quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Ficha Limpa, por Janine e Idelber (blog do Nassif)

Por Renato Janine Ribeiro

Sou um dos signatários dessa lei de origem popular, uma das raras a terem procedido dos cidadãos e não dos parlamentares. Estava no encontro anual do Instituto Ethos, em 2009, quando o ex-vereador Chico Whitaker me trouxe o projeto e eu o assinei. Acho muito bom, mas é claro que tenho dúvidas, especialmente quanto à retroatividade das punições.

Agora, é bom saber de um efeito pelo menos curioso da lei: graças a ela, a família do senador Sarney está ou estará liberada de dois adversários de peso, nos dois Estados em que tem influência. Jackson Lago, o governador eleito em 2006 e cassado pelo TSE para ser substituído pela derrotada Roseana Sarney, ficará fora do pleito maranhense, se a lei for aplicada. João Capiberibe, o adversário de Sarney no Amapá, cassado por ter dado menos de trinta reais a uma eleitora, também ficará fora. Vejam que mesmo uma lei altamente moral pode ter efeitos que muita gente não desejaria.

Por Idelber Avelar

Caro Renato:

Com todo o respeito, só mesmo com muita ingenuidade para não ter percebido que o resultado desse projeto demagógico, autoritário e flagrantemente inconstitucional não seria exatamente este. É isso que acontece quando confundimos moral com política. Leis não devem ser promulgadas segundo o critério de serem "morais", mas segundo o efeito que produzirão no mundo real. E, de acordo com esse critério, só um completo desconhecimento das relações entre o Judiciário brasileiro e a política pôde levar alguém, de boa fé, a acreditar que a "moralização da política" seria o resultado do projeto "Ficha Limpa" (uso aspas porque, segundo a Constituição brasileira, ninguém tem "Ficha Suja" até trânsito em julgado de sentença penal condenatória).

Corrijamos algumas coisas.

Primeiro, é enganoso dizer que o projeto tem origem "popular", se por esta palavra entendemos o "povão", a massa de trabalhadores que forma a imensa maioria do Brasil. Em inúmeros contatos com sindicatos, associações de bairro, de empregadas domésticas, de sem-terra etc., eu jamais vi nenhuma instituição das classes populares defender esse projeto. É nitidamente um projeto da classe média alta, base de outras iniciativas moralistas como o "Cansei" e o "Não reeleja ninguém". É verdade que ela veio de cidadãos. Dizer que é de "origem popular" é enganoso.

Segundo, o projeto é flagrantemente inconstitucional. A Constituição brasileira, no Artigo 5o, inciso LVII, diz claramente: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Ora, a menos que a expressão "trânsito em julgado" tenha passado a significar outra coisa, o "Ficha Limpa" – ao determinar a inelegibilidade de alguém por condenação em órgão colegiado anterior à instância final – está em patente contradição com a Carta da República. Pois se alguém foi condenado em instância colegiada anterior à final, não pode ainda ser considerado culpado. E se não é culpado, não pode ter nenhum direito tolhido. É simples, não? Todos os membros do Supremo sabem disso, mas a gritaria moralista foi de tal ordem que nem mesmo o Supremo – imune a qualquer represália política – teve coragem de encarar o desgaste de detê-lo.

Terceiro, os efeitos reais. Qual é o desconhecimento da realidade do Judiciário brasileiro que nos permitiria imaginar que os efeitos, por exemplo, no Maranhão, não seriam exatamente estes? Alguém aqui quer dar ao TJ-MA o direito de decretar quem é elegível e quem não é no estado? Um vereador do Psol foi impedido de se candidatar em SP por ter a "ficha suja". Seu crime? Ter usado um automóvel da Câmara para auxiliar um ato do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, um uso claramente legítimo do mandato. Enquanto isso, Maluf continua com a "Ficha Limpa". Vocês realmente não sabiam que isso ia acontecer? Gritar "contra tudo o que está aí", ao estilo do movimento Cansei, é bem fácil que pensar politicamente, né?

Sobre esse execrável projeto, vale a pena ler os textos do jornalista gaúcho Marco Aurélio Weissheimer (http://bit.ly/bTAbhl) e do penalista mineiro Túlio Vianna (http://bit.ly/9NdmGW) e, quem sabe, começar a pensar num pedido de desculpas à sociedade brasileira.

A agonia da classe média americana – Financial Times (Valor Econômico)

Edward Luce, Financial Times, de Washington

Tecnicamente falando, Mark Freeman deveria considerar-se entre as pessoas mais sortudas do planeta. Aos 52 anos, ele vive com sua família em casa própria, numa rua arborizada e no coração do país mais rico do mundo. Quando está com fome, ele come. Quando esquenta, ele liga o ar-condicionado. Quando quer buscar alguma coisa, ele navega na internet.

No entanto, de alguma forma, as coisas não vão mais tão bem. No ano passado, o banco tentou retomar a casa dos Freeman, apesar de eles estarem com seu pagamento atrasado apenas três meses. Seu filho, Andy, foi recentemente excluído da cobertura do seguro saúde de sua mãe e só penosamente readmitido mediante um grande pagamento. E, assim como as casas tapadas com tábuas - que sinalizam a epidemia de retomadas judiciais de imóveis nos EUA -, o tráfico de drogas e os tiroteios, que antes eram distantes de seu bairro, estão chegando cada vez mais perto, quarteirão por quarteirão.

O que é mais perturbador, no caso dos Freeman, é como eles são típicos. Nem Mark nem Connie - sua incansável mulher, tão gordinha quanto ele é magro - têm doenças crônicas. Ambos trabalham no Hospital Metodista local - ele trabalha no almoxarifado, e ela é técnica em suprimentos de anestesia. A US$ 70 mil por ano, a renda bruta do casal é mais de um terço superior à mediana do núcleo familiar americano.

No passado, isso era o "sonho americano". Nos dias atuais, poderia ser chamado de "devaneio incerto americano". Na prática, Mark gasta muito dinheiro todo mês com o aluguel de uma máquina para tratar sua apneia, que lhe dá insônia. "Se perdemos nossos empregos, depois de umas três semanas teremos zerado nossa poupança", diz ele, sentado em seu quintal, de olho na rua e uma garrafa de cerveja na mão. "Nós trabalhamos dia e noite para tentar poupar para nossas aposentadorias. Mas nunca estamos a mais de um ou dois cheques de distância do olho da rua."

Quando se fala de classe média americana, a maioria dos estrangeiros imagina algo mais atemporal e confortável, como nas séries de TV, na qual os adolescentes vão à escola dirigindo carros esportivos e as meninas são sempre animadoras de torcidas. Isso pode representar como vivem uns 10% do topo da classe média. O resto vive como os Freeman. Ou pior.

Uma visita completa à casa de 65 m2, pertencente a Mark, no noroeste de Mineápolis, leva apenas uns 30 segundos. A casa foi comprada mediante um financiamento de US$ 50 mil em 1989. Agora, ela vale US$ 73 mil. "Houve um momento em que ela valia US$ 105 mil dólares - e pensamos que tínhamos entrado no paraíso", diz Mark. "Os bancos continuaram telefonando - às vezes quatro ou cinco vezes numa mesma noite -, oferecendo linhas de crédito e empréstimos. Insistiam como traficantes de drogas."

O lento estrangulamento econômico dos Freeman, e de milhões de outros americanos de classe média, começou muito antes da Grande Recessão, que apenas agravou a "recessão pessoal" que os americanos comuns vinham sofrendo havia anos. Denominada pelos economistas como "estagnação do salário mediano", a renda anual dos 90% de famílias menos bem de vida nos EUA permaneceu essencialmente inalterada desde 1973 - tendo crescido apenas 10% em termos reais nos últimos 37 anos. Isso significa que a maioria das famílias americanas está no sufoco há mais de uma geração.

No mesmo período, a renda do 1% de famílias mais ricas triplicou. Em 1973, executivos-chefes de grandes companhias recebiam, em média, remuneração igual a 26 vezes a renda mediana. Hoje, é mais de 300 vezes superior.

A tendência só tem se intensificado. A maioria dos economistas vê a grande estagnação como um problema estrutural - ou seja, imune ao ciclo econômico. Na última expansão, que começou em janeiro de 2002 e terminou em dezembro de 2007, a renda familiar mediana americana ficou US$ 2 mil menor - a primeira vez em que a maioria dos americanos esteve pior no fim de um ciclo do que no início. O mais grave é que a longa era de renda estagnada tem sido acompanhada por algo profundamente antiamericano - um declínio na mobilidade da renda.

Alexis de Tocqueville, grande cronista francês dos primórdios da nação americana, já foi erroneamente citado como tendo dito: "Os EUA são o melhor país do mundo para os pobres". Isso deixou de ser verdade. Hoje, nos EUA, é menor a chance de passar de um estrato de renda mais baixa para outro mais elevado do que em qualquer outra economia desenvolvida. Para inverter as clássicas histórias de Horatio Alger, nos EUA de hoje, se você nasceu esfarrapado, tem maior probabilidade permanecer nesse estado do que em praticamente qualquer país da velha Europa.

Combinadas a essas duas tendências profundamente enraizadas, há uma terceira - forte crescimento da desigualdade. O resultado é a crise em fogo lento do capitalismo americano. Uma coisa é sofrer as agruras de uma estagnação da renda. Outra é perceber que você tem uma probabilidade decrescente de escapar dessa estagnação - especialmente quando poucos afortunados que vivem nos proverbiais "condomínios fechados" parecem mais mimados cada vez que você os vislumbra. "Quem matou o sonho americano?", dizem os cartazes em passeatas de esquerda. "Resgatemos a América", gritam os manifestantes de direita do movimento Tea Party.

As estatísticas capturam somente uma fatia do problema. Mas é Larry Katz, renomado economista de Harvard, quem oferece a analogia mais atraente. "Imagine a economia americana como um grande prédio de apartamentos", diz o professor. "Um século atrás - até mesmo 30 anos atrás -, era um objeto de inveja. Mas, na última geração, sua feição mudou. Os apartamentos de cobertura estão cada vez maiores. Os apartamentos nos andares intermediários estão cada vez mais espremidos e o térreo foi inundado. Para completar, o elevador não está funcionando. Esse elevador quebrado é o que mais deprime as pessoas."

Não surpreende que uma maioria crescente de americanos tem dito, em pesquisas de opinião, acreditar que seus filhos terão um padrão de vida pior do que o deles próprios. Durante as três décadas do pós-guerra, que muitos hoje relembram como a era de ouro da classe média americana, a maré alta erguia a maioria dos barcos, nas palavras de John F. Kennedy. A renda cresceu em termos reais quase 2% ao ano, quase dobrando a cada geração.

E, embora os anos dourados tenham sido puxados pelo crescimento do ensino superior de massa, não era preciso ter diploma de ensino médio para dar conta das despesas. Como seu marido, Connie Freeman foi criada num lar de "classe trabalhadora" no chamado Cinturão do Ferro, no norte de Minnesota, perto da fronteira canadense. Seu pai, que deixou a escola aos 14 anos, após a Grande Depressão dos anos 1930, trabalhou nas minas de ferro a sua vida inteira. No fim de sua vida profissional, ele ganhava US$ 15 por hora - mais de US$ 40 em valores atuais.

Trinta anos depois, Connie, que é muito mais qualificada do que seu pai, após ter completado o ensino médio e concluído um ano adicional de estudos, ganha apenas US$ 17 por hora.

O pai de Connie, com sua escolaridade mínima, ganhava o suficiente para permitir que sua esposa continuasse a ser dona de casa em tempo integral e ainda bancou a educação de dois filhos até a faculdade. Connie e Mark, por seu turno, têm dificuldades para pagar o fluxo de contas num lar de dupla renda familiar. O Estado de Minnesota custeia um curso de teatro para Andy, o filho de 20 anos do casal que sofre de autismo agudo.

A rigor, Connie vive num lar de quatro rendas. "Quando Andy tinha dois anos, disseram-me para comprar um aparelho de karaokê, porque as crianças autistas às vezes reagem bem a isso", disse Mark, apontando para o que só pode ser descrito como um antigo aparelho pós-moderno. "Foi assim que iniciei meus negócios com karaokê. Eu ganho cerca de US$ 100 toda quarta-feira, promovendo karaokês pagos em casa. E, aos sábados sou gerente na loja de bebidas do bairro. Precisamos de todos os quatro empregos para manter a cabeça fora d ' água."

Do ponto de vista da maioria dos economistas, a história até o momento é inquestionável. A maioria concorda sobre o diagnóstico, mas diverge sobre as causas. Muitos na esquerda atribuem a culpa à Grande Estagnação da globalização. A ascensão de China, Índia, Brasil e outros países solapou os salários no Ocidente e eliminou postos de trabalho de americanos sem qualificação, semiqualificados e até mesmo qualificados. A indústria agora representa somente 12% dos postos de trabalho nos EUA.

Pense no trabalhador típico da indústria automobilística em Detroit, 30 anos atrás, que tinha um estilo de vida de classe média seguro, bom plano de saúde e perspectiva de gorda aposentadoria. Hoje, ele vive na China.

Outro grupo de economistas define como causa principal o surgimento explosivo de novas tecnologias, que facilitaram a automação computadorizada de rotinas repetitivas e de trabalhos mais simples. Pense na auxiliar de escritório, que anotava ditados e fazia o café. Ela agora é um BlackBerry que passa metade de sua vida no Starbucks. Ou o pessoal de retaguarda de escritórios que, como aqueles sapateiros em conto de fadas, agora "costura a contabilidade" das empresas americanas em Bangalore, na Índia, enquanto as pessoas dormem nos EUA.

Há também aqueles, como Paul Krugman, colunista do "The New York Times" e ganhador do Prêmio Nobel de Economia, que atribuem a culpa ao mundo político, especialmente à reação conservadora iniciada quando Ronald Reagan chegou ao poder, em 1980, o que acelerou o declínio dos sindicatos e reverteu os traços mais progressistas do sistema fiscal americano.

Menos de um décimo dos trabalhadores do setor privado americano pertence a um sindicato. As pessoas na Europa e no Canadá estão sujeitas às mesmas forças globalizantes e tecnológicas, mas fazem parte em maior número de sindicatos, e seu atendimento médico é coberto por verbas públicas. Mais de metade das falências de famílias nos EUA são causadas por doença ou acidente graves.

Essas são as teorias concorrentes (porém não contraditórias) sobre a causa da deterioração. A "experiência vivida", como diriam os sociólogos, é outra coisa.

De forma muito semelhante aos Freeman, os Miller poderiam estar vivendo em qualquer lugar dos EUA. Somente o calor abafado denuncia que estão na Virgínia, no sul do país. Falls Church, na Virgínia, é na verdade um subúrbio da capital do país, Washington. A implacável expansão do governo fomentou um setor privado "verde", do outro lado do rio Potomac, dedicado principalmente a atividades relacionadas com segurança, defesa, serviços governamentais e lobbying. O lugar de honra na casa de Shareen Miller abriga uma fotografia granulada de sua conversa com Barack Obama numa cerimônia na Casa Branca, no ano passado, para a assinatura de uma nova lei que impõe igualdade de remuneração para as mulheres.

Como organizadora, na Virgínia, de 8 mil assistentes de cuidados pessoais - profissionais que cuidam de idosos e de deficientes nas próprias casas dessas pessoas - Shareen, de 42 anos, foi convidada, com outras dezenas, a participar da cerimônia. Mas isso foi tudo o que ela ganhou de sua fugaz proximidade com o presidente. Desde então, sua remuneração e suas horas de trabalho não pararam de cair. No ano passado, ela ganhava US$ 1,5 mil por mês. Agora, recebe US$ 900. Assim como outros governadores de Estado, Bob McDonnell, governador da Virgínia, vem cortando impiedosamente o gasto público desde que a recessão começou.

Embora com área de aproximadamente o dobro do lar dos Freeman, na casa de Shareen a sensação é de aperto ainda maior. Junto com dois filhos, uma nora, uma neta e seu marido, Shareen tem um verdadeiro zoológico de animais de estimação. Sua paciente Marissa, 26, com paralisia cerebral, muitas vezes pernoita na casa deles.

Shareen exibe a vigorosa boa vontade que encontramos em muitos americanos. Apesar de seu pouco tempo livre, ela pratica uma atividade voluntária, aos sábados, dedicada a animais de estimação perdidos. Para ir a qualquer lugar, os Freeman precisam de um carro. A uns 250 metros de sua casa, fica o trevo local, onde estão as emblemáticas Taco Bells, 7-Eleven e lojas de um dólar que pontilham os EUA. É a geografia física que diferencia os lugares; a geografia humana, simplesmente se repete.

Dona de um sorriso permanente, Shareen traça sua complexa árvore genealógica: um pai aposentado, que trabalhou numa penitenciária do Estado de Oregon, e vários meio-irmãos e meio-irmãs, nenhum dos quais parece estar chegando com dinheiro ao fim do mês. "Adivinhe de qual estou mais próxima", pergunta ela com um sorriso travesso. "De nenhum."

De novo, tecnicamente falando, Shareen vive em relativo conforto. Como seu marido trabalha para uma companhia de segurança contra incêndios e ganha US$ 70 mil por ano, os Miller estão, sem dúvida, sobrevivendo. Mas eles temem o que poderá acontecer se um deles tiver um problema de saúde. Alguns anos atrás, Shareen teve um tumor removido de seu diafragma, que gerou US$ 17 mil em dívidas. E o marido sofre de uma hérnia de disco. Surpreendentemente, tendo em vista que sua renda bruta conjunta é o dobro da mediana nos EUA, Shareen teve de adiar uma operação dentária por seis meses, a fim de saldar o empréstimo para a compra de seu carro. E não tem tempo para estudar e se requalificar. "Uma coisa comum nas pessoas que cuidam de gente com deficiências é que elas nunca têm tempo", diz ela.

Tanto quanto discordam sobre o que causou a grande estagnação, os economistas também divergem sobre as soluções. A maioria concorda que níveis educacionais mais altos melhoram o rendimento potencial das pessoas, mesmo que isso não resolva o problema subjacente. Outros salientam que nem todo mundo pode ser um corretor de ações, empresário de software ou professor de Harvard.

Muitos dos empregos do futuro serão funções "interpessoais" que não podem ser facilmente substituídos por computadores (ou imigrantes): zeladores, cabelereiros e manicures, para os quais uma faculdade é algo frequentemente supérfluo. Além disso, grande parte dos americanos atingidos pela estagnação nos últimos dez anos tem curso universitário. Mesmo eles não estão a salvo. Porém, mais educação, no mínimo, melhorará as chances das pessoas. Como pagar isso são outros quinhentos.

Apesar de a renda nos EUA estar estagnada, o custo das escolas não cessa de crescer. Desde 1990, quase dobrou a proporção de americanos que estão pagando mais de US$ 20 mil em empréstimos educacionais uma década após terem se formado. Lawrence Summers, principal assessor econômico de Obama, que há muito tempo preocupa-se com o crescimento do que ele denomina "nervosa classe média" americana, salienta que, entre as principais economias, os EUA têm o maior percentual de diplomados no mercado de trabalho. Mas, na faixa etária de 25 a 34 anos, os EUA não estão nem nos "dez mais".

Mais e mais americanos jovens são dissuadidos pela perspectiva de assumir uma dívida de longo prazo. "Não é só o medo do endividamento - são os quatro anos de lucros cessantes", diz Ruth Miller.

O impacto sobre as pessoas, como os Miller e os Freeman, tem sido agudo. Primeiro, houve estagnação. Depois veio a recessão.

Qual é, então, o futuro do sonho americano? Michael Spence, economista ganhador do Prêmio Nobel, a quem o Banco Mundial encarregou de realizar um estudo sobre o futuro do crescimento mundial, admite um mau presságio. Como um número crescente de economistas, Spence disse ver a grande estagnação como uma profunda crise de identidade.

Durante anos, o problema foi amenizado e parcialmente oculto pela disponibilidade de crédito barato. Americanos de classe média foram ativamente incentivados a se endividar continuamente, oferecendo suas casas em garantia, ou a canibalizar seus fundos de aposentadoria, confiando em que os preços dos imóveis e as bolsas de valores desafiariam permanentemente a gravidade (uma atitude estimulada, entre outros, pela metade dos ganhadores do Nobel de Economia em todo o mundo). Essa reserva de valor, agora, não existe mais. O dinheiro fácil transformou-se em pesado endividamento. "Baby boomers" - os nascidos na explosão da natalidade após a Segunda Guerra Mundial - adiaram sua aposentadoria. Filhos com curso superior estão voltando para a casa dos pais.

O barômetro é econômico. Mas a raiva é humana e cada vez mais política. "Tenho esse desgastante sentimento sobre o futuro dos EUA", diz Spence. "Quando as pessoas perdem o senso de otimismo, as coisas tendem a ficar mais voláteis. O futuro que mais temo para os EUA é latino-americano: uma sociedade muito desigual, propensa a fortes oscilações entre populismo e ortodoxia. Veja o Tea Party [movimento conservador]. As pessoas acham que surgiu do nada. Embora eu não concorde com suas soluções, a maioria dos membros do Tea Party são americanos de classe média que vêm sofrendo em silêncio há anos."

Spence admite estar pensando em voz alta e "extrapolando em muito os dados". E ele admite que os EUA provavelmente ainda conservam sua força mais vibrante em sua capacidade de liderança mundial em inovação tecnológica. A maioria dos economistas não é tão pessimista como Spence. Mas é entre os americanos comuns que seu pessimismo repercute mais intensamente. "Ser pessimista sobre o futuro é algo tão novo para os americanos", diz Spence. "Mas a maioria das pessoas compreende sua própria situação melhor do que qualquer economista." (Tradução de Sergio Blum)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Até a Folha cede (um pouco) ante o iminente desastre

Arrecadação baixa leva Serra a pedir doação pessoalmente – por CATIA SEABRA (Folha)

Pressionado por aliados, tucano participará de contatos para obter verba

Até agora, candidato do PSDB diz que recebeu R$ 3,7 mi, um terço do declarado por Dilma, e menos até que Marina

DE SÃO PAULO

Sob pressão de aliados nos Estados, o comando do PSDB pediu que o candidato do partido à Presidência, José Serra, atue pessoalmente na arrecadação de recursos para a campanha eleitoral.
Segundo tucanos, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), discutiu o tema com Serra numa reunião na noite de segunda-feira. O argumento é que os empresários preferem contato direto com o candidato antes de concretizar as doações.
Porta-voz do partido, Guerra apresentou a Serra uma lista de potenciais doadores para que sejam procurados. Muitos deles já se comprometeram a colaborar, mas ainda não contribuíram efetivamente com dinheiro.
Além de conversar com empresários, Serra deverá intensificar agenda de encontros destinados à arrecadação, como um recente jantar com o setor de siderurgia. De acordo com tucanos, Serra concordou ainda em participar de um evento proposto pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que concentra boa parte do PIB nacional.
Nesse esforço de arrecadação, estão na mira, além das siderúrgicas, também bancos e empreiteiras. Para driblar resistência do setor bancário, Serra escalou um homem do sistema financeiro -Sérgio Silva de Freitas, ex-dirigente do Itaú- para a tarefa de arrecadação. Mas os empresários querem ouvir os compromissos de Serra para a economia.
Pelos cálculos do comando da campanha, já chega a R$ 15 milhões o total prometido. Mas o comitê eleitoral tucano declara ter recebido R$ 3,7 milhões -um terço dos R$ 11,6 milhões registrados por sua principal adversária, Dilma Rousseff (PT). Em sua primeira prestação, Marina Silva (PV) declara ter recebido R$ 4,65 milhões. Ontem, Serra admitiu preocupação com o nível de arrecadação de sua campanha até aqui.
"Preocupa [a baixa arrecadação], mas eu espero que os recursos entrem, porque às vezes tem muito atraso nisso [nas doações]", disse Serra em Heliópolis, uma das áreas mais pobres de São Paulo, durante visita a uma escola técnica e uma AME (Ambulatório Médico de Especialidades), ambas inauguradas por ele quando governador.
Antes de demonstrar preocupação com o nível baixo de seu caixa, Serra chegou a dizer que "não tinha visto isso [o fato de sua arrecadação parcial ser menor que a de suas adversárias]".
Por outro lado, tucanos minimizavam dificuldades na arrecadação, alegando que é natural que as empresas só contribuam após a primeira rodada de prestações.
Afirmam ainda que algumas doações foram endereçadas diretamente ao partido, responsável pelas despesas da pré-campanha. Mas reconhecem que a expectativa de arrecadação é maior para a candidata do governo. O presidente do PPS, Roberto Freire, chega acusar o governo de intimidar empresários. "Com um governo policialesco, a pessoa fica com medo de contribuir para a oposição."

PIRES
Dos Estados, aliados cobram o envio de material para a campanha nas ruas. O coordenador de infraestrutura da campanha, Sérgio Kobayashi, avisa que, a exemplo da montagem de comitês, a produção de impressos dependerá do ritmo de arrecadação de dinheiro.

Colaborou BRENO COSTA, de São Paulo


Salvem o tucano-verde – por Fernando de Barros e Silva (Folha)

SÃO PAULO - Para quem é tucano e precisa de voto, o Rio de Janeiro está longe de ser uma cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. No mais recente Datafolha, José Serra tem 25% das preferências na capital fluminense, contra 40% de Dilma Rousseff e 14% de Marina Silva. No Estado do Rio, a situação é um pouco menos ruim: Serra tem 31%; Dilma, 37%; e Marina, 12%. Em 2002, quando foi derrotado por Lula, Serra teve só 21% dos votos no terceiro colégio eleitoral do país.
O PSDB, desta vez, não tem candidato próprio ao governo na terra do Redentor. Apoia Fernando Gabeira, do PV, numa aliança desconfortável que tem ainda DEM e PPS.
Por razões óbvias, Gabeira também é apoiado por Marina, a quem ele oficialmente dá o seu voto. Serra, ali, acaba sendo uma espécie de "amigo do amigo".
Criou-se no Rio um triângulo pouco amoroso, em que dois presidenciáveis partilham o mesmo nome ao governo. Alguém sempre tem um motivo para torcer o nariz.
Anteontem, Gabeira disse, num desabafo, que, se eleito, se sentia livre para "dar uma banana aos aliados". Era uma resposta aos tucanos, que teriam decidido não bancar os custos do programa de TV dos verdes, pelo menos nos termos acertados, uma vez que Gabeira não estaria cumprindo seu papel.
Ontem, Gabeira e Serra estiveram juntos em São Paulo. Tentavam aparar as arestas. A situação, no entanto, é tensa, até porque o governador Sérgio Cabral (PMDB), candidato de Dilma, tem 53% e pode ser reeleito no primeiro turno.
No cerne deste mal-estar, tudo indica insolúvel, está o fato de que Serra e Marina, ambos atrelados a Gabeira, disputam o mesmo eleitorado, o que os números estão a evidenciar. A candidatura Marina faz o tucano sangrar especialmente no Rio de Janeiro. Não é por outra razão que o demista Cesar Maia chama a candidata verde de "Heloísa Helena 2", enquanto Alfredo Sirkis, presidente do PV local, diz ver no tucano um "cavalo paraguaio".

Comentário

Quando um aliado canino como a Folha começa a mostrar os podres desse jeito... é sinal que a campanha de alguém está fazendo (muita) água.
Do grupo, só o Datafolha prossegue impávido, completamente alheio aos fatos, na firme defesa dos interesses da direita nacional.
De qualquer modo, mais adiante terá de assumir seu erro. Não dirá que errou (claro), afirmará que o crescimento da Dilma se deu devido ao maior tempo que ela possui de propaganda eleitoral.

Montenegro: vai dar primeiro turno – por Luis Nassif

Opiniões de Carlos Augusto Montenegro, do IBOPE.

1. A próxima pesquisa IBOPE deverá dar uma diferença de 8 a 10 pontos para Dilma.

2. As próximas pesquisas do Datafolha deverão convergir para os resultados dos demais institutos.

3. O fato da Globo marcar transmissão de jogo para o horário do debate político da Bandeirantes é sinal de que ela não acredita mais que a exposição dos candidatos será positiva para José Serra.

4. A eleição para presidente será decidida no primeiro turno.


Comentário
Ou a coisa está de fato muito, mas muito feia para José Serra (talvez quase tão feia quanto ele mesmo), ou estão armando uma arapuca para Dilma (para que se entre no clima de “já ganhou”).
Se até o Montenegro, um fiel torcedor do PSDB diz isto... a coisa já esteve melhor pra direita brasileira.

O que Serra e Bush têm em comum: não gostam de pobre

http://www.conversaafiada.com.br/politica/2010/08/04/tijolaco-serra-so-toca-em-pobre-com-tv-gravando/

Os problemas da TV cultura - por Luis Nassif

Movimento Salve a TV Cultura

Não tenho por hábito estimular movimentos de mobilização pela Internet. Mas esse caso da TV Cultura não pode ficar assim.

Não é possível que o trabalho de gerações de paulistas, que a tradição criada por Roberto Muylaert seja destruída pela postura imperial de um presidente indicado pelo governo do Estado. Não se pode deixar João Sayad promover esse desmonte.

Montou-se um Conselho supostamente representativo da sociedade civil paulista, mas que só tem servido para sancionar decisões que partem do governo do Estado.

Nos últimos anos, a TV Cultura foi uma caixa preta. Apesar de indícios veementes de irregularidades, o conselho passou ao largo da gestão Marcos Mendonça. A blindagem proporcionada pela mídia a todos os atos de governo garantiu esse silêncio atroz, um pacto de cumplicidade naquele que deveria ser o Estado por excelência da afirmação da sociedade civil.

Há diversas funções das mais relevantes a serem cumpridas pela TV Cultura. Há uma cultura paulista espalhada por todo o Estado à espera de divulgação, há novas gerações de músicos aguardando espaço, há uma discussão ampla sobre os rumos do estado e do país. Como emissora pública, a TV Cultura teria espaço para prestar serviços a órgãos públicos - como já faz -, tem facilidade para captar recursos pela Lei Rouanet. Poderia se montar um trabalho amplo de mobilização junto às empresas paulistas.

Poderia ser o veículo por excelência das Secretarias da Educação, da Cultura, da Gestão. Mas nas vezes em que se ensaiou essa parceria, foi apenas para validar negócios de ONGs controladas por aliados políticos.

Todo esse potencial é deixado de lado pela postura fácil do desmonte.

Fica aqui a sugestão para a criação de um Movimento Salve a TV Cultura. O Blog ficará à disposição dos que tiverem propostas, ideias e mobilização para essa empreitada que é questão de honra para São Paulo.


O desmonte final da TV Cultura

Infelizmente a marca que fica de sucessivas gestões paulistas é a da incapacidade de recuperar qualquer órgão público, por mais relevante que seja. Não houve um só movimento para recuperar a capacidade de planejamento da Fundap, Cepam, para arejar a Fundação Seade, para capacitar o DER, a CESP.

É como se o Estado não acreditasse em sua capacidade de gestão. Em vez de estratégias de racionalização, a serem aplicadas a cada caso, transforma-se terceirização e privatização em peça central, em dogma absoluto de política pública. E sempre aberto a toda sorte de manobras, como o caso escandaloso da Cultura Marcas, na gestão Marcos Mendonça, que Sayad varreu para baixo do tapete.

Não se olha o potencial não explorado de nenhuma instituição paulista. Todas são meramente centros de custos para administradores sem nenhuma imaginação e nenhuma vontade de pegar no batente.

Por bene

É o enterro final da TV Cultura?

Vão demitir 1400 funcionários, vender estúdios...

Triste fim. Muito triste.

Bomba: TV Cultura vai cortar programas e demitir 1.400

Ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad assumiu a presidência da TV Cultura em junho com a missão de reduzir a TV pública paulista a uma simples TV estatal. Com o aval do ex-governador José Serra e do atual governador, Alberto Goldman, Sayad pretende reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%, dos atuais 1.800 para 400.

Sayad pensa até em vender o patrimônio da TV Cultura. Já encomendou aos advogados da emissora um estudo sobre a viabilidade de a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV, se desfazer de seus estúdios e edifícios na Água Branca, em São Paulo.

Em reuniões com diretores da emissora, Sayad tem dito que a Cultura não precisa ter mais do que 400 funcionários, que ficariam, segundo ele, muito bem instalados em um andar de um prédio comercial. A postura evidencia que a TV Cultura deixou de ser uma questão de política pública. Passou a ser um "pepino", um problema a ser eliminado pelo governo do Estado.

Fontes ouvidas pelo blog informam que Sayad vive dizendo que irá transformar a Cultura, hoje produtora de programas, em uma coprodutora. Ou seja, ela deixará de produzir de produzir programas de entretenimento. Passará a encomendá-los a produtoras independentes e a comprá-los no mercado internacional. Atrações como o Metrópolis podem estar em seus últimos dias.

O jornalismo da Cultura deixará de investir no noticiário do dia a dia, caro e melhor produzido pelas redes comerciais. A partir de setembro, o Jornal da Cultura, com Maria Cristina Poli, passará a ser um jornal mais de debates, de discussão sobre o noticiário, do que de notícias.

Corte de receitas

A TV Cultura tem hoje um orçamento de cerca R$ 230 milhões. Desse total, R$ 50 milhões vêm da venda de espaço nos intervalos dos programas para anunciantes privados. Outros R$ 60 milhões são oriundos da prestação de serviços, como é chamada na emissora a produção de programas e vídeos para instituições como o Tribunal Superior Eleitoral, a Procuradoria da República, a TV Assembleia (do Estado de S.Paulo) e a TV Justiça.

Pois a gestão de Sayad já iniciou o desmonte dessas duas fontes de recursos. Até o ano que vem, a TV Cultura não terá mais nenhuma publicidade comercial em seus intervalos nem produzirá mais programação para órgãos públicos (a publicidade institucional, irrisória, será mantida).

Dessa forma, reduzirá uma boa parte do seu número de funcionários.
Se o plano for executado, a TV Cultura sobreviverá apenas dos R$ 70 milhões que o governo do Estado aporta diretamente todos os anos, além de outros R$ 50 milhões ela que recebe pela produção de conteúdo para as secretarias estadual e municipal de Educação.

Demissões em massa

O plano de demissões de Sayad é mais complexo. Por causa das eleições de outubro, ele não pode demitir funcionários contratados em regime de CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) até dezembro. A Cultura tem entre 1.000 e 1.200 funcionários celetistas. Esses trabalhadores têm emprego garantido até janeiro. Depois, dependem da postura do novo governador do Estado. Para demitir funcionários celetistas, Sayad precisará do apoio do futuro governador, porque terá de contar com verbas extras para pagar as indenizações.

Já os profissionais contratados como pessoas jurídicas (os PJs, pessoas que têm microempresas) podem ser "demitidos" a qualquer momento. Eles seriam de 600 a 800. Os cortes devem ser feitos à medida que contratos de prestação de serviços, como o da TV Assembleia, forem vencendo e não renovados.

Outro lado

O blog tentou ouvir o presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, sobre as mudanças que ele pretende implantar na TV Cultura. Na última segunda-feira, por meio da assessoria de imprensa da emissora, pediu uma entrevista. Ontem à tarde, a TV Cultura informou que Sayad não falaria com o R7.

As informações aqui publicadas foram relatadas previamente à assessoria de imprensa da TV Cultura. Nada foi negado.


COMENTÁRIO

De fato, administrar não é fácil, e administrar a coisa pública é ainda mais complicado devido aos inevitáveis entraves burocráticos e a lentidão motivada tanto por alguns funcionários relapsos, quanto pelas normas mil que tentam evitar a corrupção, o peculato, etc.
Portanto, administrar a coisa pública não é tarefa para despreparados.
Porém, quando uma instituição pública, qualquer que ela seja, cai nas mãos do PSDB, é inevitável que apelem a privatizações e terceirizações, isto porque seria impossível encontrar neste partido um administrador de mão cheia.
Recorre-se ao mais fácil: terceiriza-se, privatiza-se, para esconder a própria incompetência na administração, para “passar o pepino” para outrem, mais capaz, mais dedicado, mais líder, mais preparado.
É uma lástima.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Serra e FHC, uma relação delicada - por Luis Nassif

No futuro, um dos enigmas políticos contemporâneos, que talvez se torne tese para algum candidato a doutorado de história, serão as relações políticas e pessoais entre Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Não apenas os amuos recíprocos, as críticas ferinas que sempre trocaram, mas a ligação quase simbiótica, a sujeição intelectual e política de Serra a FHC.
O que levou o tucano que parecia ter o maior potencial de liderança do partido, que assumiu o maior estado da União, no qual as melhores experiências administrativas poderiam ser colocadas em prática, a ficar sempre em segundo plano, ofuscado pela liderança daquele que caminha para ser o mais impopular ex-presidente da história?
Aqui alguns elementos para futuros historiadores que quiserem se habilitar a desvendar o enigma.
Eleito governador, José Serra parecia pronto para a escalada rumo à presidência da República. As eleições presidenciais foram encarniçadas. Sem cargos executivos, o ex-presidente FHC e senadores como Arhur Virgílio e Tasso Jereissatti, estimulavam o clima de guerra, o único no qual poderiam ganhar espaço junto ao PSDB.sp; O pêndulo do partido se inclinaria inevitavelmente para os governadores. O jogo político passaria a ser praticado em outro nível porque todos - Lula e governadores – precisariam de um pacto de governabilidade. Os novos governadores seriam o caminho para o arejamento da oposição, buscando governar da melhor forma possível para se qualificar para a sucessão de Lula.
As esperanças maiores estavam em Aécio Neves, em Minas, e Serra, em São Paulo.
Terminada as eleições, com os ecos das baixarias ainda muito fortes, escrevi um artigo dizendo que tinha chegado a época dos negociadores. Serra tinha formação de centro-esquerda, não tinha acertos de conta com a biografia – como FHC com Lula -, seria o negociador, o governador com capacidade para conduzir uma interlocução de alto nível com o governo federal, enterrando a loucura que havia tomado conta da oposição e da mídia.
A partir dali, o país entraria na era do amadurecimento político, com oposição e situação disputando quem faria melhor governo, teria as melhores propostas, sem intenções golpistas, sem dossiês, sem o clima terrível inaugurado pelo pacto espúrio de 2005 com a mídia
No artigo, dizia que a única esperança de Serra se consolidar seria enterrar o fernandismo e inaugurar definitivamente o serrismo. Empresários que Serra costumava ouvir insistiram no mesmo ponto.
Até então, julgava que as constantes manifestações de Serra sobre temas relevantes indicassem uma visão mais abrangente da economia. Levei algum tempo para entender que, afora alguns temas de economia, Serra passara ao largo de todas as grandes discussões dos anos 90 – gestão, inovação, políticas sociais, integração continental, políticas industriais modernas etc. Eram meramente táticas suas manifestações sobre alguns temas que ganhavam repercussão na mídia, visando ganhar a confiança de jornalistas ou de lideranças de alguns setores para fortalecer sua cruzada anti-Malan, na disputa pelas atenções de FHC.
Assim que recebeu o artigo pelo mailing, ele me ligou. Disse que, em geral, concordava com minhas posições, mas não a sugestão de romper com o fernandismo. «Ele é meu amigo, me apoia», me disse.
Estranhei a conversa. Não estavam em jogo amizade ou coisas do gênero, mas a afirmação de um novo conjunto de idéias, de uma nova liderança, o que só poderia ser feito se se enterrasse o modelo mercadista anterior, desenhado e conduzido por FHC. Como inaugurar uma nova era no PSDB sem consumar o enterro da anterior, que o partido carregava como uma bola de ferro amarrada aos pés?
Desligado o telefone, fiquei tentando entender a conversa. Aí caiu a primeira ficha.
Lembrei-me de uma cena ocorrida alguns anos antes que se fixara em algum lugar da memória e agora voltava à tona.
Foi no período em que ACM saiu atirando para todo lado. Deu entrevistas a duas ou três semanais, levantou o caso Ricardo Sérgio, atacou Serra, falou no caso do Fórum do TRT e do leque de escândalos que a mídia vinha agitando.
Tinha marcado um almoço com Serra no mesmo sábado no qual saíram as entrevistas com ACM. Ele ligou remarcando em lugar mais discreto. Almoçamos no restaurante do Hotel Cá Doro.
As entrevistas haviam sido violentas. Na revista Época, o Augusto Nunes – então diretor – forçara a barra até o limite da imprudência. Na abertura da entrevista dizia que ela teria a mesma importância da que Pedro Collor dera à Veja no início do processo de impeachment. Era evidente que a mídia procurava colocar uma outra marca na pistola, de derrubar mais um presidente.
No almoço, disse claramente a Serra que FHC era muito contemporizador, mas agora não tinha saída: ou destruía ACM ou seria destruído.
Serra ouvia e de vez em quando fazia comentários soltos, no estilo «faço e aconteço». «É por isso que não me querem na presidência porque sabem que em dois tempos acabo com eles», comentou. Na época tinha credibilidade para esse tipo de bazófia e acreditei piamente que ele acreditava no que dizia.
Segunda-feira tinha palestra em Brasília. Por volta do meio dia estava a caminho do aeroporto quando recebi telefonema do Serra. Perguntou se poderia almoçar com ele e FHC no Alvorada. Pedi para o taxista dar meia volta e fui para lá.
Durante algum tempo ficamos os três conversando na sala. Ali, pela primeira vez, pude entender melhor a relação entre ambos.
Até então tivera muitos encontros com FHC – desde os tempos de Senado – e com Serra, mas isoladamente. Em períodos de crise, FHC procurava seduzir interlocutores; em período de bonança, tornava-se arrogante. Na crise, tornava-se pró-ativo; na calmaria, acomodado.
Já Serra, desde que se tornara Ministro de FHC tinha por hábito criticar todas suas decisões, dizer-se melhor preparado para a presidência e contar prosa sobre como faria melhor isso ou aquilo. Jornalistas e amigos comuns sabiam disso e achavam engraçado.
Mesmo com muitas conversas em off, minha percepção, até então, era de um FHC frágil, pouco determinado. E era impressão generalizada. Lembro-me de um almoço com o embaixador norte-americano, no segundo semestre de 1994. Eu lhe dizia que não acreditava na disposição de FHC para conduzir reformas importantes ou enfrentar grandes desafios. Ele me disse que era a mesma percepção do Departamento de Estado. E nem me conhecia pessoalmente, mas apenas pelas colunas.
Surpreendi-me com sua rude franqueza, ainda mais sabendo-se que o estilo da mídia, desde aquela época, era de não respeitar off. Para sua sorte sua inconfidência foi feita a um jornalista que respeitava o combinado.
Mas o que via na minha frente, ali no Alvorada, era algo que não batia com minha percepção sobre os dois políticos. FHC estava à vontade, falava bastante. Serra estava inibido, sorumbático, monossilábico.
FHC comentou sobre os problemas no TRT de São Paulo. Disse que as acusações iriam quebrar a cara porque o contrato era juridicamente perfeito.
Antes de ir para a mesa, Serra pediu-me que repetisse o que havia lhe dito no almoço de sábado. Repeti, disse que ou FHC destruiria ACM, ou seria destruído por ele.
FHC não perdeu a bonomia. Como se tivesse tratando de um problema banal, disse:
- O Antônio Carlos está esperneando porque sabe que está perdido. Vai ser cassado por causa do vazamento do painel de votação do Senado.
O caso do vazamento ainda não ganhara os jornais. Não piscou, não perdeu a segurança. Era o Príncipe em estado puro, frio, senhor da situação, analista com controle absoluto sobre os desdobramentos da maior crise que enfrentara.
Olhei para o Serra, minha esperança de futuro grande estadista do país. E vi apenas um político assustado, inibido pela presença e pela análise de situação de FHC.
Fiquei algum tempo sem entender direito. Porque Serra precisou de mim para transmitir um recado que, se ele tivesse o poder do qual se jactava, teria sugerido pessoalmente a FHC? Mais que isso: parecia desconhecer a determinação de FHC. Será que aquela inibição que testemunhei no almoço, quase um temor reverencial, era a regra nas relações pessoais entre ambos?
Saí do almoço intrigado. Depois o dia a dia soterrou por algum tempo as lembranças daquelas cenas. A memória trouxe de volta quando Serra desligou o telefone, depois de me dizer que não havia razão para romper com o fernandismo.
No fundo, jamais conseguiu se desvencilhar da influência massacrante de FHC. Não propriamente nas ideias, mas na capacidade de decidir, de se mover no cenário político, na frieza ao encarar os grandes perigos, na clareza de definir slogans mobilizadores de campanha, na segurança de saber o que queria.
E FHC conhecia Serra como a palma da mão. Daí a relutância permanente em abrir espaço para ele – que Serra interpretava como medo da sua competência. Daí as ressalvas permanentes, as dicas que passou no perfil que a revista Piauí traçou sobre Serra.
Durante os quatro anos como governador, comeu na mão de FHC. Através dele, montou o pacto com a mídia que lhe permitiu exercitar seu esporte predileto: fuzilar reputações de terceiros, pedir a cabeça de jornalistas, levando o paroxismo da mídia e níveis inéditos, uma guerra suja e sem quartel, mas sempre nos bastidores. Foi a FHC que recorreu em pânico, em janeiro, querendo se afastar do cálice da candidatura a presidente, conforme a reconstituição feita pelo Estadão.
Em toda sua vida política, afastou-se de FHC apenas nos dois últimos meses, pressionado pelos altíssimos índices de rejeição do seu guru. E aí tornou-se um trem desgovernado, sem maquinista.

Juiz que prendeu Dantas duas vezes não crê na Justiça - por PHA

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/08/03/juiz-que-prendeu-dantas-duas-vezes-nao-cre-na-justica/

Comentário

Todo apoio a De Sanctis para novo ministro do STF.
Só tenho pena dele, pelas companhias em que ele se fará presente.

Eros Grau volta a advogar. Por que não para Dantas? - por PHA

http://www.conversaafiada.com.br/politica/2010/08/03/eros-grau-volta-a-advogar/ - por Paulo Henrique Amorim.


Comentário

E pensar que eu tinha grandes esperanças de que Eros Grau fosse ser o melhor ministro do STF. Foi uma lástima. É outro que vai tarde.

Uribe, o herói do PiG, fez a maior vala comum do mundo - por PHA

http://www.conversaafiada.com.br/mundo/2010/08/02/uribe-o-heroi-do-pig-fez-a-maior-vala-comum-do-mundo/ - por Paulo Henrique Amorim.

Comentário:

Uribe nada mais é do um George War Bush sul americano. Com as mesmas táticas, mesmas estratégiuas de controle pelo medo através do mídia, do confronto, da invenção de bruxas, da criação de inimigos para unir os seus.
É uma excrescência que já vai tarde. Era um perigo enorme para a América do Sul tê-lo como presidente.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Mico em série da Cultura: "diretor informal" vira assessor – por Luis Nassif

TV Cultura oferece novo posto a jornalista - por Jotabê Medeiros, Malu Delgado (O Estado de S.Paulo)

A TV Cultura ofereceu ontem um novo cargo ao jornalista Gabriel Priolli após especulações de que ele seria afastado de suas funções por causa da produção de reportagem sobre o custo dos pedágios nas estradas de São Paulo.

Segundo informações de fontes da emissora, Priolli participou de reunião com a direção na qual lhe foi oferecido o cargo de assessor na vice-presidência de Gestão. Pela proposta, ele trabalhará diretamente com o vice-presidente da TV pública, Ronaldo Bianchi. Priolli não respondeu se aceitará ou não a proposta. Procurado pelo Estado, ele disse que não quer se pronunciar sobre os acontecimentos.

A assessoria de imprensa da TV Cultura informou que Priolli foi "remanejado" do cargo de coordenador de expansão de redes para o cargo de assessor da vice-presidência. A emissora considera a polêmica sobre rumores de ingerência política "caso encerrado e esclarecido".

Informal

O jornalista, segundo a assessoria, nunca exerceu oficialmente o cargo de diretor de jornalismo, apesar de ter colaborado de maneira informal com ao setor. O cargo de coordenador de jornalismo permanece vago desde o desligamento de Paulo Fogaça, em 14 de junho.

A TV Cultura exibiu, na noite de sexta-feira, a reportagem sobre os pedágios. Diante de rumores sobre censura prévia à reportagem, o PT de São Paulo anunciou que poderia pedir análise do caso ao Ministério Público Eleitoral. O episódio gerou protestos do candidato do PT ao governo, Aloizio Mercadante, que fora entrevistado para a reportagem, assim como o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. O candidato Fábio Feldman (PV), segundo sua assessoria, foi entrevistado às pressas na tarde de sexta-feira para a reportagem.

Com a transmissão na TV, o departamento jurídico do PT e a liderança do partido na Assembleia analisam se há sentido em fazer representação ao Ministério Público. A reportagem, de 3 minutos e 9 segundos, informava sobre o reajuste dos pedágios e as propostas dos candidatos.


Comentário – Luis Nassif

Ontem já tinha alertado que nem João Sayad, com toda sua bonomia e sutileza, escaparia do mico. Agora, o caso virou mico em série. Esse pedaço é ótimo: após "especulações de que ele seria afastado de suas funções" foi-lhe oferecido em cargo de aspone sem função definida.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sayad nega ingerência política na TV Cultura - por Sonia Racy, Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo

O presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, negou ontem ter havido motivação política no afastamento de Gabriel Priolli da Diretoria de Jornalismo da TV Cultura. Ele alegou que Priolli não tinha o perfil adequado para o cargo na emissora, gerida pela fundação.

"Foi uma escolha equivocada", afirmou Sayad. Jornalista experiente, com passagem por alguns dos principais jornais e televisões do Brasil, Priolli trabalha para a TV Cultura há mais de uma década e permaneceu apenas uma semana no cargo.

Seu afastamento alimentou a suspeita de ingerência política na emissora pública ligada ao governo de São Paulo. Segundo versão amplificada pela internet, Priolli foi afastado do posto por orientar a produção de uma reportagem sobre as tarifas de pedágio nas estradas estaduais, tema abordado com insistência pela campanha do PT ao governo paulista.

O jornalista preferiu não se manifestar sobre o episódio: "Vou manter silêncio, pois ainda sou funcionário da TV Cultura". O destino de Priolli dentro da emissora deve ser definido hoje, em reunião com o vice-presidente da fundação, Ronaldo Bianchi. Tanto a nomeação quanto a destituição de Priolli foram comunicadas a ele pelo diretor de Conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello.

O seção paulista do PT anunciou que vai pedir ao Ministério Público Eleitoral que investigue o afastamento de Priolli. O candidato do partido ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante, foi entrevistado para a reportagem sobre pedágios, assim como o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin.


Comentário (Luis Nassif)

João Sayad pode ter inúmeros defeitos. Mas sempre foi suficientemente inteligente e bem humorado para não se expor ao ridículo. Desta vez, não escapou. Passa a integrar o longo elenco de seguidores do rei, que entregam a ele tudo, até a imagem pública. Aliás, é o primeiro graduado a entrar na lista.

Priolli é jornalista conhecido. Tem histórico, para ser analisado. De repente, entra a nova direção, coloca-o no cargo de diretor de jornalismo e descobre uma semana depois que não tem "perfil". E qual a matéria que determina essa brusca mudança de avaliação? A do pedágio, óbvio, a única que foi pessoalmente derrubada pelo vice-presidente de programação Fernando Vieira de Mello, no dia anterior ao da demissão de Priolli.


A alegação de Vieira de Mello - em entrevistas posteriores - foi a de que a matéria era falha por não ter ouvido todos os candidatos ao governo de Estado em período eleitoral. Só faltava, para cada tema estadual ouvir todos os candidatos. Não sairia uma matéria sequer sobre o assunto. Esse suposto cuidado eleitoral ocorre no momento em que seguidores do candidato a presidente Plínio de Arruda Sampaio montam campanha na Internet para solicitar que o Roda Viva - o principal programa da Cultura - dê ao candidato o mesmo espaço concedido a Serra, Dilma e Marina. Para o principal programa da emissora, não é necessário perseguir a isonomia. Para uma matéria de três minutos sobre pedágios, sim.

Outro ponto foi o afastamento de Heródoto Barbeiro. Com ou sem a pergunta sobre pedágio a Serra, Herótodo estava com os dias contados devido a idiossincrasias antigas do próprio Serra. Ele nunca escondeu seu desagrado com Heródoto, a quem taxava de "petista".


Quem acompanha os comentários de Heródoto sabe que está longe de ser considerado petista. Pouco importa se na soma final, Heródoto seja um crítico contumaz do governo. No reino de Serra não há espaço para contemporizações nem para sutilezas: ou apoio integral ou a fogueira. Qualquer implicância do chefe, qualquer sinal de desagrado é senha para degolas, para não se incorrer na sua ira. Daí essa truculência de demitir um diretor de jornalismo devido a uma única reportagem - sem a menor sensibilidade para prever a grita que se seguiria.


O primeiro ato da gestão dessa fortaleza chamada Paulo Markun foi afastar Heródoto do Jornal da Cultura. Houve enorme grita dos telespectadores. Heródoto acabou voltando dentro de um modelo de jornal - com duas apresentadoras - que matou completamente o espírito original do Jornal da Cultura. Mudança de perfil, inconsistência na grade, subordinação da pauta aos interesses do Palácio Bandeirantes transformaram o Jornal da Cultura em um programa irrelevante - ainda na gestão Markun.

Markun deu tudo o que Serra pediu. Tinha assegurada sua permanência no cargo porque Serra o apoiava. Dançou quando foi alvo de um elogio público de Geraldo Alckmin, dizendo que gostava muito dele. Foi o que bastou para perder o apoio de Serra, que é contrário a amores volúveis. Perdendo, dançou. O Palácio fez uma gambiarra, lançou o Secretário da Cultura João Sayad para presidente da Fundação Padre Anchieta e improvisou Andréa Matarazzo como interino até o final do mandato. E venceu as eleições para presidente da FPA. E ainda há quem discuta se há ingerência política ou não na ex-BBC brasileira.

Ocorre que TV é cast - apesar das TVs públicas ainda não terem descoberto o óbvio. E Heródoto é de longe o jornalista mais premiado e conhecido da TV Cultura. Aliás, ele não é apenas respeitado: é dos poucos jornalistas efetivamente amados por seu público. Se a decisão de trocar Heródoto do Roda Viva era anterior, qual a razão para, até agora, não ter sido definido seu novo papel na programação. Justo ele, o mais premiado jornalista da Cultura?


A informação passada de que a decisão de afastar Heródoto nada teve a ver com a pergunta sobre o pedágio esconde o essencial: quem pediu sua cabeça foi Serra, por idiossincrasias antigas. Mesmo sem o pedágio, teria dançado.


Aliás, a cada governo estadual que passa, mais admiração tenho pelo ex-governador Paulo Egydio Martins.

Por uma Agência Nacional de Inovação - por Glauco Arbix (O Estado de S.Paulo)

O Brasil hoje vive um momento especial. O País elevou seu patamar de crescimento, é fato. Mas as perspectivas de sua sustentação ainda seguem imersas em brumas. Não se trata de mais uma vez registrar o rol de conhecidos obstáculos à permanência do crescimento, mas de apontar e equacionar o desafio mais importante colocado para o País.

A economia brasileira precisa de um choque de inovação.

O necessário aumento do investimento, a melhoria da infraestrutura, a execução de uma boa gestão macroeconômica, capaz de manter domesticada a inflação, e o equacionamento no longo prazo da alta carga tributária e da dívida pública, por fundamentais que sejam, não podem turvar a visão de nossos governantes para a urgência de se promover um salto no padrão de qualidade da atividade econômica. Para isso, mais do que aumentar o investimento, é preciso melhorar o seu foco e sua qualidade, de modo a dinamizar e diversificar a economia e superar a crônica dependência brasileira do universo das commodities.

Esse é o maior desafio, que está longe de se limitar à esfera econômica. Desde o ciclo desenvolvimentista o Brasil procura repensar e modificar sua ossatura institucional, recriar sua arquitetura legal e repensar seus dispositivos políticos para se adaptar às transformações que sacudiram o mundo. O País deu passos enormes nessa direção. Mais importante ainda, caminhou rumo ao estabelecimento de um novo equilíbrio nas relações entre Estado e mercados, distante do velho desenvolvimentismo e da ortodoxia econômica que fez sucesso nos anos 90. Fato é que, sem a combinação de uma economia de mercado com um novo ativismo de Estado - sem estatismo -, dificilmente seria possível combater mazelas crônicas, como as desigualdades e a pobreza.

A sintonia entre esforço pelo crescimento e forte investimento social é a grande responsável pelo momento positivo que o País vive atualmente: ao acionar mecanismos sociais sutis, liberou energias por todos os poros da sociedade, com impacto no conjunto da economia.

Sabemos que as estratégias são mais cristalinas no papel, pois no mundo real são recheadas de ambiguidades e conflitos. Mesmo assim, é forçoso constatar que o País amadureceu e conseguiu diminuir a distância que o separa das nações mais avançadas, ainda que o caminho a percorrer seja longo.

O Brasil está hoje mais preparado para lidar com o novo lugar ocupado pelas atividades intensivas em conhecimento, que tornaram, mundialmente, os processos de reprodução da vida material, social e cultural mais complexos, dinâmicos e integrados. Essa constatação, porém, não nos leva a afirmar a inevitabilidade do sucesso. A economia está numa encruzilhada: ou as empresas evoluem, alteram seu metabolismo, dinamizam sua gestão, valorizam os recursos humanos como estratégia e buscam elevar seu padrão tecnológico e ligar-se às cadeias mundiais de alto valor agregado ou, mais uma vez, o fôlego será curto para manter o crescimento.

É essencial, por isso, que hábitos e costumes sejam alterados dentro das empresas. Mas o País só ganhará dinamismo com um esforço conjunto do setor público e do privado, capaz de envolver as universidades, o Legislativo, o Judiciário e demais instituições sociais.

A inovação no Brasil deve tornar-se regra, não exceção. Debates sobre a necessidade dessa evolução são cada vez mais frequentes e foram retomados com intensidade durante a 4.ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em Brasília em maio. Mais de 4 mil participantes mostraram que a reflexão sobre os rumos do País da parcela da elite brasileira mais diretamente envolvida com a produção de ciência e tecnologia atingiu um novo patamar.

Se conseguisse potencializar inquietações desse tipo, ainda que parcialmente, o debate eleitoral ajudaria a semear o futuro. Esperança vã?

Não custa convidar os candidatos a se pronunciarem sobre a proposta de criação de uma agência nacional de inovação, ligada diretamente à Presidência da República. Essa proposta constava do documento original preparatório à conferência e também fez parte das recomendações entregues pela Confederação Nacional da Indústria aos atuais candidatos presidenciais.

Uma agência nacional com peso, recursos e legitimidade para alavancar significativamente o investimento em inovação é essencial para diminuir a pulverização de recursos, a burocracia, a morosidade da máquina pública e manter o foco de suas atenções onde é preciso.

Uma agência desse porte, criada a partir da fusão de instituições como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (Abdi), por exemplo, com orçamento renovado e representatividade institucional dada pela ligação estreita com os principais planos e metas da Presidência da República, pode ajudar o País a se conectar com o futuro.

Que as esperanças por um debate de qualidade sobre os alicerces de um novo Brasil não se frustrem mais uma vez.

COORDENADOR DO OBSERVATÓRIO DE INOVAÇÃO DO INSTITUTO DE ESTUDOS AVANÇADOS DA USP, É MEMBRO DO CONSELHO NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA

domingo, 11 de julho de 2010

O marechal Lott, Jânio Quadros e as eleições de 2010 – por Laerte Braga

Henrique Dufles Baptista Teixeira Lott foi um dos grandes vultos das Forças Armadas brasileiras. Entre outras coisas não se subordinava a Washington como boa parte dos nossos militares e tampouco tinha aversão ao processo democrático. Ao contrário. Impediu em 11 de novembro de 1955 um golpe dos “patriotas” contra a legalidade.

Ministro da Guerra, era como se chamava o Ministério do Exército, hoje abrigado como Secretaria dentro do Ministério da Defesa, evitou duas tentativas de Golpe contra o governo de JK e acabou candidato da coligação PSD/PTB à presidência da República em 1960.

Disputou as eleições contra Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo, e um terceiro candidato, Adhemar de Barros, uma espécie de Paulo Maluf da pré-história, também ex-governador de São Paulo.

Perdeu-as. Jânio foi eleito presidente por larga maioria de votos.

Lott não tinha boa oratória, as campanhas àquela época se sustentavam principalmente em comícios e, aliado a esse fato, Lott tinha a mania da franqueza. Da honestidade em suas palavras. Em suas propostas.

Jânio era um produto da demagogia, mero projeto pessoal de ditador. Renunciou numa manobra tragicômica esperando que o povo o reconduzisse ao governo com plenos poderes. Tudo sob efeito da “mardita” pinga. Candidato da UDN sem nunca ter sido udenista e de Carlos Lacerda, a quem usou até espremer e terminar espremido, não era necessariamente louco como diziam. Demagogo, interrompia comícios para tomar uma injeção de glicose (vivia bêbado), alegando que o cansaço na “luta pelo povo” o obrigava a “sacrifícios” que prejudicavam sua saúde.

Tinha o hábito de assistir filmes de western ao contrário, ou seja, do fim para o princípio. Achava interessante o bandido levantar-se e tomar um soco de John Wayne do que a ordem natural da cena: tomar o soco e cair.

O marechal Lott passou a campanha inteira advertindo aos brasileiros que Jânio levaria o País ao caos. Num dado momento, chegou a propor um pacto de unidade nacional em torno de uma candidatura única, no caso o general Juracy Magalhães, governador da Bahia, e que havia sido derrotado por Jânio na convenção da UDN.

Para que se possa ter uma idéia da personalidade do marechal Lott.

Em visita a uma cidade no interior de Minas, descia num automóvel para o centro da cidade, saindo do aeroporto, quando um eleitor de Jânio enfiou uma vassoura dentro do carro, pela janela e tentou atingi-lo. Lott mandou o carro parar e em meio a lottistas de um lado e janistas de outro, foi até o cidadão, tomou-lhe a vassoura, jogou-a no chão e disse com o dedo em riste: –“O senhor pode votar em quem quiser, é um direito que eu assegurei quando garanti a posse do presidente Juscelino. Mas o senhor respeite a mim e a democracia. Proceda como homem de caráter”.

Voltou ao automóvel sob aplausos de seus correligionários e silêncio dos janistas. Por sinal, Jânio perdeu as eleições nessa cidade.

Em muitas cidades que visitava, pouco antes de subir ao palanque, Jânio dirigia-se a um botequim estrategicamente escolhido, pedia um sanduíche de pão com mortadela, alegava falta de tempo para jantar, uma pinga e uma cerveja quente. Sentava-se à mesa com alguém que lá estivesse. Chegou a sentar-se no meio fio e com gestos teatrais ia comendo, bebendo e conversando com as pessoas.

Já ex-presidente, escreveu com Afonso Arinos (que se redimiu depois, pois era um homem inteligente e um político íntegro) uma enciclopédia da língua portuguesa. No lançamento no Rio de Janeiro, em 1967, almoçava no Clube Ginástico, no centro da cidade, presentes o próprio Arinos (fora seu ministro das Relações Exteriores), quando surpreendeu a todos, inclusive jornalistas, com seu pedido. Uma omelete simples, uma pinga especial e uma cerveja quente.

A surpresa maior veio depois. Foi recortando a omelete até dar-lhe a forma de uma suástica e sequer engoliu uma garfada. O que sobrou amassou com as mãos, formou um bolo e colocou fora do prato. Bebeu a pinga, duas ou três cervejas quentes e foi-se.

Segundo Foucault, “não há exclusão entre loucura e crime, mas sim uma implicação que os une. O indivíduo pode ser um pouco mais insano, ou um pouco mais criminoso, mas até o fim a loucura mais extremada será assombrada pela maldade”.

Referia-se, embora seja um conceito amplo, a Doucelin, conde D’Albuterree, que avocava a si a condição de herdeiro da coroa de Castela e que dizia falar com Deus todos os dias, além de receber a visita de Maria algumas vezes por semana.

O problema é que Jânio não rasgava nota de cem. Ao contrário, cultivou a fama de honesto e implacável na defesa do dinheiro público, enquanto ia guardando o “seu” em bancos suíços.

As advertências do marechal Lott se confirmaram e foram além. Com a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, depois de ter proibido desfile de miss com biquíni, briga de galo e imposto o slack como uniforme para os servidores públicos, militares brasileiros comandados por Washington se levantaram contra a posse do vice, João Goulart que se encontrava em missão na China, a pedido de Jânio. Queria-o longe à hora do “golpe”.

E uma das primeiras prisões feitas foi a do marechal Lott, que logo se pronunciou pela legalidade.

Jango acabou tomando posse, com a reação decisiva de Brizola. Mas os mesmos militares golpistas deram um golpe em 1964 e impuseram ao Brasil uma sombria e cruel ditadura sob controle dos EUA.

Outra vez, um ano após o golpe, impediram a candidatura de Lott ao governo do antigo estado da Guanabara, temerosos de que sua liderança acabasse por despertar a reação popular à quartelada. Como Lott fosse eleitor em Teresópolis, criaram a figura do domicílio eleitoral.

José Arruda Serra é uma versão abstêmia de Jânio Quadros. O que às vezes costuma ser pior. Quando secretário de Franco Montoro tinha mania de dar batida nos órgãos públicos do governo do Estado de São Paulo para verificar se havia desperdício de clips, elásticos e aparas de papel.

Jânio, quando candidato a prefeito de São Paulo pela primeira vez, chegou a colocar um boné de motorneiro e tentar dirigir um bonde. Nesse dia estava numa água só. E dava incertas (mas avisava a imprensa) em repartições públicas.

O curioso é que, morto politicamente, Jânio foi ressuscitado por FHC, em 1985, derrotando-o numa eleição para a mesma prefeitura de São Paulo. No dia da posse pendurou um par de chuteiras à entrada de seu gabinete para comunicar que estava encerrando sua vida pública.

José Arruda Serra é só uma versão abstêmia de Jânio Quadros. Demagogo, sem qualquer escrúpulo ou respeito pelo que quer que seja. É evidente que sendo abstêmio, ou seja o oposto, tenha manias do tipo desinfetar as mãos com álcool ao fim de uma sessão de cumprimento a eleitores, embora não sente em meio fio e nem coma sanduíche de mortadela. Mas usa o tal desinfetante bucal que protege por doze horas já que em campanha tem que beijar crianças.

Vale-se da sofisticação que as campanhas políticas ganharam nos dias atuais e que permite a demagogos como ele, Arruda Serra, vender um peixe que não existe.

É a velha alma udenista/golpista assombrando o Brasil (e olha que na UDN, creio que, por equívoco, havia figuras como Afonso Arinos, Adauto Lúcio Cardoso, Milton Campos e outros de caráter e integridade indiscutíveis).

A simples hipótese de um sujeito como Arruda Serra ser presidente da República (está cada dia mais difícil, mas todo cuidado é pouco) aterroriza.

É só olhar o governo de FHC e multiplicar por um fator que podemos chamar de muitas vezes pior e teremos o resultado.

Pior ainda que um bêbado como Jânio, projeto mambembe de ditador, é um abstêmio doentio e sem escrúpulos como Arruda Serra.

Tucanos são a UDN repetida como farsa e por isso mesmo, revestidos de cinismo.

No fundo seria um passo gigantesco atrás. Um retrocesso sem tamanho.

Lott continua tendo razão absoluta sobre os “jânios” que volta e meia aparecem.

Reside aí a grandeza do velho marechal. Ser brasileiro, ter compromisso com a democracia sem adjetivos.

Ao contrário de seu antigo adversário Jânio Quadros, que levou o País ao caos e da versão seca, José Arruda Serra, que intenta o mesmo.

E para não dizer que não falei de flores, nas eleições de 1960, quando as organizações GLOBO se limitavam ao jornal THE GLOBE, editado em português como O GLOBO, e a algumas emissoras de rádio, família Marinho apoiou Jânio Quadros.

Quem disse que o marechal Lott não tem nada a ver com as eleições de 2010 ?

A História não morreu. Está mais do que viva.

sábado, 10 de julho de 2010

O polvo dá sua opinião


Serra não administra nem sua agenda - por Luis Nassif

Conhece-se um bom gestor pela maneira como administra seu tempo. Quem não consegue administrar a própria agenda pode até ser bom estrategista, bom líder, mas gestor, definitivamente, não é.

Em dezembro descrevi o estilo Serra de gestão. Começava a trabalhar às 11 da manhã, geralmente fora do Palácio. Não mantinha reuniões periódicas com Secretários. Pouquíssimas vezes participou de reuniões inter-secretarias. Não tinha a menor idéia sobre o que cada secretaria estava produzindo - prova maior é o fato de, tendo a mais ampla exposição que a mídia já ofereceu a um governante, jamais ter conseguido passar a idéia sobre o que seu governo fazia. Suas libações noturnas provavelmente eram dedicadas a livros e filmes, dificilmente para estudar problemas administrativos do Estado.

Passou a imagem de bom administrador pelo estilo autoritário, de exigir providências - aliás, importante para quem administra a máquina pública. Mas nunca conseguiu organizar nem idéias, nem articular planos, nem dispor de acompanhamento das ações de secretários, para, aí sim, fazer exercer seu mando. E faltava algo fundamental para dar eficiência ao mando idéias claras para saber o quê e como decidir.

Quando ainda acreditava no potencial administrativo de Serra, sugeri que se inteirasse sobre planejamento estratégico, ferramentas de gestão. Sua resposta foi auto-suficiente, proporcional à sua insegurança interna: não preciso, porque faço acontecer. Quando encarar realidades mais complexas - respondi-lhe - você vai se perder.

Para ser um grande líder parlamentar - e Serra foi - bastava bons assessores acompanhando uma pauta restrita de assuntos e trazendo para ele o problema e a solução. Para gerenciar realidades complexas - como prefeitura e governo do Estado - não foi suficiente.

Mais: é absolutamente inseguro sobre sua capacidade de discernimento. Confrontado com qualquer evento que saia da rotina e que, principalmente, implique conflitos, trava. E não tem segurança sequer para juntar a equipe, ouvir as sugestões e arbitrar. Não soube como agir na greve da Polícia Civil, na crise da USP, no episódio das enchentes (sumiu de cena, não se soube de uma reunião de coordenação comandada por ele), no lançamento da sua candidatura, na escolha do seu vice, na reação à crise econômica global e - pela matéria do Estadão - é incapaz sequer de definir previamente sua agenda de candidato.

Essa é a razão de jamais ter rompido com o fernandismo: sabia de sua incapacidade de andar pelas próprias pernas e, por isso, sempre se escorou na visão mais pragmática de FHC sobre estratégias políticas. Seus arrufos contra o mercadismo de FHC - chegou ao cúmulo de estimular uma CPI contra o Ministro da Fazenda Pedro Malan - era muito mais para conseguir cacife para se credenciar junto ao pai FHC.

Não pensar estrategicamente, não ter capacidade de escolha são características pessoais, que se tem ou não tem. Mas valorizar o planejamento é uma questão central. Não se exige de nenhum governante conhecimento prévio, qualidades pessoais de gestor. Mas exige-se que valorize o gestor e o planejamento.

No entanto, Serra manteve o desmonte de toda estrutura de planejamento do Estado, uma jóia criada antes dos anos 80, com instituições como Cepam, Fundap, Emplasa, o corpo técnico da DERSA, do Metrô, sendo submetidos ao sucateamento inexorável.

Ou seja, nesses seis anos como executivo, Serra comprovou não ser gestor (não administra), não ser líder (não definiu uma bandeira clara sequer para sua tropa), não ser planejador, não valorizar o planejamento e as boas práticas de gestão e muito menos ter vocação de estadista (ambição de mudar a natureza do Estado).

Nas mãos de governadores com visão - como Eduardo Campos, Paulo Hartung, Aécio/Anastasia, Marcelo Deda, Jacques Wagner - São Paulo não seria mais a locomotiva do país: seria o avião a jato.

Do Estadão
Agenda vira o maior segredo da campanha

Julia Duailibi - O Estado de S.Paulo

O pior segredo da campanha presidencial de José Serra (PSDB) não é mais o nome do candidato a vice. Tampouco o plano de governo. Mas, sim, a agenda de compromissos do tucano.

Viagens, visitas e a participação em eventos têm sido definidas com poucas horas de antecedência. E, quase sempre, sem a confirmação de que ele, de fato, irá participar do compromisso.

Diante da pressão de políticos, anfitriões e imprensa, a equipe de Serra passou a divulgar a "agenda prevista" do candidato - que, na realidade, é quase sempre incompleta e imprecisa.

Na quarta-feira, o candidato a governador pelo PSDB, Geraldo Alckmin, teve de palestrar por mais de duas horas no Conselho Regional de Enfermagem para segurar a plateia até que Serra chegasse. O evento estava marcado para as 14h30, mas a presença de Serra foi confirmada uma hora antes dele aparecer, às 17h30.

Na própria quarta, já circulava a informação de que Serra iria ao Rio. A confirmação veio três horas antes da viagem. A caminhada em Bangu estava marcada para as 13 horas. O tucano chegou às 16 horas. "Agenda é assim mesmo. Há anos que faço campanha e é assim", disse a senadora Marisa Serrano (MS), que cuida da agenda do candidato.

Tucanos e integrantes da equipe dizem que é da personalidade de Serra definir o compromisso em cima da hora. Quando era governador, seus compromissos também eram divulgados pelo Palácio dos Bandeirantes com poucas horas de antecedência.

A senadora compila demandas e sugere a agenda em parceria com a assessora de Serra, Ieda Areias, que leva as informações ao tucano. E é ele quem dá a palavra final sobre os compromissos. A própria equipe do candidato recebe a informação em cima da hora. O time precursor, formado por cinco seguranças e assessor de imprensa, é muitas vezes acionado na madrugada.

Delegado do caso Bruno já incriminou inocentes – por blog do Nassif

FernandoX

Não que eu acredite na inocência desse Bruno. Pelo contrário, acho mesmo que ele tem culpa pelo desaparecimento da moça. Agora, acho importante lembrar a todos que esse delegado responsável pelo caso é o mesmo que, há alguns anos, esteve diretamente envolvido em uma armação para incriminar o jornalista José Cleves no assassinato de sua própria esposa, ocorrido em 2000.

Cleves fazia uma série de reportagens sobre a corrupção na polícia civil mineira. Mataram a mulher dele e lhe forjaram uma série de provas. Cleves chegou a ser preso, mas com muita perseverança conseguiu provar sua inocência.

Os verdadeiros culpados pelo crime, tanto contra a mulher quanto contra o jornalista, continuam trabalhando normalmente, como se vê agora no caso Bruno. O dramático livro de José Cleves, "A Justiça dos Lobos", conta o drama vivido pelo jornalista. Pesquisem sobre o assunto no Google e saibam vocês também quem são os indivídulos responsáveis pela segurança dos cidadãos em Minas.

Do Observatório da Imprensa
LEVES
Crime contra a liberdade de expressão
Marcelo Martins (*)

Estamos diante de um dos maiores crimes contra o ser humano e contra a liberdade de imprensa já vistos em toda história do Brasil. O jornalista José Cleves, que foi acusado de matar a própria esposa em dezembro de 2000, pode ser condenado injustamente, pagando por ter denunciado a "banda podre" da polícia mineira em diversas matérias publicadas pelo jornal Estado de Minas.

Estamos, nós, jornalistas mineiros, lançando uma campanha em defesa da liberdade de imprensa e em solidariedade a José Cleves.

A liberdade de expressão, garantida pelo Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, corre o risco de ser condenada em Minas Gerais. A acusação contra o jornalista José Cleves, de ter matado sua própria mulher, faz parte de uma armação, que só interessa àqueles que foram desmascarados pelas suas reportagens no Estado de Minas. Em sua atuação profissional, Cleves ajudou a desvendar grupos criminosos que atuavam em jogos clandestinos e na emissão de carteiras de habilitação falsas. Por sua coragem e compromisso com a informação, está pagando duplamente: primeiro por ter perdido sua mulher, segundo por estar sendo acusado, num inquérito cheio de falhas, para o qual não aceitam sequer uma perícia independente.

As acusações infundadas contra o jornalista José Cleves são um atentado à liberdade de imprensa, que deve ser denunciado em âmbito nacional e internacional. O primeiro passo para isto será dado no dia 7 de agosto, em depoimento à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O caso será apresentado pelo deputado federal Nilmário Miranda (PT-MG) que é membro e ex-presidente da Comissão.

Miranda estudou todo o caso e acredita que há fraude no processo de investigação e "por isso passa a ser um caso de direitos humanos".

José Cleves foi indiciado como autor do crime pelo delegado Édson Moreira em menos de 72 horas e pode ir a júri popular em uma condição contrária a sua absolvição, uma vez que toda a opinião pública foi levada a acreditar na versão do delegado. Édson Moreira foi à imprensa afirmando que o jornalista tinha assassinado a mulher e desprezou outros indícios que levavam à versão de assalto apresentada por José Cleves.

O deputado Nilmário Miranda acredita também que há um caso de abuso de autoridade e cerceamento à liberdade de imprensa, uma vez que o jornalista fez, nos últimos anos, matérias envolvendo policiais e políticos em casos de tráfico de pedras preciosas, venda de carteira de habilitação, bingo e caça-níqueis.

Na terça-feira, dia 31 de julho, vários jornalistas, personalidades e militantes de direitos humanos, além de políticos, fizeram no Sindicato dos Jornalistas o lançamento de um comitê em defesa do jornalista José Cleves e da liberdade de imprensa.

Nilmário espera que as investigações sejam reabertas com uma "perícia independente" e que os erros no processo sejam revistos, a fim de que os verdadeiros assassinos sejam presos.

(*) Assessor de comunicação do deputado Nilmário Miranda (PT-MG)


Carta do jornalista José Cleves ao deputado federal Nilmário Miranda, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados

Senhor deputado

Diante da injustiça, da execração pública, do arbítrio e do abuso de autoridade cometidos por policiais civis de Minas contra a minha pessoa, ao ser transformado de vítima de um assalto em "assassino cruel" de minha própria mulher, mãe de meus cinco filhos, venho esclarecer o seguinte:

O fato

– No dia 10 de dezembro/00 (domingo), por volta das 20h, retornava com a minha mulher Fátima Aparecida de Abreu Silva do Shopping del Rey, região noroeste de Belo Horizonte, quando fui abordado por dois homens no bairro Camargos. Eles entraram no carro – um deles armado com um revólver – e mandaram tocar para um local ermo, onde ordenaram que eu parasse o veículo. Roubaram R$ 500,00 em dinheiro. Um deles deu um bote na minha mulher para roubar o aparelho celular que caiu. Ela foi executada friamente com três tiros;

– Acionei imediatamente a polícia. Diante do aparato policial, ofereci-me para depor na mesma noite, na expectativa de que a minha colaboração pudesse resultar na prisão dos ladrões naquele mesmo dia;

– Fui ouvido e submetido a exames residuográficos, como é de praxe;

– No dia seguinte, a minha colega Adriana Kfoury recebeu um telefonema anônimo dando conta de que os criminosos pertenciam à quadrilha de um tal de Dinei. A denúncia foi repassada à Secretaria de Segurança Pública;

– Para maior isenção das investigações, já que sou um repórter da área policial e autor de várias matérias perigosas, pedi ao Ministério Público que indicasse um promotor para acompanha o caso.

O indiciamento

– Na terça-feira fui surpreendido com a notícia de que seria indiciado pelo delegado Édson Moreira, então chefe da Divisão de Crimes contra a vida de BH, como autor do crime. O indiciamento tinha como base a localização de um revólver calibre 38 nas proximidades do local do assalto. Arma essa que pertencia ao cabo Natalício Ramos, do serviço secreto da PM;

– Menos de 72h após, fui indiciado formalmente. Eu teria comprado a arma do militar, foi o argumento do delegado. O proprietário da arma não apresentou, contudo, provas dessa negociação. Disse apenas que eu encomendei o revólver que foi "vendido" para um homem que o militar não sabia o nome, o apelido, o endereço, o telefone, enfim, uma negociação sem testemunhas e recibos, embora a arma fosse registrada em seu nome;

– De fato entrevistara o militar em novembro, numa empresa de caça-níqueis, onde ele trabalhava. Foi na presença de várias pessoas, sobre o comércio ilegal de armas. Sabia, inclusive, que estava sendo filmado pelo sistema de circuito interno da firma e relatei o sucedido ao repórter fotográfico Jair Amaral, que me acompanhava no momento. Matéria essa, aliás, divulgada no dia do crime. Investigava o assunto há vários dias sob encomenda do jornal. Ouvi várias pessoas, principalmente policiais. O fato era do conhecimento do general Rômulo Pereira, comandante da 4ª Divisão do Exército, a quem enviei um ofício pedindo informações sobre o verdadeiro arsenal da Polícia Civil e Militar. Queria saber quem estava armando a marginalidade e como isso vinha ocorrendo.

– Meus argumentos foram ignorados pela polícia, assim como a pista que levava ao tal Dinei;

– Atento às falhas da Polícia, o Sindicato dos Jornalistas entregou ao governador Itamar Franco um manifesto de protesto contra o meu indiciamento; o documento pedia, ainda, uma perícia independente para acompanhar o caso; meus colegas de redação relacionaram as principais matérias que fiz nos últimos cinco anos, todas elas denunciando a corrupção policial e a omissão das autoridades;

Sem provas

– Após o indiciamento em tempo recorde, o delegado Édson Moreira partiu em busca das provas. Não encontrou motivação, testemunhas e muito menos provas técnicas e científicas para sustentar a acusação. Os exames residuográficos (Laudo 12.495/00) realizados no meu corpo e o de balística (4316/00) foram negativos. O teste de disparo com a arma (12.591/00), contudo, foi positivo no primeiro disparo;

– Tive a minha vida pregressa rebuscada, com os policiais investigando-me dia e noite, durante mais de 30 dias. Nada encontraram que pudesse incriminar-me;

– Mudei-me para a casa de minha sogra, onde passei a morar com os meus cinco filhos que, juntamente com a minha família e a de minha mulher, deram-me forças e moral suficientes para continuar lutando pela minha inocência. Tive apoio irrestrito de meus colegas de redação e da diretoria do jornal Estado de Minas que desde o dia do assalto confiou na minha inocência . A empresa contratou o advogado dr. Marcelo Leonardo, presidente da OAB/MG, para fazer a minha defesa.

A armação

– No fechamento do relatório, o delegado Édson Moreira surpreendeu-me ainda mais, com a notícia de que havia uma luva. O laudo do Instituto de Criminalística 010 00232 apresentava uma foto patética de um revólver sobre uma luva, como se fosse possível a um criminoso dispensar os dois objetos simultaneamente a uma distância de mais de 50 metros, e um cair sobre o outro. Na legenda, omitiram a luva numa tentativa de enganar a Justiça, citando-a apenas no bojo do laudo;

– Os exames na luva (Laudo 12.895/00), contudo, não apresentavam pólvora (esqueceram desse detalhe). Não havia também auto de apreensão da luva no inquérito;

– Era, na verdade, uma armação ou um complemento da armação inicial, a do depósito do revólver no mato. Assinaram o laudo os peritos Robson Sangiorgi, Luíza Valéria de Abreu Maia e Ângela Romano;

– Quero registrar aqui a comunicação de serviço do delegado Édson Moreira, expedida na manhã do dia 12, onde ele determina que seus policias "procedam o rastreamento da arma do crime" e, noutro parágrafo, pede a intimação "do sr. José Cleves para prestar esclarecimentos..." Algo premonitório, pois, não é que os seus detetives "encontraram" horas depois a arma e, no final do dia, eu já era o "autor do crime"? Outro detalhe: observando-se os anexos fotográficos 13/15 e 14/15 do laudo pericial que mostra o revólver sobre a luva, verifica-se que a arma foi colocada na posição contrária à do local de seu arremesso. São, sem dúvida, provas inequívocas da fraude.

A execração

– Com os laudos guardados a sete chaves, o delegado partiu para a execração pública, tendo como aliado o fato de que a mídia de nada sabia o que de fato vinha acontecendo. De acusado, como seria de praxe um indiciado, passe a ser chamado de "criminoso, assassino frio e cruel". Talvez apavorado pelas suas próprias contradições, o delegado se perdeu em suas declarações metafóricas. Como a luva não tinha pólvora o policial passou a dizer que o revólver (que segundo apurou a Justiça tem mais de cinco anos de uso) era novo e que por isso só soltava pólvora no 10º disparo (no que foi também desmentido pelo laudo do IC); sobre as motivações, como não tinha nenhuma, foi o delegado ainda mais infeliz: disse que eu matei para vender livros e também com a ajuda dos meus filhos;

– O noticiário execrou-me de tal forma em todo o país que ficou difícil qualquer explicação contrária à polícia. Não tive a mínima chance de defesa. Estava acuado. Só vim a conhecer as "provas" após a remessa dos autos para a Justiça;

– Foi quando tomei conhecimento de como ocorreu a farsa;

A verdade

– De licença remunerada no jornal, reuni os meus dois filhos mais velhos (de 17 e 18 anos) e os colegas de profissão mais próximos. Iniciamos uma investigação paralela, partindo da primeira denúncia que apontava para o tal Dinei;

– Localizamos a quadrilha na Delegacia de Homicídios de Contagem. Era chefiada por Sidney Alves Magalhães, o Dinei; pedi ao delegado João Lisbôa que mostrasse a foto da gangue e apontei uma delas, a de Jucilei Ramalho Teles, 20 anos, como sendo o autor dos disparos. As características físicas e fisionômicas eram as mesmas. Ele me lembrava um pouco o ex-jogador Amaral;

– Jucilei, contudo, já não existia mais: foi assassinado no dia 11 de janeiro, portanto um mês após o assalto;

Ele teria sido executado por Dinei e o comparsa Eliezer Ramos de Andrade, o Bola, que reconheci através de fotografia como sendo supostamente o parceiro de Jucilei no assalto;

– O preso Carlos Alberto, o Beto, teria revelado que após a morte de Jucilei a mãe deste foi até a delegacia cobrar da polícia o crime; ela acusou os matadores de seu filho, Bola e Dinei, de terem "matado a mulher do jornalista que está pagando pelo crime inocentemente".

– O depoimento de Beto foi gravado e entregue à Justiça. Também entreguei à Justiça o depoimento gravado das testemunhas que presenciaram a polícia apreendendo a arma, onde, segundo elas, "não havia nenhuma luva no local";

– O taxista Rogério Márcio Carvalho aparece dizendo que viu o assalto; seu depoimento foi gravado e também entregue à Justiça;

– O processo vem sendo instruído pelo juiz sumariamente do 1º Tribunal do Júri de Belo Horizonte, Edwal José de Morais, e aguarda diligências pedidas pelo promotor Guilherme Pereira Vale.

Meu apelo

– Considerando a gravidade dos fatos, por se tratar de uma FRAUDE cometida por um delegado e três peritos, possivelmente com a conivência de outros companheiros para incriminar uma pessoa inocente;

– Levando-se ainda em consideração que essas fraudes tinham como objetivo encerrar a minha carreira de quase 30 anos de repórter que a tudo denunciava (e continuarei denunciando) em nome da verdade;

– Temendo pela impunidade dos reais assaltantes e receosos ainda mais pela impunidade dos policiais envolvidos na fraude, que continuam exercendo as suas funções normalmente,

Recorro a essa comissão de direitos humanos para o total esclarecimento dos fatos e as providências de praxe.
Atenciosamente,
Belo Horizonte, 11 de julho de 2001
José Cleves da Silva


Do Portal Imprensa
1/9/2008

STJ absolve o jornalista José Cleves e arquiva processo
Redação Portal IMPRENSA

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) absolveu na última quarta-feira (27) o jornalista José Cleves da Silva, acusado de matar sua esposa em 2000. O órgão - que também determinou o arquivamento do processo - confirmou as sentenças de primeira e segunda instâncias.
No dia 10 dezembro de 2000, Fátima Aparecida de Abreu Silva foi assassinada em Contagem, cidade próxima a Belo Horizonte (MG). A versão de Cleves é que os dois foram vítimas de assalto e que, durante o roubo, um dos criminosos atirou em Fátima. O jornalista acabou indiciado pela Polícia Civil, acusado de matar a mulher por desentendimentos familiares.

Conhecido por denunciar corrupção policial em suas reportagens, Cleves alegou ter sido vítima de uma armação da polícia, tese aceita pelo I Tribunal do Júri do Fórum Lafayette, em Belo Horizonte. O Ministério Público recorreu da sentença no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG), que também absolveu o jornalista. Por fim, o processo foi arquivado pelo STJ.
'Foi um peso que saiu da minha cabeça. Em oito anos, esse caso fez um estrago na minha vida'. "Tinha certeza que a Justiça não ia falhar, porque sou inocente", declarou Cleves ao jornal O Tempo.

Ele explicou que a absolvição só ocorreu porque conseguiu provar que a arma foi plantada na cena do crime. 'O estado também tinha obrigação de investigar o assalto, mas nunca investigou, porque essa versão não interessava à polícia', afirmou.

José Cleves quer reparação moral e material das arbitrariedades que sofreu da Polícia

O jornalista José Cleves da Silva, que teve o seu caso encerrado dia 27 no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no rumoroso processo de crimes praticados contra a liberdade de expressão no País, deverá buscar a reparação dos danos morais e materiais sofridos em decorrência da armação policial que o transformou de vítima de um assalto, que resultou na morte de sua mulher, em autor do crime, numa fraude que tinha como objetivo interromper as suas denúncias contra a corrupção policial nas páginas do jornal Estado de Minas. Quinta-feira, dia 4, José Cleves tem um encontro com o advogado Marcelo Leonardo.

A esposa Fátima Aparecida foi assassinada durante um assalto no dia 10 de dezembro, por dois ladrões, quando o casal retornava de um Shopping da região noroeste de Belo Horizonte. Cinco dias após, o repórter foi indiciado como autor do crime, com base na localização de um revólver calibre 38 colocado nas proximidades do local do assalto para incriminá-lo.

O repórter era, à ocasião do crime, três vezes consecutivas finalista do Prêmio Esso de Jornalismo com reportagens denunciando a corrupção policial na capital mineira. Um manifesto encabeçado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de MG exigia uma perícia independente para o caso e a investigação do assalto.

Perseguição - O Caso Cleves foi parar também na Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara dos Deputados e da Assembléia Legislativa de MG, com os parlamentares reiterando o apelo dos jornalistas para o encerramento do processo, pela profusão de provas comprovando a sua inocência.

Ainda assim, a polícia continuou perseguindo o repórter, inclusive com investigações paralelas do caso, mesmo após a remessa dos autos à justiça. Uma fita de vídeo contendo as denúncias da polícia no Fantástico da TV Globo do dia 21 de janeiro de 2001 foi anexada aos autos e exibida no julgamento, mas não convenceu os jurados que absolveu o réu à unanimidade.

Todos os recursos impetrados pelo MP na tentativa de anular o julgamento foram negados à unanimidade pela Justiça. No último, protocolado no STJ, a própria Procuradoria da República pediu ao ministro Nilson Naves que ele fosse negado por falta de fundamento.

Com a decisão do STJ, o Caso Cleves vai para a história da crônica policial mineira como um dos maiores crimes praticados contra a liberdade de expressão no País. Cleves é autor do livro Distrito Zero, que narra a execução de jornalistas durante a ditadura militar. Atualmente ele divide a sua função de editor do jornal Nova Lima Times, de Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com palestras em universidades e artigos para revistas especializadas..

Ao comentar sobre a decisão do STJ, José Cleves disse apenas que vai agora refletir sobre o que fazer. "Foram quase oito anos de tortura que finalmente chega ao fim; tenho um encontro com o meu advogado, Marcelo Leonardo, dia 4, quando vamos estudar o encaminhamento do caso daqui para frente", resumiu o jornalista, que é pai de cinco filhos, todos eles menores à época do assassinato de sua mulher.


Comentário
Postei este mais para exemplificar o caso do ataque a liberdade de expressão (frise-se, apoiado por alguns meios de expressão – como historicamente ocorre).
Não sei se é o caso, mas também é notório o corporativismo da polícia. Daí entende-se a permanência de policiais imprestáveis na corporação.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pedágio derruba mais um jornalista da TV Cultura – por Luis Nassif

Há uma semana, Gabriel Priolli foi indicado diretor de jornalismo da TV Cultura.

Ontem, planejou uma matéria sobre os pedágios paulistas. Foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. Tentou-se ouvir a Secretaria dos Transportes, que não quis dar entrevistas. O jornalismo pediu ao menos uma nota oficial. Acabaram não se pronunciando.

Sete horas da noite, o novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello, chamou Priolli em sua sala. Na volta, Priolli informou que a matéria teria que ser derrubada. Tiveram que improvisar uma matéria anódina sobre as viagens dos candidatos.

Hoje, Priolli foi demitido do cargo. Não durou uma semana.

Semana passada foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do Roda Viva devido às perguntas sobre pedágio feitas ao candidato José Serra.

Para quem ainda têm dúvidas: a maior ameaça à liberdade de imprensa que esse país jamais enfrentou, nas últimas décadas, seria se, por desgraça, Serra juntasse ao poder de mídia, que já tem, o poder de Estado.

O problema dos ex – por Marcos Coimbra (Carta Capital)

Poderíamos aprender com os americanos a lidar com os que ocuparam a Presidência da República. Lá eles não incomodam

Um dos problemas brasileiros (certamente não o maior) são nossos ex-presidentes. Vira e mexe, um deles causa algum embaraço. Fala o que não deve, se comporta de maneira inconveniente, dá maus exemplos.

Poderíamos aprender com os americanos a lidar com eles. Lá, faz tempo que não incomodam. Os contribuintes pagam para que não sejam forçados a lutar pela sobrevivência, lhes dão um gordo estipêndio e provêm a todos de amplas condições para que se dediquem a fazer nada.

Ficam à frente de suas fundações, disponíveis para missões humanitárias, participações esporádicas no debate público e, se tiverem aptidão, enriquecer no circuito internacional de palestras e consultorias. Os que terminam bem seus mandatos, como Bill Clinton, continuam a merecer o carinho de todos. Os que não, somem (como o último Bush).

Por aqui, quanta diferença! José Sarney zelava pela liturgia do cargo até no corte de seus jaquetões. Se tivesse o mesmo cuidado com verbas públicas e nomeações depois que saiu do Planalto, ninguém reclamaria dele. Fernando Collor era tão jovem e ficou tão pouco tempo no cargo que era natural que quisesse disputar outras eleições. O que não precisava é que fossem tantas, desde projetos bizarros como a prefeitura de São Paulo, ao de agora, de mais uma tentativa de voltar ao governo de Alagoas. Nessa vontade de permanecer a todo custo na vida política, Itamar Franco se parece com ele. Já foi governador de Minas Gerais e, neste ano, pretende ser senador outra vez, mesmo sabendo que o tempo passa para todos.

Ainda bem que os presidentes-ditadores tiveram a boa educação de morrer. Dá para imaginar o que seria se tivessem a longevidade de um Oscar Niemeyer? Contando todos, inclusive os três da Junta Militar, até seis poderiam estar vivos, dois (Geisel e Figueiredo) provavelmente. Quantas conspirações e articulações não estariam fazendo!

E Fernando Henrique? O mais recente e mais ilustre?

Faz tempo, mas FHC já foi considerado o mais importante cientista social do País. Todos gostavam dele, alguns com a exuberância de Glauber Rocha, que o chamava de “príncipe da sociologia brasileira”. E não era só no Brasil que tinha renome. Era respeitado internacionalmente, autor de livros que marcaram mais de uma geração.

De quem esperar uma atuação notável como ex-presidente senão daquele que mais se distinguira antes de assumir o cargo? Com sua biografia, era natural esperar que estabelecesse o padrão para seus sucessores. Depois dele, todos saberiam o que era ser um ex-presidente da República.

Semana passada, Fernando Henrique publicou mais um artigo, como tem feito com frequência nos últimos meses. É sua maneira de intervir no debate sucessório, pois a campanha Serra vê com preocupação qualquer movimento seu de maior aproximação. Ela já tem problemas de sobra com a administração da imagem negativa do ex-presidente e não quer que o candidato seja ainda mais identificado com ele.

No texto, intitulado “Eleição sem maquiagem”, FHC realiza uma proeza de malabarismo intelectual: consegue ser, ao mesmo tempo, um sociólogo que abdicou da sociologia e um ex-presidente que não governou.

Chega a ser fascinante ver como descreve os graves riscos que confrontam hoje o Brasil, aos quais o governo Lula estaria respondendo com uma atitude de otimismo irresponsável: “Tudo grandioso. Fala-se mais do que se faz”. Para ele, “a encenação para a eleição de outubro já está pronta. Como numa fábula, a candidata do governo, bem penteada e rosada, quase uma princesinha nórdica, dirá tudo o que se espera que ela diga, especialmente o que o mercado e os parceiros internacionais querem ouvir”.

O comentário é misógino, pois ele nunca se referiria a questões de aparência se o PT tivesse um homem como candidato (por mais vaidoso e preocupado com a aparência que fosse) e não uma mulher. Seu tom choca quem conheceu o Fernando Henrique sociólogo, sempre progressista.

Mas o mais extraordinário é ver como apagou da memória o que foi seu governo e as duas eleições presidenciais que ganhou. Será que esqueceu de como aconteceu sua primeira vitória, uma avalanche provocada pelo Real- lançado 90 dias antes, naquela que foi a eleição onde fatores não políticos mais interferiram no resultado? Será que não lembra como foi a reeleição, escorada em um câmbio artificialmente mantido pelos “parceiros internacionais”, que estourou três meses depois da apuração dos votos?

É ótimo que proponha eleições sem maquiagem. Mas é impossível levá-lo a sério, enquanto não estiver disposto a enfrentar suas verdades. Como ele mesmo diz: assumir a responsabilidade pelo que fez e deixou de fazer, mais do que falar.