do governo central em junho seja positivo. "A tendência é que seja positivo, mas um número normal. Não se esperam grandes emoções", disse
Augustin previu que o aumento dos investimentos é forte e deverá continuar assim até o fim do ano. Ele arriscou uma estimativa, que classificou de pessoal.
Segundo o secretário, os investimentos devem fechar o ano entre 1,3% e 1,5% do PIB. Em 2009, os investimentos pagos ficaram pouco acima de 1% do PIB.
Salários. As despesas com as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) somaram R$ 7,1 bilhões de janeiro a maio, alta de 89% em relação ao mesmo período de 2009. Embora os recursos usados no PAC possam ser abatidos das despesas, para cálculo do superávit primário, Augustin disse que o governo trabalha para cumprir a meta de 3,3% do PIB neste ano sem abatimentos dos investimentos do programa ou uso dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB). "O governo decidiu fazer uma meta cheia. É isso que temos construído ao longo do ano e achamos que vamos conseguir", afirmou.
Augustin avaliou que o arrefecimento no ritmo de crescimento dos gastos com pessoal mostra que os reajustes salariais para servidores públicos, concedidos pelo governo nos últimos 4 anos, foram compatíveis com o crescimento econômico. "Como o PIB voltou a crescer, voltamos a ter uma tendência de queda com gastos com pessoal", disse. Mas afirmou que novos aumentos não devem ocorrer. Segundo ele, as carreiras do funcionalismo público já estão alinhadas e novos reajustes, como o que tramita no Congresso para o poder Judiciário, trariam "enormes preocupações" fiscais para o País.
Comentário
A imprensa passou anos clamando, implorando por um aumento dos investimentos e destratando o aumento dos gastos públicos. Agora, com estes resultados, eu pergunto: ¿e agora, José?
Despesas com juros sobem a R$ 179 bilhões, maior valor da história - Valor Econômico
A elevação da taxa Selic de 9,5% para 10,25% ao ano, definida na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) começa a ter impacto nos gastos do governo com juros. O montante pago pelo setor público subiu de R$ 14,485 bilhões, em abril, para R$ 16,191 bilhões, em maio. Além do ciclo de aperto monetário, a alta da inflação também se reflete em pagamentos mais elevados, já que boa parte da dívida está atrelada a índices de preços. O empréstimo do Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é outro ponto que pressiona os gastos com o serviço da dívida.
No acumulado em 12 meses, as despesas com juros nominais atingiram o maior valor da série histórica, R$ 179,363 bilhões, equivalente a 5,42% do Produto Interno Bruto (PIB). Em abril, o montante estava em R$ 175,765 bilhões. O governo federal arca com a maior parte desse total (85%), seguido pelos governos estaduais (6%).
Esse aumento dos gastos com juros contrasta com o nível reduzido da Selic, que atingiu o piso em 8,75% entre o fim do ano passado e início deste ano. Em 12 meses, a taxa básica de juros acumula variação de 8,8%, menor valor dos últimos anos. Em maio de 2009, a taxa acumulada em 12 meses estava em 12,68%. Em 2008, era de 11,2%.
De acordo com o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, essa redução da taxa de juros acompanhada ano a ano ainda deve se refletir no custo do financiamento do governo ao longo do tempo. "Em algum momento você vai se apropriar dessa baixa (da Selic)", afirmou.
Mas esse processo leva um certo tempo, diz, pois os papéis emitidos no passado ainda pesam na composição do passivo da União. Há também uma parcela considerável da dívida que é pré-fixada e não sofre com a variação da taxa básica.
Em maio, os títulos com remuneração vinculada à Selic consumiram R$ 6,5 bilhões, cerca de 40% do total gasto no mês. O valor é relativamente menor do que nos anos anteriores. Os papéis atrelados a índices de preços custaram R$ 5,068 bilhões e os pré-fixados custaram R$ 5,814 bilhões.
A dívida líquida do setor público deve manter a tendência de queda ao longo do ano, segundo Lopes. Em maio, o patamar foi de 41,4% e deve cair no mês de junho para 41,1% do PIB, neste mês, estima o Banco Central. A autoridade monetária tinha uma previsão para o fechamento do ano em 40% do PIB, mas uma nova estimativa deve ser apresentada hoje, no Relatório Trimestral de Inflação, quando o Banco Central divulgará novos parâmetros para a economia brasileira.
Também contribuiu para uma redução da dívida líquida a depreciação do real em relação ao dólar, em 4,98%. Quando a cotação do dólar sobe, o efeito é positivo sobre a dívida, porque o país tem créditos e ativos indexados ao câmbio.
Já a dívida bruta do governo geral fechou maio em R$ 1,991 trilhão, o equivalente a 60,1% do PIB. Segundo o Banco Central, o patamar deve cair para 59,7% do PIB em junho, estimou Lopes. (FT)
Comentário
Mas para os liberais, estes são bons gastos. Os gastos ruins são os gastos com custeio (quando se ler custeio, entenda-se: saúde, educação, segurança, etc.).
No acumulado em 12 meses, as despesas com juros nominais atingiram o maior valor da série histórica, R$ 179,363 bilhões, equivalente a 5,42% do Produto Interno Bruto (PIB). Em abril, o montante estava em R$ 175,765 bilhões. O governo federal arca com a maior parte desse total (85%), seguido pelos governos estaduais (6%).
Esse aumento dos gastos com juros contrasta com o nível reduzido da Selic, que atingiu o piso em 8,75% entre o fim do ano passado e início deste ano. Em 12 meses, a taxa básica de juros acumula variação de 8,8%, menor valor dos últimos anos. Em maio de 2009, a taxa acumulada em 12 meses estava em 12,68%. Em 2008, era de 11,2%.
De acordo com o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, essa redução da taxa de juros acompanhada ano a ano ainda deve se refletir no custo do financiamento do governo ao longo do tempo. "Em algum momento você vai se apropriar dessa baixa (da Selic)", afirmou.
Mas esse processo leva um certo tempo, diz, pois os papéis emitidos no passado ainda pesam na composição do passivo da União. Há também uma parcela considerável da dívida que é pré-fixada e não sofre com a variação da taxa básica.
Em maio, os títulos com remuneração vinculada à Selic consumiram R$ 6,5 bilhões, cerca de 40% do total gasto no mês. O valor é relativamente menor do que nos anos anteriores. Os papéis atrelados a índices de preços custaram R$ 5,068 bilhões e os pré-fixados custaram R$ 5,814 bilhões.
A dívida líquida do setor público deve manter a tendência de queda ao longo do ano, segundo Lopes. Em maio, o patamar foi de 41,4% e deve cair no mês de junho para 41,1% do PIB, neste mês, estima o Banco Central. A autoridade monetária tinha uma previsão para o fechamento do ano em 40% do PIB, mas uma nova estimativa deve ser apresentada hoje, no Relatório Trimestral de Inflação, quando o Banco Central divulgará novos parâmetros para a economia brasileira.
Também contribuiu para uma redução da dívida líquida a depreciação do real em relação ao dólar, em 4,98%. Quando a cotação do dólar sobe, o efeito é positivo sobre a dívida, porque o país tem créditos e ativos indexados ao câmbio.
Já a dívida bruta do governo geral fechou maio em R$ 1,991 trilhão, o equivalente a 60,1% do PIB. Segundo o Banco Central, o patamar deve cair para 59,7% do PIB em junho, estimou Lopes. (FT)
Comentário
Mas para os liberais, estes são bons gastos. Os gastos ruins são os gastos com custeio (quando se ler custeio, entenda-se: saúde, educação, segurança, etc.).
ONG: atual parlamento israelense é mais racista de todos tempos - Terra
O atual parlamento israelense (Knesset) é o mais racista de todos os tempos, segundo denúncia de uma organização de defesa dos direitos dos cidadãos árabes-israelenses feita por ocasião do Dia Internacional contra o Racismo. Segundo o Centro Mossawa, na legislatura iniciada em 2009 a Knesset estudou 21 leis consideradas "discriminatórias e racistas", o que representa um aumento de 75% em relação ao ano anterior.
A organização afirma que, em 2008, o parlamento israelense analisou 12 leis consideradas problemáticas nesse sentido, e que, em 2007, foram 11 as que chegaram à mesa dos legisladores com as mesmas características. Em seu relatório anual sobre a discriminação por racismo em Israel, o centro aponta que o fato de a atual câmara ser considerada a mais racista desde o estabelecimento do Estado, em 1948, é um fenômeno preocupante.
O documento também indica que as legislações com esse teor continuarão aumentando, a não ser que a Comissão Ministerial para Assuntos Legislativos intervenha rapidamente. "Nunca fomos testemunhas de uma Knesset tão ativa em leis discriminatórias e racistas contra os cidadãos árabes do Estado", afirmam os autores do relatório, Lizi Sagi e Nidal Ottman.
Deputados da Knesset com opiniões extremistas estão expressando seus pontos de vista sem nenhum tipo de vergonha nem oposição. Eles promovem legislações discriminatórias e racistas, que pintam aos cidadãos árabes do Estado de Israel como uma ameaça demográfica", declarou o diretor do Centro Mossawa, Jafar Farah.
Em 1966, a ONU aprovou o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial após o massacre de Sharpeville, na África do Sul de 1960, quando 69 manifestantes negros foram brutalmente reprimidos quando se manifestavam contra uma "lei de passes" para não-brancos. O Centro Mossawa advertiu hoje: "Já fomos testemunhas do massacre de cidadãos árabes nas mãos da Polícia em outubro de 2000 (no início da Segunda Intifada). Se esta tendência racista continuar, o que aconteceu em Sharpeville será um pequeno banho de sangue comprado ai o que sucederá aqui".
Comentário
¿O que fazer? Segundo o pensamento reinante nos EUA e em Israel, este último país pode tudo, tanto pelo fato de (seus descendentes) terem sofrido tanto no holocausto, quanto pelo fato de ser “o povo escolhido por Deus”, conforme escrito no velho testamento.
É uma lástima.
A organização afirma que, em 2008, o parlamento israelense analisou 12 leis consideradas problemáticas nesse sentido, e que, em 2007, foram 11 as que chegaram à mesa dos legisladores com as mesmas características. Em seu relatório anual sobre a discriminação por racismo em Israel, o centro aponta que o fato de a atual câmara ser considerada a mais racista desde o estabelecimento do Estado, em 1948, é um fenômeno preocupante.
O documento também indica que as legislações com esse teor continuarão aumentando, a não ser que a Comissão Ministerial para Assuntos Legislativos intervenha rapidamente. "Nunca fomos testemunhas de uma Knesset tão ativa em leis discriminatórias e racistas contra os cidadãos árabes do Estado", afirmam os autores do relatório, Lizi Sagi e Nidal Ottman.
Deputados da Knesset com opiniões extremistas estão expressando seus pontos de vista sem nenhum tipo de vergonha nem oposição. Eles promovem legislações discriminatórias e racistas, que pintam aos cidadãos árabes do Estado de Israel como uma ameaça demográfica", declarou o diretor do Centro Mossawa, Jafar Farah.
Em 1966, a ONU aprovou o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial após o massacre de Sharpeville, na África do Sul de 1960, quando 69 manifestantes negros foram brutalmente reprimidos quando se manifestavam contra uma "lei de passes" para não-brancos. O Centro Mossawa advertiu hoje: "Já fomos testemunhas do massacre de cidadãos árabes nas mãos da Polícia em outubro de 2000 (no início da Segunda Intifada). Se esta tendência racista continuar, o que aconteceu em Sharpeville será um pequeno banho de sangue comprado ai o que sucederá aqui".
Comentário
¿O que fazer? Segundo o pensamento reinante nos EUA e em Israel, este último país pode tudo, tanto pelo fato de (seus descendentes) terem sofrido tanto no holocausto, quanto pelo fato de ser “o povo escolhido por Deus”, conforme escrito no velho testamento.
É uma lástima.
O vice é o homem da merenda? Leia o próprio PSDB - por Brizola Neto (Tijolaço)
O Blog do Noblat acaba de anunciar que o vice do Serra será o deputado Índio da Costa, do DEM. Apresenta-o como o relator do ficha-limpa. Mas não é bem assim. Ele foi um dos alvos da CPI na Câmara dos Vereadores que investigou superfaturamento e má-qualidade nos alimentos comprados para a merenda escolar, quasndo eu ainda era vereador. A CPI foi pedida pelo meu amigo e deputado Edson santos (PT) e relatada pela – atenção – vereadora tucana Andrea Gouvêa Vieira. Vou transcrever o texto que está numa das páginas dela na internet, de onde tirei também a ilustração:
O relatório de Andrea concluiu que a licitação para a compra de gêneros alimentícios para a merenda, entre julho de 2005 e junho de 2006, realizada pela Secretaria Municipal de Administração e pela Secretaria Municipal de Educação, no valor de R$ 75.204.984,02, causaram prejuízo aos cofres públicos. 99% do fornecimento ficaram concentrados numa única empresa, a Comercial Milano, que apresentou uma engenhosa combinação de preços em suas propostas. A licitação ocorreu num único dia, mas foi dividida 10 coordenadorias de educação (CREs). O “curioso” foi que esta empresa ofertou preços diferentes para o mesmo alimento. O preço do frango da proposta da Milano, por exemplo, para Santa Cruz, era cerca de 30 % mais caro do que o preço ofertado para Campo Grande. Detalhe: em Santa Cruz a Milano não teve concorrentes e em Campo Grande sim. Como ela soube da falta de concorrentes, um mistério. E a Prefeitura aceitou isso! Pagou à mesma empresa, pela mesma mercadoria, preços muito diferentes. Essa foi a característica geral dessa licitação: uma combinação de preços que otimizaram os ganhos de uma única empresa fornecedora em prejuízo dos cofres públicos.
Na primeira parte do relatório, a CPI concluiu que o então Secretário de Administração, Índio da Costa, deveria ter cancelado a licitação porque as regras do edital levaram a um resultado que contrariou o objetivo inicial de atrair dezenas de pequenos comerciantes locais a vender para as escolas dos bairros, descentralizando o fornecimento, e pelo melhor preço. Ao contrário, a licitação acabou por provocar a maior concentração de entrega de gêneros alimentícios na história da merenda escolar.
Como evidência incontestável do prejuízo aos cofres públicos, o relatório revelou que o pregão presencial adotado depois da instalação da CPI pelosucessor do Secretário Índio, um ano depois, possibilitou uma economia de cerca de R$ 11 milhões na compra da mesma merenda escolar.
Durante o processo licitatório, segundo o relatório da CPI, foram identificadas diversas irregularidades no registro das atas das reuniões de entrega, abertura e verificação de documentos. Chamou a atenção o fato de a empresa Milano ter sido a única a ter acesso aos documentos das empresas concorrentes ainda durante o período em que a Comissão de Licitação analisava a documentação dia 23 de março de 2005, enquanto os pedidos de vista das demais só ocorreram após o dia 31 do mesmo mês, quando já havia sido anunciado o julgamento dos documentos.
Uma das empresas eliminadas – a única que conseguiu na Justiça liminar para que a Secretaria de Administração não destruísse sua proposta de preços – mostrou, quase um ano depois, quando a Justiça obrigou a abertura do envelope, que se não tivesse sido desabilitada, teria vencido a Milano em vários quesitos, com condições mais vantajosas para o Município.
A Prefeitura não conseguiu demonstrar, de forma objetiva, como a empresa Milano conseguiu um resultado tão favorável. A única explicação dada peloentão Secretário de Administração, Índio da Costa, e pelos diretores da Milano, de que o acerto se deu em virtude do estudo das concorrências anteriores, levou a CPI a duas conclusões:
1- Se era possível antecipar resultados, houve falha nas regras do edital.
2- Se a Administração municipal aceitou pagar, pelo mesmo produto, preços significativamente diferenciados, sem que houvesse uma explicação objetiva para esse fato – custo de logística, por exemplo – não cumpriu um dos preceitos da licitação que é comprar pelo menor preço.
As duas conclusões deveriam ter levado a Secretaria de Administração a, obrigatoriamente, cancelar a licitação.
Na segunda parte do relatório apresentado pela vereadora Andrea Gouvêa Vieira, a CPI concluiu que houve omissão, negligência e despreparo na fiscalização do contrato assinado com a empresa Milano, que reiteradamente entregou, durante todo o ano, carne bovina e frango fora das condições exigidas, trazendo complicações ao funcionamento já precário de muitas escolas, dificultando o preparo das refeições, e, em muitas ocasiões reduzindo a quantidade de alimento, principalmente carne e frango, no prato das crianças.
Depoimentos de merendeiras e o relatório das visitas às escolas feito pelo Conselho de Alimentação Escolar (CAE), enviado à CPI, comprovaram a omissão da Secretaria de Educação que, apesar da continuada e permanente reclamação das escolas, não se posicionou de forma adequada para exigir o cumprimento do contrato.
Ao contrário, disse a CPI, o total de multas, de R$ 8.330,28, ao longo do ano, num contrato de R$ 75 milhões, claramente induziu a empresa Milano a insistir na entrega do alimento fora dos padrões contratuais, diante de tão pequena penalização.
Documento em poder da CPI revelou que auditoria da Controladoria Geral do Município responsabilizou a Secretaria de Educação pela fragilidade no acompanhamento da execução do contrato, vindo ao encontro das conclusões da CPI.
O documento propôs as devidas ações para responsabilização civil e criminal dos infratores, em especial dos dois secretários – de Administração e de Educação, principais responsáveis, no mínimo, pela relapsia no trato da coisa e do dinheiro públicos. O primeiro, Índio da Costa, ao homologar uma licitação cujo resultado era evidentemente contrário ao interesse da administração; e a segunda, Sonia Mograbi, ao negligenciar por completo a fiscalização da execução do contrato. “Em ambos os casos, é de ser aferida tanto a responsabilidade pessoal dos secretários quanto a dos agentes a eles subordinados, quer na condução da licitação, que levou à elaboração do contrato, no caso da SMA, quer na fiscalização e acompanhamento da sua execução, no caso da SME”.
Além do Ministério Público Estadual, a CPI encaminhou o relatório ao Ministério Público Federal, uma vez que parte dos recursos da merenda escolar são repasses de verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Também foram encaminhadas cópias do relatório à Delegacia de Polícia Fazendária, ao Tribunal de Contas do Município e à Prefeitura do Rio.
Há muito mais material sobre o tema na página da vereadora, repito, do PSDB, e nos jornais cariocas. Quem quiser – imagino que a imprensa queira – procurar, vai achar muito…
Comentário
É o vice certo para certo partido, compondo a chapa de certo candidato que também está no partido certo.
Tudo absolutamente coerente.
O relatório de Andrea concluiu que a licitação para a compra de gêneros alimentícios para a merenda, entre julho de 2005 e junho de 2006, realizada pela Secretaria Municipal de Administração e pela Secretaria Municipal de Educação, no valor de R$ 75.204.984,02, causaram prejuízo aos cofres públicos. 99% do fornecimento ficaram concentrados numa única empresa, a Comercial Milano, que apresentou uma engenhosa combinação de preços em suas propostas. A licitação ocorreu num único dia, mas foi dividida 10 coordenadorias de educação (CREs). O “curioso” foi que esta empresa ofertou preços diferentes para o mesmo alimento. O preço do frango da proposta da Milano, por exemplo, para Santa Cruz, era cerca de 30 % mais caro do que o preço ofertado para Campo Grande. Detalhe: em Santa Cruz a Milano não teve concorrentes e em Campo Grande sim. Como ela soube da falta de concorrentes, um mistério. E a Prefeitura aceitou isso! Pagou à mesma empresa, pela mesma mercadoria, preços muito diferentes. Essa foi a característica geral dessa licitação: uma combinação de preços que otimizaram os ganhos de uma única empresa fornecedora em prejuízo dos cofres públicos.
Na primeira parte do relatório, a CPI concluiu que o então Secretário de Administração, Índio da Costa, deveria ter cancelado a licitação porque as regras do edital levaram a um resultado que contrariou o objetivo inicial de atrair dezenas de pequenos comerciantes locais a vender para as escolas dos bairros, descentralizando o fornecimento, e pelo melhor preço. Ao contrário, a licitação acabou por provocar a maior concentração de entrega de gêneros alimentícios na história da merenda escolar.
Como evidência incontestável do prejuízo aos cofres públicos, o relatório revelou que o pregão presencial adotado depois da instalação da CPI pelosucessor do Secretário Índio, um ano depois, possibilitou uma economia de cerca de R$ 11 milhões na compra da mesma merenda escolar.
Durante o processo licitatório, segundo o relatório da CPI, foram identificadas diversas irregularidades no registro das atas das reuniões de entrega, abertura e verificação de documentos. Chamou a atenção o fato de a empresa Milano ter sido a única a ter acesso aos documentos das empresas concorrentes ainda durante o período em que a Comissão de Licitação analisava a documentação dia 23 de março de 2005, enquanto os pedidos de vista das demais só ocorreram após o dia 31 do mesmo mês, quando já havia sido anunciado o julgamento dos documentos.
Uma das empresas eliminadas – a única que conseguiu na Justiça liminar para que a Secretaria de Administração não destruísse sua proposta de preços – mostrou, quase um ano depois, quando a Justiça obrigou a abertura do envelope, que se não tivesse sido desabilitada, teria vencido a Milano em vários quesitos, com condições mais vantajosas para o Município.
A Prefeitura não conseguiu demonstrar, de forma objetiva, como a empresa Milano conseguiu um resultado tão favorável. A única explicação dada peloentão Secretário de Administração, Índio da Costa, e pelos diretores da Milano, de que o acerto se deu em virtude do estudo das concorrências anteriores, levou a CPI a duas conclusões:
1- Se era possível antecipar resultados, houve falha nas regras do edital.
2- Se a Administração municipal aceitou pagar, pelo mesmo produto, preços significativamente diferenciados, sem que houvesse uma explicação objetiva para esse fato – custo de logística, por exemplo – não cumpriu um dos preceitos da licitação que é comprar pelo menor preço.
As duas conclusões deveriam ter levado a Secretaria de Administração a, obrigatoriamente, cancelar a licitação.
Na segunda parte do relatório apresentado pela vereadora Andrea Gouvêa Vieira, a CPI concluiu que houve omissão, negligência e despreparo na fiscalização do contrato assinado com a empresa Milano, que reiteradamente entregou, durante todo o ano, carne bovina e frango fora das condições exigidas, trazendo complicações ao funcionamento já precário de muitas escolas, dificultando o preparo das refeições, e, em muitas ocasiões reduzindo a quantidade de alimento, principalmente carne e frango, no prato das crianças.
Depoimentos de merendeiras e o relatório das visitas às escolas feito pelo Conselho de Alimentação Escolar (CAE), enviado à CPI, comprovaram a omissão da Secretaria de Educação que, apesar da continuada e permanente reclamação das escolas, não se posicionou de forma adequada para exigir o cumprimento do contrato.
Ao contrário, disse a CPI, o total de multas, de R$ 8.330,28, ao longo do ano, num contrato de R$ 75 milhões, claramente induziu a empresa Milano a insistir na entrega do alimento fora dos padrões contratuais, diante de tão pequena penalização.
Documento em poder da CPI revelou que auditoria da Controladoria Geral do Município responsabilizou a Secretaria de Educação pela fragilidade no acompanhamento da execução do contrato, vindo ao encontro das conclusões da CPI.
O documento propôs as devidas ações para responsabilização civil e criminal dos infratores, em especial dos dois secretários – de Administração e de Educação, principais responsáveis, no mínimo, pela relapsia no trato da coisa e do dinheiro públicos. O primeiro, Índio da Costa, ao homologar uma licitação cujo resultado era evidentemente contrário ao interesse da administração; e a segunda, Sonia Mograbi, ao negligenciar por completo a fiscalização da execução do contrato. “Em ambos os casos, é de ser aferida tanto a responsabilidade pessoal dos secretários quanto a dos agentes a eles subordinados, quer na condução da licitação, que levou à elaboração do contrato, no caso da SMA, quer na fiscalização e acompanhamento da sua execução, no caso da SME”.
Além do Ministério Público Estadual, a CPI encaminhou o relatório ao Ministério Público Federal, uma vez que parte dos recursos da merenda escolar são repasses de verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Também foram encaminhadas cópias do relatório à Delegacia de Polícia Fazendária, ao Tribunal de Contas do Município e à Prefeitura do Rio.
Há muito mais material sobre o tema na página da vereadora, repito, do PSDB, e nos jornais cariocas. Quem quiser – imagino que a imprensa queira – procurar, vai achar muito…
Comentário
É o vice certo para certo partido, compondo a chapa de certo candidato que também está no partido certo.
Tudo absolutamente coerente.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
A nova Era Dunga: o fim do besteirol esportivo - por Leandro Fortes (Brasília, eu vi)
Foi na Copa do Mundo de 1986, no México, com Fernando Vanucci, então apresentador da TV Globo, que a cobertura esportiva brasileira abandonou qualquer traço de jornalismo para se transformar num evento circense, onde a palhaçada, o clichê e o trocadilho infame substituíram a informação, ou pelo menos a tornaram um elemento periférico. Vanucci, simpático e bonachão, criou um mote (“alô você!”) para tornar leve e informal a comunicação nos programas esportivos da Globo, mas acabou por contaminar, involuntariamente, todas as gerações seguintes de jornalistas com a falsa percepção de que a reportagem esportiva é, basicamente, um encadeamento de gracinhas televisivas a serem adaptadas às demais linguagens jornalísticas, a partir do pressuposto de que o consumidor de informações de esporte é, basicamente, um retardado mental. Por diversas razões, Vanucci deixou a Globo, mas a Globo nunca mais abandonou o estilo unidunitê-salamê-minguê nas suas coberturas esportivas, povoadas por sorridentes repórteres de camisa pólo colorida. Aliás, para ser justo, não só a Globo. Todas as demais emissoras adotaram o mesmo estilo, com igual ou menor competência, dali para frente.
Passados quase 25 anos, o estilo burlesco de se cobrir esporte no Brasil passou a ser uma regra, quando não uma doutrina, apoiado na tese de que, ao contrário das demais áreas de interesse humano, esporte é apenas uma brincadeira, no fim das contas. Pode ser, quando se fala de handebol, tênis de mesa e salto ornamental, mas não de futebol. O futebol, dentro e fora do país, mobiliza imensos contingentes populacionais e está baseado num fluxo de negócios que envolve, no todo, bilhões de reais. Ao lado de seu caráter lúdico, caminha uma identidade cultural que, no nosso caso, confunde-se com a própria identidade nacional, a ponto de somente ele, o futebol, em tempos de copa, conseguir agregar à sociedade brasileira um genuíno caráter patriótico. Basta ver os carros cobertos de bandeiras no capô e de bandeirolas nas janelas. É o momento em que mesmos os ricos, sempre tão envergonhados dos maus modos da brasilidade, passam a ostentar em seus carrões importados e caminhonetes motor 10.0 esse orgulho verde-e-amarelo de ocasião. Não é pouca coisa, portanto.
Na Copa de 2006, na Alemanha, essa encenação jornalística chegou ao ápice em torno da idolatria forçada em torno da seleção brasileira penta campeã do mundo, então comandada pelo gentil Carlos Alberto Parreira. Naquela copa, a dominação da TV Globo sobre o evento e o time chegou ao paroxismo. A área de concentração da seleção tornou-se uma espécie de playground particular dos serelepes repórteres globais, lá comandados pela esfuziante Fátima Bernardes, a produzir pequenos reality shows de dentro do ônibus do escrete canarinho. Na época, os repórteres da Globo eram obrigados a entrar ao vivo com um sorriso hiperplastificado no rosto, com o qual ficavam paralisados na tela, como em uma overdose de botox, durante aqueles segundos infindáveis de atraso de sinal que separam as transmissões intercontinentais. Quatro anos antes, Fátima Bernardes havia conquistado espaço semelhante na bem sucedida seleção de Felipão. Sob os olhos fraternais do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, foi eleita a musa dos jogadores, na Copa de 2002, no Japão. Dentro do ônibus da seleção. Alguém se lembra disso? Eu e a Globo lembramos, está aqui.
O estilo grosseiro e inflexível de Dunga desmoronou esse mundo colorido da Globo movido por reportagens engraçadinhas e bajulações explícitas confeitadas por patriotadas sincronizadas nos noticiários da emissora. Sem acesso direto, exclusivo e permanente aos jogadores e aos vestiários, a tropa de jornalistas enviada à África do Sul se viu obrigada a buscar informações de bastidores, a cavar fontes e fazer gelados plantões de espera com os demais colegas de outros veículos. Enfim, a fazer jornalismo. E isso, como se sabe, dá um trabalho danado. Esse estado de coisas, ao invés de se tornar um aprendizado, gerou uma reação rançosa e desproporcional, bem ao estilo dos meninos mimados que só jogam porque são donos da bola. Assim, o sorriso plástico dos repórteres e apresentadores se transformou em carranca e, as gracinhas, em um patético editorial.
Dunga será demitido da seleção, vença ou perca o mundial. Os interesses comerciais da TV Globo e da CBF estão, é claro, muito acima de sua rabugice fronteiriça e de sua saudável disposição de não se submeter à vontade de jornalistas acostumados a abrir caminho com um crachá na mão. Mas poderá nos deixar de herança o fim de uma era medíocre da crônica esportiva, agora defrontada com um fenômeno com o qual ela pensava não mais ter que se debater: o jornalismo.
Comentário:
É uma pena que o Dunga tenha levado sua teimosia a extremos injustificáveis, de quando da não escalação de Ganso e Neimar (para levar os incríveis Kléberson e Grafite).
Também peca em excessos, como nos xingamentos diretos contra jornalistas. Senão, seria um exemplo raro e para sempre da postura que um técnico deve ter.
De qualquer modo, se o Brasil for campeão deste modo, com estes jogadores, será mais do que nunca o momento propício para o aforismo de Zagalo, destinado de Dunga para os que o criticam: "Vocês vão ter que me engolir!!!".
Passados quase 25 anos, o estilo burlesco de se cobrir esporte no Brasil passou a ser uma regra, quando não uma doutrina, apoiado na tese de que, ao contrário das demais áreas de interesse humano, esporte é apenas uma brincadeira, no fim das contas. Pode ser, quando se fala de handebol, tênis de mesa e salto ornamental, mas não de futebol. O futebol, dentro e fora do país, mobiliza imensos contingentes populacionais e está baseado num fluxo de negócios que envolve, no todo, bilhões de reais. Ao lado de seu caráter lúdico, caminha uma identidade cultural que, no nosso caso, confunde-se com a própria identidade nacional, a ponto de somente ele, o futebol, em tempos de copa, conseguir agregar à sociedade brasileira um genuíno caráter patriótico. Basta ver os carros cobertos de bandeiras no capô e de bandeirolas nas janelas. É o momento em que mesmos os ricos, sempre tão envergonhados dos maus modos da brasilidade, passam a ostentar em seus carrões importados e caminhonetes motor 10.0 esse orgulho verde-e-amarelo de ocasião. Não é pouca coisa, portanto.
Na Copa de 2006, na Alemanha, essa encenação jornalística chegou ao ápice em torno da idolatria forçada em torno da seleção brasileira penta campeã do mundo, então comandada pelo gentil Carlos Alberto Parreira. Naquela copa, a dominação da TV Globo sobre o evento e o time chegou ao paroxismo. A área de concentração da seleção tornou-se uma espécie de playground particular dos serelepes repórteres globais, lá comandados pela esfuziante Fátima Bernardes, a produzir pequenos reality shows de dentro do ônibus do escrete canarinho. Na época, os repórteres da Globo eram obrigados a entrar ao vivo com um sorriso hiperplastificado no rosto, com o qual ficavam paralisados na tela, como em uma overdose de botox, durante aqueles segundos infindáveis de atraso de sinal que separam as transmissões intercontinentais. Quatro anos antes, Fátima Bernardes havia conquistado espaço semelhante na bem sucedida seleção de Felipão. Sob os olhos fraternais do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, foi eleita a musa dos jogadores, na Copa de 2002, no Japão. Dentro do ônibus da seleção. Alguém se lembra disso? Eu e a Globo lembramos, está aqui.
O estilo grosseiro e inflexível de Dunga desmoronou esse mundo colorido da Globo movido por reportagens engraçadinhas e bajulações explícitas confeitadas por patriotadas sincronizadas nos noticiários da emissora. Sem acesso direto, exclusivo e permanente aos jogadores e aos vestiários, a tropa de jornalistas enviada à África do Sul se viu obrigada a buscar informações de bastidores, a cavar fontes e fazer gelados plantões de espera com os demais colegas de outros veículos. Enfim, a fazer jornalismo. E isso, como se sabe, dá um trabalho danado. Esse estado de coisas, ao invés de se tornar um aprendizado, gerou uma reação rançosa e desproporcional, bem ao estilo dos meninos mimados que só jogam porque são donos da bola. Assim, o sorriso plástico dos repórteres e apresentadores se transformou em carranca e, as gracinhas, em um patético editorial.
Dunga será demitido da seleção, vença ou perca o mundial. Os interesses comerciais da TV Globo e da CBF estão, é claro, muito acima de sua rabugice fronteiriça e de sua saudável disposição de não se submeter à vontade de jornalistas acostumados a abrir caminho com um crachá na mão. Mas poderá nos deixar de herança o fim de uma era medíocre da crônica esportiva, agora defrontada com um fenômeno com o qual ela pensava não mais ter que se debater: o jornalismo.
Comentário:
É uma pena que o Dunga tenha levado sua teimosia a extremos injustificáveis, de quando da não escalação de Ganso e Neimar (para levar os incríveis Kléberson e Grafite).
Também peca em excessos, como nos xingamentos diretos contra jornalistas. Senão, seria um exemplo raro e para sempre da postura que um técnico deve ter.
De qualquer modo, se o Brasil for campeão deste modo, com estes jogadores, será mais do que nunca o momento propício para o aforismo de Zagalo, destinado de Dunga para os que o criticam: "Vocês vão ter que me engolir!!!".
terça-feira, 8 de junho de 2010
Liberdade de expressão e de imprensa: Um manifesto – por Idelber Avelar (Agência Carta Maior)
A liberdade de imprensa inclui, como componente essencial e inalienável, a liberdade de exibir, ridicularizar, parodiar e pastichar as gafes, mentiras, barrigas e distorções veiculadas pela própria imprensa. Hoje, no Brasil, nove de cada dez gritinhos histéricos dos patrões e funcionários da grande mídia sobre um suposto cerceamento de sua liberdade de imprensa referem-se única e exclusivamente ao exercício dessa mesma liberdade. O artigo é de Idelber Avelar.
1. A irrestrita liberdade de imprensa de que se goza hoje no Brasil deve ser defendida por todos os brasileiros, independente de sua posição política. Essa liberdade se caracteriza pela ausência de censura prévia do Poder Executivo sobre o conteúdo daquilo que se diz, escreve ou publica no país. Literalmente qualquer coisa pode ser dita sem impedimento prévio no Brasil, e a mastodôntica coleção de mentiras, injúrias, calúnias, difamações, distorções e manipulações veiculadas regularmente por Veja, Globo, Folha, Estadão, Zero Hora e outros oferece a prova cabal de que vivemos em pleno exercício desta liberdade.
2. Não há democracia em que a ausência de censura prévia sobre o dizer se confunda com a ausência da possibilidade de responsabilização (inclusive penal) posterior ao dito. Muitos brasileiros, ainda escaldados pelas ditaduras, confundem com “censura” qualquer reclamo de responsabilização sobre o dito. Uns poucos brasileiros ligados à grande mídia manipulam de má fá essa confusão em benefício próprio. Na verdade, todas as democracias que asseguram a plena liberdade de expressão (a total ausência de censura prévia) possuem em comum, em seu arcabouço jurídico, alguma forma de penalização sobre o difamar e o caluniar. Essas leis são parte do que garante a plena liberdade de expressão. O problema no Brasil jamais foi a existência delas. O problema no Brasil é que só os poderosos têm podido recorrer à justiça evocando-as, e em geral para silenciar vozes discordantes. As reais vítimas da difamação dos grupos de mídia têm tido acesso quase nulo à reparação jurídica.
3. A liberdade de imprensa não está realizada em todo o seu potencial se apenas meia dúzia de famílias dela usufruem de forma massiva. O fato é óbvio mas, nos debates sobre o assunto, o óbvio com frequência clama por ser reiterado: a liberdade de imprensa estará tanto mais realizada quanto mais numerosos forem os grupos sociais com acesso a veículos que os representem; mais amplo for o leque de discursos acerca de cada tema; mais diversificados forem os pontos de vista em condições de encontrar expressão, entendendo-se que essas condições incluem não só a liberdade de dizer, mas também o acesso aos meios materiais que tornam possível a circulação do dito. Neste sentido, o grande obstáculo para a plena democratização da imprensa no Brasil (que avançou em função das novas tecnologias e algumas políticas do governo Lula) é justamente a mídia monopolista das famiglias, que se agarram aos seus velhos privilégios com enraivado, baboso rancor.
4. Não há liberdade plena de imprensa sem direito de resposta, o direito de expressão mais desrespeitado, historicamente, no Brasil. Tão fundamental é ele para a liberdade de imprensa que não faltariam teóricos do Direito alinhados com a tese de que se trata de direito antropologicamente universal, comparável à legítima defesa. Poucos blogueiros independentes, depois de publicar texto enfocado em outrem, negariam espaço comparável para a resposta do citado. No entanto, vivemos num país cujo maior jornal publica ficha policial falsa, adulterada, com falsa acusação, sobre o passado de uma ministra, e nem mesmo ela consegue exercer seu direito de resposta. Caso ela tivesse cometido o erro político de buscar judicialmente o exercício desse direito, teria sido insuportável a gritaria histérica dos funcionários das famiglias contra uma inexistente “censura”. É preciso que cada vez mais a sociedade civil diga a esses grupos de mídia: vocês não têm autoridade moral para falar em liberdade de imprensa nenhuma, pois apoiaram a instalação dos regimes que mais atentaram contra ela, além de que não a exercem em seu próprio quintal, negando sempre o espaço de resposta a quem atacam. A Folha chegou ao cúmulo de publicar um texto que lançava lama sobre dois seus próprios jornalistas, qualificando de “delinquência” uma reportagem feita por eles, sem que os profissionais pudessem exercer seu direito de resposta. Pense bem, leitor: essa turminha tem cara de guardiã da liberdade de imprensa?
5. A veiculação de sentença penal condenatória acerca de crime contra a honra cometido pelos grupos de mídia é um direito do público leitor/espectador/ouvinte. Especialmente no caso de sentença já transitada em julgado, é básico o direito do leitor saber que a justiça decidiu que naquele espaço foi cometido um crime contra a imagem de alguém. No entanto, até a data de produção desta coluna (03 de maio), continuam valendo as perguntas: como a Folha de São Paulo tem a cara de pau de não veicular a notícia de que foi condenada em definitivo por crime contra Luis Favre? Como a Zero Hora tem a cara de pau de não avisar ao leitor que se confirmou sua condenação por crime contra uma desembargadora?
6. A discussão democrática sobre a renovação (ou não) das concessões públicas a rádios e TVs não é contraditória com a liberdade de imprensa; pelo contrário, é parte de seu pleno exercício. Há uma razão pela qual a liberdade de que se imprima qualquer coisa é juridicamente distinta da autorização a que se transmita TV ou rádio em sinal emprestado pelo poder público. Só por ignorância ou má fé pode se comparar uma recusa do Estado a renovar uma concessão de TV ao ato de fechar um jornal (recordando que a má fé pode ser ignorante, e com frequência o é nestes casos). No Brasil, a discussão democrática sobre as concessões é de particular importância no caso do único grande império de mídia que sobrevive com inegável capilaridade e poder de fogo, o da famiglia Marinho, de tão nebulosa história.
7. A liberdade de imprensa inclui, como componente essencial e inalienável, a liberdade de exibir, ridicularizar, parodiar e pastichar as gafes, mentiras, barrigas e distorções veiculadas pela própria imprensa. Hoje, no Brasil, nove de cada dez gritinhos histéricos dos patrões e funcionários da grande mídia sobre um suposto cerceamento de sua liberdade de imprensa referem-se única e exclusivamente ao exercício dessa mesma liberdade, só que agora por leitores e ex-leitores, cujo direito à expressão essa mídia jamais defendeu, sequer com um pio.
1. A irrestrita liberdade de imprensa de que se goza hoje no Brasil deve ser defendida por todos os brasileiros, independente de sua posição política. Essa liberdade se caracteriza pela ausência de censura prévia do Poder Executivo sobre o conteúdo daquilo que se diz, escreve ou publica no país. Literalmente qualquer coisa pode ser dita sem impedimento prévio no Brasil, e a mastodôntica coleção de mentiras, injúrias, calúnias, difamações, distorções e manipulações veiculadas regularmente por Veja, Globo, Folha, Estadão, Zero Hora e outros oferece a prova cabal de que vivemos em pleno exercício desta liberdade.
2. Não há democracia em que a ausência de censura prévia sobre o dizer se confunda com a ausência da possibilidade de responsabilização (inclusive penal) posterior ao dito. Muitos brasileiros, ainda escaldados pelas ditaduras, confundem com “censura” qualquer reclamo de responsabilização sobre o dito. Uns poucos brasileiros ligados à grande mídia manipulam de má fá essa confusão em benefício próprio. Na verdade, todas as democracias que asseguram a plena liberdade de expressão (a total ausência de censura prévia) possuem em comum, em seu arcabouço jurídico, alguma forma de penalização sobre o difamar e o caluniar. Essas leis são parte do que garante a plena liberdade de expressão. O problema no Brasil jamais foi a existência delas. O problema no Brasil é que só os poderosos têm podido recorrer à justiça evocando-as, e em geral para silenciar vozes discordantes. As reais vítimas da difamação dos grupos de mídia têm tido acesso quase nulo à reparação jurídica.
3. A liberdade de imprensa não está realizada em todo o seu potencial se apenas meia dúzia de famílias dela usufruem de forma massiva. O fato é óbvio mas, nos debates sobre o assunto, o óbvio com frequência clama por ser reiterado: a liberdade de imprensa estará tanto mais realizada quanto mais numerosos forem os grupos sociais com acesso a veículos que os representem; mais amplo for o leque de discursos acerca de cada tema; mais diversificados forem os pontos de vista em condições de encontrar expressão, entendendo-se que essas condições incluem não só a liberdade de dizer, mas também o acesso aos meios materiais que tornam possível a circulação do dito. Neste sentido, o grande obstáculo para a plena democratização da imprensa no Brasil (que avançou em função das novas tecnologias e algumas políticas do governo Lula) é justamente a mídia monopolista das famiglias, que se agarram aos seus velhos privilégios com enraivado, baboso rancor.
4. Não há liberdade plena de imprensa sem direito de resposta, o direito de expressão mais desrespeitado, historicamente, no Brasil. Tão fundamental é ele para a liberdade de imprensa que não faltariam teóricos do Direito alinhados com a tese de que se trata de direito antropologicamente universal, comparável à legítima defesa. Poucos blogueiros independentes, depois de publicar texto enfocado em outrem, negariam espaço comparável para a resposta do citado. No entanto, vivemos num país cujo maior jornal publica ficha policial falsa, adulterada, com falsa acusação, sobre o passado de uma ministra, e nem mesmo ela consegue exercer seu direito de resposta. Caso ela tivesse cometido o erro político de buscar judicialmente o exercício desse direito, teria sido insuportável a gritaria histérica dos funcionários das famiglias contra uma inexistente “censura”. É preciso que cada vez mais a sociedade civil diga a esses grupos de mídia: vocês não têm autoridade moral para falar em liberdade de imprensa nenhuma, pois apoiaram a instalação dos regimes que mais atentaram contra ela, além de que não a exercem em seu próprio quintal, negando sempre o espaço de resposta a quem atacam. A Folha chegou ao cúmulo de publicar um texto que lançava lama sobre dois seus próprios jornalistas, qualificando de “delinquência” uma reportagem feita por eles, sem que os profissionais pudessem exercer seu direito de resposta. Pense bem, leitor: essa turminha tem cara de guardiã da liberdade de imprensa?
5. A veiculação de sentença penal condenatória acerca de crime contra a honra cometido pelos grupos de mídia é um direito do público leitor/espectador/ouvinte. Especialmente no caso de sentença já transitada em julgado, é básico o direito do leitor saber que a justiça decidiu que naquele espaço foi cometido um crime contra a imagem de alguém. No entanto, até a data de produção desta coluna (03 de maio), continuam valendo as perguntas: como a Folha de São Paulo tem a cara de pau de não veicular a notícia de que foi condenada em definitivo por crime contra Luis Favre? Como a Zero Hora tem a cara de pau de não avisar ao leitor que se confirmou sua condenação por crime contra uma desembargadora?
6. A discussão democrática sobre a renovação (ou não) das concessões públicas a rádios e TVs não é contraditória com a liberdade de imprensa; pelo contrário, é parte de seu pleno exercício. Há uma razão pela qual a liberdade de que se imprima qualquer coisa é juridicamente distinta da autorização a que se transmita TV ou rádio em sinal emprestado pelo poder público. Só por ignorância ou má fé pode se comparar uma recusa do Estado a renovar uma concessão de TV ao ato de fechar um jornal (recordando que a má fé pode ser ignorante, e com frequência o é nestes casos). No Brasil, a discussão democrática sobre as concessões é de particular importância no caso do único grande império de mídia que sobrevive com inegável capilaridade e poder de fogo, o da famiglia Marinho, de tão nebulosa história.
7. A liberdade de imprensa inclui, como componente essencial e inalienável, a liberdade de exibir, ridicularizar, parodiar e pastichar as gafes, mentiras, barrigas e distorções veiculadas pela própria imprensa. Hoje, no Brasil, nove de cada dez gritinhos histéricos dos patrões e funcionários da grande mídia sobre um suposto cerceamento de sua liberdade de imprensa referem-se única e exclusivamente ao exercício dessa mesma liberdade, só que agora por leitores e ex-leitores, cujo direito à expressão essa mídia jamais defendeu, sequer com um pio.
Folha, drogas, mentiras & dossiês – por Saul Leblon (Agência Carta Maior)
Numa versão dissimulada da manipulação que Veja e Globo fizeram de forma escancarada na última semana, a Folha de S.Paulo resolveu contar ao seu leitor na edição de sábado, dia 5 de junho, um pedaço - ínfimo - da verdadeira história por trás do suposto dossiê contra José Serra que abala a campanha demotucana e ressuscita velhas torpezas presentes nas disputas presidenciais desde o fim da ditadura. O artigo é de Saul Leblon.
O resumo-malabarista dos acontecimentos não é assinado, o que desde já sugere um produto distinto da reportagem e mais próximo de uma alta "costura" política destinada a salvar as aparências perante leitores e eleitores depois do fiasco da operação-dossiê, que consistia em desqualificar denuncias graves –alucinadamente sempre omitidas - com o carimbo antecipado de conspiração petista. O que parece ter dado errado nesse exercício tantas vezes bem sucedido é que, primeiro, as informações negadas pelos jornalões vazaram e circulam livremente na Internet (leia http://www.conversaafiada.com.br/]; segundo, e mais complicado, a origem guarda credibilidade distinta dos dossiês eleitorais na medida em que se apóia em investigação minuciosa, ancorada em documentações muitas vezes chanceladas pela Justiça.
Na corrida contra o prejuízo, o produto oferecido aos leitores da Folha mantém a marca registrada de um certo padrão de jornalismo dissimulador , feito para confundir quando a missão de informar se revela inconveniente. É isso que está em marcha nesse momento em relação ao episódio do suposto dossiê. De forma coordenada, veículos diferentes armam um vertiginoso quebra-cabeças feitos de peças conflitantes que não se completam nunca. Dilui-se assim o que é central numa conveniente trama de sub-enredos reais ou imaginários. Valores em dinheiro totalmente contraditórios são jogados sem explicação. Declarações desencontradas diluem o principal em uma miríade de especulações laterais. Um mesmo personagem faz declarações diametralmente opostas em veículos diferentes, às vezes no mesmo dia. Sobre essa calda pegajosa que aos poucos satura e repugna mantém-se o guarda-chuva que interessa fixar. O vírus permanente da suspeição em relação ao governo, seu partido, sua candidata, seus métodos, a origem dos seus recursos, as relações internas entre seus membros enfim, tudo e todos que gravitam ao seu redor.
A chamada da primeira página da Folha segue a regra - "Jornalista e delegado são pivôs do caso do dossiê". Não há, a rigor, qualquer respaldo para essa manchete nas informações contidas na matéria interna que na verdade a desmente, ao admitir:
a) ao contrário do que Serra afirma e a Folha endossou obsequiosamente no noticiário generosos dos dias anteriores, e continua a insinuar na manchete, o comando da campanha de Dilma em Brasília não contratou nem produziu dossiê algum contra o candidato do conservadorismo brasileiro;
b) os personagens que a manchete arrola como ‘pivôs’ do caso do dossiê teriam participado, diz a matéria, de uma conversa com um publicitário indiretamente ligado à campanha do PT;
c) sempre segundo o padrão Folha de jornalismo, em meados de abril, cogitou-se criar um sistema de inteligência no comitê de Dilma, em Brasília, para detectar a presença de eventuais espiões de Serra –suspeita ancorada em sucessivos vazamentos de informações confidenciais sobre custos e recursos envolvidos na campanha;
d) a criação do ‘serviço’ relatado pela Folha –com as ressalvas anteriores sobre a qualidade da informação prestada por esse jornalismo— teria sido abortada por uma divergência de preço. Ponto. Mas e o dossiê que a Veja denunciou, o Globo repercutiu e a Folha escorou dando destaque às declarações de Serra que afirma ser de responsabilidade ‘exclusiva’ de Dilma? Aspas para o texto da Folha, novamente: a) ‘em 2 de maio’, diz o relato apócrifo, integrantes do PSDB souberam que a campanha de Dilma estaria montando [a mencionada] equipe de "inteligência" com o objetivo, deduziram, de espionar Serra’ Fecha aspas. Quem ‘deduziram’?
A matéria não esclarece, nem questiona. A Folha não revela sequer curiosidade em relação a esse núcleo central da trama que ao deduzir erroneamente –pelo que diz o próprio jornal-- criou o factóide surrado do ‘dossiê petista’, no qual embarcaram todos os veículos, bem como o candidato demotucuno, que o PT ameaça levar à justiça para provar a acusação criminosa contra Dilma Rousseff. Por fim, mas não por último, resta a embaraçosa omissão da matéria da Folha sobre o mais importante: o conteúdo efetivo dessas informações cuja divulgação – ‘circula na Internet’, diz o texto-- estremeceria a campanha demotucana, a ponto de se montar um coro despistador na tentativa de desqualifica-las por antecipação.
A dificuldade em tratar o principal é um sintoma da gravidade do que se tenta esconder. Um primeiro ponto remete ao autor das informações em litígio. Sobre esse personagem que a Folha conhece porque admite que já trabalhou na sua redação, bem como na de outros veículos de igual calibre, o texto faz menção curta sem abrir aspas para a entrevista óbvia que o assunto merece. Diz o jornal: ‘ Amaury Ribeiro Júnior ... investigou por anos o processo de privatização brasileiro iniciado nos anos do governo FHC (1995-2002)’.
Omitiu a Folha aquilo que ela e todo o meio jornalístico sabem : o jornalista Amaury Ribeiro Júnior é dono de três prêmios Esso; vernceu quatro prêmios Vladimir Herzog, é membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, apenas para citar alguns dados sobre a credibilidade do profissional que investigou e reuniu as informações escondidas pelo sistema midiático ao qual ele pertencia até recentemente. Não estamos falando portanto de uma Eliane Catânhede. Em frente.
Segundo a Folha a) ‘os dados começaram a ser coletados [por Ribeiro Jr] em sua passagem pelo "Estado de Minas", principal diário mineiro, próximo politicamente do ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG)’ ; b) ‘a apuração começou em 2009, depois que Aécio, então ainda um potencial presidenciável, foi alvo de reportagens críticas...” Alvo de quem? Curioso, no parágrafo anterior, a Folha desqualifica o trabalho investigativo do jornalista ao espetar no "Estado de Minas" o epíteto: ‘próximo politicamente do ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG)’, mas nada relaciona sobre a ‘proximidade política’ dos veículos responsáveis pelas ‘reportagens críticas’ citadas em seguida apenas de raspão. A reportagem-malabarista não assinada da Folha passa olimpicamente por indagações obrigatórias de qualquer pauta cuidadosa. Que tipo de ‘reportagens críticas’; em benefício de quem foram feitas; um trecho, um exemplo?
Nada. Na verdade, a abordagem isenta exigiria quase que uma auto-imolação do diário da família Frias, uma auto-investigação das perdas e danos causados à informação por seu esférico engajamento na candidatura José Serra , indissociável do anti-lulismo praticado disciplinadamente por quase toda a sua redação.
É inescapável recordar uma passagem que condensa a radicalização inscrita em todo esse episódio, traduzido por um jornalismo de campanha – nunca assumido abertamente - praticado pelo conjunto da mídia conservadora, sobretudo a de São Paulo. Em 4 de março de 2009, o jornal "O Estado de São Paulo", por exemplo publicou – numa seqüência de disparos da mesma cepa deflagrados pela Folha, Globo etc - um artigo criticando de forma agressiva a pressão do governador mineiro Aécio Neves pela realização de prévias democráticas no PSDB para a escolha do postulante à Presidência da República. Àquela altura, a sempre oportuna prontidão do Datafolha dava a Serra 45% das intenções de voto, contra apenas 17% de Aécio Neves, que mal disfarçava o propósito de implodir a blindagem erguida em torno do rival paulista levando a disputa para fora do jogo de cartas marcadas arbitrado pela endogamia entre a cúpula do seu partido e a mídia do eixo São Paulo-Rio.
Os xiliques de Serra e a agressividade dos recados emitidos pelos jornais serristas demonstravam que nem um, nem outro, confiavam de fato nos confortáveis índices oferecidos à opinião pública interna e externa pelo instituto de pesquisas da família Frias. É nessa linha de tensão que surge o artigo "Pó pará, governador?" cujo título trazia uma insinuação de represálias sem limite, caso Aécio Neves insistisse em se colocar na disputa contra o tucano paulista. A sombra da represália, por certo em munição letal, tanto que Aécio desistiu da candidatura - ficava explícita no parágrafo final do recado assinado pelo versátil porta-voz de interesses inconfundíveis, o jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas, pintor e etc, Mauro Chaves. Depois de denunciar o controle do mineiro sobre a imprensa do Estado [ "em Minas imprensa e governo são irmãos xifópagos"], o texto concluía: "Aécio devia refletir sobre o que disse seu grande conterrâneo João Guimarães Rosa: "Deus é paciência. O diabo é o contrário. E hoje talvez ele advertisse: Pó pará, governador?".
Era uma chamada enigmática para alguns, mas inteligível para os círculos que já ouviram insinuações recorrentes sobre hábitos pessoais do governador.
É sobre esse campo minado por uma luta que dificilmente fará de Aécio um cabo eleitoral mais que formal de José Serra, que explodiu o resultado de anos de trabalho de um premiado jornalistas investigativo do país. A coleção de dados e cifras envolvendo a família, os amigos, assessores de confiança de José Serra, seus laços societários e eleitorais com a família de Daniel Dantas e as ligações do conjunto com privatizações e movimentos milionários de dólares, dentro e fora do país, formam um latejante paiol em forma livro prestes a explodir no colo da coalizão demotucana. Desdobrado em 14 capítulos, com lançamento previsto para depois da Copa do Mundo, o artefato deixa o insone assumido, José Serra, cada vez mais distante de uma noite de sono dos justos. Pior que isso: torna mais improvável ainda que ela ocorra um dia na cama do Palácio do Planalto.
O resumo-malabarista dos acontecimentos não é assinado, o que desde já sugere um produto distinto da reportagem e mais próximo de uma alta "costura" política destinada a salvar as aparências perante leitores e eleitores depois do fiasco da operação-dossiê, que consistia em desqualificar denuncias graves –alucinadamente sempre omitidas - com o carimbo antecipado de conspiração petista. O que parece ter dado errado nesse exercício tantas vezes bem sucedido é que, primeiro, as informações negadas pelos jornalões vazaram e circulam livremente na Internet (leia http://www.conversaafiada.com.br/]; segundo, e mais complicado, a origem guarda credibilidade distinta dos dossiês eleitorais na medida em que se apóia em investigação minuciosa, ancorada em documentações muitas vezes chanceladas pela Justiça.
Na corrida contra o prejuízo, o produto oferecido aos leitores da Folha mantém a marca registrada de um certo padrão de jornalismo dissimulador , feito para confundir quando a missão de informar se revela inconveniente. É isso que está em marcha nesse momento em relação ao episódio do suposto dossiê. De forma coordenada, veículos diferentes armam um vertiginoso quebra-cabeças feitos de peças conflitantes que não se completam nunca. Dilui-se assim o que é central numa conveniente trama de sub-enredos reais ou imaginários. Valores em dinheiro totalmente contraditórios são jogados sem explicação. Declarações desencontradas diluem o principal em uma miríade de especulações laterais. Um mesmo personagem faz declarações diametralmente opostas em veículos diferentes, às vezes no mesmo dia. Sobre essa calda pegajosa que aos poucos satura e repugna mantém-se o guarda-chuva que interessa fixar. O vírus permanente da suspeição em relação ao governo, seu partido, sua candidata, seus métodos, a origem dos seus recursos, as relações internas entre seus membros enfim, tudo e todos que gravitam ao seu redor.
A chamada da primeira página da Folha segue a regra - "Jornalista e delegado são pivôs do caso do dossiê". Não há, a rigor, qualquer respaldo para essa manchete nas informações contidas na matéria interna que na verdade a desmente, ao admitir:
a) ao contrário do que Serra afirma e a Folha endossou obsequiosamente no noticiário generosos dos dias anteriores, e continua a insinuar na manchete, o comando da campanha de Dilma em Brasília não contratou nem produziu dossiê algum contra o candidato do conservadorismo brasileiro;
b) os personagens que a manchete arrola como ‘pivôs’ do caso do dossiê teriam participado, diz a matéria, de uma conversa com um publicitário indiretamente ligado à campanha do PT;
c) sempre segundo o padrão Folha de jornalismo, em meados de abril, cogitou-se criar um sistema de inteligência no comitê de Dilma, em Brasília, para detectar a presença de eventuais espiões de Serra –suspeita ancorada em sucessivos vazamentos de informações confidenciais sobre custos e recursos envolvidos na campanha;
d) a criação do ‘serviço’ relatado pela Folha –com as ressalvas anteriores sobre a qualidade da informação prestada por esse jornalismo— teria sido abortada por uma divergência de preço. Ponto. Mas e o dossiê que a Veja denunciou, o Globo repercutiu e a Folha escorou dando destaque às declarações de Serra que afirma ser de responsabilidade ‘exclusiva’ de Dilma? Aspas para o texto da Folha, novamente: a) ‘em 2 de maio’, diz o relato apócrifo, integrantes do PSDB souberam que a campanha de Dilma estaria montando [a mencionada] equipe de "inteligência" com o objetivo, deduziram, de espionar Serra’ Fecha aspas. Quem ‘deduziram’?
A matéria não esclarece, nem questiona. A Folha não revela sequer curiosidade em relação a esse núcleo central da trama que ao deduzir erroneamente –pelo que diz o próprio jornal-- criou o factóide surrado do ‘dossiê petista’, no qual embarcaram todos os veículos, bem como o candidato demotucuno, que o PT ameaça levar à justiça para provar a acusação criminosa contra Dilma Rousseff. Por fim, mas não por último, resta a embaraçosa omissão da matéria da Folha sobre o mais importante: o conteúdo efetivo dessas informações cuja divulgação – ‘circula na Internet’, diz o texto-- estremeceria a campanha demotucana, a ponto de se montar um coro despistador na tentativa de desqualifica-las por antecipação.
A dificuldade em tratar o principal é um sintoma da gravidade do que se tenta esconder. Um primeiro ponto remete ao autor das informações em litígio. Sobre esse personagem que a Folha conhece porque admite que já trabalhou na sua redação, bem como na de outros veículos de igual calibre, o texto faz menção curta sem abrir aspas para a entrevista óbvia que o assunto merece. Diz o jornal: ‘ Amaury Ribeiro Júnior ... investigou por anos o processo de privatização brasileiro iniciado nos anos do governo FHC (1995-2002)’.
Omitiu a Folha aquilo que ela e todo o meio jornalístico sabem : o jornalista Amaury Ribeiro Júnior é dono de três prêmios Esso; vernceu quatro prêmios Vladimir Herzog, é membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, apenas para citar alguns dados sobre a credibilidade do profissional que investigou e reuniu as informações escondidas pelo sistema midiático ao qual ele pertencia até recentemente. Não estamos falando portanto de uma Eliane Catânhede. Em frente.
Segundo a Folha a) ‘os dados começaram a ser coletados [por Ribeiro Jr] em sua passagem pelo "Estado de Minas", principal diário mineiro, próximo politicamente do ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG)’ ; b) ‘a apuração começou em 2009, depois que Aécio, então ainda um potencial presidenciável, foi alvo de reportagens críticas...” Alvo de quem? Curioso, no parágrafo anterior, a Folha desqualifica o trabalho investigativo do jornalista ao espetar no "Estado de Minas" o epíteto: ‘próximo politicamente do ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG)’, mas nada relaciona sobre a ‘proximidade política’ dos veículos responsáveis pelas ‘reportagens críticas’ citadas em seguida apenas de raspão. A reportagem-malabarista não assinada da Folha passa olimpicamente por indagações obrigatórias de qualquer pauta cuidadosa. Que tipo de ‘reportagens críticas’; em benefício de quem foram feitas; um trecho, um exemplo?
Nada. Na verdade, a abordagem isenta exigiria quase que uma auto-imolação do diário da família Frias, uma auto-investigação das perdas e danos causados à informação por seu esférico engajamento na candidatura José Serra , indissociável do anti-lulismo praticado disciplinadamente por quase toda a sua redação.
É inescapável recordar uma passagem que condensa a radicalização inscrita em todo esse episódio, traduzido por um jornalismo de campanha – nunca assumido abertamente - praticado pelo conjunto da mídia conservadora, sobretudo a de São Paulo. Em 4 de março de 2009, o jornal "O Estado de São Paulo", por exemplo publicou – numa seqüência de disparos da mesma cepa deflagrados pela Folha, Globo etc - um artigo criticando de forma agressiva a pressão do governador mineiro Aécio Neves pela realização de prévias democráticas no PSDB para a escolha do postulante à Presidência da República. Àquela altura, a sempre oportuna prontidão do Datafolha dava a Serra 45% das intenções de voto, contra apenas 17% de Aécio Neves, que mal disfarçava o propósito de implodir a blindagem erguida em torno do rival paulista levando a disputa para fora do jogo de cartas marcadas arbitrado pela endogamia entre a cúpula do seu partido e a mídia do eixo São Paulo-Rio.
Os xiliques de Serra e a agressividade dos recados emitidos pelos jornais serristas demonstravam que nem um, nem outro, confiavam de fato nos confortáveis índices oferecidos à opinião pública interna e externa pelo instituto de pesquisas da família Frias. É nessa linha de tensão que surge o artigo "Pó pará, governador?" cujo título trazia uma insinuação de represálias sem limite, caso Aécio Neves insistisse em se colocar na disputa contra o tucano paulista. A sombra da represália, por certo em munição letal, tanto que Aécio desistiu da candidatura - ficava explícita no parágrafo final do recado assinado pelo versátil porta-voz de interesses inconfundíveis, o jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas, pintor e etc, Mauro Chaves. Depois de denunciar o controle do mineiro sobre a imprensa do Estado [ "em Minas imprensa e governo são irmãos xifópagos"], o texto concluía: "Aécio devia refletir sobre o que disse seu grande conterrâneo João Guimarães Rosa: "Deus é paciência. O diabo é o contrário. E hoje talvez ele advertisse: Pó pará, governador?".
Era uma chamada enigmática para alguns, mas inteligível para os círculos que já ouviram insinuações recorrentes sobre hábitos pessoais do governador.
É sobre esse campo minado por uma luta que dificilmente fará de Aécio um cabo eleitoral mais que formal de José Serra, que explodiu o resultado de anos de trabalho de um premiado jornalistas investigativo do país. A coleção de dados e cifras envolvendo a família, os amigos, assessores de confiança de José Serra, seus laços societários e eleitorais com a família de Daniel Dantas e as ligações do conjunto com privatizações e movimentos milionários de dólares, dentro e fora do país, formam um latejante paiol em forma livro prestes a explodir no colo da coalizão demotucana. Desdobrado em 14 capítulos, com lançamento previsto para depois da Copa do Mundo, o artefato deixa o insone assumido, José Serra, cada vez mais distante de uma noite de sono dos justos. Pior que isso: torna mais improvável ainda que ela ocorra um dia na cama do Palácio do Planalto.
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