quinta-feira, 5 de junho de 2008

Um homem da Guerra: Washington promove cenário de conflito na América do Sul - por Eva Golinger (Agência Cartamaior)

O atual encarregado da política de Washington para a América Latina dá a indicação de até que ponto poderia ir esta estratégia de conflito regional. John Negroponte, atual Subsecretário de Estado, segundo de Condoleezza Rice, assumiu o papel de reorientar a política dos Estados Unidos no continente.


Já faz alguns anos que o governo dos Estados Unidos vem procurando a maneira de promover um conflito entre os países sul-americanos para contrabalançar os esforços, liderados pela Venezuela, de integração latino-americana e a verdadeira independência da parte sul do continente com respeito ao império do norte. Contudo, suas tentativas bélicas não encontraram braços receptivos na região —até poucos meses atrás.

A partir de primeiro de março, quando o governo colombiano realizou uma invasão não autorizada em território equatoriano, massacrando a sangue frio as pessoas presentes no acampamento de Raúl Reyes — que incluía um grupo de estudantes mexicanos — o governo de Álvaro Uribe mostrou sua receptividade à estratégia imperial de Guerra Regional.

A partir desse momento, temos visto incidente após incidente buscando provocar uma reação hostil dos vizinhos da Colômbia. Um dia, soldados colombianos cruzam a fronteira venezuelana; outro dia, mentem sobre fotos ou documentos supostamente obtidos de computadores não autenticados que vinculam o Equador ou a Venezuela com o terrorismo e com a desestabilização. Outro dia, Álvaro Uribe anuncia sua disposição de hospedar a base militar dos EUA — atualmente em Manta, no Equador — em território colombiano, apesar de a Colômbia já manter três bases militares norte-americanas dentro de suas fronteiras, além de múltiplos comandos militares operativos por toda a fronteira com a Venezuela e a costa caribenha. Depois, Uribe reúne-se com o governador do estado venezuelano de Zulia, Manuel Rosales, conhecido opositor às políticas de Chávez, e expressa seu desejo de estreitar as relações entre Zulia e a Colômbia, como se Zulia fosse uma nação diferente da Venezuela, com sua própria política exterior.

Depois, um avião militar norte-americano, o Viking S-3, sai da base dos EUA no aeroporto internacional Hato, em Curaçao, e chega até a ilha de Orchila 'devido a um erro de navegação', coisa que ninguém acredita. Atenção, desta vez aconteceu de detectarem o avião norte-americano realizando suas ações de espionagem, não quer dizer que foi a primeira vez, nem que será a última.

O anúncio do Pentágono da reativação da Quarta Frota da Armada norte-americana é mais uma amostra de que Washington quer trazer sua guerra para a nossa América. Durante dois anos eles têm reforçado e equipado suas bases militares na região, principalmente na zona caribenha —Curaçau, República Dominicana, Colômbia— e estão construindo uma nova no Paraguai, perto da fronteira com a Bolívia e das maiores reservas de água do continente. Não há nenhum outro país no hemisfério que mantenha tanta presença militar em quase todos os países da região. E agora estão aumentando esta presença para garantir uma permanência bélica de Washington nas Américas. Não é possível ver a presença da Quarta Frota —além de todas as suas bases militares na região e da ocupação militar do território colombiano— como algo diferente de uma ameaça à paz regional e à soberania dos nossos povos.

E agora, estão consolidando a estratégia separatista e secessionista na Bolívia, com as consultas separatistas nos departamentos de Beni e Pando, que apesar de ilegais e ilegítimas serão utilizadas, junto com o referendo que ocorreu no dia 4 de maio passado em Santa Cruz, como plataforma para dividir a Bolívia em pedaços. Depois, as forças imperiais tentarão levar estes planos para a Venezuela e o Equador, onde há alguns anos lançaram as sementes separatistas nas zonas de Zulia e Guayaquil. O presidente Chávez denunciou por estes dias que esse plano secessionista está expandindo-se fora de Zulia para incluir também os estados de Táchira, Apure e Mérida, com o objetivo de criar uma espécie de 'meia-lua' venezuelana.

Tudo isto vai ao encontro do Plano Balboa, elaborado no ano 2001 como um exercício militar de invasão à Venezuela e ocupação da região fronteiriça com a Colômbia (que inclui Zulia, Táchira e Apure) e faz parte do plano do estado Falcão para poder controlar a indústria petroleira e proteger o fornecimento de energia para os EUA. Parte da justificativa para a invasão a território venezuelano no Plano Balboa seria garantir a integridade do país vizinho, a Colômbia, e reduzir a influência de um líder rebelde, de esquerda que se associava com "grupos terroristas". Sete anos depois, estamos vendo como Washington foi preparando o cenário para ativar o Plano Balboa na vida real.

O atual encarregado da política de Washington para a América Latina dá a indicação de até que ponto poderia ir esta estratégia de conflito regional. O Sr. John Negroponte, atual Subsecretário de Estado, segundo de Condoleezza Rice, é quem assumiu o papel de reorientar a política dos EUA no hemisfério. No dia 1º de junho, reuniu-se com o presidente colombiano Álvaro Uribe em Medellín, preparando a reunião da Organização de Estados Americanos, realizada nessa cidade de 1º a 3 de junho.

Negroponte também apareceu pouco tempo atrás na sede da OEA em Washington, durante o debate sobre a violação territorial colombiana ao Equador. Apesar de suas pressões e táticas mafiosas não conseguirem uma resolução favorável aos interesses de Washington, conseguiram impedir uma condenação e um rechaço contundente do organismo multilateral à Colômbia.

Negroponte é um homem de guerra. Dirigiu grande parte da guerra suja na América Central durante os anos oitenta, quando era embaixador dos EUA em Honduras. Durante a estada de Negroponte em Honduras, a assistência militar dos EUA a esse país passou de US$ 3,9 milhões para US$ 77,4 milhões por ano. Em 1994, a Comissão Hondurenha para os Direitos Humanos apurou o desaparecimento e tortura de pelo menos 184 opositores políticos. Também acusou especificamente Negroponte por violação dos direitos humanos. Além disso, Negroponte esteve envolvido no financiamento e armamento dos Contra na Nicarágua, cujos membros eram mais conhecidos como esquadrões da morte e assassinos. Foi um dos implicados no caso Irã-Contras, acusado pelo Congresso dos EUA de ter participado na venda de armamento para o Irã para continuar financiando os Contra na Nicarágua.

Anos depois, Negroponte apareceu como Embaixador dos EUA no México, justamente durante o lançamento dos Zapatistas. Dizem que coordenou a participação dos serviços de inteligência norte-americanos na guerra contra os Zapatistas em Chiapas. Seu papel como Embaixador dos EUA nas Nações Unidas foi chave para justificar a guerra preventiva contra o Afeganistão e o Iraque. Posteriormente, foi nomeado Embaixador dos Estados Unidos no Iraque, conseguindo aumentar a capacidade da embaixada norte-americana nesse país e a quantidade de mercenários, como a Blackwater, operando no Iraque com contratos multimilionários com o Departamento de Estado e o Pentágono para prestar 'serviços' de segurança.

Em 2005, foi nomeado Diretor Nacional de Inteligência dos EUA, responsável por toda a comunidade de inteligência, militar e civil, e aumentou em 50% a presença da CIA na América Latina. Também criou a Missão Especial da CIA para Venezuela e Cuba, uma nova entidade que conta com um time de especialistas em inteligência e espionagem dedicado a 'recolher informação de inteligência' e 'preparar e executar estratégias' para contrabalançar a influência da Venezuela no hemisfério e debilitar sua relação com Cuba. Negroponte definiu a Venezuela e o Presidente Chávez como a 'mais grave ameaça aos interesses norte-americanos na região' em fevereiro de 2006. Foi um dos grandes responsáveis pela política hostil de Washington para a Venezuela e seus aliados no hemisfério. A partir de 2007, Negroponte incorporou-se ao Departamento de Estado como o segundo homem mais poderoso da chancelaria norte-americana, e desde então a relação entre a Venezuela e os EUA piorou ainda mais.

A combinação de fatores: Negroponte mais uma vez dirigindo a política imperial neste hemisfério; a Quarta Frota da Armada dos EUA ativada na América Latina; a entrega da Colômbia, por parte do governo de Álvaro Uribe, para as forças militares norte-americanas e sua postura abertamente agressiva com seus vizinhos; o lançamento dos movimentos separatistas na Bolívia, Equador e Venezuela, que buscam dividir e desestabilizar nossos processos de avanço social; e o aumento das bases militares norte-americanas por toda a região, tudo isso indicando que Washington busca ativamente um conflito armado na América Latina. A Venezuela e seus aliados precisam achar a maneira de não cair nas provocações de Washington.

Devemos promover a paz, mas sempre mantendo a preparação necessária para defendê-la.

Diretora-Geral da Fundação Centro de Estudos Estratégicos de Segurança de Estado 'CESE'

A oposição e o seqüestro do futuro - por Gilson Caroni Filho (Agência Cartamaior)

"Mas, de onde as coisas têm o seu passar a ser, para aí vai também o seu deixar de ser, segundo a necessidade; pois elas pagam, umas às outras castigo e penitência pela sua impiedade, segundo o tempo estabelecido".

Anaximandro

O momento é por demais expressivo para, a partir dele, não fazermos pequenas reflexões. Retroagirmos a tempos recentes e deles extrairmos lições que precisam ficar vivas na memória é um exercício obrigatório. O que assusta a direita sem programa é um futuro que se anuncia por demais promissor para que seja efetivado. O triste é saber que quem a acompanha nessa marcha se julga vanguarda quando, na verdade, faz papel de coro para a tragédia do atraso.

O que estamos presenciando no Brasil sinaliza uma dinâmica que esboça o desenho do país nos próximos anos. Os ineditismos apontam para mudanças que sedimentam novas bases para o capitalismo brasileiro. Apurar a visão para compreender que só lograremos a hegemonia se não a concebermos como sistema formal fechado, totalmente articulado e homogêneo é um belo primeiro passo. Distribuições específicas de poder, hierarquia e influência não ocorrem em um cenário vazio de contradições e processos difusos. Perscrutar mudanças moleculares é fundamental para não perdermos o foco do que desespera o conservadorismo brasileiro.

Como ignorar que a alta no preço dos alimentos no Brasil foi inferior à registrada em outros países do mundo por contas de políticas públicas de apoio à agricultura familiar? Em matéria publicada no Globo (1/6), dois agricultores são precisos: “A situação hoje é mais confortável do que há seis, sete anos. Naquele tempo, pobre não entrava em banco. Quando entrava, a liberação demorava tanto, que quando saía já havíamos colhido. Agora o dinheiro sai na época certa". Do que falam os homens do campo? Que a inflação está sendo combatida com garantia de abastecimento para o mercado interno. Isso é irrelevante? Para quem?

E o que dizer de uma economia estabilizada, com inflação baixa e contas externas minimamente ajustadas? Em abril, 4,18 milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo tinham carteira assinada no setor privado. Isso equivale a 46,5% do total de ocupados, a maior taxa de empregos formais desde abril de 1992, quando registrou 48%. Diante de tais dados, atribuir a popularidade do presidente e os índices de aprovação ao seu governo exclusivamente a uma liderança carismática não revela uma indigência analítica que mescla reducionismo e má-fé?

Não bastam os erros cometidos por “ciosos analistas” no início do primeiro mandato? A manutenção de alguns preceitos econômicos do bloco político anterior não poderia, jamais, ter embaçado a visão dos analistas mais atentos. O anúncio do aumento da meta de superávit primário em 2004 de 4,25 para 4,5% do PIB brasileiro refletia a preocupação do governo Lula com ajuste fiscal e controle da inflação. E o tempo que dita a sentença relativamente a tudo, conforme o filósofo pré-socrático, mostrou a justeza do caminho escolhido.

Não há nenhum compêndio que definisse tal orientação como sendo uma inclinação à direita. De fato, não há registro na história do que venha a ser uma política macroeconômica de esquerda. Repetimos o que já afirmamos em outras ocasiões: em nenhum país ocidental, um governo de extração democrático-popular logrou reformular radicalmente mecanismos regulatórios dentro dos marcos capitalistas. A ruptura clamada pelos principistas de plantão, se não for acompanhada de ampla sustentação interna e cenário exterior favorável, não leva a outro caminho que não seja o da crise institucional. Tão ansiada pela direita desde o veredicto das urnas em 2002.

Sancionados pela ''boa consciência'' e amparados por uma verdade de vulgatas marxistas, certos “críticos supostamente à esquerda" acabam por se deixar instrumentalizar pela direita que, através do comportamento inconseqüente de seus supostos opositores, consegue consagrar a ordem do capital financista como a única realmente factível. Eis o que o esquerdismo tem conseguido ao longo da história: legitimar o que pretende combater. O purismo não leva Marília ao encontro de Dirceu. Acaba por jogar Heloísa nos braços de Virgilio. Ou se preferirem, de Agripino Maia.

Prudência na política cambial, avançar na reforma agrária, na administração do superávit primário e, quando for necessário e, acima de tudo possível, renegociar com organismos multilaterais a partir de uma posição de bloco regional, são imperativos históricos. E, já passou da hora, de reconhecer que esses passos têm sido dados com firmeza.

No entanto, urgia reconstruir a nau para a travessia desejada. São áridos os caminhos que nos levarão a conseguir defender as demandas nacionais com estratégias econômicas distintas. Tal como destacou o professor José Luiz Fiori, ''os países mais fracos só conseguirão defender os interesses do seu capitalismo, bem como os de sua população, se forem capazes de construir suas próprias estratégias comerciais, junto com políticas macroeconômicas adequadas ao seu nível de desenvolvimento e aos seus objetivos nacionais''.

Para tanto, não se pediam etapismos, mas compreensão do tempo histórico. Por que o radicalismo pequeno-burguês da classe média brasileira, tão indulgente nos quatorze anos de desmonte do setor produtivo, se mostra tão irascível com um governo que mal completara três anos? Senso de urgência histórica ou arrivismo de ocasião? Deixemos claro que são alternativas que não se excluem.

Se alguém ainda insistia na tese de continuísmo entre o governo anterior e o atual, deveria perscrutar gestos que sinalizavam inequívoca inflexão. Amplamente noticiadas, pouco analisadas na sua real significação, as relações entre o Planalto e atores dos principais movimentos e entidades que lutam pela inscrição como sujeitos de direito setores secularmente excluídos eram sinais de uma revolução molecular que se iniciava.

A forma como o governo tem interpretado greves e manifestações de várias categorias profissionais é inédita na história do país. Um movimento reivindicatório do mundo do trabalho já não era percebido como ameaça à institucionalidade. Não era subjugado em nome do conceito etéreo de governabilidade. Não era sufocado por razões de Estado ou ditames mercantis. E nada havia se alterado para quem não se dispõe a enfrentar a realidade de frente.

O que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou foge ao figurino traçado, até então, pelas elites encasteladas no aparelho de Estado. Ao invés de enxergar na paralisação dos bancários, em 2004, uma disfuncionalidade a ser corrigida, nela viu a afirmação da democracia entendida como espaço político de solução de conflitos. ''Os trabalhadores fizeram sacrifício quando tinham que fazer. E na medida que o banco anuncia ganhos muito bons é natural que queiram recuperar suas perdas''. A essa declaração, Lula, na época, acrescentou: ''Acho o exercício da democracia fantástico''.

Essa já era uma prova que o atual governo fazia, como dele se esperava, uma leitura política da economia. Ponto para um dirigente que sempre entendeu que a guerra é de posição. O que tinham a dizer os seus detratores? Nada. O pessimismo na inteligência se somado ao otimismo na ação leva Marília a Dirceu. A grita pueril de senhores que gostam de impressionar platéias estudantis termina com Heloísas no colo de Virgílio ou Agripino. O último tipo de casal não costuma gerar filhos pródigos.

Na mesma edição de O Globo, matéria de página inteira se dedica a destacar que “a cara da economia brasileira poderá mudar na próxima década, diante da possibilidade de o país dispor de reservas gigantes de petróleo". O secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nélson Barbosa afirma que "é como se a União ficasse mais rica. Ela passa a ter mais ativos. Isso aumenta as receitas de petróleo e também o primário, o que contribui para o bem e o mal".

Por isso quando lemos que “Índio da Costa pedirá indiciamento de Dilma e Aparecido" ou que o “DEM fecha questão contra CSS" não estamos, apenas, diante de chamadas que expõem a agenda eleitoreira da grande imprensa para as próximas eleições presidenciais. Mais que isso. O que está sendo orquestrado é o butim de uma herança bendita. Um seqüestro do futuro que as forças progressistas devem impedir a todo custo

terça-feira, 3 de junho de 2008

Desejo de matar - por Cartacapital

Em 23 de maio, em conversa com editores do jornal Argus Leader, do estado de Dakota do Sul, Hillary Clinton explicou por que não vê razão para desistir, apesar de Barack Obama já ter a maioria absoluta dos delegados comprometidos (1.660 de um total de 3.253, ante 1.499 dela) e estar perto da maioria absoluta da convenção, superdelegados incluídos (1.979 em 4.049, ante 1.781 da rival).

“Meu marido não garantiu a nomeação em 1992 até vencer a primária da Califórnia em algum dia do meio de junho, certo? Todos nós lembramos que Bob Kennedy foi assassinado em junho, na Califórnia. Eu não entendo.”

Os ouvintes entenderam – e devem ter ficado chocados, por mais cínicos que fossem. Em 5 de junho de 1968, Robert Kennedy venceu as primárias da Califórnia e fortaleceu-se como candidato para a convenção democrata, mas à noite foi baleado e morreu no dia seguinte, o que garantiu a indicação de Hubert Humphrey, vice de Johnson (que perdeu para Nixon).

Como certos personagens de Woody Allen, Hillary veste o inconsciente por cima do tailleur. Agora se tem o direito de imaginá-la exercitando o pensamento positivo (no qual parece ser muito versada) a visualizar o concorrente coberto com um lençol sobre a calçada – ou, quem sabe, linchado e pendurado em alguma árvore –, enquanto ela profere, emocionada, o discurso de aceitação da candidatura democrata.

Seria ingenuidade pensar que alguém pode chegar a candidato presidencial nos EUA sem ser, potencialmente, uma máquina de matar. Mas talvez não seja pedir demais aspirar a que não seja uma máquina descontrolada. Essa disposição de destruir quem quer que se ponha no seu caminho é de assustar os mais pessimistas em relação ao sistema político estadunidense.

Rosa dos Ventos - por Maurício Dias (Cartacapital)

Reunido com um grupo de intelectuais em Brasília, na quinta-feira 22, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fez uma análise curta e expressiva do processo político em marcha no continente.
Chávez usou o diabo como metáfora da principal mudança ocorrida nos últimos dez anos na América Latina. O ponto de inflexão foi marcado, para ele, pela primeira conferência de cúpula da América Latina, Europa e Caribe, realizada no Brasil. Chávez era presidente recém-eleito. O Brasil era governado por Fernando Henrique.

Estavam todos sentados ao redor de uma mesa “muito grande”, na lembrança de Chávez. O cubano Fidel Castro falou e o venezuelano usou a palavra logo depois. Os dois mostraram muita afinidade. Fidel, através do chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, mandou um bilhete que Chávez mantém guardado e freqüentemente cita. “Fidel”, contou o presidente venezuelano, “escribió de su puño y letra”:

“Chávez! Siento que ya no soy el único diablo”.

De lá para cá, o “diabo” multiplicou-se. Além de ter aparecido como militar (Chávez) na Venezuela, tomou forma de operário (Lula) no Brasil, encarnou em um índio (Evo) na Bolívia e, na Nicaraguá, surgiu como guerrilheiro (Ortega). A última aparição, no Paraguai, é mais surpreendente: tomou o corpo de um bispo (Lugo).

Não há exorcismo político capaz de dar jeito nisso. Há uma unidade nessa proliferação de “diabos” neste momento. O processo sucede uma fase longa, em que a sociedade parecia alijada do processo. O número imenso de excluídos parecia condenado à margem da história. Após as frustradas iniciativas de rebeliões armadas, floresceram os regimes militares e, posteriormente, governos civis, tímidos e frágeis, que davam continuidade a um cenário criado pelas ditaduras: a paz dos cemitérios.

Há quem acredite que tudo isso seja um grande retrocesso. Uma involução. Acreditam que, logo, logo, as coisas voltarão aos eixos. Mas parece difícil bloquear um processo enraizado nos graves problemas sociais do Brasil, da Venezuela, do Paraguai, da Nicarágua, da Bolívia e outros. As circunstâncias sociais dramáticas do continente são o fermento do caldeirão do diabo. Nessas circunstâncias, o processo pode até mesmo ser freado. Temporariamente. Ressurgirá sempre, mais à frente, encarnado em homens e mulheres que reagirão, talvez de forma mais agressiva, ao precário contrato social edificado sobre a miséria de milhões de pessoas.

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Oposição em sintonia fina
Mais uma vez, o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, sintoniza a voz na freqüência da oposição a Lula.
Dias antes de ser apresentada a emenda da Contribuição Social para a Saúde (CSS), Mendes, atiçado por um repórter, surfou na onda especulativa de que a proposta da CSS fosse encaminhada por meio de um projeto de lei.

“Vamos ter um estresse do ponto de vista constitucional. Vamos ter alguma impugnação no Supremo Tribunal Federal”, comentou.

A CSS é uma tentativa do governo de remediar os males da extinção da CPMF. Fixa uma alíquota de 0,1% sobre as movimentações financeiras acima de 3.038 reais. É uma contribuição dos mais ricos aos mais pobres.
A derrota da CPMF foi uma iniciativa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do ex-senador Jorge Bornhausen, do DEM. Um graduado integrante desse partido, em conversa sob sigilo, conta que os dois acreditam que sem a CPMF Lula perde o fôlego no campo social.

“Será impossível sustentar o Bolsa Família. Esvaziaram o modelo e bloquearam o terceiro mandato”, revela o integrante do DEM.

Se tudo correr como prevê a oposição, com Gilmar Mendes disposto a levantar barreira no STF, o próximo presidente terá de arcar com a decisão de podar o programa social.

Mas não há crime perfeito. O desgaste do sucessor dará a Lula a chance de voltar em 2014 com um apoio popular insuperável.

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Andante Mosso
Cegueira administrada

O Brasil aparece na reportagem de capa da The Economist, desta semana, como o país emergente que escapou às trepidações da crise de alimentos e da inflação alta.

A notícia foi registrada na imprensa brasileira. Mas sonegaram um dado importante. Ele explica a razão do grande desempenho do País.

Nos países emergentes, o preço da comida é responsável por 30% a 40% do gasto com a cesta de consumo. Nos países ricos, o porcentual é de apenas 15%. O Brasil, nesse ranking, só fica atrás do G-7, como mostra a tabela acima, publicada pela revista.

A leitura seletiva jogou no ralo, mais uma vez, a isenção, a objetividade e a imparcialidade que a imprensa brasileira quer encarnar.

Carta na manga
A demissão da ministra Marina Silva deixou marcada a afinação entre o presidente Lula e o governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro.

Um interlocutor político do presidente diz que Cabral, do PMDB, faria a primeira-dama, dona Marisa, quebrar a fidelidade eleitoral ao PT, em 2010.

A imagem pode ser um exagero, mas, além de realçar a presença da primeira-dama no jogo, mostra o valor da carta no baralho político de Lula.


Crédito desmatamento
O governador Blairo Maggi, com a aberta simpatia do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, não conseguiu alterar a Portaria 3.545, do Conselho Monetário, que cria regras bem mais duras para a concessão de empréstimos para a agricultura.

A regra entra em vigor a partir de 1º de julho, como foi assinada no dia 29 de fevereiro.

Haverá uma pequena alteração. Há municípios que têm uma parte dentro do Bioma Amazônia e outra fora. A mudança a ser feita deixa claro que a nova regra não alcança áreas fora desses limites.


Fé política
As reações à aliança eleitoral entre o governador tucano Aécio Neves e Fernando Pimentel, prefeito petista de Belo Horizonte, mostram que o episódio deixa marcas entre os militantes históricos do PT.

Plínio Arantes, ex-chefe de gabinete de Patrus Ananias, na prefeitura de BH, deu baixa na ficha de inscrição partidária.

Ao mudar o Natal, o PT vai perdendo cristãos.

Nasce um gigante
O próximo dia 12 será especial para o empresário Frank Geyer.

Precisamente às 11 horas assinará com a Petrobras o contrato de criação da Companhia Petroquímica do Sudeste (CPS). O ato terá um sabor especial para Frank, neto de Maria Cecília Geyer, matriarca do Grupo Unipar.

Ele removeu as barreiras que impediam a consolidação do projeto. Uma delas foi a disputa com a Suzano para saber quem comprava e quem vendia. A outra, a sucessão familiar, parecia impossível de ser resolvida.
Geyer fará agora a engenharia financeira da CPS, da qual detém 60% das ações. Venderá os terminais portuários do grupo e pretende reduzir a dívida de US$ 1 bilhão para US$ 300 milhões, enquanto coloca as mãos em um ativo de US$ 8 bilhões.

Assassinato do português
Durante as articulações para bloquear a aprovação da Contribuição Social para a Saúde, o líder tucano Arthur Virgílio afirmou ao jornal O Globo:

“Vamos ter uma capacidade enorme de obstacularizar o processo”.

Sem a imunidade parlamentar, seria preso em flagrante. Um crime com agravantes. Diplomata de carreira, ele nasceu em berço de ouro e freqüentou as melhores escolas. Do primário à universidade.

Os invasores
O debate sobre a Amazônia não pode descuidar do que ocorre na reserva indígena-ambiental Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Os arrozeiros são invasores, como reafirma o manifesto enviado ao Supremo Tribunal Federal, assinado por importantes antropólogos brasileiros, pela CNBB e SBPC e outras instituições.

“A resistência à desintrusão da área se reduz a um pequeno grupo de arrozeiros”, diz o documento. No início dos anos 1990, eles ampliaram a área de produção, “mesmo sabendo tratar-se de propriedade da União”.
Sintonizados com a questão da soberania, eles registram que as terras indígenas são bens da União, “indisponíveis e inalienáveis”.

Vamos olhar para o Sul - por Antonio L. M. C. da Costa (Cartacapital)

Na sexta-feira 23 de maio, Lula, Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa atrasaram em uma hora a formalização do tratado constitutivo que deu partida à União de Nações Sul-Americanas (Unasul), ao prolongar o café da manhã conjunto. Possivelmente, o tema era a desistência do nome indicado para secretário-geral, o ex-presidente equatoriano Rodrigo Borja. Sua substituição não é tão simples, já que o cargo é reservado a ex-presidentes.

Admirador de Simón Bolívar, Borja se disse inconformado com a persistência do Mercosul e da Comunidade Andina, que, a seu ver, reduzem a organização a mais um fórum, dos quais já há muitos. Gostou ainda menos do conselho de 12 delegados que terá parte das atribuições executivas que ele desejaria ter à disposição, permitindo-lhe reagir com rapidez às eventuais crises.

Mas não foi por tomar as dores de Borja e apoiar seu sonho apressado e ambicioso de unidade que grande parte da imprensa brasileira cobriu a fundação da Unasul com um soberano torcer de narizes. Trata-se do mesmo desprezo que acompanhou todas as iniciativas que, como o Mercosul e o G-20, a obrigam a se lembrar de que o Brasil é um país periférico e latino-americano. Deve ser artefato retórico destinado ao fiasco, por definição, tudo que não atenda aos interesses dos EUA e dos países ricos e não alimente a ilusão da elite brasileira de pertencer a eles.

O futuro da organização pode inspirar todos os tipos de dúvidas e questionamentos, mas é curioso ver cobrar de uma organização recém-nascida uma integração econômica que a Europa levou mais de 50 anos para construir e uma unidade política que, até hoje, não alcançou. Não há nada de ilógico na sua coexistência com blocos regionais, assim como o Benelux coexiste com a União Européia desde seus primórdios.

Não é tão razoável quanto parece cobrar que os blocos regionais – objeto do mesmo ceticismo desde seus primeiros momentos – resolvam todas as suas divergências internas antes de se pensar em uma organização mais ampla. A Comunidade Andina e o Mercosul não são unidades estanques e a integração energética, econômica e viária entre os dois grupos é tão indispensável quanto dentro deles. Nem a Venezuela, nem a Bolívia, nem o Brasil, nem o Chile podem se dar ao luxo de virar as costas a qualquer um dos dois grupos. Governos são passageiros, assim como seus desentendimentos, mas a vizinhança é permanente e a necessidade mútua é crescente.

Além disso, do ponto de vista político, uma comunidade de 12 integrantes – todos os países independentes da América do Sul – pode ter um grau de flexibilidade, equilíbrio e dinâmica interna que não é possível em um grupo de quatro ou cinco, principalmente se dentro destes um ou dois países monopolizam as decisões práticas por seu peso econômico. É a eterna queixa do Paraguai e do Uruguai em relação a Brasil e Argentina, que fora de uma comunidade mais ampla não tem solução realista.

Mais importante e urgente, uma maioria substancial dentro de uma união subcontinental de 12 países pode reunir peso e legitimidade para mediar conflitos políticos e internacionais e persuadir governos e oposições agressivas, coisa impraticável tanto para pequenos blocos regionais quanto para uma organização assimétrica como a Organização dos Estados Americanos (OEA), desequilibrada pela presença de uma superpotência militar indisposta a acatar maiorias ou mesmo a lei internacional.

Mesmo uma organização como a União Africana, com menos de seis anos, mostra ter valor em tais situações. Mesmo sem superar todos os conflitos entre países africanos, para não falar daqueles que os dividem internamente, a intervenção de tropas coordenadas pela UA, ainda que insuficiente, já salvou vidas no Sudão e no Burundi e, em março deste ano, derrotou o golpe separatista que quis tornar independente a ilha de Anjuan da União das Comoras.

A mediação política da organização africana pressionou com sucesso dois governos golpistas a celebrar eleições, teve um papel importante em conter, ou pelo menos adiar, a incipiente guerra civil no Quênia e é a esperança de solução pacífica da crise no Zimbábue. Mesmo a UA estando alicerçada em processos de integração política e econômica bem mais precários que os sul-americanos e coexistindo com nada menos que cinco blocos regionais formais, cada um deles também longe de superar suas disputas políticas internas ou atingir uma verdadeira integração econômica.

Essa é a perspectiva que deu urgência à formalização de uma organização semelhante na América do Sul: a existência de tensões para as quais se quer debater e legitimar soluções sem intervenções externas. Não deve ser tão difícil. Ao contrário do que afirmam tantos editoriais mal-humorados, as brechas entre os países sul-americanos têm se estreitado mais do que se alargado. Com a vitória de Fernando Lugo no Paraguai, ampliou-se ainda mais a amplitude da maioria de governos de centro e esquerda que compartilham, entre outros interesses, o da autonomia regional.

Com a exceção, por certo, da Colômbia, que, por ter os EUA por trás, parece ter ganhado aos olhos da imprensa conservadora um peso maior que o de todo o resto da América do Sul. Esta, ao ver dos jornais, não deveria ter outro objetivo que poupar alguns trocados a Washington, ajudando Uribe a esmagar o “narcoterrorismo” e, de quebra, os movimentos sociais e camponeses de seu país. Como se o problema do continente, o obstáculo à sua integração e o responsável pelas redes de narcotráfico que envolvem elites de todo o planeta fossem um grupo guerrilheiro acuado e desesperado.

Bogotá não tem interesse em enfraquecer a sua relação com Washington – pelo contrário, seu interesse é esvaziar a Unasul e aferrar-se à OEA, onde os EUA são a voz dominante e disposta a defender seu “direito” de realizar operações unilaterais em países vizinhos quando e onde desejar. Que a Colômbia tenha emperrado a criação do Conselho de Defesa, proposto pelo Brasil, ao exigir que todos os seus integrantes classifiquem as Farc como “terroristas” não é de se admirar. É de se assinalar, antes, que tenha ficado sozinha nessa postura.

Ainda durante a manhã, o ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, que há meses negociava o acordo militar com os vizinhos e, diplomaticamente, recusava a proposta de participação dos EUA, dizia querer criar o conselho com ou sem a Colômbia, mas, ao longo das horas, para evitar uma ruptura explícita no ato da fundação da Unasul, recuou e aceitou a proposta do Chile de estudar a questão por 90 dias.

Para, provavelmente, decidir prosseguir sem Bogotá, que não mudará de posição. Como assinalou, sorridente, o equatoriano Rafael Correa, “mais tarde podem se integrar os países que talvez tenham mais resistências”. Com a Colômbia de fora, o Conselho de Defesa terá uma influência limitada sobre o seu governo, no caso de novo atrito com os vizinhos. Mas Álvaro Uribe saberá que está isolado e terá de se conter.

O jornal Valor chamou o Conselho de “delírio burocrático” porque “a ameaça maior é a de um choque entre países vizinhos” e falta “inimigo externo a combater”. Mas foram exatamente os enfrentamentos entre Colômbia, Venezuela e Equador que deram força à idéia e lhe permitiram decolar com rapidez. De resto, seria igualmente difícil precisar hoje o nome de um inimigo externo comum para a União Africana, a União da Europa Ocidental (braço militar da UE), o Conselho de Segurança da ONU, ou mesmo da Otan.

Se, de início, o Conselho de Defesa parece pouco mais que um fórum, é exatamente essa a necessidade mais premente. Seu sucesso ou fracasso dependerá, em primeiro lugar, da disposição de seus integrantes de respeitá-lo como fórum de resolução de conflitos e respaldar suas decisões. Se também se mostrar capaz de ajudar zonas afetadas por desastres naturais e coordenar envio de tropas a missões de paz, como deseja Jobim – nada mais do que os africanos já sabem fazer –, tanto melhor.

Conflitos nas fronteiras da Colômbia não são os únicos problemas difíceis de tratar no âmbito de blocos regionais e que uma organização como a Unasul pode ajudar a resolver. Há de mediar desentendimentos entre Uruguai e Argentina pelas papeleiras, as divergências entre produtores e consumidores sobre preços de gás e energia (inclusive, entre Paraguai e Brasil), debater projetos de desenvolvimento continentais e compatibilizar, construir e proteger redes de transporte e redes de distribuição de gás e energia por todo o continente (a começar pelo venezuelano Gasoduto do Sul).

Mas, se há uma emergência pronta para testar a Unasul e que, de fato, é uma ameaça séria e iminente à estabilidade e à democracia do continente, não é nenhuma destas e muito menos a decadente guerrilha colombiana, mas o renovado risco de guerra civil na Bolívia.

No domingo seguinte à cerimônia em Brasília, Evo Morales deveria comparecer a um ato público em Sucre, para a tradicional comemoração do “primeiro grito libertário” na América do Sul. Foi nessa cidade, em 25 de maio de 1809, que estudantes da Universidade São Francisco Xavier se rebelaram contra o governo espanhol no primeiro dos atos de rebeldia que levaram à libertação do continente, mais de um ano antes de Bolívar iniciar a sua epopéia.

Durante a noite de sexta-feira, porém, a prefeita, o reitor e outras lideranças da elite branca de Sucre decidiram proibir a entrada do presidente na “sua” cidade. Um grupo numeroso, principalmente de estudantes, armou uma vigília em torno do estádio onde deveria se realizar o evento. Na manhã seguinte, grupos indígenas chegaram das zonas rurais para protestar contra o bloqueio e deu-se um primeiro enfrentamento, apartado por soldados.

Para evitar violências piores, Evo Morales cancelou o evento e mandou retirar as forças militares e policiais, mas o recuo acabou por mostrar-se um erro. Entusiasmados pela vitória fácil, grupos de estudantes – sim, da mesma Universidade da qual partiu, há 199 anos, o “grito libertário” – puseram à mostra todo o seu ódio racista e suas propensões fascistas.

Atacaram os indígenas que se retiravam, tomaram 50 reféns entre os prefeitos e vereadores dos povoados e arrancaram-lhes as roupas indígenas tradicionais para queimá-las em praça pública. Com veículos e alto-falantes da prefeitura, fizeram-nos caminhar seminus por 1 quilômetro e meio, agitando bandeiras separatistas de Sucre e suportando golpes e humilhações, até serem ajoelhados em frente à Casa da Liberdade na praça principal – salão que pertenceu à universidade, onde foi proclamada a Independência – e gritar lemas autonomistas e contra Morales, além de implorar perdão pelos supostos agravos à cidade. Tudo sob o aplauso da elite urbana branca e a omissão das tevês, que se limitaram a noticiar o cancelamento da viagem presidencial.

Nada a dever à Noite de Cristal e demais atrocidades cometidas pelos camisas-pardas contra os judeus. Não passou despercebido à ONU, cujo Alto Comissariado para Direitos Humanos condenou esse atentado aos direitos humanos com “tons de discriminação racial”. Não se poderia pedir sinal mais óbvio da necessidade urgente de uma organização como a Unasul. Se estará à altura de intervir em favor da democracia e unidade da Bolívia, veremos, mas é seu o dever de tentar, ao menos, imitar a irmã africana.

O pacote meia boca - por Cartacapital

Com alarde, os ministros Guido Mantega (Fazenda) e Reinhold Stephanes (Agricultura) anunciaram, na terça-feira 27, um pacote de valor recorde, de 75 bilhões de reais, para renegociar as dívidas dos agricultores inadimplentes e ampliar os prazos de pagamento. Há até a possibilidade de quitação do débito com 80% de desconto. Segundo Stephanes, “é preconceito achar que os agricultores são caloteiros”. Em oposição à euforia da equipe econômica, o setor rural não desdenhou a iniciativa, mas a classificou de tardia e não abrangente. Têm razão os produtores agrícolas. Assim como o titular da Agricultura.

Um dos fatores que afundaram o setor em dívidas foi o câmbio valorizado, para o qual Lula fecha os olhos e cede às decisões do Banco Central. Outro, como costuma citar o ex-ministro e colunista de CartaCapital, Delfim Netto, está ligado diretamente à ausência do seguro da safra, não incentivado pelo governo. Além disso, faltam investimentos em pesquisa para melhorar a produtividade. Por fim, um ponto irrefutável é a falta de infra-estrutura para o transporte e escoamento da produção no País e as pendengas ambientais, invariavelmente mal-explicadas à população. Além de, é claro, existir o efeito da natureza sobre o campo, nem sempre benéfico.

Sob aplausos tímidos, o pacote ganhou manchetes. Seria, no entanto, mais convincente se viesse acompanhado de medidas que contemplem o futuro e não apenas tentem consertar os estragos do passado. O Brasil, lembre-se, é produtor de commodities por excelência. Por ora, os ventos sopram a nosso favor. Mas podem mudar.

Sindicalismo de resultados - por Cartacapital

A Força Sindical não nasceu do sonho e das lutas de um grupo de operários. É, antes de mais nada e sobretudo, resultado da articulação do empresariado paulista. Cevada no peleguismo, tinha a função de se contrapor, com seu “sindicalismo de resultados”, à crescente influência da “inconfiável” Central Única dos Trabalhadores. Mas, como Fernando Collor de Mello, feito presidente da República em 1989 para impedir a vitória de Leonel Brizola ou do Sapo Barbudo, a Força saiu do controle. Sua deformação deriva da soma da tacanhez das elites econômicas de São Paulo com a tendência do Estado brasileiro de tutelar os movimentos sociais, exacerbada nesses anos de Lula no poder.

Servir de engrenagem ao capital deixou de ser interessante há alguns anos para os dirigentes da central. Descobriu-se algo mais rentável, seguro e de futuro promissor: a manipulação das verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e a criação de ONGs alimentadas com dinheiro público. O fortalecimento, inclusive financeiro, da Força Sindical impulsionou a carreira política de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, principal liderança nacional da entidade e deputado federal pelo PDT. E tem sido a causa de sua desgraça. Gravações interceptadas, documentos apreendidos e depoimentos tomados pela Polícia Federal, no rastro da Operação Santa Tereza, apontam Paulinho como um dos chefes de um esquema que mistura desvios de empréstimos do BNDES, lastreados pelo FAT, e uma rede de prostituição. Coisa de filme B.

O deputado nega as acusações, se diz vítima de “armação política” e promete pedir reparação judicial por eventuais danos morais. A cada dia, sua situação fica, porém, mais complicada. O corregedor-geral da Câmara dos Deputados, Inocêncio Oliveira (PR-PE), deu a entender que recomendará a cassação do parlamentar, por não ter dúvidas a respeito das acusações que pesam contra o colega. Na quarta-feira 28, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, solicitou ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigar Paulinho (como deputado, ele tem foro privilegiado).

As acusações envolvem assessores próximos do parlamentar e até sua mulher, Elza de Fátima Costa Pereira, ex-secretária da presidência da Força Sindical e que, após o casamento, tornou-se responsável pelo projeto Meu Guri. A ONG é acusada de receber dinheiro do esquema, que facilitava empréstimos com prefeituras e empresas no estado de São Paulo a partir de projetos fajutos. A PF afirma ter identificado, até o momento, repasses de cerca de 150 mil reais da quadrilha para Paulinho e Elza em apenas uma das operações de empréstimo. Um dos cabeças do esquema, João Pedro de Moura, ex-assessor do deputado, mudou sua versão da história e tem inocentado o ex-chefe. “Coloquei para o grupo todo que tinha de pagar o Paulinho, mas, na verdade, esse dinheiro era para mim, para poder melhorar minha participação nos honorários”, declarou Moura no último depoimento à PF.

Ainda que as acusações revelem muito do caráter peculiar da administração da Força Sindical, que mais se parece com uma empresa privada cujo acionista majoritário é o deputado Paulinho, a situação deveria servir de reflexão aos movimentos sindicais brasileiros. Fundamental no processo que desaguou no fim da ditadura e na campanha pelas Diretas Já, o sindicalismo tornou-se quase irrelevante no Brasil de Lula. Quando muito, aparece algum dirigente para reclamar da alta dos juros ou de alguma medida econômica pontual, à moda dos barões da Fiesp. Nem os trabalhadores formais, muito menos os informais, podem se sentir hoje representados pelas organizações sindicais, justamente em um momento de profunda transformação da economia nacional.

Enquanto correm atrás da própria sobrevivência, no lobby pela manutenção do imposto sindical, e comemoram o ciclo de melhora dos níveis de emprego e renda, cuja duração ainda é incerta, os sindicatos parecem trancafiados em uma espécie de autismo social. Entre a tibieza e a malandragem.

Nas águas do Nordeste - por Emiliano José (Cartacapital)

O governador do Piauí, Wellington Dias, manifestou sua opinião: a expressão do novo Brasil que se vive é o fato de que, pela primeira vez, há uma política que de fato leva em conta o conjunto do País. Ele defendeu essa idéia na abertura do seminário O novo Nordeste e o Brasil, sobre o qual falei no meu último artigo, realizado nos dias 15, 16 e 17 de maio, em Teresina, e promovido pela Fundação Perseu Abramo. E isso – acrescentou o governador – se dá num momento em que o mundo encontra-se inteiramente globalizado. Em meio, portanto, a um cenário em que os projetos nacionais encontram dificuldades de viabilização.

Esse projeto nacional, sob o governo Lula, não pretende nenhuma homogeneização. Observam-se as singularidades econômicas e culturais. Antes, muitos projetos se desenvolveram. Houve surtos de desenvolvimento em algumas áreas geográficas. Hoje, a tentativa é para que o conjunto do País se desenvolva e que, ao se desenvolver, ocorra também a distribuição de renda.

Dias falava sobre isso olhando de modo especial para o Nordeste. Há uma nova política para a região sob o governo Lula. E isso faz com que nenhum governador deva voltar-se apenas para seu Estado. Necessariamente, os governadores, especialmente a partir das últimas eleições, quando houve vitória de correntes progressistas, devem compreender que nenhuma política isolacionista terá sucesso nessa nova conjuntura.

O Nordeste é detentor de um conjunto de riquezas que ainda não tem condições de desfrutar econômica e socialmente devido especialmente às deficiências de infra-estrutura. Só para se ter uma idéia das dificuldades, Dias citou o fato de que no Piauí 70% da população não dispunha de energia elétrica. O programa Luz para Todos, do governo federal, é que está permitindo, agora, o enfrentamento do problema.
Impõe-se ao Nordeste de hoje, primeiro, na avaliação de Dias, que se mantenha uma rede de proteção aos mais pobres – e o Bolsa-Família tem sido um programa essencial nessa direção –, um ousado projeto de educação (que vá da alfabetização à pós-graduação) e um conjunto de investimentos voltado à infra-estrutura – rodovias, ferrovias, energia elétrica. E cada governador deve procurar absorver as experiências positivas desenvolvidas por outros Estados, para além de suas opções partidárias.

O ministro-chefe da Secretaria Geral da presidência da República, Luiz Dulci, desenvolveu raciocínios semelhantes. O projeto do governo Lula desenvolve-se de modo integrado, mas levando em conta as várias particularidades regionais. Recorreu a Sérgio Buarque de Holanda para dizer que o Brasil deve superar as desigualdades, mas valorizando as diferenças. “A diferença não é um problema. O problema é a desigualdade”, disse o ministro.

O desenvolvimento não se resume ao econômico. Há desenvolvimento, na opinião de Dulci, quando se consegue distribuir renda, conhecimento e poder. Citou um exemplo: até maio deste ano, sob o governo Lula, haviam sido realizadas 49 conferências nacionais, com a participação de mais de 3 milhões de pessoas, a evidenciar o envolvimento da sociedade civil na formulação das políticas públicas.

O seminário debruçou-se também sobre a política das águas ou, se preferirmos, sobre a segurança hídrica. O conferencista foi José Machado, atual diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), que lembrou, de um lado, o fato de o Brasil ser o país com maior disponibilidade de água do planeta, mas, também, que 70% dessa água estão localizados na Amazônia.

O grave, no entanto, quando se analisa o Nordeste é que uma região que abriga 29% da população do País conta com apenas 3% da disponibilidade de água do Brasil. E, para agravar mais o quadro, a água na região é mal distribuída. Machado fez um histórico sobre a política de recursos hídricos no Nordeste.

Lembrou que durante mais de 100 anos desenvolveu-se a política de construção de açudes na perspectiva de guardar água no período chuvoso para usá-la no período da seca. Isso, no entanto, não implicou desenvolvimento do Nordeste. Até porque não implicava usos múltiplos da água. E o problema da concentração da propriedade da terra continuava sem solução. O Proágua, programa do governo federal, está construindo novos açudes, canais e adutoras, e com isso está organizando melhor a distribuição e facilitando também as atividades de irrigação. Já estão contabilizados em torno de 800 mil hectares irrigados no Nordeste.

O fato, no entanto, é que a população rural dispersa, que é grande, não é atendida pelos açudes. O programa de construção de cisternas pretende atender esse contingente. Esse programa, que pretende coletar e armazenar água da chuva em cisternas para garantir água para beber e para uso familiar. Em aglomerações de mais de 20 famílias, dá-se a perfuração de poços e, a partir do poço, se constrói uma caixa d’água, uma lavanderia e sanitários.

Se a tudo isso se junta o projeto de interligação de bacias, há então uma política de recursos hídricos mais equilibrada. Ao se importar água de outras bacias e ao assegurar que ela possa servir também a usos econômicos, pode ocorrer uma distribuição mais homogênea da água. Com o aumento da população nordestina, vai aumentar também a atividade econômica. E assim cresce o consumo de água para o povo e para o setor produtivo.

A gestão das águas deve ser desenvolvida, na opinião dele, olhando-se principalmente o consumo humano. Mas não pode desconsiderar as necessidades da economia. Disse que há uma democratização da gestão, com a existência dos Comitês de Bacias e Conselhos Estaduais. A sociedade civil vem participando. O governo federal está preocupado, também, com a qualidade da água dos açudes. Anteriormente, a única preocupação era com a quantidade de água que eles armazenavam. Hoje, a apreensão é com o fato de que eles estão se poluindo, sobretudo com os esgotos domésticos. Serão necessários investimentos altos para o trabalho de despoluição.

Esse novo Nordeste tem que enfrentar tudo isso. O Nordeste já convive com metrópoles. Com uma imensa e dispersa população rural no gigantesco semi-árido. Parques industriais significativos. Áreas de agro-negócio de grande vulto. Concentração da propriedade da terra. Um déficit educacional de bom tamanho. Escasso desenvolvimento de ciência e tecnologia. Alto índice de analfabetismo. Monoculturas como as do eucalipto e da cana em várias regiões. Crise de culturas tradicionais, como o algodão e o cacau. Investimentos altos do Programa de Aceleração do Crescimento, especialmente na infra-estrutura.

É sobre essa realidade complexa, contraditória e dinâmica sob vários aspectos que os governadores terão que se debruçar. Sem particularismos. O novo Nordeste só poderá enfrentar os desafios que têm pela frente se conseguir criar uma alguma unidade que, levando em conta as diferenças, encontre os pontos comuns para o desenvolvimento com distribuição de renda. É esse desenvolvimento que interessa à população. Parece ter sido essa a principal lição do seminário sobre o novo Nordeste.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Não perca o seu tempo com o PiG: leia o The New York Times - por PHA

Se você acha que o Brasil não tem futuro.

. Que o Brasil tirou a Mega-Sena e só por isso a economia vai bem.

. Que tudo o que tem de bom no Brasil se deve ao Farol de Alexandria.

. Se você não perde a Miriam Leitão na tevê aberta, no cabo, no jornal e na radio.

. Que o Brasil deveria invadir a Bolívia e o Paraguai.

. Se você acha que os colonistas do PiG são uma cruza de Montaigne com William Safire.

. Se você acha que o Daniel Dantas é um gênio incompreendido.

. Que a Amazônia deve ser internacionalizada.

. Se você acha que a Petrobrás deveria ser a Petrobrax, privatizada.

. Que sem o boom das commodities o Brasil seria um Haiti.

. Que a promoção da Standard & Poor’s e da Fitch foi imerecida e resultará na maior desgraça que já se abateu sobre os brasileiros.

. Se você morre de inveja de quem já foi ao Shopping do Auriemo, que se separa da Daslu pelo odor da Marginal.

. Que a elite branca é “melhor” preparada.

. Que o “Bolsa Família” é o “Bolsa Vagabundo”.

. Se você acha que o Brasil é uma porcaria e não merece figurar num inevitável Conselho de Segurança da ONU ampliado.

. Que o Presidente Lula é um despreparado.

. Se você acha que as favelas deveriam ser removidas ou incendiadas.

. Que o Capitão Nascimento merece uma estátua.

. Que o Congresso não presta e deve ser substituído pelo Supremo Tribunal Federal.

. Que o Império americano é eterno, como Roma, e o melhor é o Brasil se tornar Porto Rico.

. Que o presidente eleito José Serra é “um grande economista”.

. Se você acha tudo isso, definitivamente, você não pode ler o New York Times.

. Não perca o seu tempo com o New York Times, esse jornaleco que não chega aos pés do PiG.

. Se, porém, você é um herético, do contra, não leva os tucanos – especialmente os de São Paulo - e seus estafetas a sério, então, leia a coluna desta segunda feira, dia 2, de Roger Cohen, na edição on line do New York Times:


June 2, 2008
OP-ED COLUMNIST
The World Is Upside Down
By ROGER COHEN
RIO DE JANEIRO

For a while the world was flat. Now it’s upside down.

To understand it, invert your thinking. See the developed world as depending on the developing world, rather than the other way round. Understand that two-thirds of global economic growth last year came from emerging countries, whose economies will expand about 6.7 percent in 2008, against 1.3 percent for the United States, Japan and euro zone states.

The sharp rise in prices for energy, commodities, metals and minerals produced mainly in the developing world explains part of this shift. That has created the balance of payments surpluses fueling dollar-dripping sovereign wealth funds in the gulf and East Asia. They amuse themselves picking up a stake in BP here, a chunk of Morgan Stanley there, and why not a sliver of Total.

We of the developed-world Paleolithic species are fair game for the upstarts now, our predator role exhausted. The U.S. and Europe may one day need all the charity they can get.

To place this inversion in focus, it helps to be in Brazil, where winter (so to speak) arrives with the Northern Hemisphere summer, and economic optimism, as exuberant as the vegetation, increases at the same brisk clip as U.S. foreclosures.

Huge offshore oil finds, a sugarcane ethanol boom, vast reserves of unused arable land, mineral wealth and abundant fresh water contribute to Brazilian buoyancy. But natural resources are only part of the story. As in China and India, an expanding internal market is bolstering growth. So is increasing corporate sophistication and global ambition.

At the annual National Forum, a gathering of business leaders, I felt like a first-world pipsqueak as leaders of the national energy company Petrobras (bigger than BP, Shell and Total) and Companhia Vale do Rio Doce, or C.V.R.D. (the world’s second largest mining company), reeled off head-turning statistics.

Petrobras, which has spearheaded Brazil’s push to self-sufficiency from heavy dependence on imported oil 30 years ago, will more than double oil production to 4.2 million barrels a day in 2015 from 1.9 million barrels today.

“With the latest discoveries, the South Atlantic will become a huge oil producer,” predicted Jose Sergio Gabrielli de Azvedo, its chief executive.

Roger Agnelli of C.V.R.D. waved away the United States (“It’s full of debt”) to focus on the company’s ambitions in Asia. It was imperative to be there, he said, because that’s where growth, capital and ambition are. China, he noted, will account for 55 percent of iron ore consumption, 31.6 percent of nickel, and 42 percent of aluminum by 2012. Case closed.

Like many other big emerging-market corporations, C.V.R.D. has been on a buying spree. It’s not just sovereign wealth funds that are acquiring first-world companies these days. It’s the new giants of the NAN (Newly Acquisitive Nations).

Emerging-market mergers and acquisitions are up 17 percent this year to $218 billion, while for the rest of the world they’re down 43 percent to $991 billion, according to Thomson Reuters.

The 2007 Unctad World Investment Report said developing-world direct foreign investment totaled $193 billion in 2006, compared with a 1990s annual average of $54 billion. The U.S. 2006 figure was $216.6 billion.

C.V.R.D. bought Canada’s Inco, a nickel miner, for $17 billion in 2006. It came close to acquiring the Anglo-Swiss miner Xstrata for $90 billion this year. Just last week, India’s Vedanta Resources reached a $2.6 billion deal to buy U.S. copper miner Asarco.

That deal is being challenged by Grupo Mexico, creating a Latin-American-Asian fight for a U.S. company.

If you have trouble getting your mind around that, try standing on your head.

That’s also a good position from which to view India’s Tata Motors agreeing to buy Land Rover and Jaguar from Ford for $2.3 billion, or Tata Steel’s acquisition last year of the Anglo-Dutch Corus Group steel company for $12 billion.

Globalization is now a two-way street; in fact it’s an Indian street with traffic weaving in all directions.
“In an inverted world, not only have developing economies become dominant forces in global exports in the space of a few years, but their companies are becoming major players in the global economy, challenging the incumbents that dominated the international scene in the 20th century,” said Claudio Frischtak, a Brazilian economist and consultant.

A shift in economic power is under way to which the developed world has not yet adjusted. Of course the G-8 and the permanent membership of the U.N. Security Council need to be expanded to reflect this change. The 21st century can’t be handled with 20th-century institutions.

That’s obvious. Less obvious is how the United States, which underwrites global security at vast expense, begins to share this burden, so that the new multi-polarity of wealth is reflected in a multipolarity of security commitments.

Headstands are in order for the next U.S. president.

Células-tronco: Anatomia do voto de Mendes - por PHA

. O Presidente Gilmar Mendes (provisoriamente no exercício da Presidência do Supremo Tribunal Federal) voltou sobre a constitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias de forma que merece análise.

. O Presidente (do Supremo) não precisava votar.

. A maioria de 6 votos já garantia a constitucionalidade da Lei de Biossegurança.

. Por que votar o Presidente?

. O que revela o seu voto?

. É o que o Conversa Afiada tenta responder.

. O Presidente votou, primeiro, para prestigiar a sua tese de que o Supremo – ou ele, o Presidente – é o Legislativo.

. O Presidente fez uma longa peroração inicial para explicar que, por ele, fecha-se o Legislativo e ele – o Presidente – legisla.

. O Supremo é “a casa do povo” – disse o Presidente.

. (Pensava que era o Congresso...)

. O Supremo é um “espaço democrático”.

. O Supremo é mais “idealista” que o Legislativo – disse o Presidente.

. Porque o Legislativo é escravo das “emoções” – e o Supremo é a instância da “racionalidade”.

. O Legislativo – disse o Presidente – se submete às relações de poder – o Supremo, não!

. (O Supremo se submete ao PiG, disse o Ministro Lewandowski)

. O Supremo – diz o Presidente – é a instância de “reflexão”.

. O Supremo, portanto, segundo seu Presidente, é sede da “República” de Platão.

. Desde Atenas que filósofos e idealistas tentam construir a “República” de Platão – sem sucesso.

. O próprio Platão, quando se transformou em marqueteiro e tentou vender sua “República” a um rei, saiu fugido, antes que sua cabeça fosse separada do pescoço.

. O Presidente (do Supremo) transformou os onze ministros do Supremo em reis filósofos – ele, é claro, no papel de Péricles.

. Estabelecido que ele, Mendes, é o Legislativo, ele, o Presidente, passou a examinar a questão em pauta; a Lei de Biossegurança é constitucional ou não.

. Aí, o voto desnecessário do Presidente – que, antes de ser lido já estava em minoria – se prestou a tentar provocar uma reviravolta, no tapetão.

. Mendes, é claro, achou a lei proveniente do Legislativo uma irremediável porcaria.

. Por que não uma Central Única – uma CUT – para garantir que os cientistas brasileiros – um conjunto de néscios e /ou de Franksteins – respeitassem padrões éticos?

. “A manipulação genética existe exige nova ética.” – disse o Conselheiro Acácio, que ocupa a Presidência do Supremo.

. “A Lei brasileira é insuficiente.” – bradou.

. “Precisamos de um Comitê Central de Ética.” – exigiu o Presidente.

. Temos que copiar a Alemanha! E a Espanha!

. Tratava-se de irremediável tolice.

. Foi o que provou o Ministro Cezar Peluso, que tomou a palavra em seguida.

. A Legislação brasileira – exemplar, orgulho dos brasileiros que não são candidatos a Presidente da República – confere a duas respeitáveis instituições a tarefa de zelas pela “nova ética”.

. Lembrou o Ministro Peluso que o Conselho Nacional de Saúde e o Comitê Nacional de Ética têm exatamente essa função.

. A função de autorizar, dar normas, proibir e interromper pesquisas e, até, aprovar o nome dos pesquisadores que trabalhem em pesquisas de células-tronco embrionárias.

. O Conselho é o “órgão último do sistema” – disse o Ministro Peluso.

. O Brasil não precisa de uma CUT genética.

. O que entender, então, do voto do Presidente Mendes ?

. Hipótese 1: ele deu um voto inepto, porque de novo ignorou a lei brasileira sobre a matéria.

. Ele entende muito de Alemanha, mas nada de Brasil – é o que se entende da declaração do Ministro Peluso!

. Ou, hipótese 2: o Ministro- Presidente (do Supremo) quis ganhar no tapetão.

. Os votos da minoria – minoria de 5 contra 6, é bom lembrar, sempre – eram ambíguos.

. Falavam que a Lei da Biossegurança é constitucional, MAS, MAS, falta isso, falta aquilo.

. E já no noticiário da véspera, o PiG – que não costuma entender nenhuma questão um pouco mais complexa – ficou em dúvida: a lei é constitucional, mas só pode ser aplicada se atender às solicitações dos Ministros que compõem a minoria?

. Dúvida cruel.

. Dúvida que só aumentou com o voto do Presidente (do Supremo): quer dizer que a lei só vale se houver a Central Única – a do Ministro e, não, a que já existe?

. Como é que fica?

. O Presidente Mendes instaurou o caos – porque é o Presidente e porque foi o último a votar.

. Até que se ouviu a voz da luz e da razão.

. Do Ministro Celso de Mello.

. A MAIORIA de 6 votos decidiu que a lei é constitucional e basta – disse Mello.

. Não tem mais nem meio mais.

. O Supremo NÃO é Legislativo nem o Executivo – disse Mello.

. Se o Legislativo e o Executivo quiserem ler e dar atenção às sugestões dos Ministros da MINORIA, isso é decisão deles – disse Mello.

. O papel do Supremo era julgar a constitucionalidade da lei e a MAIORIA decidiu que a lei é constitucional.

. O Presidente Mendes recolheu o tapetão e proclamou a vontade da MAIORIA.

. Em tempo 1: o voto do Ministro Carlos Alberto Direito – responsável pelo atraso na votação – é uma obra prima de obscurantismo. Como diz a cientista Lygia Pereira (clique aqui para ler ), as opções “científicas” que ele ofereceu significariam, na verdade, o fim das pesquisas, mais ortodoxo que o católico autor da Adin – o ex-procurador Cláudio Fonteles –, Direito deu uma no cravo e outra na ferradura – ficava bem na foto, porque se disse a favor da pesquisa – e ao mesmo tempo a tornava inviável. O Ministro Direito tem a “Opus Dei” nas suas células-tronco.

. Em tempo 2: Ministros do Supremo agora pensam que são renomados cientistas, teólogos ou filósofos. Ministro do Supremo julga a constitucionalidade de leis. Quem discute a origem e o fim da vida é teólogo e filósofo.

. Em tempo 3: O Jornal da Globo, como sempre, esteve tão perto do que aconteceu na sessão do Supremo quanto William Waack está de Marte. O repórter Heraldo Pereira informou que o momento “Fiat Lux” da sessão foi o voto do Ministro (?) Marco Aurélio Mello. E reproduziu um truísmo enfadado do Ministro (?) Mello. É assim que se faz uma fonte. E se dá notoriedade a quem não merece.

. Em tempo 4: A TV Justiça é um câncer. Os “repórteres” não sabem do que falam. As “reportagens” são inúteis. A TV Justiça só serve para transformar Ministros da Corte Suprema em estrelas de tevê. Alguém já viu uma câmera aberta na Corte Suprema da Inglaterra ou dos Estados Unidos? A TV Justiça é outra contribuição brasileira à civilização ocidental.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Caso Alstom - por Luis Nassif

O Estadão dá uma matéria detalhada sobre os meandros do ciclo de dinheiro no caso Alston. Ainda tem muito para caminhar, mas há ingredientes para ser um escândalo de proporções enormes. Clique aqui. São 34 milhões de francos franceses que circularam pela alta esfera.
Já a Folha dá uma suite sobre o pagamento de R$ 120,00 da Internet de um dos filhos do Lula com cartão corporativo. A matéria, relevante, diz que a quantia foi ressarcida.

Comentário: prefiro nem comentar.

O lucro ou as Pessoas? Neoliberalismo e Ordem Global - por Noam Chomsky

Os Estados Unidos já eram a maior economia do planeta desde muito antes da II Grande Guerra, durante a qual prosperou, enquanto seus rivais se enfraqueciam enormemente. A economia de guerra coordenada pelo Estado conseguiu, ao final, superar a Grande Depressão. No fim da guerra, os Estados Unidos detinham a metade da riqueza do planeta e uma posição de poder sem precedentes na história. Os grandes arquitetos de políticas trataram, é claro, de usar esse poder para criar um sistema global que viesse ao encontro de seus interesses.
Documentos de alto nível descrevem a principal ameaça a esses interesses, particularmente na América Latina, como sendo os “regimes nacionalistas” e “radicais” sensíveis à pressão popular pela “melhoria imediata do baixo nível de vida das massas” e por um desenvolvimento voltado ao atendimento das necessidades do país. Essas tendências conflitam com a exigência de “um clima político e econômico propício para o investimento privado”, com a adequada repatriação dos lucros e a “proteção de nossas matérias-primas” – nossas, ainda que localizadas em outro país. Por essa razão, o influente planejador George Kennan nos aconselhou a “parar de falar de objetivos vagos e pouco realistas como os direitos humanos, a elevação do nível de vida e a democratização”, e a “tratar de usar conceitos claros de poder”, “desembaraçados de frases idealistas”, sobre “o altruísmo e a beneficência mundial” – ainda que tais expressões sejam perfeitas, até obrigatórias, nos discursos públicos.
Estou citando documentos secretos agora disponíveis, em princípio, mas quase totalmente desconhecidos do grande público e da comunidade intelectual.

Em suma, a primeira grande experiência de desenvolvimento econômico foi uma “má idéia” para os governados, mas não para os seus criadores e para as elites locais a eles associadas. Esse padrão se mantém até hoje: coloca-se o lucro acima das pessoas. A consistência dessa crônica não é menos impressionante do que a retórica que aclama como “milagre econômico” a mais recente vitrina da democracia e do capitalismo e do que essa retórica geralmente esconde. O Brasil, por exemplo. Na elogiadíssima história da americanização do Brasil antes mencionada, Gerald Haines diz que os Estados Unidos vêm usando o Brasil desde 1945 como “área de teste para os modernos métodos científicos de desenvolvimento industrial baseado no capitalismo intensivo”. Essa experiência foi levada a cabo “com a melhor das intenções”. Os investidores estrangeiros se beneficiaram, mas os planejadores “acreditavam sinceramente” que o povo brasileiro também se beneficiaria ao tornar o Brasil “a menina dos olhos da comunidade internacional de negócios na América Latina” sob o governo militar – nas palavras dos jornais de negócios –, enquanto o Banco Mundial revelava que dois terços da população não se alimentava o bastante para suportar uma atividade física normal.
Em seu texto de 1989, Haines classificou a “política norte-americana para o Brasil” como “extremamente bem-sucedida”, “uma verdadeira história de sucesso americano”. O ano de 1989 foi um “não de ouro” aos olhos do mundo dos negócios, com lucros triplicados em relação à 1988 e um redução de cerca de 20 por cento nos salários industriais, que já figuravam entre os mais baixos do mundo; a classificação do Brasil no Relatório das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Humano estava próximo à da Albânia. Quando o desastre começou a atingir os ricos, os “modernos métodos científicos de desenvolvimento baseado no capitalismo intensivo” (Haines) se transformaram de uma hora para outra em prova dos males do estatismo e do socialismo – outra transição rápida que ocorre sempre que necessário.
Para apreciar esse avanço, devemos nos lembrar de que o Brasil há muito é reconhecidamente um dos países mais ricos do mundo, dotado de enormes vantagens, até mesmo meio século de influência e tutela dos Estados Unidos, que, com a melhor das intenções, por acaso estão uma vez mais a serviço do lucro da minoria, enquanto a maioria do povo é deixada na miséria.


Pediram-me para falar sobre aspectos da liberdade acadêmica e humana, convite que oferece muitas opções. Vou me limitar às mais simples dentre elas.
Liberdade sem oportunidade é um presente diabólico, e a negação dessas oportunidades, um crime. A sorte dos mais vulneráveis nos dá uma clara medida da distância que separa o ponto onde nos encontramos de algo que pudéssemos chamar de “civilização”. Durante a minha fala, mil crianças morrerão de doenças facilmente preveníveis, e quase duas mil mulheres morrerão ou ficarão seriamente incapacitadas na gravidez ou no parto por falta de cuidados e medicamentos básicos. A UNICEF estima que, para superar essa tragédia e assegurar o acesso de todos os serviços sociais básicos, seria necessário nada mais que a quarta parte dos gastos militares dos países “em desenvolvimento”, cerca de 10 por cento dos gastos militares norte-americanos. É sobre o pano de fundo dessa realidade que qualquer discussão séria sobre liberdade humana deve ser levada a cabo.


As doutrinas neoliberais, independentemente do que se pense delas, debilitam a educação e a saúde, aumentam a desigualdade social e reduzem a parcela do trabalho na distribuição da renda. Ninguém duvida disso seriamente hoje em dia.

Trechos de O lucro ou as pessoas? - Neoliberalismo e Ordem Global - por McChesney

O mito do livre mercado também sugere que os governos são instituições ineficientes que devem ser limitadas para não prejudicar a magia do mercado natural do laissez-faire. Na verdade, como Chomsky enfatiza, os governos são peças-chave no sistema capitalista moderno. Eles subsidiam prodigamente as grandes empresas e trabalham para promover os interesses empresariais em numerosas frentes. O regozijo dessas mesmas empresas com a ideologia neoliberal é, geralmente pura hipocrisia: querem e esperam que os governos canalizem para elas o dinheiro dos impostos, que lhes proteja dos concorrentes, mas querem também que não lhes apliquem impostos e que nada façam em benefício de interesses não-empresariais, especialmente dos pobres e da classe trabalhadora. Os governos são hoje maiores do que nunca, mas sob o neoliberalismo já não se mostram nem de longe tão preocupados em dar atenção a interesses extra-empresariais.

Na verdade, a incapacidade de propiciar uma discussão sincera e honesta sobre o neoliberalismo é realmente uma das mais notáveis características da globalização.

E não existe processo em que a centralidade dos governos e da formulação de políticas seja mais visível do que a ascensão da economia de mercado global. Aquilo que os ideólogos dos interesses empresariais apresentam como expansão natural do livre mercado para além-fronteiras é, na verdade, rigorosamente o oposto. A globalização é o produto da ação de governos poderosos, especialmente o dos Estados Unidos, que empurram garganta abaixo dos povos do mundo tratados comerciais e acordos de negócios que ajudam as grandes empresas e os ricos a dominarem as economias das nações sem quaisquer obrigações para com as respectivas populações.

A mídia e a convergência - Por Arnaldo Comin

■ Historicamente sob ameaça da mão de ferro do Estado, a imprensa está hoje inteiramente subordinada aos interesses de grupos econômicos. Cabe à sociedade se mobilizar na forma de um quinto poder que fiscalize os abusos do quarto, representado pelos meios de comunicação. Paradoxalmente, o próprio Estado pode ser um agente importante nesse esforço, ao financiar mídias “alternativas” como as tevês públicas. Essa foi a mensagem do jornalista e intelectual espanhol Ignacio Ramonet, em palestra proferida nesta 2ª.feira (26/ 5), no Instituto Cervantes, em São Paulo, sob moderação do sociólogo Emir Sader.
■ Nascido na Galícia e criado no Marrocos, Ramonet vive desde os anos 70 na França, onde dirigiu por quase duas décadas o Le Monde Diplomatique. Ele ostenta um extenso currículo dedicado ao ativismo político de esquerda, sendo um dos fundadores da ONG Media Watch, que combate a excessiva mercantilização da mídia; mentor do Attack, movimento que prega a taxação global das transações financeiras com fins sociais; e ainda apoiador de primeira hora do Fórum Mundial Social.
■ Na visão de Ramonet, a enfática defesa da globalização pelos meios de comunicação serve de interesse exclusivo dos donos dos próprios veículos. “A imprensa livre sempre dependeu da cidadania para se legitimar diante dos governos, mas, com a globalização, sai de cena o papel do Estado e ganham espaço os grandes grupos econômicos. Os conglomerados de mídia, por sua vez, não dependem mais da opinião pública para sobreviver e passaram a atuar como porta-vozes desses mesmos grupos aos quais pertencem. De aliada, a mídia se tornou a nossa pior adversária”, lamenta.
■ Na opinião do acadêmico, doutorado em Semiologia pela Universidade de Paris, essa distorção ganhouforça no momento em que toda a mídia se digitalizou e o conceito de especialização – como jornais, tevê e rádio – perdeu o sentido. “A comunicação tornou-se uma espécie de fluído, disponível até pelo celular, o que atraiu o interesse de empresas de outros segmentos. Lamentavelmente, os veículos não são mais comandados por jornalistas, mas por executivos formados em finanças, cujos interesses não estão na veracidade da informação”, critica. (…)
■ Consultor da Telesur, canal de notícias em espanhol financiado por Hugo Chávez, Ramonet é defensor do fortalecimento das tevês públicas na América Latina, corroborando com o modelo da TV Brasil capitaneado pelo governo Lula. “Os países latino-americanos precisam incentivar a criação de redes de financiamento público sob controle da sociedade civil, aos moldes das tevês européias”, opinou Ramonet. (…)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mendes cria stress na república - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/materias177.asp - por Paulo Henrique Amorim

Rosa dos Ventos - por Maurício Dias (Cartacapital)

O governo tem sido um dos grandes cúmplices dos vilões do desmatamento na Amazônia. Uma Nota Técnica, assinada por André Lima e Sergio Travassos, respectivamente, diretor e gerente do Departamento de Políticas para o Combate ao Desmatamento, do Ministério do Meio Ambiente, pode ser uma bússola para as ações do ministro Carlos Minc.

Está comprovada a correlação entre crédito rural e desmatamento.

A nota mostra a situação de Mato Grosso, Pará e Rondônia, responsáveis por 85% dos desmatamentos entre 2005 e 2007. Esses três estados também absorveram 81% do crédito rural oficial dirigido ao Bioma Amazônico em 2006.

Nesses três estados, a curva de crédito rural parece um espelho da curva do desmatamento.

Em Mato Grosso, governado pelo impetuoso Blairo Maggi, o desmatamento é crescente desde 2000 e chega ao pico em 2004. A curva passa a ser descendente nos três anos seguintes. O volume de crédito rural é contínua e vertiginosamente crescente a partir de 1999, atingindo o pico em 2004 (aumento de mais de 400% em cinco anos). Decresce nos anos de 2005 e 2006.

Entre 1996 e 2006, a área de pasto no Pará cresceu 77% e chegou a 13 milhões de hectares. Nesses dez anos, o estado recebeu 3,16 bilhões de reais em crédito rural oficial para agricultura e pecuária, sendo 2,15 bilhões de reais para pecuária e 1,01 bilhão de reais para agricultura.

A área de pasto cresceu 73% entre 1996 e 2006, passando de 2,9 milhões para 5 milhões de hectares. Foi investido, no mesmo período, 1,92 bilhão de reais em crédito rural oficial para agricultura e pecuária, sendo 1,35 bilhão de reais para pecuária e 570 milhões de reais para agricultura.

Em Rondônia, as curvas de taxa de desmatamento e de tomada de crédito rural também são muito semelhantes. De 2001 a 2004, o desmatamento subiu 41%, tendo sido adicionados 13,2 quilômetros quadrados de áreas para agropecuária. A oferta de crédito cresceu substancialmente, saltando de 123 milhões de reais em 2001, para mais de 450 milhões de reais no ano de 2004. O pico do crédito e do desmatamento é o ano de 2004.

Para sair dessa situação constrangedora, o governo terá um instrumento fundamental. A partir de julho, entra em vigor a resolução do Banco Central que estabelece condições mínimas necessárias para reduzir o risco e a pressão de novos desmatamentos financiados com crédito público.
Há pressões fortes para que a data seja protelada. Minc terá de exercitar como um mestre a arte de descascar abacaxis.

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O recado do sertanista

Um jornal americano (o The New York Times) e um inglês (o The Independent) reativaram nos últimos dias o pesadelo brasileiro com a soberania na Amazônia.

A pressão internacional é antiga. Com o passar dos anos, tem se tornado mais intensa. A acusação de que o Brasil não mostra capacidade para administrar aqueles 5 milhões de quilômetros quadrados – que significam 61% do território nacional – é biombo de interesses econômicos. Mas tudo é facilitado pelos governos que, sobre a questão amazônica, transitam da indiferença para a cumplicidade e vice-versa.

Agora que o assunto esquenta, é aconselhável repetir trechos da entrevista feita anos atrás, para a televisão, pela jornalista Paula Saldanha com Orlando Villas Bôas. Eis o ponto decisivo da conversa do sertanista falecido em 2002:

“Soube de fonte muito boa que 10 ou 15 ianomâmi estão na América aprendendo inglês (...) Essa gente volta liderando, falando inglês, com uma outra mentalidade. E o que eles vão fazer? Vão pedir um território ianomâmi desmembrado do Brasil e da Venezuela. E a ONU dará como tutora a América do Norte. Amor dos americanos pelos ianomâmi? Não, não senhor”.

A tropa da “quinta-coluna” na imprensa brasileira costuma chamar isso de paranóia.

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Andante Mosso

Eleições? Quando?
Pesquisa do Instituto GPP, realizada entre os dias 10 e 11 de maio, retrata o desinteresse do carioca pela eleição municipal.

Foi perguntado: Haverá eleição este ano para algum cargo público? Mais de 56% não acertaram a resposta.

O erro se distribuiu assim: 24,2% disseram sim, mas não sabiam para que; 17,3% afirmaram que não haveria eleição; 4,2% responderam que seria para deputado; 2,7% para governador; 0,8% para presidente e 0,5% para senador; 6,9% não sabiam ou não responderam.

O desinteresse somado a uma campanha curta favorece a quem lidera o páreo na partida. Neste caso, o senador Marcelo Crivella, que tem em torno de 25% das intenções de voto.

Troféu Ali Kamel
Vai para o senador Mão Santa, pelo elogio ao acreano Sibá Machado: “Sibá melhorou a raça. Foi se cruzar com uma mulher bonita do Sul”.

Acima da lei
Há vícios na política brasileira que o governo Lula não inventou, mas dá continuidade. É o caso do pagamento dos precatórios.

Esses pagamentos devidos pelos governos federal, estaduais e municipais decorrem de decisões judiciais. Uma proposta de calote está para ser aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Precatório é um assunto que quanto mais se mexe mais ele exala mal. Há muita mutreta nos arranjos dos créditos. Os maiores devedores são os estados de São Paulo (13 bilhões de reais), o Rio Grande do Sul (5 bilhões) e Minas Gerais (4 bilhões).

Os três governadores tucanos serão os principais beneficiados. A base governista trabalha pela aprovação. Os interesses transcendem aos conflitos políticos.

Tribos políticas
Cresce no Congresso a atuação das bancadas que expressam interesses religiosos, econômicos ou corporativos. Nada mal. Isso dá transparência ao jogo no plenário.

As mais conhecidas são as bancadas sindicalista, católica, ruralista, evangélica, saúde e da bala, que apóia as empresas de armas de fogo.

A mais nova tribo identificada dá apoio à indústria de bebidas. Levantamento do site Congresso em Foco revelou que 51 deputados e 11 senadores declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter recebido um total de 4,5 milhões de reais de fabricantes de cerveja, vinho e cachaça.

Pode ser batizada de “bancada do alambique” e, certamente, vai marcar presença no debate dos projetos de regulamentação da publicidade de bebidas alcoólicas.

Reaparece a IV Frota
Fidel Castro reagiu à anunciada presença da IV Frota americana nas costas dos países da América Latina e do Caribe a partir de junho.

Ao pretexto de que ela combateria eventuais ações terroristas ele contrapôs: “Vai semear o terror e não combater o terrorismo”.

Tela quente
Deve entrar em votação, na quarta-feira 28, o Projeto de Lei 29, do deputado Jorge Bittar, que muda as regras das televisões a cabo no Brasil.

Bittar recebeu marcação cerrada da ABTA, que expressa essencialmente os pontos de vista da Globo e da ABTPA, canal de interesses dos grandes programadores internacionais. O foco da reação é a adoção do porcentual de conteúdo nacional nos canais e nos pacotes oferecidos e a democratização da competição no setor.

Com essas e outras mudanças, Bittar acredita que o número de assinaturas das tevês pagas subirá de 5 milhões para 30 milhões em quatro anos, com impacto favorável aos consumidores.
Exemplo de hoje: na Argentina, o preço médio de um canal para o assinante é de R$ 0,63; no Brasil, varia de 1,92 real a quase 7 reais.

Batalha de Itararé
O fracasso no objetivo de criar uma nova tormenta para o governo Lula forçou a oposição a buscar um acordo na CPI da Tapioca.

Tudo muito parecido com o choque, em 1930, entre as forças governistas do presidente Washington Luís e as tropas oposicionistas de Getúlio Vargas. A cidade de Itararé, entre São Paulo e o Paraná, seria o cenário do embate. Na iminência do confronto, no entanto, os chefes militares optaram pela conciliação.

Assim também ocorreu no sangrento combate da CPI. Entre mortos e feridos salvaram-se todos.

Flexibilização ou truque? - por Delfim Netto (Cartacapital)

O transporte de mercadorias em contêineres é recente no Brasil. O impulso transformador veio no início dos anos 80. Sempre fomos exportadores de produtos agrícolas (açúcar, café, cacau). Gradualmente, além de inserir bens de maior valor agregado na pauta de comércio internacional, o Brasil tornou-se líder mundial na produção eficiente de grãos e, mais recentemente, fonte alternativa para atenuar a potencial carência de alimentos no mundo.

Com período suficientemente longo de atuação no comércio de produtos básicos e de origem agrícola, seria de se esperar que cada porto brasileiro exibisse um ou mais terminais voltados para a exportação de granéis de terceiros, ou seja, de produtores individuais e independentes, mas eles não existem. Em cada porto, esses terminais movimentam preponderantemente granéis de seus proprietários e as cargas de terceiros são subsidiárias e bem menos relevantes. Por que não existem? Porque não há estímulo ao investimento privado em concessão pública que propicie retorno adequado ao capital empregado. Minérios e grãos (mais genericamente, granéis sólidos e líquidos) combinam volumes elevados com baixo valor agregado. Um terminal operando com carga de terceiros não permite ao empreendedor a cobrança de preços que remunerem o investimento. Conseqüentemente, os terminais de granéis são essencialmente “verticalizados”, voltados ao manuseio prioritário de carga pertencente ao proprietário. E é bom que seja assim, uma vez que os grandes produtores e exportadores de granéis operam os terminais de modo a assegurar a inserção competitiva de produtos de baixo valor agregado em mercados internacionais, crescentemente exigentes e globalizados.

Assim é com a Cargill, a ADM, a Bunge, a Cosan, a Vale, a Petrobras e tantas outras. E assim deve ser. Sem operar terminais públicos essencialmente voltados ao manuseio de carga própria, ou terminais privativos de uso exclusivo ou misto, elas e outras de mesmo tamanho ou natureza estariam alijadas do mercado internacional. O escopo de sua atuação inclui todo o ciclo logístico: da produção em grande escala ao transporte interno e ao escoamento pelos portos. É a elas que os produtores de menor porte vendem, no Brasil, ou a quem venderiam, no exterior, se aqui funcionasse um porto especializado em granéis de terceiros. Se a pressão inoportuna de certos interesses, escondidos sob a cuidadosa escolha semântica do charmoso nome de “flexibilização”, tiver sucesso e impuser ao governo uma mudança das regras atuais para a instalação de terminais de uso misto no Brasil, ou seja, se for permitido ao empresário que construa e opere terminais eminentemente privados, sem prevalência de carga própria que justifique o empreendimento, nenhum benefício decorrerá para a operação de granéis. Nem um só terminal voltado preponderantemente para granéis de terceiros será instalado. Mesmo porque nada existe que tenha impedido até agora sua presença nos portos. E, entretanto, eles não estão lá.

Na verdade, deve ser outro o objetivo escondido nessa estratégia. “Flexibilizada” a exigência de carga que autorize a instalação de um terminal de uso misto, a este ficaria assegurada a possibilidade de simular a operação de granéis em nível irrelevante. Com ela, ganhariam acesso ao manuseio de contêineres de terceiros, operação de natureza pública. Isso burlaria a legislação, inclusive a exigência de prévia concorrência pública entre diferentes interessados num arrendamento portuário. A conseqüência previsível dessa medida combina a suspensão de investimentos privados no porto público, sua desorganização e seu desaparelhamento.

Foi precisamente a confiança no marco regulatório – agora sob dúvida – que canalizou investimentos privados substanciais para terminais de uso público e de uso privativo. Como resultado, a produtividade nos portos brasileiros cresceu, os preços de movimentação declinaram e o formidável crescimento do comércio internacional do País pode fluir sem obstáculos intransponíveis. Em 2002, ano anterior ao início do primeiro mandato do presidente Lula, a soma de exportações e importações brasileiras registrou 107,7 bilhões de dólares. Em 2007, cinco anos depois, já alcançava 281,3 bilhões de dólares. O aumento da produtividade foi enorme.

Novo Nordeste, novas esperanças - por Emiliano José (Cartacapital)

A descoberta de um novo Nordeste. A ressurreição da questão regional no Brasil. O crescimento econômico da região em ritmo maior do que a média brasileira. O aumento do consumo numa proporção bem maior do que no resto do País. A impressionante transformação política, com a autonomia da cidadania e o reflexo disso na eleição de governadores afinados com as teses reformistas e progressistas. Esses foram alguns dos temas que afloraram com intensidade no seminário O novo Nordeste e o Brasil, realizado em Teresina, no Piauí, nos dias 15, 16 e 17 deste mês de maio, promovido pela Fundação Perseu Abramo. Temas que animaram os participantes, abrindo perspectivas para o enfrentamento dos enormes desafios que a região enfrenta desde tempos imemoriais.

Participaram do seminário, entre outros, o governador Wellington Dias; os ministros da Secretaria Geral da Presidência da República, Luiz Dulci, e da Cultura, Gilberto Gil; o coordenador da bancada do Nordeste, deputado federal Zezéu Ribeiro, do PT, José Machado, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (Ana), além do presidente e do vice-presidente da Fundação Perseu Abramo, Ricardo Azevedo e Nilmário Miranda, respectivamente.

A economista Tânia Bacelar, que fez a conferência central do seminário – Um projeto para o Nordeste brasileiro – não deixou de ressaltar, no entanto, o quanto a região ainda se encontra distante dos níveis da média nacional, do Sudeste e do Sul quanto, por exemplo, à escolaridade. Enquanto a média nordestina da população ocupada com 10 anos e mais é de 6 anos de estudos, a nacional é de 7,6 anos, a do Sudeste de 8,5 anos e a do Sul de 8 anos.

Além disso, se o olhar se volta para a relação entre a população e o valor do PIB, a discrepância também não é pequena. O Nordeste tem 28% da população e participa com apenas 13,1% do PIB. O Sul tem 14,5% da população e participa com 16,6% do PIB. O Sudeste tem 42,5% da população e contribui com 56,5% do PIB. Esses dados evidenciam que há, inegavelmente, ainda, uma questão regional a ser enfrentada e não entendida apenas como a questão nordestina. O Norte, por exemplo, enfrenta problemas semelhantes. Essa questão, no entanto, só voltou a ter alguma importância nos anos recentes, sob o governo Lula. Havia sido praticamente esquecida durante a gestão Fernando Henrique Cardoso e durante todos os anos 90.

Antes de tratar do Nordeste, no entanto, Tânia Bacelar optou por fazer uma breve análise das macro-tendências mundiais. Na demografia, localiza uma diminuição do ritmo de envelhecimento e o crescimento da importância das cidades médias. Um novo padrão de uso dos recursos naturais e um novo olhar sobre o meio ambiente. O avanço da ciência e da tecnologia apontando para a convergência tecnológica.

Avalia que os EUA devem manter a hegemonia nos próximos 20 anos, mas necessariamente o mundo será multipolar, com o avanço asiático. Em 2015, a pobreza terá se reduzido: será de 10% o percentual da população mundial que viverá com menos de US$ 1/dia. No Brasil, esse patamar será de 5%. Nesses próximos anos, o Brasil deve chegar à quarta ou quinta economia do mundo.

E a globalização deve ser vista, na opinião dela, como um processo contraditório, onde cabem iniciativas regionais, onde têm valor as políticas específicas de cada país. Os territórios, ela diz, são palcos de uma constante tensão – os agentes globais os vêem como palco de operação e os agentes locais como uma construção social. São palcos de luta, portanto. Cenários de construção histórica. Para um lado ou para outro: tanto para a submissão diante do global, como para o desenvolvimento de políticas específicas, que caminhem em rumo contrário.

O ambiente brasileiro e suas novas tendências foram também analisados. Estaríamos escapando, agora, da herança da estabilização submissa ao rentismo, decorrente das políticas dos anos 90. Estaríamos ingressando numa era de retomada de um crescimento sustentável. Há, inegavelmente, um novo e favorável ambiente macroeconômico e quaisquer dos índices indicam isso.

Em dezembro de 2002, a inflação era de 12,53%. Em dezembro de 2007, de 4,46%. O juro real era, naquele 2002, de 15,6%. Em 2007, de 8,4%. O crescimento econômico anterior, de 1,93%. O de 2007, de 5,42%. O risco-país era de 1.529 pontos. Em 2007, de 212 pontos. A dívida externa com o FMI era de quase 21 bilhões de dólares. Em 2007, zero. Não é pouca coisa.

O Brasil vive hoje sob um ambiente de mudanças. Viveu no século XX, por um período, um acentuado crescimento. Mas, sempre convivendo, também, com a concentração de renda. O Brasil do século XXI já aponta sinais de mudanças. Na demografia, com menor natalidade. Maior esperança de vida, mais dinamismo das cidades médias e com impressionante ocupação do interior. Na dinâmica da economia, com redução da concentração econômica no Sudeste e apresentando crescimento sem concentração de renda.

Com isso, o quadro social vai indicando redução da pobreza e crescimento da chamada classe C, que passa de 34% para 46% da população, que significa um aumento de 23 milhões de pessoas, totalizando 86 milhões. E as classes D e E passam de 51% para 39%, segundo Instituto Ipsos, em pesquisa publicada por recente revista Exame. Uma mudança extremamente significativa.

E o Nordeste? Bem, este cresce um pouco acima da média nacional desde meados dos anos 90, o que vai implicar na queda da emigração: entre 1986 e 1991, pouco mais de 869 mil pessoas saíram do Nordeste para outras regiões, enquanto que tal número desceu para aproximadamente 743 mil entre 1995 e 2000. Os nordestinos estão começando a ter a possibilidade de permanecer em sua região.

O Nordeste ganha espaço com as mudanças na dinâmica da localização industrial – dito de outra maneira, com o avanço da industrialização na região. Em 1986, o emprego industrial correspondia a 10,7% do total, passando a 12,7% em 2005. Enquanto isso, São Paulo, que em 1986 detinha 45,5% do emprego industrial em relação ao total, passa a deter apenas 35,9% em 2005. Ao mesmo tempo, no entanto, e é importante acentuar isso, o Nordeste perde espaço na agropecuária.

Em 1970, o valor bruto da produção agropecuária ultrapassava 18% e em 2005 decresceu para algo em torno de 14%. O Centro-Oeste ganhou espaço, passando, no mesmo período, de pouco mais de 7% para quase 21%. O Nordeste tem 45% da População Economicamente Ativa do campo e apenas 14% da produção, o que é grave, e indica o tamanho do desafio. Trata-se, para o Estado brasileiro, de melhorar a produtividade dessa parcela da população. Este, talvez, seja o maior problema nordestino.

Outro fenômeno do desenvolvimento nordestino é o crescimento do terciário que no Nordeste passa de 25,7% da população ocupada em 1976 para 50,9% em 2006. É um indicativo da modernização da estrutura econômica, cada vez mais sustentada nos serviços. Simultaneamente, revela-se a difícil inserção da região no dinamismo exportador brasileiro. Só para se ter uma idéia dessa dificuldade, não custa lembrar que em 1960 a região participava com 20% do total das exportações brasileiras, caindo para apenas 8% em 2007. O porte da economia nordestina, no entanto, não fornece razões para pessimismo. Colômbia, Venezuela, Chile e Peru, por exemplo, têm, cada uma delas, economias menores do que a do Nordeste.

A região vem enfrentando o desafio de reestruturar os complexos tradicionais, dando passos nessa direção em relação ao cacau e ao sucro-alcooleiro e não alimentando mais expectativas em relação ao algodão, que teve muita importância no passado. As bases dinâmicas do novo Nordeste seriam a fruticultura, a produção de grãos, o turismo, os pólos industriais de serviços modernos e o pólo de Carajás. O dinamismo desses setores, conjugado com as políticas públicas de assistência social do governo Lula, está permitindo a redução da pobreza na região.

São 5,7 milhões de pessoas beneficiadas pelo Bolsa-Família no Nordeste, o que significa 51,8% das famílias em condições de extrema pobreza do País. O maior número de pobres do Brasil está no Nordeste. Em 2006, o aporte de recursos do programa no Nordeste foi de R$ 2,8 bilhões, que naturalmente tem um impacto econômico e de distribuição de renda extraordinário.

O apoio à agricultura familiar é outro aspecto fundamental da política para a redução da pobreza na região. Não custa lembrar que em 2002, o governo Fernando Henrique Cardoso destinava R$ 2,2 bilhões aos agricultores familiares. Hoje, o investimento supera R$ 13 bilhões anuais. Se a isso se soma o aumento real contínuo do mínimo, pode-se ter uma idéia das possibilidades da redução da pobreza na região, com a consciência de que não será um processo rápido. O Nordeste representa 28% da população brasileira e tem metade dos trabalhadores que ganham salário mínimo.

O Semi-Árido, que abriga 40% da população da região e apenas 20% do PIB regional, constitui um desafio especial para o projeto de um novo Nordeste. Houve o desmonte dos pilares de uma organização produtiva de 400 anos, especialmente do algodão e da pecuária bovina. Já ocorre, no entanto, a busca de novas atividades e de modernização de antigas. Ganham força a ovinocaprinocultura, o algodão colorido, flores tropicais, cajucultura orgânica, a produção de mel, a mamona e a farmacologia natural. Aqui, se o olhar se volta para o campo, coloca-se como aspecto essencial a política de assistência técnica e extensão rural, que é atribuição dos governos de Estado.

Curioso, ao menos para os que olham o Nordeste como terra de pobres sem renda, é que o Brasil redescobriu a região recentemente pelo mercado. Entre 2003 e 2007, o Nordeste e o Norte lideraram o crescimento do consumo no País, evidenciando a existência de um mercado de massas nas duas regiões. Estados como Maranhão, Alagoas, Tocantins, Acre, Sergipe ou Bahia, entre vários outros, aparecem à frente de São Paulo, de Minas Gerais ou do Rio de Janeiro nos índices de consumo. Os pobres ganharam condições para consumir pelo conjunto das políticas adotadas pelo governo Lula e pelo modelo de desenvolvimento colocado em prática, onde necessariamente andam combinados o crescimento econômico e a distribuição de renda.

Esse novo Nordeste, no entanto, a par da magnitude de sua economia, do início de um processo de redução da pobreza, de novos pólos dinâmicos na economia, apresenta uma acentuada fragilidade na área de ciência e tecnologia e as empresas da região são pouco inovadoras – estimativas indicam entre 4% e 7% as empresas com capacidade de inovar. Isso significa ser essencial o investimento na área de transmissão de conhecimento, embora, como ponto positivo, pode-se lembrar o fato de que a região tem ganhado novas universidades e campi sob o governo Lula para enfrentar a baixa participação nas matrículas do ensino superior.

Há uma exigência de investimento em infra-estrutura, que começa a ser respondida com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O programa prevê um investimento global superior a R$ 80 bilhões na região. As investigações do subsolo e a produtividade agrícola em áreas modernas nos últimos anos indicam que o Nordeste deve transformar-se numa potência agro-mineral. Para que o desenvolvimento possa continuar beneficiando a população, será essencial o investimento em educação, em saúde, em saneamento, em transportes públicos de qualidade. Há passos em direção a esse novo Nordeste. As últimas eleições mostraram o rompimento das amarras da cidadania. A maioria dos governadores eleitos está vinculada ao pensamento progressista. Mas, apesar de todos esses avanços, o caminho certamente ainda é longo para superar a herança de séculos de marginalização do povo nordestino, sempre envolvidos em suas vidas secas, na falta de terra, de água, de trabalho decente. O que é novo para o povo é a esperança de que seja possível permanecer no Nordeste e realizar os sonhos na própria terra de origem.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Afif: o banco do povo tem a cara do paulista, já que "nós gostamos e trabalhar" - por Luiz Carlos Azenha

O secretário de Emprego e Relações de Trabalho do governo tucano de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, afirmou nesta quinta-feira (8), durante evento na cidade de Mauá (Grande SP) que os paulistas gostam mais de trabalhar do que os brasileiros de outras regiões.

Em discurso, Afif falou sobre a cultura de trabalho do paulista e ironizou "os locais onde a côrte imperial deixou impregnada, até hoje, a falta de vontade de trabalhar" - uma alusão indireta principalmente aos povos de Rio de Janeiro e Bahia, ex-capitais do Brasil nos tempos de colônia de Portugal e Império.

"O Banco do Povo tem a cara do paulista, porque é feito para o trabalhador e nós gostamos de trabalhar. Isso desde os tempos do Brasil Império, porque aquele pessoal da côrte não gostava muito de trabalhar, não. Só chegamos onde chegamos por essa distância da côrte. Até hoje, onde ainda há tentáculos dessa cultura, existe essa falta de cultura do trabalho. Por isso há no Brasil essa situação em que alguns trabalham e pagam pelos benefícios dos que não trabalham", disse.

Além do desconforto causado aos trabalhadores migrantes de outras regiões que acompanhavam o evento, as declarações de Afif repercutiram mau com ativistas contra o preconceito.

"Em primeiro lugar, ele desconhece a história do Brasil e ignora os 400 anos de escravidão do negro e do índio, quando uma classe se apropriou de forma criminosa do trabalho desses povos. Isso tudo abalizado pelo Estado da época. Infelizmente, agora, esse representante da burguesia que herdou esse legado,, continua pensando da mesma maneira. Estou indignado e revoltado com uma mentalidade tão tacanha e tão retrógrada", reagiu Daniel Calazans, da comissão de combate ao preconceito do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Honerê Al-Amin Oadq, do Movimento Negro Unificado, também criticou a postura do secretário. "Nós sabemos que vivemos as seqüelas de um processo muito podre da história da humanidade. As mazelas que vivemos até hoje não são só financeiras, mas é a retirada de nossos direitos à saúde, ao trabalho, à educação. E ainda vêm essas pessoas, que usufruem dos benefícios dos ancestrais colonizadores, que não têm a menor noção da realidade que o colocou nessa situação", lamentou.

As informações são do site ABCDmaior (www.abcdmaior.com.br)


Comentário: esta é a cara da equipe do Serra, àquele que quer governar o Brasil.