quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Reformista ElBaradei diz que se preocupa com Exército no Egito – por Marcelo Ninio (Folha de São Paulo)


Considerado por muitos como um dos pais da revolução que derrubou o ditador Hosni Mubarak, o Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, 68, está apreensivo com a transição em andamento no país. Em entrevista à Folha no escritório de sua ampla casa num condomínio de luxo na periferia do Cairo, ele disse que os sinais emitidos pela junta militar que assumiu o governo do país não são tranquilizadores.

Na conversa, também criticou o Brasil que pela política de não criticar ditaduras como a de Mubarak em nome da não-intervenção e da solidariedade com países em desenvolvimento. Leia a íntegra do bate-papo:
Folha - Na última quinta-feira, depois que Mubarak anunciou que não renunciaria, o sr. alertou que o Egito ira "explodir". Menos de 20 horas depois ele deixou o poder. O que acha aconteceu nesse meio tempo?
Mohamed ElBaradei -Acho que ele estava tentando de tudo para ficar no poder. Mas ficou óbvio que a saída de Mubarak tornou-se uma obsessão para o povo egípcio, como um símbolo de que o regime chegara ao fim e seria o começo de um novo Egito. As pessoas viam em Mubarak o próprio regime e estavam certas. Era um regime de um homem, ou como eu já disse, um regime faraônico. Como animal político, ele não entendeu que perdeu a credibilidade e a legitimidade e que teria que aceitar com dignidade que era hora de ir. Em vez disso, recorreu a todo tipo de truque para ficar: mudou o gabinete, disse iria alterar a Constituição e permitir outras pessoas a concorrer [à Presidência], anunciou que seu filho não seria candidato,. Também eliminou a liderança de seu partido, escolhendo assim alguns bodes expiatórias de seu regime, e passou os poderes ao vice-presidente. Mas este perdeu a credibilidade em apenas três dias, pois era muito ligado a Mubarak. No fim das contas, quando o Egito inteiro estava nas ruas na sexta-feira, eu escrevi no Twitter que o Exército deveria intervir, porque o país estava indo pelo ralo. Por sorte o Exército assumiu o controle. Acho que viu que precisava salvar o país. Mubarak nunca entendeu que como líder ele deveria escutar a voz das ruas, e que àquela altura ninguém queria mais continuar olhando para ele, mesmo que fosse só até setembro. As pessoas só queriam vê-lo pelas costas. E ele saiu sem sequer se despedir do povo. Não foi capaz nem de ir à TV e dizer que, pelo bem da nação, estava se aposentando. Teria sido mais digno. Mubarak se retirou em total humilhação.

O sr. diz que era o regime de um homem só. Mas o Exército, base do regime, continua no poder. O regime caiu?
Esta ainda é uma questão inteiramente aberta. Estou apreensivo. Queríamos o Exército para salvar o país e evitar uma guerra civil, mas não como ponte entre a ditadura e a democracia. Não queremos que o regime seja substituído por uma junta militar. Os militares dizem que estão no governo apenas por seis meses, até transferir o poder, mas o que temos visto não é muito tranquilizador. Em primeiro lugar, o chefe do Exército não fala com o povo, nós só recebemos comunicados periódicos do Conselho Supremo das Forças Armadas, basicamente dizendo que seu papel é de defender a democracia e que entende a legitimidade dos protestos. Não acho que eles estão lá para ficar, mas não estenderam a mão ao povo, Nenhum deles foi à TV explicar qual o roteiro desta transição, o que é crucial. As medidas que poderiam restaurar a credibilidade imediatamente são a abolição da lei de emergência, a liberdade para estabelecer partidos e a libertação dos prisioneiros políticos. Nada disso foi feito. A esta altura, no mínimo deveríamos ter um governo compartilhado. Um conselho presidencial que incluísse não apenas militares, mas alguns civis, com o poder de legislar. Ouvir que o Exército governará o país sozinho nos próximos meses, sem uma Constituição e sem um Parlamento, não é muito tranquilizador. Também falam de emendas na Constituição para eleições justas e livres, mas nós sabemos que eleições são só uma parte da democracia. É preciso construir instituições. Ainda não sabemos que artigos [da Constituição] serão alterados e por quem. Eles ainda não disseram quem são as pessoas que formarão o comitê de reforma da Constituição e como elas foram escolhidas. Não há comunicação com o povo. Eles falam em seis meses, mas como novos partidos políticos podem florescer e se integrar ao sistema político em seis meses? Democracia não é só a urna eleitoral, é preciso dar tempo e espaço para construir instituições e permitir que os partidos, antigos e novos, cheguem ao eleitorado. Em seis meses é possível ter eleições livres e justas, mas não representantes políticos legítimos e organizados.

O período de transição deveria ser mais longo?
Sim, acho que precisamos de no mínimo um ano para dar às pessoas o direito de estabelecer partidos, de se engajar, explicar as diferentes ideologias. Nada disso foi feito. O pior é que ainda estamos com o governo Mubarak, sem nenhuma indicação de quando o novo governo assumirá. Eu defendo que haja um governo de união nacional, com pessoas que não necessariamente possuam filiação política, mas que tenham credibilidade e experiência. Mas não esses sujeitos [do gabinete], que provavelmente irão a julgamento em breve. Claro que essa é uma situação nova para o Exército, mas eles não procuraram ninguém, não conversaram com ninguém. Conversei hoje com as pessoas da Associação Nacional para a Mudança, com a Irmandade Muçulmana e outras forças políticas do Egito e nenhum deles foi procurado.

Houve um encontro de generais com jovens líderes, isso não é um começo?
Esses jovens deflagraram a revolução, mas administrá-la é algo diferente e eles não podem fazê-lo sozinhos. Se o Exército quer reduzir a revolução aos jovens, acho que não vai funcionar. Eles começaram a revolução, mas todos os egípcios saíram em seu apoio. É uma revolução egípcia e os militares devem incluir a todos. Este é o momento de alterar a Constituição, de fazer as mudanças para criar um novo regime, e os jovens não podem fazer isso. Se eles reduzirem a revolução aos jovens e suas demandas, eles estarão abortando a revolução. Falei com muitas pessoas hoje e percebi a mesma apreensão.

Por temor de que os militares queiram ficar no poder?
Não acho que eles queiram ficar. O que causa apreensão são indícios de que eles não mudaram a forma de pensar. Como se fosse uma reencarnação do regime Mubarak. E não foi para isso que essa revolução ocorreu. Precisamos deixar claro aos militares que essa revolução é por democracia e liberdade, algo bem diferente do que houve até hoje. O que estamos planejando agora é que todas as forças políticas do Egito, esquerda, direita e centro, enviem uma declaração dizendo quais são nossas demandas e o que precisa ser implementado. Se os militares têm boas intenções, e eu espero que sim, eles terão que escutar-nos.

Quais as principais propostas?
Um governo de união nacional, com civis e militares dividindo o poder, e um período de um ano até a eleição. Além de todas as demandas que são unanimidade: revogação da lei de emergência, libertação de presos políticos, livre formação de partidos políticos, liberdade de imprensa. É uma questão de senso comum. Não vimos nada disso ainda. A cada dois dias sai um comunicado de dois minutos dessa caixa preta que é o comando militar. Mas nenhum deles disse ainda qual o plano. Sei que isso é algo novo para o Exército e eles não têm experiência em governar o país. Mas essa é mais uma razão para engajar as pessoas. Eles só falaram com jovens selecionados pelo nome, não pediram aos jovens manifestantes que escolham seus representantes. Isso está causando preocupação em muitos lugares.

O sr. pretende ser candidato à Presidência?
Minha intenção é ajudar a colocar o Egito no caminho da democracia. Neste estágio não estou procurando um cargo público. Quero continuar dando meus conselhos, mas gostaria de ver uma mudança de geração, pessoas jovens, de 40, 50 anos na Presidência. A minha geração, que viveu 60 anos sob ditadura, fracassou em mover o país para a frente. Na verdade andamos para trás. Gostaria de ver algo como o que aconteceu no Brasil, uma transição da ditadura para a democracia. Quando estive no Brasil, no mês passado, vi o presidente Lula sair com 80% de popularidade, depois de tirar 20 milhões de pessoas da pobreza. Esse é o tipo de conquista que gostaríamos aqui no Egito. Nossa política externa também tem que mudar totalmente. Precisamos trabalhar com países que tem experiências semelhantes, como o Brasil, África do Sul e Índia. Tudo tem que mudar. Estou muito feliz no momento de ter a liberdade e a flexibilidade para aconselhar e conversar com jovens e idosos.

E se o sr. for convidado a se candidatar por uma coalizão de partidos?
Eu sempre digo que não desapontarei as pessoas. Se houver um consenso, ou um acordo nacional, de que eu sou necessário para conduzir o país neste período, não desapontarei, embora essa não seja a minha prioridade. Muitas pessoas perguntam [se serei candidato], mas o país passa por um processo de euforia e confusão. A poeira tem de baixar. Acho que alcancei o meu objetivo e estou muito feliz por isso. Pretendo continuar trabalhando nos assuntos que são importantes. Trabalhei muito tempo com controle de armas, desigualdade, inseguranças, democracia, direitos humanos. Quero que o meu portfólio seja amplo, como é no momento.

Que papel o sr. acha que teve nessa revolução?
Odeio falar sobre mim mesmo, mas é um milagre ver o que aconteceu em um ano. Quando cheguei aqui havia uma cultura do medo, as pessoas temiam falar. Não havia esperança, ninguém achava possível que, depois de 60 anos, haveria democracia. Eu percebi que muitos da elite eram um obstáculo para a mudança, pois haviam sido cooptados pelo regime. A cultura do medo estava tão enraizada na alma das pessoas que elas queriam manter suas pequenas posses, seus carros, suas casas. Vi que teria que confiar nos jovens. Basicamente eu falava de como os direitos sociais e econômicos estão ligados à democracia. A prioridade das pessoas passa a ser a prioridade do país. Começamos a falar de mudança, não de uma simples reforma. E a mostrar que a força da unidade popular, por mais terrível que seja o regime, está nos números. Por causa de nossa história, havia uma expectativa de que o salvador chegaria montado num cavalo branco. E eu disse a eles que a mudança só viria pelas mãos do povo. Começamos a mobilizar e conscientizar as pessoas, coletamos um milhão de assinaturas, boicotamos as eleições. E finalmente, do nada, tudo explodiu. O Egito inteiro aderiu, cada um com seu motivo. Uns por liberdade política, outros contra as desigualdades econômicas, exigências sociais. Todos tinham algum problema com o regime.

Mas são problemas que existem há muito tempo. Por que estourou agora?
Começou há alguns anos, mas havia muito medo e nenhuma esperança. Dou o crédito aos jovens que saíram às ruas. Era como uma bomba prestes a explodir. E ela explodiu quando as pessoas perceberam que era possível. A Tunísia foi uma mensagem psicológica fantástica de que, parafraseando Barack Obama, "yes we can" (sim, nós podemos). Se os tunisianos podem, tendo um regime mais repressor que o nosso, por que nós não podemos? Asseguro-lhe que ninguém, mesmo os organizadores dos protestos de 25 de janeiro, sabiam se haveria 5 mil, 100 mil ou 200 mil pessoas nas ruas. Ninguém fazia ideia. Havia muitas adesões no Facebook e na internet, mas ninguém sabia. E foi uma surpresa fantástica ver que as pessoas captaram a mensagem. Depois já não havia como voltar atrás. Estávamos mobilizando pela internet havia um ano, com discussões e trocas de ideias. Claro que o governo ironizava, dizendo que era um movimento virtual. Eles jamais esperavam que a revolução virtual se tornaria uma revolução real. Não acho que ela teria sido possível sem os meios de comunicação modernos. Essa é também uma revolução de comunicação. Não apenas as pessoas saíram às ruas, mas levaram holofotes. Todo espancamento, toda tortura era documentada e divulgada. Muitas pessoas me criticaram por eu sair e voltar constantemente, mas eu queria mostrar ao mundo o que estava acontecendo, por que não havia ideia de como a situação no Egito era ruim. Agora os egípcios, do dia da noite, se transformaram, de lixo, em algo fantástico. Há um mês os egípcios eram almas mortas. Agora, mesmo os pobres têm um sentimento de dignidade, orgulho e autoconfiança. Os egípcios surpreenderam a si próprios, mas olhando para trás o que aconteceu não é tão surpreendente. A panela de pressão explodiu. Quando fui à praça Tahrir, há uma semana, fiquei comovido. As pessoas querem ser livres, mesmo sem saber muito bem o que fazer com essa liberdade. E esse é o nosso desafio agora, como canalizar esse sentimento fantástico de dignidade para algo organizado, a fim de não permitir o descarrilhamento de nossa luta por uma democracia baseada em justiça social.

O sr. teme que o país esteja vivendo uma curta primavera política e que acabe havendo um retrocesso para o autoritarismo?
Sim, e por isso a conduta do Exército é tão importante. Vejo meu papel como um fiscal, para garantir que esse momento não tenha vida curta. Estamos num momento crucial. Sim, nos livramos do sr. Mubarak e companhia, mas este é só o começo. Removemos o bloqueio, mas ainda não alcançamos nosso objetivo.

Muitos afirmam que o sr. está desconectado do Egito após viver tantos anos no exterior e que isso o enfraquece como líder.
No último ano eu apresentei demandas que são senso comum, democracia, eleições livres, uma Constituição apropriada, revogação da lei marcial. Mas não vi nenhum esforço do regime para discutir se elas são legítimas. Tudo o que tive foram ataques no estilo Goebbels, assassinato de caráter por um ano inteiro. Há alguns anos recebi o Colar do Nilo, que é a mais alta honraria concedida no Egito, e que me coloca atrás somente do presidente em termos de protocolo. Mas quando comecei a pedir mudanças, passei a ser acusado de ser agente americano, agente iraniano, anti-Islã, pró-Irmandade Muçulmana, responsável pela guerra no Iraque, entre outras acusações. De repente eu não entendia nada de Egito, pois não havia bebido água poluída e comido comida estragada. Era um regime desesperado para sobreviver. Mas isso ficou para trás. Nos últimos dias abrimos as janelas, o ar puro virá e todos esses mosquitos vão sair.

Muitas pessoas também acham que o sr. não representa o Egito
Isso não me incomoda. Fui a algumas das áreas mais pobres do Egito e não tive esse tipo de reação. Mas não estou concorrendo num concurso de popularidade. Não esqueça de que este é um país em que 30% das pessoas não sabem ler e escrever, em que a mídia é totalmente controlada pelo governo e que todos os dias dia população sofre lavagem cerebral. Nossos problemas não são diferentes dos de Brasil ou África do Sul. É pobreza, corrupção, subdesenvolvimento. Voltei para dizer aos egípcios que há alternativa a essa miséria em que vivemos e que o portão para ela é a democracia. Em um ano nos movemos de um país em que a maior ambição era ter uma casa e um emprego, para um país em que o céu é o limite. Por isso queremos democracia, para que as pessoas possam pensar por si próprias. Sob este regime fascista elas não tinham permissão nem para pensar.

Qual foi o principal motor da revolução, a sede de liberdade ou a fome por igualdade social?
Os dois. Muitos da classe média achavam que a repressão política era o pior. Jovens protestavam contra as torturas e a falta de futuro. Outros não tinham comida na mesa nem um lugar decente para morar. Foi difícil convencê-los de que somente por meio de democracia seria possível chegar a uma sociedade mais justa socialmente. Mas todos concordam que esse regime fracassou miseravelmente. 42% dos egípcios vivem com menos de R$ 3,2 por dia. O Egito é considerado um Estado falido. Quando estive no Brasil fiquei impressionado com o desenvolvimento, algo mudou. Ainda há muito a ser feito, mas é possível ver o progresso.

Os líderes políticos no Egito são todos de classe média para cima. O sr. acha possível que emerja um líder das classes baixas, como aconteceu no Brasil com Lula?
Não acho que isso seja possível no momento, porque os sindicatos estão totalmente sob o controle do governo, não tem liberdade como no Brasil. No atual estágio, o líder será provavelmente da classe média. Mas é preciso organizar essas pessoas e cooptá-los. Me encontrei com alguns dos sindicalistas, todos estiveram na prisão. Alguns são extremamente educados, até mais que muitos da elite. Fiquei muito impressionado. Eles precisam fazer parte da coalizão. Neste momento precisamos de uma coalizão com todos, socialistas, marxistas, Irmandade Muçulmana, cristãos, todos. Com uma Constituição democrática, que basicamente diga que todos tem os mesmos direitos e deveres, não importa se são brancos, negros ou vermelhos. Estamos condenados a viver juntos e temos que achar um jeito de fazê-lo em paz e harmonia.

O sr. tem relações próximas com a Irmandade Muçulmana. Como vê as suspeitas de que o grupo tenha um plano oculto de transformar o país numa teocracia?
Não acho que essa é uma possibilidade. O que Mubarak fez foi espalhar essa ficção, de que depois dele, viria o caos. E isso é de certa forma uma condenação ao seu regime, porque numa democracia presidentes vão e vêm e nada acontece. Mas ele convenceu o mundo de que sem essa ditadura haveria o caos ou que o Egito se tornaria imediatamente um Estado religioso, ou pior, dominado pela Al Qaeda. E que automaticamente seria hostil ao Ocidente e revogaria o acordo de paz com Israel. E tudo isso é ficção. A Irmandade Muçulmana é um grupo religioso conservador, mas não acho que eles estejam pessoalmente interessados em tomar o poder. E mesmo se quiserem, eles terão que fazer isso nos parâmetros de uma Constituição que define um Estado civil, com direitos e deveres iguais para todos. Eles não tem a maioria. São apoiados provavelmente por 20% do povo egípcio. Mas ignorá-los ou bani-los, é agir como um avestruz, que enfia a cabeça na areia para não quer ver a realidade.

O sr. acha que a maioria dos egípcios quer um regime secular?
Sim, mas não usamos a palavra secular, chamamos de Estado civil. Acho que a maioria quer um Estado que não seja religioso, inclusive a Irmandade Muçulmana. Temos que colocar isso na nova Constituição. O regime é tão cínico que depois da revolução, todas as demandas da oposição se tornaram legítimas. Na última semana o regime passou a dizer que entende as nossas demandas legítimas. Por que não entenderam isso antes que nós chutássemos o seu traseiro? E até a Irmandade Muçulmana, que era banida, passou a ser convidada para um diálogo nacional com o vice-presidente. Era um regime que queria ficar no poder a todo custo e que não tinha nenhuma visão, apenas a convicção de que o único meio de sobreviver era oprimindo o povo. No século 21, com tudo o que vem acontecendo em termos de tecnologia e comunicação, [o fim do regime] a queda do regime era algo que tinha que acontecer.

Como avalia a conduta das potências ocidentais?
Infelizmente elas viam o Oriente Médio somente pela perspectiva da estabilidade. Achavam que o Mubarak e seus colegas autoritários eram a garantia de estabilidade. Mas a única estabilidade é quando há um governo eleito pelo povo e que atende ao povo. Uma estabilidade baseada em repressão, em que o Egito é usado como prisão, como ocorreu no governo Bush, é muito frágil. É por isso que o Ocidente não tem muita credibilidade entre os egípcios. A sensação é que os países ocidentais não praticam o que pregam. Por um lado defendem a democracia e o Estado de direito, por outro, se calam quando trata-se de seus amigos ditadores. Quando o Irã fez eleições, mesmo tendo sido imperfeitas, a reação no Ocidente foi enorme, porque eles não gostam do Irã. Mas nunca falam dos países árabes que jamais tiveram eleições. Os governos ocidentais tem que entender, e eu digo isso a eles, que para ter credibilidade é preciso ficar ao lado do povo e entender que uma paz duradoura no Oriente Médio só virá quando houver democracias. O que temos com Israel é paz entre governos. Mas pergunte a qualquer egípcio na rua e ele dirá que a paz verdadeira só acontecerá quando os palestinos tiverem seu Estado e Israel parar de ocupar o território deles.

O sr. acha que o Brasil errou nos últimos anos ao se aproximar de ditaduras como a de Mubarak em nome da solidariedade de país em desenvolvimento?
Há uma crença de que porque somos países em desenvolvimento não devemos dizer nada. Mas acho que é um erro considerar isso uma interferência [nos assuntos internos]. Direitos humanos são valores universais. Eu gostaria que Brasil, África do Sul, índia e outros tivessem falado mais alto que o Egito, apesar de também ser um país em desenvolvimento, não tem o direito de torturar seu povo e privá-lo de liberdade política. Governos como o do Brasil tem que entender agora que perderão credibilidade se não defenderem esses valores universais, mesmo que seja em países amigos do mundo em desenvolvimento. Eu me preocupo com a violação de direitos em qualquer lugar, seja em Burma, Sudão ou Congo. Temos que esquecer esse conceito antigo de intervenção doméstica e soberania. Nos últimos anos há uma discussão em torno da responsabilidade de proteger as pessoas de abusos cometidos por seus próprios governos. (Comentário: isto é ótimo, mas ao mesmo tempo é um perigo - se valesse, hoje, o ocidente derrubartia o Irã - que teve tumultuada eleição, mas teve - e deixaria as outras ditaduras em paz, pra não falar de Israel). É preciso mudar o modo de pensar. Ditadores como Mubarak contavam com esse tipo de não-intervenção para sobreviver. Este é um dos problemas entre países em desenvolvimento, a crença de que não podemos criticar uns aos outros. Mas não estamos nos ajudando dessa forma. Se vemos algo errado devemos falar, seja em países ricos, pobres, vizinhos ou distantes.

O sr. defende que Mubarak vá a julgamento?
Não. Acho que é hora de o Egito olhar para frente. Mubarak está fora de cena. Mas acho que o regime deve prestar contas. Toda essa conversa de que o presidente desviou US$ 70 bilhões, por exemplo. Esse dinheiro tem que ser devolvido ao país. Eu gostaria que os membros do regime fossem proibidos de deixar o país até tudo ser investigado. O tempo dirá se devem ir a julgamento. E numa corte civil, não militar. Quem roubou ou matou, tem que ser responsabilizado. O Mubarak, acho que é melhor deixá-lo de lado. Mas o dinheiro tem que ser devolvido.

O sr. acha que a queda do regime no Egito terá o efeito de um Muro de Berlim no mundo árabe?
A quantidade de mensagens que tenho recebido do mundo árabe mostra que há uma grande expectativa sobre isso. Poderia ser a primavera árabe. O Egito sempre foi a locomotiva do mundo árabe. A convicção era de que se fosse um Estado moderado, o resto seguiria. Como fomos pelo ralo, o mundo árabe parou na triste situação em que estamos. Kofi Annan me disse que o impacto do que está ocorrendo aqui poderá atingir até a África subsaariana. [O jornalista americano] Tom Friedman me disse aqui, há alguns dias, que pode chegar até a China. Por isso é que mundo está todo focados no Egito e que é tão importante que façamos tudo certo. Se isso ocorrer, acho que mudaremos a percepção que se tem do mundo árabe e islâmico e a desconfiança mútua com o Ocidente. Poderemos finalmente provar que não somos diferente, mas parte da família humana e que compartilhamos os mesmos valores universais: respeito, tolerância, solidariedade, confiança. O que aconteceu aqui foi um tsunami e acho que será ainda maior se tiver um impacto global para unir os países em torno desses valores.

A mudança de regime pode colocar em risco o acordo de paz com Israel?
Ninguém está interessado em revogar o acordo de paz com Israel. Acho que hoje todos no mundo árabe entendem que Israel tem o direito de viver em fronteiras seguras. Mas também há muito ressentimento em relação a Israel, porque a paz não é só a falta de guerra. A paz precisa ser baseada em interações positivas entre as pessoas. E no sentimento de que há um acordo de paz justo. Isso só acontecerá quando a questão palestina for resolvida. A bola agora está no campo de Israel e dos Estados Unidos. Eles tem que trabalhar pela solução que todos sabem qual deve ser: um Estado palestino, com retorno dos refugiados, fim dos assentamentos etc. Se formos capazes de fazer isso, teremos paz duradoura. Caso contrário, continuaremos no estágio atual, sem paz e sem guerra. Que paz é essa em que não podemos nem publicar um livro em hebraico aqui no Egito? Ou publicar um livro egípcio em Israel. Não há muita cooperação hoje, exceto alguns acordos econômicos, de fornecimento de gás e petróleo. Mas entre as sociedades civis não há nenhuma cooperação. Meu sentimento é que numa democracia as relações com Israel serão baseadas em igualdade, porque quem quer que seja o novo líder do Egito, terá um mandato para falar em nome da população. Acho que é uma oportunidade para Israel entender que se quiser uma paz abrangente, o Egito pode ser bastante útil no processo. Mas também tem que entender que não podem continuar a comer o bolo e mantê-lo inteiro. Não podem construir assentamentos e ao mesmo tempo dizer que querem a paz.

O sr. se arrisca a dizer qual será a próxima peça do dominó a cair no mundo árabe?
Não faço ideia. Cada país tem sua própria dinâmica. Se o Egito se tornar um Estado democrático moderado, com sua população de 85 milhões de pessoas que é um terço do mundo árabe, não vejo como outros poderão continuar a defender suas políticas opressivas ou não se mover na direção da democracia. Pode levar algum tempo, mas acho que o impacto está chegando.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O mito japonês – por Daniel Gros (Project Syndicate - O Estado de São Paulo)

O crescimento do Japão é baixo, mas o avanço do PIB é alcançado mesmo com o envelhecimento da população trabalhadora

A primeira década deste século começou com a chamada bolha das pontocom. Quando ela estourou, os bancos centrais agiram para abrandar a política monetária e impedir um período prolongado de crescimento lento ao estilo japonês. Mas o período prolongado de taxas de juros baixas que se seguiu à recessão de 2001 antes contribuiu para o surgimento de outra bolha, desta vez nos setores imobiliário e de crédito.
Com o colapso da segunda bolha em uma década, os bancos centrais agiram rapidamente, baixando as taxas a zero em quase toda parte. Recentemente, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) esteve envolvido numa rodada sem precedente de "alívio monetário" na tentativa de acelerar a recuperação.

A formulação de políticas econômicas é dominada por "lições aprendidas" da história econômica. Mas a lição aprendida com o caso do Japão é em grande parte um mito. A base para o conto de terror do Japão é que seu Produto Interno Bruto cresceu na última década numa taxa média anual de apenas 0,6%, ante 1,7% nos Estados Unidos. A diferença é menor do que em geral se supõe, mas à primeira vista uma taxa de crescimento de 0,6% permite qualificar uma década como perdida.

Segundo esse padrão, pode-se argumentar que boa parte da Europa também "perdeu" a última década, pois a Alemanha registrou as mesmas taxas de crescimento que o Japão (0,6%) e a Itália se saiu ainda pior (0,2%); somente a França e Espanha tiveram um desempenho melhor.

Mas esse quadro de estagnação é enganoso porque deixa de fora um fator importante, a demografia.

Como se pode comparar históricos de crescimento num grupo de países desenvolvidos similares? A melhor medida não é o crescimento do PIB total, mas o crescimento da renda por pessoa da população economicamente ativa (não per capita). Esse último elemento é importante porque só a população economicamente ativa (PEA) representa o potencial produtivo de uma economia. Se dois países alcançam o mesmo crescimento da renda média da PEA, deve-se concluir que ambos têm sido igualmente eficientes em usar seu potencial, mesmo que suas taxas de crescimento do PIB sejam diferentes.

Quando se observa PIB/PEA, obtém-se um resultado surpreendente: o Japão na verdade se saiu melhor que os Estados Unidos e a maioria dos países europeus na última década. A razão é simples: as taxas de crescimento geral do Japão foram muito baixas, mas o crescimento foi alcançado apesar do encolhimento da população economicamente ativa.

A diferença entre o Japão e os Estados Unidos é instrutiva aqui: em termos de crescimento do PIB total, ela foi de aproximadamente um ponto porcentual, mas maior em termos de taxas de crescimento anual da PEA - mais de 1,5 ponto porcentual, dado que a PEA americana cresceu 0,8%, enquanto a do Japão encolheu na mesma proporção.

Outra indicação de que o Japão usou seu potencial é que a taxa de desemprego foi constante durante a última década. Por contraste, a taxa de desemprego americana quase dobrou, aproximando-se de 10%. Pode-se concluir, portanto, que os Estados Unidos deveriam tomar o Japão como exemplo de como espremer o máximo de crescimento de um potencial limitado.

As diferenças demográficas são importantes não só para comparar Japão e Estados Unidos, mas também para explicar a maioria das diferenças nas taxas de crescimento de longo prazo em economias desenvolvidas. Uma boa regra prática para as taxas de crescimento médias dos países do G-7 seria atribuir cerca de um ponto porcentual em ganhos de produtividade para a taxa de crescimento da população economicamente ativa. Os EUA se saíram ligeiramente pior que o sugerido por essa medida tosca: o Japão se deu um pouco melhor; e a maioria dos outros países ricos chegou muito perto. Olhando para a próxima década, essa análise sugere que se pode prever a taxas de crescimento relativas dos países ricos com base no padrão de crescimento de suas populações economicamente ativas.

Nessa base, o declínio relativo do Japão como uma grande potência econômica prosseguirá na medida em que sua população economicamente ativa continuará encolhendo em cerca de 1% ao ano. Alemanha e Itália mostram cada vez mais padrões de declínio japoneses em suas populações economicamente ativas, e por isso provavelmente vão crescer muito pouco também.

No caso da Alemanha, observa-se uma anomalia demográfica interessante: de 2005 a 2015, a população economicamente ativa está estabilizada. Mas isso será seguido por um declínio acelerado, pois a PEA declinará mais rápido que no Japão. A força atual da economia alemã se deve parcialmente também a sua temporária estabilidade demográfica. Mas um cenário ao estilo japonês parece inevitável após 2015. Por contraste, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França provavelmente crescerão mais rápido pelas simples razão de que suas populações economicamente ativas continuam crescendo.

Duas lições emergem dessa consideração da influência de fatores demográficos no crescimento econômico. Primeiro, a ideia de uma "década perdida" em estilo japonês é enganosa - mesmo quando aplicada ao Japão. O crescimento lento do Japão na última década não se deveu a políticas macroeconômicas insuficientes, mas a uma tendência demográfica desfavorável.

Segundo, uma nova desaceleração das taxas de crescimento de países ricos parece inevitável, dado que mesmo nos países mais dinâmicos as taxas de crescimento da população economicamente ativa estão declinando. Nos menos dinâmicos, como Japão e Alemanha, uma estagnação parece inevitável. 

Tradução de Celso M. Paciornik

Comentário

É importante lembrar que o Japão nunca seguiu o “Consenso de Washington”, se é que – mesmo lá – houve consenso quanto a leviandade então pregada.

Programa bom e cauteloso – por Antonio Delfim Netto (Valor Econômico)

Sempre foi evidente que boa parte dos analistas financeiros tem uma indisfarçável aversão ao presidente Lula e às políticas do seu governo. Instintivamente, ampliavam os seus equívocos (que existiam) e reduziam os seus méritos (que eram muito maiores). Temos uma nova presidente, Dilma Rousseff, tecnocrata moderna, sofisticada, pragmática e com sensibilidade social, definição que, para alguns fundamentalistas, pode soar como oximoro. Ela tem que lidar: 1) com as naturais dificuldades políticas que existem em todo estado de direito republicano e democrático; e 2) com os condicionantes físicos e humanos, que limitam a continuação de um projeto de longo prazo, que parece muito conveniente para o Brasil.

Desde a Constituição de 1988, quando - gostem ou não alguns fundamentalistas - a sociedade brasileira revelou suas preferências sobre a forma em que desejava organizar-se, o Brasil tem feito imenso progresso civilizatório. Esse não se deve apenas a eventuais virtudes pessoais de seus governantes mas, também e de forma decisiva, ao aperfeiçoamento de nossas instituições. Para avaliar objetivamente a realidade brasileira atual, é preciso aceitar, de uma vez por todas, que Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva já se foram. São apenas parte do passado! Cada um deles procurou cumprir o seu papel da melhor maneira que lhe foi possível, dentro dos limites políticos, físicos e humanos em que operaram.

Um bom começo é aceitar um fato simples. Não importa qual seja nossa orientação ideológica ou nossa pretensão científica sobre a melhor receita para a boa governança econômica, é impossível deixar de reconhecer que quase 90% de aprovação popular (num regime de plena liberdade de expressão, mídia alerta e, felizmente, inquisidora) tem pouca probabilidade de ser um acidente. A verdade é que o Brasil livrou-se rapidamente da crise mundial de 2007/2009 e terminou 2010 em condições econômicas e financeiras razoáveis e progressos sociais visíveis, dentre os quais o "sentimento" de que aumentou a igualdade de oportunidades para todos.

Depois das atrapalhadas financeiras do mundo desenvolvido, é difícil deixar de reconhecer, também, que a despeito de alguns discutíveis pecados veniais, nossa situação fiscal não tem a dramaticidade que querem atribuir-lhe analistas engajados. Temos, sim, graves problemas que precisam ser enfrentados: a desestabilização das expectativas inflacionárias, resultado de pressões internas e das altas dos preços internacionais das commodities; a teratológica taxa de juro real, resultado dos antigos equívocos no financiamento da dívida interna; a supervalorização do real, consequência da própria desvalorização do dólar (que estimula, junto com a baixa dos juros real nos EUA que a sustenta, a especulação nos mercados de commodities) e do imenso diferencial entre a taxa de juro real interna e externa etc.

Isso sem falar no longo prazo (infraestrutura, previdência, gestão, acabar com a "praga" da indexação legal etc). O ponto importante, e para o qual a presidente tem chamado a atenção, é que a melhor contribuição que o governo pode dar para ajudar a resolver essas questões é uma redução imediata das despesas de custeio e melhorar a qualidade da gestão pública. São preliminares para o enfrentamento dos problemas cruciais de longo prazo.

O programa proposto em nome do governo pelos ilustres ministros Guido Mantega e Miriam Belchior procura aquele objetivo. Todos já o conhecem. Trata-se de um bom começo para o ajuste fiscal. A receita foi corrigida adequadamente e compromete-se com um corte de R$ 50 bilhões no irresponsável Orçamento votado no Congresso. Se cumprido, teremos uma redução não desprezível do aumento das despesas primárias com relação ao PIB, o que dará mais apoio à política monetária.

Não se falou, mas a estimativa da receita parece indicar que se espera um aumento da relação receita /PIB como resultado, talvez, de um maior esforço arrecadador combinado com a natural inclusão de setores da economia informal. Vai doer executá-lo, mas ele é necessário e devemos apoiá-lo.

Certamente, vai estabelecer-se uma saudável controvérsia com os "falcões" do sistema financeiro, sobre a sua "credibilidade" e sobre a magnitude de seus efeitos no dimensionamento da taxa de juros Selic, como está acontecendo, aliás, com relação à "potência" das recentes medidas macroprudenciais.

O fato auspicioso é que a qualidade da discussão dá claros sinais de que vai melhorar. Já temos imaginosas tentativas de "medir" os efeitos "substitutivos" à necessidade de manobra da taxa juros.

Não devemos, nos impressionar com cálculos que exigem cortes mais dramáticos ou que negam a existência do "efeito substituição" porque, até agora, as evidências empíricas são de incerteza absoluta. Não podemos, entretanto, ignorar que provavelmente a manobra da taxa de juros tem um efeito mais geral e eficaz sobre a "expectativa" da inflação. É uma questão de aprendizado: o mercado vai reaprender com a sofisticação da nova política monetária do Banco Central.

No final, uma coisa é certa. Na modesta economia política, quando conseguimos determinar, inequivocamente, a direção (apenas o valor do sinal, positivo ou negativo) entre a causa e o seu efeito, já sabemos muito. E não há a menor dúvida que a relação entre um maior esforço fiscal e a possibilidade de uma menor taxa de juros real é claramente positiva!

Comentário

Mas se fossem os tucanos, ah, num momento similar a este, como os petistas os acusariam de serem de direita, neoliberais e que tais, por realizarem este mesmíssimo corte de gastos.

¿No mesmo momento em que cortam os gastos, sobem os juros. Não deveria ser um ou outro?

Contrarrevolução: à sombra do vulcão egípcio – por Bruno Cava (Outras Palavras)

Por Pepe Escobar, do Asia Times | Tradução: Coletivo VilaVudu

A festa – e que festa! – acabou. Agora é tempo de ressaca – e que ressaca.

Apresento-lhes o novo chefão, ou o Faraó reconstruído em formato de Shiva: o Conselho Supremo das Forças Armadas. Se fosse no sudeste da Ásia, já estariam repetindo que “tudo igual, só que diferente”.

Em vez de estado policial, é tempo de comunicados (replay dos anos 1970). O presidente e o vice-presidente dissolveram o Parlamento (mas o primeiro-ministro Ahmed Shafiq indicado pelo Faraó insiste que o atual “Kangaroo cabinet” mantém-se onde está para fazer a tal “transição ordeira”). A Constituição foi suspensa. O exército tenta impor a noção de que comandará o Egito pelos próximos seis meses. Esperam-se violências vagamente sinistras, para conter greves e “caos e desordem”.

O que mais pode fazer um Democrata, Prêmio Nobel e presidente dos EUA, além de apoiar um golpe militar? (Mais replay dos anos 1960 e 1970). Recapitulando: a Casa Branca e o Departamento de Estado adorariam ver Hosni Mubarak pelas costas.

Mas a Arábia Saudita, Israel e a CIA-EUA precisavam desesperadamente que Hosni Mubarak ficasse onde estava. Ao mesmo tempo Mubarak – versão trash, cabelos pintados cor acaju, de Luis XVI – lutava pela própria sobrevivência. O vice-presidente Omar “Sheikh al-Tortura” Suleiman, apoiado por Washington e Bruxelas, lutava pela sobrevivência do regime (a tal “transição ordeira”), e Washington lutava pela sobrevivência de um dos pilares crucialmente importantes da “estabilidade” no Oriente médio. A rua, essa, lutava pela vida.

Fácil explicar por que a CIA não previu coisa alguma. A agência pode ser ótima nos negócios de entregar prisioneiros para serem torturados pelo Sheikh al-Tortura, mas, sobretudo, vive presa num apertado espartilho ideológico, desde os anos Ronald Reagan. A CIA simplesmente não fala com viva alma se não com os vassalos; vale para o Hamás e para a Fraternidade Muçulmana (com os quais os EUA-CIA não falam).

Portanto, a CIA-EUA não têm como obter formação de boa qualidade, viva, em campo, inteligência que se aproveite. Os subterrâneos ferviam, no Egito, no mínimo desde 2005. A embaixada dos EUA no Cairo sequer tinha agente de ligação com a Fraternidade Muçulmana. E o homem no qual investiram tudo, Suleiman, não existe, é não-entidade (visualizem Langley afogado num dilúvio de lágrimas).

No final, a rua egípcia resolveu o caso. Capangas miseravelmente pagos para armar confusão dos infernos receberam ordens de atirar contra cidadãos desarmados e fizeram o que puderam. Discretos sindicalistas trabalharam anos na organização. Juízes em passeata pelas ruas fizeram o que puderam. E grupos de juventude também fizeram o que puderam. Os jovens revolucionários do Movimento 25 de Janeiro rapidamente acordaram para a realidade.

Agora, já perceberam claramente que Washington optou pelo prejuízo menor e está dando luz verde ao conceito onanista de golpe militar contra ditadura militar. OK, vão-se os sonhos mais luminosos, mas pelo menos há um precedente que nos enche de esperanças: a revolução de 1974 em Portugal, levou, um ano depois, a uma democracia sólida de tendência socialista.

Meu comunicado é maior que o seu

Que negócio de comunicados é esse, em que o Conselho Supremo parece viciado? A rua sabe que não passam de empregados e vassalos de Mubarak, todos com mais de 70 anos, a começar pelo líder do golpe, ministro da Defesa marechal-de-campo Mohammed Hussein Tantawi, 75 anos – muito próximo de Robert Gates do Pentágono (detalhe crucial: Tantawi chegou ao comando supremo depois de estágio na chefia do exército privado de Mubarak, os Guardas Republicanos).

São todos acionistas, com o dinheiro que os EUA fornecem (os bilhões de dólares da “ajuda” que chegam ao Egito anualmente) de uma vasta rede de negócios, cujos proprietários são a dinastia militar que controla setores inteiros da economia egípcia. Não há como trazer à luz algum Egito novo, sem derrubar todo esse sistema. Conclusão: a rua ainda não venceu o exército.

Esperam-se grandes fogos de artifício pela frente. Por hora, os adversários potenciais estudam-se. Sai a “transição ordeira” e entra – nas palavras do general Mohsen el-Fangari – “uma pacífica transição de poder”, para permitir que “um governo civil governe e construa um Estado democrático livre”. Tudo soa como Purple Haze por Jimi Hendrix [ouve-se em http://www.youtube.com/watch?v=z0dmPKYJiB8&feature=related] . Esqueçam sobre o exército passar o poder sem luta a governo civil de transição.

Na batalha de comunicados, pelo menos o comando do Movimento 25 de Janeiro sabe para que lado virar a cabeça. Entre as principais exigências – uma espécie de mapa do caminho dos desejos políticos da rua – está o fim imediato do estado de emergência; libertação imediata de todos os prisioneiros políticos; criação de um conselho interino coletivo de governo; formação de um governo de transição que inclua todas as tendências nacionalistas independentes para organização e supervisão de eleições livres e limpas; formação de um grupo de trabalho para redigir proposta de nova constituição democrática, a ser legitimada por referendum; fim de todas as restrições à constituição de partidos políticos; liberdade de imprensa; liberdade para formar sindicatos e organizações não governamentais, sem terem de ser aprovados pelo governo; e abolição de todas as cortes militares.

Quem acredita que os generais do Conselho Supremo vão entregar tudo isso ao povo, deve viver no cume do Tibete.

Bomb me to democracy, babe

Essa nunca foi revolução conduzida só pelos jovens, e agora já é movimento conduzido pelos movimentos da classe trabalhadora. Na próxima fase, a classe trabalhadora – e os camponeses – serão mais cruciais a cada momento. Como o blogueiro Hossam El-Hamalawy escreveu: “Agora, as fábricas têm de ocupar a praça Tahrir”. O fim do regime aconteceu quando as greves começaram a alastrar-se feito fogo em mato seco. Há cada vez mais clara conceituação do que seja democracia direta, de baixo para cima, que pode levar a um estado de revolução permanente. O ‘ocidente’ treme em seus Ferragamos.

Ao mesmo tempo, a liderança do Movimento 25 de Janeiro sabe que Washington, Telavive e Riad – mais as classes comprador do mubarakismo – farão absolutamente qualquer coisa para impedir o advento da democracia egípcia. Valerá tudo – de um Walhalla de subornos até a invisível manipulação das leis e do processo eleitoral. Contem todos com pelo menos um general-candidato à presidência; com certeza não será o hoje super escondido homem da CIA, o “Sheikh al-Tortura” Suleiman, mas provavelmente será o comandante do Estado-maior do Exército Sami Anan, 63, que também passou muito tempo nos EUA e é mais íntimo de muitos no Pentágono, que Tantawi.

Em pouco tempo, todos estarão cortejando a Fraternidade Muçulmana, como se o fim do mundo estivesse próximo; a Turquia (para ampliar seu papel como um farol de moderação no Oriente Médio); o Irã (embora xiitas, para lembrar a Fraternidade Muçulmana da luta pela Palestina); os EUA (para manterem viva a ilusão de que conseguirão controlar um ‘braço’ jihadista que a Fraternidade Muçulmana nem tem); e a Arábia Saudita (com montanhas de dinheiro, para neutralizar as maquinações dos EUA).

O New York Times comenta astutamente que “a Casa Branca e o Departamento de Estado já discutem a criação de novos fundos para estimular o surgimento de partidos políticos seculares” – já na luta para atrair todos os inteligentes e inteligentíssimos, para o curral da agenda dos EUA.

À parte o fato de que a revolução egípcia – que ainda engatinha – é o mais enormemente importante movimento estratégico que acontece no Oriente Médio nos últimos 30 anos (desde que Israel invadiu o Líbano em 1982), merece destaque a vasta falácia, tão vasta quanto abjeta, que envolve tudo: da islamofobia e do reducionismo da teoria do “choque de civilizações” à quimera que os neoconservadores chamam de “Grande Oriente Médio”.

A rua egípcia abriu uma ampla estrada rumo à democracia, em apenas duas semanas e meia. Comparem-se esse saber-fazer e os processos de democratização do Afeganistão (há nove anos) e do Iraque (sete anos), comandados pelo Pentágono.

Nessa fase, não há como saber se o mubarakismo sobreviverá só com maquiagem leve. Nem se o mubarakismo conseguirá manipular as próximas eleições, deixando o exército à sombra. Nem se alguma revolução social e política real reorganizará mesmo, radicalmente, a estrutura da riqueza e do poder no Egito.

Muito além do inevitável confronto no Egito, entre explosão demográfica e crise econômica, o que está literalmente enlouquecendo o ocidente é que as elites ocidentais sabem perfeitamente o que a maioria dos egípcios não quer: nenhum governo verdadeiramente democrático e soberano no Egito poderá continuar a agir como escravo da política exterior dos EUA.

Pode acontecer, só para começar, de um novo governo levantar o sítio de Gaza e reexaminar as condições de exportação de gás natural para Israel a preços subsidiados; pode acontecer de um novo governo reconsiderar os direitos de passagem livre da Marinha dos EUA pelo Canal de Suez; e pode, é claro, acontecer de um novo governo afinal rediscutir o tema tabu, sacrossanto, santo entre santos: os acordos de Camp David, de 1979, com Israel.

Daqui em diante, a liberdade do Egito só aumentará na exata proporção do medo que a revolução inspire a Washington, Telavive e Riad.

É justo dizer que, na atual fase, a rua egípcia guarda junto ao coração todos que a apoiaram – grupo complexo que vai da rede al-Jazeera ao Hezbollah no Líbano. E já sabe identificar perfeitamente todos os que a menosprezaram – da Casa de Saud e vários extremistas Wahhabistas, a Israel. Nenhum egípcio jamais esquecerá que o rei Abdullah da Arábia Saudita acusou a rua de “intrometer-se na segurança e estabilidade do Egito árabe e muçulmano”.

O slogan chave da revolução egípcia foi “O povo quer derrubar o regime”. E já se ouve a primeira adaptação dele, rimada, para espalhar-se pelo mundo: “O povo quer libertar os palestinos”. Não percam os próximos boletins meteorológicos e geológicos: a verdadeira irrupção do verdadeiro vulcão ainda nem começou.
–
Nota da tradução:
* Orig. Under the (egyptian) volcano. “Under the volcano” é título de romance, de 1947, de Malcolm Lowry, editado no Brasil como À sombra do vulcão (Porto Alegre, L&PM Ed., 2002).

Turnowski comprou briga com Beltrame. E perdeu (blog do Nassif)

Autor: Jorge Antonio de Barros - Blog Reporter de Crime

Do Blog do implacavel, no Brasilianas

Crise na polícia/ 2a edição

Turnowski comprou briga com Beltrame. E perdeu

Infelizmente não há mais lugar na mesma polícia para Allan Turnowski e José Mariano Beltrame. Um dos dois terá que pedir pra sair. Na verdade esses dois agentes da lei nunca pertenceram a mesma corporação. Como se sabe, Allan é delegado da Polícia Civil e Beltrame, delegado federal. Eles foram se encontrar na Secretaria de Segurança Pública por obra de uma indicação de pessoas muito próximas do governador Sérgio Cabral. Turnowski não foi escolhido por Beltrame. Desde que teve início a fritura por Beltrame, em setembro do ano passado, Turnowski se ocupou de fortalecer os vínculos com o governador.

Os problemas entre Beltrame e Turnowski começaram em meados do ano passado, quando o secretário descobriu que levava bola nas costas por parte de policiais ligados ao chefe da Polícia Civil. Sem titubear, Turnowski exonerou seu então braço direito, delegado Carlos Oliveira, que retornou à Secretaria municipal da Ordem Pública. A justificativa para a exoneração foi que Oliveira não havia atingido as metas exigidas pela Secretaria de Segurança. Turnowski tentou mostrar alguma lealdade a Beltrame.

Como a Operação Guilhotina, da Polícia Federal, não obteve provas contundentes contra Turnowski ele foi mantido no cargo, a despeito do constrangimento de ter sido chamado para prestar esclarecimentos sobre o que faziam de errado os policiais que eram administrativamente ligados a ele. Em qualquer país sério Turnowski cairia porque não se pode admitir que uma autoridade na polícia desconheça ilegalidades praticadas por seus subordinados. Por um dois até se entende. Mas por quatro quadrilhas que vendiam proteção para traficantes, milicianos e contraventores, é muita gente pra guardar segredo de alguma coisa. Qualquer pessoa com QI médio é capaz de perceber ou ao menos suspeitar de algo de errado que acontece ao seu redor.

A inteligência de Turnowski é com certeza acima da média. Ao notar que aumentava o calor da fritura (Beltrame disse no sábado que ninguém, nem o chefe da Polícia, tem carta branca para agir), Turnowski partiu para o ataque. Seu alvo foi justamente o delegado Claudio Ferraz, que colaborou com a Operação Guilhotina, e contava com total apoio de Beltrame. Tanto assim que o secretário tratou de convidá-lo para o novo cargo de subsecretário da Contra Inteligência - ligado à Subsecretaria de Inteligência - e levar a Draco (Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas Organizadas) para o guarda-chuva da Secretaria de Segurança. Com a medida, Beltrame pretendia dar carta branca a Ferraz para combater a banda podre na Polícia Civil. Coragem não falta a Ferraz, que foi o principal responsável por mais de 500 prisões de milicianos, policiais e ex-policiais civis e militares, que não eram incomodados desde o governo que antecedeu o de Cabral.

Convicto de que estava prestes a cair, Turnowski atacou com uma denúncia anônima para manchar seus oponentes, que alega ter recebido em casa na noite de domingo. A verdade é que essas supostas denúncias de extorsão já estavam rolando nos bastidores, mas havia fortes suspeitas de que os documentos seriam apócrifos. Não existe santo na polícia, mas o delegado Claudio Ferraz não daria tanto mole depois de botar em cana mais de cinco centenas de milicianos sedentos de vingança. Com a habilidade de um enxadrista, Turnowski deu um xeque ao usar inclusive o mesmo discurso de Beltrame: o combate à corrupção na polícia. Com certeza um golpe de mestre. Se deixasse o cargo, Turnowski cairia arrastando a imagem de outros com ele, especialmente de um que conta com o apoio de Beltrame.

O único lance mal dado por Turnowski foi quando afirmou, numa entrevista na TV, que se Ferraz fosse seu subordinado não pensaria duas vezes antes de exonerá-lo, apesar de o inquérito na Corregedoria ter sido aberto ontem e com base numa denúncia anônima - algo que os policiais detestam admitir usar, para investigar seus pares. A afirmação de Turnowski, de que exoneraria o colega, a meu ver insinua que o secretário de Segurança estaria prevaricando se não o fizesse. Com a firmeza com que apresentou as supostas denúncias envolvendo Ferraz, Turnowski tentou dar um golpe na opinião pública. Com tanto escândalo vindo à tona, muita gente não consegue mais distinguir mocinhos de bandidos. Com tanto criminoso para ser preso, é triste ver os policiais não se entenderem na cúpula. Depois da vitória celebrada na conquista do Alemão, é lamentável o nível de disputa pelo poder dentro da própria polícia.

O que Turnowski pode ter esquecido é que Beltrame, com a credibilidade conquistada pela redução dos índices de criminalidade e o relativo sucesso do projeto de pacificação de favelas, se tornou o grande avalista da política de segurança do governo Cabral, uma das pontes que o levou à reeleição. Beltrame goza de grande prestígio nas mais diversas camadas sociais do Rio e do país e essa popularidade lhe daria vantagem até mesmo numa eventual corrida política. Entre Turnowski e Beltrame, o governador Sérgio Cabral não tem dúvida de quem pode abrir espaço para suas ambições políticas. A dificuldade de Cabral será obter uma saída honrosa para Turnowski, sem deixar insatisfeitos os grupos que apoiam o chefe da Polícia e órfãos os policiais civis que têm nele um dos maiores líderes que já passaram pelo cargo.

Post Scriptum: Após reunião com Beltrame na Secretaria de Segurança, Allan Turnowski acabou de pedir demissão há pouco. Apesar da briga que comprou, ele saiu sendo elogiado por Beltrame pelos serviços prestados à polícia. Turnowski pode ter conseguido queimar Claudio Ferraz, que não vai assumir o cargo para o qual estava cotado há três meses. O que foi negociado a portas fechadas ainda é difícil saber, mas que houve algum tipo de acordo político, não tenho dúvida de que houve.

Investimento da União atinge 3,5% do PIB – por Sergio Lamucci (Valor econômico)

O investimento da União e das estatais federais subiu pelo sétimo ano seguido em 2010, atingindo perto de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo números da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. O volume investido é um pouco superior aos 3,26% do PIB de 2009 e mais que o dobro do 1,59% do PIB registrado em 2003. As inversões do governo federal tiveram um impulso mais significativo em 2006, ganhando fôlego nos anos seguintes com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de 2007.

Entre as estatais, o grande destaque é a Petrobras, que, sozinha, investiu o equivalente a 2,03% do PIB nos 12 meses até outubro. É quase 70% a mais que o 1,21% do PIB investido pela União nos 12 meses até novembro de 2010. Uma pequena parte dos investimentos da Petrobras é feita fora do país, em torno de 5% do total.

Nesse quadro, a União e as estatais federais responderam por 17,9% do total investido na ampliação da capacidade produtiva no ano passado, considerando que a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) ficou em 19% do PIB em 2010 e a Petrobras faz 95% das inversões dentro do país. Em 2009, a fatia federal no investimento total havia sido um pouco maior - 18,7% de uma formação bruta de capital fixo de 16,9% do PIB.

Isso ocorreu porque, com a crise global, as inversões públicas se ampliaram no momento em que o setor privado se retraiu. Os números de 2009 e 2010 mostram que houve mudança significativa da participação da União e das estatais no investimento total em relação aos anos anteriores. Em 2003, ano de forte ajuste fiscal, a fatia foi de 10%. Mesmo em 2008, quando o investimento público já estava em recuperação, não chegou a 13,5%.

As inversões do governo federal ganham força a partir da segunda metade da década, depois de alguma recuperação esboçada em 2004 e 2005. O professor Francisco Luiz Lopreato, da Unicamp, diz que houve uma mudança de orientação na política econômica a partir de 2006, abrindo espaço para uma elevação mais consistente do investimento público.

Entre outras medidas, ele lembra que o governo lançou o PAC e fortaleceu as estatais e os bancos públicos, como o BNDES, além de ter reduzido o superávit primário (a economia para pagar os juros da dívida) a partir de 2009, para combater os efeitos da crise global. Com isso, os investimentos federais atingiram um nível que já faz diferença para a atividade econômica, acredita Lopreato. "A visão se tornou mais desenvolvimentista a partir de 2006, com a saída de Antonio Palocci e a entrada de Guido Mantega na Fazenda."

Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, houve uma percepção de que os investimentos precisavam se intensificar "desde 2007, com o PAC." O problema, na visão de Vale, é que o "programa ainda não funciona efetivamente, com muita concentração em projetos da Petrobras e da Eletrobras ".

Ele reconhece a "tentativa de aceleração dos investimentos" a partir da crise global, mas observa que, mesmo com a alta recente, o volume de investimento público no Brasil é pequeno em relação ao dos outros emergentes, "onde, em geral, fica acima de 7% do PIB". Se forem incluídas as inversões de Estados e municípios, o volume investido pelo setor público brasileiro em 2010 ficou em 5,1% do PIB, segundo números do Ministério da Fazenda.

Vale também vê com preocupação o fato de o volume de investimentos ser muito concentrado na Petrobras, que responde por quase 60% da soma de gasto da União e das estatais federais em 2010.

A análise das inversões da Petrobras ao longo da década mostra um salto impressionante a partir de 2002, quando a empresa passou a investir mais que a União. Em 2009, o volume investido pela companhia, equivalente a 1,97% do PIB, foi quase duas vezes superior ao 1,01% do investimento do governo federal. Para os próximos anos, a expectativa é que a empresa continue nessa trajetória, por conta da exploração do petróleo na camada pré-sal.

O economista Cláudio Fritschak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, diz que houve um esforço nos últimos anos para aumentar o investimento público, mas também considera muito baixo o volume destinado à infraestrutura. Ele estima que, entre 2008 e 2010, o país investiu no setor, somando recursos públicos e privados, uma média anual de 2,42% do PIB, abaixo dos 3% do PIB que seriam necessários para evitar a degradação do estoque de capital já existente.

Para Frishtak, enfrentar a questão fiscal é decisivo para elevar os recursos para a infraestrutura, por dois motivos. O primeiro é controlar o ritmo de alta dos gastos correntes (pessoal, aposentadorias, custeio da máquina) para abrir espaço para o investimento público crescer mais. O outro é permitir uma redução dos juros que facilite a criação de um mercado de títulos privados de longo prazo, importante para desenvolver alternativas para financiar o investimento por períodos dilatados.

Um dos principais desafios do governo neste ano será manter em alta a trajetória do investimento num quadro de ajuste fiscal. Se quiser buscar a todo custo a meta de superávit primário de 3,1% do PIB, será necessário sacrificar investimentos, dizem especialistas em contas públicas como Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para Vale, como os investimentos são prioridade para a presidente Dilma Rousseff, não deverá haver corte das inversões, que tenderiam a continuar a crescer acima da variação do PIB. Uma das consequências é que a meta fiscal não deverá ser cumprida, acredita ele.

Comentário


É evidente que os investimentos são necessários ao desenvolvimento do país, porém, é um equívoco grave elevá-los à condição de panaceia econômica.
Gasto corrente é gasto com saúde, com segurança, com reforma agrária, com políticas sociais, etc.
As enchentes de São Paulo que ocorrem atualmente, por exemplo, são oriundas do fato de que não houve “gasto corrente” na limpeza do rio Tietê.
Agora, arcam com as consequências da irresponsabilidade do seu mandatário que ainda pleiteava ser presidente da república.
Do que nos livramos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cartão-postal de mentira - por Leandro Fortes (CartaCapital)

Construída em meio a denúncias no governo Roriz, a ponte JK vira pesadelo.

Inaugurada em 15 de dezembro de 2002, a Ponte Juscelino Kubitschek tornou-se um marco da arquitetura e novíssimo cartão-postal da capital federal, mas também o legado final da inesquecível dupla de ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda, criador e criatura, o primeiro, derrotado pelas urnas, o segundo, afastado pela lei. A construção da “terceira ponte”, como a JK era conhecida antes mesmo de sair do papel, fez a última ligação fundamental entre o núcleo do Plano Piloto (a zona central e as asas Sul e Norte) e o Lago Sul, área mais nobre da cidade. Serviu, também, para atender ao crescimento desmedido de condomínios de classe média na região e, de quebra, engordar o caixa de empreiteiros amigos. Levada a cabo por um consórcio de construtoras locais, a obra deveria ter custado cerca de 40 milhões de reais, mas acabou por 186 milhões de reais. Agora, corre o risco de cair.

Em 20 de janeiro, pouco mais de oito anos depois de inaugurada, a Ponte JK foi interditada por razões de segurança. Na manhã daquele dia, enquanto verificava a existência de vítimas em um acidente de carro no Lago Sul, um grupo de bombeiros foi procurado por um cidadão preocupado. Ciclista amador, ele afirmara ter sentido fortes oscilações na estrutura da ponte ao atravessá-la, 20 minutos antes. Os bombeiros foram verificar e, ao perceberem a ponte balançar no meio do trajeto, decidiram chamar a Defesa Civil e a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), estatal distrital responsável pela manutenção da obra. Pouco depois do meio-dia, a ponte foi interditada por agentes da Polícia Militar e do Departamento de Trânsito (Detran). Com as pistas parcialmente fechadas, desde então, a travessia de 1,2 quilômetro feita, diariamente, por 100 mil veículos sobre a Ponte JK virou um inferno particular para parte da população brasiliense.
Engenheiros da Novacap e da Universidade de Brasília (UnB), além de técnicos da Defesa Civil, detectaram um desnível entre 3 e 4 centímetros em um trecho do piso da ponte, uma dilatação mínima na obra, mas capaz de deixar as autoridades em alerta. De lá para cá, foram precisos quatro relatórios para se chegar a um diagnóstico razoável, segundo informação da Novacap. Ao que tudo indica, nos últimos oito anos, a ponte sofreu avarias em um dos trechos da via, conhecido como “tabuleiro”, e, por isso, os quatro aparelhos que o sustentam, com função de pilares, serão trocados. O problema, de acordo com a Novacap, deve ter sido provocado por freadas bruscas de veículos pesados.

Ainda pairam outras dúvidas, contudo, em relação ao estado físico da obra. Três meses antes da interdição, Dickran Berberian, especialista em patologia de estruturas e professor de engenharia civil da UnB, avisou a Novacap sobre a situação aparentemente precária de alguns cabos de aço que, esticados por macacos hidráulicos, ajudam a sustentar a ponte. Em alguns pontos, garante Berberian, eles cederam 10 centímetros. Ele foi o primeiro especialista a levantar a possibilidade de que o mau estado da JK é resultado da falta de manutenção, a ser feita de três em três anos. Em seguida, foi a vez da Via Engenharia fazer coro à tese e culpar a Novacap pela negligência. A direção da estatal nega ter havido problemas do gênero.

Assim, tão complicado quanto descobrir a exata deficiência da Ponte JK é apontar os verdadeiros responsáveis pelo estado da obra. Pistas há, a começar pela natureza do consórcio montado para a construção, liderado pela Via Engenharia, do empresário Fernando Queiroz. Juntamente com outro empreiteiro local, José Celso Gontijo, dono da JC Gontijo, Queiroz fazia parte do círculo íntimo dos ex-governadores Roriz e Arruda. Foi com Roriz que a Via Engenharia conseguiu o contrato da Ponte JK e, posteriormente, os aditivos que elevaram o preço da obra em cinco vezes.

Quando de sua inauguração, em 2002, as cifras envolvidas no empreendimento chamaram a atenção do Ministério Público local. Roriz foi acusado de desviar recursos da área de saúde para as obras da ponte e de superfaturar os preços dos materiais. Técnicos do Tribunal de Contas do DF detectaram preços até 500% mais caros que o valor de mercado. Mesmo assim, a conta ficou para o contribuinte e, claro, ninguém foi parar na cadeia. Pelo menos por enquanto.

Investigada pela Polícia Federal a partir da Operação Caixa de Pandora, deflagrada em novembro de 2009, a Via Engenharia também é acusada de cobrar propinas para concluir outra obra sob sua responsabilidade, o novo prédio da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Iniciada em 2000, a construção ficou paralisada entre 2005 e 2008, quando foi retomada, graças a um contrato de 72,5 milhões de reais assinado pela empreiteira e o ex-governador Arruda. Durante uma batida na casa de Fábio Simão, ex-chefe de gabinete de Arruda, a PF encontrou uma planilha de pagamentos do Shopping Popular e da Câmara Distrital, duas obras tocadas pela Via Engenharia orçadas em quase 100 milhões de reais. No documento, havia previsão de pagamento de subornos de 5% e 2,5% sobre os recursos liberados pelo ex-governador.

José Celso Gontijo aparece em um dos vídeos do ex-secretário de Relações Institucionais de Arruda, o delegado Durval Barbosa, delator do esquema do chamado “mensalão do DEM” no DF. Na fita, o empreiteiro entrega dois pacotes de dinheiro para Barbosa. “Eu tentei vir cá algumas vezes, mas você estava cheio de problemas, né, Durval?”, desculpa-se o empreiteiro, sem saber da gravação. De acordo com Barbosa, o dinheiro arrecadado com o empresário era distribuí-do aos principais integrantes do esquema de Arruda. A saber: o próprio governador, o vice-governador Paulo Octávio, secretários de governo, assessores e deputados distritais da base aliada.

Também é confusa, para dizer o mínimo, a relação do governo local, do PT, com os responsáveis diretos pelo projeto, conclusão e finalização da Ponte JK. O secretário de Obras do governo Roriz, à época da construção, era Tadeu Filippelli, do PMDB, atual vice-governador do DF, eleito na chapa do petista Agnelo Queiroz. Filippelli, homem de confiança absoluta de Roriz, mudou de lado às vésperas das eleições do ano passado. Além disso, durante o governo Arruda, o responsável direto pela manutenção da ponte era o então presidente da Novacap, Luiz Carlos Pitman – atual secretário de Obras de Queiroz. Portanto, com aliados assim, o risco de desabamento não é, nem de longe, uma exclusividade da Ponte JK.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

WikiLeaks: a ação política do rabino Sobel – por Stanley Burburinho (blog do Nassif)

"A comunidade judaica brasileira, também procurada pelos diplomatas americanos em busca de reforço aos seus argumentos, pintou um quadro ainda mais radical: o rabino Henry Sobel acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, literalmente, de ser antissemita, assim como a liderança sênior do Itamaraty."

"Os esforços do governo brasileiro até hoje refletiram um enfoque altamente favorável aos árabes. Lula não é amigo de Israel ou dos judeus", insistiu ele, acrescentando que por isso mesmo o Brasil não era um candidato essencial para um assento permanente na ONU. Segundo a embaixada americana, Abraham Goldstein, presidente da B'nai B'rith do Brasil, a maior entidade judaica de direitos humanos, endossou as opiniões de Sobel, e disse que vinha notando um crescimento do antissemitismo no Brasil."

"Outro estabelece de forma ainda mais bruta: "Temos de aproveitar a oportunidade de tentar desviar o Brasil de seu costumeiro papel de franco atirador secundário, e tentar recrutá-lo para um papel mais útil ou pelo menos verdadeiramente neutro."

Ação brasileira no Oriente Médio irritou os EUA, revela WikiLeaks – por José Meirelles Passos (O Globo)

RIO - A iniciativa do Brasil em se inserir, de alguma forma, no processo de paz no Oriente Médio tornou-se uma dificuldade a mais para o governo americano: os Estados Unidos têm encarado essa ingerência brasileira praticamente como uma intromissão indevida; e se queixam, nos bastidores, de que ela mais atrapalha do que ajuda naquela tarefa.

"As posições inúteis do Brasil e suas declarações às vezes inexatas com relação ao Oriente Médio, tornam as águas mais turvas para a política e os interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio", conclui um dos telegramas escritos pelo então embaixador americano em Brasília, Clifford Sobel, agora revelado ao GLOBO pelo WikiLeaks.

Um pequeno pacote contendo 26 mensagens confidenciais enviadas a Washington por aquela representação, entre abril de 2004 e dezembro de 2009, deixa transparecer claramente um motivo da insatisfação americana com essa indesejada presença do Brasil nas negociações: o fato de o governo brasileiro agir por conta própria, sem antes consultar os EUA.

"Funcionários do Itamaraty recusaram os pedidos dos EUA de que o Brasil nos consulte antes de fazer pronunciamentos que possam complicar as delicadas reuniões de paz. O Itamaraty declarou que o Brasil não precisa pedir permissão aos Estados Unidos para realizar iniciativas de política externa, e que os Estados Unidos devem esperar por mais declarações brasileiras sobre assuntos do Oriente Médio", relata também Sobel.

A queixa principal é a de que o Brasil não aceita apenas os tradicionais negociadores, insistindo na presença de outros países à mesa de negociações, além de mais personagens da região - que os EUA não engolem - como os grupos Hamas e Hezbollah, além do Irã. Sem esse engajamento, em vez de isolamento, não haveria uma solução duradoura.

Depois que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, propôs tal coreografia durante uma viagem à região, os Estados Unidos argumentaram: "A viagem de Amorim criou confusão e enviou sinais embaralhados, e isso acentuou o perigo de que 'um grupo de apoio de retaguarda', como o Brasil quer estabelecer, poderia inadvertidamente se transformar num 'grupo de sabotagem de retaguarda'".
Em outro despacho, oito meses mais tarde, o diplomata insistiu: "As posições do Brasil sobre assuntos referentes à paz no Oriente Médio estão evoluindo, mas ainda carecem de profundidade, e isso leva a posições que ainda não são úteis para resolver o problema. Diplomatas árabes com quem temos conversado dizem que as posições do Brasil são ingênuas".

Para ministro egípcio, tema virou obsessão

Mahmoud Nayer, ministro da Embaixada do Egito em Brasília, em 2009, disse a Sobel que a entrada do Brasil no circuito nada mais era do que uma forma do país ganhar corpo em sua ambição de obter um assento no Conselho de Segurança da ONU. "Isso é uma obsessão e, francamente, eu já nem sei mais como falar com eles sobre isso, porque esse assunto surge em todas as nossas conversas", afirmou Nayer.

A comunidade judaica brasileira, também procurada pelos diplomatas americanos em busca de reforço aos seus argumentos, pintou um quadro ainda mais radical: o rabino Henry Sobel acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, literalmente, de ser antissemita, assim como a liderança sênior do Itamaraty.
"Os esforços do governo brasileiro até hoje refletiram um enfoque altamente favorável aos árabes. Lula não é amigo de Israel ou dos judeus", insistiu ele, acrescentando que por isso mesmo o Brasil não era um candidato essencial para um assento permanente na ONU. Segundo a embaixada americana, Abraham Goldstein, presidente da B'nai B'rith do Brasil, a maior entidade judaica de direitos humanos, endossou as opiniões de Sobel, e disse que vinha notando um crescimento do antissemitismo no Brasil.

Em vários dos telegramas, a embaixada americana solicita a Washington o envio à Brasília de especialistas em Oriente Médio, para convencer tanto o governo quanto os parlamentares e a imprensa de que a posição dos EUA é a mais viável. "Temos que engajar o Brasil, em níveis altos, se quisermos ter a esperança de que o país adote uma posição mais equilibrada, em vez de simplesmente acrescentar a sua voz ao já totalmente repleto coro anti-israelense", diz um dos documentos.

Outro estabelece de forma ainda mais bruta: "Temos de aproveitar a oportunidade de tentar desviar o Brasil de seu costumeiro papel de franco atirador secundário, e tentar recrutá-lo para um papel mais útil ou pelo menos verdadeiramente neutro"

http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/02/06/acao-brasileira-no-oriente-medio-irritou-os-eua-revela-wikileaks-923743153.asp

Comentário:

¿E como o ladrão de gravatas será tratado de agora em diante pelo governo brasileiro?
¿O governo vai fingir que nada aconteceu?

Este sujeito finge existir no Brasil o anti-semitismo – sabendo que não é verdade – para alicerçar perante a opinião pública mundial que somente os EUA estão do lado de Israel, que este país é um coitado, abandonado, e por isso tem de tomar todas as ações possíveis para se defender.

Já a postura dos EUA... é apenas o de sempre: uma lástima.

PSDB, a impossível reconstrução – por Luis Nassif (blog do Nassif)

É curioso o Estadão. Numa matéria atribui a um genérico "brigas" o fator que atrapalha a oposição para traçar uma estratégia para 2014. "Brigas", no caso, é a tentativa de renovação do partido, de livra-lo da herança amarga de José Serra, não os dossiês de Serra contra adversários – como parece ter sido as matérias desengavetadas sobre o cunhado de Geraldo Alckmin.

Na página de opinião, FHC mostra como (não) se fazer oposição.

É um amontoado de críticas pontuais, bordões denotando uma ampla incapacidade de enxergar além do dia seguinte. O pensamento de FHC é binário. Mais ou menos o seguinte:

O papel da oposição é bater sempre.Aqui vai um cardápio de temas para quem quiser bater. E ponto.

Não há ideias estruturantes, conceitos mobilizadores, visões sistêmica do país para os próximos dez ou quinze anos para, a partir daí, definir uma estratégia de (re)construção partidária.

O drama do PSDB – que compromete seu futuro político – é enorme. Tinha uma imagem pública que se esboroou no período FHC-Serra. Essa imagem garantia adesão de segmentos amplos da classe média, um pacto com a mídia e permitia ao partido ser um imã, atraindo boas ideias dos segmentos modernizadores do país. Nem precisava se esforçar.

Grosso modo, no período pré-Internet três grupos participavam da formação da imagem de partidos, personagens, produtos.

No primeiro nível, os formadores de opinião, conjunto restrito de economistas, acadêmicos, jornalistas, empresários, lideranças civis, especialistas setoriais que identificam virtudes ou defeitos e formavam o primeiro e mais consistente julgamento.

No segundo nível, os propagadores de opiniões, influenciados pelo primeiro grupo. Integram esse conjunto colunistas da velha mídia (alguns poucos são do primeiro nível), editores, âncoras de rádio e TV e, num plano mais amplo, a estrutura de opinião de rádios e TVs por todo o país, operando como caixa de ressonância..

No terceiro nível, o eleitor propriamente dito, a maior parte dos quais se escuda em ideias vagas sobre o tema analisado, impressões apenas, formadas a partir de ecos do debate no segundo nível.

Apesar do circuito se mover muito mais por impressões e formação superficial de imagem, se não tiver bem alicerçado no primeiro nível, dança.

A formação de imagem do PSDB

Graças a algumas figuras referenciais e a um conjunto de circunstâncias, no final dos anos 80 o PSDB tinha conseguido criar uma imagem que se consolidou nos anos seguintes.

Essa imagem se deveu a Franco Montoro e Mário Covas, acertando as contas fiscais do Estado; e a Sérgio Motta montando o novo modelo das telecomunicações e a um conjunto de jornalistas que entendeu o papel do partido nos novos tempos. Depois, incorporou os economistas do Cruzado, com toda a dose de fantasia que estimulava a opinião pública.

De um lado, conseguia se desvencilhar da imagem fisiológica do PMDB – consolidada no ato de partilha de cargos no governo Sarney. De outro, sugeria uma postura de centro-esquerda não-dogmática, de partido comprometido ao mesmo tempo com a eficiência e as políticas sociais, distanciando-se do estilo mais radical e aguerrido do PT.

Era o anti-malufismo com quem uma certa esquerda sempre sonhou.

Nos anos 90, havia duas linhas hegemônicas no partido: a de FHC (que torna-se hegemônica apenas com o Real) e a de Mário Covas.

Em 22 de outubro de 1998 tracei as diferenças básicas entre o PSDB de FHC e o de Covas:
«Mais do que um anti-Maluf, Covas é o avesso de FHC.

FHC é homem de grandes voos intelectuais, Covas, um cartesiano, até certo ponto rústico. FHC se inebria com as formulações teóricas, Covas é o cultivador dos valores básicos da gerência. FHC persegue os grandes momentos, Covas se compraz com as cobranças diárias. FHC é o arquiteto, Covas, o engenheiro. FHC é o condutor, Covas, o comandante.

O resultado final é que o Brasil é um quebrado, que FHC explica com justificativas sofisticadíssimas. E São Paulo, um Estado saneado, sem precisar explicar nada.

A fórmula de Covas é tão velha e eficiente quanto a descoberta da gerência. Definiu os valores básicos de um bom gestor: ênfase na gerência e no controle das contas públicas. E coragem de dizer não.»

Infelizmente a morte precoce de Covas acabou desequilibrando as discussões internas e deixando como único referencial a superficialidade de FHC.

O governo FHC teve dois momentos que ajudaram a plantar o ovo da serpente no âmago do PSDB.

Na primeira parte (até a crise de 1998) um deslumbramento acomodado, que o fez desatento para o enorme potencial de transformações do país e ao variado contingente de homens públicos que seu governo atraiu, grupos de especialistas em diversas áreas dispostos a transformar o país.

Deixou passar um enorme contingente de possibilidades de consolidação de um novo modelo, em substituição ao discurso único da estabilização da economia.

O segundo momento foi o da crise do "apagão". Em vez de crescer na adversidade, FHC se encolheu, reduzindo a pó a imagem de que o PSDB seria garantia de boa gestão.

Com sua falta de gana, de vontade transformadora, só tiveram espaço no seu governo pessoas sem a menor vontade de mudar nada – a não ser a própria vida. Abriu mão dos homens da inovação, das tentativas de reforma administrativa, do próprio modelo das telecomunicações, após a morte de Sérgio Motta.

Depois dele, panorama de terra salgada. Não houve renovação política nem intelectual no partido. Instaurou-se uma gerontocracia dominada por FHC e José Serra – graças às suas ligações com o grupo da velha mídia formado no pacto de 2005.

Fecharam os espaços para qualquer espécie de arejamento. Envelheceram as ideias dos cientistas sociais, os intérpretes não conseguiram entender o novo país, as novas mídias. Criou-se uma nova linha de intelectuais de rinha de galo, sem e envergadura da geração anterior, envoltos em um superficialismo guerreiro de envergonhar primeiro anista de política.

A pá de cal foi o governo Serra em São Paulo. Como Ministro da Saúde, Serra preservou espaço dos sanitaristas e conseguiu passar a impressão de reencontro do partido com suas origens.

No governo do Estado, repetiu em tudo o padrão Maluf, na ênfase exclusiva na construção civil, na extraordinária leniência com a especulação imobiliária (enquanto prefeito), na falta de visão de futuro, na truculência, na incapacidade de gestão (nesse ponto conseguiu superar o próprio Maluf) e, na campanha, no endosso a teses medievais.

Agora, tenta-se uma reconstrução impossível.

A perda do bonde

Voltemos aos esforços atuais para construir uma nova imagem. A falta de rumo é ampla e fica nítida no programa gratuito do partido. A "aula" de FHC se limita a tentar reabilitar conceitos dos anos 90, o partido dos gestores, o partidos dos honestos, amplamente superados pelos fatos e pelos tempos.

Analisemos os pontos que poderiam ser âncoras no processo de (re)construção da imagem do partido:

Gestão moderna

Perdeu o bonde. Após o ajuste fiscal de Covas, havia tentativas de avançar sistemas de gestão em São Paulo, propósitos ousados mas que foram abortados pela morte precoce do governador. No principal reduto tucano, Geraldo Alckmin nunca mostrou propensão à gestão moderna.

A gestão Serra teria sido a grande oportunidade do PSDB mostrar um contraponto que fosse. Mas ainda será considerada uma das mais ineptas da história moderna de São Paulo. Creio que nem o governo Fleury foi tão medíocre e desmobilizador.

Além disso, a expansão da informação está liquidando a blindagem sobre a suposta gestão técnica em São Paulo. O aparelhamento da máquina estadual é amplo e irrestrito. Os esquemas de financiamento de campanha em nada diferem dos demais partidos e do modelo político brasileiro.

Resta a experiência de gestão em Minas. Além de ser, por si, insuficiente para definir um partido, não é mais marca tucana. Eduardo Campos faz o mesmo (ou até mais) em Pernambuco. O governo Dilma será um avanço em cima das bases plantadas pelo modelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de gestão. A bandeira da gestão está sendo transferida irreversivelmente para Dilma.

Grande técnico, a "Dilma" de Aécio, Anastasia representa muito mais o gestor apolítico do que um padrão tucano. Seus avanços estarão contabilizados na cota dos governantes gestores – independentemente da cor partidária -, assim como o do (supervalorizado) Sérgio Cabral, ou de Paulo Hartung.

Mesmo no ambiente dos municípios – onde é mais fácil implantar modelos de gestão – não há a menor criatividade do partido em definir um modo tucano de governar.

Novo padrão de desenvolvimento

Dois valores tendem a ser hegemônicos nos próximos anos: a questão da mobilidade nas grandes metrópoles e a questão ambiental. O chamado desenvolvimento saudável e sustentável tornou-se um desses fatores essenciais.

Qual a marca do PSDB nesses dois campos? Enquanto prefeito, Serra flexibilizou mais o plano diretor de São Paulo do que o próprio Paulo Maluf. Seu herdeiro Gilberto Kassab continua preso aos mesmos padrões de décadas atrás. Não há nenhuma marca tucana em nenhuma dessas frentes.

Visão social

A bandeira mais relevante da atualidade, que foi entregue de bandeja para Lula.

Nas discussões políticas atuais, uma das maiores bobagens é a história de quem começou o quê? O papel do Estadista não é o de criar projetos ou ideias do nada. Há um estoque de ideias e de potenciais para serem explorados. O papel do político é identificar esses ativos e colocá-los em prática, massificar, dar dimensão.

Esses conhecimentos frequentaram a casa de FHC, através de dona Ruth. Mas faltava o básico: sensibilidade social, identificação com o país e o povo e incapacidade de pensar grande. E, mais que isso, uma base social ao PSDB, quadros nos movimentos populares. Até a identificação com os movimentos de base da Igreja Católica foram para segundo plano no período FHC.

A impossível reconstrução

O que resta para reconstruir o PSDB?

Ouso dizer que será impossível essa reconstrução.

O primeiro ponto é a total carência de novas ideias. A única referência de ideias é FHC, que há muito deixou de tê-las. Não se chegou nem ao básico: uma interpretação das transformações atuais do país, do papel mobilizador das novas mídias etc.

Pior, não há nada no partido que atraia uma nova geração de acadêmicos criativos. A cara do partido é José Serra e aqueles arreganhos fundamentalistas, é o Álvaro Dias que todos conhecem e o Beto Richa, que ainda não se sabe a que veio, Geraldo Alckmin, que apenas tem imagem de bom moço.

Resta a imagem solitária de Aécio Neves, que carrega uma bandeira – da gestão -, a fama de bom articulador político, e só. No restante, ainda é um vazio de ideias e de conceitos.

É pouco pau para montar uma canoa.

A Aécio caberia o papel de aglutinar outras estrelas, aproximar-se de políticos progressistas, atrair os mercadistas.

É desafio considerável que esbarra, numa ponta, no peso da imagem de Serra, o ranço embolorado deixado no partido nas últimas eleições, a certeza de que enquanto tiver fôlego, FHC sempre será um obstáculo a mais, as resistências tanto de setores de centro-esquerda quanto dos mercadistas à herança de Serra.

Na outra ponta o desgaste de brigas intestinas, os tiros pelas costas, o uso da mídia para ataques – como as matérias sobre o cunhado de Alckmin, desengavetada, segundo suspeitas dos alckmistas, pelo pessoal do Serra.

O exercício da futurologia é complexo. Depende muito de intuição, de saber identificar fatores que poderão levar as decisões para um lado ou para o outro.

Por mais que me esforce, não consigo imaginar um PSDB coeso.

O quadro mais provável será o de um período de desgaste e, mais à frente, uma confluência de quadros partindo para a construção de uma nova alternativa de oposição. E conferindo justo descanso a FHC e Serra.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Reestreando a velharia

O PSDB, segundo seus próceres, necessitava de uma “reformulação”, de uma “refundação”, ou termos similares.
Para tanto, ¿ o que fizeram, de fato?
Reelegeram o atual presidente do partido, Sérgio Guerra.
Fazem propaganda política tendo como estrela... Fernando Henrique Cardoso, querendo que o próprio símbolo do atraso passe a ser sinônimo de futuro.
Querem uma reformulação justamente com quem mais puxa seu partido para baixo – sejamos sinceros, Serra não perdeu só pelos seus defeitos, mas também porque carregava o pesadíssimo fardo do abjeto governo FHC.
Bem, a presidente Dilma deve mesmo se focar na gestão em seu governo. Quanto a política, deixa que a oposição se enforca sozinha.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A decepção chamada Obama

Anos atrás, de quando os candidatos democratas ainda disputavam para ver quem seria o candidato a presidente, defendi a candidatura de John Edwards, pela sua luta contra o lobby, pela sua luta contra Washington ser dominada por interesses privados, dominada por corporações das esferas financeira-militar-midiática.
John Edwards ficou para trás e, Obama, por quem eu já nutria algum receio à época, não me empolgou – desconfiava que sua boa oratória seria desprovida de ações quando tivesse oportunidade. Com o passar do tempo, caí no conto do vigário – sua votação contra a guerra do Iraque me chamou muita atenção.
Vim a apoiá-lo, quando ele só disputava contra Hillary Clinton – pessoa pela qual passei a nutrir sincero desprezo.

Barack Obama conseguiu uma serie de proezas: nem fez as mudanças necessárias para impedir que seu país continuasse rumo ao abismo (ao contrário, deu bilhões e mais bilhões aos rentistas), e, com o destino inexorável depois de tanta irresponsabilidade governamental (com a incrível ajuda do complexo financeiro-midiático – o militar não compareceu a festa, desta vez), nem conseguiu que ele saísse do fosso – o império ainda rasteja, com sua incrível taxa de desemprego, que se aproximou dos dois dígitos e, apesar de ter diminuído um pouco, ainda é maior do que a brasileira.
Não conseguiu aumentar os impostos sobre os mais ricos – diminuídos na gestão Bush, não conteve os gastos militares, não mudou sua política externa em absolutamente nada – minto, talvez mudou na retórica, e só nela –, o que representa um desastre, pois é o que há de pior no mundo.

Continua tentando “espalhar a democracia” no Oriente médio. Ou seja, tentar derrubar os ditadores que lhe são hostis enquanto acalenta os ditadores que lhe apoiam. Ah, claro! Financiando grupos de oposição – uma sórdida intromissão – nos países “autoritários”, como o Irã.
Continuam bloqueando a democracia nos países onde ela poderia surgir, se grupos islâmicos tiverem chance de vencer a eleição.
Quando o povo do país insiste em não votar de acordo com os interesses estadunidenses, como na OLP, eles ignoram os eleitos – de maneira a neutralizá-los de qualquer ação.
Os EUA continuam misturando no mesmo balaio ditaduras do Oriente médio com as democracias representativas da Venezuela, Cuba e do Equador – onde também financiam grupos opositores.
Continua apoiando o atroz país chamado Israel.
E etc., etc., etc, seria demais escrever aqui tudo pelo que eles são responsáveis.

Com sua tibieza, sua retórica emplumada e arrogante, com seu falatório e pouca ação, muito diz-que-diz pra pouca mudança – vide o ridículo a que é exposto seu corpo diplomático pelo wikileaks, ao solicitar que seus diplomatas espionem presidentes, ministros e afins dos países onde estão – Obama decepciona qualquer um que tenha um mínimo de isenção intelectual.

Aí embaixo vão algumas belas fotos oriundas do site Huffingtonpost do povo egípcio se insurgindo contra uma ditadura mambembe que se esfacela a olhos vistos.
Enquanto isto... Obama pede que o atual ditador não seja “candidato a reeleição” no próximo pleito.
Deus meu, ¡quanta caridade do Obama!











E para finalizar:



E o pior de tudo é que este governo ridículo que Obama coordena – ridículo porque embebido no continuísmo – dá vazão aos instintos mais abjetos do Tea Party (o fascismo à moda estadunidense).

Ao fracassar como governante, não corrigindo - diferentemente de Lula - a herança maldita que recebeu, Obama ainda conseguiu ficar como responsável perante grande parte da opinião pública pelo desacerto que anda a economia – o que não é completamente justo, já que muita coisa ele herdou.

Porém, o fato é, que ele herdou e tentou consertá-la do mesmo jeito (em alguns cargos com as mesmas cabeças) dos que o antecederam, Clinton e Bush. Um erro drástico.
Fazendo uma aproximação, é como se o presidente Lula, que sempre bateu na herança maldita, tivesse mantido o Palocci por todo o governo - que representava a mesmíssima continuidade do governo FHC...
(como costumo dizer, Palocci é um Malan com barba)

Obama prometeu muita coisa - não cumpriu nada, ou, o que cumpriu, o fez pelas metades, como o novo sistema de saúde que se anuncia.

Não sei se John Edwards teria conseguido fazer tudo que pregava, mas acho que ao menos as coisas não seriam tão fáceis para o status quo vigente - ele lutaria com mais vigor.

Enfim, o governo Barack Obama é uma decepção completa. Aliás, “decepção” talvez não seja a palavra, pois já não esperava muita coisa. Talvez o certo a dizer, é que seu governo é uma lástima.


P.S.: Serve de lição aos que dedicaram a Obama o prêmio Nobel da paz. Deve se premiar as pessoas pelo que elas JÁ fizeram – não por aquilo que se espera que elas farão. Obama era uma esperança – que se frustrou. Agora, que o injusto prêmio já foi dado, não há como voltar atrás.

O confronto de índios na fronteira do Acre – por André (blog do Nassif)

Guerra entre índios? Sim, é o que pode acontecer em solo brasileiro e a Funai está monitorando o possível encontro de índios isolados que foram fotografados em 2008 com índios nômades peruanos que se aproximam da área dos isolados, buscando a caça e a pesca que ficaram raras em suas áreas originais devido à extração de madeira e plantio de coca.
Por nunca terem tido contato com outros índios ou a chamada sociedade civilizada, qualquer estranho a esse ambiente poderá gerar reações naturais de defesa de território. Os índios peruanos (que não saberei se mantêm ou não sua cultura relativamente inalterada, ainda mais se pensarmos que falamos de Peru, cuja relação entre o branco e o índio foi diferente da aqui ocorrida) poderão gerar choque no meio da selva, uma vez que o conceito de mundo para os isolados é muito mais restrito. Lembremos que os isolados também não se veem como índios, uma vez que tal conceito não existe em suas mentes. Portanto, os nômades do país vizinho correm o risco de serem vistos como estrangeiros tanto quanto seriam vistos um sueco e um togolês. Há a possibilidade de haver encontro amistoso (assim como houve em outras ocasiões com outras tribos), mas todo cuidado é pouco.
Vale lembrar que a atual postura da Funai para com isolados é evitar o contato, mas proteger a área em que vivem e observar de longe. A possível grande guerra indígena que ocorra se os nômades atingirem a área dos isolados será um daqueles momentos de teste da eficiência ou não dessa política. Se por um lado pode ajudar a mantê-los longe de vícios da civilização, seja captados diretamente dela ou de índios contatados, por outro poderá prejudicar sobremaneira a solução de conflitos que possam ocorrer com a tribo vinda de outro país.
Já foram registrados conflitos menores entre índios, o que fazem pensar sobre se vale a pena manter o isolamento das tribos hoje só conhecidas pelo céu. Ainda que a Funai tenha experiência acumulada, sempre fica a dúvida sobre como transplantar alguém diretamente da pré-história para a era da informação sem que haja um impacto que corresponda ao de uma bola de demolição atingindo um homem adulto. E, claro, como evitar outros tristes episódios como alcoolismo em massa, suicídios, prostituição e por aí vai.
Segue a notícia:

Da Folha.com
Funai diz que pode haver confronto com índios isolados – por Elida Oliveira (Folha)

A Funai (Fundação Nacional do Índio) está monitorando grupos indígenas que vivem isolados perto da fronteira do Acre com o Peru.
A migração de grupos do país vizinho para o Brasil pode causar um confronto entre índios "como não se via há mais de 500 anos", diz o indigenista da Funai Artur Figueiredo Meirelles, coordenador da frente de proteção etnoambiental de Envira (AC).
Na região de Envira, há pelo menos três etnias que nunca tiveram contato entre si ou com a sociedade.
Com a extração de madeira na Amazônia peruana e a exploração de coca, os índios nômades do Peru fogem em busca de caça e alimentos para coleta, diz o ex-coordenador da frente de proteção José Carlos dos Reis Meirelles.
De acordo com Figueiredo, é possível deduzir pela observação feita em sobrevoos que os nômades estão se aproximando dos isolados.
Caso se encontrem, a reação natural dos índios isolados é defender o território pelo combate, diz Figueiredo.
NOVAS IMAGENS

Foto: Gleilson Miranda

A ONG de proteção aos índios Survival Internacional divulgou nesta segunda-feira (31) fotos de um dos três grupos de índios isolados no Acre.
Nas imagens, feitas pela Funai em março de 2010, eles aparecem com o corpo coberto de urucum, empunhando arcos e flechas. Nos cestos é possível identificar mamão e mandioca.
O mesmo grupo já foi fotografado em 2008 e é monitorado há 23 anos, de acordo com José Carlos dos Reis Meirelles. As observações são feitas à distância (por terra) ou por sobrevoos a cada um ou dois anos.
Os índios das outras duas tribos nunca foram vistos -- eles fogem para o mato quando escutem o barulho das aeronaves, diz o indigenista.
Segundo estimativas de Meirelles, há pelo menos 600 índios vivendo nos três grupos isolados -- somente na comunidade fotografada são cerca de 300 índios. O número não é preciso porque é obtido com base no tamanho do território ocupado pelas tribos, no número de ocas e na área plantada.
A Funai estima que existam no Brasil 67 grupos de índios isolados nas diversas regiões do país.


Foto: Gleilson Miranda

Comentário
Reproduzo mais por causa das fotos, das quais gostei bastante.
Também é interessante saber que existem 67 grupos isolados - a última informação que eu havia obtido sobre o tema dava conta de que existiam cerca de 500 índios sem contato com a civilização.
Parece, portanto, que a informação que eu possuía era errada, que existem mais, o que é uma ótima notícia.

Hospício nativo

"Já não há indignação espontânea, que é a boa, a verdadeira indignação. Existe uma doença do espírito: o mal da indiferença dos cidadãos. Estamos todos moralmente doentes" - afirmou José Saramago em uma entrevista

Bem, o Banco Central divulgou hoje aquela que deveria ser a notícia mais bombástica se não estivéssemos numa terra de loucos chamada Brasil.

Nosso depauperado país teve um gasto com juros no ano de 2010 de R$ 195, 369 bilhões de reais – ou, 5,34% do PIB. É tanto dinheiro que, ao dizer este número, não conseguimos mensurar o que ele representa.
Para fazer uma conta básica: tal montante daria para construir dois milhões de “casas populares” ao custo de R$ 97.684 reais cada uma.
Ou seja, daria pra fazer construir uma boa casa pra mais de oito milhões de brasileiros em apenas um ano, por exemplo.

Como o governo “só” conseguiu pagar R$ 101,696 bilhões – para enxugar gelo –, ainda somamos à dívida mais 93,673 bilhões de reais – ou 2,53% do PIB, para ser paga Deus lá sabe quando.

Estes quase 200 bilhões de reais de juros, como sabemos, é dinheiro jogado fora, dinheiro para alimentar rentistas, dinheiro expatriado, dinheiro retirado do povo (ô palavra abandonada) para nutrir a sanha dos abastados.

Mas querem nos fazer crer que o problema do Brasil, claro, são os gastos públicos.
Não estes, com a dívida (¡Deus me livre, estes são sagrados!).
O problema é gastar com saúde, segurança, meio-ambiente, etc.

Querem nos fazer crer ainda, que gastar com infra-estrutura até pode.
Esperando que, claro, mais a frente algum demo-tucano assuma o governo e privatize aquilo que foi arduamente construído e pago.

Depois, estes que nos querem fazer crer, ainda vão reclamar que pagamos muitos impostos.

É evidente que pagamos e deste jeito só tendemos a pagar mais. Basta olhar pra onde o dinheiro esta indo, para reconhecer que este é um saco sem fundo. Por mais que se pague, por mais que se esforce, por mais que se prive o país, nada será suficiente para acalmar a voragem dos rentistas.

Deixou de valer a máxima que a dívida é externa ou interna.
Na verdade, a nossa dívida é eterna.

Durma-se com um barulho desses.