domingo, 15 de junho de 2008

Entrevista com o presidente Lula - por Jornal do Brasil

Resultado de uma descontraída conversa de quase duas horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
– Cumprirá o mandato até o último dia, e jura que não sonha em voltar à Presidência;
– Entregará ao sucessor documento registrado em cartório com todas as suas realizações;
– Mal consegue disfarçar a torcida pela vitória de Barack Obama nos EUA;
– Diz que não tem candidato escolhido à sua sucessão. Mas também mal-disfarça a preferência por Dilma Roussef;
– O governo não assumirá que tem interesse na aprovação no imposto do cheque pelo Senado, mesmo que isso resulte na sua derrota;
– Criará um fundo para a educação com o dinheiro dos royalties do petróleo;
– Promete neutralidade em relação aos diversos candidatos dos partidos aliados nas próximas eleições municipais;
– Cobrará aumento da produtividade nos assentamentos dos sem-terra.
Marcos Troyjo
Tales Faria
Mauro Santayana
Marcello D’Ângelo

BRASÍLIA– O JB teve uma importância grande na minha atividade sindical. Fui muito ligado ao diretor da Sucursal em São Paulo na época em que começaram as greves do ABC. Era o João Batista Lemos, grande jornalista. O JB tinha cobertura quase privilegiada. Não só pela minha amizade com o Lemos, como também porque o jornal tinha uma sucursal muito forte. Tem até uma história curiosa. Quando estive preso, algumas pessoas me procuraram na delegacia dizendo que “o chefe” queria falar comigo. “O chefe, o chefe, o chefe”. Aí criaram essa história de que era o ministro Golbery do Couto e Silva, o governo. Nada disso. “O chefe” era o Lemos. O pessoal dele que havia levado o recado de que ele, “o chefe”, queria falar comigo. Só isso. Aquele momento era de muita ebulição. Para distribuir um jornalzinho do sindicato você tinha que enfrentar a ira de um coronel, a segurança da Volkswagen cercava o pátio. Para o trabalhador entrar com o boletim do sindicato ele tinha que guardar por dentro da camisa, na barriga, com medo da segurança ver. Hoje, você vai na Volkswagen, você vai na linha de montagem, vai passando jornalzinho para qualquer trabalhador pegar o seu.

O movimento sindical ficou muito mais pragmático?
– Em São Bernardo do Campo as comissões de fábrica funcionam para caramba – 90% dos processos são resolvidos dentro da fábrica. Teve um tempo desses aí que eles tiraram 600 processos da Justiça, fizeram acordo pela fábrica, foram na Justiça com a empresa para retirar o processo.

O senhor diria que o sindicalismo se adaptou aos novos tempos?
– Acho que o sindicalismo teve uma evolução em suas conquistas. Os sindicatos podem transitar nas suas relações com o capital ou mesmo com o governo com mais facilidade. Para fazer uma greve, eu precisava passar uma semana gritando na porta de fábrica. Agora, convoca-se a comissão de fábrica no mesmo dia: “quarta-feira, 8h vamos estar lá”. O sindicalismo atualmente vem ao Congresso Nacional brigar por Imposto de Renda, os funcionários públicos estão aprendendo a brigar por aumento na hora de fazer o Orçamento da União. No meu tempo, qual era a nossa marca registrada? Contestação. Não tinha compromisso com propostas. Só o de protestar. Hoje, e eu participei muito disso na década de 90, o movimento sindical tem que ser propositivo. Na medida em que as fábricas não vão ter mais a quantidade de trabalhadores que tinham – a Volkswagen tinha 44 mil trabalhadores e hoje tem 13 mil – os sindicatos têm que apresentar propostas. Esse negócio de carro flex, por exemplo, tem muito a ver. O sindicato passou oito anos fazendo proposta de renovação da frota.O movimento social não evoluiu da mesma maneira.

O MST lembra muito isso que o senhor está dizendo, que é de se tornar uma máquina de protesto.
– É muito difícil você fazer movimento social, e até sindical, na época em que as coisas estão indo bem. Quando o Fernando Henrique Cardoso fez o Plano Real, fiz uma reunião com os sindicalistas, e disse: não estamos acostumados a trabalhar em época de inflação baixa. Na medida que você tem inflação baixa e que o salário não é o primeiro item da pauta de reivindicações, pode diminuir a força do sindicato. Voltando à questão do movimento social. Na medida em que você tem um governo que atende às reivindicações, que faz as coisas que têm que ser feitas, que decide as políticas em conjunto, o movimento social também precisa avançar. No caso dos sem-terra, na hora que você tem geração de emprego, há menos gente para os assentamentos. Em cinco anos e meio nós desapropriamos 35 milhões de hectares de terras e o governo passado, em oito anos desapropriou 18 milhões de hectares. Chega um momento, quando você assenta 501 mil famílias, que o problema não é mais assentar. Nós tomamos na semana passada a decisão de fazer os assentamentos produzirem mais alimentos. Chegou a hora de dobrar ou triplicar a produtividade das pessoas que estão no campo. Não podemos permitir que fiquem apenas naquela agricultura de subsistência. Precisamos dar condições para produzirem e ganharem dinheiro. As pessoas têm que saber que ganhar dinheiro é bom. E eu acho que isso é que tentaremos fazer daqui para a frente. Obviamente que vamos continuar com os assentamentos, mas eu quero carrear mais recursos para assistência técnica, e para levar tecnologia aos agricultores, financiar mais tratores. Cabe ao governo aumentar o preço mínimo para incentivar a produção. Podemos também aumentar a compra de alimentos da agricultura familiar e distribuir para a merenda escolar e para as pessoas mais pobres. Essa é uma decisão tomada no governo e que vamos implementar. Se você pegar a agricultura familiar, verá que nós temos uma margem de crescimento de produtividade extraordinária.

Se baixassem um pouquinho os juros, isso não ajudaria a aumentar a produtividade?
– Hoje aproximadamente 60% do custo do dinheiro que vai para a produção no Brasil não têm nada a ver com a taxa básica do Banco Central, a taxa Selic. Você tem dinheiro tomado por empresários no exterior com outras taxas de juros, tem todo o dinheiro do BNDES – R$ 90 bilhões este ano – financiado com taxas menores. O grande prejudicado com a Selic é o próprio Estado, porque aumenta a dívida pública. O problema é a inflação. E por que há inflação? Porque algum setor está aumentando o preço. Se ninguém aumentasse o preço, não teríamos inflação. Há setores que estão aumentando porque dependem de matéria-prima internacional, mas isso não explica o caso do feijão, do arroz, que são coisas nossas. No caso do aço, o minério é brasileiro, as siderúrgicas são brasileiras, os salários são em reais, então não há por que acompanhar o preço internacional. Tenho dito tanto para empresários como para agricultores: está na hora de vocês alertarem os setores que estão elevando os preços. E qual é a alegação para aumentar preços? Aumenta a demanda na construção civil, aumentam os preços. Os empresários deveriam ter um procedimento diferente. Na medida em que aumenta a demanda, não precisa aumentar o preço. Vocês vão ganhar mais pelo aumento do volume de vendas.
Qual a certeza com que eu trabalho? Primeiro, acho que resolveremos a questão dos preços dos alimentos. Segundo, a questão da oferta. Precisamos aumentar a produtividade. Temos terra, temos água. Por isso vamos melhorar a produtividade, qualificar melhor nossos agricultores. A segunda coisa importante é que temos mais investimentos sendo aplicados. Nesse primeiro momento o investimento se transforma em consumo. Está sendo construída a usina da ThyssenKrupp no Rio de Janeiro. Ali estão comprando telhas, cimento, ferro, tudo o mais, que aumenta a demanda. Mas se está construindo o pólo petroquímico no Rio de Janeiro. Daqui a algum tempo esse consumo vai virar oferta. E aí é que eu acho que a coisa encontra o equilíbrio, a fim de garantir o desenvolvimento sustentado do país. Trabalho sempre com a idéia de que o Brasil não precisa ficar com o trauma de que não pode crescer mais de 3% e nem o trauma de que precisa crescer 10%. O Brasil precisa ter um crescimento sustentado de 4,5% a 5% durante 10 ou 15 anos consecutivos. Se o Brasil fizer isso nós entraremos no rol dos países ricos.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, propõe a criação do Fundo Soberano para segurar a inflação. Os economistas falam em controlar gastos públicos.– Por que criamos o Fundo Soberano? Porque dá margem de manobra para você ter dinheiro para facilitar investimentos do Brasil no exterior e ao mesmo tempo dá uma margem de manobra com a arrecadação a mais, a fim de não colocá-la no custeio e ter um dinheiro à parte, que pode ser contado até como superávit primário. Fiz questão de elogiar o Mantega e a equipe dele, porque foi uma medida extremamente inteligente. Então, quando as pessoas falam que a máquina gasta muito, eu queria dizer o seguinte: quanto o Franklin Martins (ministro-chefe da Secretaria de Comunicação) ganhava na Rede Globo, ou quanto ele ganhava na TV Bandeirantes? E quanto ele ganha aqui? R$ 10 mil, para trabalhar certamente o triplo do que trabalhava. Ontem recebi o Ricardo Kotscho (ex-secretário de imprensa do Palácio). Está trabalhando num blog. Ele disse que nunca ganhou tanto dinheiro. Ficou três anos aqui ganhando R$ 7 mil. Eu tinha um cidadão da Petrobras, que saiu da Petrobras, chorou aqui nesta sala, grande companheiro. Eu achei que ele ganhava demais – R$ 26 mil por mês. Achei que era um baita de um salário. Ele saiu para ganhar R$ 200 mil por mês com dois anos de pagamento adiantado. E agora já saiu para ganhar R$ 400 mil. Você tem um grau de funcionários de alta qualidade neste país que ganha porcamente. O Estado precisa ter funcionários qualificados, bem remunerados, para dar o retorno para a sociedade. As pessoas perguntam, por que o Hospital Sarah Kubitschek funciona e as pessoas são felizes lá? Porque ganham bem, têm jornada de trabalho integral, não podem trabalhar em outro serviço.
Até 2010, nós estaremos inaugurando e colocando para funcionar 214 novas escolas técnicas no Brasil. É importante lembrar que desde a primeira escola técnica criada por Nilo Peçanha em Campos, em 1909, até 2003, o Brasil construiu 140. Em 93 anos. Nós, em oito anos, vamos construir 214 escolas técnicas. Para construir, eu preciso ter técnicos, preciso ter funcionários. Nós estamos fazendo 12 universidades integradas com outros povos. Estamos fazendo uma latino-americana, estamos fazendo uma para a África (Brasil–África), destinada aos países de língua portuguesa. Se Deus quiser, vamos instalá-la no Ceará, que foi a primeira província do Império a libertar seus escravos. Nós vamos ter um total de 15 novas universidades e por volta de 88 novos campi universitários. Tudo isso precisa de professores e técnicos. Então, não tem remédio.

A aprovação da Contribuição Social para a Saúde (CSS) ajuda a colocar dinheiro em caixa. O governo assumirá que tem interesse no imposto?– Não. Isso será uma decisão do Congresso. Os senadores votarão com sua consciência. Graças a Deus as instituições no Brasil funcionam exageradamente bem.

Como o senhor vê as eleições nos EUA. Torce para alguém?– Não, não posso dizer. O Monteiro Lobato escreveu que um dia haveria uma disputa entre uma mulher e um candidato negro nos Estados Unidos. É o que está acontecendo com o Barack Obama. Eu acho que é uma revolução na cabeça do eleitorado americano. Se Obama ganhar será mostra de grande evolução. Essa é a grande novidade desses últimos 100 anos da História. E Deus queira que, ganhando as eleições, ele possa ter uma política dos Estados Unidos diferente para América Latina.

O senhor o conheceu pessoalmente?
– Não. Mas tem a vantagem que o Mangabeira Unger (ministro de Assuntos Estratégicos) foi professor dele em Harvard. É um companheiro, indiretamente... (risos)

O senhor o congratulou pela vitória nas primárias?
– Não. Até conversei com o Mangabeira, o ideal é esperar pelo final da campanha, para saber qual será a política dele para a América Latina. O que ele já fez com relação ao Brasil, quanto aos combustíveis de fontes renováveis é um passo importante. A meu ver os Estados Unidos deveriam ter um olhar para a América Latina, que não fosse o olhar conspirador. Hoje não existe mais ninguém querendo fazer revolução na América Latina. Hoje todos os países estão participando de programas democráticos. Agora o que acontece é que os Estados Unidos, de um lado, têm a responsabilidade, o Brasil, de outro, tem a mesma responsabilidade, assim como o México, de contribuir para que essa região se desenvolva e possa evoluir em paz. Acho que o novo presidente deveria ter um olhar positivo para a América Latina e espero que tenha. O McCain também fez muitos elogios ao Brasil.
Aqui no Brasil, o senhor acha que vai conseguir eleger a ministra Dilma Rousseff em 2010?
– Eu não tenho candidato.

Mas o senhor declarou há poucos dias que a Dilma está sendo atacada por ser a favorita.
– Não declarei isso. Mas começaram a atacá-la quando disse no Rio de Janeiro que Dilma era a mãe do PAC. Ela trabalha nesse PAC 24 horas por dia, controla todos os investimentos do PAC, fica sabendo se é preto, se é roxo. Ela é quem chama os ministros, que presta contas para mim a cada mês, que presta contas para a imprensa. Depois que eu disse isso, talvez os adversários entenderam que era uma senha. E começaram a atacar.

Estão atacando-a por ser a favorita para ganhar as eleições?
– A minha idéia é construir uma candidatura única da base do governo. Quero juntar todos os partidos. Acho que é plenamente possível. Temos 27 candidatos a governador, 54 candidatos a senadores, vices, cargo não falta para quem quiser disputar. Basta que as pessoas decidam claramente se querem disputar a eleição para ganhar ou se querem fazer aventura de ser candidato a qualquer preço. Eu, particularmente, trabalho com a hipótese de fazer a minha sucessão. Estou convencido que tudo o que estamos fazendo precisa continuar. Eu ainda não tenho candidato, não quero discutir isso. Agora, se você perguntar: “A Dilma tem competência?” Eu digo, tem, sim. Acho que tem pouca gente no Brasil hoje com a capacidade gerencial que a ministra Dilma tem. Agora, entre ter competência gerencial e uma candidatura à Presidência, há uma distância da largura do Oceano Atlântico.

Qual seria o seu legado para o sucessor?
– Vamos esperar 2010. Eu pretendo fazer uma inovação no final do meu mandato. Quero pegar todas as coisas que foram feitas. Cada ministério vai ter que me entregar tudo o que foi feito nesses últimos anos, registrar em cartório e me entregar, que eu quero entregar para o meu sucessor, quero entregar para a imprensa, registrado em cartório. Cada coisa que nós fizemos, cada obra, cada projeto, cada investimento, que é para não apagar a memória. Tudo isso está no computador. Se você entrar no computador hoje, isso aqui, que é um documento especial do presidente da República, se vocês entrarem no site, vocês terão todo dia, renovado todo mês, vocês entrarão no site do governo e terão tudo o que o governo está fazendo. E aí, sim, eu vou ter o legado. Eu vou ter o legado da recuperação da memória brasileira, quero ter isso na minha conta, quero ser o presidente que mais fez escolas técnicas neste país. Quero ser o presidente que no seu mandato fez mais universidades. Tudo isso, que mais melhorou a vida dos trabalhadores brasileiros, que mais estabeleceu relações com a sociedade. Acredito piamente que nós precisamos consolidar a mudança do padrão da relação entre o Estado e a sociedade. Veja uma coisa: na semana passada se criou uma celeuma se eu iria ou não à Conferência Nacional do Movimento GLBT (Gays, lésbicas, bissexuais e travestis). É um absurdo. Você imagina que o preconceito perpassa na cabeça de cada jornalista, a cabeça de cada integrante do governo, a cabeça de cada pessoa, porque o preconceito é generalizado. Você imagina... Eu sou, na história do mundo, o primeiro presidente a ir a uma conferência em que você tem lésbicas, travestis, homossexuais. E eu fui lá e se não tivesse escrito nos cartazes que era GLBT, eu sairia como se estivesse em qualquer outro encontro que não fosse desse movimento. Agora, nós criamos o preconceito. E eu dizia para eles: ninguém tem preconceito quando vocês vão votar. Ninguém tem preconceito quando vocês vão pagar Imposto de Renda. Eu acho o preconceito a pior doença na cabeça do ser humano.

Por falar em preconceito, no Rio de Janeiro o PMDB e o PT romperam a aliança em torno da candidatura do petista Alessandro Molon. Motivo: existia uma grande dificuldade de acordo com o PT no interior do Estado. O senhor não acha que existe um certo preconceito do PT com os partidos aliados?
– Não vamos misturar divergências politico-ideológicas com preconceito. São duas coisas distintas. O PT, como os outros partidos políticos tem os seus defeitos. Todo partido político, do A ao Z, todos gostariam de ter o seu candidato a prefeito, o candidato a vice ser seu, a chapa de vereador ser puro sangue e eleger todo mundo. É bom que isso não seja sempre possível, para que nós possamos ter a cabeça arejada. Mas , infelizmente, não deu certo no Rio de Janeiro entre o PT e o PMDB, embora tenha dado certo em vários outros lugares.

Mas como o senhor vê o caso de Belo Horizonte?
– Sou um crítico do comportamento do PT em relação a Belo Horizonte. Você tem um problema local, que a direção municipal aprovou, a direção estadual aprovou, e a direção nacional parte para cima de uma briga que não é nossa. Ora, o candidato é do PSB, o vice é do PT, não vai ter coligação na chapa de vereadores, onde é que está o Aécio Neves a essa altura, senão apenas apoiando? Qual é o estigma, se nós temos em outros lugares aliança com o PFL e com o PSDB? Na política também quando você cria estigmas contra as pessoas, você começa a perder. Eu ainda acredito que o PT vai voltar atrás no caso de Belo Horizonte.

E no caso do Rio?

– No caso do Rio, o PMDB decidiu ter candidatura própria.
Não posso dizer que não deva ter porque o partido tem o governador do Estado, é forte, pode ter. Agora, o que eles têm que admitir é que o PT também tem que ter candidato. O que eu acho é que se todos tivessem juízo a base do PT se uniria com o candidato a vice e a prefeito, ganharia as eleições e ajudaria a transformar o Rio de Janeiro na Cidade Maravilhosa.

Isso vai fazer com que o senhor tenha que ficar neutro na disputa do Rio?
– Já tomei a minha decisão antes. Eu participarei muito pouco das eleições municipais em todo o país. O presidente da República não vai se meter nas eleições municipais, porque tem muitos deputados concorrendo às eleições. E a glória de quem ganhar vai ser dele, na cidade dele. Vai ter festa, não vou ficar nem sabendo. Mas os que perderem voltarão para cá azedos. E aí eu tenho que conviver com eles mais dois anos. Então eu preciso saber que caldo de galinha e cautela não fazem mal a ninguém. Eu preciso governar este país até 2010, com a tranqüilidade que estamos governando agora. Por isso não farei das eleições municipais um cavalo de batalha.

E essa descoberta de petróleo?
– Eu trabalho com o cenário de que o Brasil será o terceiro ou quarto produtor mundial de petróleo. O Brasil não pode se conformar a ser um país exportador de petróleo bruto. Nós precisamos usar essa potencialidade em petróleo e criar uma verdadeira indústria petroleira neste país. Um estaleiro para construir sonda, um estaleiro para construir plataforma, um estaleiro para construir embarcações. Hoje, se a gente tivesse que completar todas as sondas que a Petrobras precisa para começar a trabalhar, a gente não teria condições só com a produção brasileira. Será preciso a gente trazer de fora para que dê tempo de o nosso parque industrial se preparar. Mas essa é uma oportunidade excepcional para a gente desenvolver a indústria naval brasileira. E eu acho que nós precisamos aproveitar esse petróleo, eu não discuti ainda com ninguém o que nós vamos fazer com o petróleo, que pertence à União. As áreas que não foram leiloadas ainda são da União.

O Brasil deveria criar uma nova empresa com monopólio total sobre as novas jazidas?
– Eu na verdade estou pensando seriamente nos investimentos que podemos fazer. Eu sonho com a criação de um fundo para investir na educação neste país. Outra coisa que penso é que o Brasil vive um momento tão excepcional que eu acho que a nossa oposição deveria ser mais construtiva. Achei bom o programa de TV do PSDB. Eles deveriam fazer na prática o que falaram na televisão. Fizeram até em branco e preto para parecer uma coisa antiga. Gostei muito. Mas eu queria que eles assistissem ao programa todo dia quando levantassem de manhã para ir ao Congresso.

O que o senhor achou do depoimento da diretora da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Denise Abreu?

– É como se alguém levantasse pela manhã, fosse fazer um suco de laranja e a laranja não tivesse suco. Ou seja, como é que podem alguns senadores passarem 9 horas naquela conversa com ela, sem nada. Espremiam, espremiam e, nada. O que deu? Qual é o resultado daquilo? Esse caso da Varig foi inteiramente cuidado por um juiz, começou e terminou. Não houve participação do governo, porque o governo não podia fazer nada. Estava na mão do Judiciário. Agora vêm as pessoas e dizem: mas o governo tinha pressa. Lógico que nós tínhamos pressa. A Varig estava quebrada. Todo dia a manchete era sobre o caos aéreo. Vejam o caso do avião de Congonhas. Foi o pior inferno que eu já vivi. De repente, estou sentado na minha mesa e jogam nas minhas costas 200 mortos. E eu acompanhei tudo que se escreveu, acompanhei televisão, mudava de canal toda hora. Era como se o governo fosse o responsável por aquele avião ter caído. Nós não parávamos nem para pensar. E no dia seguinte saiu o vídeo da Infraero mostrando o que realmente aconteceu. As pessoas simplesmente apagam da memória, sem um pedido de desculpas. Ou um "erramos!". Apagam, esquecem. Eu penso que, no Brasil, a imprensa trabalha com traumas. Não tem coisa que magoe mais um jornalista do que ser chamado de chapa-branca. E às vezes o medo de ser chapa-branca faz ele extrapolar os limites do que pode fazer. O telespectador é mais inteligente do que a gente pensa. Ele saca. Tem um apresentador de televisão, que falava mal do governo todo dia. O pessoal ficava incomodado. Eu disse: gente, antes de ser presidente eu fui telespectador a vida inteira. E o telespectador não acredita nem em uma pessoa que só fale bem, nem em uma pessoa que só fale mal. Não acredita. Se você aparecer 20 vezes falando bem do governo, ninguém acredita. Se você aparecer 20 vezes só falando mal, também ninguém acredita.

O senhor ainda se julga de esquerda?
– Eu cada vez sou mais torneiro mecânico. (risos) Nunca gostei de andar com rótulo na testa, que sou isso ou aquilo. Obviamente que todo mundo sabe da minha origem, da minha vida pública, e que eu me considero um homem de esquerda.

E corinthiano...
– Sofri muito quarta-feira à noite.

Mas o senhor não pode falar mal do Sport, porque se quiser ser candidato ao Senado por Pernambuco...

– Só um ato de insanidade me faria deixar sete meses a Presidência da República para ser candidato ao Senado. Este aqui é o cargo mais importante da Federação. Eu levei 12 anos para chegar aqui, por que vou deixar isso aqui para ser candidato ao Senado?

O senhor ainda é jovem...

– Vou deixar a Presidência com 64 anos de idade. Obviamente que para os padrões políticos brasileiros não sou velho. Meu paradigma de longevidade é a Dercy Gonçalves e o Oscar Niemeyer. Quero chegar a essa idade, com o prestígio do Oscar Niemeyer e com a peraltice da Dercy Gonçalves. Eu a vi um dia desses na televisão, ela fala todas as bobagens que um ser humano tem direito. Obviamente que vou deixar a presidência aos 64 anos de idade e que nunca vou desistir da política. Também não quero voltar ao poder, não quero voltar a dirigir o partido, não está mais na minha cabeça. Vou viajar pelo Brasil, gosto deste país, vou conhecer cada vez mais por dentro este país. E não tenho pretensões de dar palpites, quem quer que seja que esteja aqui, não ouvirá da minha boca nenhum palpite sobre qualquer que seja sua decisão. Na minha filosofia, rei morto, rei posto.

Mas nada impede que o senhor volte. O senhor vai ser uma pessoa forte no país, de qualquer maneira.
– Não trabalho com a hipótese de volta. Se eu puder fazer um juramento: pela felicidade do meu filho caçula. Por que eu não trabalho com a possibilidade de voltar? Eu trabalho com a possibilidade de fazer a minha sucessão. Se eu eleger meu sucessor e ficar do lado de fora dando palpite, com poucos meses terei a pessoa que elegi como minha adversária. Como acontece em alguns países e como já aconteceu aqui. Se eu elegi uma pessoa, eu tenho a obrigação moral de ajudar essa pessoa a governar bem. E uma forma de ajudar a governar bem é não dar palpite. Se for consultado, ainda assim, falar em off. Qual é a hipótese de voltar? Se você estiver vivo ainda, se for um adversário que seja eleito. Trabalhar com essa hipótese é no mínimo mesquinharia elevada à quinta potência. Quando você passa por aqui, você tem que ser tão humilde e começar a imaginar que quem sentar aqui tem que fazer o máximo e o melhor que puder fazer, porque só assim o povo brasileiro vai ganhar. Então a gente não pode nunca torcer contra. O meu lema é o seguinte: dia primeiro de janeiro de 2011 eu entregarei a Presidência da República para alguém e vou para a minha casa conviver com a minha família. Não tenho tenho interesse de ser candidato a senador, a governador, a vereador. Nada.

Prezado Sr. Stálin - por Elias Thomé Saliba (Estadão)

Bastidores da batalha diplomática

Prezado Sr. Stálin, de Susan Butler, revela algumas das cenas mais inusitadas da política do século 20




Quem diria que Stálin foi agraciado com o título de 'homem do ano' de 1942, ganhando foto de capa e manchete de 'salvador do mundo ocidental' na revista Time? E que a repentina morte de Franklin Roosevelt, três anos depois, provocaria enorme comoção em Moscou, com uma multidão dirigindo-se para a embaixada americana, homenageando o falecido como um 'grande amigo da Rússia e da paz'? Varridas da memória pelo ambiente pesado da Guerra Fria pós-1945, essas são, entre muitas outras, algumas das cenas mais inusitadas da história do século 20, que certamente invadem a lembrança coletiva após a leitura da correspondência entre Roosevelt e Stálin, organizadas e editadas por Susan Butler.

Escritas entre 1941 (ano do ataque alemão à Rússia) e 1945 (ano da morte de Roosevelt), transmitidas por cabo ou entregues pessoalmente por diplomatas de estrita confiança dos dois governantes, são mais de 300 cartas, extremamente reveladoras da intensa batalha diplomática ocorrida nos bastidores da 2ª Guerra. Bem guardadas pelo sigilo oficial, propositalmente obscurecidas por alfinetarem orgulhos inflados de russos e americanos ou solenemente ignoradas pelos caprichos da memória política - elas retornam agora, quase 60 anos depois, devidamente anotadas, contextualizadas e minimamente preservadas em sua autenticidade no livro Prezado Sr. Stálin . Apesar de todos os protocolos diplomáticos, mensagens cifradas ou parafraseadas por inúmeros mediadores (inevitáveis em tempos de guerra), as cartas foram realmente escritas pelos dois líderes.

Suficientemente realista para confiar em certos momentos e desconfiar noutras ocasiões, Roosevelt revela escrita de estilo ágil, sereno, discernindo caminhos conciliadores - sem, contudo, esconder de Stálin os obstáculos e oposições internas às suas decisões, tanto dos republicanos quanto dos 'isolacionistas'. Já Stálin, descontados os problemas da tradução (a organizadora manteve os erros para mostrar como exatamente Roosevelt leu as cartas), não consegue esconder seu estilo deselegante, truncado - embora meticuloso e preciso apenas nos detalhes de manobras e estratégias militares. Só muito raramente a propalada incontinência verbal de Stálin irrompe nas cartas, quando numa delas - ao insistir com Roosevelt na necessidade urgente do envio de mais aviões - desabafa, em tom quase farsesco: 'A situação singular da aviação soviética é a de dispor de um número mais do que suficiente de pilotos, mas não de aviões!'

Nem sempre foi fácil suportar as interpelações raivosas e duras de Stálin. Churchill só atirava mais lenha na fogueira, provocando: 'O que se pode esperar de um urso senão um rugido?' O próprio Roosevelt perdeu a paciência em novembro de 1944, ao discutir a situação do governo polonês no exílio, embora tenha levado apenas uma semana para recuperar o equilíbrio, mostrando-se devidamente contido já na próxima carta, quando cumprimenta Stálin pelo 26º aniversário do Exército Vermelho. A resposta é extremamente cordial, mas apenas protocolar, pois se sabe que foi precisamente nesta época que Stálin teria dito nos bastidores que 'a gratidão é uma doença dos cães'.

De qualquer forma, as cartas de Stálin, reforçam o ácido comentário de Clement Atlee quando dizia que o ditador desprezava profundamente a linguagem floreada: 'Com Stálin, é sempre um sim ou um não, embora só se possa acreditar nele quando diz não.' As cartas evidenciam ainda quanto a União Soviética precisava urgentemente de toda a ajuda que pudesse obter e, para isso, não interessava fomentar antagonismos com os Estados Unidos. O presidente norte-americano e o ditador nunca estiveram tão próximos: encontraram-se apenas por duas vezes, em Teerã, em novembro de 1943 e em Ialta, em fevereiro de 1945, mas as cartas revelam uma inusitada sintonia entre os dois, que se vislumbra nas pitorescas jogadas de Roosevelt (na organização das duas conferências), para ficar próximo a Stálin, livrando-se das excessivas exigências (e da verborragia) de Churchill - ou usando a personalidade deste último como parte do jogo diplomático.

No geral, é uma correspondência que nada acrescenta nem altera a história da 2ª Guerra. Fornece, contudo, novos ângulos de visão e outras perspectivas, nem sempre agradáveis à nossa amnésia histórica. De material bélico pesado a alimentos e vestuário, as cartas adicionam detalhes espantosos a respeito da enorme ajuda material que Roosevelt conseguiu liberar para a União Soviética derrotar a Alemanha. Muitos viram nesse tópico apenas um resquício da atitude amplamente favorável de Roosevelt em relação à URSS, interpretada, não raro, como ingenuidade de alguém que foi vítima das próprias ilusões. Mas existiram outras alternativas? Algumas cartas deixam clara a decepção de Roosevelt com os acordos de Ialta. Ele sabia, no fundo, que esses nada valeriam, pois o delineamento da Europa do pós-guerra seria determinado não por acordos, mas pela localização real dos Exércitos ocupantes quando da rendição alemã. Entre as muitas crueldades inenarráveis da guerra, o nó diplomático mais delicado foi quando Roosevelt praticamente ignorou o assassinato de mais de 20 mil oficiais poloneses na floresta de Katyn - os quais (depois se descobriu) foram mortos não pelos alemães, mas pelos russos da NKVD.

Por outro lado, Roosevelt mantém no seu horizonte uma noção muito clara de que o espectro de uma aliança germano-soviética ainda era muito recente. Embora cruel e frustrante foi imperioso deixar Stálin com as mãos livres no Leste Europeu, pois a URSS tinha de ser mantida, a qualquer custo, na guerra contra a Alemanha e, mais tarde, contra o Japão. Não foram poucos os biógrafos que 'medicalizaram' a hesitação melancólica de Roosevelt, atribuindo-a à hipertensão, sinusite, bronquite, arteriosclerose, isquemia temporária, além, é óbvio, da semiparalisia decorrente da poliomielite. Mas é muita fisiologia para pouco espírito. Contrariando tais presunções, as cartas revelam que a resignação e a tristeza vinham da dura constatação de que qualquer diálogo com Stálin seria impossível sem uma atenuação - quando não um esquecimento doloroso - das crueldades, genocídios, hostilidades ou suspeitas mútuas.

Schlesinger Jr. argumenta que Roosevelt conseguiu, apesar de tudo, estabelecer padrões para a Europa Oriental, enquadrando Stálin e obrigando-o a romper com o acordo de Ialta para consolidar as posições soviéticas. Foi pouco, mas melhor que nada. Roy Jenkins também argumenta na mesma direção, afirmando que Roosevelt não 'deu' nada a Stálin que ele já não possuísse através da ocupação militar. Com algumas objeções, Isaiah Berlim acompanha o mesmo diagnóstico, enfatizando, nesse sentido, que Roosevelt conseguiu atuar como um farol iluminando o futuro. Para além dos intérpretes, as cartas revelam que Roosevelt conseguiu manter sempre o diálogo e que Stálin nutria uma velada admiração pelo presidente americano. Conseguiu até mesmo que o seu interlocutor aceitasse o tratamento brincalhão, ao chamar Josef Stálin de 'Tio Joe'.

Menos de dez dias depois da morte de Roosevelt, o embaixador russo, Vyacheslav Molotov (que era para Stálin o que Harry Hopkins era para Roosevelt), já seria destratado por Harry Truman: 'Ninguém jamais falou assim comigo', reclamou Molotov; 'cumpra sua palavra e não o tratarei desta maneira', rebateu Truman. Esse diálogo seria inconcebível na presença de Roosevelt. O restante da história é bem conhecido: quatro meses depois da morte de Roosevelt vieram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki - e as cinzas da Guerra Fria manietaram o diálogo e calcinaram as mentes.

Se Roosevelt tivesse vivido pelo menos até o fim do seu mandato, a história seria diferente? O condicional - também chamado pelos historiadores de raciocínio contrafactual - é quase um tabu na lógica histórica e, quando mal conduzido, resulta pernicioso e impertinente. Mas a leitura das cartas fornece perspectivas inquietantes, a respeito das quais cabe ao leitor decidir. 'Durante mais de 60 anos - escreveu E.J. Hobsbawm -, eu e Arthur Schlesinger Jr. não concordamos sobre nenhum assunto, a não ser este: eu compartilhava - e ainda compartilho - de sua admiração por Franklin D. Roosevelt.' E se um personagem tão controverso suscitou a admiração de dois historiadores tão diferentes, é quase certo que ele possuía algum quilate daquela rara grandeza. O que, nos dias de hoje, não é pouca coisa.

Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso: A Representação Humorística da História Brasileira.


Comentário: A capa da Time do "homem do ano" de 1942, "salvador do mundo ocidental", conseguida no blog do Luis Nassif:

sábado, 14 de junho de 2008

Tudo como sempre - por Mauricio Dias (Cartacapital)

Junho de 1994. Quando a primeira edição de CartaCapital chegou às bancas, exatamente 499 edições atrás, o Brasil já entrava em ebulição político-eleitoral para escolher o sucessor do presidente Itamar Franco, um vice-presidente que chegou ao exercício da Presidência pelo impeachment do titular, Fernando Collor.

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso ganhou a eleição do operário metalúrgico Luiz Inácio da Silva, o Lula. A vitória foi conquistada com um truque eleitoral. FHC foi batizado criador do Plano Real. Naquele mês de junho, o real ainda não circulava. A paternidade da moeda, porém, seria explorada intensamente a partir do mês de julho e ainda na campanha eleitoral. O real foi retirado do currículo do presidente. Não há exemplo anterior de qualquer ministro da Fazenda que tenha passado à história como criador de uma nova moeda.

Responda rápido se duvidar da afirmação: quem era o ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, em 1942, quando o cruzeiro substituiu o mil réis?

Foi por essa razão que, em 9 de junho de 1994, a Folha de S.Paulo chamou na primeira página a informação de que FHC tinha sido notificado pela Justiça para se defender da acusação de uso do Plano Real para obter vantagens eleitorais. A resposta do notificado é curiosa: ele disse que o fato configurava um ato de “antipatriotismo”. “O Brasil sou eu”, terá pensado FHC, que não é conhecido exatamente pela modéstia. Talvez essa certeza seja também um fator que o tenha levado a se desfazer de parte do patrimônio público a preços módicos.

Afora esse pequeno golpe publicitário do Plano Real, a grande novidade no período é que o operário, derrotado em 1989, por Collor, e duas vezes por Fernando Henrique (94 e 98), ganhou a Presidência da República em 2002.

A vitória de Lula, conduzida com o estandarte do entusiasmo e da esperança, adaptou-se às regras básicas da política apenas com algumas diferenças. Diferença não é mudança, transformação.

Lula tirou milhões da miséria. Essa inclusão social importante, mas não definitiva, foi feita pelo Bolsa Família, um grandioso programa de assistência. Não fosse esse ponto elogiável, valeria para o governo do PT uma cláusula pétrea do liberalismo do antecessor: os direitos políticos compensam a inexistência dos direitos sociais. Esses últimos 14 anos republicanos não diferem essencialmente dos anteriores 105 anos da República brasileira. O período é apenas um minúsculo recorte de uma história quase monolítica, uma evolução preguiçosa e cômoda, como já foi chamada, com pouquíssimos momentos de mudanças significativas. Ou seja, aquela mudança que muda e não a que muda para conservar.

Numa história sem saltos qualitativos, a pauta dos jornais costuma indicar algumas das conseqüências da ilusão de mudar para deixar tudo como está. As sementes da perturbação produzem espinhos.
Um exemplo: a luta dos sem-terra que foi parar na primeira página do jornal O Estado de S. Paulo, na edição de 2 de junho de 1994 – “Sem-terra usam técnica de guerrilha” – e continuava na primeira página no dia 11 de junho de 2008: “MST bloqueia estradas e indústrias em 13 estados”.

Vem daquele ano também outro problema de enorme atualidade. Trata-se das doações para as campanhas eleitorais que deram tanta dor de cabeça a Lula, para a alegria da oposição e, agora, atormentam a tucana Yeda Crusius, para prazer dos governistas. É melhor, no entanto, que nem um nem outro acredite no ditado de que quem ri por último ri melhor. Nessa questão nunca se sabe quem será o último a rir.

No dia 13 de junho de 1994, o Estadão dizia, em reportagem sobre o grande comício do PT, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, que o partido gastaria 80 mil dólares. E que o “orçamento oficial” da campanha previa uma despesa de “pelo menos 30 milhões de dólares até o fim da eleição”. De onde viria tanto dinheiro para os petistas?

“Campanhas estão irregulares”, gritava a manchete da Folha de S.Paulo, em junho de 1994, apoiada numa informação do Tribunal Superior Eleitoral de que “todos os candidatos” estavam “agindo irregularmente” com relação aos gastos de campanha. Na mesma página, Antonio Carlos Magalhães, ex-governador da Bahia, eleito senador naquele ano, garantia que “o Plano Real” não sustentaria a campanha de FHC. Errou. As previsões dos políticos, contaminadas por interesses pessoais, são quase sempre terrivelmente falhas. FHC ganhou de Lula no primeiro turno.

Mais uma previsão errada, anunciada em manchete pelo jornal O Estado de S. Paulo: “País caminha para crise institucional, prevêem Planalto e parlamentares”. A razão para tanto e desnecessário temor saía de “análises internas da Presidência da República” e consenso “entre líderes de diferentes partidos no Congresso”, a partir do fracasso da reforma da Constituição que os tucanos queriam antes de FHC assumir: as privatizações e quebra de monopólios nacionais.

A manutenção dos juros altos era também uma prioridade na agenda dos economistas tucanos. Uma manchete da Folha de S.Paulo informava, em 11 de junho, que o presidente Itamar Franco queria regulamentar o item da Constituição que limita os juros reais em 12% ao ano. “A equipe econômica está perdendo as rédeas do Plano Real”, dizia o jornal e listava a interferência de Itamar Franco na fixação dos aluguéis, nas mensalidades escolares e lei antitruste.

Nessa agenda sem renovação, nem mesmo a idéia da televisão pública é uma novidade. Pelo menos na cabeça de Lula, que percebia a dificuldade de ser tratado com alguma isenção pela mídia brasileira. Em 9 de junho de 1994, o candidato petista ganhou espaço no Estado de S. Paulo com uma afirmação feita durante visita à cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. “Lula quer canal de televisão para se defender”. Se fosse eleito presidente, “para se defender das críticas dos meios de comunicação”, Lula prometia criar uma emissora pública que atingisse “do Oiapoque ao Chuí”.

A taxa de juro já esteve oficialmente abaixo dos 12% no governo Lula. Mas subiu de novo. Essa queda-de-braço entre o Banco Central e os políticos se arrasta nesses 14 anos. O BC se vale das crises internacionais e mantém o Brasil no topo do ranking dos países com os juros mais altos do mundo. Juros altos e economia financeirizada são as condições básicas do “capitalismo de cassino”, segundo o batismo dado ao modelo.

Sob esse ângulo, o processo político-econômico parece um filme já visto, com algumas cenas novas. Entre elas a indiscutível vontade de Lula de dar mais movimento à luta daqueles que buscam mais direitos e mais provisões e, com isso, aumentar, um pouco, a oportunidade de vida de pessoas tiradas da miséria. Por outro lado, ao abandonar alguns conceitos que propiciavam conflitos fundamentais para a sociedade brasileira Lula e o PT tornaram-se quase iguais aos outros. O realismo político jogou o partido na disputa do poder pelo caminho conhecido. Havia mais diferença e mais graça quando os petistas militavam também por alguns objetivos mais abstratos. Sem isso, a diferença se esmaeceu. Assim, a história pode ficar, no futuro, muito parecida com a contada hoje, que é quase igual à de 14 anos atrás, quando CartaCapital apareceu como uma novidade no repetitivo cenário da imprensa brasileira. Chegou disposta a formar montanhas a partir de grãos de areia.

Deus já deu a mãozinha - por Delfim Netto (entrevista da Cartacapital)

Antonio Delfim Netto Foi professor da USP, deputado federal eleito de 1986 a 2002, ministro do Planejamento, entre 1979 e 1985, e embaixador do Brasil na França de 1975 a 1977. Hoje, é um conselheiro informal do presidente Lula e uma mente lúcida a serviço do debate.

CartaCapital: Contra um determinado senso comum, o senhor aponta diferenças entre a política econômica de Lula e a de Fernando Henrique Cardoso. Quais são as principais?
Delfim Netto: Não deixa de ser um pouco ridículo alguém imaginar que é dono de uma política. É como se a política econômica do governo Fernando Henrique tivesse sido produzida por ele. Nos primeiros quatro anos, ela estava implícita no programa do real, feito certamente por profissionais de alta qualidade, quando FHC era ministro da Fazenda. O resultado foi bastante razoável. O Plano Real, do ponto de vista do combate à inflação, foi extremamente eficaz, mas deixou como resíduo algumas coisas terríveis. Tanto é verdade que o Brasil quebrou em 1998. No combate à inflação, o real dominou todos os outros planos: o argentino, o israelense e o mexicano, por exemplo. Sob a ótica do crescimento, ele foi o pior de todos. Gerou uma situação externa insolúvel. Tanto que o Brasil teve de correr ao FMI e conseguir um empréstimo importante. Naquele momento, o Fundo salvou o País, pois certamente Lula não estava preparado para a situação. O PT não tinha sequer entendido do que se tratava. A sucessão teria sido uma tragédia sem o auxílio do FMI. Fernando Henrique reelegeu-se, mas quem mudou tudo foi o Fundo. Era a política canônica que existe no mundo inteiro hoje: relativo equilíbrio fiscal, política de controle de inflação por meio de metas e câmbio flutuante. Hoje há uns 150 países que usam o mesmo tipo de política. O que Lula fez na verdade? Primeiro, radicalizou essa política canônica, porque em 2002 o Brasil estava falido de novo. Basta olhar o seguinte: entre 1998 e 2002, a dívida externa crescia a 6% ao ano e a exportação, a 4%. Não é preciso ser físico quântico para saber que estava quebrando. Na transmissão do cargo de FHC para Lula, a inflação rodava a 30% ao ano. E as reservas, excluídos os recursos do FMI, eram de 17 bilhões de dólares. Aquilo era uma falência programada, tanto que diziam que Lula seria “Lula, o Breve”.

CC: Atribuiu-se a crise à possível eleição de Lula.
DN: É uma coisa ridícula dizer que o câmbio chegou lá em cima simplesmente por causa de Lula. O câmbio subiu porque o Brasil tinha quebrado. O presidente aumentou a taxa de juros, como as pessoas não imaginavam que ele fosse fazer, e elevou o superávit primário. É preciso dizer que, nos primeiros anos do governo FHC, o superávit primário foi zero. No segundo, foi de 3,8%, por exigência do FMI. Como diz Lula: “Eu e a mãozinha de Deus resolvemos o problema”. A mãozinha de Deus foi a expansão do lucro. Acontecem coisas que são até curiosas e interessantes. A exportação no governo FHC crescia entre 4% e 4,5% anuais. No primeiro ano de Lula, aumentou 22% e continuou nesse ritmo até o ano passado. Foi isso que colocou o Brasil numa situação muito mais tranqüila e permitiu a acumulação das reservas internacionais. Porém, avançamos muito pouco. A participação do Brasil no comércio internacional era de 1,2% em 1984, terminou em 0,9% com FHC e Lula simplesmente o elevou a 1,2%. Quer dizer, nós voltamos para 1984.

CC: Em comparação com o período de FHC, como o senhor avalia a política comercial externa hoje, tanto em relação à opção por países vizinhos ou da África, como às iniciativas do Itamaraty? Houve mudanças?
DN: Há uma mudança muito mais formal do que real. Mudança real acontece independentemente dos governos. Quem faz comércio não é o governo. É o setor privado, que tem interesses e não tem nacionalidade. O Brasil exporta para a África porque possui um pouco mais de capacidade competitiva lá do que em outras regiões. Pode-se escolher o parceiro, uma coisa um pouco melhor, uma solidariedade tribal, mas não é isso que provoca a mudança do comércio. A mudança é produzida por interesses. Isso mostra o seguinte: não aumentamos nossa inserção mundial. E temos um problema sério, pois o movimento de relação de preços de minerais e de agricultura não é seguro. Há 250 anos de estatísticas confiáveis mostrando que o PIB global flutua. Flutuou no regime do padrão-ouro, no câmbio fixo e no flutuante. Os ciclos têm períodos e amplitudes diferentes. É pouco provável que esse ciclo vá continuar. O aumento dos preços das matérias-primas se deve, de um lado, à expansão do mundo. De outro, é o retrato da desvalorização do dólar, porque o preço do petróleo não está alto apenas porque a demanda de petróleo cresceu mais do que a oferta. Está onde está porque os produtores de petróleo tentam manter seu poder de compra no mercado internacional. Como a unidade de conta é o dólar, o preço é desvalorizado naturalmente. Como se houvesse correção monetária. O segundo fator é que realmente a curto prazo a demanda cresceu muito mais do que a oferta. O terceiro ponto é claro: somos muito beneficiados por isso, mas quando olhamos o futuro, o desenvolvimento da oferta, tanto dos produtos minerais como dos agrícolas, há problemas. Porque no caso do mineral, toda tecnologia é poupadora de mão-de-obra, e esse é um produto finito. No caso da agricultura, o desenvolvimento poupa a mão-de-obra e a terra. Basta olhar o seguinte: para produzir 1 litro de álcool hoje, é preciso um terço da terra do que no passado. E o desenvolvimento tecnológico vai nessa direção. Em 20 anos, o Brasil terá 250 milhões de habitantes e serão necessários empregos decentes para 140 milhões de sujeitos entre 15 e 65 anos. Empregos não são gerados com a exportação de minérios e de produtos agrícolas. Essa visão míope prevaleceu, pois desde 1985 nunca mais se pensou nesse problema.

CC: O senhor acha que Lula consegue se virar sem “a mãozinha de Deus”?
DN: Deus já fez o que podia. Deu essa mãozinha, depois mandou descobrir o petróleo aqui, descobrir o álcool, e avisou que só existem duas coisas que abortam o crescimento: falta de energia e déficit em contas correntes não financiadas. Como se dissesse: “Te dei uma mão para resolver a primeira e uma mão para resolver a segunda. Agora cuide de si, que eu também tenho de pensar na África e na Ásia”.

CC: Energia e conta corrente são condicionantes para o desenvolvimento?
DN: Sim. Vamos pensar primeiro na energia. Estávamos passando por dificuldades em 1998, uma saia-curta danada, tivemos sorte de novo. Deus ainda disse: “Mais uma vez, vou te dar uma mãozinha”. Para 2009, a situação é muito melhor. O problema do gás foi uma barbeiragem enorme em 2008. Está praticamente resolvido. Será possível importar gás líquido e a coisa vai caminhar. Não haverá problema de oferta. Mas surgirá o problema de aumento de custo marginal de energia, uma coisa desagradável, mas não é o drama da escassez. O governo está acelerando as hidrelétricas, o rio Madeira está funcionando e a usina de Jirau vem aí. Em energia, estamos resolvidos para os próximos 25 anos. Já em conta corrente, não. Temos ainda o bônus que foram os 200 bilhões de dólares de reservas internacionais. A única solução nossa para se ter tranqüilidade, para garantir o crescimento nos próximos 15 anos, é desenvolver um programa industrial exportador.

CC: O câmbio não impede o desenvolvimento industrial?
CN: O câmbio é um problema gravíssimo, porque o Brasil repete um erro que teve início em 1985. Cada vez que o governo teve a oportunidade de usar o câmbio de uma maneira oportunista, para controlar a inflação, não funcionou. É o que acontece hoje. Na verdade, o canal mais eficiente que o Banco Central dispõe é o câmbio. O BC não quer reconhecer o fato de que esse erro produziu a supervalorização do real. É certo que o câmbio do Brasil tinha de se valorizar de qualquer jeito. Primeiro, porque é o espelho da desvalorização do dólar. Segundo, porque houve no País uma mudança estrutural. A oferta de petróleo interna cresceu muito. Chegamos a gastar 45% das exportações para importar petróleo. Hoje, apenas 1%. Em três anos, seremos exportadores. É normal um pouco de valorização do câmbio. Já a supervalorização é produzida por uma especulação no mercado virtual, resultado do diferencial do juro interno e externo. Isso é uma coisa fantástica. Uma aplicação na bolsa brasileira rendeu 70% em dólares em 2007. O efeito sobre o câmbio é devastador. O Brasil é hoje o maior peru disponível no mercado internacional, fora do Dia de Ação de Graças. O único mecanismo para corrigir o câmbio hoje seria um movimento combinado de corte da despesa do governo e simultaneamente baixar o juro. O que não é possível é reduzir o gasto do governo, com o juro onde está. É preciso uma coordenação melhor entre a política fiscal e a monetária.

CC: Onde o governo atua mal?
DN: Em todo lugar. O governo é a coisa mais ineficiente do mundo. A educação e a saúde são exemplos típicos. Na verdade, é um sistema muito bom, em que todo mundo tem dois empregos. Você sabe por que é bom ter dois empregos? Porque você sempre está no outro. Não vamos ter ilusão. Não gastamos pouco nem em educação, nem em saúde. Hoje eu vejo os dois ministros extremamente antenados com esse problema, tanto Haddad (da Educação) como Temporão (Saúde). O programa Bolsa Família é um gasto correto, porque permite aquele mínimo de igualdade e de oportunidade que torna o regime capitalista moralmente aceitável.

CC: Mas há críticos do uso do programa para comprar eletrodomésticos, por exemplo, e não comida.
DN: Os cidadãos estão angustiados e hoje têm acesso a um mínimo de conforto. Eles têm pressa. Qual é a nossa tarefa? Mostrar para eles que não é errado ter pressa. Mas o excesso dela não vai levar a nada. Existe um trade off (troca) entre o presente e o futuro. Precisamos dar a garantia de que o futuro também existe para qualquer brasileiro. Assegurar que terá igualdade de oportunidades às do meu filho em cinco ou dez anos. Se o País quer ampliar o consumo hoje, tem de pagar o preço de menor crescimento no futuro. Não é possível simplesmente dizer: “Espera aí. Eu não estou fazendo nada e o futuro vai acontecer por gravidade”. Esta é a mudança de Lula. Ele é um sobrevivente. É o único sujeito no Brasil que quando fala de pobre está falando de pobre. Os outros todos são cínicos.

CC: O BNDES tem tomado algumas iniciativas para patrocinar a formação de grandes empresas nacionais, como no setor de telecomunicações.
DN: Onde existem ganhos de dimensão, são iniciativas muito úteis. Nos setores farmacêutico e petroquímico, uma grande empresa pode sim ajudar a construir vantagens comparativas. Essa é outra grande diferença entre os economistas. O grosso deles, ao menos os que se pensam cientistas, acha que a vantagem comparativa é presente de Deus. Se ele deu, deu, se não, paciência. Os mais agnósticos consideram que a vantagem comparativa pode ser construída. O Brasil mostrou que pode. Corretamente, o BNDES tenta encontrar setores onde é possível auxiliar a formação de grupos nacionais que usem a melhor tecnologia possível, porque existe um mercado interno razoável e perspectivas no mercado externo.

CC: A política industrial exportadora não pode ser abortada justamente pela política monetária, que usa o câmbio para conter a inflação? Não é mais uma coisa que pode ficar no papel?
DN: Eu não acredito que o governo seja tão tolo e que não esteja pensando em uma coisa mais completa. Não há nenhuma necessidade de o Brasil ter o maior juro do mundo. E, pior, não há nenhuma necessidade de o BC prometer aumentar ainda mais a taxa real, nos próximos 12 meses. O Brasil é um País hoje pronto para conviver com uma Selic de 8,5% ou 9%. Estão falando em 13,75%. Mas para quê? Para quem? O Brasil é o único lugar onde o banqueiro diz ter prejuízo quando o juro sobe. É um País estranho. É só olhar o merchandising combinado, o minueto dançado entre o BC e o sistema financeiro para aumentar o juro. Só existe uma medida radical para o Brasil: estatizar o Banco Central.

CC: Existe uma clara falta de sintonia entre diferentes grupos do governo que deveriam estar mais harmonizados: Fazenda, Banco Central e Planejamento. Cada um olha para um lado.
DN: Por que eu tenho esperança? Porque confio na intuição de Lula. Ele tem uma inteligência absolutamente privilegiada. É o Darwin andando. Possui uma consciência clara de que é preciso produzir essa coordenação. Em algum momento, Lula vai fazê-la. Tenho pelo presidente uma grande admiração, porque ele realmente colocou o País num caminho com futuro. Eu não vejo nenhuma razão para o Brasil não continuar crescendo 5,5%, 6% ou 7% nos próximos 20 anos.

CC: E a crise alimentar?
DN: No caso do Brasil, é ridículo. O País tem aumentado simultaneamente a produção de biodiesel e de alimentos. A produção de cana-de-açúcar não só é compatível, como concomitante com a produção de alimentos. No caso brasileiro, por que subiram os preços? Tivemos vários problemas, inclusive a lamentável política agrícola. Na verdade, o Brasil explora os agricultores desde o início do real. No início do plano, prometeram o lago azul ao agricultor. Mas eles esvaziaram a piscina para o pessoal se jogar lá e cair do trampolim sem água. A agricultura carrega uma dívida enorme. Não porque não quer pagar, mas porque não tem renda e falta um fator importantíssimo: não há seguro de safra. Essa é uma das coisas fundamentais, que precisa ser aperfeiçoada, com a presença de seguradoras privadas.

CC: Mas o mercado de seguros não está aberto?
DN: Sim, mas não existe um sistema que garanta preços mínimos adequados, sistema de transportes e de comercialização. O seguro de safra foi embora. Esse é um dos problemas que temos de enfrentar. É o seguro de renda, senão haverá sempre dificuldade de financiar o setor. O que me parece mais grave é que houve aumento de todas as safras de alimentos. A Organização Mundial do Comércio (OMC) estimulou a eliminação dos estoques. Toda a política está errada, não só interna, como externamente. Estamos colhendo os efeitos disso. O preço da soja não depende mais apenas da oferta, da demanda e do estoque. Depende da ação dos hedge funds nos mercados futuros. A moralidade do sistema financeiro é um conjunto vazio, que opera de acordo com suas regras. Que regras são essas? O maior lucro possível, no menor tempo possível, com o maior bônus possível. É só pegar o bônus e comprar títulos do Tesouro americano, para descansar na Flórida. Uma boa parte da especulação com as commodities vem disso. Por exemplo, em Rondonópolis, o cara que produz soja está sentado à mesa com um laptop, cobrindo suas posições em Chicago, o que é absolutamente legítimo. Essa é a operação de hedge (proteção) correta. Mas entram fundos especulativos e puxam o preço da soja em 10%. Aqueles que fizeram o hedge legítimo têm de cobrir a margem. O custo de aumento de margem cairá em cima do produtor. Os especuladores são um mal. Temos de exportar essa gente para Marte, como exportamos a inflação.

CC: Os bancos centrais não têm mecanismos de controle para coibir excessos?
DN: Não há mecanismos, porque foi permitida uma liberdade imensa. Seria legítima se os operadores respeitassem o que o velho Adam Smith dizia: “Dentro do seu peito, o observador é imparcial”. Ele era um sujeito que tinha um comportamento moral impecável, expresso no livro A Riqueza das Nações. Fazer o que é moralmente certo. Não o que produz a maximização do lucro, não o que produz o mal. A amoralidade é um fato inerente aos instrumentos do mercado financeiro. O agente moral foi expulso do banco, pois era quem não dava tanto lucro, não recebia bônus. Agora está todo mundo reunido, o FMI, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), tentando encontrar mecanismos. O Brasil é um exemplo típico disso. Não existe sistema financeiro mais sofisticado que o nosso. Aqui, a Bovespa e a BM&F são instituições no estado-da-arte: a Bovespa com governança corporativa e a BM&F com todo tipo de produto. Por isso, o diferencial de juro interno e externo causa tanto estrago. Porque é possível ganhar dinheiro fácil com grande eficiência. A imoralidade não está nos instrumentos, mas no uso que os agentes fazem deles. Obviamente, essa liberdade produziu algum ganho de produtividade. Para se conservar isso, é necessário encontrar agentes que tenham dentro de si essa moralidade do tipo: “Eu lhe dou toda a liberdade, mas você não pode matar a sua mãe”.

CC: O senhor concorda que há uma mudança no eixo do desenvolvimento do Brasil?
DN: Esse é outro fato importante, porque há 25 anos foi esquecido o fato de que não é suficiente só dar igualdade de oportunidades. É preciso igualar o País geograficamente. O Nordeste, o Centro-Oeste e a Amazônia têm de iniciar um processo de desenvolvimento. O crescimento capitalista é concentrado, porque há ganhos de aglomeração. A tendência é juntar tudo em torno da cidade, como São Paulo. Os economistas antigamente tinham a teoria da localização. Nada se situava fora do centro consumidor e produtor de matéria-prima. Hoje, aprendemos que é possível instalar uma fábrica de automóveis em um lugar onde o economista diz que é errado, mas que o político considera certo. Cinco anos depois, prova-se que o economista estava errado, porque em volta da fábrica é formado um pólo atrativo. Hoje, todo o sistema converge para o Norte. É óbvio que quando houver os rios funcionando como hidrovias, as ferrovias operando, a coisa mais fácil é escoar a produção pelo Pará, pelo Porto de Itaqui. Usando esse caminho, chegaremos à Ásia em tempo três vezes menor, com grandes navios.

CC: O que vai acontecer sociologicamente da forma como o Brasil se vê?
DN: O Brasil vai se encontrar e se identificar. Em relação aos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), não há a menor dúvida de que estamos em uma situação infinitamente melhor. Comparemos com a Rússia, que tem problemas de língua, de religião e Vladimir Putin (presidente). O país não resolveu nenhum dos problemas como nós o fizemos. Temos hoje uma Constituição funcionando, com defeitos e vantagens. Do ponto de vista dos direitos humanos, estamos no estado-da-arte. Talvez o projeto seja um pouco ambicioso, porque propôs um welfare state (Estado de Bem-Estar Social), que precisava de 40 mil dólares de renda per capita para funcionar e só tem 4 mil. Com a China, não tem comparação. O país tem de promover um avanço gigantesco. É o exemplo claro de que as instituições defeituosas produzem tanto desenvolvimento quanto as virtuosas. Na Índia, é o mesmo problema. O Brasil está à frente. O que uma nação pretende na verdade? Precisa de autonomia energética, alimentar e, se for possível, militar. Os Estados Unidos perderam a autonomia energética. É ridículo pensar que os EUA vão permitir que exportemos energia para eles. Eles não querem depender de Hugo Chávez (presidente da Venezuela), por que vão depender do Brasil? A China não tem dependência alimentar e energética, mas tem independência militar. A Rússia conservou a autonomia energética e militar e não alimentar. O Brasil está em uma situação bem melhor do que a dos outros. Só precisa de governo, mais nada. Precisa pensar-se 25 anos à frente, permanentemente. Hoje temos de pensar em 2033. O Brasil já foi o país que mais cresceu no mundo entre 1950 e 1984. Só o Japão cresceu mais. E o que é pior: as instituições, a educação e a saúde eram piores. É uma coisa misteriosa.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A Selic e as esperanças perdidas - por Luis Nassif

Um dos grandes desafios econômicos brasileiros é reduzir a relação dívida pública/PIB – a pior herança do período de apreciação do real, no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso.

A mudança do câmbio provocou um desequilíbrio rápido nas contas externas brasileiras. Para conseguir fechar as contas anualmente, o Banco Central passou a praticar políticas irrealistas de juros. Com isso gerou uma dívida pública imensa, sem contrapartida de ativos.

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De lá para cá o país ficou prisioneiro dessa dívida. Ano após ano precisou acumular superávits fiscais cada vez maiores para impedir a deterioração ainda maior da dívida,

Alguns anos atrás, ainda na gestão Pallocci, foi feita uma conta otimista, pela qual em alguns anos o país conseguiria reduzir a relação dívida/PIB para a casa dos 30%.

Agora, com o retorno do movimento de alta da taxa Selic, essa ilusão se desfaz.

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Na semana passada, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) anunciou um novo ajuste de 0,5% na taxa básica de juros, para 12,25% ao ano. Segundo o Guia Financeiro, da Agência Dinheiro Vivo, essa elevação da Selic provocará um aumento da dívida pública equivalente a 0,5% do PIB.

Segundo Bráulio Borges, da LAC, considerando uma taxa Selic média de 12% ao ano, se a taxa permanecer estável ao longo do período, a dívida pública brasileira fecharia 2008 em 40,9% do PIB. Com os ajustes recentes, as estimativas foram ajustadas para 12,5% ao ano, fazendo com que a dívida avance para 41,1% ao final deste ano, um acréscimo de 0,2% ponto percentual apenas com estas elevações.

Se a Selic fosse mantida em 11,25% até o final do ano (gerando um valor médio de 11,25%), a dívida cairia para 40,5% do PIB. “Esse ciclo de alta dos juros vai elevar a dívida pública em aproximadamente 0,6% do PIB em 2008”, ressalta o economista.

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Se os dados da dívida pública para 2008 não são dos mais otimistas, o quadro para o próximo ano é igualmente desanimador, uma vez que o período começará com taxas de juros mais altas: o juro médio projetado para o período é de 12,8%, para uma dívida de 40,4% em dezembro do próximo ano. “Caso a Selic fosse mantida em 11,25% até 2009, a dívida seria de 39% do PIB”, ressalta Bráulio Borges, da LCA Consultores a Tatiane Correia, da Dinheiro Vivo. Ou seja, uma perda de 1,4 ponto na relação dívida/PIB.

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Ano após ano tem se repetido esse círculo vicioso. Com juros altos, permite-se uma apreciação exagerada do câmbio. Depois, segue-se uma crise cambial que faz explodir o câmbio, recompondo o equilíbrio externo. Mas como volta a inflação, segue-se nova temporada de juros altos para conter a alta de preços. Depois, se reduzem os juros lentamente, permitindo nova apreciação do real.

Há várias maneiras de impedir essa sina. Uma delas é substituir a elevação dos juros por aumento no depósito compulsório dos bancos – a retenção que o Banco Central pode fazer sobre os depósitos bancários visando controlar a liquidez. Pode-se definir tempo de permanência para afastar o capital especulativo.

Mas as forças do mercado são superiores aos interesses do país.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Eu tinha um sonho - Eduardo Graça, de Nova York (Cartacapital)

Depois de mais de um ano de disputa interna, o senador Barack Obama, de 46 anos, é o primeiro político negro escolhido por um partido majoritário para disputar as eleições à Presidência dos Estados Unidos. Ao conseguir, na terça-feira 3, os delegados necessários para se tornar o candidato do Partido Democrata à Casa Branca, Obama fez história e ofereceu aos eleitores norte-americanos a possibilidade de votar, pela primeira vez em 16 anos, em dois presidenciáveis que não carregam os sobrenomes Bush ou Clinton. Seu adversário é o também senador John McCain, de 71 anos. “Esta noite marca o fim de uma jornada histórica e o começo de outra, que trará dias melhores para a América. Hoje, posso afirmar a vocês que eu serei o candidato do Partido Democrata à Presidência”, disse Obama, em um discurso emocionado para milhares de militantes na cidade de Saint Paul, em Minneapolis.

Na manhã seguinte, enquanto subia as escadas do Capitólio, o deputado negro John Lewis, da Geórgia, viu-se abordado pelo turista Larry Ellery, que lhe perguntou o que Martin Luther King diria daquela noite memorável. Lewis, um destacado líder estudantil nos anos 60, é o único palestrante vivo do evento em que o reverendo pronunciou seu famoso discurso “Eu Tenho Um Sonho”, há quatro décadas. “Ele teria ficado muito, muito, satisfeito”, respondeu o deputado. “E provavelmente teria dito Aleluia!” A convenção do Partido Democrata, que oficializará a candidatura de Obama, está marcada para 28 de agosto, exatos 45 anos após o discurso de Luther King e 55 depois do assassinato do adolescente Emmett Till no Mississippi, fato que desencadeou a grande campanha pelos direitos civis, responsável por mudar para sempre a política norte-americana. No Congresso, muitos parlamentares negros choravam de emoção e repetiam, atônitos, que, no fim das contas, jamais haviam imaginado que este dia chegaria. Alguns lembraram que quando Obama nasceu, em 1961, um filho mestiço de pai do Quênia e mãe do Kansas dificilmente conseguiria votar no Sul segregacionista. Foi em outro estado do Sul, a Virgínia, que o senador de Illinois comemorou a vitória, explicitando sua vontade de brigar por votos de estados da parte meridional do país, que há mais de meio século se alinham religiosamente com os republicanos. Essas regiões se transformaram em um campo de batalha por conta da animação da militância negra, que representa cerca de um quarto do eleitorado em alguns estados da área mais conservadora.

Do outro lado do campo democrata, Hillary Clinton resistiu até onde pôde. Em meio ao carnaval dos “obamaníacos”, a ex-primeira-dama lembrou que ela também conduzira uma campanha memorável. Era, afinal, a primeira mulher a ter uma oportunidade real de se tornar presidente dos EUA. Quando Obama já havia conseguido a maioria dos votos dos delegados democratas, ela comemorava o fim das primárias em Nova York. Seus partidários, concentrados no Baruch College, não tinham, providencialmente, acesso a celulares ou a aparelhos de tevê. Portando faixas com os dizeres “ou Hillary ou ninguém mais”, muitos ainda vibravam com o anúncio, feito pelo coordenador-geral da campanha, de que o próximo discurso do dia seria “da futura presidente dos EUA”. Hillary foi aclamada aos gritos de “Denver! Denver!”, referência à cidade do Colorado que sediará a convenção democrata. Clinton procurava ganhar mais tempo, valorizando os 18 milhões de votos angariados na campanha e a maioria absoluta de eleitores brancos, de classes mais baixas e do sexo feminino. Mas, na manhã da quarta-feira 4, 23 deputados e oito senadores de seu grupo mais próximo avisaram à senadora que iriam anunciar o apoio a Obama em nome da unidade do partido, com ou sem ela. A pré-candidata decidiu então convocar seus militantes para um evento no sábado 7, em Washington, com o objetivo de anunciar o apoio oficial ao adversário. Não sem antes dizer, por meio de partidários fiéis, que aceitaria ser vice-presidente se Obama a convidasse. Na mesa de negociação entre as duas estrelas democratas, estará também o imenso buraco financeiro de sua campanha. De acordo com colaboradores próximos da ex-primeira-dama, as dívidas chegam a 23 milhões de dólares. O bolso milionário dos Clinton teria injetado 11 milhões de dólares na campanha a título de “empréstimo”.

Em sua primeira entrevista sobre o tema, na quarta-feira 4, para a rede NBC, Obama saiu pela tangente. Disse que ainda é cedo para decidir sobre seu vice e que, de qualquer modo, “Hillary não espera que eu decida isso nos próximos dias”. Assessores do senador lembram que o ícone histórico de Obama sempre foi Abraham Lincoln. Uma das virtudes que ele mais admira no presidente que venceu a Guerra Civil foi a capacidade de indicar para seu gabinete alguns de seus opositores políticos mais ferrenhos. “Lincoln deixou de lado todos os atritos pessoais e se concentrou na seguinte questão: como sairemos desta crise em que vive o país? Este é exatamente o meu sentimento agora”, disse Obama aos assessores. Sua idéia seria a de convocar ao governo os adversários na primária democrata John Edwards, Joe Biden e Hillary Clinton, respectivamente como secretário de Justiça, secretário de Estado e titular de uma pasta que englobasse Saúde e Projetos Sociais. A senhora Clinton poderia deslanchar seu plano mais ambicioso, o de reformar o sistema de saúde pública.

Seria o bastante para garantir os votos de Hillary para o novo indicado? Uma pesquisa do Pew Research Institute realizada no fim de maio mostra que 8% das democratas em todo o país não votam em Obama de jeito nenhum. Foi para esse público que o senador John McCain centrou seu mais forte – e raivoso – discurso até agora em uma tentativa de diminuir a festa democrata. Depois de um elogio à “minha amiga Hillary Clinton, que não tem sido tratada como deveria”, o republicano lembrou que, ao contrário de Obama, “não busco a Presidência na presunção de que fui abençoado com tal grandeza pessoal que a História me escolheu para salvar o país em uma hora de necessidade”. A mensagem era referência ao suposto elitismo de Obama.

As duas pesquisas realizadas logo após o anúncio de que Obama vencera as prévias democratas mostram que a briga será feia: o senador tem entre 42% e 46% dos votos segundo a CBS e de 45% a 47% (configurando empate técnico) na apuração da CNN. O primeiro debate entre Obama e McCain deve acontecer em 12 de junho, em Nova York. Peter Hart, estrategista do Partido Democrata, usa uma analogia interessante para definir o momento político: “Metade do eleitorado hoje celebra, feliz, ‘sim, nós podemos’. A outra metade, incluindo boa parte dos independentes e indecisos, pergunta, atônita: ‘Mas, afinal, quem é este sujeito?’ E muitos deles estão descobrindo a resposta por meio dos sermões de Jeremiah Wright”, diz, em uma referência ao pastor radical de Chicago que foi o mentor espiritual do senador democrata.

Apesar de Obama ter-se desligado oficialmente da congregação de Wright nesta semana, estrategistas conservadores e liberais concordam que a grande questão de 2008 é saber se na boca-de-urna de novembro o fato de Barack Obama ser negro será fonte de júbilo como foi nesta. McCain prometeu não se aproveitar do preconceito racial na campanha. Mas em uma disputa tão acirrada e com os republicanos temendo sofrer uma derrota de proporções gigantescas, as dúvidas sobre os métodos utilizados pelos dois lados nos próximos meses aumentaram estupidamente.

De vento a furacão - por Rodrigo Martins (Cartacapital)

A lufada de vento chegou da Europa no início de maio, deu novo fôlego à combalida oposição em São Paulo e bagunçou o coreto do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), virtual candidato à prefeitura da capital. Bastou o diário americano The Wall Street Journal divulgar o teor de uma investigação conduzida por promotores franceses e suíços para uma avalanche de denúncias de irregularidades em contratos de estatais paulistas vir à tona. Como a maioria dos contratos diz respeito ao período em que Alckmin esteve à frente do Palácio dos Bandeirantes ou era vice de Mário Covas, a candidatura do tucano, que enfrenta resistências dentro do próprio partido, ameaça não decolar por falta de teto do PSDB municipal, marcada para 22 de junho.

As autoridades européias investigam se a Alstom, gigante das áreas de transportes e energia, sediada em Paris, teria desembolsado centenas de milhões de dólares em propinas para garantir contratos públicos na Ásia e na América Latina. Documentos em poder das autoridades da França e da Suíça indicam que a empresa teria repassado 6,8 milhões de dólares a políticos brasileiros para ganhar uma licitação de 45 milhões de dólares do Metrô de São Paulo, na gestão de Covas e Alckmin.

Em tese, o governador José Serra, em busca de viabilizar a eleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) e assim garantir o apoio dos pefelistas em 2010, poderia festejar o episódio como o “fato novo” que faltava para demover Alckmin. Em público, contudo, demonstra comedimento, mesmo porque há contratos que perduram sob a sua gestão e estão sob suspeita. Para Serra, o PT está usando o caso de maneira eleitoreira: “É o ‘kit PT’ atuando”, desdenhou, durante um evento no Jockey Club. Ao seu lado, Alckmin emendou: “Querem confundir a opinião pública. Somos os maiores interessados em esclarecer isso”.

A despeito das disputas políticas, a Promotoria paulista decidiu averiguar os contratos da Alstom com seis empresas ligadas ao governo do estado. O Ministério Público Federal investiga ainda se a filial brasileira da multinacional cometeu os crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Há um termo de colaboração firmado entre o governo brasileiro e o MP suíço para a troca de informações que ajudem a elucidar o caso.

Na esteira das informações vazadas à imprensa, se ainda não ficou comprovado que houve corrupção, há evidências claras de uma relação no mínimo promíscua entre a Alstom e o tucanato. Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), coordenador da campanha eleitoral de Covas em 1994 e chefe da Casa Civil do governo do estado entre 1995 e 1997, é um dos suspeitos de receber propinas. Bilhetes apreendidos pela Justiça suíça na sede da empresa naquele país apresentam as iniciais “RM” e fazem referência a um “ex-secretário do governador”, possivelmente encarregado de intermediar “gratificações ilícitas” para beneficiar pessoas ligadas ao governo e também no Tribunal. Ao jornal O Estado de S. Paulo, Marinho admitiu ser o “RM” da época do governo Covas. Apesar da revelação, o ex-secretário nega ter tido qualquer ingerência em contratos firmados pelo governo com a Alstom e diz ter seguido os “princípios da moralidade” ao avaliar os contratos da empresa com o estado na função de conselheiro do TCE. Admitiu, no entanto, ter viajado à França com as despesas pagas pela multinacional em 1998. “Fui assistir aos dois jogos finais da Copa da França a convite de um amigo e ex-diretor da Alcatel, empresa que, posteriormente, vim a saber integrar o Grupo Alstom”, afirmou, em nota. É dele a análise favorável de um contrato firmado entre a Eletropaulo e a Alstom, em 2001, no valor de 4,8 milhões de reais. Nada de mais, não fosse um detalhe. A avaliação do conselheiro demorou apenas três meses para ser concluída, uma marca invejável, já que um processo de contratação desse porte demora, em média, cinco anos para tramitar no TCE.

De 1989 a 2008, as empresas do Grupo Alstom no Brasil fecharam mais de 150 contratos com estatais paulistas, um montante total de 7,9 bilhões de reais, em valores corrigidos pelo IGP-DI. Apenas seis contratos foram considerados irregulares pelos conselheiros do órgão, mas a soma dos valores não é nada desprezível: 1,5 bilhão de reais, quase 20% do total. Caso fique comprovado o pagamento de propina a conselheiros do Tribunal, todos os processos julgados pela instituição podem ficar sob suspeita e ser alvo de investigação.

A desconfiança não é exagerada. Documentos enviados ao Brasil pelas autoridades suíças indicam que a Alstom pagou, por meio de seis empresas offshore, constituídas em paraísos fiscais, cerca de 13,5 milhões de reais em propinas a políticos paulistas entre 1998 e 2001. Os pagamentos seriam feitos para empresas que executavam trabalhos fictícios ou consultoria de fachada.

A oposição tentou instaurar uma CPI na Assembléia Legislativa, mas não conseguiu colher o número necessário de assinaturas. A folgada maioria governista (70 deputados, de um total de 94) impediu a manobra, bem como a convocação de executivos da Alstom e de estatais paulistas para depor na CPI da Eletropaulo, na qual o PT tem a presidência, mas não a maioria. Presente na sessão, o deputado petista Rui Falcão exasperou-se com o bloqueio tucano: “A Assembléia está virando um cemitério de CPIs”. Para o líder do governo na Casa, Barros Munhoz, a convocação é descabida. “Isso aqui não é delegacia de polícia nem departamento do Ministério Público nem pizzaria. A maioria das CPIs não dá em nada, só vira pizza, como aconteceu com a dos Cartões Corporativos, em Brasília. Já temos o Tribunal de Contas do Estado debruçado sobre esses contratos.”

Na avaliação do líder do PT na Assembléia, Roberto Felício, é um equívoco confiar cegamente na avaliação do TCE. “Há diversos contratos que foram reeditados por mais de dez anos, quando a Lei de Licitações só permite cinco, e que foram considerados legais. Também há fatos muito suspeitos, como a multiplicação de contratos da Alstom com a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) depois que Sidnei Colombo Martini, ex-diretor de uma das empresas do Grupo Alstom, assumiu a direção da antiga estatal”, atacou. Segundo um levantamento do PT, até 2006, o ano da privatização da CTEEP, foram assinados 47 contratos entre as empresas, totalizando 333 milhões de reais. A CTEEP não quis comentar as suspeitas. Diante do bloqueio, o PSOL e o PT, na Câmara Federal, uniram-se para garantir visibilidade ao caso. A Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Casa aprovou, por 10 votos a favor e 7 contrários, o pedido de uma audiência pública, em 17 de junho, para ouvir o presidente da Alstom no Brasil e representantes da Promotoria paulista, do Ministério Público Federal (MP) e da Polícia Federal. “Queremos desnudar o que os tucanos querem ocultar em São Paulo, mas também investigar a relação da Alstom com estatais federais, como a Petrobras e a Eletronorte”, comentou o deputado Ivan Valente (PSOL), um dos autores do requerimento.

Como poucos dos mais de 150 contratos da Alstom foram vasculhados pelos promotores e pelos parlamentares engajados na investigação até agora, ainda é possível que muitas outras denúncias venham à tona. Será um problema para Alckmin, que luta para garantir a maioria dos votos de delegados do partido até o dia 22. Mesmo diante das turbulências.


Comentário: Então, o grande líder tucano quer que o TCE investigue as contas. O mesmo TCE que tem um (?) de seus conselheiros suspeito?

E como, mesmo, os membros dos tribunais de conta assumem seus postos, hein?

Aqui no ES, recentemente, o presidente do TCE, o senhor Madureira, (uma espécie de José Carlos Gratz que saiu antes do circo pegar fogo) quis aumentar seus salários, que já estão no teto do seu posto, dentro do seu poder. Vai ver porque são muito baixos os salários do judiciário no país...

É uma vergonha que não haja concurso público para TODOS os membros dos tribunais de contas.

Uma lástima.

E isso, isso é Brasil.

A capital do crime - por Wálter F. Maierovitch (Cartacapital)

O siciliano Salvatore Luccania, conhecido por Lucky Luciano no mundo do crime, da política e das finanças internacionais, orgulhava-se de ter transformado a cidade de Nova York, graças à Lei Seca, na “Capital Mundial do Crime Organizado”.

Em 1931, Luciano unificou os grupos criminais sículo-americanos numa organização que chamou de Cosa Nostra. Os bandos viraram famiglie e o órgão de cúpula denominou-se Commissione Nazionale.

Assim, a Cosa Nostra superava aquela que lhe servira de matriz, a famosa Máfia siciliana, sediada em Palermo.

Só nos anos 1960, a Máfia siciliana retoma, como potência criminal, o posto de primus inter pares e, copiando a sículo-norte-americana, cria, em Palermo, um vértice de governo chamado Commissione.

No fim dos anos 1990, a Máfia mostrou ao mundo que dominava territórios, mantinha controle social e força para declarar guerra ao Estado italiano: bombardeou Roma, Milão e Florença.

Com efeito, era Palermo a capital do crime e não Moscou, onde un mondo di ladri, representado por oligarcas e ex-agentes da KGB, saqueava o espólio da ex-União Soviética.

Graças ao movimento antimáfia, que contou com um forte empenho da sociedade civil, como lembra Umberto Santino, a Máfia sofreu grandes derrotas. Teve de submergir e a Commissione não consegue mais se reunir, até pela falta de um capo dei capi.

O certo é que, no momento, Palermo não consegue se ombrear com o Rio de Janeiro, onde o crime organizado se confundiu com o próprio Estado.

Com efeito. Em um universo de 70 deputados estaduais, 33 deles têm pendências nos âmbitos da Justiça Criminal, do Ministério Público e do Tribunal de Contas.

Esses deputados “pendurados”, quase 50%, não se sentiram impedidos ou constrangidos em soltar um dos pares, o deputado Álvaro Lins, uomo d’onore da famiglia Garotinho. Ou seja, o ex-chefe de polícia no governo da famiglia Garotinho.

Depois de informados ser inafiançável e permanente o crime de lavagem de dinheiro, na modalidade de ocultar patrimônio mediante uso de laranjas, os deputados trilharam, para soltar Lins, a vertente da prisão desnecessária, sob argumento de contar o deputado com domicílio certo e estar a investigação já concluída.

Com leguleios e arte de Procusto, fingiram os deputados não saber que a nossa Constituição apenas garante à Assembléia relaxar, revogar, uma prisão realizada ao arrepio da lei. No caso de Álvaro Lins, a prisão era legal, pois fundada em cristalina situação de flagrante. Lins foi apanhado a cometer crime de natureza permanente, cuja consumação se alonga no tempo. Encontrava-se, quando dada voz de prisão, em apartamento que de fato era seu, embora não tivesse patrimônio para comprá-lo, o mesmo a ocorrer com o “laranja” que emprestara o nome para a transação de fachada.

Ao entender inoportuna a manutenção da prisão, os parlamentares exorbitaram. A concessão de liberdade por não ser necessária e em face de regular auto de prisão em flagrante era tarefa da competência exclusiva da Justiça. Como pisaram na bola e dada a reação da opinião pública, a Assembléia, pelos seus Varões de Plutarco, iniciou um processo disciplinar, interno, por quebra de decoro parlamentar contra Lins.

Por outro lado, a nada ingênua famiglia Garotinho finge nunca ter percebido nada sobre o vultoso patrimônio de Lins, a cobrança de “pedágios” nas delegacias e a proteção dada aos empresários da jogatina eletrônica, entre eles os sucessores de Castor de Andrade.

O ex-governador Garotinho, que preside o PMDB e acolheu Lins nesse partido político, amarga a pesada acusação de chefiar uma organização criminosa armada. Uma potente societas sceleris, que tomou conta de parte do estado do Rio para se locupletar e alavancar o crime organizado.

A ex-governadora Rosinha é acusada de receber, para a campanha política, dinheiro sujo do crime organizado, que explora o bicho, bingos e máquinas de caça-níquel.

Tal situação de descalabro, ainda não alterada pelo governador Sérgio Cabral, que investe em ações espetaculares, ineficientes e de risco para a população pobre das favelas, foi o caldo a dar força às milícias, espécies de associações delinqüenciais mafiosas. Milícias formadas por policiais que controlam quase cem favelas. Ainda submetem os moradores às suas leis e aniquilam as mais elementares garantias individuais.

O seqüestro e as torturas impostas, por mais de sete horas, a três jornalistas do jornal O Dia, na Favela do Batam, mostram que as milícias não dão a mínima ao poder do Estado. A propósito, promoveram uma secessão, ou melhor, dominam espaços físicos fora de controle pelo Estado federado e pelo Estado nacional.

Controle do crédito - por Luis Nassif

Quando a Fazenda manifestou intenção de atuar diretamente sobre o crédito, para reduzir o aquecimendo da demanda - reduzindo a pressão pelo aumento dos juros - foi um Deus nos acuda. Agora, o próprio Banco Central está tomando medidas diretamente sobre o crédito, a partir da constatação óbvia de que o prazo de financiamento tem mais efeito do que taxa Selic no ritmo de crescimento dos empréstimos.

Aqui matéria do caderno Dinheiro da Folha, do Tibu Aciaretta, sobre a questão. Lembra duas medidas do BC, uma recente (de instituir compulsório sobre leasing como maneira de evitar uma burla que o sistema financeiro vinha aplicando) e outra de se exigir mais capital próprio dos bancos na concessão de empréstimos.

Obviamente nem se fala na possibilidade de aumentar o compulsório. Segundo a matéria, a alegação é que aumentam os custos dos bancos, que são repassados para o crédito. Ué, se a intenção é reduzir o crédito, é natural que isso aconteça. Mas o BC prefere afetar o custo do Tesouro (aumentando a taxa Selic) do que dos bancos.

Só da PDT - por Alvaro Zanotti (Folhavitória

As comissões de ética do PDT têm trabalhado a todo o vapor nos últimos dias. Na Câmara Federal, o deputado Paulinho da Força corre risco de ser cassado sob acusação de participar de um esquema de desvio de verbas. Na Assembléia do Estado, o deputado Wolmar Campostrini é acusado de emitir laudos médicos falsos para facilitar aposentadorias em troca de votos. Na Câmara, em Vitória, o vereador Passarinho foi denunciado por obrigar funcionários a entregar a ele parte dos salários. Os militantes capixabas estão constrangidos. "Para a gente que prima pela ética e zelo na coisa pública, isso traz desconforto", disse um membro da Comissão de Ética Estadual.

Ana Lúcia, da Brasil Telecom - por Leandro Fortes (Cartacapital)

Os fatos relatados abaixo são reais e revelam o grau de precariedade ainda vigente nas relações de consumo no Brasil. Demonstram, no genérico, a forma mais explícita de desrespeito adotada pelas operadoras de telefonia do país, e, no particular, a desastrosa estratégia de assédio bolada pela Brasil Telecom para tentar manter os muitos clientes que, em Brasília, fogem dela para empresas melhores, mais eficientes e mais corretas no trato com os usuários.

Quarta-feira, 28 de maio, 10h09. Do outro lado da linha, o serviço automático de atendimento da Brasil Telecom, o 10314. Aperto as teclas que me mandam para ser atendido. Antes de me remeterem ao inferno de quase uma hora ao lado de uma atendente diabólica, me pedem para, ao final, dar uma nota sobre a qualidade do atendimento. Será a minha vingança, mas, por ora, voltemos ao começo. Disco todos os números e espero, finalmente, que um ser humano me atenda do outro lado. Quero cancelar uma linha de telefone fixo. Antes, contudo, vem uma musiquinha irritante, de três acordes, meio buzina, meio bateria eletrônica. Superposta a ela, começam as propagandas.

Primeiro, sobre o celular BrT, da empresa, cheio de facilidades para conferir e-mails ou faturas das contas. Mais música. Pedem para eu conferir as funções do menu do BrT Celular (eu nem tenho um) para “ficar por dentro” de muitas promoções “e muito mais” (o que será? Prefiro esperar o atendente). A musiquinha volta, infame. “A fim de conhecer mais pessoas?”, me pergunta a gravação do outro lado. Não, não estou, mas ela não me ouve. “Consulte o menu (do BrT Celular, claro) e cadastre o seu perfil”. E lá vem a musiquinha infernal. “Registrou um momento único? Mande um torpedo!”. Eu não mereço isso. “Quer ganhar prêmios todos os dias?”. Ué, quem não quer? Enquanto não sou atendido, descubro que basta enviar torpedos e trocar pontos por prêmios. Se eu tivesse um torpedo, começaria por apontar para o serviço de atendimento da Brasil Telecom. Mas continuo aguardando, paciente.

A musiquinha ganha fôlego. E tome propaganda. “Não consegue acompanhar notícias do dia-a-dia?”. Eu não consigo, ninguém consegue, mas descubro – oh! – que basta acessar o menu do BrT Celular para que o mundo se abra aos meus olhos. “E muito mais!”. Adoro isso. Aliás, descubro, ainda, que o expediente do torpedo é a maneira mais fácil e rápida de se comunicar “quando você não pode falar ou não quer falar”. Entenderam a sacada? Como pude viver até hoje sem perder uma hora da minha manhã ouvindo os reclames da Brasil Telecom? Depois, incrivelmente, a voz gravada me pergunta: “Cansado da musiquinha do seu celular?” Hahahahahahahaha! Esses caras do BrT Celular são uns pândegos!

São 10h21, Estou ouvindo propaganda há 10 minutos, e nem sei se estou pagando essa ligação. Preciso lembrar de perguntar ao atendente, se ele me atender, é claro. A musiquinha não pára. “Sua conta da Brasil Telecom tem selo de qualidade do Inmetro”. Já o serviço de atendimento... “Tem tudo para facilitar a sua vida”. Ok, ok, eu sei quando estão tirando sarro de mim. Mas não vou desistir. Acho que eles percebem o meu espírito perseverante porque, após um último informe sobre os serviços de convergência da empresa (“multiconferência com vídeo, áudio e web”), sou finalmente atendido por alguém em carne osso. O nome dela é Ana Lúcia. São 10h24.

Ana Lúcia é da infantaria do telemarketing da Brasil Telecom, percebo logo. Ela não quer saber de frescura nem de desculpa besta.

- Quer cancelar a linha? Por quê? Qual o motivo? Alguma coisa ocorreu?

Tento acalmá-la, digo que é por um motivo pessoal, preferi mudar de operadora. Ana Lúcia fica furiosa. Nem respira. Dispara uma metralhadora verbal que me deixa aturdido.

- É um motivo pessoal? Que motivo pessoal? Olha, o senhor está querendo cancelar uma linha econômica, um pacote excelente. Não quer transferir para outra pessoa? O senhor pode transferir para outra pessoa! Uma boa ação faz o mundo melhor!

São 10h28 e eu preciso trabalhar. Digo isso para Ana Lúcia, mas ela não foi treinada para ter piedade. Na Brasil Telecom a ordem, imagino, é nunca perder um cliente, nem que para isso seja preciso azucriná-lo, tomar-lhe o tempo de trabalho e deixá-lo plantado por uma hora apenas para cancelar uma linha. Ana Lúcia insiste, sabe que estou trocando a empresa dela por outra, quer saber o nome, quer saber o porquê dessa traição. Perco um pouco a paciência.

- Ana Lúcia, você pode, por favor, cancelar a minha linha, porque eu preciso trabalhar?
- Mas eu nunca disse que não podia, eu só quero saber por que o senhor quer cancelar a linha.
- Por um motivo pessoal, já disse.
- Mas qual motivo? O senhor trocou de operadora por que, afinal?
- Achei a logomarca da outra mais bonita.

Foi um erro. Jamais deveria ter usado de ironia com Ana Lúcia. Naquele momento, soube que tinha arranjado uma inimiga feroz dentro do sistema. Iniciei, então, uma batalha sinistra com a atendente da Brasil Telecom.

São 10h29. Ana Lúcia muda o tom de voz, torna-se fria, pragmática. Pede o meu número do CPF, a data de nascimento, o nome completo. Diz que vai “analisar” minha conta e pede para eu aguardar. Eu arrisco uma ofensiva.

- Você é Ana Lúcia de quê?
- É só Ana Lúcia, é meu nome de atendimento.

Silêncio do outro lado da linha. Ana Lúcia deve estar fazendo consultas no manual de atendimento. Tenta entender minha estratégia, descobrir o que está errado. Talvez até tenha chamado o supervisor. Passados seis minutos, tenho a impressão de que ela desligou. Arrisco-me de novo.

- Alô?

Ana Lúcia reaparece, tem a voz gélida. Põe em prática o tratamento dispensado pela empresa aos traidores.

- Aguarde mais um instante, por favor.

Eu aguardo. Estou disposto a não desistir. O funcionário da outra operadora, quando eu disse que iria cancelar o telefone fixo da Brasil Telecom, deu uma risadinha de dó. Segundo ele, ninguém estava conseguindo, só no Procon. Eu havia chegado até Ana Lúcia, não iria desistir agora. Fiquei aguardando. Iria aguardar até o outro dia, se necessário. Iria resistir. Ana Lúcia é o exército alemão, eu, Stalingrado. Mas não vai ser fácil.

- Senhor, estou verificando sua linha, ela tem muito mais economia em relação a qualquer operadora.

Ah, essa é Ana Lúcia. Incansável. Chego a admirá-la. Em outras circunstâncias, poderíamos mesmo ser amigos. Mas agora eu tenho que derrotá-la, e não vou abrir mão disso. Ela tenta me alertar para as “propagandas fantasiosas” das outras operadoras, do erro que estou cometendo ao abandonar a Brasil Telecom por outra empresa de “qualidade inferior”. Estranho, ela nem sabe qual é a outra empresa. Mas Ana Lúcia é assim, despreza detalhes bobos.

- Matematicamente falando, o senhor vai pagar excedente na outra operadora.

Ana Lúcia quer me enlouquecer, matematicamente falando. Mantenho a atitude, sei que ela está ferida por conta da minha ironia lá de cima, mas, principalmente, pela minha posição irredutível. Aproveito o momento de fraqueza dela. Em vão.

- Ana Lúcia, por favor, cancele a minha linha e me informe o número do protocolo.
- Então, continue aguardando. Mas deixe eu continuar falando sobre a sua linha.

Fecho os olhos. Do outro lado, Ana Lúcia recupera terreno. Fala da economia da qual estou abrindo mão, da qualidade do serviço (ela não sabe que, para instalar a linha lá em casa, passei um mês indo e vindo à Brasil Telecom). A certa altura, sai-se com essa.

- Trocar o certo pelo duvidoso é uma coisa incerta.

São 10h40. Começo a temer pela saúde mental de Ana Lúcia. Ela tem meus dados, meu endereço. Pode querer se vingar. Eu não devia ter feito aquela gracinha da logomarca. Nos cinco minutos seguintes, ela passa a alternar silêncios com um tenebroso “aguarde mais um pouco, por favor”. Às 10h45, ela tenta de novo.

- Tenho que preencher o espaço da justificativa para o cancelamento da sua linha. Coloco que foi porque o senhor achou a logomarca mais bonita mesmo?

É só uma ligação, mas pude sentir o cheiro de enxofre. Ana Lúcia é muito melhor treinada do que eu imagino. Agora ela veio com ironia para cima de mim. Por essa eu não esperava, Ana Lúcia tem reações subjetivas! Se eu fosse supervisor dela, a promovia. Mas sou só o inimigo. Preciso vencê-la.

- Sim, para mim está ótimo.
- E nome da operadora?
- Prefiro não falar.
- Então, aguarde. Qualquer dúvida, é só me chamar.

São 10h45. Estou há 35 minutos tentando cancelar uma linha telefônica. Penso em desligar. Estou cansado, o celular está queimando a minha orelha, mas penso em Ana Lúcia, vitoriosa do outro lado, a comentar com as colegas, “venci mais um”. Mantenho minha posição. Ela me pergunta se a próxima fatura pode ser mandada para o mesmo endereço. Digo que sim. Pergunta-me o número do telefone fixo da nova operadora. Digo que não é preciso. Isso a deixa realmente frustrada. A voz dela perde os agudos, parece um sussurro de morte.

- Então, vai ficar incompleto aqui.

Eu aproveito para tripudiar.

- Por mim, não tem problema.

Aguardo mais um tempo. Há seis ligações em espera no meu celular. Estou exausto, irritado, cheio de ódio no coração, mas Ana Lúcia não pode perceber. Fico pensando como deve ser viver em um país onde você não precise explicar para a atendente as razões que o levaram a mudar de operadora. Algo como “disque 7 e cancele sua linha, muito obrigado”. Em dois minutos, no máximo. Sem Anas Lúcias, sem o deboche de ter que esperar uma hora para fazer uma coisa dessas.

São 10h59. Ana Lúcia anuncia sua capitulação.

- Senhor, sua solicitação foi concluída com sucesso. A Brasil Telecom agradece, etc, etc, etc.

Recebo o número do protocolo de atendimento (?) e espero para dar nota ao serviço, conforme me foi solicitado, quase uma hora atrás. Uma voz mecânica me avisa:

- Digite “1” se a sua avaliação for “muito insatisfeito”.

Digitei. Aliás, esperaria mais uma hora para digitar esse “1”, se fosse necessário.

Sugestão ao governador Paulo Hartung

Recentemente, Aloizio Santos (PSDB), ex-prefeito de Cariacica e ex-deputado federal e pai do atual deputado Marcelo Santos (PSDB) foi homenageado postumamente. O trecho rodoviário Leste-Oeste, que liga o município de Cariacica ao município de Vila Velha foi nomeado com o seu nome.
Bem, já que o senhor Paulo Hartung, atual governador está fazendo homenagens a seres tão ilibados, julgo adequado fazer uma ao senhor Paulo Maluf, homem íntegro, honesto e incorruptível quanto Aloizio Santos.

Picadinhas - por Palmério Dória (Caros Amigos)

Burrice à Italiana

(...) Se antiguidade fosse sabedoria, os italianos não botavam o retrato de Silvio Berlusconi pela terceirza vez no mesmo lugar.

Direitos autorais
Álvaro Dias, o senador que pensa duas vezes antes de não dizer nada, dono daquele implante capilar de fazer corar Ivon Cury, sempre na mais perfeita imitação de Alberto Roberto, disse que leu o dossiê da Casa Civil, mas não o recebeu. É mais ou menos como a recepcionista do Analista de Bagé, que recebe mas não dá.

Lesa-majestade
Roseana quer cassar no tapetão o mandato de Jackson Lago por crime eleitoral. O governador admite apenas um crime. Ter usurpado uma propriedade privada da família Sarney, o Maranhão.

Gente fina é outra coisa
Enquanto o mundo desaba sobre Dilma Roussef, falta contar o que está no já famoso dossiê: por exemplo, os gastos incríveis com Roberta Sudbrack. A badalada chef de cusine, além de apartamento funcional, carro e motorista, recebia (por fora) 40.000 reais mensais para cozinhar para a família do Príncipe dos "Ociólogos".

Rosa dos Ventos - por Maurício Dias (Cartacapital)

A contestação da soberania brasileira sobre a Amazônia não é recente. Declarações feitas por influentes personalidades mundiais, nas duas últimas décadas, dão o tom das pressões. Abaixo uma amostra:

1. “Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós.” (Al Gore, como vice-presidente dos EUA)

2. “O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia.” (François Mitterrand, como presidente da França)

3. “As campanhas ecológicas internacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para dar início a uma fase operativa que pode definitivamente ensejar intervenções militares diretas sobre a região.” (John Major, como primeiro-ministro da Grã-Bretanha)

4. “O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes.” (Mikhail Gorbachev, como presidente da extinta União Soviética)

5. “Os países industrializados não poderão viver da maneira como existiram até hoje se não tiverem à sua disposição os recursos naturais não renováveis do planeta. Terão de montar um sistema de pressões e constrangimentos garantidores da consecução de seus intentos.” (Henri Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA)

6. “Atualmente avançamos em uma ampla gama de políticas, negociações e tratados de colaboração com programas das Nações Unidas (...) e crescente participação da CIA em atividades de inteligência ambiental.” (Madeleine Albright, como secretária de Estado dos EUA)

7. “Caso o Brasil resolva fazer um uso da Amazônia que ponha em risco o meio ambiente dos Estados Unidos, temos de estar prontos para interromper este processo imediatamente.” (general Patrick Hughes, ex-chefe do Órgão Central de Informações das Forças Armadas dos EUA)

8. “A Amazônia e as outras florestas tropicais do planeta deveriam ser consideradas bens públicos mundiais e submetidas à gestão coletiva, ou seja, gestão de comunidades internacionais.” (Pascal Lamy, como Comissário da União Européia na ONU)

9. “Essa parte do Brasil (Amazônia) é muito importante para deixar para os brasileiros. Se perdermos as florestas, perderemos a luta contra o aquecimento global.” (The Independent/editorial)

10. “O que uns vêem como a salvação da soberania pode ser a destruição da floresta (...) as restrições refletem um debate maior sobre os direitos à soberania versus patrimônio do mundo.” (The New York Times/editorial) Como se sabe, essa gente é capaz. Capaz de tudo.


O Brasil e as Farc

A oposição tenta, sem sucesso, criar um caso a partir de supostas relações entre autoridades brasileiras e Olivério Medina, um representante informal das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Embora não apresente credenciais da função, Medina transita por aqui desde 1997, desenvolvendo ações políticas com a finalidade de conseguir adesão à tese de que as Farc são uma “força beligerante”.

Os primeiros contatos de Medina foram feitos no Congresso, em 1998, já no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso.

A oposição de hoje, PSDB e PFL (atual DEM), era a situação. Na edição de 15/11/1998, a Folha de S.Paulo registrou que os primeiros parlamentares com os quais o representante das Farc esteve foram os deputados tucanos Tuga Angerami e Arthur Virgílio.

Ninguém lançou sobre FHC a suspeita de transacionar clandestinamente com as Farc. Mas a suspeita pesa sobre Lula, pelo simples fato de o atual governo executar uma política externa não-alinhada com os americanos como era no governo passado.

O ministro Celso Amorim deu de cara com esse contraste político quando esteve na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Senadores da oposição queriam saber por que o Brasil não incluía as Farc na categoria de “grupo terrorista”. Amorim explicou que o único país a usar esse critério de classificação são os EUA. Todos os outros acompanham as resoluções da ONU. Por isso, só a Al-Qaeda é considerada oficialmente, pelo Brasil, como uma “organização terrorista”.

Nem por isso, no entanto, o País apóia as ações de seqüestro das Farc.

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Cena brasileira
O registro da morte de um motorista de ônibus na primeira página do jornal O Globo, há 50 anos, mostra uma mudança radical ocorrida no País nas últimas cinco décadas.

O aumento da violência matou a sensibilidade da imprensa.

Batalha Naval
Está duríssima a luta pelo controle da diretoria de Planejamento da Secretaria Especial de Portos. De um lado, o deputado Marcio França, do outro, a ex-deputada Telma de Souza. Defendem interesses divergentes.

Marcio, do PSB paulista, tem forte influência no setor marítimo. Telma é da turma com trânsito informal com o banqueiro Daniel Dantas. Integra a ala informal petista chamada de PT do D.

Em jogo, a concessão, sem licitação, de um terminal de veículos à Santos Brasil, empresa do Opportunity, controlada por Dantas.

Telma quer Fabrício Pierdomênico, na secretaria. Um legionário da causa de mandar a licitação para o espaço.


A sonoridade do não
Raimundo Moreira, pré-candidato do PRB à prefeitura de Salvador, renunciou à disputa para apoiar o nome de ACM Neto, do DEM, embora liderasse as pesquisas de intenção de voto.

Ele era ambicionado pelo PSDB. Os tucanos garantem que o acordo envolveu do apoio do DEM ao senador Marcelo Crivella, do PRB, num provável segundo turno na eleição para a prefeitura carioca.

Perguntado por e-mail, escrito em “Arial tamanho 10”, se havia o acordo, o prefeito Cesar Maia respondeu em “Arial tamanho 24”: “Não!”

Meio ambiente
A exposição excessiva à luz dos flashes pode levar uma nova espécie para a lista oficial de animais em extinção.

Trata-se do “Minc-leão-dourado”.

Revés (1)
O prefeito do Rio, Cesar Maia, sofreu duas derrotas judiciais recentes.

Alguns empresários, que, segundo o alcaide, “só olham para o lucro”, conseguiram liminares contra a proibição do cigarro em qualquer ambiente fechado e a circulação de caminhões em horários de rush.

Pode-se suspeitar que o prefeito tenha sido movido pela proximidade das eleições municipais. Ele precisa resgatar o eleitorado que perdeu na zona sul da cidade, alvo principal das duas medidas.

A decisão, de qualquer forma, foi pior para a população. Mas essa não parece ser a causa que norteia certas decisões da Justiça.

Revés (2)
Quanto à liberação do cigarro, resguardados os direitos dos ex-fumantes e dos não-fumantes, melhor é adotar o lema que norteava o resmungado do cronista Rubem Braga: “Quem quiser fumar que se fume”.

Onde há fumaça...
O Ministério Público Federal, em Brasília, recebeu denúncia sobre possível malversação de verbas na Previ, a poderosa caixa de previdência dos funcionários do Banco do Brasil.

Na mira da investigação está a venda das ações da Inepar, a partir de uma desmobilização da totalidade da carteira na empresa.

O responsável por essa operação de venda já foi substituído em ato preventivo.

Dialética da conciliação
Ainda não há vencedor, no PT mineiro, em relação ao acordo com o PSDB para a eleição municipal em Belo Horizonte.

É um combate travado em silêncio entre o prefeito Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias, contrário à aliança.

Em minoria no Diretório Nacional, e para evitar um veto formal à aliança, Pimentel comprometeu-se a costurar uma coligação informal.

Ficou parecendo que o prefeito perdeu. Mas as soluções mineiras nem sempre são o que parecem.

Nesse caso, o PT ficou fingindo, fingindo que não deixou.

José Serra precisa afrouxar o garrote

O governador José Serra precisa mandar que a maioria tucana na Assembléia Legislativa de São Paulo afrouxe o garrote com que asfixia a oposição. Num só dia ela derrubou seis pedidos de convocação de cidadãos que poderiam oferecer explicações para que se entenda a denúncia de que nos anos 90 a empreiteira Alstom pagou propinas a hierarcas do governo do Estado. Coisa de US$ 6,8 milhões.
Esmigalharam até mesmo um pedido de informações ao Ministério Público e à Polícia Federal. Era apenas a prática da velha e boa prática parlamentar de fazer perguntas para obter respostas. O jabaculê da Alstom foi descoberto numa investigação conduzida pelo governo suíço e ex-diretores da empreiteira reconheceram que distribuíam dinheiro mundo afora. A Alstom forneceu equipamentos ao Metrô de São Paulo e à usina hidrelétrica de Itá, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.
Desde que o assunto foi para a vitrine, em maio, já apareceram uns dez nomes e localizou-se uma lavanderia de dinheiro. Mark Pieth, presidente do Grupo Anticorrupção da OCDE, disse ao repórter Assis Moreira que, em 2005, no Estado de São Paulo, pessoas que eram responsáveis pela compra de equipamentos não pediram suborno para eles, mas sugeriram que a empresa fizesse "pagamento ou presente político", para o caixa de partido.
O tucanato paulista blinda seu armário de esqueletos de acordo com a doutrina que a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) enunciou logo depois da denúncia da maracutaia da VarigLog. Quando ela soube que a oposição queria convocar a comissária Dilma Rousseff para explicar seu papel no episódio, respondeu: "Nem morta vou permitir a aprovação desse requerimento. Chega de inventar novidade para tumultuar e criar factóides".
Em São Paulo, a tentativa de saber alguma coisa sobre uma mordida de US$ 6,8 milhões foi chamada de "kit PT" por Serra. Em Brasília, dois dias depois, a senadora petista chamou de "factóide" a denúncia de uma ex-diretora da Anac envolvendo o favorecimento da VarigLog.
Apesar de tudo, a bancada do governo mostrou-se mais flexível que o tucanato de São Paulo e concordou com a expedição de convites a 12 pessoas envolvidas no rolo aéreo. Ou o senador Arthur Virgílio vem a São Paulo ensinar boas práticas aos tucanos, ou Serra vai a Brasília ensinar sua arte ao PT.
Comentário: Isto vindo de um serrista histórico.
Talvez pra tentar dar o ar de "imparcial".

FHC, o maior de todos os tartufos - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=244 - por Paulo Henrique Amorim

“BrOi”: Jânio de Freitas, seja bem-vindo

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=246

"BrOi + Angra + Fundos= Isso cheira mal

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=248 - por Paulo Henrique Amorim

Gilmar Mendes, ministro sem recato - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=250 - por Paulo Henrique Amorim.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O resumo da ditadura

A bomba do Riocentro é o resumo da ditadura. Os militares, querendo dizer que os criminosos eram os membros da esquerda, vão colocar uma bomba no meio de uma multidão. Para depois, posarem de mocinhos em que, só eles poderiam “salvar” a população do perigo comunista.
Acabou que, literalmente, a bomba explodiu no colo deles.
Daquela vez, o plano ofídico falhou.
Em outras oportunidades, infelizmente, não.

Uma constatação

“ao contrário do que em geral se afirma, não foram os indefensáveis atentados do 11 de setembro que mudaram o mundo, mas a ascensão de Bush e seus mentores ao governo dos Estados Unidos.

Do cientista político Luciano Martins em "O fundamentalismo de Bush e a nova ordem mundial".