segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Mudanças aperfeiçoam identificação entre ministério de Temer e seu chefe – por Janio de Freitas (Folha)
Subornáveis e subornadores sintam-se avisados: além de
dinheiro sujo em "uma única mala" não provar crime, a Polícia Federal
enfim enturmada com Michel Temer traz outra colaboração, pela voz autorizada do
seu novo diretor, Fernando Segovia. De agora em diante e não necessariamente
por incluir mala, ter a posse, como portador ou como depositário, de dinheiro
com procedência e finalidade ilegais não sugere à PF haver corrupção. Apesar de
parecerem restritas à PF, são decisões componentes de demonstrações de que
Temer alcança o seu governo ideal.
As negociações para
troca de ministros visam aperfeiçoar a identificação entre o ministério e seu
chefe. Carlos Marun na articulação política, agindo dentro da Presidência, com
cargos de todos calibres e verbas de todos milhões para negócios em seu balcão,
pode ser uma escolha quase perfeita. Trata-se de um dos braços direitos de
Eduardo Cunha mais colados ao então deputado. Defini-lo com alguma precisão é
tarefa só possível para Sergio Moro, que pode dizer e fazer o que queira sem
risco algum, no Brasil de hoje. O atual articulador político, Antonio
Imbassahy, nem ao menos está pendurado na Lava Jato. Marun pode olhar Temer,
Moreira, Padilha, Jucá e outros no mesmo nível.
A indicação de Marun
confirma, também, a reviravolta nas relações entre Temer e Eduardo Cunha, aqui
mesmo notada quando o prisioneiro passou, há pouco, da longa ameaça de expor
fatos sobre Temer para a repentina proteção ao velho companheiro. Aí tem coisa,
se observado que, na altura da escolha de Segovia, Eduardo Cunha rejeitava, até
com rispidez, a hipótese de delação premiada: "Nem pensar!".
Outra reaproximação
contribuiu para mais aperfeiçoamentos do governo. Rodrigo Maia, que cumpria com
retidão o papel de presidente da Câmara, em respeito à Constituição e ao
regimento, e em relação objetiva com o Planalto e com os partidos, passa a agir
como integrante do governo. Pior, como componente do círculo de Temer,
pondo-lhe a presidência da Câmara a seu serviço.
Já com as novas
características, Maia é um dos indicadores do deputado Alexandre Baldy para o
Ministério das Cidades. Uma figura, como os repórteres Ranier Bragon e Letícia
Casado têm exposto na Folha, com vínculos muito apropriados para incorporar-se
ao grupo de Temer.
Se essas mudanças
trazem melhoria ao dispositivo de vale-tudo político, a substituição na Polícia
Federal cuida dos problemas ainda complicados de Temer na área
policial-judicial. Não só do seu caso, ainda pendente de um inquérito e sujeito
a delatores problemáticos, mas do seu círculo palaciano.
Bom pagador, Fernando
Segovia quitou-se literalmente à vista com Temer. O que disse foi suficiente
para um esboço pessoal. Há mais, porém, na presença de Temer para prestigiar
Segovia em sua posse. Temer só teria tal atitude se dotado de certezas sobre as
disposições, manifestadas ou aceitas, do delegado em assuntos do seu interesse
como pessoa e como político. Esse interesse tem mais faces do que as já
conhecidas, mas, ainda assim, seu maior alvo é esse mesmo que logo nos ocorre.
Ministros do Supremo
Tribunal Federal, procuradores imparciais da República, delegados da PF isentos
— eles que se preparem. Porque o restante do país está dormindo.
Comentário
Ler o último parágrafo
chega a ser tragicômico.
Estas instituições
citadas só “acordam” quando as coisas se referem a determinado partido. Ademais,
eles não dormem: hibernam.
Paradoxo na economia: “a gente sabe o que funciona e estamos fazendo exatamente o contrário” - por Marco Weissheimer (Sul21)
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Ladislau Dowbor: “O neoliberalismo navega nos conceitos da eficiência e da competitividade. Isso é uma balela”. (Foto: Maia Rubim/Sul21) |
“Estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria, enquanto os
recursos necessários ao desenvolvimento sustentável e equilibrado são
esterilizados pelo sistema financeiro mundial. (…) Quando oito indivíduos são
donos de mais riqueza do que a metade da população mundial, enquanto 800
milhões de pessoas passam fome, achar que o sistema está dando certo é prova de
cegueira mental avançada”. Essa é uma das teses centrais do novo livro do
economista Ladislau Dowbor, “A era do capital improdutivo. A nova
arquitetura do poder: dominação financeira, seqüestro da democracia e
destruição do planeta” (Outras Palavras/Autonomia Literária), que analisa a
captura dos processos produtivos e políticos da sociedade mundial pelo capital
financeiro.
Na avaliação do professor titular de Pós-Graduação da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o neoliberalismo repousa sobre
“balelas” e a concentração de renda e de riqueza no planeta atingiu níveis
obscenos. Em entrevista ao Sul21, Dowbor fala sobre o seu novo
livro e sobre os desdobramentos dessa hegemonia do capital especulativo no Brasil.
O déficit no Brasil, defende o economista, não foi criado por gastos públicos,
mas sim pelo desvio dos gastos públicos para os bancos no serviço da dívida
pública:
“Muito curiosamente, o teto de gastos paralisa as atividades próprias do
Estado em educação, saúde, segurança, etc., mas libera a continuidade da
transferência de recursos públicos para os bancos. O Brasil tem, hoje, cerca de
60 milhões de adultos que estão negativados. Essas pessoas não conseguem pagar
suas contas relativas a comprar anteriores e, muito menos, efetuar novas
compras. E as empresas também estão endividadas. Esse sistema é absolutamente
inviável”.
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Livro analisa nova arquitetura do poder econômico e político no mundo. (Divulgação) |
Sul21: O que é, exatamente, o capital improdutivo, conceito central do
teu novo livro?
Ladislau Dowbor: Nós devemos
distinguir o investimento, produtor de bens e serviços, que desenvolve
atividades econômicas, da aplicação financeira. São dois campos distintos. No
Brasil, se confunde, voluntariamente, investimento e aplicação financeira.
Quando você compra títulos do Tesouro, faz especulações sobre moedas ou compra
ações poderá até ganhar bastante dinheiro, movimentar um monte de papeis, sem
que, com isso, apareça sequer um par de sapatos, uma bicicleta ou uma escola a
mais no país. Você não gerou nada. Se você ganhou bastante, está se apropriando
do que outra pessoa perdeu. Se você previu que o dólar ia subir, comprou na
baixa e ele subiu, quem te vendeu perdeu dinheiro.
Toda essa esfera de aplicações financeiras é essencialmente
especulativa, não contribuindo para o processo produtivo. O que contribui para
o processo produtivo é o investimento que financia atividades que geram bens,
serviços, empregos, impostos e que fazem a economia girar. Falamos de capital
improdutivo quando passa a render mais você aplicar em papeis do que investir
em alguma coisa. No mundo, hoje, o PIB correspondente à produção de bens e
serviços aumenta em média algo entre 2 e 2,5% ao ano, enquanto que o rendimento
dos papeis aumenta cerca de 7% ao ano. A explicação é muito simples. O dinheiro
vai para onde rende mais. Gerou-se um sistema em que você ganha mais dinheiro
simplesmente teclando no computador do que efetivamente produzindo. Isso é a
expansão do capital improdutivo.
Há uma segunda questão importante. O capital especulativo e as
aplicações financeiras passam a funcionar em um processo de progressão
geométrica. Um bilionário que aplica seu dinheiro a 5% ao ano ganhará 137 mil
dólares por dia. Ele não consegue gastar tudo e esse dinheiro é reaplicado,
fazendo com que, a cada dia, o juro sobre o estoque de recursos aumente. Temos
aí uma expansão que, em termos financeiros, se chama efeito bola de neve. Esse
efeito faz com que grandes fortunas passam a ter muito mais dinheiro do que
conseguem gastar sem precisar desenvolver nenhuma atividade de produção
concreta de bens e serviços. Ou seja, ele não está sendo útil para a sociedade.
Harvey (David Harvey) tem razão. Esse capital deixa de ser capital e
passa a ser patrimônio, pois não entra no processo produtivo como um elemento
dinamizador. Isso deforma radicalmente a economia. Conforme cálculo feito pelo
IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), quando você faz uma
transferência de renda por meio de um programa como o Bolsa Família, para cada
real investido ele vai gerar R$ 1,78 de aumento do PIB. Isso acontece porque
você colocou o dinheiro na mão de alguém que não vai fazer aplicação financeira
ou comprar letras do Tesouro, mas sim que vai consumir. Esse consumo vai
incrementar a atividade do comerciante, que vai encomendar mais do produtor, o
que vai gerar mais emprego, em um efeito econômico multiplicador. O essencial
da deformação que vivemos é esse deslocamento da forma de remuneração do
capital produtivo relativamente à sua apropriação pelo sistema financeiro.
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“Temos uma expansão das capacidades de produzir, mas não da produção efetivamente”. (Foto: Maia Rubim/Sul21) |
Sul21: Enquanto isso, produtos seguem sendo produzidos. Não deixamos de
produzir sapatos, automóveis, roupas e tudo mais. Há um capital produtivo que
segue participando da produção. Como ele se relaciona com o capital improdutivo
e como um sistema com essas características pode sobreviver? Se aplicar no
sistema financeiro é mais rentável, porque um produtor de calçados seguirá
fabricando calçados?
Ladislau Dowbor: Nas últimas
décadas, tivemos avanços tecnológicos fenomenais. Hoje produzimos automóveis
com muito mais rapidez e menor custo, utilizando inclusive robôs e coisas do
gênero. Na agricultura, temos a expansão da chamada agricultura de precisão,
onde a aplicação de novas tecnologias também permite um aumento de
produtividade fantástico. Ou seja, nós temos uma expansão das capacidades de
produzir, mas não da produção efetivamente porque esta vai depender do destino
final do produto. Um empresário, se não tem para quem vender, por mais que os
sapatos que ele produz sejam úteis, ele fecha.
Então, o equilíbrio de remuneração das diversas atividades é vital para
uma economia funcionar. Se você tem um dos atores que se apropria de muito mais
renda do que os outros, acaba travando o processo como um todo. É muito
interessante pegar o exemplo da reconstrução da Europa após a Segunda Guerra
Mundial. A Europa criou o Estado de Bem Estar, passando a remunerar os
trabalhadores proporcionalmente ao aumento da produtividade. Na Alemanha, por
exemplo, todo aumento da produtividade de uma empresa é revertido automaticamente
em aumento de salário. E o aumento da produção gera mais mercado. Há um
equilíbrio no conjunto do sistema.
Por outro lado, os impostos gerados neste processo são utilizados como
salário indireto. Na Alemanha, você tem escola pública gratuita, universidade
pública e gratuita. Há escolas privadas, mas, mesmo nestas, o professor é pago
pelo Estado. Isso é considerado um investimento nas pessoas. Esse salário
indireto é extremamente importante. As pessoas não vivem só com sua renda que
entra no bolso. O canadense tem um salário inferior ao americano, mas ele tem a
creche, a escola e o hospital de graça, tem piscinas em todas as escolas. Ou
seja, o imposto, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde ele é chamado de
gasto, é transformado em salário indireto, em um investimento nas pessoas.
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“O paradoxo é esse: a gente sabe o que funciona e estamos fazendo exatamente o contrário”. (Foto: Maia Rubim/Sul21) |
Esse modelo gera bem estar e é muito mais produtivo do que planos de
saúde e coisas do gênero. Quando você faz saúde pública, por exemplo, se
concentra em evitar as doenças. Já o sistema privado de saúde está interessado
na doença. Ele é a indústria da doença. Se você vai em países como Suécia,
França, Alemanha ou Canadá, verá um sistema de saúde que está preocupado com a
qualidade da água, com a ausência de agrotóxicos nos alimentos e com a
diminuição de emissão de gases pelos veículos nas cidades, para citar apenas
essas três coisas. Ou seja, está preocupado com o conjunto dos elementos que
geram a doença. O resultado é muito interessante. No Canadá, por exemplo, você
gasta 3.400 dólares/ano por pessoa em saúde. Nos Estados Unidos, é mais do
dobro disso. No entanto, a saúde média da população do Canadá é
incomparavelmente superior. É simplesmente mais produtivo.
Quando você canaliza os recursos de maneira adequada, consegue-se esse tipo
de resultado. Destinar recursos para a saúde pública, para a pequena e media
empresa, para reforçar o salário mínimo e dinamizar o consumo de bens simples:
tudo isso é organização econômica e social que chamamos de governança. O
governo é a máquina administrativa. Governança é fazer o conjunto funcionar.
No caso do Brasil, quando um dos grupos sociais, como o setor
financeiro, se torna muito mais poderoso do que os milhões de pequenos e médios
produtores e passa a apropriar dos recursos destes, por meio de juros, e do
próprio governo, por meio de leis que, por exemplo, os isentam de impostos,
temos uma deformação sistêmica e o processo trava.
Além do que ocorreu na Europa, podemos citar o exemplo do New Deal, nos
Estados Unidos, ou o que foi feito na Coréia do Sul. Todos eles se basearam em
não enriquecer os ricos, mas em desenvolver salário direto forte para a
população, o que gera demanda para as empresas, e impostos elevados, mas
orientados para investimentos em infraestruturas que barateiam os processos
produtivos e em políticas nas áreas de educação, saúde e cultura. Esse
investimento nas pessoas aumenta a produtividade do sistema como um todo. O
paradoxo é esse: a gente sabe o que funciona e estamos fazendo exatamente o
contrário.
Sul21: No seu livro você aponta que esse processo de deformação
sistêmica da economia mundial anda de mãos dadas com o fenômeno da captura da
esfera da política pelo sistema financeiro. Esse diagnóstico parece apontar
para um cenário bastante sombrio quanto ao futuro da democracia, não?
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“Temos um endividamento generalizado dos governos no mundo com os grandes bancos”. (Foto: Maia Rubim/Sul21) |
Ladislau Dowbor: Você veja o
desastre hoje nos Estados Unidos. Donald Trump se elegeu dizendo que a Hillary
Clinton era ligada ao sistema financeiro. Eleito, quem ele nomeou para chefiar
a sua equipe econômica? O presidente do Goldman Sachs, o maior banco mundial.
No Brasil, em nome da resolução de problemas econômicos, tivemos um Joaquim
Levy na Fazenda e hoje temos um banqueiro comandando o Banco Central e um
banqueiro no Ministério da Fazenda. Na França, tivemos o peso do sistema
financeiro depositado na candidatura de Macron.
Temos, de modo geral, um endividamento generalizado dos governos no
mundo que os colocam numa relação de dependência com os grandes bancos, donos
da dívida. Há uma mudança dos equilíbrios políticos no planeta. Estávamos
acostumados com a ideia de que, numa democracia, você elege pessoas que
representam os anseios da população. No entanto, hoje, há um desgarramento
entre o processo político da eleição e o processo econômico. Não basta a
democracia política. Se você não tem também democracia econômica, o sistema
simplesmente não funciona. Escrevi um livro chamado “Democracia econômica”, já
publicado em várias línguas, que ajuda a entender esse processo (Conheça as obras de Ladislau Dowbor,
disponíveis em sua página).
Voltando ao argumento central: onde o sistema funciona? Ele funciona
quando se tem uma forte organização dos fluxos dos recursos financeiros para
reforçar a capacidade de compra das populações e a capacidade do Estado fazer
investimentos em infraestrutura e fazer políticas sociais. Esse processo
dinamiza as atividades, aumenta o volume de impostos tanto pelo consumo quanto
pela atividade empresarial e pelos empregos gerados. Esses impostos fecham a
conta sem gerar um déficit. O déficit no Brasil não foi criado por gastos
públicos, mas sim pelo desvio dos gastos públicos para os bancos no serviço da
dívida pública. Muito curiosamente, o teto de gastos paralisa as atividades
próprias do Estado em educação, saúde, segurança, etc., mas libera a
continuidade da transferência de recursos públicos para os bancos.
Sul21: Apesar da crise de 2007-2008, o neoliberalismo segue sendo
hegemônico e parece estar apoiado em algumas ideias que se enraizaram no senso
comum. Em uma das primeiras edições do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, o
economista Francisco Louçã disse que a esquerda precisava ter algumas ideias
fortes para enfrentar a força ideológica do neoliberalismo. Que ideias poderiam
ser estas, na sua opinião?
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“O Brasil tem, hoje, cerca de 60 milhões de adultos que estão negativados”. (Foto: Maia Rubim/Sul21) |
Ladislau Dowbor: O
neoliberalismo navega nos conceitos da eficiência e da competitividade. Isso é
uma balela. Ele está, na verdade, drenando a capacidade produtiva da sociedade
ao se apoderar de recursos que poderiam ser investidos nas empresas e nas
pessoas. O Brasil tem, hoje, cerca de 60 milhões de adultos que estão
negativados. Essas pessoas não conseguem pagar suas contas relativas a comprar
anteriores e, muito menos, efetuar novas compras. As empresas também estão endividadas.
A ideia que embasa o funcionamento desse sistema é simples. Se você vai
comprar um fogão em uma loja, encontrará um preço a vista – 420 reais digamos –
e um preço a prazo que é o dobro disso. Esse fogão saiu da fábrica a 200 reais,
pagou 40% de imposto e tem o ganho da loja que o está vendendo por 420. Mas, na
verdade, eles querem vender a 840 reais. A grande massa da população, enganada
pela prestação que cabe no bolso e pelo juro apresentado ao mês, acaba pagando
840 reais por esse fogão. O cidadão que não tem capacidade de comprar a vista
vai pagar 840 reais por um fogão de 200.
Esse sistema é absolutamente inviável, pois esteriliza a capacidade de
reinvestimento da empresa, que está ganhando muito pouco, e a capacidade de
compra da população. No meio desse processo, há um intermediário que tem um
ganho imenso. É uma economia de intermediários não produtivos.
Buscar um novo equilíbrio significa taxar fortemente o capital
improdutivo e reduzir os impostos sobre o consumo. Não é preciso aumentar a
carga tributária. Basta começar a cobrar dos improdutivos e desonerar as
atividades que dinamizam a economia.
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quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Perguntar quem nunca será preso é forma de entender o poder no Brasil – por Vladimir Safatle (Folha)
Diante de um país no qual o ocupante da
Presidência rifa direitos, facilita o uso de trabalho escravo, compra deputados
e usa a máquina governamental para livrar-se de uma denúncia da procuradoria
por formação de organização criminosa e obstrução de justiça, no qual um
ministro do STF recebe 46 ligações de Whatsapp de um réu com o qual ele tem
ligações sabidamente carnais, o cômico é ouvir o tom de quem narra tudo isto
como se estivéssemos a assistir os embates políticos de uma democracia.
Deve ser algo parecido à República velha, na
qual uma oligarquia inventava eleições de fachada e a imprensa descrevia aquele
jogo de cena como se fosse um embate democrático.
O fato é que nunca o país mostrou de maneira
tão explícita quão bem ele se acomoda a ser uma cleptocracia na qual os três
poderes estão organizados para defender uma espécie de núcleo duro da
espoliação nacional.
O Estado brasileiro estará disposto a usar de
toda sua violência e intimidação para deixar intocada sua casta.
O caso do senhor Aécio Neves é exemplar neste
sentido.
Mesmo sendo pego em gravações telefônicas
expondo explicitamente manobras de obstrução de Justiça, mesmo dizendo ser
necessário conseguir um atravessador que pudesse ser morto posteriormente, este
senhor continua senador da República.
Ou seja, se quisermos entender como o poder
funciona no Brasil, temos que nos perguntar sobre quem é intocado.
Quem, a despeito de toda cortina de fumaça,
escapa sempre das amarras da Justiça. Quem, mesmo denunciado, nunca será preso.
Há várias formas de um país se degradar e o
Brasil tem conhecido a mais brutal de todas, a saber, a explicitação dos
mecanismos implícitos de funcionamento da democracia liberal.
A democracia liberal funciona com um duplo
sistema de normas.
O primeiro é um sistema explícito de regras e
normas enunciadas no ordenamento jurídico.
O segundo é um sistema implícito de práticas e
violências que, a princípio, não devem vir à tona, que deve ser feito em
silêncio.
Ou seja, a democracia não é apenas o império
da lei. Ela é a gestão de anomias cujas dinâmicas não devem ser explicitadas.
No entanto, no Brasil atual, são tais práticas
que ganham a cena sem que sua explicitação provoque maiores consequências. Isto
ao menos tem uma consequência positiva, a saber, mostrar quão farsesca sempre
foi nossa República.
Na melhor das hipóteses, isto pode deixar
claro o tipo de tarefa política que se impõe daqui para a frente. A tarefa de
ser capaz de se confrontar com a incapacidade nacional de construir uma
democracia e com a necessidade de produzir o que até agora nunca existiu.
Não poderia ser diferente em um país que
conheceu uma espécie de "transição democrática infinita", mas no
sentido do mal infinito hegeliano.
Ou seja, uma transição que nunca terminou, que
foi feita para nunca terminar.
Pois uma democracia efetiva só poderia ser
construída sobre as bases de um empuxo social em direção à constituição de uma
sociedade economicamente igualitária.
Mas hoje sabemos que mesmo as políticas
implementadas nos últimos quinze anos não tiveram impacto significativo algum
na desigualdade que destrói toda possibilidade de uma sociedade minimamente
coesa.
Ao Brasil, cabe a possibilidade de continuar a
farsa, brincando de eleições no interior de um sistema que funciona para
blindar o núcleo duro do poder e para jogar a polícia para cima dos
descontentes.
Ou aqueles que tomaram nota da degradação
podem recusar as saídas autoritárias que rondam a história brasileira e
procurar criar, pela primeira vez, as bases de um poder popular que possa se
colocar como a força imanente e presente da República.
Em um
momento no qual o resto do mundo se debate com os fins da democracia e a
ascensão das estratégias populistas, o Brasil pode se colocar em um horizonte
global de procura por uma experiência de emancipação social que é a grande
tarefa deste início de século.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Tempos desesperados - por Clarissa Nonada (Facebook)
São tempos desesperados... estamos
em épocas de histeria coletiva, inclusive a nossa, ditos à esquerda, e
realmente tem sido muito difícil viver entre a vida cotidiana, as obrigações e
as notícias que nos atropelam. Mas quando foi fácil? Estamos como resultado da
luta de classes.
Desde o golpe sobre a presidenta
Dilma, mais um pra história de um país que ainda não se encontrou na civilidade
de ser nação (de si para seu povo), de repente sempre há mais uma notícia,
absurdo, retrocesso à vista; há sempre um novo ataque e, na posição de
passivos, recebemos cada avanço do atraso impactados, raivosos, mas sem forças
para reagir porque nesse processo permanecemos também fragmentados e
enfraquecidos. Nem entre iguais há diálogo.
Tem sido muito duro, sobretudo
para a juventude, suportar a retirada de direitos. Nisso, o que há de pior no
país avança, ataca, manifesta-se livremente numa cortina de maldades que,
enquanto esconde toda a sacanagem mental dos nojentos, aparenta ser apenas
opinião divergente e, no pior de nossos julgamentos, apenas burrice. Não é. Eu
não acredito mais que diante dessa montanha de desastres, existam pessoas
inocentes-burras-atrasadas-iludidas-desnorteadas, essa categoria de gente não
existe mais. Se estamos em tempos de queima de bruxas, de escracho de uma
filósofa, de apoio a racistas confessos, de censura a museus, de naturalização
de estupros, de ração humana e seja lá mais o que for que tem acontecido,
estamos diante do pior lado da humanidade e isso não é só burrice, não sejamos
nós os iludidos... essa gente pensa, se expressa e se multiplica, são fascistas
em potencial e não dialogam porque o ódio que eles sentem contra mulheres,
negros, gays e pobres é substancial e perigoso. São inimigos.
Sobre Temer, o golpe e a corja no
poder, o livro das mutações, um livro oriental de mais de 5 mil anos e que sou
muito apegada e devota, tem um hexagrama muito claro: “os medíocres ocupam
postos que ganharam de maneira ilegítima, mas todos já começam a se dar conta
de que não é o que lhes corresponde”. E de fato, Temer entra pra história como
o mais rejeitado dentre os rejeitáveis.
Nos resta, do nosso lado na luta
de classes, não desanimar com a escuridão dos dias difíceis e disputar essa
consciência que nega a Temer, evitando que escolha um caminho pior, da
repressão e do massacre; evitando que seja cooptada pela violência dos
fascistas que aproveitam essas épocas confusas para crescerem como erva
daninha. Bolsonaro só ganhou espaço agora. Apesar de ser tempos de desânimo e
de pouca ou nula reação de nossa parte, nos contagiar com o fim do mesmo
hexagrama é fundamental: “os inimigos sofrerão uma grande derrota e, a partir
daí, começa um período luminoso.”
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Holiday, o MBL e o Caixa 2, Frota e a bunda do juiz. E Veríssimo e o nosso “redículo” - por Bob Fernandes (Gazeta)
Na Folha, Mônica
Bergamo conta: Gilmar Mendes quer debater a "influência das Mídias"
na Política.... (Isso porque agora está apanhando)...
...O ministro Luiz
Fux, ainda muito antes do caso talvez um dia chegar ao Supremo, já pré-julgou:
disse que Lula não pode ser candidato.
Luis Fernando
Verissimo, sobre o que transcende o "ridículo" escreveu com o brilho
de sempre:
– O golpe contra
Dilma que não ousou dizer seu nome foi "redículo". O Supremo Federal
teve suas recaídas no "redículo". O Gilmar Mendes é
"redículo".
E continuou:
– O Congresso
Nacional foi repetidamente "redículo". O Temer é cada vez mais
"redículo" ...
Disse Veríssimo:
– (...) Se houver
eleição, apesar de tudo será um sinal de que a nossa frágil democracia resistiu
ao "redículo" terminal.
Há no cenário
político "redícula" imitação da Nova Direita Europeia. Com macaquices
da direita norte-americana e da brasileira de sempre.
MBL, Kim &
Cia, e Alexandre Frota, ator pornô, ganharam espaços nas Mídias
quando necessário. Vejamos o que são.
Na eleição
municipal, Celso Teixeira foi advogado do hoje vereador Fernando Holiday
(DEM-SP), um líder do MBL.
Em vídeo, na
sexta-feira,3, o advogado Teixeira revelou: Holiday ficou com dinheiro da
campanha "que teve Caixa 2".
Teixeira diz ter
sido "ameaçado de morte".
Fernando Holiday
nega tudo.
Um ex-integrante
já relatou: no impeachment o MBL foi financiado por partidos. A revista Piauí
contou: hoje integrantes do mercado financeiro financiam o MBL.
Isso a Nova Velha
Direita faz. Ouçamos o que dizem alguns dos seus "líderes".
O vereador Carlos
é filho de Bolsonaro. No domingo, 5, Carlos tuitou: "Direitos humanos:
esterco da vagabundagem".
Numa imagem na
internet, Bolsonaro pai, candidato à presidência da República, posa com uma
camiseta e seu lema:
– Direitos
humanos: esterco da vagabundagem.
Nesse assunto os
Bolsonaro são especialistas.
Na campanha
presidencial, óbvio, a imagem do esterco correrá o mundo.
Alexandre Frota
perdeu uma causa para a ex-ministra Eleonora Meniccuci. Derrotado, culpou o
traseiro do juiz. Disse:
– O juiz, ativista
do movimento gay, não julgou com a cabeça, julgou com a bunda.
Desde a campanha
pelo "redículo" impeachment esses tipos são a infantaria. São vozes e
pontas de lança da Nova Velhíssima Direita.
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