sábado, 17 de março de 2018

Xadrez e o fator detonador com Marielle - por Luis Nassif (Jornal GGN)

Seja quem forem os responsáveis diretos pelo assassinato de Marielle, entra-se em novo patamar da dissolução do Estado brasileiro.
Etapa 1 – plantando o ódio
Os anos sucessivos, começando antes do “mensalão”, das matérias diuturnas plantando e irrigando o ódio irracional contra o governo Lula, com factoides sobre venezuelização, cubanização, tapiocas e outros recursos conhecidos, o que passou a ser chamado, agora, de fakenews.
Alimentamos o antipetismo, Lula perde as eleições e tudo volta ao normal.
Etapa 2 – o “mensalão”
A entrada no jogo da Procuradoria Geral da República (PGR) e do Supremo Tribunal Federal (STF) como agentes políticos, montando a tese da “organização criminosa” em cima de uma fraude: o suposto desvio de recursos da Visanet, que jamais ocorreu.
Como alertamos na época, tinha-se, descoberto, ali, a fórmula da desestabilização política do PT. Dilma e o PT descobriram essa novidade, alguns meses após o impeachment. O pacto democrático da Constituição de 1988 começa a ruir. O desfecho é adiado pelo desempenho imprevisto de Lula na crise econômica global de 2008.
Etapa 3 – a Lava Jato
O aparato repressivo retoma o protagonismo, alimentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e todos os pecados são perdoados, desde que contra o inimigo correto. Nessa etapa, todos os princípios civilizatórios, de direitos individuais, de respeito aos ritos processuais, tudo vai por água abaixo, mas ainda contra alvos definidos. Sem problema. Como declarou o Ministro Luís Roberto Barroso, há a necessidade de medidas de exceção para situações de exceção.
Mas depois que Lula e o PT forem anulados, tudo volta ao normal.
Etapa 4 – o impeachment e o pós
O clima de ódio é potencializado e há um liberou geral no Judiciário, Ministério Público Federal e Polícia Federal. Inaugura-se um vale-tudo em que todos os abusos são permitidos e todos os oposicionistas se sentem ameaçados. Qualquer promotor, delegado ou juiz de 1ª instância se vê com autoridade para ordenar conduções coercitivas, prisões temporárias.
Os piores sentimentos vêm à tona, as demonstrações mais estapafúrdias de ignorância boiam que nem dejetos no esgoto. E ainda não se está falando em Bolsonaro e companhia, mas na promotora de Campinas que se declarou “indignada” com um seminário sobre maconha e denunciou o cientista consagrado. Simples assim: sentiu-se indignada e do alto da sua ignorância, fez valer sua autoridade. Ou a juíza e a delegada que levaram o reitor ao suicídio. Ou os bravos desembargadores do TRF4, aparentados com os sobrinhos do Pato Donald, aqueles que tinham tanta afinidade que um completava a fala do outro. A mídia não poderia condenar os abusos, até escondeu o episódio chocante do suicídio do reitor, porque poderia enfraquecer a maratona pela condenação de Lua.
Mas depois que Lula for condenado, tudo volta ao normal.
Etapa 5 – o assassinato de Marielle
E aqui se ingressa em um fator detonador, independentemente de quem seja os responsáveis diretos, se as milícias da PM ou milícias de ultra-direita. Por fator detonador se considere os tiros com que Gravilo Princip executou o arquiduque Francisco Fernando, levando à Primeira Guerra; a morte de Walther Rathenau, que desmontou a Republica de Weimar; a morte de João Pessoa que detonou a Revolução de 30 e a do Major Rubem Vaz, que levou ao suicídio de Vargas. Ou, ainda, a morte do estudante Edson Luis que expôs a violência que já vinha sendo praticada pela ditadura e inaugurou a nova etapa da repressão..
Peça 2 – o processo de desmanche
Quando se disseminou a repressão, no período do impeachment, gênios jornalísticos minimizavam: é muito diferente da ditadura, que matava e torturava pessoas. Era óbvio que aquele momento representava, como num filme, o período 1964-1968, que precedeu o AI-5. Não se preocuparam com os alertas que mostravam a lógica que sucedia períodos de tolerância com o arbítrio e o ódio. A Noite de São Bartolomeu passou a ser praticada em etapas.
Em 1963 nasceu o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), no bojo da campanha de ódio alimentada pela mídia. Depois de 1968, eles se limitavam a quebrar teatros e espancar artistas e estudantes. Nos porões, torturavam-se e matavam-se pessoas. E militares planejavam atentados de grandes extensões. Todos esses processos nasceram da mesma árvore do ódio plantado.
Tempos atrás fui a uma pacata cidade do interior. Lá, em conversas familiares, um jovem casal, de família temente a Deus, sem histórico de violência, falava da sua vontade de ver Lula morto. A campanha sistemática de ódio, a irracionalidade plantada em suas cabeças, faziam-nos, pessoas incapazes de fazer mal a um bicho, entender como natural – e necessária – a morte de uma pessoa! A mídia conseguiu naturalizar o ódio no Brasil.
Hoje em dia, é um sentimento generalizado, que se espalha por todas as regiões do país e que, até agora, tinha em Bolsonaro e sua tropa sua mais grotesca expressão. Com a execução de Marielle entra-se em uma nova etapa na qual a doença social plantada pela mídia poderá resultar em loucuras maiores do que discursos de ódio nas redes sociais, tempos de terremotos e furacões, que podem preceder a entrega do poder a Bolsonaro e sua “bancada da metralhadora”. Ele, aliás, evitou comentar a tragédia de Marielle, para não expor o que pensa.
E quem vai segurar essa onda? A indignação retardatária da velha mídia? Certamente não a PGR Raquel Dodge, uma burocrata "apparatchik", subproduto da corporação, sem qualquer brilho ou luz própria, só frases obvias, ultra burocráticas "mandei instalar um procedimento em meu gabinete”.
Personalidades opacas e sem qualquer brilho no STF, na PGR, no Senado, uma organização barra-pesada no Executivo. E completa-se o mapa com os últimos dados econômicos, a queda geral do nível de atividade do setor de serviços em relação a qualquer período do ano passado, desmontando definitivamente a fábula da recuperação irresponsavelmente vendida por Henrique Meirelles e endossada pela Globo.
Tudo isso com as eleições a caminho. Mas não tem problema.
O Lula vai preso, o PT perde e tudo volta ao normal.

Por um tempo acreditei que a perspectiva do desastre promovia a volta à racionalidade. De 2005 – quando a mídia iniciou essa loucura – para cá, todas as esperanças de uma saída racional foram jogadas fora.

Alpes de Algovia, Bavária, Alemanha - por Fabian Krueger (Fotografia - site homônimo)

Marielle e “a maldade de gente boa”, por Pedro Camilo (Revista Nice)

“Gente boa”, “gente honesta”, “homens e mulheres de bem” – assim se define uma categoria de ser humano que tem a especial capacidade de se tornar insensível a uma grande parcela das misérias que se abatem sobre a sociedade, sobretudo as que nem de longe podem atingi-lo.
É essa “gente boa” que diz que racismo é vitimismo exagerado de um bando de negros que insiste em negar o fim da escravidão; que mulheres só sabem reclamar, ao invés de compensar suas “fragilidades” com mais trabalho para “se igualarem” aos homens; que “desceu dos tamancos” quando as leis trabalhistas conferiram maiores direitos a empregados domésticos, afetando seus seculares privilégios; que comemoraram todas as restrições e diminuição de direitos, aquelas que foram injustas, que a reforma trabalhista de 2017 implantou no Direito do Trabalho pátrio; que defende, mesmo sob vara, que corrupção é um problema partidário, e não sistêmico, e que as agruras do Brasil se devem a uma década de espoliação, e não a quinhentos anos de “tenebrosas transações”; que fala em “orgulho hétero”, em “perseguição ao homem branco”, em “ideologia de gênero”, em “violação do sagrado instituto familiar” e em meritocracia; que ignora que a história dos poderes constituídos é uma história de “abuso de poder”, que tem respondido por injustiças profundas e pelo caos em que surpreendemos setores como educação, saúde e segurança; que defende, dentre outros, que seres humanos “justos e honestos” – a gente boa! – tem todo direito, sim, de exterminar os seres humanos “injustos e desonestos” – a gente má! –, como se fosse possível reduzir a vida a um maniqueísmo infantil e bisonho.
Essa “gente boa”, espalhada por todos os cantos, tem festejado a morte da vereadora Marielle de muitos modos, sustentando argumentos sofríveis, do tipo “ontem morreu uma médica branca num assalto e o país não parou”, “Freixo, vai defender os bandidos que mataram sua amiga”, “isso é o que dá se meter com gente ruim”, “quem procura, acha”, “defendia bandido e foi morta por eles”.
Desrespeitosa, cega por opção, incapaz de um mínimo de empatia, essa “gente boa”, grande parte da qual se diz cristã (sic), que diz defender “a vida, a moral e os bons costumes”, não percebe o recado eloquente e acintoso que a execução de uma ativista social, negra, de origem pobre, uma das mais votadas vereadoras da terceira economia do País, que está sob intervenção militar e sob os olhares atentos de todo o mundo – essa “gente boa”, repito, não percebe o recado que uma execução dessas representa e que o Capitão/Coronel Nascimento, aquele do “Tropa de Elite”, ainda hoje reverbera: “O sistema é foda!”, e ai daquele que ouse ultrapassar os curtos limites por ele fixados…
Marielle foi morta não pelos “bandidos que defendia”, mas pelos “bandidos que combatia”. Ela foi vítima de um sistema corrompido, consumido pela corrupção, que tem bandidos vestidos de heróis (não todos, por óbvio, mas uma parcela infelizmente significativa e virulenta) e que, sem qualquer escrúpulo, é capaz de tudo para que “tudo continue como está”. Ela foi morta por aqueles que, colocados do “lado bom” da história, se dizem defensores dos “humanos direitos” em detrimento dos “direitos dos manos”. Ela foi morta por aqueles que praticam todo tipo de bandidagem sob o pretexto de proteger “a gente boa” dos bandidos – quando eles também são bandidos altamente perigosos!
Essa “gente boa”, na verdade, é o símbolo de um “ser humano sofrível”, como diz meu amigo, Prof. Urbano Félix. Uma gente cheia de ódio, que se ressente da extinção de todos os privilégios que já perdeu, que não deseja ver a ascensão de quem sempre foi ralé, que acredita num determinismo social, que acha que “direitos humanos” é um cara barbudo ou uma mulher cabeluda que quer proteger os maus em detrimento dos bons.
“Deus me defenda […] da maldade de gente boa”, já cantou Chico Cesár. Que me defenda, sim, dessa maldade que se traveste de honestidade e indignação e que, no fundo, apenas revela o quanto são sofríveis os valores e os ideais desses seres que insistem em serem chamados de humanos – os tais “humanos direitos”…

Fotografia - por O mundo e suas belas imagens (Facebook)

Yes, nós temos Petróleo! – por Leonardo Guerra (Jornal GGN)

Em 2018, o Brasil caminha para mais um grande saldo comercial, com várias implicações positivas, em especial, para o fechamento das contas externas. E o Petróleo ajudará, e muito, a colher este resultado. No primeiro bimestre, foram exportados 3,62 bilhões de “óleos brutos de petróleo”, 11% da pauta brasileira. Para efeito de comparação, os minérios contribuíram com 8,1% da pauta e a soja, 4,9%, para citar os principais neste começo de ano. A Conta Petróleo teve um superávit de US 887 milhões no primeiro bimestre.
Com certeza, há mais um bem primário para melhorar nossas contas externas, o que contrapõe, nos fluxos totais, nossa grande dependência tecnológica em relação ao mundo. A economia brasileira segue seu caminho de grande importador de bens e serviços de maior valor agregado. E sempre precisando exportar mais e mais produtos primários para equilibrar o “´déficit de conhecimento”. Mas o petróleo, extraído em condições adversas é agora uma grande novidade, pois pode nos permitir um equilíbrio cambial até então inimaginável.
A conta petróleo já acumula dois anos seguidos de superávit, com tendência de crescimento. Porém, ao invés de tambores rufarem pela soberania conquistada, pela perspectiva de crescimento sem fragilidade cambial, percebemos que há outra comemoração em curso, “overseas”, de um bilhete premiado que está passando para outras mãos. Isto porque estão silenciosamente alterando as regras de exploração dos novos campos.
Hoje o Brasil possui a 15º maior reserva comprovada de Petróleo do Mundo: 16,2 bilhões de barris, 1% das reservas globais. Começamos o Século XXI com prospecções que apontam para mais petróleo e menos fragilidade cambial, mas pouco falamos disto.
Mesmo com a economia do baixo carbono abrindo as portas de um novo tempo, o hidrocarboneto ainda será a principal fonte energética por muitos e muitos anos, com crescentes volumes de negócios na prospecção, exploração, transformação e comercialização de uma extensa lista de produtos. Produtos básicos, como óleo brutos; produtos refinados, como gasolina, plásticos e fertilizantes; e também produtos sintéticos de alta complexidade e de consumo crescente, como nylon e outros tecidos e materiais nanotecnológicos.
A economia do petróleo ainda vai alavancar uma extensa lista de atividades industriais: a indústria naval, a siderúrgica, a metalúrgica e a de bens de capital. Para um país com a taxa de desemprego beirando os 15%, pode ser uma excelente alternativa de ocupação. A revolução energética que o petróleo promove ainda não está no fim, e muito temos para aproveitar, desde que entendemos o que podemos ganhar com isto. O Brasil tem uma indústria que é competitiva neste setor e que está com grande capacidade ociosa.
Por isto, é oportuno lembrar que, em 1974, Celso Furtado escreveu para a CEPAL seus “Ensaios sobre a Venezuela: subdesenvolvimento com abundância de divisas”. Sem querer entrar em maiores detalhes, o ensaio apontava dois caminhos possíveis para a Venezuela naquele momento: seguir consumindo bens e serviços importados sem se preocupar com o futuro; ou construir uma visão de longo prazo para transformar as divisas do petróleo em investimentos: rede de saúde, sistema de ensino universal,  infraestrutura de transporte e o desenvolvimento de uma base industrial diversificada.
Hoje, é visível os resultados da miopia que acometeu os venezuelanos. As divisas são finitas e a ausência de uma base econômica diversificada deixa o país (e sua população) em situação vulnerável, dentre outros motivos.
Este é um caminho muito diferente do que foi seguido pela Noruega, por exemplo, que construiu uma lógica de diversificação econômica, de melhorias de condições de vida que hoje lhe posiciona no primeiro lugar do ranking mundial do IDH.
As rápidas mudanças que este “governo” promove na gestão da Petrobrás e as alteração das regras de exploração do pré-sal, causam preocupação para quem pensa que soberania é um aspecto fundamental para a construção uma nação. Com o pretexto de blindar a Petrobrás, estão aniquilando o interesse público e colocando em risco nossa soberania.
Guardadas as devidas proporções, com relação ao petróleo, estamos mais próximos da Venezuela (a de 1974, certo!) do que da Noruega, apesar do enorme esforço nacional, de empresas sérias (nacionais e estrangeiras), de agentes públicos e privados que construíram um marco regulatório visando agregar valor na indústria nacional. No passado recente, havia uma perspectiva de que o crescimento da extração do óleo estaria associado ao desenvolvimento industrial e os resultados desta fartura seriam transformados em aumento de investimentos em educação, ciência e tecnologia.
As lições do “método histórico” de Celso Furtado, que estão lá naqueles ensaios, mostram que, com o andar desta carruagem neoliberal tupiniquim, vamos gastar as divisas do petróleo apenas para fechar as contas externas de um balanço de pagamentos de uma economia que sempre será subdesenvolvida e dependente. E que vamos perder mais uma oportunidade de construir um futuro diferente.

Fotografia - por Pixabay

Respostas ao coronel – por Sergio Saraiva (Oficina de concertos gerais e poesia)

Prezado coronel Lee Abe, pelo acaso dessas folhas que vagam pelo ciberespaço, acabei tomando contato com sua cartaHYPERLINK "https://tarobanews.com/noticias/policial/coronel-da-pm-faz-desabafo-apos-morte-de-vereadora-marielle-Zpmpg.htmlhttps:/tarobanews.com/noticias/policial/coronel-da-pm-faz-desabafo-apos-morte-de-vereadora-marielle-Zpmpg.html" contendo as indagações que lhe assaltaram a alma advindas com o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco.

Coronel, estou muito longe de ter as respostas para algo de tal grau de violência, duvido mesmo que alguém as tenha. Mas como sei o quanto é penoso um homem viver em dúvidas, tomo a inciativa de, com a tentativa de algumas respostas, buscar auxiliar a reduzir-lhe a angústia. Creio que o senhor faria o mesmo por mim.
Pois bem, o senhor começa sua carta aberta com a seguinte indagação: “por que o mundo inteiro respeita a polícia?”.
Coronel, independente da autoimagem que o senhor nutra de si próprio e da corporação a que pertence, julgo que involuntariamente o senhor fez uso de uma hipérbole. Uma figura de linguagem válida, mas que carrega dentro de si um exagero. O mundo está muito longe de na sua inteireza respeitar a polícia. Não que ela não o seja, mas acredito que em boa parte a polícia seja mais temida que respeitada, quando não odiada. E odiada porque temida e respeitada onde não é temida. Quanto os policiais têm de responsabilidade nisso, não sei. Mas, sem dúvida, a têm mais do que os que respeitam, temem ou odeiam a polícia.
A seguir, ainda no mesmo tema, o senhor questiona: ”por que o mundo inteiro precisa da polícia?”. 
Polícia para quem precisa de polícia.
Coronel, a existência da polícia é função direta do nosso processo civilizatório ainda deficiente e incompleto. Quando finalmente civilizarmo-nos por inteiro, a polícia deixará de ter razão de existir. Muitos já sonharam com essa sociedade e buscaram construí-la. Cristo foi um deles. Nada é fácil. Mesmo o Cristo teve problemas com a polícia de Roma e acabou sentenciado à morte.
A seguir, em determinado momento da sua carta, o senhor indaga em relação à morte de Marielle Franco: “por que tanta tentativa de transformar essa vereadora em mártir?”.
Coronel, isso já é bem mais fácil de responder: porque ela foi martirizada em razão da causa que defendia. E quem dá a vida pela causa é mártir dessa causa. O senhor como militar reverencia Tiradentes, pois não? Um mártir da nação executado em praça pública pela polícia portuguesa do Brasil colônia. Hoje, somos um país independente e o saudamos como herói da pátria.
Quanto às outras indagações:
Ela representa o povo? Sim, vereadora democraticamente eleita; legítima representante do povo. O senhor preza a democracia e respeita seus resultados, por certo.
Que povo? O povo da cidade do Rio de Janeiro que a elegeu.
Qual segmento do povo? Parte da intelectualidade carioca, mas principalmente o povo das favelas, os negros e homossexuais – por quem Marielle fez sua opção preferencial.
Do cidadão de bem? Sem dúvida. Pobres, trabalhadores honestos e pagadores dos seus impostos. Aos pobres não é dada opção de ser diferente disso. O senhor, se acompanha o noticiário, já deve saber do banditismo que assola nossas classes mais abastadas. Não busque corruptos entre os eleitores de Marielle; os corruptos não votam em pessoas como ela.
Então, o senhor se sai com: “a Polícia Militar, responsável pela morte de negros e pobres na ordem de 30% no país (segundo a vereadora) é morta por quem?”.
Não sei quem mata a polícia, coronel. Isso é função da própria polícia investigar e nos dizer.
E vai além: “nós, PM, saímos pelas ruas escolhendo 30% de negros e pobres para matar (hahaha). Quando atingimos a nossa quota diária, vamos completar nossa meta matando brancos, asiáticos e tudo o mais que aparecer na nossa frente. É assim que funciona?”.
Coronel, se o senhor quis ser irônico, acabou parecendo ser grosseiro. Sinto em dizê-lo.
Mas, existem estatísticas; e segundo o Atlas da Violência do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no país. Os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças; já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.
Quantas dessas mortes violentas se dão em confrontos com a polícia e em que circunstâncias? Não sei. Mas o senhor está do lado dos que também apertam gatilhos – eu não. Deve saber como a coisa funciona.
E o senhor prossegue: “e quando morrermos em combate, tentando salvar uma vida inocente que clama pela nossa presença, vamos aguardar pacientemente os políticos, a imprensa, autoridades que estão fazendo todo esse alarde pela morte dessa “pessoa” intitulada vereadora, promotora dos direitos humanos, mãe, homossexual (como ela mesma se apresenta) fazerem também o mesmo alarde exigindo respostas rápidas e firmes das autoridades?”. 
Que parágrafo longo, coronel. Quantos assuntos tratados no mesmo texto. Técnicas de redação não são seu forte, vê-se. Mas vamos lá.
Coronel, vou considerar que o senhor é ignorante quanto aos significados que possam ter o uso de aspas na linguagem escrita. Porque considerar que o senhor os conheça e mesmo assim referia-se à uma pessoa como sendo “pessoa” poderia leva-lo a responder por injúria – não muito distante de injuria racial, por razões óbvias.
Coronel, Marielle não era “intitulada” vereadora; era vereadora diplomada pela Justiça Eleitoral.
Era mãe. Foi mãe muito jovem – aos 19 anos – pobre, solteira, favelada e soube como buscar no trabalho a forma de sustentar e educar a si mesma – socióloga com mestrado em administração pública – e sustentar e educar a filha que este ano busca a universidade. Mãe tanto quanto a sua mãe que, creio eu, não fez menos pelo senhor.
Quanto à homossexualidade – coronel, eu e senhor somos heterossexuais e jamais fizemos qualquer coisa para sê-lo. Não vamos, na idade que temos, considerar isso qualquer virtude. Somos o que somos. E ela também era o que era.
Tratemos, pois, dos policiais que morrem em ação. Ainda que, pelo menos aqui em São Paulo, a polícia muito mais mate em ação do que morra. Todos lamentamos tais mortesUma vez me ensinaram que o certo é quando, no final do dia, o bandido vai para a cadeia e a vítima e o policial voltam para suas casas. Quando qualquer um dos três morre, algo de muito errado aconteceu. Quem me ensinou isso era policial. Imagino que o senhor concorde com o colega.
Já quanto à sua declaração: “o mais incrível é declararem em coro que os matadores “sabiam atirar”, insinuando serem policiais”ou o senhor é muito ruim em analisar indícios – o que deporia contra a sua competência como policial – ou parece estar querendo que acreditemos que o senhor é bem mais ingênuo do que realmente seja.
Por fim, o senhor fecha sua carta com: “nós, policiais, temos uma missão muito maior do que essa mesquinharia. Somos muito mais do que “isso”. Somos a polícia!”.
       Desculpe-me a franqueza, coronel, mas, na minha opinião, mesquinharia é só o que transpira desta sua carta e, fosse eu o seu comandante, o senhor seria punido pelo desserviço que com ela presta à corporação.

Campanha de Serra em 2010 construiu alicerces do Fascismo Político Pós-Moderno – por Alexandre Tambelli (Jornal GGN)

Quem começou estafratura social brasileira que culminou com o fascismo político e social pós-moderno de hoje foram José Serra do PSDB em dobradinha com a velha mídia capitaneada pela Rede Globo, Veja & Cia. em 2010.
Serra é um candidato marcado pela ausência de carisma para com o eleitorado e utilizador dos bastidores sujos da Política para se beneficiar eleitoralmente via dossiês de campanha contra adversários dentro e fora do partido que é filiado. Ele teve, em 2010, a impossível missão de derrotar a candidata de Lula, Presidente com seus mais 80% de aprovação popular e com Governo exitoso economicamente, socialmente e internacionalmente. Sem contar que o seu partido e sua candidatura representam a plataforma neoliberal semelhante ao que FHC praticou e Temer pratica hoje no Governo, plataforma que explicitada não rende votos no Brasil e plataforma da velha mídia patrocinada, desde há muito, pelo mercado financeiro.
Serra tentou até, no início da campanha eleitoral, se passar por “Zé” o amigo de Lula e o churrasquinho na laje na produção de uma favela Fake em estúdio de publicidade para alavancar sua candidatura. O que não surtiu efeito desejado.
Como perdia dia a dia terreno eleitoral para Dilma nas eleições presidenciais daquele ano, nasceu ali, o início da onda Fascista pós-moderna no Brasil, nasceu via campanha eleitoral de José Serra do PSDB e apoiada numa campanha de ódio e destruição da dignidade e humanidade do adversário político: o PT, disseminada pelos meios de comunicação hegemônicos capitaneados pela Rede Globo de Televisão e revista Veja.
Serra contratou em 2010 um Guru Indiano que havia feito a campanha do candidato republicano nas eleições norte-americanas de 2008 e que seguia a estratégia eleitoral de uma corrente de notícias falsas contra o adversário principal, no Brasil contra o partido, a candidata e quem era o seu cabo eleitoral fortíssimo, respectivamente, o PT, a Dilma e o Lula.
Essa corrente do mal era sinônimo do site de campanha do Serra, onde, lá no site não existia campanha (programa de Governo, propostas) alguma, apenas um campo para preenchimento do e-mail de seus simpatizantes (eleitores) que eram comunicados que receberiam por e-mail informações da campanha do tucano.
A pessoa se cadastrava e recebia e-mails.
Nos e-mails, ao invés de campanha, havia uma coleção de Fake News, que por ter o remetente de uma página Oficial de Campanha se tornava, para muitos, verdade! E que formando uma grande corrente do mal invadiram as caixas de correios de e-mails de milhões e milhões brasileiros.
E o que diziam esses e-mails?
Diziam clássicas mentiras da Internet e do anedotário popular:
1) Dilma foi uma terrorista e assaltante de bancos;
2) Se Dilma vencesse iriam dividir a nossa casa com os pobres;
3) Se Dilma vencesse o comunismo do Foro de São Paulo se instalaria no Brasil;
4) Lula perdeu 1 dedo para receber uma aposentadoria por invalidez;
5) Se Dilma vencesse o MST iria invadir e tomar posse de um monte de fazendas Brasil afora. Etc.
Partindo do site oficial de campanha de José Serra e contando com a boa-fé, ingenuidade de muitos e má-fé de alguns em repassar os e-mails Fake News estava inaugurada a fase onde a disputa Política minimamente civilizada deu lugar para produção de mentiras sobre o candidato e partido opositor e passou-se da disputa entre dois adversários políticos para a disseminação da ideia de que o adversário político de Serra é um inimigo da sociedade brasileira, é um sujeito sem escrúpulos, é um corrupto, um anticristão, não tem dignidade e condição humanas, é violento e antidemocrático e assim por diante. Lembro bem que essas "notícias fakes" na véspera da Eleição estavam afiadas e decoradas como verdadeiras na boca dos eleitores de Serra.
Não à-toa Serra foi apelando para todos os tipos de jogadas rasteiras para tentar ganhar a Eleição em sua dobradinha com a velha mídia, pois não tinha campanha política possível para quem não elaborou um Programa de Governo e sim uma campanha Fake News.
Então, Serra, em dobradinha com a velha mídia, foi o candidato da desconstrução do adversário, do inimigo a ser abatido, não foi um candidato com propostas, mas, o anti petista por excelência, o que pensou vencer pelo ódio, pelo medo e pela mentira.
Daí sua campanha se desenhou no plano das Fake News noticiadas como verdades na Globo, Veja & Cia:
Dilma Terrorista (Ficha Falsa da Dilma) - bandida;
Dilma Abortista - anticristã;
O sensacionalismo da quebra do sigilo bancário da filha Verônica Serra - Dilma sem escrúpulos, envolve até a família de Serra em sua campanha;
A destruição eleitoreira da reputação da Subchefe da Casa Civil de Dilma: Erenice Guerra - Dilma acobertando corrupta ao seu lado na Casa Civil.
A simulação de um atentado violento de petista, o caso da bolinha de papel em passeata no Rio de janeiro – PT e petistas violentos e antidemocráticos.
Da Eleição de 2010 em diante se construiu uma nova forma de agir da direita política representada pelo PSDB em sua dobradinha com a velha mídia, ela não mais agia dentro de mínimas regras do jogo político em uma campanha eleitoral civilizada respeitando humanamente a candidatura petista.
Petista passou a ser inimigo, porque ao perder pela 3 vez consecutiva para ele, não enxergava, o PSDB e seu aliado velha mídia e patrocinadores, perspectivas de voltarem ao Poder tão cedo.
Claro que antes de 2010, em 2005 e a campanha de derrubada de Lula no Congresso via “Mensalão” na voz de Roberto Jefferson para a Renata Lo Prete ou em 2006 e o dossiê dos aloprados com a montanha de dinheiro “petista” na véspera do primeiro turno já se fazia presente a dobradinha velha mídia e direita política, certo? Só que ali tínhamos um jogo sujo eleitoral, mas não, ainda, um processo de inserção da sociedade (o eleitor de e da direita) na transformação do adversário político/ideológico em um inimigo, uma sub-raça, um inimigo a ser abatido e banido socialmente e politicamente como se processou a partir de 2010.
Nós convivíamos tranquilamente com as diferenças ideológicas e quase ninguém queria matar “petista” nem se confundia petista com comunista, bolivariano, se me entendem e não tinha fratura social e Fascismo no convívio social antes daquela Eleição.
Serra foi quem iniciou, em sua campanha eleitoral, o processo inserção na sociedade da lógica do inimigo político, não mais tínhamos ideologias e visões de sociedade e Estado diferentes, éramos divididos em dois grupos, o do bem (honestos, superiores, vencedores por mérito e trabalhadores) – seus eleitores e o do mal (corruptos, inferiores, indolentes e mau-administradores) – petistas e aliados a serem exterminados. Daí para a fratura social continuada foi um pulo.
E se aprimoraram com o tempo as formas de ódio e de produção do inimigo interno dos fascistas (por exemplo: os nordestinos por votarem no corrupto do PT por causa do recebimento do bolsa família), incorporando partes do Judiciário no desafio de vencer o PT e retomar o Poder a qualquer custo.
Surgiram, então, o Julgamento do “Mensalão” e a “maior corrupção da História” e a Lava-Jato e a “destruição da Petrobrás”, todas ações concomitantes com o período de intensificação da campanha eleitoral de 2012 e 2014, que culminaram em 2016 com o Golpe de Estado e a ascensão da extrema-direita e seu candidato Bolsonaro, aceita como ator social relevante no período pré-Golpe, necessária por ser a massa de manobra social, boa parte dela – havia os incautos, que foi legitimar na Avenida Paulista o Impeachment sem crime de responsabilidade da Presidenta Dilma.
De característico do período pós-2010 é o crescimento e manutenção do discurso narrativo eivado de ódio e disseminado diariamente nos microfones da velha mídia e nos submundos da Internet de extrema-direita, colocando os petistas, o Governo Dilma, Lula, Dirceu e o PT como uma “quadrilha” que assaltou e quebrou o Estado brasileiro, enriquecendo os “companheiros” via corrupção desenfreada e que destruiu a maior empresa brasileira: a Petrobrás.
De tanto ódio e Fake News repetidas a exaustão se construiu o caminho para a produção social do Legislativo mais corrupto e sem humanidade da História em 2014, Legislativo que produziu o Golpe do Impeachment fraudulento colocando Temer e sua camarilha para comandar a chave do cofre do Governo Federal.
Criou-se, ainda, este caos econômico e psicossocial e a anarquia jurídico-parlamentar-governamental no Brasil colocando nas redes sociais e nas ruas o monstro do Fascismo.
O monstro do Fascismo nascido da campanha irresponsável de Serra em 2010 e perpetuado até hoje por Veja, Globo, Istoé & Cia. e seus jornalistas amestrados + Joaquim Barbosa, Sério Moro, Dallagnol, etc. a partir de 2012 com a entrada do Judiciário na campanha de destruição do PT para retomada da chave do cofre federal.
Uma perseguição e ódio sem freios ao PT, petistas, Dirceu, Lula e Dilma e, agora, a todas as correntes políticas de esquerda, que ousam vencer as eleições presidenciais no Brasil e a todas as minorias e movimentos civis e sociais com bandeiras progressistas. 
Trazendo para hoje podemos dizer que a morte da Vereadora do PSOL Marielle Franco, negra, homossexual, socialista, nascida na favela, ativista de direitos humanos e sociais é, por assim dizer, resultado desse processo Político Fascista, que se produziu nesta década no Brasil.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Fotografia - por William Albert Allard (National Geographic)


Como falar com quem acha que Marielle merecia morrer por ‘defender bandido’ – por André Cabette Fábio (Nexo Jornal)

O ‘Nexo’ conversou com três especialistas em segurança pública sobre como lidar com quem acredita que defensores dos direitos humanos são responsáveis pela violência

Caixão de Marielle Franco chega à câmara municipal do rio, carregado pelo deputado estadual Marcelo Freixo, entre outros  

Os tiros partiram de um outro veículo, e atingiram principalmente o banco de trás, onde Marielle estava. O motorista, Anderson Pedro Gomes, que estava na linha dos tiros, também morreu. Fernanda Chaves, a assessora de imprensa de Marielle, foi ferida, mas sobreviveu.
A Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio trabalha com a hipótese de execução. Em nota, o PSOL afirmou que a suspeita de crime político não deve ser descartada. Marielle Franco era formada em sociologia, marcava posição contra o racismo e a violência policial, e era uma defensora dos direitos humanos, inclusive os de suspeitos de crimes e de pessoas condenadas pela Justiça.
Em meio aos lamentos, inúmeros internautas fizeram comentários no sentido de que seu posicionamento político se relacionava, direta ou indiretamente, com sua morte brutal.
No portal UOL, um internauta anônimo comentou na reportagem sobre a morte de Marielle: “Uai? Não entendi? [sic] Essa senhora aí não é aquela que defendia os bandidos? Logicamente um cristão não foi quem deu esses tiros”. Um usuário que se identificou como Augusto Sposito afirmou “foi vítima da própria porcaria que ela defendia…”.
Um outro anônimo com pseudônimo disse “mas não era só dialogar? A culpa [é] sempre da vítima e o bandido é coitado, vítima da sociedade. Não é esse o discurso?” Em resposta a comentários de leitores seus que criticaram a defesa dos direitos humanos, o jornal carioca Extra publicou uma nota de esclarecimento no final da tarde. O jornal escreveu:

“A definição é simples. Direitos humanos são os direitos básicos de todos os seres humanos. Ou seja, o direito à vida, à liberdade, à liberdade de opinião, ao trabalho, à educação, à crença religiosa e muitos outros”

Esse tipo de fala que responsabiliza a defesa dos direitos humanos pela violência é constante em casos de homicídios com grande repercussão. Defensores desses direitos têm o desafio de esclarecer que eles não asseguram a falta de controle sobre a violência, pelo contrário.
O Nexo questionou três defensores dos direitos humanos sobre se há uma forma de dialogar com aqueles que defendem a truculência. A pergunta foi esta: é possível convencer quem diz que vereadora morreu porque ‘defendia bandido’ de que esse pensamento é equivocado?

‘Esse discurso prejudica o Estado de direito’
Pedro Abramovay
É diretor na América Latina da Open Society Foundation e ex-secretário nacional de Justiça (2010-2011)
Não tem outra opção, é preciso convencer essas pessoas. É importante marcar que as políticas de enfrentamento, da polícia que mata, são políticas que têm aumentado a violência, sempre. Quando se constrói uma polícia que para de matar, que tem uma presença mais ativa no cotidiano das pessoas, articulada com um Estado mais presente, a violência cai.
Isso não é um achismo, é o que provam todas as pesquisas já realizadas no mundo, muitas delas na América Latina. Mas estamos propondo a militarização, o enfrentamento, algo que nunca funcionou.
Esse pensamento é muito cruel. As pessoas não entendem que a Marielle sempre defendeu o Estado de direito, a democracia. Ela não defendia bandido, mas que as pessoas tenham um julgamento justo dentro do Estado de direito. Ela sempre defendeu as pessoas da favela, que estão morrendo.
Não existe nenhuma contradição, mas as pessoas não conseguem ler isso. Quando se defende a vida de pessoas na favela, igualam à vida de bandidos. Temos que mostrar que esse discurso prejudica o Estado de direito e a democracia.
Marielle sempre defendeu as vítimas, as pessoas que morrem assassinadas, e sempre pediu que os crimes fossem apurados. O desejo dela sem dúvida é que os assassinos sejam encontrados, julgados dentro do Estado de direito.
Ela era contra a impunidade que existe no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, onde a vida vale tão pouco e nada acontece, menos de 10% dos casos são solucionados. Isso não pode ser normal para ninguém que defende a democracia.
O que aconteceu ontem é muito grave, e é preciso união e força para combater a violência nesse momento, não uma polarização entre esquerda e direita.

‘É por uma política calcada na inteligência’
Rafael Alcadipani
É professor de métodos qualitativos de pesquisa e teoria das organizações na Fundação Getulio Vargas e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
É lamentável que isso aconteça. O Brasil precisa parar com essa coisa de que se um lado morre é bom e se outro morre é ruim e vice-versa, um culpando o outro nessa guerrinha boba de direita e esquerda.
Um país dividido não vai conseguir combater o crime organizado. Precisamos nos unir. Se o Bolsonaro sofresse um atentado, seria necessário se unir contra a violência, apesar de ele representar o extremo do incentivo à violência no Brasil.
O ser humano pode sempre aprender, mas as mídias sociais são muito novas. Talvez com o tempo essas pessoas aprendam que não é para comemorar a violência em nenhum caso.
É preciso deixar claro que a defesa dos direitos humanos é por uma política de segurança pública calcada na inteligência e não na truculência.
É pensar em ações racionais, não colocar um monte de jagunço armado na rua para matar, mas usar informação, e encarar a segurança pública como um problema de várias áreas, não apenas de polícia, como acontece no mundo inteiro.
Seria interessante se empregadores, escolas e as pessoas à volta de quem faz esse tipo de fala começassem a tomar medidas. É ético, dentro de uma lógica corporativa, de uma instituição de Estado, que um funcionário faça esse tipo de comentário?
Cada vez mais as pessoas checam contas sociais em processos seletivos. Com um comentário desses a pessoa poderia perder o emprego. Se isso começar a acontecer, talvez haja uma mudança.

‘Esses são direitos para todo mundo’
Bruno Langeani
É gerente de sistemas, Justiça e segurança pública do Instituto Sou da Paz
Parte do nosso trabalho é acreditar que sim. Não conseguimos fazer uma mobilização pela segurança pública se não compartilharmos a mesma visão de mundo, de futuro.
Esse pensamento tem a ver com o medo, com a segurança pública no centro da pauta, todo dia. Esse medo acaba fazendo as pessoas toparem abrir mãos de direitos quando alguém promete alguma mudança milagrosa.
Temos que reconhecer o medo, dizer que ele é válido e compartilhado. As pessoas estão carentes desse acolhimento, mas temos que ter um debate sério do que funciona e do que não funciona.
Quem defende a truculência, a carta branca para as polícias serem violentas, tem que cobrar o resultado dessas políticas. Se elas estivessem funcionando, o Rio seria o lugar mais tranquilo do mundo. A política é essa há muito tempo e a violência só tem piorado nos últimos anos.
Temos que olhar para os resultados da política que vem sendo feita e destacar possibilidades de políticas que podem ser adotadas com base em evidências [de que elas devem funcionar].
Para mim, o principal gancho de argumentação é que, historicamente, os casos como o de Marielle são de pessoas que denunciaram a existência de um poder paralelo no Rio de Janeiro, de milícias com participação de agentes do Estado, infiltração no poder político e influência nas eleições.
É importante que as pessoas façam esse julgamento, deem um passo atrás e olhem a  trajetória dela e vários parceiros de trabalho militantes de base, de partido.
O fato de fazerem denúncias e amplificarem a voz de lugares sem visibilidade, como favelas do Rio, fizeram com que se tornassem vítimas.
Essa crítica aos direitos humanos não entende que esses são direitos para todo mundo. Falamos sobre desde a vítima de bala perdida, de homicídio até da vitimização dos próprios policiais.
Ver essa crítica rasa aos direitos humanos nesse momento traz indignação. Mas ao mesmo tempo não podemos perder o desejo de ampliar o diálogo e mostrar uma visão de mundo comum.

Professora agredida por policiais em manifestação em SP


Foto de professora depois do massacre promovido pelo PSDB de SP, sendo Dória e Alckmin, desta vez, os responsáveis por mais esta abominação.
É a forma típica com que os tucanos tratam professores.
Nada de novo no front (a palavra é esta).

A execução de Marielle Franco escancara a farsa da intervenção no Rio – por Kiko Nogueira

 
Eles alvejaram a vereadora Marielle Franco, do Psol, assassinada no bairro do Estácio.
Aconteceu por volta das 21h30 na Rua Joaquim Palhares.
O motorista que estava com ela também foi morto. A assessora sobreviveu.
Nada foi roubado.
A Delegacia de Homicídios afirma que a principal linha de investigação é execução.
Marielle havia acabado de sair de um evento chamado “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, na Rua dos Inválidos, na Lapa, e seguia para sua casa na Tijuca.
Um dia antes, ela postou nas redes sociais um libelo curto:
“Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”
Marielle era relatora da comissão que acompanha a intervenção no Rio.
No último dia 11, denunciou a violência policial na Favela de Acari.
“Precisamos gritar para que todos saibam o que está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”, escreveu.
Marielle se apresentava como “cria da Maré” e foi a quinta vereadora mais votada em 2016, com 46 502 votos.
Socióloga formada pela PUC-Rio e mestra em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense, teve dissertação de mestrado com o tema “UPP: a redução da favela a três letras”.
Torna-se agora, morta, símbolo de uma guerra antiga e sem fim, maquiada por um governo corrupto e incompetente com tanques e soldados investindo sobre os suspeitos de sempre.
Segurança pública? Onde? Para quem?
“Quem cala sobre teu corpo consente na tua morte”, cantava Milton Nascimento.
Agora, mais do que nunca, é hora de não se calar.