sábado, 13 de setembro de 2008

O enterro dos livros - por Zanuja

Uma lembrança
Morávamos em Gravatá a 80 km de Recife. O ano era 1964.
No dia 08 de janeiro faleceu meu pai e em 31 de março estourou a tal revolução, eu tinha então 10 anos.
Nós não tínhamos televisão e o que se passava fora de Gravatá eu não sabia.
Meus irmãos mais velhos estudavam em Recife, três faziam faculdade e um cursava o científico. Somos 06 irmãos, e eu e meu irmão caçula, então com 08 anos, continuamos a morar em Gravatá com mamãe.
Mamãe era educadora, uma mulher de fibra, trabalhava os dois expedientes, se dedicava de corpo e alma a educação. Não tínhamos luxo, tínhamos livros, e líamos muito, desde pequenos.
Percebi que mamãe andava diferente, preocupada, ansiosa, angustiada, e achei que era por causa da morte do meu pai. Afinal de contas criar 06 filhos, todos estudantes, sozinha, jovem e bonita numa cidade de interior onde as línguas são afiadíssimas, deve ter sido difícil para ela. Mas era por causa da Revolução. Em 1965 meu irmão mais velho, o segundo, um dia aparece lá em casa e conversa com mamãe. Ele estudava filosofia na UFPE. À noite fomos para a praça da cidade, pensei eu que era para passear, e havia outras famílias também por lá, foi quando percebi que Dodó, meu irmão, e os amigos, oito rapazes, todos de Gravatá e estudantes, iam viajar numa Kombi e os pais estavam chorando, inclusive minha mãe.
Eram 10 horas da noite. Daí eu pensei, “mas que besteira mamãe chorando só por que Dodó vai viajar, uma coisa que ele fazia tantas vezes, viajar para Recife”. Eu não tinha a menor idéia do que se passava em Recife e muito menos no resto do Brasil.
Na minha casa tinha uma sala de estudos que mais parecia uma biblioteca. Muitos livros, duas mesas e várias cadeiras. Nós não tínhamos nem televisão, nem geladeira, nem liquidificador, nada eletrônico, só um rádio lindo que era do meu pai, mas livros havia muitos, para todos os gostos.
Quando voltamos da praça já tarde da noite, mamãe nos colocou na cama para dormir, eu e Deco, meu irmão caçula. Lá pelas tantas me levantei e encontrei a porta da cozinha aberta e mamãe no quintal com uma enxada fazendo um buraco e os livros do meu irmão jogados no chão. Não entendi nada, mas perguntei por que ela tava fazendo isso. Ela respondeu que “tinha que enterrá-los porque naquele momento eram proibidos por lei ter esses livros em casa”. Continuei sem entender nada. Daí ela me fez jurar que jamais contaria aquilo para qualquer pessoa que não fosse da casa. Jurei por todos os santos, anjos da guarda e pela alma do meu pai e voltei para cama.
O restante do ano foi tranqüilo.
Comentário: e há quem dê vivas a bestialidade deste regime putrefato!

A popularidade de Lula - Por Sanzio

Não sei se no jornal impresso a Folha detalha mais os dados da pesquisa sobre a popularidade do presidente Lula, com gráficos e tudo o mais que sempre utiliza. Na edição eletrônica esses dados são escassos, mas permitem algumas observações sobre a maneira de apresentá-los.
1- A começar pela manchete da capa "Aprovação a Lula bate recorde histórico" que induz o leitor a achar que esta é a 1ª vez que o presidente obtém a aprovação da maioria absoluta da população. A pegadinha está no texto, que explica que “Lula também acaba de obter, pela primeira vez, a aprovação da maioria absoluta da população brasileira em todos os segmentos sociais, econômicos e geográficos do país.”
2- Lula nunca teve, que eu me lembre, aprovação menor que 50%. Logo, desde que assumiu, há 6 anos, sempre obteve a aprovação da maioria absoluta da população.
3- Os 64% de aprovação referem-se aos que consideram Lula ótimo ou bom. Portanto, 36% o consideram regular, ruim ou péssimo. Mas quais os percentuais de cada um?
4- Seguindo, diz que o resultado anterior, 55% apurados em março, já o colocava à frente de todos os presidentes eleitos após a redemocratização. E a comparação com FHC, tão cara ao jornal quando se trata de notícias desfavoráveis a Lula?
5- De 55% para 64% significa um crescimento de 18%. Esse crescimento é muito alto para ser explicitado pelo jornal?
6- Entre os mais ricos houve um salto de 14 pontos percentuais entre as duas pesquisas, aparecendo agora com 57%. Temos que fazer contas novamente: na pesquisa anterior Lula tinha 57 menos 14 = 43%. Um crescimento de espantosos 32,5%, mas não o suficiente para ser explicitado mais uma vez. O mesmo vale para os mais pobres (lá no último parágrafo da matéria): 65 menos 8 = 57, crescimento de 14%. Esta é a grande novidade, com o crescimento do apoio entre os mais ricos de mais que o dobro entre os mais pobres, ambos os segmentos se aproximam em apoio ao presidente Lula.
7- Fazendo as mesmas continhas, Lula teve um crescimento de 21% no sudeste e de 17% entre os que têm curro superior. Não dá para saber o crescimento nas metrópoles, apenas somos informados que antes só tinha a seu lado a maioria no interior, e hoje obtém 57% nas regiões metropolitanas.
8- O mais grave, a meu ver, vem agora: o jornal diz que os resultados coincidem com a divulgação do PIB, anteontem, de 6% no 1º semestre. A pesquisa foi efetuada entre 8 e 11 se setembro, e os resultados do PIB foram divulgados somente na noite do dia 10, portanto dos 4 dias de pesquisa, apenas um dia, 11, coincide com os dias da pesquisa, podendo ter alguma influência na mesma.
9- Da mesma forma, diz que “coincidem” com a queda da inflação, com a participação pessoal ou do nome do presidente nas campanhas eleitorais municipais, com a grande exposição do presidente por conta da divulgação do petróleo do pré-sal
10- No final, diz que Lula ampliou o reforço à sua popularidade entre os que já o apoiavam. Jogo semântico sutil, já que, se houve um crescimento à aprovação do presidente, este se deu com a conversão de quem não o apoiava anteriormente, e não “entre os que já o apoiavam”.
11- “No Nordeste, por exemplo, região que sempre deu os melhores índices de popularidade a Lula, sua avaliação subiu mais sete pontos. Hoje, 3 entre cada 4 nordestinos o apóiam.” Ou seja, hoje são 75% contra 68% em março, um crescimento de 10%. Mas não pega bem falar de percentuais tão elevados assim, certo? Melhor falar “3 entre 4” e deixar ao leitor o trabalho de calcular os percentuais da pesquisa de hoje, da anterior e do crescimento entre uma e outra.


Comentário: engraçado que, no momento em que tenho a pior avaliação do governo (por causa da operação "vamos salvarDantas" e da pusilanimidade com Gilmar Mendes), é quando o presidente Lula tem a maior popularidade da história de um presidente. Vai saber...

Lula decide pelo afastamento definitivo de Lacerda(?) - por Luis Nassif

Lula decide pelo afastamento definitivo de Lacerda
AE - Agencia Estado

BRASÍLIA - A revelação de que havia 52 agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na Operação Satiagraha, da Polícia Federal, selou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de retirar definitivamente o delegado Paulo Lacerda do comando da agência. Lacerda foi afastado temporariamente no dia 1º, depois da divulgação do grampo de uma conversa telefônica entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

Com Lacerda, outros três integrantes da cúpula da Abin foram afastados: o vice José Milton Campana, o chefe do Departamento de Contra-Inteligência, Paulo Maurício Fortunato Pinto, e o assessor especial da presidência, Renato Porciúncula. O Estado apurou que, como Lacerda, nenhum dos três voltará ao posto que ocupava na Abin. O Palácio do Planalto está certo de que, além da polêmica das maletas de fazer varreduras e grampos - levantada pelo ministro Nelson Jobim (Defesa), na reunião da Coordenação Política, na semana passada -, a Operação Satiagraha era uma investigação mais de Lacerda do que do delegado que a comandava, Protógenes Queiroz. Afinal, enquanto a PF mobilizou 23 profissionais, entre delegados, agentes, escrivães e peritos, a Abin liberou 52 agentes para trabalhar com Protógenes (continua).

Comentário

Há termos de cooperação, havia uma empreitada pesada e suspeitas de boicote na própria Polícia Federal. A questão central é se houve grampo ilegal ou outra forma de ilegalidade na atuação da ABIN e da PF. Se não houve, é apenas um jogo de varrer para baixo do tapete.

A Operação conseguiu unir Veja e o governo.

Por Luciano Prado

imprensa mente. Nenhuma novidade.

Do portal IG.

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto negou, nesta sexta-feira, as informações do jornal "O Estado de São Paulo" de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria decidido retirar definitivamente do comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o delegado Paulo Lacerda. Segundo assessores do Planalto, trata-se de uma informação improcedente e sem fundamento.

Por Luiz Eduardo

Eu tinha postado comentário no post "O jogo do abafa" sobre como a matéria assinada por Tânia Monteiro procurava desclassificar a operação Satiagraha, p.ex. comparando seu aparato com o utilizado na operação contra caça-níqueis e bingos, e adjetivando outras operações da PF (mega, grandiosas). Essa história da demissão do Lacerda, afirmada sem citar nenhuma fonte, fedia a notícia plantada. Agora a plantação está confirmada a mentira.

O artigo já entra mentindo:

"A revelação de que havia 52 agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin)na Operação Satiagraha selou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva." Quem informou essa decisão? Mistério. Parágrafo seguinte:

"O Estado apurou que, como Lacerda, nenhum dos três voltará ao posto que ocupava na Abin." Apurou junto a quem? Mistério! Tem mais:

"O Palácio do Planalto está certo de que ... a Operação Satiagraha era uma investigação mais de Lacerda do que do delegado que a comandava, Protógenes Queiroz." Como a Tânia tem tanta certeza de que o Planalto está certo? Mistério!

Dá para perceber que essas certezas e revelações têm um alvo: o Paulo Lacerda. É ele a bola da vez do esquema.

A vergonhosa matéria está aqui: clique aqui.

Justiça para todos - Luis Nassif

Está na hora do Ministério Público e da Polícia Federal ampliarem as investigações sobre o suposto grampo que o senador Demóstenes Torres e o Ministro Gilmar Mendes teriam sofrido.

Até agora se trabalhou exclusivamente com a suposição de autoria da ABIN (Agência Brasileira da Inteligência). É possível que a investigação permita chegar a essa conclusão. Mas não se pode ficar apenas nessa linha de investigação.

Há uma possibilidade da revista Veja ter armado o grampo. Como, em um ambiente republicano, ninguém está acima da lei, a própria revista deveria dar o exemplo e se oferecer para ser investigada. Até para que, se inocente, receba um atestado que afaste as suspeitas.

Quais as evidências:

1. Anunciou ter documentos comprovando a autoria da ABIN e não apresentou um sequer. Não existe cópia do áudio, documentos. Em cima de uma mera degravação, Veja afirmou existir uma central de grampo que teria grampeado dezenas e dezenas de autoridades. E nada mostrou.

2. Tanto Demóstenes Torres quando o autor da reportagem, Policarpo Jr, são ligados a arapongas que prestam serviços ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Há um histórico de parcerias entre a revista e o araponga Jairo Martins de Souza.

3. Há sinais evidentes de que a revista têm atuado firmemente em defesa de Daniel Dantas. E o episódio em questão poderá se constituir em elemento essencial para a defesa de Dantas.

4. Se nada for comprovado contra a revista, se ela conseguir comprovar suas acusações, sua absolvição, no inquérito, funcionará como um atestado de inocência.


Por Stanley Burburinho

Trecho do depoimento do Jairo Martins de Souza, o araponga do Cachoeira, à CPI dos Correios:

"O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – Eu disse que todo o momento eu fui acompanhado pela revista. Quando eu tomo conhecimento de um fato desse que é para ser divulgado, eu não tenho veículo, Senadora, eu tenho que trazer um veículo. Eu trouxe a quinta maior revista maior revista do mundo para dentro do assunto.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Para dentro assunto.

O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – É.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – O Senhor fez isso no caso do Maurício Marinho?

O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – Perfeitamente.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Fez isso, no caso do André Luiz?

O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – Perfeitamente.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Fez isso, no caso do Calazans?

O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – Perfeitamente.

A SRª IDELI SALVATTI(PT – SC) – Então, o senhor é uma espécie de funcionário da revista Veja para arapongagem?

O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – Não, senhora.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – Mas é muito coincidência três episódios nos três o senhor é quem faz as gravações que dão a...Então, eu quero saber. Tem vínculo direto ou indireto com a revista Veja?

O SR. JAIRO MARTINS DE SOUZA – Não tem vínculo.

A SRª IDELI SALVATTI (PT – SC) – E quanto é que o Policarpo Quaresma lhe paga para fazer esse serviço para ele?"

CM: A senadora Ideli chamou o Policarpo Jr. de Quaresmaa.

Lula = Morales - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=623 - por Paulo Henrique Amorim

Um exemplo a ser seguido - por Rubens Glasberg (editorial Teletime)

A matéria de capa da edição deste mês da revista TELETIME traz uma importante entrevista com o presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco. Sua argumentação em favor da aquisição da Brasil Telecom e do projeto de expansão da futura BrOi é consistente e corajosa. Falco, conforme o dito popular, dá a cara pra bater. Quem dera que outros participantes desse polêmico negócio tivessem a mesma clareza e sinceridade para tratar do assunto. Alguns sequer falam. Faltam nessa história da BrOi as explicações dos acionistas controladores das duas teles. Enumeramos Andrade Gutierrez, La Fonte, Citi, BNDES, fundos de pensão e Banco do Brasil. Afinal, são eles que estão fazendo um enorme acerto no mando de grandes concessionárias de serviço público.
Esse assunto, como já dissemos em outros editoriais, começou torto e será difícil desentortar. Começou com seguidas notas e reportagens plantadas em off em alguns veículos da grande imprensa. A história foi se arrastando por quase quatro meses nessa toada, com publicações de boatos sobre o apoio do governo, interessado em criar uma supertele nacional para competir com as multinacionais do setor. Tudo isso em meio a evidentes puxadas de ações em bolsa. Governo e controladores nada diziam. Órgãos fiscalizadores do mercado, como a CVM, desempenharam burocraticamente seu papel questionando as duas teles, cujos executivos obviamente nada tinham a declarar, já que as decisões não passavam por eles, mas por seus acionistas. Era uma negociação entre os controladores que aparentemente contava com o sinal verde do governo comprometido em alterar a regra vigente do jogo, ou seja, mudar o Plano Geral de Outorgas (PGO). Trocando em miúdos, primeiro se fechou o negócio e depois o governo adequaria a regra à nova situação.
É o que está acontecendo, sem que até agora se tenha muito claro qual a política pública que está por trás de tudo. O governo ainda não conseguiu explicar se tem como objetivo efetivamente criar uma supertele brasileira ou se está simplesmente contribuindo para aumentar o valor de mercado da futura BrOi (leia-se cotação em bolsa), para conseguir melhorar a liquidez e o preço de venda de seus investimentos e dos demais acionistas. O BNDES, por exemplo, que supostamente seria o garantidor do controle nacional da empresa, declara de maneira explícita que apenas participa da reestruturação societária da Oi para facilitar a aquisição da BrT e com isso dar valor e liquidez a seus investimentos. Sua prioridade é, portanto, a mesma de qualquer fundo de private equity. Nenhuma autoridade de Brasília disse até agora com todas as letras que o governo quer uma empresa nacional com capacidade de competir no mercado mundial e que isso é estratégico para o País. Ou que quer uma tele nacional porque teme a Telmex e a Telefônica. Ou qualquer outro argumento. O governo não fala... A bem da verdade, há quem no governo fale agora em off que já existe até comprador para a BrOi. Só não adianta se o interessado é local ou estrangeiro.
Falta, por fim, explicar o acordo com Daniel Dantas, às voltas com a polícia e a Justiça por conta dos inúmeros ilícitos cometidos durante seus anos de gestão na Brasil Telecom e na Telemig Celular. Citi e fundos de pensão, sem qualquer explicação pública, retiraram as ações que vinham movendo no Brasil e no exterior contra o Opportunity, suspeito de surrupiar dos sócios e das empresas administradas valores que podem chegar até a US$ 2 bilhões. Concordaram ainda que Dantas e seu grupo recebessem de quebra mais de US$ 1 bilhão na saída.
Não cabe em nenhum conceito de boa governança a explicação dada timidamente pelos dirigentes dos fundos de que tomaram essa decisão a partir de uma análise de custo/benefício em favor de seus cotistas, ou seja, que cansaram de recorrer à Justiça brasileira onde Dantas através de todo tipo de chicanas de seus advogados conseguia fazer encalhar indefinidamente qualquer processo. Previ, Funcef, Petros e outros fundos são dirigidos, hoje, por pessoas honestas. Não há nenhuma evidência contrária. Mas tomaram, acreditamos nós, decisão equivocada. Se o caminho seguido fosse outro evitariam passar pelo constrangimento de ver o escritório de seus gestores de recursos, o Angra Partners, sofrer uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal. O acordo da BrOi é hoje parte das investigações da operação Satiagraha e está por conta do Ministério Público no processo que está sendo julgado pelo juiz De Sanctis.
Não adiantam os esforços dos que se beneficiaram e continuam se beneficiando dos favores de Dantas na imprensa. Daqueles que no Legislativo, Executivo e Judiciário se esforçam para desfocar a atenção daquilo que efetivamente interessa: as milhares de páginas de provas colhidas contra Dantas, seu grupo e ramificações nos principais poderes da República. O rei está nu, como dizia o menino no conto infantil. Não adianta agora querer desqualificar o menino e dizer que ele é "um desequilibrado" ou que se utilizou de "grampos ilegais" para fazer sua afirmação. Não cola mais.

Ainda sobre Dantas - por PHA

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Itagiba dá show de horrores na CPI dos grampos - por PHA

O deputado Marcelo Itagiba (PMDB/RJ) assumiu hoje, definitivamente, a postura de bad cop, o policial truculento cujo papel é a agressão e a intimidação. No caso, contra um servidor da Abin e contra a própria agência de inteligência. Durante a sessão desta quarta, 10, na CPI das Escutas Clandestinas, Itagiba tentou conseguir alguma informação, qualquer informação, na marra. O objetivo de tal truculência não ficou claro. A CPI é sobre interceptações telefônicas, não sobre o funcionamento da Abin. Mesmo assim, pelo conteúdo das colocações de Itagiba e dos demais deputados da CPI (com a única exceção do deputado Domingos Dutra), a busca destas informações só pode ter dois objetivos: se prestar ou à defesa de Daniel Dantas, ou à degola definitiva de Paulo Lacerda. Itagiba passou do limite do decoro e do respeito a um servidor público ao inquirir o diretor afastado da Abin, servidor Paulo Maurício Fortunato Pires. "Ou a Abin está tentando passar atestado de idiota a todos nós ou é melhor fechar a agência"; "a Abin chegou a esse ponto por conta de uma administração não profissional, feita por quem não é da estrutura"; "Essa não é a Abin que eu conheço"; "Quem colocou a Abin nessa situação foi ele (Paulo Maurício)"; "(Para ceder os agentes) ele (Paulo Maurício) deve ter um efetivo que não tem nada para fazer"; "Assim é melhor pedir para fechar a Abin". Foram algumas das frases de Itagiba, sempre irônico e sorridente, com cara de delegado truculento, ao fazer perguntas ao servidor, nitidamente sem interesse em ouvir as respostas e sempre fazendo uma reflexão definitiva ao final das respostas, com seu juízo de valor e distorcendo o conteúdo do que foi dito pelo depoente. Preocupado em derrubar o comando da Abin, Itagiba, contudo, não havia percebido até então o ponto mais importante do depoimento: Paulo Maurício Fortunato Pires detalhou a colaboração dada pela Abin ao delegado Protógenes Queiroz na Operação Satiagraha. Foram 52 agentes de campo que, ao longo de quatro meses, Cerca de 12 fixos e outros oito ou nove que se revezavam em missões. Ajudaram o delegado a levantar informações abertas, checagem de endereços, acompanhamento de alvos, ajudaram Protógenes. A preocupação de Itagiba, do relator Nelson Proença e de todos os demais deputados era saber como que esses servidores foram alocados sem que a chefia da Polícia Federal soubesse, sem formalização, via superintendência da Abin no Rio e não em São Paulo, com dispêndios financeiros e outras questões cosméticas. Mas em nenhum momento, até então, foi feita a pergunta básica: o que levou o delegado Protógenes Queiroz a pedir essa ajuda? Por que a diretoria da Polícia Federal não era informada sobre estas investigações? Até aquele momento, o problema, para a CPI, é a Abin. Se existe uma denúncia do delegado Protógenes Queiroz sobre falta de recursos, sobre boicote da polícia a uma investigação acompanhada pela Justiça e pelo Ministério Público, isso não é problema da CPI. O show de horrores não ficou só por conta de Itagiba. O deputado Arnaldo Faria de Sá, sempre deselegante, imitou o presidente da CPI e inquiriu o depoente com socos na mesa, interrompendo as respostas antes que a frase chegasse ao verbo, com frases de efeito do tipo "isso não é a Agência Brasileira de Inteligência, é Agência Brasileira de Burrice". Faria de Sá provavelmente não sabe a lição que prestou a cerca de 15 alunos do curso de gestão de Políticas Públicas da USP, que por coincidência entraram na sessão da CPI durante os murros que o deputado dava na mesa. Ficaram por três minutos, provavelmente julgaram nada ali tinham a aprender, e foram embora. Fizeram bem. O deputado Raul Jungman, que ao que consta ainda não devolveu ao Opportunity a contribuição de campanha que recebeu (aliás, nem o deputado Itagiba deu notícia da devolução do regalo), veio municiado com informações "inéditas". Sabia quanto o delegado Protógenes Queiroz pagava de sua conta de operações: R$ 1,5 mil por quinzena para o tal Ambrósio. Sabia que a Abin gastara com a Satiagraha R$ 300 mil. Dados que não se sabe de onde o deputado tirou, mas que soaram precisos. "Sinto-me desrespeitado por este depoimento. Jamais vi nessa casa tamanha desfaçatez", disse o revoltado Jungman, citando o tribunal de Nuremberg e a "obediência cega" e outras encenações. Jungman, a bem da verdade, quase não parou na cadeira, levantando durante as respostas às questões de seus colegas, e voltando apenas para fazer suas provocações. O contraponto veio do deputado Domingos Dutra (PT/MA), único a olhar a questão sob o lado das autoridades, e não sob a ótica de Nélio Machado. "Os meus colegas estão indignados com os R$ 300 mil gastos para prender o sr. Daniel Dantas. Acho muito pouco para combater o crime organizado e o poder desse cidadão, cujos crimes são de R$ 3 bilhões. Se o sr. Daniel Dantas recebeu dois Habeas Corpus em 48 por presunção de inocência, acho que temos que estender esse princípio a todos. O Estado não pode ficar desarmado, atrás das organizações criminosas, quer seja as dos presídios, com o Fernandinho Beira-mar no comando, quer seja pelo sr. Daniel Dantas, que comanda o crime do colarinho branco. O Daniel Dantas deve estar nos assistindo, feliz. Ele foi tratado aqui nessa comissão a pão-de-ló. Ele mesmo disse que aqui falou muito porque se sentiu em casa", disse o deputado. Itagiba finalmente acordou, ou sentiu-se minimamente constrangido, com o show de horrores por ele orquestrado. E fez a pergunta que deveria ter feito antes. Pergunta que deveria dirigir aos seus apoiadores de campanha. "Que poder tem esse senhor Daniel Dantas que faz com que esse delegado que o investiga fosse procurar em outro órgão de governo o apoio necessário ao seu trabalho. O senhor tocou em um ponto muito importante. Quem tem que dirimir essa dúvida é o governo", indagou Marcelo Itagiba. O deputado não precisou esperar uma resposta do governo. Ela veio do próprio depoente Paulo Maurício Fortunato Pires: "Esse problema não é da Abin. Eu estava evitando falar isso, mas esse é um problema da Polícia Federal. O delegado Protógenes não tinha base na sede da Abin, tinha na Polícia Federal. Concordo com os senhores que não deveria haver servidores fora da estrutura governamental trabalhando no caso. Mas no nosso caso, não vejo problema, nós apoiamos, com autorização. Somos uma estrutura de Estado. E hoje a Abin se vê no meio dessa confusão, e essa confusão não é nossa. Ela entrou com apoio institucional. Seus servidores estão chateados, são achincalhados, como grampeadores, o que nós não fazemos. Estamos pagando um pato que não é nosso, com o perdão do termo. O delegado Protógenes não escalou nenhum agente, não escolheu amigos. Eu assumo essa responsabilidade. Foram seguidos os trâmites. Eu como diretor entendi que falando com meus superiores, achamos que podia ser feito. Agora, que existiu um descontrole interno dentro do departamento de Polícia Federal, houve, ainda que não seja meu papel falar isso. A decisão do apoio, não a ordem, foi tomada pela direção geral da Abin". E Nelson Proença, o relator da CPI? Esse nada fala, fica à sombra de Itagiba. O máximo que fez foi aplaudir as decisões do Conselho Nacional de Justiça em favor da centralização das ordens de interceptação, e do STJ, contra interceptações maiores do que quinze dias. Este observador preferiu não ficar para as perguntas do deputado Gustavo Fruet, as outras intervenções de Jungman e os demais inscritos. Acabou o efeito do Engov.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Mendes manda legislativo legislar logo - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=599 - por Paulo Henrique Amorim.

Uma operação para livrar Dantas - por IHU - entrevista com Luis Nassif

Para o jornalista, a revista Veja perdeu todos os limites ao publicar uma matéria em que não pode provar nada do que denuncia. Para ele, trata-se de uma operação para livrar Daniel Dantas da ação movida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. "É um momento triste na história da República: ele mostra que Dantas conseguiu uma ampla influência no Judiciário, em três partidos políticos e em grande parte da mídia", diz Nassif.

IHU - Instituto Humanitas Unisinos

A revista Veja da semana passada denunciou um esquema de grampos que vigiariam o Supremo Tribunal Federal e integrantes do governo federal. O que levou, no dia seguinte, o presidente Lula e o ministro Gilmar Mendes a reunirem-se e, finalmente, à suspensão da direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Na terça-feira da semana passada, em entrevista à imprensa, Lula declarou:

“Se algum de vocês (referindo-se aos jornalistas presentes) souber algo – porque a fonte conversou com os jornalistas e não comigo –, e quiserem facilitar a investigação, podemos resolver logo o problema. Do contrário, vamos ter de investigar com muita profundidade”.

Isso porque a Veja declarou que as gravações não existem mais e utiliza a lei para não revelar o nome da fonte da reportagem. A IHU On-Line conversou por telefone com Luis Nassif sobre essa crise gerada por um veículo de comunicação tão importante no país, mas, segundo ele, em decadência.

Nassif, que lançou uma série chamada Dossiê Veja, em que chama de antijornalismo o trabalho da revista, fala sobre a relação dessa denúncia dos grampos no STF com o caso Daniel Dantas, sobre um possível conflito entre o ministro do STF e Tarso Genro e, ainda, sobre a posição da Polícia Federal diante desse grande problema deflagrado no país.

Luis Nassif é jornalista e diretor Superintendente da Agência Dinheiro Vivo. Além disso, desempenha as funções de comentarista econômico da TV Cultura, membro do Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Conselho de Economia da FIESP. Possui um dos blogs mais acessados e respeitados do país.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Nesse caso dos grampos, foi a reportagem da Veja que motivou a reunião de ontem entre Lula e Gilmar Mendes e, por fim, o afastamento da direção da Abin. Como o senhor relaciona esse caso com o caso Daniel Dantas?

Luis Nassif – É, escancaradamente, uma operação para livrar o Daniel Dantas desse inquérito e desse processo. A Veja perdeu todos os limites. O que espanta é ver um presidente do Supremo Tribunal Federal, baseado nos elementos que a revista coloca, sair acusando a Abin e o Paulo Lacerda, justamente os alvos do Daniel Dantas. É um momento triste na história da República: ele mostra que Dantas conseguiu uma ampla influência no Judiciário, em três partidos políticos e em grande parte da mídia. Eu acho que, para o jornalismo, o preço do descrédito é muito grande. A opinião pública inteira está percebendo o tipo de jogada feito pela Veja. E o que ela faz desmoraliza o jornalismo. Sabemos que este já foi usado para outros propósitos, mas o que existia antes era um pouco a história de troca de favores entre empresas e instituições e alguns veículos de mídia. Era um negócio antiético, mas mais light. Agora, quando temos essa contaminação da cobertura da imprensa por essas pessoas que estão claramente acusadas por formação de quadrilha e afins, entramos num terreno muito complicado e desmoralizante para um dos poderes fundamentais da sociedade, que é a imprensa de opinião.

A Veja tem uma grande tiragem e passou a praticar um jornalismo falso, como tenho mostrado na minha série de reportagens. No entanto, há, concomitantemente, uma cumplicidade com isso por parte dos jornais. Essa matéria sobre os grampos publicada por ela não passaria num curso básico de jornalismo. Então, vem o presidente do STF, avaliza a matéria e faz com que ela se transforme em institucional. Há poucos jornalistas com coragem para questionar essa falta de consistência da matéria. Há outro aspecto que precisa ser levado em conta: a Operação Satiagraha foi muito abrangente. Ela entrou no seio da corrupção brasileira e pegou magistrados, políticos e empresas jornalísticas. Com isso, temos esquemas pesados montados por advogados, por políticos e por jornalistas. A Veja gosta muita de comparar o Brasil aos Estados Unidos e dizer que nosso país é atrasado e que os estadunidenses são o suprassumo da modernidade. São mesmo. Só que nós estamos entrando hoje num ponto muito similar ao dos anos 1930 nos Estados Unidos, quando existiu uma luta nacional contra o crime organizado e a imprensa aderiu ao crime. É complicado isso, pois o maior fator de atraso que temos é a revista Veja, inserida dentro de um tipo de jornalismo manipulador. Com a internet, as coisas até melhoraram, porque há alternativas à falta de competência jornalística. A Veja está fazendo uma operação de alto risco para poder fazer essas jogadas todas de forma profissional. Dentro da Abril, eles são chamados de “aloprados” da Veja. Isso causa perplexidade, indignação, e o preço é a desmoralização da imprensa. Pelo menos, a internet não deixa a grande imprensa falar sozinha.

IHU On-Line – E deve partir de quem exigir uma mudança de paradigma da influência que a Veja possui?

Luis Nassif – Deve partir da Justiça. Na semana passada, a condenação do Diogo Mainardi a três meses de prisão foi um passo muito importante do Judiciário. A Veja passou a usar a calúnia e a difamação com a ajuda de dois pistoleiros – o Mainardi e o Reinaldo Azevedo – para atacar a honra de todo mundo e entrou num jogo muito pesado. Essa estratégia é desproporcional, porque a Abril partiu para uma avaliação custo x benefício, ou seja, começou a se perguntar: o que ganhamos se começarmos a difamar ou caluniar o fulano? Ganha porque desacredita o “fulano” e continua com liberdade para manipular isso. O que isso custa? Cem mil, 150 mil reais por processo. É um preço que eles pagam. Essa avaliação é horrorosa, faz o jornalismo cair na barbárie. Quando condenam um deles, como no caso do Paulo Henrique, esse jogo acaba. No Rio Grande do Sul, fizeram isso com o Jorge Furtado. Ele foi alvo de assassinato de reputação também. A ação contra esse tipo de publicação às vezes demora meses ou anos para ser resolvida. Como é que fica a sua reputação nesse período? Como fica a sua família e seus filhos nessa história? O que a Veja está fazendo é coisa de quadrilha. Eu nunca vi algo parecido.

IHU On-Line – Essa suspensão da direção da Abin foi uma atitude correta por parte do presidente?

Luis Nassif – O presidente é gato escaldado. Já sabe que enfrentar o STF e a imprensa juntos pode significar um risco e adotou essa medida. Ele aproveitou que a escuta pegou o pessoal da sua base e assim pode reagir contra a Operação Satiagraha. Agora, ele está numa ação de alto risco, porque validar a Veja – que é uma revista que está caindo em descrédito – é um risco. Se você dá à Veja o direito publicar um factóide como esse – porque ainda não temos uma prova real sobre esse grampo – e o poder de afastar a direção da Abin, sabendo que toda a estratégia jurídica do Dantas consistia em tentar comprovar que o Paulo Lacerda tinha interferido na Operação Satiagraha para poder anular o inquérito, há outro risco alto. O Lula mandou investigar afastando a direção da Abin para não ter contaminação nos resultados. Ou seja, deu tudo o que o pessoal do STF pediu. Se houver uma investigação séria agora, quem fez paga. A Veja vai ter de mostrar suas provas. O desafio é existir uma investigação séria. Claro que não podemos botar a mão no fogo pela Abin, mas é preciso ficar claro que quem acusa tem que ter a comprovação. Aquela maluquice que a Veja fez não é prova. Nenhum país civilizado, com poder Judiciário efetivo, deixa aquilo ser considerado uma matéria. Vamos ver o resultado das investigações. A partir delas, saberemos se o Lula é um enxadrista ou uma pessoa temerosa.

IHU On-Line – Em que sentido a reunião de Gilmar Mendes com Lula interfere no trabalho do ministro Tarso Genro?

Luis Nassif – Eu conversei com o ministro hoje (referindo-se ao dia 02 de setembro de 2008), que me disse que esse período faz parte de um jogo complicado. Veja bem, essa questão dos direitos individuais precisa ser preservada e você não pode dar plenos direitos para o pessoal sair grampeando a torto e direito. Vivemos hoje dentro de uma democracia clássica, ou seja, numa sociedade onde a imprensa é o fator para conter excesso de poder do Executivo. No entanto, como há um alto grau de manipulação por parte da imprensa, se criou uma ameaça grande ao direito individual. Esse poder diz respeito a fazer qualquer ataque e não dar bola para o resto. Qual é o maior desafio que temos em relação à defesa dos direitos individuais? É saber se defender de esquemas como os que a Veja monta. Aqui no Brasil, em nome da liberdade de imprensa, você pode assassinar reputações, fazer uma matéria fajuta e dizer que a Constituição garante sigilo de fonte... Onde nós vamos parar? Podemos dizer que o ministro Gilmar Mendes assumiu de uma forma obcecada a defesa do Dantas e deixou o Supremo Tribunal Federal numa má situação, mas os outros ministros estão deixando a história correr para não comprometer ainda mais a imagem da instituição.

IHU On-Line – Casos como esses estão gerando desconfortos dentro da Polícia Federal. Em sua opinião, que perigos giram em torno dessa demonização da PF?

Luis Nassif – Falar da Polícia Federal é um negócio complicado. É uma organização muito envolvida em muitos problemas e foi feita uma mudança fundamental em sua estrutura pelo Paulo Lacerda, há tempos. Daí surge uma geração nova aí, não viciada ainda, que não quer entrar no esquema e quer realizar um trabalho sério de investigação. Esse pessoal é o típico funcionário que está seguindo o manual, que é a lei, a Constituição. Se esse pessoal for desestimulado, a única força que se insurgiu de forma profissional contra esses abusos e esquemas de corrupção vai ser jogada fora. É um momento complicado, é uma guerra da civilização contra a barbárie. A barbárie, nesse caso, está sendo representada, infelizmente, por órgãos de imprensa. Esse é o problema.

IHU On-Line – E como esse problema pode ser resolvido?

Luis Nassif – É importante deixar claro que toda essa operação visa beneficiar o Dantas. Isso cria um constrangimento para o Lula que não é fácil. Essa investigação tem a garantia do acompanhamento do Ministério Público. A Polícia Federal tem dentro da sua corporação grupos se digladiando. Se for provado que houve manipulação, a Veja e o Gilmar Mendes entram numa situação complicada. Se confirmar que foi uma ordem da Abin, quem se complica é o governo. O que eu acho mais provável é que não vai se confirmar que foi da Abin e que não vai se chegar ao grampeador, porque a Veja é uma revista sem-vergonha e não tem provas do que diz. Eu acho que vai ficar como um negócio não esclarecido, o que fortalece a posição do Dantas. Também vai depender muito da sinalização que o Ministro da Justiça e o Lula fizeram para a Polícia Federal para continuar investigando essa Operação Satiagraha.

IHU On-Line – A quem interessa livrar o Dantas dessa investigação?

Luís Nassif – Todos os que foram subornados por ele, ou seja, três partidos políticos e jornalistas que foram pagos por ele. Interessa às publicações que fizeram acordos obscuros com ele, a juízes que se venderam para ele. É muita gente. Ele está no centro da corrupção brasileira; é uma coisa imensa.

IHU On-Line – Podemos dizer que o STF e o ministério da Justiça estão em crise?

Luis Nassif – Não sei se estão em crise. O ministro Gilmar Mendes quis provocar uma crise, mas o governo não passou recibo. A condução do Tarso Genro em relação a esses episódios foi infeliz. Nesse sentido, há uma certa ligação entre ele e o Gilmar, mas este último extrapolou. O segundo habeas corpus foi incompreensível.

IHU On-Line – No mês passado, durante a Rodada Doha, percebeu-se que a intenção do Brasil estava dentro da questão da remessa de lucros maior do que os investimentos internos e assim atrairia capital de curto prazo. Quem sairia privilegiado se as negociações tivessem ido de acordo com as intenções do governo brasileiro?

Luis Nassif – O Brasil perderia claramente. Eu não entendi a posição do Lula de querer uma coisa a qualquer preço, porque o que se oferecia da parte agrícola lá não é suficiente para o país. Se a intenção do governo brasileiro fosse aprovada, seriam abertas as tarifas de pontuação de um conjunto importante de produtos em troca de ganhos não substanciais na área de subsídios num momento em que o câmbio brasileiro é um diferencial negativo muito grande. Se saísse do jeito que se queria, nós teríamos problemas sérios. A sorte é que a China e a Índia tiveram mais clareza sobre seus interesses.

IHU On-Line – Dentro dessa questão ainda, que perspectivas você tem para o próximo encontro em Doha?

Luis Nassif – Eu continuo acreditando naquilo que escrevi no livro Os cabeças-de-planilha (São Paulo: Ediouro, 2007), ou seja, o mundo está no final de um processo de liberação financeira que tende a refluir. A tendência, se for bater com que ocorreu em outros períodos da história, será a de um nacionalismo mais exacerbado, uma defesa maior dos interesses nacionais, assim como aconteceu com a China, com a Índia e a Rússia. Estes sistemas de livre comércio são, geralmente, adotados por quem já atingiu um certo grau de desenvolvimento mais elevado. Quando o país atinge esse grau de desenvolvimento, pode entrar nas regras internacionais de livre comércio que, obviamente, beneficia os países mais competitivos em detrimento dos menos competitivos. Os países emergentes que seguem essas regras não conseguem se desenvolver, porque já são mais fracos, menos competitivos. Na medida em que a China quer se tornar uma potência, ela vai se insurgir contra isso.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Protógenes será preso? - por Luiz Carlos Azenha

http://www.viomundo.com.br/opiniao/protogenes-sera-preso/

As mentiras da Veja e da Istoé - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=595 - por Paulo Henrique Amorim.

Crise institucional ou luta pelo poder? - por Paulo Moreira Leite

Pelo menos um jurista de envergadura nacional disse ao blogue que se sentiu constrangido diante da reação de Gilmar Mendes, presidente do Supremo, diante da descoberta de que sua conversa com um senador foi grampeada.

O caso precisa ser investigado e seus responsáveis precisam ser julgados e punidos. O país não pode conviver com agentes secretos – sejam da categoria 007, sejam da categoria agente 86 – que não respeitam a lei nem os direitos do cidadão.A investigação não irá a lugar nenhum, porém, se for tumultuada por uma luta por espaços de poder.

Parece natural que Gilmar tivesse uma reação indignada.

Mas ele foi além. Cobrou providências do presidente Lula, em público. Exigiu ser recebido em audiência no Planalto. Em tom de desafio, disse que “nesse caso o próprio presidente da República é chamado às falas, ele precisa tomar providências. ”

Mais tarde, enquanto Lula se reunia com a Coordenação política no Planalto, os ministros do Supremo enviaram uma mensagem ao presidente, no mesmo tom.

O sentido da mensagem era claro: o STF queria cabeças.

Embora o governo tivesse iniciado uma sindicância para apurar o caso e punir os responsáveis, o presidente do STF e os ministros mandaram dizer que não bastava.

Será certo? Esta é a pergunta.

Gilmar Mendes é considerado uma das maiores autoridades em Direito Constitucional não só do Brasil nem da América do Sul — do planeta.

Em minha suprema ignorância (tão suprema que escrevo com minúsculas) estamos falando de uma questão terrestre: separação de poderes, base do regime democrático.

Não tenho a menor competência para discutir questões jurídicas. Embora muitas decisões recentes do presidente do STF sejam contestadas entre seus próprios colegas, estamos falando de outra coisa.

A discussão é política.

Se o Judiciário tem suas prerrogativas, o Executivo também tem.

Vamos imaginar o contrário. Por exemplo: de repente, um membro do Judiciário é apanhado cometendo uma falta grave e aceita um favor indevido.

(Não é comum, mas tem acontecido. Basta ler os jornais. Temos até um punhado de juízes na cadeia.)

Seguindo em nossa ficção: o presidente da República, indignado e inconformado, decide interpelar o Supremo.

Cobra providências.

Exige o afastamento dos Meretíssimos sob suspeita. Em solidariedade, o Ministro da Justiça dá declarações no mesmo sentido.

Claro que isso não iria acontecer.

Mas se acontecesse, o presidente da República seria acusado de provocar uma crise institucional.

Nâo é engraçado?

Por Guilherme

Ja viu a manobra?

Verifique no Noblat:

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Advogados querem anular tudo

Defesa do banqueiro irá explorar brechas abertas pela acusação de que a Abin participou ativamente de escutas na Operação Satiagraha e vai alegar a suspeição do trabalho da Polícia Federal e da Justiça


Comentário: Discordo frontalmente que Gilmar Mendes seja autoridade em alguma coisa. Ah! talvez ele seja "autoridade" em dar HC para Daniel Dantas.

O parto de uma nação - por Luis Nassif

É extraordinário o que estamos testemunhando nesses tempos de Satiagraha: é o parto de uma Nação.

Haverá ainda muita frustração pela frente, muita sensação de impotência, muito ceticismo se o país conseguirá ser alçado à condição de Nação civilizada. Mas a marcha da história é inevitável.

Está-se em plena batalha da legalidade contra o crime organizado. Os jovens juízes, procuradores, policiais que ousaram arrostar décadas de promiscuidade estão no jogo. Se eventualmente forem calados agora, a decepção geral será o combustível para a reação de amanhã.

O país está submetido a duas forças que caminharam em paralelo mas, agora, começam a colidir.

Uma delas, a consolidação de valores republicanos – não necessariamente de práticas - como a impessoalidade no trato da coisa pública, a transparência cada vez maior, movimento acelerado pelo advento de novas tecnologias de informação, a reação contra a impunidade.

Ao mesmo tempo, tem-se um país institucionalmente refém de desequilíbrios enormes. A falta de transparência do ciclo que se esgota abriu espaço para amplos abusos em todos os poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e mídia, grande capital.

Criou-se uma enorme Nação de rabo preso em um momento em que a disseminação de valores e de tecnologia definia novos níveis para a transparência.

Ao mesmo tempo, o mundo (e o Brasil) ingressou em um ciclo de financeirização que permitiu a expansão ampla do crime organizado. Descrevo em detalhes esse processo no meu livro “Os Cabeças de Planilha”. Já tinha descrito esse modelo no meu “O Jornalismo dos anos 90”, no capítulo referente à CPI dos Precatórios.

A falta de regulação e controle nos mercados, a existência de paraísos fiscais, a complacência das autoridades reguladoras (e da mídia) criaram uma imensa zona cinzenta onde se misturou a contravenção fiscal com a corrupção política, a simbiose de “figuras notáveis” com o crime organizado. A falta de um regramento adequado e de instituições que combatessem os abusos, permitiu essa promiscuidade ampla.

Esse é o nó.

Agora, as instituições estão aí. Mas há um pesado passivo que não interessa a muitos que venha à tona. O resultado dessa batalha de transição é que definirá os rumos do país: se submetido aos limites da lei; ou do crime organizado.

Os novos atores

Aí entram dois atores. O primeiro, a mídia.

Já escrevi várias vezes sobre o tema, e volto a ele. Nesse ambiente promíscuo, parte da mídia passou a se valer da denúncia não como um instrumento de melhoria dos hábitos econômicos e políticos, mas como instrumento seletivo de poder. O esgarçamento dos critérios jornalísticos abriu espaço para os abusos que, agora, chegam a um ponto de alto risco para imagem da mídia.

Nesse movimento, papel essencial foi desempenhado pela diretoria de redação da Veja. Graças ao seu amadorismo, conduzindo uma operação de alto risco – os pactos com Daniel Dantas - escancarou um modelo que, em mãos mais hábeis, levaria mais tempo para ser percebido.

O segundo ator são os órgãos de repressão ao crime organizado, que surgem no início dos anos 90 e se consolidam a partir da gestão Márcio Thomaz Bastos no Ministério da Justiça.

A maior parte do dinheiro do crime organizado transita pelo mercado financeiro, através de operações esquenta-esfria, de doleiros, de esquemas em paraísos fiscais, um universo intrincado que passa ao largo da compreensão do cidadão comum.

Tenho muito orgulho em ter contribuído de alguma maneira para preparar esse terreno para o combate ao crime organizado.

No início dos anos 90 passei análises sobre o mercado financeiro para o juiz Walter Maierovitch, o primeiro brasileiro a estudar seriamente o fenômeno do crime organizado.

No início de 2003, a convite de Márcio Thomaz Bastos dei uma das duas palestras de abertura do Seminário que ocorreu em Pirinópolis, juntando Ministério Público Federal, Polícia Federal, COAF, Banco Central, Secretaria da Receita Federal. Juntei as informações e análises que tinha coletado na cobertura da CPI dos Precatórios e dos esquemas de doleiros – que serviram de base para meu livro.

Surpreendi-me ao me dar conta da extensão do trabalho que se propunha, essa integração necessária entre os diversos órgãos, a busca de ferramentas de análise, de equipamentos de monitoração, o entusiasmo dos jovens funcionários públicos e as figuras mais velhas, respeitáveis, de Cláudio Fontelles, Paulo Lacerda e Márcio Thomaz Bastos.

Montou-se a organização, preparam-se os funcionários públicos e lhes foi conferida uma missão. E eles passaram a seguir o manual. Institucionalizava-se o combate ao crime organizado. E, institucionalizado, passava a se tornar, também, impessoal. Assim como em nações civilizadas, não havia mais intocáveis a serem preservados.

Nesse momento, deu-se o choque com o Brasil velho.

O choque do antigo

No início havia convivência estreita entre os dois poderes: a nova estrutura de repressão ao crime organizado e a mídia.

Houve muitos abusos, sim, invasão de escritórios de advocacia, vazamento de peças do inquérito. É possível que abusos continuem a ser cometidos. Mas tudo era suportado, defendido pela mídia, na condição de aliada preferencial, tendo acesso aos “furos” e blindagem contra abusos.

A convivência prosseguiu enquanto órgãos de mídia entendiam que a aliança lhes garantia salvo-conduto. Explodiu quando se revelou a extensão da Operação Satiagraha.

Aparentemente, a Operação Satiagraha flagrou quatro grupos envolvidos com o crime organizado: advogados, juízes, políticos e jornalistas/empresas jornalísticas. O que se pretende, agora? Julga-se ser possível varrer o processo para baixo do tapete? Em plena era da Internet, dos blogs, dos sites, do e-mail, julga-se ser possível passar em branco essa monumental manipulação das informações que se vê agora?

O jogo está no fim. Daqui para diante será esperneio. Continuarão assassinando reputações, promovendo factóides, manipulando ênfases. É possível que destruam Paulo Lacerda, Protógenes, De Sanctis e todos os que ousarem enfrentar esse tsunami. Mas não conseguirão parar a história.

Desse lamaçal, vai emergir uma nova mídia, uma reavaliação na qual os jornais sérios entenderão, em algum momento, que não dá mais para se envolver até o pescoço por uma solidariedade corporativista com os que transigiram.

E não adianta tentar transformar essa guerra em um Fla x Flu, Lula x oposição, PSDB x PT. Não cola. É uma briga da lei contra o crime organizado. Há que se definir limites para evitar abusos. Mas o que está em jogo é a tentativa de desmonte dessa estrutura.

Apostar que serão bem sucedidos, será apostar no atraso, na falta de leis, na manutenção dos abusos da mídia e dos grampos ilegais, no império do crime organizado, na promiscuidade entre poderes.

É esse o país que vamos entregar para nossos filhos? É evidente que não.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Grampo legal - por Melchíades Filho (Folha de São Paulo)

BRASÍLIA - Ainda que o futuro possa lhe reservar algum tipo de constrangimento, o governo só tem a comemorar com a escandalização do uso de escutas telefônicas.
Confira o que de concreto ocorreu desde o começo das denúncias de desrespeito às liberdades individuais e das reações indignadas:
1) Foi escanteado o delegado que pretendeu investigar os negócios de Daniel Dantas, as relações íntimas do empresário com o Planalto e o acordo de indenização que permitiu ao governo levar adiante a idéia de criar a supertele nacional.
2) A Polícia Federal repaginou a Operação Satiagraha. Fechou foco nos indícios de fraude financeira do Banco Opportunity e esqueceu outras ambições do inquérito original, como tráfico de influência e a fusão da Brasil Telecom com a Oi.
3) Dantas e seus principais assessores saíram da prisão. Não têm mais motivos para abrir a boca.
4) Lula conseguiu nomear o quinto conselheiro da Anatel para dar o voto de minerva em favor da BrOi.
5) Foi afastado o diretor que construiu a "PF republicana", aplaudida por não discriminar investigados -o que possibilitou que o irmão do presidente caísse num grampo pedindo "dois pau pra eu".
6) A pretexto de impedir exageros de arapongagem, a PF recebeu ordens para tratorar a corporação e centralizar a inteligência. A apuração do dossiê produzido na Casa Civil contra FHC foi abandonada.
7) Um ex-funcionário de Dantas assumiu o comando da Abin.
Resumo: o Planalto não só preservou a negociação (e os negociadores) da BrOi como diminuiu a possibilidade de voltar a ser incomodado por escutas telefônicas.
Judiciário, Legislativo e sociedade civil exigiram o direito à privacidade. Com a degola de Lacerda e Protógenes, Lula garantiu o dele.
Talvez esteja aí a explicação para a reação enérgica e rápida de um presidente que costuma defender os colegas pilhados em atos ilegais e recomendar paciência nas crises.

Palin: a mulher errada, a mensagem errada - por Gloria Steinem (Los Angeles Times)

Aqui está a notícia boa: as mulheres se tornaram politicamente tão poderosas que mesmo a direita anti-feminista -- os caras que tomaram conta do Partido Republicano -- estão tentando atraí-las com a primeira mulher vice presidente. Devemos isso às mulheres -- e muitos homens, também -- que fizeram piquetes, greve de fome e enfrentaram violência nas urnas para que as mulheres pudessem votar. Devemos à Shirley Chislom, que primeiro arrancou a placa "só homem branco" da Casa Branca, e à Hillary Rodham Clinton, que manteve a luta apesar de ridicularizada e da misoginia e obteve 18 milhões de votos.

Mas aqui está a notícia melhor: não vai funcionar. Não é a primeira vez que um chefe escolhe uma mulher não qualificada só porque ela concorda com ele e se opõe a tudo o que as mulheres querem e precisam. Feminismo nunca foi para arrumar emprego para uma mulher. Tem o objetivo de tornar a vida mais justa para as mulheres em todo lugar. Não é a briga por um pedaço de torta; há muitas de nós para isso. É sobre fazer uma nova torta.

Escolher Sarah Palin, que foi promovida durante todo o verão por Rush Limbaugh, não é a forma de atrair as mulheres, inclusive as fãs mais ardentes de Clinton. Palin só tem um cromossomo em comum com Clinton. O discurso divisivo e enganoso não fez nada para maquiar que a Convenção Republicana tem duas vezes mais delegados do que delegadas, um candidato presidencial que é possuído e manipulado pela direita e uma plataforma que se opõe a quase tudo o que a candidatura de Clinton era a favor -- que conta com o apoio de Barack Obama. Votar em protesto para McCain-Palin seria o mesmo que dizer: "Alguém roubou meus sapatos, sendo assim vou amputar minhas pernas".

Não estou batendo na Palin. Defendo o direito dela de estar errada, mesmo nas questões mais importantes para mim. Lamento que haja gente que diga que ela não dará conta do trabalho por causa dos filhos que precisam de cuidados, especialmente se essas pessoas não dizem o mesmo a respeito de um pai. Não tenho prazer de imaginá-la cobrada sobre questões políticas nacionais e internacionais nas quais não tem experiência, com um mês para aprender e competir com os 37 anos de experiência do senador Joe Biden.

Palin tem sido honesta sobre o que ela não sabe. Quando perguntaram a ela há um mês sobre a vice-presidência ela disse: "Ainda não posso responder até que alguém me responda: o que faz um vice-presidente exatamente, todos os dias?" Quando perguntaram a ela sobre o Iraque ela disse "ainda não me concentrei muito na guerra do Iraque".

Ela foi eleita governadora principalmente por causa da impopularidade do adversário e conquistou a maioria dos votos ao usar a riqueza do petróleo para dar um desconto de 1.200 dólares nos impostos de cada residente. Agora ela é elogiada por McCain como cortadora de impostos, apesar do fato de que no Alasca não há impostos estaduais ou ICMS. Ou McCain talvez esteja seguindo o hábito do governo Bush que, no Departamento de Justiça, colocou a visão dos candidatos sobre "Deus, armas e gays" adiante da competência. A diferença é que McCain está dando um emprego que está a uma batida de coração -- de 72 anos de idade -- da presidência.


Sejamos claros: o culpado é John McCain. Ele pode ter escolhido Palin com inveja da proposta de mudança ou a crença de que as mulheres não conseguem distingüir a diferença entre forma e conteúdo, mas o motivo principal foi para agradar aos ideólogos da extrema-direita; os mesmos que vetam qualquer um que não apóie a liberdade de reprodução. Se não fosse esse o caso, McCain teria escolhido uma mulher que sabe o que o vice-presidente faz e que pensou sobre o Iraque; alguém como a senadora Kay Bailey Hutchison, do Texas, ou a senadora Olympia Snowe, do Maine. McCain poderia ter dado um passo de bebê que fosse para se distanciar dos patriarcas da extrema-direita que determinam as ações dele, como a de se opor à Lei da Violência contra as Mulheres.

O valor de Palin para os patriarcas é claro: ela se opõe a praticamente todas as posições que as mulheres apóiam por maioria ou pluralidade. Ela acredita que o criacionismo deve ser ensinado em escolas públicas mas não acredita no aquecimento global; ela se opõe ao controle das armas mas apóia o controle do governo sobre o útero das mulheres; ela se opõe às pesquisas com células-tronco mas aprova os programas exclusivos de abstinência sexual, que resultam em aumento de crianças indesejadas, doenças sexualmente transmissíveis e abortos; ela tentou usar milhões do contribuinte para apoiar um programa estadual que mata lobos mas não gastou o suficiente para melhorar um sistema escolar que tem as piores notas da nação; ela forma chapa com um candidato que se opõe à Lei do Pagamento Justo mas que apóia dar 500 milhões de dólares de subsídios para fazer um gasoduto que atravessa o Alasca; ela apóia procurar petróleo na Reserva Nacional do Ártico, embora McCain tenha optado pelo menos ruim, buscar petróleo na costa. Ela é uma Phyllis Schlafly mais jovem.

Não coloco em dúvida a sinceridade dela. Como integrante da Associação Nacional dos Rifles ela não apóia apenas matar animais de helicópteros, ela mesma faz isso. Ela não apenas fala sobre aumentar o uso de combustíves fósseis mas coloca uma usina que queima carvão em sua pequena cidade de origem. Ela não apenas faz eco a McCain ao prometer criminalizar o aborto e derrubar a decisão da Suprema Corte que o sustenta; diz que se uma filha dela fosse engravidada por estupro ou incesto, teria o filho. Ela não apenas se opõe à liberdade de reprodução como um direito humano mas sugere que essa liberdade obriga ao aborto, quando também protege o direito de ter uma criança.

Até agora o grande apoio obtido por Palin é o de James Dobson, do grupo Foco em Família. Naturalmente. Para Dobson, "mulheres estão apenas esperando que seus maridos assumam a liderança", de maneira que o voto dele será para o marido de Palin.

Sendo uma esperançosa, no entanto, posso ver duas vantagens nessa disputa.

Os republicanos poderão aprender que não podem apelar ao mesmo tempo para os patriarcas da direita e a maioria das mulheres. Uma perda em novembro poderia fazer a maioria centrista dos republicanos retomar o controle do partido, que foi o primeiro a apoiar a Emenda dos Direitos Iguais e deveria ser o último a convidar o governo a entrar no útero das mulheres.

E as mulheres americanas, que sofrem mais por terem dois trabalhos em horário integral do que por qualquer outra injustiça, finalmente podem obter apoio nacional de líderes -- homens -- que sabem que as mulheres não podem ser iguais fora de casa enquanto os homens não foram iguais dentro. Barack Obama e Joe Biden fazem campanha na crença de que os homens deveriam estar, podem estar e querem estar em casa para os seus filhos.

Isso será muito importante

Gloria Steinem is an author, feminist organizer and co-founder of the Women's Media Center. She supported Hillary Clinton and is now supporting Barack Obama

Partido Republicano é o da classe trabalhadora - por David Frum (The Week)

Poucas coisas enraivecem mais os democratas que o sucesso consistente dos republicanos ao rotular os candidatos presidenciais democratas como privilegiados esnobes.

E este ano está acontecendo de novo.

John McCain pode ser filho e neto de almirantes, casado com uma mulher que tem um fortuna estimada em cerca de 100 milhões de dólares.

Mas é Barack Obama, filho de mãe solteira e neto de um pastor de cabras queniano quem sofreu o dano de ser percebido como aquele que é arrogante e distante. Como o [jornal humorístico] Onion manchetou: "Descrição de Obama como Elitista Saudada como Grande Passo Adiante para os Afro-Americanos". Os democratas ficarm incrédulos, esfumaçando de raiva.

Mas não há grande mistério.

Os americanos aceitam liderança política de homens ricos como Andrew Jackson a Arnold Schwarzenegger – desde que esses homens demonstrem que têm valores comuns com os vizinhos mais pobres. Mas qualquer sinal de que o candidato se acha superior cultural ou intelectualmente e -- pau! -- é o fim.

Agora compare as histórias de vida dos candidatos recentes a presidente e vice-presidente republicanos e democratas..

George H.W. Bush, Dan Quayle, Bob Dole, Jack Kemp, George W. Bush e Dick Cheney eram e são todos ricos e bem sucedidos. Mas nenhum deles deve a riqueza ou o sucesso primariamente à sua educação.

Compare essa lista com Bill Clinton, Al Gore, Joe Lieberman, John Kerry e John Edwards. Para quase todos esses democratas o evento decisivo de suas vidas foi a carta anunciando a admissão em alguma universidade ou faculdade de Direito da elite -- ou ambos.

O contraste entre Barack Obama e John McCain é, assim, familiar e claro: o acadêmico e o guerreiro, o brilhante presidente da [publicação] Harvard Law Review contra o galante prisioneiro de guerra.

E também é familiar e claro como o apoio a eles está distribuído.

O apoio ao Partido Democrata é o maior onde as conquistas da educação formal são maiores.

Dos dez estados com a maior proporção de formados em universidade Obama com certeza vence pelo menos em sete, com apenas Virgínia, Colorado e New Hampshire oferecendo qualquer esperança a McCain. Dos dez estados com a menor proporção de formados em universidade McCain vai provavelmente vencer em nove, com apenas Nevada em jogo.

As diferenças entre os estados não são pequenas. Quase 45% da população de Massachussets têm diploma universitário, comparados com apenas 14% da população da Virgínia Ocidental.

Os comentaristas da mídia habitualmente se negam a reconhecer as implicações da divisão de classes. Durante a Convenção Republicana eu passei várias vezes por uma placa do [programa de televisão] Daily Show em que estava escrito: "Bem vindos oligarcas ricos e brancos". Não importa que as pesquisas tenham mostrado que havia mais delegados democratas do que republicanos com renda superior a 100 mil dólares anuais.

Ainda que isso não seja avaliado, a classe social deverá ser decisiva ao determinar a reação dos eleitores com a situação pessoal da companheira de chapa de John McCain, a governadora do Alasca Sarah Palin.

[O consultor democrata Bob] Shrum despreza as posições de Palin como extremas e insiste que as eleitoras de Hillary Clinton vão rejeitá-las. Mas as eleitoras de Hillary -- muitas das quais são mais velhas e menos educadas -- podem descobrir que têm muito mais em comum com as batalhas pessoais de Sarah Palin do que com os triunfos pessoais de Barack Obama.

Desde 1990 os Estados Unidos com educação universitária experimentaram uma contra-revolução sexual. As chances de divórcio cairam muito entre as mulheres formadas e o nascimento de crianças de mães solteiras é incomum.

Para essas mulheres, a história de vida da família Palin pode parecer exótica, estranha. Nos Estados Unidos com diploma crianças podem engravidar aos 17 anos -- mas não levam a gravidez até o fim, nem casam com o pai. Casamento entre adolescentes aumenta as chances de divórcio; maternidade de adolescentes interfere com a edução e, assim, os Estados Unidos educados rejeitam ambos.

Nos Estados Unidos sem diploma, no entanto, ainda estamos nos anos 70. As chances de divórcio permanecem tão altas quanto antes e a taxa de partos de mães solteiras está acima de 25% -- mais alta do que entre negros quando Daniel Moynihan diagnosticou a crise da família negra nos anos 60. Para muitos deste grupo o caso de Palin vai se parecer com o de suas próprias famílias.

Com a indicação de Barack Obama os democratas intensificaram a sua imagem como o partido das minorias e dos Estados Unidos branco de classe alta. Entre os brancos, os democratas chamam votos dos mais educados, dos que tiveram sucesso em uma cultura pós-moderna desestabilizadora e na economia global.

Ao escolher Sarah Palin os republicanos, por contraste, reafirmaram sua identidade como o partido da classe trabalhadora branca dos Estados Unidos -- daqueles que se preocupam com ameaças culturais e econômicas contra suas famílias.

O uso que o [Bob] Shrum faz de "extremismo" não ajuda a esclarecer. Barack Obama, John McCain e agora Sarah Palin são candidatos da política de identidade, que atraem ou repelem por quem são tanto quanto pelo que dizem ou fazem.

— David Frum, a resident fellow at the American Enterprise Institute, is the author of six books, including most recently COMEBACK: Conservatism That Can Win Again. In 2001 and 2002, he served as a speechwriter and special assistant to President George W. Bush. In 2007, he served as senior foreign policy adviser to the Rudy Giuliani presidential campaign. He blogs daily at Frum.NationalReview.com.

Veja, Demos e o impeachment de Lula - por Altamiro Borges

Altamiro Borges: Veja, demos e o impeachment de Lula

Como ocorre em todo o período pré-eleitoral, a oposição golpista se assanha para evitar desastres nas urnas – ainda mais porque a popularidade do presidente Lula bate recorde, inclusive na antes inexpugnável São Paulo. A marola desta vez se dá em torno das denúncias, não comprovadas, do grampo da Agência Brasileira de Informações (Abin) nos telefonemas do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes. Para conter a sangria, o governo novamente recua e afasta, “temporariamente”, o comando da agência. A atitude, porém, não deve intimidar a sanha golpista da direita. O seu alvo não é a direção da Abin, mas sim o próprio presidente Lula.



por Altamiro Borges*, no Vermelho e no blog


A conspiração envolve figurinhas sinistras e carimbadas. A revista Veja, hoje o mais ativo antro da direita golpista, foi a primeira a “denunciar” a existência de um “estado policial” no governo Lula – logo ela que apoiou os generais “linha-dura” da ditadura. Numa reportagem apocalíptica, ela transcreve um anódino diálogo entre Gilmar Mendes e o senador-demo Demóstenes Torres e insinua que a escuta ilegal foi obra do governo. Não apresenta qualquer prova concreta, mas nem é preciso – foi assim na denúncia dos “dólares de Cuba” para o candidato Lula, das suas ligações com os “terroristas” das Farc, da remessa de dinheiro do filho do presidente para paraísos fiscais.



“Degradação institucional” de Mendes



Com base no escarcéu do panfleto da famíglia Civita, outra figura curiosa atraiu os holofotes. O ministro Gilmar Mendes atirou para matar no governo Lula. “Não há mais como descer na escala da degradação institucional. Gravar clandestinamente os telefonemas do presidente do STF é coisa de regime totalitário. É deplorável, ofensivo, indigno”, sentenciou. Seu destempero verbal confirma as sábias palavras do jurista Dalmo Dallari, pouco antes da indicação de Mendes para o STF. “Se for aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional”.



Em curto espaço de tempo, o advogado-geral da União no triste reinado de FHC e indicado por este para o TST já deu mostras das suas “afinidades”. Na sua posse, repleta de tucanos e demos, fez questão de atacar, gratuitamente, os movimentos sociais, em especial o MST. Ele também gosta de se meter na política, extrapolando suas funções de representante-mor do Judiciário. Mas seu gesto mais bombástico, que corrobora as palavras de Dallari, foi conceder dois habeas corpus ao mafioso Daniel Dantas. “Suprimir duas instâncias do Judiciário para soltar um banqueiro, dando-lhe foro privilegiado, não é degradação institucional?”, indaga o jornalista Gilson Caroni.



A digital do mafioso Daniel Dantas



Aqui entra em cena a terceira figura sinistra desta conspiração, o banqueiro Daniel Dantas. Alvo de investigações da Polícia Federal, ele nunca engoliu o então dirigente do órgão, Paulo Lacerda, agora rifado da Abin. O “garoto de ACM” e assessor do ex-PFL, que fez fortuna com a privataria de FHC, é famoso por contratar espiões para bisbilhotar políticos e por sua influência no poder e na mídia. A PF garante que ele controla uma bancada de 18 senadores e 70 deputados. O suposto grampo da Abin serve para tirá-lo do foco dos escândalos, para aliviar a barra de Gilmar Mendes e para salvar os seus lobistas no Senado, os demos Demóstenes Torres e Heráclito Fortes. “Pelo menos, sou da bancada de um bandido que produz e gera emprego”, confessa Heráclito Fortes.



De quebra, a complô Veja-Mendes-Dantas ajuda a elite burguesa corrupta e sonegadora, que não tolera algemas e investigações da Polícia Federal. O jornalista Paulo Henrique Amorim, o carma do mafioso, não vacila em afirmar que a espalhafatosa capa da Veja sobre o grampo ilegal serve a seus intentos. “Dantas destituiu o ínclito delegado Protógenes Queiroz, com a desculpa de que cometeu ‘excessos’. Dantas demite agora o Dr. Paulo Lacerda da Abin, numa patranha montada com a Veja e Gilmar Mendes”. O general Jorge Félix, que teve negado o seu pedido de demissão da chefia do Gabinete de Segurança Institucional, também não descarta esta hipótese sinistra.



Uma nova ofensiva golpista



Mas o maior desejo da direita golpista com toda esta história podre é desgastar o governo Lula e, se possível, criar uma nova onda pelo seu impeachment. Esta ofensiva viria a calhar num ano de eleições municipais, em que o bloco liberal-conservador está fragilizado e dividido e teme perder espaços para a sucessão presidencial de 2010. Os demos, mais raivosos, não escondem o intento. “Ou o presidente Lula toma uma atitude rápida e aponta os responsáveis pelo grampo, ou ficará como o responsável perante a sociedade e terá de responder com base na lei do impeachment”, explicitou o presidente nacional do DEM, o yuppie Rodrigo Maia, filhinho do prefeito carioca.



Já os tucanos, temendo um novo efeito bumerangue, marcaram reunião da executiva nacional do partido para “discutir o momento político e a crise entre os poderes”. Mas o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, já indicou o tom desta conversa. “Este tipo de atentado, além de ilegal, é uma grave ameaça contra os valores democráticos”. Um tucano notório, amigo do peito de FHC e serviçal da Veja, o jornalista Reinaldo Azevedo, também já voltou a soltar suas notinhas sobre “o impeachment de Lula”. Ou seja, as peças do quebra cabeça desta nova conspiração golpista vão se encaixando. Só a mídia venal, parte dela bancada por Daniel Dantas, finge não enxergar.

Nota da associação dos delegados federais da Polícia Federal

"A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal - ADPF repudia a vinculação da prática criminosa da espionagem clandestina com a legítima atividade investigativa da Polícia Federal.

Classificar monitoramentos ilegais supostamente realizados pela Agência Brasileira de Inteligência - Abin, conforme noticiado em matéria da revista 'Veja', de ações policialescas e típicas de um Estado Policial é uma ilação inaceitável.

O mais grave é verificar que autoridades públicas tão zelosas na preservação do princípio constitucional da inocência presumida em outras ocasiões, neste caso específico, não só julgaram e condenaram a instituição Abin, seus nobres dirigentes e competentes servidores, mas também tentam imputar à Polícia Federal uma conduta abusiva a merecer varas especializadas do Poder Judiciário.

Os delegados de Polícia Federal sempre defenderam que a interceptação das comunicações é privativa da Polícia Judiciária, vinculada ao inquérito policial, mediante ordem judicial, sob fiscalização do Ministério Público, com mecanismos tecnológicos de auditagem.

Infelizmente, numa completa inversão de valores, o princípio da presunção da inocência é aplicado a criminosos, mas sonegado às instituições de Estado".

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Carta enviada a todos os senadores

Já vi muita coisa tétrica na política nacional, coisa que eu teria dificuldade até de imaginar. Agora, o festival de excrescências promovidos pelos defensores de bandidos-ricos, digo, pelos deputados da CPI dos grampos entrará para a história do país!

E não é pela porta da frente, é claro, mas pelo esgoto.

Quanta, mas quanta excrescência!

Carta à Folha

Eu poderia na minha vida ser guiado por um pai ruim, isto seria péssimo. Ser governado por um FHC da vida, isto seria péssimo. Ter como chefe um carrasco. Isto seria péssimo. Às vezes acontece, e pormais que nos esforcemos, não conseguiremos mudar isto.
Agora, ser guiado pela Veja como a folha está sendo, não é péssimo. É imoral.


P.S: Correio enviado hoje.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Mendes, Veja e a degradação institucional - por Gilson Caroni Filho (Agência Cartamaior)

Qual terá sido o objetivo da reportagem de capa da revista Veja em sua edição de 03/09/2008? "Denunciar" que a Abin teria feito grampos ilegais nos telefones do ministro Gilmar Mendes e outras autoridades e, com isso, alertar à sociedade sobre a existência de um Estado Policial que ameaça as instituições democráticas? Ou, como alertou conhecido blog “paralisar as investigações da agência sobre conspirações deflagradas contra o Estado de Direito, inclusive aquelas perpetradas nas páginas da Veja, sobretudo durante a campanha eleitoral de 2006, mas também com evidências no caso do "dossiê anti-FHC" para derrubar a ministra Dilma?”.

Há linhas que valem mais do que mil editoriais. São as que revelam os objetivos de um texto e o descompromisso com a informação divulgada. Não comportam normas prescritas em códigos de ética, seguem tão-somente a lógica da promoção de eventos. Algo do tipo "domingo é dia de botar fogo no circo, criar uma crise artificial e colher os frutos ao longo da semana". Lógico, para tal empreitada contam com o apoio logístico de outros meios de comunicação, além da acolhida eufórica de alguns jornalistas-blogueiros.É o caso da matéria assinada pelos jornalistas Policarpo Junior e Expedito Júnior: ”A Abin gravou o ministro”.

Além de editorializarem as supostas denúncias, fazem afirmações sem um pingo de comprovação, baseadas em “fontes” não identificadas, e, e inventam fatos deslavadamente, como nesse trecho:” Desconfiado (o ministro Gilmar Mendes), solicitou à segurança do tribunal que providenciasse uma varredura. Os técnicos constataram a presença de sinais característicos de escutas ambientais, provavelmente de aparelhos instalados do lado de fora da corte." Mentira. A varredura feita pela segurança do STF não encontrou qualquer vestígio de escuta clandestina.

A degravação de uma conversa entre o presidente do Supremo e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) seria a prova da seriedade do "jornalismo investigativo" praticado por Veja. O fato de os dois confirmarem o diálogo significa a existência de grampo? Se confirmar, o que leva a crer que tenha sido feito pela Abin e não por alguém empenhado em atingir Paulo Lacerda, o diretor da Agência?

Pois bem, o relato impreciso da revista é o pretexto para Gilmar Mendes afirmar que "não há mais como descer na escala da degradação institucional. Gravar clandestinamente os telefonemas do presidente do Supremo Tribunal Federal é coisa de regime totalitário. É deplorável. É ofensivo. É indigno."

Se levarmos em conta que um juiz, principalmente quando preside a mais alta Corte do país, deve buscar o estabelecimento de conduta ética que lhe permita entender os limites de sua atuação profissional, as palavras de Mendes soam como incompatíveis com a natureza do cargo que exerce.

O que é descer na escala da degradação institucional? Em artigo publicado em 08 de maio de 2002, o jurista Dalmo Dallari foi muito assertivo ao tratar da indicação de Mendes ao STF, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso:

"Se vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional".

"A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha inadequada".

"Indignado com essas derrotas judiciais, o dr.Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um "manicômio judiciário".

Os trechos transcritos não são exemplos explícitos de degradação institucional?

Tão logo ascendeu (em processo formal, sem candidato, como é praxe na Corte) à presidência do STF, Gilmar Mendes tomou a iniciativa inédita de convocar a imprensa para, sem ter sido solicitado, deitar falação sobre o quadro político.

Logo após, deixou-se "perfilar" pela revista Serafina, da Folha de São Paulo, chegando ao ponto de ceder fotos de "álbum de família" e se deixar fotografar na residência. Isso não é incompatível com a liturgia do cargo? Não degrada a instituição que preside?

Durante o julgamento da aceitação da denúncia sobre o chamado “mensalão”, um fotógrafo do Globo, premeditadamente, (pois teve que se posicionar por trás da bancada dos meritíssimos) violou, e o jornal publicou, a correspondência privada entre dois ministros (Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia), capturando imagens das telas dos laptops dos dois em plena sessão. Na ocasião, nem Gilmar Mendes nem a oposição fizeram qualquer restrição contra o flagrante desrespeito à "majestade" da corte. Isso não é degradação institucional?

O que o Supremo tem feito ao legislar indevidamente sobre fidelidade partidária, uso de algemas, número de vereadores, verticalização das coligações e nepotismo deve ser encarado de que forma? Quando se superpõe aos demais poderes como se fosse legislador ou chefe de Estado, o judiciário não colabora substantivamente para a degradação institucional?

Seria interessante que Mendes esclarecesse por que nunca se falou que a Abin tivesse grampeado qualquer outro ministro do STF? Isso só entrou em voga - partindo dele próprio- "coincidentemente", depois da concessão de dois pedidos de hábeas corpus (o segundo, ignorando solenemente os motivos da prisão) em favor de Daniel Dantas. Suprimir duas instâncias do Judiciário para soltar o banqueiro, dando-lhe foro privilegiado, não é degradação institucional?

Não seria o caso também de se declarar impedido de participar do julgamento de Raposa do Sol, já que sua posição contrária à demarcação contínua é conhecida desde a época em que era advogado-geral da União, no governo FHC? Não lhe faltaria imparcialidade sem a qual é inevitável a degradação institucional?

Há quem defenda que juízes devem falar exclusivamente por meio dos autos. Ao conferir à linha editorial de Veja um caráter de “realismo jurídico" não estaria o ministro firmando uma perigosa jurisprudência? E isso, não seria descer ainda mais na escala da degradação institucional? Uma sociedade controlada por monopólios de mídia e um Judiciário que substitui os demais poderes não está à beira de um golpe de Estado. Já o vive em plenitude. É preciso estar atento à banda de música que toca a mesma marchinha desde os anos 1950. Com seus acordes a democracia vive à beira do precipício.

Dos comentários - Blog do Luis Nassif

Por JMP

Desculpem-me os mais radicais, mas Lula fez o que o Presidente do STF deveria ter feito. Seguiu a LEI, administrativamente.

O factóide de Veja não importa ao Presidente do Executivo, caberia ao Judiciário promover a obtenção de dados em conjunto com a Polícia Federal. Mas ao Judiciário a prova é insofismável, é de Veja.

Pois.

Lula recebeu a denúncia de outro Presidente, o Presidente do Judiciário. Repito, não importa se é crível ou não, não cabe ao Presidente do Executivo julgar se o Presidente do Judiciário é leviano ou não.

Um Presidente como Lula, apenas não eleito pelo povo, mas com poder ainda maior que o poder concedido ao Presidente do Executivo, é dele a palavra final. O que fez Lula??? Agiu!

Não demitiu ninguém, suspendeu Lacerda, administrativamente. Mas não o manteve na ativa, pois poderia ser suspeito de contaminar o processo.

O mesmo seria aplicável ao Daniel Dantas e ao seu já famoso Habeas Corpus, mas Lula não é Presidente do STF. Administrativamente, Lula fez o que Gilmar não fez! Tecnicamente e politicamente perfeito.

O futuro dirá.

Enviado por: José Almeida

Não adianta atacarem a Veja. Todos sabem do que ela é capaz, até o Lula. Então por que não reage? Esse é o ponto. Cobrem uma reação do presidente. Ele é que tem que falar. Ele é o eleito, o representante. A Veja faz o seu trabalho. Quero ver o Lula fazer o dele. Não é colocando o rabo entre as pernas ou como disse outro "atitude sensata". Ao inferno com atitudes sensatas. Quero fatos. Se é armação quero que o presidente vá até a TV e diga "Foi armação e os responsaveis são fulano e sicrano. Estão presos e vão ficar um bom tempo por zombar da democracia". O silencio do presidente o condena.

Enviado por: Carlos

Nassif,

Os responsáveis pela Operação Satiagraha encaminharam ao Juiz De Sanctis e este deferiu, dois pedido de prisão contra Daniel Dantas, para evitar que o banqueiro, de alguma forma, interferisse no andamento e conclusões da referida Operação. Gilmar Mendes soltou o empresário nas duas ocasiões, quando despachou favoravelmente, pela concessão dos habeas corpus impetrados pelos advogados do DD. Como conseqüência, tivemos a materialização de todas as previsões feitas pela cúpula da Satiagraha, com o envolvimento de órgãos da mídia e das oposições, na missão de inverter os papéis dos atores participantes da trama, incriminando-se as Autoridades da PF e inocentando-se Dantas e sua turma. Neste momento, temos um fato a ser apurado, que é o pretenso grampo que teriam sofrdto o Gilmar Mendes e o Senador Demo stenes. O que fez a Presidência da República ? Preventivamente, afastou a cúpula da ABIN, para evitar quaisquer possibilidades de interferências no inquérito a ser tocado pela Polícia Federal. Lula agiu corretamente evitando assim a emersão de eventuais acusações de contaminação no andamento do inquérito. Poder-se-ia dizer o mesmo a respeito das atitudes do Gilmar Mendes, levando-se em conta as conseqüências catastróficas da apressada dupla liberação de Dantas, que, pode ter sido o estopim que levou à explosão de todos esses fatos desabonadores que agora estamos sendo obrigados a assistir ?

Enviado por: Leonardo Bernardes

Nassif,

Não se deve às Instituições o respeito e a prudência que a lei nos constrange a reservar às pessoas? Por acaso a condição de Ministro desobriga o senhor Gilmar Mendes a respeitar as etapas do processo de investigação e julgamento e permite que ele sentencie os supostos culpados sem que tenha apresentado publicamente qualquer indício que comprove -- não sua suspeita, mas sua afirmação.

Eu acho que, no final das contas, ele está certo. Nós vivemos sim uma crise institucional, os mais elementares princípios da ética e do direito têm sido violados no interesse de viciar -- direta e indiretamente -- a operação Satiagraha. E o pior de tudo, isso acontece bem diante dos nossos olhos, sob o olhar conivente de grande parte da Imprensa. Nenhum país, nenhuma instituição, resiste a essa intervenções. Quando dispensamos os dispositivos que nos permitem distinguir fatos de hipóteses, eu me pergunto, quem decidirá, então, o que é um e o que é outro? No Brasil, a Veja.

Enviado por: Carlo

Nassif,

Os responsáveis pela Operação Satiagraha encaminharam ao Juiz De Sanctis e este deferiu, dois pedido de prisão contra Daniel Dantas, para evitar que o banqueiro, de alguma forma, interferisse no andamento e conclusões da referida Operação. Gilmar Mendes soltou o empresário nas duas ocasiões, quando despachou favoravelmente, pela concessão dos habeas corpus impetrados pelos advogados do DD. Como conseqüência, tivemos a materialização de todas as previsões feitas pela cúpula da Satiagraha, com o envolvimento de órgãos da mídia e das oposições, na missão de inverter os papéis dos atores participantes da trama, incriminando-se as Autoridades da PF e inocentando-se Dantas e sua turma. Neste momento, temos um fato a ser apurado, que é o pretenso grampo que teriam sofrdto o Gilmar Mendes e o Senador Demo stenes.

O que fez a Presidência da República ? Preventivamente, afastou a cúpula da ABIN, para evitar quaisquer possibilidades de interferências no inquérito a ser tocado pela Polícia Federal. Lula agiu corretamente evitando assim a emersão de eventuais acusações de contaminação no andamento do inquérito. Poder-se-ia dizer o mesmo a respeito das atitudes do Gilmar Mendes, levando-se em conta as conseqüências catastróficas da apressada dupla liberação de Dantas, que, pode ter sido o estopim que levou à explosão de todos esses fatos desabonadores que agora estamos sendo obrigados a assistir ?

Enviado por: Marco Vitis

Se o Presidente do Supremo entende que há uma "crise institucional" (só na cabeça dele), então que ele determine (bem ao seu estilo) que a Veja apresente as provas materiais e o autor da denúncia (suposto agente da ABIN). Resolve-se tudo rapidamente... Eu acredito que no final iremos ter uma situação parecida com a planilha da Dilma: o autor do vazamento era um senador do PSDB - Álvaro Dias, querendo criar uma crise política. Preparem-se: o tiro da Veja sairá pela culatra.


Comentário meu: o tiro sairá pela culatra. E ninguém da dita grande imprensa vai se importar com isto, será o mesmo festival de hipocrisia do "escândalo do dossiê". Não vai dar em nada, afinal, a direita no Brasil é inimputável.

domingo, 31 de agosto de 2008

Mendes e Veja reeditam plano Cohen - por PHA

http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=558 - por Paulo Henrique Amorim.

Poderes em conflito - por Wálter Fanganiello Maierovitch (Cartacapital)

Montesquieu dedicou catorze anos para escrever a obra intitulada O Espírito das Leis (L’ Espirit des Lois), publicada em 1748.

No 11º volume, está a tese da separação dos poderes. Isto a partir da idéia-mãe de que o “poder absoluto corrompe absolutamente”.

Para Montesquieu, o Estado conta com três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário, cada qual com incumbências específicas. Atacada pelos jesuítas, a obra entrou para o canônico Index Librorum Prohibitorum, em 1751. Mais, a obra não era recomendada na Sorbonne.

A sua doutrina da separação e da tripartição, no entanto, foi acolhida em várias constituições, incluídas as nossas republicanas, com destaque: “Os poderes são independentes e harmônicos”.

Muito respeitada e citada em todas as discussões sobre a forma do Estado, a tripartição não empolgou a Europa.

Nas democracias parlamentaristas, o Legislativo e o Executivo não são independentes um do outro. O chefe do Executivo está condicionado a um mandato conferido pelo Parlamento, que pode ser revogado por meio do chamado voto de desconfiança.

Nesse sistema, o chefe de governo fica sempre dependente da vontade do povo, representada pelo Parlamento. A magistratura não é considerada poder do Estado. Na Itália, por exemplo, a magistratura é uma “ordem autônoma e independente de cada poder” (art. 104 da Constituição italiana). Por dispositivo constitucional, “os juízes estão sujeitos apenas às leis” (art. 101 da referida Constituição).

Com efeito, nem o sistema da tripartição e separação preconizado por Montesquieu e adotado no Brasil nem o das democracias parlamentares européias evitam os conflitos entre parlamentares, governantes e magistrados.

Para se ter idéia, depois de a magistratura do Ministério Público de Milão promover, em 2002, um processo criminal contra o então premier Silvio Berlusconi, o ministro da Justiça do governo, Vincenzo Caianello, suspendeu a escolta aos magistrados integrantes do pool de procuradores coordenados por Saverio Borelli, chefe do Ministério Público milanês. No caso, alegou-se caber com exclusividade ao Executivo fornecer agentes e veículos para as escoltas.

No Brasil, com as recentes renovações e mudanças operadas no Supremo Tribunal Federal (STF), os conflitos entre os poderes se acentuaram. Por exemplo, ao reconhecer a infidelidade partidária, o STF fixou data certa para caracterizá-la. Assim, tomou o lugar do legislador. E as medidas provisórias, com trancamento de pauta, fizeram do Executivo um voraz legislador.

No supracitado e novo STF, também é bastante comum a antecipação de decisões, fora dos autos e do momento processual apropriado. Nesta semana, quando ainda se discutia em audiências públicas o caso de aborto em face de anencefalia, total ou parcial, os jornais já anunciavam as “tendências” de oito dos onze ministros da casa. O ministro Eros Grau, em entrevista exclusiva para a Folha de S.Paulo, sentenciou: “Já existem duas hipóteses de aborto na lei. Eu não posso criar uma terceira”.

Na segunda-feira 25, e pela mídia, muitos congressistas externaram os seus descontentamentos com o STF, que, nos casos de súmulas vinculantes a respeito de emprego de algemas e proibição ao nepotismo, teria invadido a competência do Legislativo.

O nepotismo, ainda que camuflado em contratação cruzada, atenta contra princípios constitucionais básicos, a comprometer a moralidade administrativa. Acontece que o STF não se limitou a declarar a inconstitucionalidade e olvidou competir ao Legislativo disciplinar a matéria por lei.

No que toca à súmula vinculante sobre algema, o fato de o Legislativo tardar em elaborar normas para impedir os notórios abusos, não abria ao STF uma competência legislativa subsidiária. Além do mais, a Constituição, no seu artigo 103-A introduzido pela emenda constitucional 45/2004, só permite a edição de súmula vinculante após reiteradas decisões do STF. O STF, ao sumular, apreciara apenas quatro casos. Por evidente, não se tratava de repetições constantes, permanentes.

Já se escreveu que a pior das ditaduras não é a do Executivo, mas a do Judiciário, quando este se sobrepõe aos demais poderes e passa, como se legislador ou chefe de governo fosse, a disciplinar a vida em sociedade, tudo sem contar com representação popular direta, ou seja, por meio de eleições.

No momento, há prenúncio de um novo dissenso entre o STF e a Presidência da República. Ou seja, no julgamento, pelo STF, do caso da demarcação, por decreto presidencial de maio de 2005, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. No âmbito das suas atribuições constitucionais, consoante a ratificada Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas (1993), o presidente Lula emitiu, em 2005, decreto a homologar a demarcação, em forma contínua, de área no extremo norte de Roraima, com 1,7 milhão de hectares, onde vivem cinco etnias, a totalizar 18 mil indígenas, aproximadamente.

Os critérios de conveniência e oportunidade competiam ao presidente da República. Destarte, ao STF não cabe uma decisão política sobre como seria conveniente demarcar a área, ou seja, de forma contínua ou com o estabelecimento de ilhas.

Na verdade, a ação popular em questão, já bem indeferida pelo voto do ministro-relator, Ayres Britto, procura jogar, para empolgar constitucionalmente, com a questão da (1) soberania na faixa de fronteira e do (2) risco de criação de um enclave, do tipo Tibete, Ossétia do Sul, Kosovo. Um enclave que, num futuro, poderia gerar conflito separatista em face da formação de uma nação indígena, a englobar atuais áreas brasileira e venezuelana. Ainda, como na Ossétia do Sul, onde 90% da população adotou a cidadania russa, os indígenas poderiam virar holandeses, ingleses, suecos etc., de modo a se ter o caldo para a internacionalização da Amazônia.

O STF, conforme a decisão dos ministros, poderá se tornar uma corte política, a tomar a função de Lula. E não será mais uma corte técnica, como desejável, e ensinado por Montesquieu.

A apoteose mental - por Luis Nassif

No factóide do grampo no Supremo, semanas antes, Veja pelo menos mostrou um relatório da segurança do órgão, que muitos leitores do Blog comprovaram ser tecnicamente falho. Não era possível garantir que houvera grampo, com base no que dizia. Um relatório não conclusivo foi matéria prima da tentativa de fabricação de um escândalo. E esse vazamento irresponsável mereceu declarações bombásticas do presidente do STF, Gilmar Mendes, contra o suposto "estado policial". O presidente do Supremo avalizando uma reportagem com conclusões irresponsáveis em cima de um relatório inconclusivo vazado pela própria instituição que ele preside.
Agora, na orquestração desta semana da Veja, não existe nada, nem papel oficial, nem documento, nem arquivo de som do tal grampo. Nem a garantia de que foi a ABIN a autora do suposto grampo. Chegou-se ao último limite da manipulação jornalistica.
E Gilmar Mendes fala em convocar o Supremo, em se aliar ao Congresso e chega ao cúmulo de se referir assim ao presidente de outro poder:
- "O próprio presidente Lula deve ser chamado às falas".
Até onde irá esse absurdo? Espero que os demais pares de Mendes não se curvem ao corporativismo e tenham a responsabilidade de preservar a dignidade e a história da instituição. Está-se entrando em um terreno perigoso de desmoralização das instituições e da lei. É tudo muito óbvio, em um momento em que as informações circulam sem controle. É evidente que esse movimento visa desmoralizar a Operação Satiagraha.
A revista apresenta relação de supostos grampeados, detalhes daqui e dali, e não existe um papel, um arquivo para corroborar suas acusações. Apenas menção a uma fonte da ABIN. A avalista da informação é uma revista que todo o mundo jornalístico sabe que há tempos abandonou qualquer veleidade de fazer jornalismo, enveredando inúmeras vezes pelo terreno da ficção.
E Gilmar entra de cabeça em todas. Se fosse a pessoa física, problema dele. Mas é o Supremo, meu Deus!
Espero que pessoas com história, como Eros Grau, Marco Aurélio de Mello, Celso de Mello e os novos juízes tenham a responsabilidade de reconduzir o STF ao seu leito natural, tirando-o dessa exploração absurda de fatos ou montados ou não suficientemente comprovados. No mínimo, que se posicione o STF para uma posição pública de cautela em relação aos fatos mencionados. Que se exija apuração, sim, mas que se desautorizem as afirmações taxativas e irresponsáveis de seu presidente. Pelo bem do STF e pelo bem do país.

Por luzete

E você como jornalista pensava que já havia visto de tudo, Nassif, tem mais esta:No estadão online:18:26 hs
Oposição ameaça pedir impeachment do presidente Lula
CHRISTIANE SAMARCO - Agencia Estado
BRASÍLIA - Além de pedir a demissão de toda a diretoria da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a oposição ameaça denunciar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por crime de responsabilidade, abrindo caminho para um processo de impeachment por conta da escuta clandestina da agência nos telefones dos presidentes do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e do Congresso, senador Garibaldi Alves (PMDB-RN).

Comentário

É a mais canhestra tentativa de golpe de estado da história do país. Como coisa que tivessem cacife para isso.
É sabido que a Satiagraha flagrou jornalistas, advogados, juizes e parlamentares. Cria-se uma crise do nada, ameaça-se com o impeachment do presidente - como se tivessem essa bola toda. Mas resolve-se tudo numa boa se o presidente afastar Paulo Lacerda, fornecer os elementos para a absolvição de Daniel Dantas e livrar todos os pobros cidadãos flagrados pela Satiagraha. Volta a paz, acaba o incômodo com o grampo de Gilberto Carvalho e a lei - ora a lei! A palavra final sobre a lei é do presidente do Supremo, ora.

Comentário meu: para ler a imperdível série de Luis Nassif sobre a veja, o caminho é: http://luis.nassif.googlepages.com/aentrevistadejanone

Sobre a história, a impunidade e a responsabilidade dos torturadores - por Flávio Koutzii (Agência Cartamaior)

É certo que não há a mais remota possibilidade de igualar quem lutou contra a ditadura com quem prendeu, torturou e matou pela ditadura. É certo que esta histórica tem começo, meio e fim. E o começo é o golpe de estado, a derrubada de um governo legal, a censura aos jornais, o fechamento dos partidos e a suspensão do estado de direito.



Há divergências jurídicas.
Há avaliação sobre as motivações e cálculos políticos.
Há os que apenas julgam da conveniência de tocar no assunto.
Há sempre o jogral dos analistas de oportunidade.
(Nunca é hora para eles)

Mas para os que não esqueceram:
Há um grito suspenso no ar.
Há uma dor infinita.
Há um tabu indecente.
Há um seqüestro invisível.
(A honra das Forças Armadas de hoje, reduzida a escudo silencioso, da responsabilidade não assumida das Forças Armadas de ontem no golpe)

É claro que os torturadores têm que ser responsabilizados.
É certo que a anistia não é igual à amnésia.
É evidente que a história não aceita ficar sem sentido, nem com censura, nem com cortes, como um filme proibido.
É certo que não há a mais remota possibilidade de igualar quem lutou contra a ditadura
com quem prendeu, torturou e matou pela ditadura.
É certo que esta história tem começo, meio e fim:

e o começo é o golpe de estado,
a derrubada de um governo legal,
a censura aos jornais,
o fechamento dos partidos,
a suspensão do estado de direito,
a perseguição implacável.

As Forças Armadas é quem deram o golpe (junto com seus aliados civis).
Aqui, a ordem dos fatores altera o produto e o significado.
Eles, a ditadura, nós, a resistência.
Então quem fica ofendido somos nós!
Nós - "os elementos" - cidadãos na nossa opinião, democratas,
porque lutamos para restaurá-la.
Espantados, com a covardia
dos que não assumem suas responsabilidades
Deram ou não o golpe?
Perseguiram ou não?
Torturaram ou não?
Então, por favor!!!
É inaceitável que as Forças Armadas de hoje fiquem reféns
de um passado ditatorial indefensável.
Na verdade, no Brasil, além dos "desaparecidos", há uma grande desaparecida:

A VERDADE HISTÓRICA

História, entendida como reconhecimento dos fatos,
a totalidade das circunstâncias.
A História em tempo real.
A História com muita luz e pouca sombra.
A História para e do povo brasileiro,
de todos os brasileiros: civis e militares.

Tudo, não para o maniqueísmo simplório,
mas para respeitar a dignidade e a tragédia
de um grande período da história recente do Brasil
dos vinte longos anos de chumbo.
Lamentavelmente as Forças Armadas propõem
a esquizofrenia como situação permanente.
Não assumem sua responsabilidade.
Desrespeitam o Poder Executivo (legitimado pelo voto).
Atuam como contra-poder.
Logo defendem o que foram.
Logo são hoje o que foram ontem.

Mas isto, não é bem assim.
Isto é uma memória doente.
Verdade amputada.
Simulação inaceitável.
Queremos que os jovens soldados e os jovens oficiais
sejam livrados destes grilhões enferrujados.
E se devolvam para este Brasil.
Impressionante de presente
Futuroso

E haverá que defendê-lo de muitas maneiras:
suas possibilidades,
seu petróleo,
sua Amazônia,
suas fronteiras,
sua economia
e acima de tudo:
sua gente brasileira,
seu futuro,
seu orgulho,
sua história.





Flávio Koutzii foi preso político, deputado estadual pelo PT/RS e chefe da Casa Civil do governo Olívio Dutra (RS).