Uma pequena história exemplar, sobre como dar sobrevida a chavões dos cabeças-de-planilha
Em junho passado, os economistas Thiago Rabelo Pereira e Adriano Nascimento Simões, do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) desenvolveram uma avaliação inovadora para estimar o custo fiscal líquido do empréstimo de R$ 100 bilhões concedido pelo Tesouro ao banco.
Publicaram um estudo de 50 páginas intitulado «O papel do BNDES na alocação de recursos: avaliação do custo fiscal do empréstimo de R$ 100 bilhões concedido pela União em 2009».
O pensamento cabeça-de-planilha sempre simplificou a conta fiscal dessas operações. Comparavam a taxa Selic (vista como custo de carregamento da dívida pelo Tesouro) com a TJLP (o indexador do BNDES para seus empréstimos). E, a partir daí, soltava um número qualquer sobre o custo fiscal do empréstimo.
O trabalho visava justamente questionar essa conta simplificada.
Primeiro, questionava a comparação direta entre Selic e TJLP. Mostrava o descasamento entre prazo médio dos empréstimos e a rolagem futura das dívidas do Tesouro; o fatio de metade da carteira de títulos ser indexada ao IPCA; a falta de mercado para apurar a trajetória futura da TJLP; o fato das operações pré-fixadas de títulos públicos embutirem uma taxa de risco futura, o que deturpava a visão correta do mercado sobre a evolução da Selic.
Depois, mostrava os ganhos que a União teria e que não eram considerados nessas análises. O fato da União ter um retorno sobre esses empréstimos sob forma de dividendos, tributos e da incorporação ao patrimônio do banco dos resultados auferidos com a intermediação financeira.
Todo esse esforço, que permite uma visão nova sobre a questão, foi deixado de lado pela mídia.
No dia 25 de junho, a repórter Vera Saavedra Durão publicou matéria no jornal O Valor com duas impropriedades. A primeira, foi considerar apenas a primeira parte da conta – o diferencial de juros -, fugindo totalmente do enfoque dado pelo trabalho, cujo objetivo era justamente questionar essa maneira simplificada de analisar a operação.
A segunda foi uma regra de três, aplicada pela repórter para estimar o custo do primeiro empréstimo (de R$ 100 bi) e do segundo (R$ 80 bi), o que elevou o custo anunciado para R$ 66,6 bi – que serviu para esquentar a manchete.
No dia 28, três dias depois, o jornal publicou uma carta de esclarecimentos do banco, questionando a maneira como a repórter chegou ao número mencionado – que não constava do estudo do banco – e ignorado as demais conclusões.
Na retificação, o jornal reduziu o valor estimado de R$ 66 bi para R$ 58,5 bi. Mas continuou ignorando o ponto central do trabalho.
Aí o Estadão, sem ler o trabalho mencionado, pegou a matéria do Valor e soltou um editorial em cima dos números apresentados (clique aqui)
O banco enviou nova carta de esclarecimentos, publicada no dia 7 de julho. Nela, alertava para o fato do editorial ter mencionado declarações do autor do trabalho – que ele nega ter feito – e desconsiderado o ponto central do trabalho que era justamente medir o efeito líquido do aumento de arrecadação menos o diferencial de juros da operação.
Só aí o jornal resolve consultar o trabalho, para poder responder à carta. Mais uma vez, selecionou trechos que se encaixavam no seu raciocínio e escondeu do leitor o ponto central da análise (clique aqui).
Por aí se percebe a enorme dificuldade em fugir dos bordões simplificadores de mercado.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
O fim da aposentadoria para magistrado punido - por PapaMideNitelV (Blog do Nassif)
Projeto de Ideli, que acaba com aposentadoria de juiz como punição, é aprovado
O plenário do Senado aprovou na quarta-feira (7), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 89/2003, da senadora Ideli Salvatti (PT-SC), que acaba com a aposentadoria de magistrados, como forma de punição para delitos.
A PEC, que na votação em segundo turno recebeu 52 votos favoráveis e nenhum contrário, também permite a perda de cargo do juiz ou membro do Ministério Público por decisão de dois terços dos membros do tribunal ou conselho ao qual estiver vinculado.
O texto agora segue para a Câmara dos Deputados.
Ideli afirma que a "punição" com aposentadoria de magistrados revela-se um absurdo, já que, em vez de funcionar como punição aos juízes que cometem graves irregularidades, funciona como verdadeiro prêmio.
A senadora afirma que a vitaliciedade é condição para o exercício da jurisdição de uma forma regular e de acordo com as normas legais, não devendo ser um obstáculo à responsabilização de quem comete desvios funcionais ou crimes. (Da Agência Senado)
O plenário do Senado aprovou na quarta-feira (7), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 89/2003, da senadora Ideli Salvatti (PT-SC), que acaba com a aposentadoria de magistrados, como forma de punição para delitos.
A PEC, que na votação em segundo turno recebeu 52 votos favoráveis e nenhum contrário, também permite a perda de cargo do juiz ou membro do Ministério Público por decisão de dois terços dos membros do tribunal ou conselho ao qual estiver vinculado.
O texto agora segue para a Câmara dos Deputados.
Ideli afirma que a "punição" com aposentadoria de magistrados revela-se um absurdo, já que, em vez de funcionar como punição aos juízes que cometem graves irregularidades, funciona como verdadeiro prêmio.
A senadora afirma que a vitaliciedade é condição para o exercício da jurisdição de uma forma regular e de acordo com as normas legais, não devendo ser um obstáculo à responsabilização de quem comete desvios funcionais ou crimes. (Da Agência Senado)
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O governador que não falava com seus secretários – por Luis Nassif
Em dezembro escrevi sobre o modo José Serra de governar. Com base em conversas com membros do secretariado, mostrei que era um governador ausente das decisões do seu governo, que raramente promovia reuniões com secretários, separadamente ou em conjunto, que jamais tocou um programa inter-secretarias. Cada secretário ficava em seu gueto tocando suas coisas sem sinergia sequer com outras secretarias, sem feed-banck nem cobranças da parte do governador, que não manifestava o menor interesse pelo que faziam.
Alguns avanços enormes na área de gestão pública - como a coordenação de programas entre vários agentes, do governo, setor privado e da sociedade - sequer passaram perto da gestão de Serra.
A maior prova é que, tendo toda a velha mídia à sua disposição, não conseguia contar o que seu governo - ou seja, seus secretários - fazia.
A notícia abaixo fala da ampliação do "Bolsa Família" estadual. O tema que interessa não é nem o do reajuste do valor. É a afirmação do Secretário Delben Leite de que faz dois anos que não conversa com Serra.
Da Folha
Após promessa, SP amplia seu "Bolsa Família"
DE SÃO PAULO
Um dia depois de José Serra (PSDB) anunciar que pretende duplicar o Bolsa Família, o governo de São Paulo anunciou a ampliação de seus principais programas de transferência de renda.
As bolsas do Renda Cidadã e do Ação Jovem subirão de R$ 60 para R$ 80.
No entanto, o gasto do Renda Cidadã previsto para 2010 (R$ 116 milhões) é igual ao do ano eleitoral de 2006. De 2007 a 2009 foram gastos, em média, cerca de R$ 100 milhões, segundo o governo.
O secretário de Assistência Social, Luiz Carlos Delben Leite, afirmou que o anúncio não tem a ver com a fala de Serra sobre o Bolsa Família: "Nem sabia disso! Faz dois anos que não falo com ele".
Conforme a Folha revelou em maio, o Renda Cidadã e o Ação Jovem encolheram sob a gestão de Serra como governador. O pagamento caiu de R$ 279,5 milhões, em 2006, para R$ 198,9 milhões em 2009. Considerada a inflação, a queda chega a 38%.
Na ocasião, a pasta de Assistência e Desenvolvimento Social atribuiu a queda à melhora da renda no Estado no período.
Alguns avanços enormes na área de gestão pública - como a coordenação de programas entre vários agentes, do governo, setor privado e da sociedade - sequer passaram perto da gestão de Serra.
A maior prova é que, tendo toda a velha mídia à sua disposição, não conseguia contar o que seu governo - ou seja, seus secretários - fazia.
A notícia abaixo fala da ampliação do "Bolsa Família" estadual. O tema que interessa não é nem o do reajuste do valor. É a afirmação do Secretário Delben Leite de que faz dois anos que não conversa com Serra.
Da Folha
Após promessa, SP amplia seu "Bolsa Família"
DE SÃO PAULO
Um dia depois de José Serra (PSDB) anunciar que pretende duplicar o Bolsa Família, o governo de São Paulo anunciou a ampliação de seus principais programas de transferência de renda.
As bolsas do Renda Cidadã e do Ação Jovem subirão de R$ 60 para R$ 80.
No entanto, o gasto do Renda Cidadã previsto para 2010 (R$ 116 milhões) é igual ao do ano eleitoral de 2006. De 2007 a 2009 foram gastos, em média, cerca de R$ 100 milhões, segundo o governo.
O secretário de Assistência Social, Luiz Carlos Delben Leite, afirmou que o anúncio não tem a ver com a fala de Serra sobre o Bolsa Família: "Nem sabia disso! Faz dois anos que não falo com ele".
Conforme a Folha revelou em maio, o Renda Cidadã e o Ação Jovem encolheram sob a gestão de Serra como governador. O pagamento caiu de R$ 279,5 milhões, em 2006, para R$ 198,9 milhões em 2009. Considerada a inflação, a queda chega a 38%.
Na ocasião, a pasta de Assistência e Desenvolvimento Social atribuiu a queda à melhora da renda no Estado no período.
Quando a limpeza não cheira bem – Por Ana Helena Tavares (Quem tem medo do Lula?)
A Itália, depois de promover uma perseguição política através da chamada operação “Mãos Limpas”, elegeu Silvio Berlusconi. Já uma lei do tipo na África do Sul não teria permitido a eleição de Nelson Mandela, cuja “ficha suja” envolvia condenação por “terrorismo”.
Como se sabe, a esquerda, embora progressista, não é toda democrática. Exultado pelos dois pólos da política, stalinista e fascista são alguns dos nomes que se aproximam perigosamente do chamado “Ficha Limpa”. O que é essa nova lei? Uma limpeza moral à força? Você? Se fosse um político arrependido de seus crimes não gostaria do direito à segunda chance?
De onde vem a idéia
Peço a quem puder que me cite uma ditadura que não tenha sido instaurada em nome do “combate à corrupção”. Um dos vídeos, criados ainda ano passado em defesa do projeto, é um primor de moralismo hipócrita. Apresenta a proposta de uma varredura que “faria com que os que os eleitores pudessem confiar (?) em quem votar e mudaria o país”. Em política, cruzadas desse tipo invariavelmente acabam em vitória da direita - e mais corrupção. A última que vingou por aqui (travestida de “Marcha pela família com Deus pela Liberdade”) eu ainda nem era nascida, mas sei bem que resultou em 20 anos de ditadura.
alista O jornalista e ex-deputado federal Marcos Rolim lembra: “Foi a ditadura militar que, com a Emenda Constitucional nº 1 e a Lei Complementar nº 5, estabeleceu a cassação dos direitos políticos e a inegibilidade por “vida pregressa””, disse Rolim em seu artigo “Boa intenção, má solução”, onde acusa ainda o projeto de legalizar a “presunção de culpa”.
Afinal, quem pode ser condenado por “vida pregressa” sem, ao menos, ter direito à sentença condenatória com trânsito em julgado, como quer a nova lei? Quem é “ficha limpa” no mundo e na política de hoje?
O Maluf que conseguiu provar inocência em todos os inquéritos nos quais foi processado e, por isso, não entra na roda? Ele votou a favor do projeto e está aí agora posando de justiceiro.
Taí um papel renegado pelo ministro Marco Aurélio Melo, único do TSE a votar contra a nova lei: “Eu não sou um justiceiro. Eu sou juiz. Aprendi desde cedo que no sistema brasileiro o direito posto visa a evitar que o cidadão tenha sobre a sua cabeça uma verdadeira espada de Dâmocles. Aprendi que a lei não apanha fatos passados.” Isso é o que reza o artigo 5º da nossa Constituição, ao afirmar que a “lei não pode retroagir em detrimento do acusado”.
No final das contas, uma lei desnecessária
Aprendi recentemente com o consagrado jurista, Dr. Hélio Pereira Bicudo, que esse artigo é quebrável por crimes imprescritíveis, como a tortura e o seqüestro contínuo. Crimes de lesa-humanidade. Só. E, segundo o mesmo Dr. Hélio, para o caso específico de eleições, é quebrável também pelo “princípio da inelegibilidade”, apresentado no artigo 14, parágrafo 9, da Constituição de 88, que reza que: “Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada a vida pregressa do candidato (...)”.
É esse o artigo usado em defesa da lei pelo “Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral”, responsável pela organização do projeto na sociedade civil e que o chama de “democrático radical”. E é esse o artigo que faz Dr. Hélio chamar a lei de “obsoleta”.
O respeitável jornalista Jânio de Freitas resumiu, em seu artigo “Ficha Limpa” (Folha de S. Paulo, 13 de Maio de 2010): “Trata-se de um projeto de iniciativa popular, cuja aprovação vale como uma advertência para a presença desse direito na Constituição.” Ou seja, já existia. Mas será mesmo válida essa “advertência”?
Pesando os prós e contras
Apesar de assumi-la como dispensável e muito provavelmente inútil, e, mesmo admitindo que “O candidato pode não ter sido condenado criminalmente, mas ter sua vida partilhada de circunstâncias que comprometem uma probidade imprescindível para o exercício de um mandato público”, em artigos recentes, Dr. Hélio tem se mostrado simpático à nova lei, porque considera legítima e bem intencionada a iniciativa popular. Legítima, sem dúvida, é. O problema é que o diabo mora nos detalhes e é inegável que lá também mora com ele um sem número de pessoas “bens intencionadas”.
Jânio de Freitas também acha que a lei tem pontos a serem considerados como vitória. “É um caso raro de aprovação contra o interesse de grande número de parlamentares”, garante. Será mesmo? A quem serve a desmoralização da classe política senão aos próprios políticos que se vêem beneficiados pelo desinteresse de um povo que vota por mera obrigação?
Compreendo e integro a indignação popular diante do fato de políticos usarem o mandato para escapar da punição por seus crimes. Indignação que levou à atitude extrema da criação de tal lei. Não há, no entanto, nada que me convença de que este seja o caminho.
Tal como o Dr. Hélio Bicudo, o advogado Erick Wilson Pereira também considera a lei desnecessária, alegando, porém, outros motivos: "O Brasil é a única democracia no mundo que precisa de uma lei para dizer que os políticos precisam ter ficha limpa. Ter vida pregressa idônea é uma obrigação do agente público. Porém não se pode inverter os valores democráticos. Afinal o grau de civilidade de uma nação se mede pelo princípio da presunção de inocência."
A presunção de inocência e a condenação sumária
O professor de Direito Penal, Túlio Viana, em seu desabafo “Sobre o projeto Ficha Limpa”, vai mais longe: “Se o “ficha-limpa” não fere a presunção de inocência (defendida pelo art.5º LVII da nossa Constituição), é pior ainda, pois vão tolher a exigibilidade do cidadão mesmo sendo inocente. Êh argumento jurídico bão: nós continuamos te considerando inocente, mas não vamos te deixar candidatar mesmo assim! Que beleza! Ou o cara é presumido inocente ou é presumido culpado. Não tem meio termo. Muitos dos corruptos brasileiros possuem “ficha limpa” – especialmente os mais espertos, que não deixam rastros. Por outro lado, várias lideranças sindicais brasileiras possuem condenações em segunda instância por “crimes” que envolveram participação em greves ou em lutas populares; devemos impedir que se candidatem?”, indagou Viana.
Como se vê, a polêmica idéia trata-se de uma aberração, que, pelo mundo, tem apresentado resultados com efeito contrário. A Itália, por exemplo, depois de promover uma perseguição política através da chamada operação “Mãos Limpas”, elegeu Silvio Berlusconi. Tão limpo quanto Maluf. Já uma lei do tipo na África do Sul não teria permitido a eleição de Nelson Mandela, cuja “ficha suja” envolvia condenação por “terrorismo”.
No vídeo citado no início deste texto, o jurista Aristides Junqueira alega que “diferentemente do que em direito penal, no direito eleitoral impera a precaução sobre a presunção”. Por que essa diferença? Não seria a “precaução” uma forma de condenação sumária?
“Ordem e precaução”
Muito se fala em “pôr ordem na casa”. E eu pergunto: a que tem se prestado a palavra “ordem” em nossa história? O que é o “choque de ordem”, de Eduardo Paes, atual prefeito do Rio de Janeiro, senão a criminalização da pobreza? O que foi o Departamento de Ordem Pública e Social (vulgo DOPS), instaurado por nossa ditadura militar, senão uma caçada a “terroristas”, como Mandela? Pode-se citar ainda episódios desconhecidos de nossa história, mas que, certamente, não foram os únicos. O que foi a “Operação mata-mendigo” (bem contada no filme “Topografia de um desnudo”), que, na década de 60, objetivou “pôr ordem” na cidade do Rio para visita da Rainha Elizabeth? Os mendigos foram brutalmente torturados e jogados no rio Guandu. Policiais e funcionários do então Governo da Guanabara foram indiciados. Porém, com o Golpe de 64, os inquéritos foram todos arquivados e o episódio quase apagado da história do Brasil.
Será incontável o número de artifícios malabaríticos que, já tão usados pelos políticos, surgirão ainda com mais freqüência, como drible para a “mão pesada” da nova lei. Já se tem notícia, por exemplo, de um que candidatou a esposa. É o incentivo a esse tipo de “precaução laranja”, à sujeira encoberta por debaixo do pano para melhor ludibriar o eleitor, que buscamos para nossa sociedade e política?
Por que (e para que) será?
Será que os pequenos delitos diários, não condenáveis pela justiça, não corrompem muito mais nossa política? É muito fácil demonizar os políticos. E nossa “grande mídia” é a primeira a atirar todas as pedras. Por que será? Imaginem se Lula vetasse a lei. Seria massacrado nas capas dos jornalões, ainda mais do que já é. E se fosse proposto um projeto “Ficha Limpa” para a profissão de jornalista, quantos sobrariam? Haja hipocrisia!
Tamanha foi a pressão popular, convenientemente apoiada pela mídia, que todos os deputados votaram pela aprovação do projeto. Ops... Menos um, que, com medo da reação da opinião pública, se apressou em alegar “ter trocado os botões no painel de votação por cansaço”. Os eleitores se enganam, porém, quando imaginam que a nova lei impedirá a reeleição de figuras como Renan Calheiros, José Sarney ou Fernando Collor. Todos estão em dia com a Justiça, a começar por Collor, que se elegeu senador depois de ficar inelegível por oito anos, situação em que se encontram os ex-deputados José Dirceu e Roberto Jefferson.
“E os casos de compra de voto e abuso do poder econômico?”, é o que indaga o ex-deputado José Dirceu em seu artigo “A mídia em mais uma de suas jogadas”. De fato, estes casos raramente levam a condenações. Por que não se tem coragem de falar em reforma política? Uma reforma que proporcionasse reais mudanças na legislação sobre as eleições, no sistema de financiamento das campanhas, nos guetos que ainda permitem que votos sejam trocados por dentadura?
Será que alguém já parou para pensar que a aprovação do projeto significou dar poder de veto de candidaturas às oligarquias regionais, que controlam a maioria dos Tribunais de Justiça e os Tribunais Regionais Eleitorais? Por que não se discute a sério uma reforma no Judiciário que proporcionasse maior rapidez nos julgamentos, não apenas impedindo a candidatura dos corruptos, mas fazendo com que eles de fato fossem condenados e presos?
Por que não pensarmos antes em educar a população, desde as classes mais básicas do ensino, levando-lhe ao entendimento de que o eleitor é o agente responsável pelas mudanças de uma nação, que é ele que detém nas mãos o verdadeiro poder e mostrando-lhe o caminho para saber escolher melhor seus representantes? Se houver a conscientização de que voto é direito e não dever, para que mesmo uma lei que impõe ao povo o que é ou não condenável?
Hitler tinha a ficha limpa?
Numa atitude desesperada e destemperada, em grande parte repleta de boas intenções, foi o próprio povo que a avalizou. Faltou lembrar que Hitler, o senhor da “mobilização popular”, tão pregada pelo movimento (“radical democrático”) que deu origem ao projeto, era um exemplo de “moral e bons costumes”: para aproximar sua figura a de Gandhi, Goebbles, ministro da Propaganda de Hitler, o “vendia” como vegetariano, enquanto, alertam historiadores, “ele comia macarrão recheado com carne picante e coberto com molho de tomate”. Na busca por “pureza”, não bebia, não fumava.
Estão claras as diferenças contextuais: o Fürer alemão foi um ditador. Mas que, em nome da busca por uma “raça pura” – ou “limpa”, não faz muita diferença – gozou de grande popularidade em sua terra.
Ana Helena Tavares, jornalista por paixão, futura jornalista com diploma. Editora-chefe do blog "Quem tem medo do Lula?".
Como se sabe, a esquerda, embora progressista, não é toda democrática. Exultado pelos dois pólos da política, stalinista e fascista são alguns dos nomes que se aproximam perigosamente do chamado “Ficha Limpa”. O que é essa nova lei? Uma limpeza moral à força? Você? Se fosse um político arrependido de seus crimes não gostaria do direito à segunda chance?
De onde vem a idéia
Peço a quem puder que me cite uma ditadura que não tenha sido instaurada em nome do “combate à corrupção”. Um dos vídeos, criados ainda ano passado em defesa do projeto, é um primor de moralismo hipócrita. Apresenta a proposta de uma varredura que “faria com que os que os eleitores pudessem confiar (?) em quem votar e mudaria o país”. Em política, cruzadas desse tipo invariavelmente acabam em vitória da direita - e mais corrupção. A última que vingou por aqui (travestida de “Marcha pela família com Deus pela Liberdade”) eu ainda nem era nascida, mas sei bem que resultou em 20 anos de ditadura.
alista O jornalista e ex-deputado federal Marcos Rolim lembra: “Foi a ditadura militar que, com a Emenda Constitucional nº 1 e a Lei Complementar nº 5, estabeleceu a cassação dos direitos políticos e a inegibilidade por “vida pregressa””, disse Rolim em seu artigo “Boa intenção, má solução”, onde acusa ainda o projeto de legalizar a “presunção de culpa”.
Afinal, quem pode ser condenado por “vida pregressa” sem, ao menos, ter direito à sentença condenatória com trânsito em julgado, como quer a nova lei? Quem é “ficha limpa” no mundo e na política de hoje?
O Maluf que conseguiu provar inocência em todos os inquéritos nos quais foi processado e, por isso, não entra na roda? Ele votou a favor do projeto e está aí agora posando de justiceiro.
Taí um papel renegado pelo ministro Marco Aurélio Melo, único do TSE a votar contra a nova lei: “Eu não sou um justiceiro. Eu sou juiz. Aprendi desde cedo que no sistema brasileiro o direito posto visa a evitar que o cidadão tenha sobre a sua cabeça uma verdadeira espada de Dâmocles. Aprendi que a lei não apanha fatos passados.” Isso é o que reza o artigo 5º da nossa Constituição, ao afirmar que a “lei não pode retroagir em detrimento do acusado”.
No final das contas, uma lei desnecessária
Aprendi recentemente com o consagrado jurista, Dr. Hélio Pereira Bicudo, que esse artigo é quebrável por crimes imprescritíveis, como a tortura e o seqüestro contínuo. Crimes de lesa-humanidade. Só. E, segundo o mesmo Dr. Hélio, para o caso específico de eleições, é quebrável também pelo “princípio da inelegibilidade”, apresentado no artigo 14, parágrafo 9, da Constituição de 88, que reza que: “Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada a vida pregressa do candidato (...)”.
É esse o artigo usado em defesa da lei pelo “Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral”, responsável pela organização do projeto na sociedade civil e que o chama de “democrático radical”. E é esse o artigo que faz Dr. Hélio chamar a lei de “obsoleta”.
O respeitável jornalista Jânio de Freitas resumiu, em seu artigo “Ficha Limpa” (Folha de S. Paulo, 13 de Maio de 2010): “Trata-se de um projeto de iniciativa popular, cuja aprovação vale como uma advertência para a presença desse direito na Constituição.” Ou seja, já existia. Mas será mesmo válida essa “advertência”?
Pesando os prós e contras
Apesar de assumi-la como dispensável e muito provavelmente inútil, e, mesmo admitindo que “O candidato pode não ter sido condenado criminalmente, mas ter sua vida partilhada de circunstâncias que comprometem uma probidade imprescindível para o exercício de um mandato público”, em artigos recentes, Dr. Hélio tem se mostrado simpático à nova lei, porque considera legítima e bem intencionada a iniciativa popular. Legítima, sem dúvida, é. O problema é que o diabo mora nos detalhes e é inegável que lá também mora com ele um sem número de pessoas “bens intencionadas”.
Jânio de Freitas também acha que a lei tem pontos a serem considerados como vitória. “É um caso raro de aprovação contra o interesse de grande número de parlamentares”, garante. Será mesmo? A quem serve a desmoralização da classe política senão aos próprios políticos que se vêem beneficiados pelo desinteresse de um povo que vota por mera obrigação?
Compreendo e integro a indignação popular diante do fato de políticos usarem o mandato para escapar da punição por seus crimes. Indignação que levou à atitude extrema da criação de tal lei. Não há, no entanto, nada que me convença de que este seja o caminho.
Tal como o Dr. Hélio Bicudo, o advogado Erick Wilson Pereira também considera a lei desnecessária, alegando, porém, outros motivos: "O Brasil é a única democracia no mundo que precisa de uma lei para dizer que os políticos precisam ter ficha limpa. Ter vida pregressa idônea é uma obrigação do agente público. Porém não se pode inverter os valores democráticos. Afinal o grau de civilidade de uma nação se mede pelo princípio da presunção de inocência."
A presunção de inocência e a condenação sumária
O professor de Direito Penal, Túlio Viana, em seu desabafo “Sobre o projeto Ficha Limpa”, vai mais longe: “Se o “ficha-limpa” não fere a presunção de inocência (defendida pelo art.5º LVII da nossa Constituição), é pior ainda, pois vão tolher a exigibilidade do cidadão mesmo sendo inocente. Êh argumento jurídico bão: nós continuamos te considerando inocente, mas não vamos te deixar candidatar mesmo assim! Que beleza! Ou o cara é presumido inocente ou é presumido culpado. Não tem meio termo. Muitos dos corruptos brasileiros possuem “ficha limpa” – especialmente os mais espertos, que não deixam rastros. Por outro lado, várias lideranças sindicais brasileiras possuem condenações em segunda instância por “crimes” que envolveram participação em greves ou em lutas populares; devemos impedir que se candidatem?”, indagou Viana.
Como se vê, a polêmica idéia trata-se de uma aberração, que, pelo mundo, tem apresentado resultados com efeito contrário. A Itália, por exemplo, depois de promover uma perseguição política através da chamada operação “Mãos Limpas”, elegeu Silvio Berlusconi. Tão limpo quanto Maluf. Já uma lei do tipo na África do Sul não teria permitido a eleição de Nelson Mandela, cuja “ficha suja” envolvia condenação por “terrorismo”.
No vídeo citado no início deste texto, o jurista Aristides Junqueira alega que “diferentemente do que em direito penal, no direito eleitoral impera a precaução sobre a presunção”. Por que essa diferença? Não seria a “precaução” uma forma de condenação sumária?
“Ordem e precaução”
Muito se fala em “pôr ordem na casa”. E eu pergunto: a que tem se prestado a palavra “ordem” em nossa história? O que é o “choque de ordem”, de Eduardo Paes, atual prefeito do Rio de Janeiro, senão a criminalização da pobreza? O que foi o Departamento de Ordem Pública e Social (vulgo DOPS), instaurado por nossa ditadura militar, senão uma caçada a “terroristas”, como Mandela? Pode-se citar ainda episódios desconhecidos de nossa história, mas que, certamente, não foram os únicos. O que foi a “Operação mata-mendigo” (bem contada no filme “Topografia de um desnudo”), que, na década de 60, objetivou “pôr ordem” na cidade do Rio para visita da Rainha Elizabeth? Os mendigos foram brutalmente torturados e jogados no rio Guandu. Policiais e funcionários do então Governo da Guanabara foram indiciados. Porém, com o Golpe de 64, os inquéritos foram todos arquivados e o episódio quase apagado da história do Brasil.
Será incontável o número de artifícios malabaríticos que, já tão usados pelos políticos, surgirão ainda com mais freqüência, como drible para a “mão pesada” da nova lei. Já se tem notícia, por exemplo, de um que candidatou a esposa. É o incentivo a esse tipo de “precaução laranja”, à sujeira encoberta por debaixo do pano para melhor ludibriar o eleitor, que buscamos para nossa sociedade e política?
Por que (e para que) será?
Será que os pequenos delitos diários, não condenáveis pela justiça, não corrompem muito mais nossa política? É muito fácil demonizar os políticos. E nossa “grande mídia” é a primeira a atirar todas as pedras. Por que será? Imaginem se Lula vetasse a lei. Seria massacrado nas capas dos jornalões, ainda mais do que já é. E se fosse proposto um projeto “Ficha Limpa” para a profissão de jornalista, quantos sobrariam? Haja hipocrisia!
Tamanha foi a pressão popular, convenientemente apoiada pela mídia, que todos os deputados votaram pela aprovação do projeto. Ops... Menos um, que, com medo da reação da opinião pública, se apressou em alegar “ter trocado os botões no painel de votação por cansaço”. Os eleitores se enganam, porém, quando imaginam que a nova lei impedirá a reeleição de figuras como Renan Calheiros, José Sarney ou Fernando Collor. Todos estão em dia com a Justiça, a começar por Collor, que se elegeu senador depois de ficar inelegível por oito anos, situação em que se encontram os ex-deputados José Dirceu e Roberto Jefferson.
“E os casos de compra de voto e abuso do poder econômico?”, é o que indaga o ex-deputado José Dirceu em seu artigo “A mídia em mais uma de suas jogadas”. De fato, estes casos raramente levam a condenações. Por que não se tem coragem de falar em reforma política? Uma reforma que proporcionasse reais mudanças na legislação sobre as eleições, no sistema de financiamento das campanhas, nos guetos que ainda permitem que votos sejam trocados por dentadura?
Será que alguém já parou para pensar que a aprovação do projeto significou dar poder de veto de candidaturas às oligarquias regionais, que controlam a maioria dos Tribunais de Justiça e os Tribunais Regionais Eleitorais? Por que não se discute a sério uma reforma no Judiciário que proporcionasse maior rapidez nos julgamentos, não apenas impedindo a candidatura dos corruptos, mas fazendo com que eles de fato fossem condenados e presos?
Por que não pensarmos antes em educar a população, desde as classes mais básicas do ensino, levando-lhe ao entendimento de que o eleitor é o agente responsável pelas mudanças de uma nação, que é ele que detém nas mãos o verdadeiro poder e mostrando-lhe o caminho para saber escolher melhor seus representantes? Se houver a conscientização de que voto é direito e não dever, para que mesmo uma lei que impõe ao povo o que é ou não condenável?
Hitler tinha a ficha limpa?
Numa atitude desesperada e destemperada, em grande parte repleta de boas intenções, foi o próprio povo que a avalizou. Faltou lembrar que Hitler, o senhor da “mobilização popular”, tão pregada pelo movimento (“radical democrático”) que deu origem ao projeto, era um exemplo de “moral e bons costumes”: para aproximar sua figura a de Gandhi, Goebbles, ministro da Propaganda de Hitler, o “vendia” como vegetariano, enquanto, alertam historiadores, “ele comia macarrão recheado com carne picante e coberto com molho de tomate”. Na busca por “pureza”, não bebia, não fumava.
Estão claras as diferenças contextuais: o Fürer alemão foi um ditador. Mas que, em nome da busca por uma “raça pura” – ou “limpa”, não faz muita diferença – gozou de grande popularidade em sua terra.
Ana Helena Tavares, jornalista por paixão, futura jornalista com diploma. Editora-chefe do blog "Quem tem medo do Lula?".
20 anos sem João Saldanha - por Paulo Kautscher (PCB)
Em 12 de julho de 1990, portanto, há vinte anos, falecia na UTI do Hospital Santo Eugênio, em Roma, vítima de insuficiência respiratória e embolia pulmonar, João Saldanha, camarada admirado por todo o coletivo partidário em virtude de sua dedicação à luta pelo socialismo e o comunismo em nosso país. Aos interesses populares e nacionais, para cuja realização o PCB sempre empregou o melhor de suas energias, pagando um alto preço desde março de 1922, Saldanha entregou sua inteligência, caráter e valentia, comprometendo gravemente sua saúde.
Em 1935, aos dezoito anos de idade, João e seu irmão Aristides aderiram ao programa da Aliança Nacional Libertadora, atraídos pelo movimento internacional de resistência ao nazi-fascismo e de combate aos planos belicistas do imperialismo alemão. Do antifascismo, Saldanha evoluiu ideologicamente até aderir ao marxismo-leninismo.
Em 1945, pouco após o estabelecimento de relações diplomáticas do Brasil com a União Soviética e a libertação de mais de cem militantes comunistas, Saldanha ingressou no Partido, passando a atuar num dos Comitês Populares Democráticos criados pelo Partido, organizações de massa incumbidas de organizar um vasto conjunto de atividades. Saldanha também ingressou no Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), organização intersindical que resultou da aliança de comunistas e getulistas. Aos 28 anos de idade, Saldanha era o mais jovem secretário político dos comitês distritais do PCB, no Distrito Federal. Em maio de 1947, a ilegalização do Partido representou um duríssimo golpe para o proletariado brasileiro, travando, pela violência, o movimento de elevação da sua consciência e da sua organização. Em abril de 1949, tendo sido ferido à bala pela polícia, durante uma atividade de protesto contra a fundação da OTAN e os preparativos da III Guerra Mundial, Saldanha tornou-se funcionário do Partido. Nesta condição, ele assumiu tarefas de grande envergadura e responsabilidade no Estado do Paraná e no Estado de São Paulo, tanto na luta contra a grilagem de terra, na organização de sindicatos no campo, quanto na aplicação da nova linha política para o trabalho sindical, nos anos de 1952-1953, e que culminou na greve histórica de março de 1953.
Numa situação política mais favorável, a partir de 1956, Saldanha projetou-se como grande personalidade do desporto nacional, conquistando a admiração popular. Em 1960, afastando-se do exercício direto das atividades esportivas, Saldanha assumiu importante tarefa na imprensa de massa do Partido. Não demorou a ingressar no jornalismo esportivo, assumindo um papel de liderança inegável. O Golpe de 1964 encontrou-o no jornal Última Hora, veículo odiado pela reação e o imperialismo. Vítima, como tantos outros, da ação de delatores, Saldanha foi demitido da Rádio Nacional. O exercício da atividade de comentarista de futebol, na condição de mais brilhante e influente do país, jamais o afastou do PCB. Justamente por representar um obstáculo aos objetivos demagógicos da ditadura militar, Saldanha foi demitido do cargo de treinador do escrete nacional, em março de 1970.
Nos períodos mais difíceis para o Partido, quando o regime fascista buscava exterminá-lo, Saldanha, valendo-se dos meios proporcionados por sua profissão, prestou valiosa contribuição nas tarefas de enlace entre a direção no país e o Comitê Central no exterior. A partir de 1978, cumpriu diversas tarefas de envergadura à frente do CEBRADE, com vistas ao apoio à luta de massas pelo derrubamento da ditadura militar. Num momento de eclosão da gravíssima crise ideológica e de organização, após o retorno dos membros do CC, Saldanha rechaçou as posições do eurocomunismo, aproximando-se de Luiz Carlos Prestes, mas não abdicando da luta pela unidade partidária. Em 1985, na sequência de uma série de tarefas de agitação pela conquista da legalidade do Partido, nos estertores do fascismo, e apesar da saúde precária, Saldanha aceitou a missão de representar o PCB na chapa de esquerda nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro. Concorrendo ao cargo de vice-prefeito, Saldanha contribuiu para a conquista de expressiva votação. Quando morreu em julho de 1990, Saldanha era membro do Comitê Central. Saldanha, coerente com a visão humanista do futebol, foi um extraordinário desportista, símbolo do mais puro amadorismo, e maior jornalista esportivo de nossa história.
A recordação deste grande brasileiro, patriota e revolucionário proletário, passados vinte anos de sua morte, deve servir-nos de exemplo de conduta partidária. A ação do Partido, objetivando a educação política da classe operária e das massas populares, inseparáveis da elevação de sua organização e mobilização, é uma ação coletiva. É no processo da luta de classes que o Partido cria raízes no povo, e, ao mesmo tempo, educa e tempera cada um dos seus membros. Saldanha, como honesto e dedicado militante partidário, sabia que a força do Partido resulta de uma justa linha política e do trabalho real, concreto, junto às massas trabalhadoras. A recordação da atividade de Saldanha, no seio do Partido, deve servir-nos de estudo e estímulo para o cumprimento dos objetivos do PCB, nos dias atuais, caracterizados por complexa e difícil correlação de forças, com tantas dificuldades a vencer na conquista da unidade e da mobilização das massas proletárias contra o jugo do capital.
Em 1935, aos dezoito anos de idade, João e seu irmão Aristides aderiram ao programa da Aliança Nacional Libertadora, atraídos pelo movimento internacional de resistência ao nazi-fascismo e de combate aos planos belicistas do imperialismo alemão. Do antifascismo, Saldanha evoluiu ideologicamente até aderir ao marxismo-leninismo.
Em 1945, pouco após o estabelecimento de relações diplomáticas do Brasil com a União Soviética e a libertação de mais de cem militantes comunistas, Saldanha ingressou no Partido, passando a atuar num dos Comitês Populares Democráticos criados pelo Partido, organizações de massa incumbidas de organizar um vasto conjunto de atividades. Saldanha também ingressou no Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), organização intersindical que resultou da aliança de comunistas e getulistas. Aos 28 anos de idade, Saldanha era o mais jovem secretário político dos comitês distritais do PCB, no Distrito Federal. Em maio de 1947, a ilegalização do Partido representou um duríssimo golpe para o proletariado brasileiro, travando, pela violência, o movimento de elevação da sua consciência e da sua organização. Em abril de 1949, tendo sido ferido à bala pela polícia, durante uma atividade de protesto contra a fundação da OTAN e os preparativos da III Guerra Mundial, Saldanha tornou-se funcionário do Partido. Nesta condição, ele assumiu tarefas de grande envergadura e responsabilidade no Estado do Paraná e no Estado de São Paulo, tanto na luta contra a grilagem de terra, na organização de sindicatos no campo, quanto na aplicação da nova linha política para o trabalho sindical, nos anos de 1952-1953, e que culminou na greve histórica de março de 1953.
Numa situação política mais favorável, a partir de 1956, Saldanha projetou-se como grande personalidade do desporto nacional, conquistando a admiração popular. Em 1960, afastando-se do exercício direto das atividades esportivas, Saldanha assumiu importante tarefa na imprensa de massa do Partido. Não demorou a ingressar no jornalismo esportivo, assumindo um papel de liderança inegável. O Golpe de 1964 encontrou-o no jornal Última Hora, veículo odiado pela reação e o imperialismo. Vítima, como tantos outros, da ação de delatores, Saldanha foi demitido da Rádio Nacional. O exercício da atividade de comentarista de futebol, na condição de mais brilhante e influente do país, jamais o afastou do PCB. Justamente por representar um obstáculo aos objetivos demagógicos da ditadura militar, Saldanha foi demitido do cargo de treinador do escrete nacional, em março de 1970.
Nos períodos mais difíceis para o Partido, quando o regime fascista buscava exterminá-lo, Saldanha, valendo-se dos meios proporcionados por sua profissão, prestou valiosa contribuição nas tarefas de enlace entre a direção no país e o Comitê Central no exterior. A partir de 1978, cumpriu diversas tarefas de envergadura à frente do CEBRADE, com vistas ao apoio à luta de massas pelo derrubamento da ditadura militar. Num momento de eclosão da gravíssima crise ideológica e de organização, após o retorno dos membros do CC, Saldanha rechaçou as posições do eurocomunismo, aproximando-se de Luiz Carlos Prestes, mas não abdicando da luta pela unidade partidária. Em 1985, na sequência de uma série de tarefas de agitação pela conquista da legalidade do Partido, nos estertores do fascismo, e apesar da saúde precária, Saldanha aceitou a missão de representar o PCB na chapa de esquerda nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro. Concorrendo ao cargo de vice-prefeito, Saldanha contribuiu para a conquista de expressiva votação. Quando morreu em julho de 1990, Saldanha era membro do Comitê Central. Saldanha, coerente com a visão humanista do futebol, foi um extraordinário desportista, símbolo do mais puro amadorismo, e maior jornalista esportivo de nossa história.
A recordação deste grande brasileiro, patriota e revolucionário proletário, passados vinte anos de sua morte, deve servir-nos de exemplo de conduta partidária. A ação do Partido, objetivando a educação política da classe operária e das massas populares, inseparáveis da elevação de sua organização e mobilização, é uma ação coletiva. É no processo da luta de classes que o Partido cria raízes no povo, e, ao mesmo tempo, educa e tempera cada um dos seus membros. Saldanha, como honesto e dedicado militante partidário, sabia que a força do Partido resulta de uma justa linha política e do trabalho real, concreto, junto às massas trabalhadoras. A recordação da atividade de Saldanha, no seio do Partido, deve servir-nos de estudo e estímulo para o cumprimento dos objetivos do PCB, nos dias atuais, caracterizados por complexa e difícil correlação de forças, com tantas dificuldades a vencer na conquista da unidade e da mobilização das massas proletárias contra o jugo do capital.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
O mal-estar da grande mídia - Glauco Cortez (blog do Nassif)
Há um certo mal-estar na grande mídia brasileira. Há descuidos ideológicos, politicagem sem um mínimo bom senso, campanha política de baixo nível, uma insatisfação, uma certa ira, um leve desencantamento, uma agressividade ansiosa.
A grande mídia parece uma fera, que sabe de seu poder, mas se sente um pouco acuada.
Esse mal-estar não afeta somente o jornalismo, mas também a tolerância e a liberdade de imprensa. A mídia começa a usar e abusar do Poder Judiciário contra pessoas que noticiam ou emitem opiniões com críticas a ela. Freud talvez diria que é um mal-estar provocado pelo nascimento de um irmão mais novo. Talvez.
Na realidade, há possivelmente inúmeras razões para a situação em que se encontra a grande mídia, mas longe da psicanálise, algumas considerações podem ser feitas.
A primeira é o próprio desenvolvimento democrático do Brasil. Há no país, apesar de ter apenas 20 anos de democracia, o retorno de uma pressão muito grande por demandas sociais, que estão sendo parcialmente atendidas pelo governo. Isso deveria ser orgulho para a grande mídia, que sempre criticou e mostrou as mazelas do país. No entanto, há um sabor amargo e um certo rancor, visto que essas demandas sociais e democráticas acabam tangenciando os latifúndios cartoriais da mídia. Há, portanto, um mal-estar pelos avanços democráticos e sociais.
Há também um mal-estar provocado pelo desenvolvimento tecnológico, pela internet e outras mídias, pelo barateamento da produção gráfica e audiovisual. Há muita gente com capacidade técnica e tecnológica para produzir conteúdo, há muita gente com possibilidade de publicação e distribuição de conteúdo por meio de novas tecnologias. Isso afeta diretamente a grande mídia porque as pessoas começam a comparar, analisar e questionar a qualidade e as omissões. Começa a haver certa concorrência de conteúdo, que não é exatamente uma concorrência econômica.
Há menos de uma década, a Folha de S.Paulo noticiou que um jovem músico entrou em um estúdio de rádio e, com um revólver em punho, exigiu que o locutor tocasse as músicas de sua banda. Esse era o único meio de dar visibilidade ao seu trabalho artístico. Hoje há novas possibilidades tecnológicas de distribuição, principalmente a internet, que transforma tal fato em algo pré-histórico. Esse poder centralizador da distribuição cultural está ruindo e isso provoca inevitavelmente um mal-estar.
O surgimento da ferramenta de publicação dos blogs é outra potencialização do mal-estar. Há uma grande quantidade de blogs bem estruturados em processos e conhecimentos de comunicação e jornalismo, além de inúmeros outros com a qualidade simples, mas primordial de um bom texto, uma boa análise ou inesperada criatividade. Exemplos não faltam: Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, Rodrigo Vianna, Blog do Mello, Luís Nassif, Na Maria News, Eduardo Guimarães, Rovai, portal Vermelho, Carta Maior, FNDC e tantos outros que nem dá para inumerar, mas que dissecam a relação entre a mídia e o poder. Há um mal-estar pela sensação de não só pautar, mas também ser a pauta.
Há um mal-estar político e com o governo Lula. É um governo que não prejudicou e nem enfrentou a mídia durante os dois mandatos, mas também não é facilmente domesticado, enquadrado. Há um certo mal-estar porque parece que a mídia culpa o governo por não a socorrer no momento em que o mar parece agitado. Mas há também um mal-estar por apostar em um projeto político da oposição (PSDB/DEM) que está completamente vazio de utopia, é um projeto de manutenção das desigualdades sociais travestido de sonhos gerado pelo marketing político. É um projeto que não pode pegar a bandeira da igualdade, da justiça e nem da fraternidade, moralidade, ética ou mesmo da gestão pública. É um projeto que, no fundo, visa manter o status quo. E isso é desagradável.
Há um mal-estar também na mídia porque parece que parte do povo, essa entidade, desprendeu-se do seu cabresto. Há uma certa insatisfação e angústia com a impotência das ações da própria mídia no que diz respeito à sua capacidade de convencimento, de direcionamento. É um mal-estar que beira a insanidade e gera frases como "o povo está contra a opinião pública".
Há um mal-estar por ter de dialogar e de se confrontar de igual para igual com blogs, sites e empresas sem grande capital financeiro. É algo como: "quem é esse Zé mané que está me criticando sem o meu filtro, sem minha permissão?" ou "quem é esse povinho que agora diz quem eu sou e como deve ser o jornalismo?" É aquele mal-estar de ter de falar de igual para igual com quem sempre lhe foi subalterno.
Por fim, há um profundo mal-estar porque estamos em um processo de reorganização das formas produtivas de comunicação. É possível que o capitalismo continue o mesmo na fábrica de sabonete, na usina de aço ou na indústria têxtil, mas há uma profunda mudança econômica e produtiva em andamento na indústria da cultura e isso inevitavelmente provoca uma incerteza, uma angústia, um certo medo.
A má notícia para a grande mídia é que isso parece ser só o começo. Quando organizações sociais, sindicatos e grupos utópicos de diversos setores da sociedade entenderem que a comunicação não é simplesmente um front de guerra, mas um espaço de mediação cultural que se porta como uma instância de superação da consciência de classes, de superação da consciência de grupo, aí as transformações serão muito mais aceleradas, muito mais intensas.
A grande mídia parece uma fera, que sabe de seu poder, mas se sente um pouco acuada.
Esse mal-estar não afeta somente o jornalismo, mas também a tolerância e a liberdade de imprensa. A mídia começa a usar e abusar do Poder Judiciário contra pessoas que noticiam ou emitem opiniões com críticas a ela. Freud talvez diria que é um mal-estar provocado pelo nascimento de um irmão mais novo. Talvez.
Na realidade, há possivelmente inúmeras razões para a situação em que se encontra a grande mídia, mas longe da psicanálise, algumas considerações podem ser feitas.
A primeira é o próprio desenvolvimento democrático do Brasil. Há no país, apesar de ter apenas 20 anos de democracia, o retorno de uma pressão muito grande por demandas sociais, que estão sendo parcialmente atendidas pelo governo. Isso deveria ser orgulho para a grande mídia, que sempre criticou e mostrou as mazelas do país. No entanto, há um sabor amargo e um certo rancor, visto que essas demandas sociais e democráticas acabam tangenciando os latifúndios cartoriais da mídia. Há, portanto, um mal-estar pelos avanços democráticos e sociais.
Há também um mal-estar provocado pelo desenvolvimento tecnológico, pela internet e outras mídias, pelo barateamento da produção gráfica e audiovisual. Há muita gente com capacidade técnica e tecnológica para produzir conteúdo, há muita gente com possibilidade de publicação e distribuição de conteúdo por meio de novas tecnologias. Isso afeta diretamente a grande mídia porque as pessoas começam a comparar, analisar e questionar a qualidade e as omissões. Começa a haver certa concorrência de conteúdo, que não é exatamente uma concorrência econômica.
Há menos de uma década, a Folha de S.Paulo noticiou que um jovem músico entrou em um estúdio de rádio e, com um revólver em punho, exigiu que o locutor tocasse as músicas de sua banda. Esse era o único meio de dar visibilidade ao seu trabalho artístico. Hoje há novas possibilidades tecnológicas de distribuição, principalmente a internet, que transforma tal fato em algo pré-histórico. Esse poder centralizador da distribuição cultural está ruindo e isso provoca inevitavelmente um mal-estar.
O surgimento da ferramenta de publicação dos blogs é outra potencialização do mal-estar. Há uma grande quantidade de blogs bem estruturados em processos e conhecimentos de comunicação e jornalismo, além de inúmeros outros com a qualidade simples, mas primordial de um bom texto, uma boa análise ou inesperada criatividade. Exemplos não faltam: Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Altamiro Borges, Rodrigo Vianna, Blog do Mello, Luís Nassif, Na Maria News, Eduardo Guimarães, Rovai, portal Vermelho, Carta Maior, FNDC e tantos outros que nem dá para inumerar, mas que dissecam a relação entre a mídia e o poder. Há um mal-estar pela sensação de não só pautar, mas também ser a pauta.
Há um mal-estar político e com o governo Lula. É um governo que não prejudicou e nem enfrentou a mídia durante os dois mandatos, mas também não é facilmente domesticado, enquadrado. Há um certo mal-estar porque parece que a mídia culpa o governo por não a socorrer no momento em que o mar parece agitado. Mas há também um mal-estar por apostar em um projeto político da oposição (PSDB/DEM) que está completamente vazio de utopia, é um projeto de manutenção das desigualdades sociais travestido de sonhos gerado pelo marketing político. É um projeto que não pode pegar a bandeira da igualdade, da justiça e nem da fraternidade, moralidade, ética ou mesmo da gestão pública. É um projeto que, no fundo, visa manter o status quo. E isso é desagradável.
Há um mal-estar também na mídia porque parece que parte do povo, essa entidade, desprendeu-se do seu cabresto. Há uma certa insatisfação e angústia com a impotência das ações da própria mídia no que diz respeito à sua capacidade de convencimento, de direcionamento. É um mal-estar que beira a insanidade e gera frases como "o povo está contra a opinião pública".
Há um mal-estar por ter de dialogar e de se confrontar de igual para igual com blogs, sites e empresas sem grande capital financeiro. É algo como: "quem é esse Zé mané que está me criticando sem o meu filtro, sem minha permissão?" ou "quem é esse povinho que agora diz quem eu sou e como deve ser o jornalismo?" É aquele mal-estar de ter de falar de igual para igual com quem sempre lhe foi subalterno.
Por fim, há um profundo mal-estar porque estamos em um processo de reorganização das formas produtivas de comunicação. É possível que o capitalismo continue o mesmo na fábrica de sabonete, na usina de aço ou na indústria têxtil, mas há uma profunda mudança econômica e produtiva em andamento na indústria da cultura e isso inevitavelmente provoca uma incerteza, uma angústia, um certo medo.
A má notícia para a grande mídia é que isso parece ser só o começo. Quando organizações sociais, sindicatos e grupos utópicos de diversos setores da sociedade entenderem que a comunicação não é simplesmente um front de guerra, mas um espaço de mediação cultural que se porta como uma instância de superação da consciência de classes, de superação da consciência de grupo, aí as transformações serão muito mais aceleradas, muito mais intensas.
No laboratório de Serra – por Marcelo Coelho (Folha de São Paulo)
Se a escolha do vice já foi tão espinhosa, como haveria de ser a montagem de seu ministério?
Há muitas teorias para explicar a derrota da seleção na África do Sul. Dou a todas o crédito da minha ignorância. Qualquer uma é razoável; o fiasco brasileiro não constitui, provavelmente, a notícia mais enigmática destes dias. Acho mais intrigante o processo de escolha do vice na chapa de José Serra, que deu no deputado Índio da Costa (DEM-RJ).
Recapitulando. Foi uma sequência de rumores e balões de ensaio, de hipóteses e fórmulas mágicas, formando uma verdadeira escalação de futebol.
Aécio Neves, Francisco Dornelles e Álvaro Dias; Jarbas Vasconcelos, Itamar Franco e José Roberto Arruda; Kátia Abreu e Tasso Jereissati; Valéria Pires Franco, ex-vice-governadora do Pará, e Patrícia Amorim, presidente do Flamengo. Não pensaram no Belluzzo? É um time para Dunga nenhum botar defeito.
Uns dias a mais e o próprio Dunga poderia ter sido cogitado. Aplaudiram-no em sua volta ao país; é popular; é sério; é realista; sua ficha, ao que consta, é limpa; veste-se com apuro, não gosta de demagogia e já não promete muita coisa.
Ademais, Dunga não deve ter críticas à exploração do pré-sal, nunca falou em plebiscito sobre a pena de morte, e há de considerar radical demais a proposta de multar os cidadãos que deem esmolas na rua. Três pontos que o tornam mais moderado, ou menos exótico, do que Índio da Costa.
Multar quem dá esmolas! Em matéria de Estado policial, creio que nunca se imaginou ameaça tão severa contra as classes privilegiadas.
Brincadeiras à parte, o problema da escolha de um vice nunca é fácil de resolver. Há sempre a questão dos palanques estaduais, o tempo na TV, a composição com os demais partidos da aliança.
Provavelmente, tudo ficou mais complicado para o PSDB por alguns motivos de ordem política e outros de ordem pessoal.
Passo rapidamente pela questão política. A candidatura Serra hesita entre a identidade puramente oposicionista (Álvaro Dias reforçaria isso) e o perigo de confrontar-se com a popularidade de Lula. A situação partidária força uma aliança à direita (Dornelles e Kátia Abreu seriam os nomes adequados), mas o clima predominante é redistributivista e pró-Estado, e o próprio Serra se sente desconfortável quando levado a defender o oposto.
O vice do tucano, assim, teria de ser precisamente alguém que não significasse nada, que não inclinasse a balança para nenhum lado.
A questão não é apenas política, mas também pessoal. Fulano? Não suporta Serra. Beltrano? Serra não o engole.
Ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite, e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele.
Fico lembrando a velha história do casamento da Dona Baratinha, com fita no cabelo e dinheiro na caixinha, recusando um a um os pretendentes ao noivado. A mensagem psicanalítica do conto infantil não é outra senão a da fobia ao sexo; haveria em Serra, incrivelmente, algo como uma fobia à política, ou pelo menos à negociação política, à convivência política. Não o recrimino; talvez seja apenas um individualismo levado ao extremo.
Tanto, que ele se dispõe a acumular o cargo presidencial com o de superintendente da Sudene, e não sei com que outro ministério. Imagino que gostaria também de ser o secretário do Planejamento e presidente do Banco Central. Se a escolha do vice foi tão espinhosa, como haveria de ser a montagem do ministério?
Entendo melhor, assim, o estranhíssimo e desastrado conselho de Serra à Índio da Costa, recomendando-lhe que tivesse amantes, desde que com discrição. Traduzindo em termos políticos, Serra não acredita na fidelidade dos aliados, mas espera que não apareçam, que fiquem à sombra, que não existam.
Índio da Costa quase não existe. Olho suas fotos: é um belo rapagão moreno, não muito diferente de Aécio Neves, com a vantagem de não ser Aécio Neves.
O enigma se dissolve: é como se ele fosse um similar, ou um genérico, de Aécio. Trata-se do remédio sem marca para os males de Serra. Famoso hipocondríaco, foi o tucano quem criou os medicamentos genéricos, e não por coincidência: nenhum nome próprio, nenhuma marca conhecida, nenhuma singularidade identificável pode subsistir ao lado de Serra. Surge então Índio da Costa, o vice de todos os vices, prontinho do laboratório. É só engolir.
Comentário
Só um leve deslizo do autor do texto: não foi Serra quem inventou os genéricos. Além disso, não foi Serra quem inventou o programa de combate a AIDS (ele se apropria do legado de Jamil Hadad e Adib Jatene, ex-ministros da saúde do Brasil – na verdade, pegou as boas práticas que se realizavam e as transformou em peça de marketing). E muito menos quem criou o FAT (decreto de Sarney).
Há muitas teorias para explicar a derrota da seleção na África do Sul. Dou a todas o crédito da minha ignorância. Qualquer uma é razoável; o fiasco brasileiro não constitui, provavelmente, a notícia mais enigmática destes dias. Acho mais intrigante o processo de escolha do vice na chapa de José Serra, que deu no deputado Índio da Costa (DEM-RJ).
Recapitulando. Foi uma sequência de rumores e balões de ensaio, de hipóteses e fórmulas mágicas, formando uma verdadeira escalação de futebol.
Aécio Neves, Francisco Dornelles e Álvaro Dias; Jarbas Vasconcelos, Itamar Franco e José Roberto Arruda; Kátia Abreu e Tasso Jereissati; Valéria Pires Franco, ex-vice-governadora do Pará, e Patrícia Amorim, presidente do Flamengo. Não pensaram no Belluzzo? É um time para Dunga nenhum botar defeito.
Uns dias a mais e o próprio Dunga poderia ter sido cogitado. Aplaudiram-no em sua volta ao país; é popular; é sério; é realista; sua ficha, ao que consta, é limpa; veste-se com apuro, não gosta de demagogia e já não promete muita coisa.
Ademais, Dunga não deve ter críticas à exploração do pré-sal, nunca falou em plebiscito sobre a pena de morte, e há de considerar radical demais a proposta de multar os cidadãos que deem esmolas na rua. Três pontos que o tornam mais moderado, ou menos exótico, do que Índio da Costa.
Multar quem dá esmolas! Em matéria de Estado policial, creio que nunca se imaginou ameaça tão severa contra as classes privilegiadas.
Brincadeiras à parte, o problema da escolha de um vice nunca é fácil de resolver. Há sempre a questão dos palanques estaduais, o tempo na TV, a composição com os demais partidos da aliança.
Provavelmente, tudo ficou mais complicado para o PSDB por alguns motivos de ordem política e outros de ordem pessoal.
Passo rapidamente pela questão política. A candidatura Serra hesita entre a identidade puramente oposicionista (Álvaro Dias reforçaria isso) e o perigo de confrontar-se com a popularidade de Lula. A situação partidária força uma aliança à direita (Dornelles e Kátia Abreu seriam os nomes adequados), mas o clima predominante é redistributivista e pró-Estado, e o próprio Serra se sente desconfortável quando levado a defender o oposto.
O vice do tucano, assim, teria de ser precisamente alguém que não significasse nada, que não inclinasse a balança para nenhum lado.
A questão não é apenas política, mas também pessoal. Fulano? Não suporta Serra. Beltrano? Serra não o engole.
Ninguém é bom o bastante para que Serra o aceite, e ninguém é tão ruim que não possa rivalizar com ele.
Fico lembrando a velha história do casamento da Dona Baratinha, com fita no cabelo e dinheiro na caixinha, recusando um a um os pretendentes ao noivado. A mensagem psicanalítica do conto infantil não é outra senão a da fobia ao sexo; haveria em Serra, incrivelmente, algo como uma fobia à política, ou pelo menos à negociação política, à convivência política. Não o recrimino; talvez seja apenas um individualismo levado ao extremo.
Tanto, que ele se dispõe a acumular o cargo presidencial com o de superintendente da Sudene, e não sei com que outro ministério. Imagino que gostaria também de ser o secretário do Planejamento e presidente do Banco Central. Se a escolha do vice foi tão espinhosa, como haveria de ser a montagem do ministério?
Entendo melhor, assim, o estranhíssimo e desastrado conselho de Serra à Índio da Costa, recomendando-lhe que tivesse amantes, desde que com discrição. Traduzindo em termos políticos, Serra não acredita na fidelidade dos aliados, mas espera que não apareçam, que fiquem à sombra, que não existam.
Índio da Costa quase não existe. Olho suas fotos: é um belo rapagão moreno, não muito diferente de Aécio Neves, com a vantagem de não ser Aécio Neves.
O enigma se dissolve: é como se ele fosse um similar, ou um genérico, de Aécio. Trata-se do remédio sem marca para os males de Serra. Famoso hipocondríaco, foi o tucano quem criou os medicamentos genéricos, e não por coincidência: nenhum nome próprio, nenhuma marca conhecida, nenhuma singularidade identificável pode subsistir ao lado de Serra. Surge então Índio da Costa, o vice de todos os vices, prontinho do laboratório. É só engolir.
Comentário
Só um leve deslizo do autor do texto: não foi Serra quem inventou os genéricos. Além disso, não foi Serra quem inventou o programa de combate a AIDS (ele se apropria do legado de Jamil Hadad e Adib Jatene, ex-ministros da saúde do Brasil – na verdade, pegou as boas práticas que se realizavam e as transformou em peça de marketing). E muito menos quem criou o FAT (decreto de Sarney).
Como funciona a CBF – por blog do Nassif
Por ORRAIO
Caro Nassif, não tenho a mínima noção de como funciona a CBF, e tenho certeza de que não estou sozinho nesta ignorância. O que é e como funciona a CBF? Para quem presta contas? Quem elege seu presidente? Quanto ele ganha? O que pode e o que não pode fazer?
Acho que cabe uma grande reportagem sobre isso.
Por Gilberto Cruvinel
O Globo Repórter sobre a CPI da CBF
(o texto abaixo explica poque a Globo fez o Globo Reporter sobre a CPI da CBF e é de autoria do usuário que postou os videos acima)
" Em Agosto de 2001, O "Globo Reporter" mostrou um documentário de jornalismo investigativo sobre o que a CPI do Congresso Nacional provou a respeito de quem é quem na CBF, o que realmente acontecia por trás das cortinas e mostrou quem é o maior dirigente do futebol Brasileiro, RICARDO TEXEIRA.
Mostrou seu enriquecimento, mostrou quanto ele tinha antes do futebol e quanto depois, que movimentou em ações do mercado capital até R$ 2.355.607,00 (Dois BILHÕES, trezentos e cinqüenta e cinco MILHÕES e seiscentos e sete reais).
A CPI provou tudo com documentos e a Globo mostrou, mas por que motivo a GLOBO RESOLVEU COLOCAR ISSO NO AR, sendo que a CPI já estava aberta e o RICARDO TEIXEIRA sendo investigado desde 1998 ??
RESPOSTA:
SIMPLES: naquele ano de 2001 o SBT estava oferecendo para o "clube dos 13" 50 Milhões de reais para obter os direitos exclusivos da seleção/futebol/copa, a Globo não quis cobrir a grande oferta do SBT, mas resolveu atacar o dono da CBF e da seleção brasileira,.
DEPOIS DISSO A GLOBO renovou com a CBF e o "clube dos 13" , GANHOU OS DIREITOS EXCLUSIVOS DA SELEÇÃO DE 2001 ATÉ 2014 E CONSEGUIU REDUZIR O PREÇO ALTO que iria ter que pagar para cobrir a proposta do SBT.
DEPOIS DESSE FATO, A GLOBO NUNCA MAIS BATEU DE FRENTE COM O RICARDO TEIXEIRA E SUA ATUAÇÃO COMO PRESIDENTE DA CBF.
Todos os 'jornalistas' (?) da Globo e outras emissoras sabemque a seleção é vitrine para jogador que tem bom empresário.
Apenas alguns jornais e Blogs voltaram ao assunto, por não ter nenhum "rabo preso" com ninguém e HOJE somente alguns jornais e blogs continuam investigando e mostrando o que rola na CBF.
MAS A GRANDE IMPRENSA ESQUECEU e tem medo de baterde frente com a GLOBO E a CBF para não perder seus patrocinadores."
Se estou certo, quem primeiro abriu a cortina para as mutretas da era Ricardo Teixeira foi o Pelé, em 1993. Queria fazer negócios e a CBF cobrou US$ 1 milhão de propina. Colocou a boca no trombone. Quem conta é o relatório da CPI da CBF-Nike:
Por Jurandir Paulo
Por volta de 1993 a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, começou a chamar mais a atenção da opinião pública pelas suspeitas de irregularidades na sua administração do que pelas façanhas da seleção canarinho. O empresário Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, veio a público para denunciar que sua empresa de intermediação de patrocínios e de negócios de direitos de imagem televisivos na área esportiva, a Pelé Sports, havia sido vítima de uma tentativa de chantagem. A Pelé Sports tentava comprar junto à CBF os direitos de transmissão de imagem do Campeonato Brasileiro de 1994. Ofereceu 5 milhões de dólares por esses direitos. Pelé acusou o então diretor financeiro da CBF, José Carlos Salim, de exigir uma propina de um milhão de dólares, depositados num Banco da Suíça, para fechar o contrato. Pelé recusou-se a pagar e denunciou o fato à imprensa. Ricardo Teixeira, presidente da CBF, processou Pelé. Denúncias mútuas, agressões verbais, represálias, iriam se suceder durante os últimos sete anos.
O interessante é que o José carlos Salim continua na CBF até hoje, como diretor de marketing.
Está no site da CBF em:
http://www.cbf.com.br/php/diretoria.php
Da CPI CBF-Nike, os deputados Silvio Torres e Aldo Rebelo fizeram um livro com a apuração, que Ricardo Teixeira recolheu e o proibiu com a ajuda da justiça. Mas na internet há um documento com a síntese do que lá foi apurado, de autoria de Aldo Rebelo e do jornalista Carlos Azevedo, de onde tirei o texto acima. Fica em:
http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/viewFile/5923/5436
Caro Nassif, não tenho a mínima noção de como funciona a CBF, e tenho certeza de que não estou sozinho nesta ignorância. O que é e como funciona a CBF? Para quem presta contas? Quem elege seu presidente? Quanto ele ganha? O que pode e o que não pode fazer?
Acho que cabe uma grande reportagem sobre isso.
Por Gilberto Cruvinel
O Globo Repórter sobre a CPI da CBF
(o texto abaixo explica poque a Globo fez o Globo Reporter sobre a CPI da CBF e é de autoria do usuário que postou os videos acima)
" Em Agosto de 2001, O "Globo Reporter" mostrou um documentário de jornalismo investigativo sobre o que a CPI do Congresso Nacional provou a respeito de quem é quem na CBF, o que realmente acontecia por trás das cortinas e mostrou quem é o maior dirigente do futebol Brasileiro, RICARDO TEXEIRA.
Mostrou seu enriquecimento, mostrou quanto ele tinha antes do futebol e quanto depois, que movimentou em ações do mercado capital até R$ 2.355.607,00 (Dois BILHÕES, trezentos e cinqüenta e cinco MILHÕES e seiscentos e sete reais).
A CPI provou tudo com documentos e a Globo mostrou, mas por que motivo a GLOBO RESOLVEU COLOCAR ISSO NO AR, sendo que a CPI já estava aberta e o RICARDO TEIXEIRA sendo investigado desde 1998 ??
RESPOSTA:
SIMPLES: naquele ano de 2001 o SBT estava oferecendo para o "clube dos 13" 50 Milhões de reais para obter os direitos exclusivos da seleção/futebol/copa, a Globo não quis cobrir a grande oferta do SBT, mas resolveu atacar o dono da CBF e da seleção brasileira,.
DEPOIS DISSO A GLOBO renovou com a CBF e o "clube dos 13" , GANHOU OS DIREITOS EXCLUSIVOS DA SELEÇÃO DE 2001 ATÉ 2014 E CONSEGUIU REDUZIR O PREÇO ALTO que iria ter que pagar para cobrir a proposta do SBT.
DEPOIS DESSE FATO, A GLOBO NUNCA MAIS BATEU DE FRENTE COM O RICARDO TEIXEIRA E SUA ATUAÇÃO COMO PRESIDENTE DA CBF.
Todos os 'jornalistas' (?) da Globo e outras emissoras sabemque a seleção é vitrine para jogador que tem bom empresário.
Apenas alguns jornais e Blogs voltaram ao assunto, por não ter nenhum "rabo preso" com ninguém e HOJE somente alguns jornais e blogs continuam investigando e mostrando o que rola na CBF.
MAS A GRANDE IMPRENSA ESQUECEU e tem medo de baterde frente com a GLOBO E a CBF para não perder seus patrocinadores."
Se estou certo, quem primeiro abriu a cortina para as mutretas da era Ricardo Teixeira foi o Pelé, em 1993. Queria fazer negócios e a CBF cobrou US$ 1 milhão de propina. Colocou a boca no trombone. Quem conta é o relatório da CPI da CBF-Nike:
Por Jurandir Paulo
Por volta de 1993 a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, começou a chamar mais a atenção da opinião pública pelas suspeitas de irregularidades na sua administração do que pelas façanhas da seleção canarinho. O empresário Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, veio a público para denunciar que sua empresa de intermediação de patrocínios e de negócios de direitos de imagem televisivos na área esportiva, a Pelé Sports, havia sido vítima de uma tentativa de chantagem. A Pelé Sports tentava comprar junto à CBF os direitos de transmissão de imagem do Campeonato Brasileiro de 1994. Ofereceu 5 milhões de dólares por esses direitos. Pelé acusou o então diretor financeiro da CBF, José Carlos Salim, de exigir uma propina de um milhão de dólares, depositados num Banco da Suíça, para fechar o contrato. Pelé recusou-se a pagar e denunciou o fato à imprensa. Ricardo Teixeira, presidente da CBF, processou Pelé. Denúncias mútuas, agressões verbais, represálias, iriam se suceder durante os últimos sete anos.
O interessante é que o José carlos Salim continua na CBF até hoje, como diretor de marketing.
Está no site da CBF em:
http://www.cbf.com.br/php/diretoria.php
Da CPI CBF-Nike, os deputados Silvio Torres e Aldo Rebelo fizeram um livro com a apuração, que Ricardo Teixeira recolheu e o proibiu com a ajuda da justiça. Mas na internet há um documento com a síntese do que lá foi apurado, de autoria de Aldo Rebelo e do jornalista Carlos Azevedo, de onde tirei o texto acima. Fica em:
http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/viewFile/5923/5436
terça-feira, 6 de julho de 2010
"Nós não tínhamos plano B", diz tucana sobre aliança Serra-Roriz – por Filipe Coutinho (Folha de São Paulo)
A candidata ao Senado pelo PSDB do Distrito Federal, Maria de Lourdes Abadia, disse nesta segunda-feira que o apoio do partido à candidatura ao governo por Joaquim Roriz (PSC), ameaçado pelo Ficha Limpa, aconteceu porque o partido não tem um "plano B".
"A eleição aqui ficou polarizada e outro lado foi com a Dilma Rousseff (PT). Então a gente ficou com o Roriz, que ofereceu apoio ao Serra desde o começo. Nós não tínhamos e nem temos um plano B", disse Abadia.
Segundo a candidata ao Senado, o PSDB não se constrange em fazer aliança com Roriz para conseguir um palanque forte para Serra. "Ele veio aqui e registrou sua candidatura. Quem vai decidir sobre o Ficha Limpa é a Justiça, então não há nada para se discutir sobre isso", disse a tucana.
Após quase deixar abandonar a aliança com Roriz durante o fim de semana, o PSDB decidiu nesta segunda-feira manter o apoio ao candidato. A chapa foi registrada minutos antes do prazo limite dado pela Justiça Eleitoral.
Comentário
A primeira mentira é que o PSDB não possuía plano B. Mentira óbvia. O plano A era o demo-painel-Arruda, a cria de Roriz. O plano Plano B já é o Roriz. Ambos da mesmíssima laia, com a singela diferença de que um é mais escorregadio que o outro.
Este é o PSDB, o partido da ética, do apoio dos demos, de Roberto Jefferson, de Joaquim Roriz e de tantos outros.
É impressionante que, quando a direção nacional do PT (especialmente o presidente Lula) força alianças nocivas ao partido (como a de Roseana Sarney e Hélio Costa), o faz contrariando totalmente as bases, fazendo-as engolir uma aliança espúria, anti-programática e insensata.
Porém, já com o PSDB, não há pudores: as bases e o comando se somam, se complementam, abraçam-se a estes “exemplos” da política brasileira.
E – ¡pasmem! –este partido ainda vem com discurso moralista em todas as eleições desde que passou para a oposição.
Durma-se com um barulho destes...
"A eleição aqui ficou polarizada e outro lado foi com a Dilma Rousseff (PT). Então a gente ficou com o Roriz, que ofereceu apoio ao Serra desde o começo. Nós não tínhamos e nem temos um plano B", disse Abadia.
Segundo a candidata ao Senado, o PSDB não se constrange em fazer aliança com Roriz para conseguir um palanque forte para Serra. "Ele veio aqui e registrou sua candidatura. Quem vai decidir sobre o Ficha Limpa é a Justiça, então não há nada para se discutir sobre isso", disse a tucana.
Após quase deixar abandonar a aliança com Roriz durante o fim de semana, o PSDB decidiu nesta segunda-feira manter o apoio ao candidato. A chapa foi registrada minutos antes do prazo limite dado pela Justiça Eleitoral.
Comentário
A primeira mentira é que o PSDB não possuía plano B. Mentira óbvia. O plano A era o demo-painel-Arruda, a cria de Roriz. O plano Plano B já é o Roriz. Ambos da mesmíssima laia, com a singela diferença de que um é mais escorregadio que o outro.
Este é o PSDB, o partido da ética, do apoio dos demos, de Roberto Jefferson, de Joaquim Roriz e de tantos outros.
É impressionante que, quando a direção nacional do PT (especialmente o presidente Lula) força alianças nocivas ao partido (como a de Roseana Sarney e Hélio Costa), o faz contrariando totalmente as bases, fazendo-as engolir uma aliança espúria, anti-programática e insensata.
Porém, já com o PSDB, não há pudores: as bases e o comando se somam, se complementam, abraçam-se a estes “exemplos” da política brasileira.
E – ¡pasmem! –este partido ainda vem com discurso moralista em todas as eleições desde que passou para a oposição.
Durma-se com um barulho destes...
O Arcebispo e Lawrence da Arábia – por Pedro Valls Feu Rosa
A rede inglesa “Sky News” noticiou, com destaque, as corajosas declarações do Arcebispo de Canterbury no sentido de que “a invasão do Iraque tem provocado danos terríveis à região”.
Criticando a ação da Inglaterra e dos Estados Unidos da América, que tachou de “imperialista”, o Arcebispo chegou a dizer que, no Iraque, “a definição ocidental de humanidade não está sendo observada”.
O Coronel T. E. Lawrence, do Exército Inglês, horrorizado com a barbárie imposta ao sofrido povo iraquiano, também foi à imprensa dar o seu testemunho e protestar. Eis as suas declarações, publicadas pelo jornal “Sunday Times”:
sp;"O povo inglês caiu numa armadilha na Mesopotâmia. Ele dificilmente poderá sair de lá com dignidade e honra. Ele está sendo enganado pela dissimulação constante da verdade. Os comunicados de Bagdá estão defasados relativamente aos acontecimentos; eles faltam com a sinceridade e são incompletos. A realidade é pior do que aquela que nos tem sido dita. Nossa administração é mais ineficaz e mais sangrenta do que aquela que nos descrevem. Ela é indigna de nossa história imperial e revelar-se-á brevemente muito abjeta para um tratamento ordinário. Nós estamos às vésperas de um desastre".
Na mesma entrevista, este Coronel denunciou fatos gravíssimos:
"Cidades inteiras foram arrasadas pela aviação inglesa. Em quatro meses, 10.000 pessoas morreram. Os blindados, por terra, forçavam as populações em pânico rumo a campo aberto, onde poderiam exterminá-las melhor".
Pessoas corajosas e de ideal, o Arcebispo de Canterbury e o Coronel T. E. Lawrence. Merecem o reconhecimento das pessoas de bem.
Porém, mais importantes do que estas duas entrevistas são as datas nas quais elas foram dadas. As datas dos jornais é que devem ser motivo de reflexão para todos nós, como mostrarei a seguir.
O Arcebispo de Canterbury condenou a invasão do Iraque em uma entrevista publicada pela rede “Sky News” no dia 25 de novembro de 2007.
O Coronel T. E. Lawrence condenou a invasão do Iraque em uma entrevista publicada pelo jornal “Sunday Times” no dia 22 de outubro de 1920. Sim, 1920! 87 anos antes!
Em verdade, este “Coronel T. E. Lawrence” vem a ser o famoso “Lawrence da Arábia”, retratado em tantos filmes, e que andava pela região das “1.001 noites” no início do século passado.
É aí, no detalhe das datas, que ficamos chocados com a absoluta falta de sensibilidade e até de clemência da orgulhosa e cristã civilização ocidental, há quase um século causando dor e sofrimento a um mesmo povo.
E maior a indignação quando constatamos que todas estas invasões foram feitas em nome do bem, e por pessoas que se dizem de bem. A elas, as palavras de Victor Hugo: “ninguém é mau, e quanto mal foi feito”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem religiosas. A elas, as palavras de Voltaire: “o maravilhoso da guerra é que cada general há de bendizer suas bandeiras e invocar solenemente seu Deus antes de exterminar seu próximo”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem moralistas. A elas, as palavras de Bertrand Russel: “a humanidade tem dupla moral: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem civilizadas. A elas, as palavras de Auguste Rodin: “a civilização não é, em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava”.
Todas estas invasões foram feitas em nome da Justiça e por pessoas que se dizem justas. A elas, as palavras de Thomas Jefferson: “eu temo pela minha espécie quando penso que Deus é justo”.
Todas estas invasões, enfim, foram feitas em nome de Deus. Àqueles que as determinaram, dediquemos as palavras de Blaise Pascal: “nunca o ser humano pratica o mal tão completamente e com tanto prazer como quando o faz por convicção religiosa”.
PEDRO VALLS FEU ROSA é Desembargador do Poder Judiciário Brasileiro, relator da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Espírito Santo.
Comentário
Belas palavras de Feu Rosa. Porém, devo salientar que ele tem sua história conspurcada pela defesa convicta do juiz Antônio Leopoldo Teixeira.. Quando os juízes Carlos Lemos e Alexandre Martins de Castro Filho apresentaram denúncias das estripulias que o juiz Leopoldo cometia , Feu Rosa não só defendeu Leopoldo, como atacou com tudo os que fizeram a (verdadeira) denúncia.
Resultado: o juiz Alexandre foi assassinado a mando de Leopoldo (que prossegue solto, contando com a anuência da justiça que ele bem representa).
O outro juiz viveu muitos anos (se ainda não vive) com escolda policial.
Se o posicionamento de Feu Rosa, à época, fosse outro, a história de Alexandre poderia ter sido maior e ainda mais bela.
De qualquer modo, fica aqui o exemplo de justiça que este representa.
Alexandre é um anti Gilmar Dantas, por assim dizer.
Criticando a ação da Inglaterra e dos Estados Unidos da América, que tachou de “imperialista”, o Arcebispo chegou a dizer que, no Iraque, “a definição ocidental de humanidade não está sendo observada”.
O Coronel T. E. Lawrence, do Exército Inglês, horrorizado com a barbárie imposta ao sofrido povo iraquiano, também foi à imprensa dar o seu testemunho e protestar. Eis as suas declarações, publicadas pelo jornal “Sunday Times”:
sp;"O povo inglês caiu numa armadilha na Mesopotâmia. Ele dificilmente poderá sair de lá com dignidade e honra. Ele está sendo enganado pela dissimulação constante da verdade. Os comunicados de Bagdá estão defasados relativamente aos acontecimentos; eles faltam com a sinceridade e são incompletos. A realidade é pior do que aquela que nos tem sido dita. Nossa administração é mais ineficaz e mais sangrenta do que aquela que nos descrevem. Ela é indigna de nossa história imperial e revelar-se-á brevemente muito abjeta para um tratamento ordinário. Nós estamos às vésperas de um desastre".
Na mesma entrevista, este Coronel denunciou fatos gravíssimos:
"Cidades inteiras foram arrasadas pela aviação inglesa. Em quatro meses, 10.000 pessoas morreram. Os blindados, por terra, forçavam as populações em pânico rumo a campo aberto, onde poderiam exterminá-las melhor".
Pessoas corajosas e de ideal, o Arcebispo de Canterbury e o Coronel T. E. Lawrence. Merecem o reconhecimento das pessoas de bem.
Porém, mais importantes do que estas duas entrevistas são as datas nas quais elas foram dadas. As datas dos jornais é que devem ser motivo de reflexão para todos nós, como mostrarei a seguir.
O Arcebispo de Canterbury condenou a invasão do Iraque em uma entrevista publicada pela rede “Sky News” no dia 25 de novembro de 2007.
O Coronel T. E. Lawrence condenou a invasão do Iraque em uma entrevista publicada pelo jornal “Sunday Times” no dia 22 de outubro de 1920. Sim, 1920! 87 anos antes!
Em verdade, este “Coronel T. E. Lawrence” vem a ser o famoso “Lawrence da Arábia”, retratado em tantos filmes, e que andava pela região das “1.001 noites” no início do século passado.
É aí, no detalhe das datas, que ficamos chocados com a absoluta falta de sensibilidade e até de clemência da orgulhosa e cristã civilização ocidental, há quase um século causando dor e sofrimento a um mesmo povo.
E maior a indignação quando constatamos que todas estas invasões foram feitas em nome do bem, e por pessoas que se dizem de bem. A elas, as palavras de Victor Hugo: “ninguém é mau, e quanto mal foi feito”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem religiosas. A elas, as palavras de Voltaire: “o maravilhoso da guerra é que cada general há de bendizer suas bandeiras e invocar solenemente seu Deus antes de exterminar seu próximo”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem moralistas. A elas, as palavras de Bertrand Russel: “a humanidade tem dupla moral: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega”.
Todas estas invasões foram feitas por pessoas que se dizem civilizadas. A elas, as palavras de Auguste Rodin: “a civilização não é, em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava”.
Todas estas invasões foram feitas em nome da Justiça e por pessoas que se dizem justas. A elas, as palavras de Thomas Jefferson: “eu temo pela minha espécie quando penso que Deus é justo”.
Todas estas invasões, enfim, foram feitas em nome de Deus. Àqueles que as determinaram, dediquemos as palavras de Blaise Pascal: “nunca o ser humano pratica o mal tão completamente e com tanto prazer como quando o faz por convicção religiosa”.
PEDRO VALLS FEU ROSA é Desembargador do Poder Judiciário Brasileiro, relator da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Espírito Santo.
Comentário
Belas palavras de Feu Rosa. Porém, devo salientar que ele tem sua história conspurcada pela defesa convicta do juiz Antônio Leopoldo Teixeira.. Quando os juízes Carlos Lemos e Alexandre Martins de Castro Filho apresentaram denúncias das estripulias que o juiz Leopoldo cometia , Feu Rosa não só defendeu Leopoldo, como atacou com tudo os que fizeram a (verdadeira) denúncia.
Resultado: o juiz Alexandre foi assassinado a mando de Leopoldo (que prossegue solto, contando com a anuência da justiça que ele bem representa).
O outro juiz viveu muitos anos (se ainda não vive) com escolda policial.
Se o posicionamento de Feu Rosa, à época, fosse outro, a história de Alexandre poderia ter sido maior e ainda mais bela.
De qualquer modo, fica aqui o exemplo de justiça que este representa.
Alexandre é um anti Gilmar Dantas, por assim dizer.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Educação em pânico
Abro um parêntese para escrever sobre o “Pânico na TV” de ontem.
O programa apresentou populares xingando o ex-técnico da seleção brasileira, Dunga, e sua mãe, de todos os nomes possíveis.
Bem, é uma pena que o programa se utilize deste tipo de postura, absolutamente lamentável. Pode-se falar: “ah, é o povo expressando sua voz”, “é o que a população pensa”, e outras leviandades similares. A questão, é que antes da última partida, mais de 60% da população apoiava o técnico conforme pesquisa realizada. E, mesmo que este percentual tenha mudado, há os que – apesar de discordar dele em alguns pontos – ainda o apóiam. Além do mais, ao citarem só aqueles xingamentos todos, parece que é “a voz do povo” falando. Porém, ¿fizeram algum levantamento estatístico para verificar se realmente a população inteira o detrata desta forma? ¿Ou selecionaram justamente os mais escatológicos para aparecerem na TV?
Dunga errou em alguns pontos e acertou em vários outros. Normal, ele é falível, como qualquer pessoa.
Porém, demonizá-lo não é uma estratégia correta, e xingá-lo abjetamente é desrespeitoso, arbitrário e injusto.
Especialmente por aquele que, pelo menos dos capitães da seleção brasileira que eu vi, foi – de longe – o melhor, mais raçudo, que mais coordenava o time, que se impunha dentro de campo, colocava os árbitros no seu devido lugar, era, enfim, um capitão, na plena acepção da palavra.
Além disso, como técnico, foi o primeiro colocado nas eliminatórias, conquistou a copa América e a Copa das Confederações. Se por um lado podemos elogiar uma serie de posturas que ele tomou, sua seriedade e comprometimento, por outro lado, podemos criticar o fato dele não ter levado Ronaldinho Gaúcho, Ganso e Neymar. Porém, daí destratá-lo desta maneira é absolutamente injustificável.
Foi lamentável o programa ter apelado a este tipo de baixaria e deixo aqui meu singelo protesto.
O programa apresentou populares xingando o ex-técnico da seleção brasileira, Dunga, e sua mãe, de todos os nomes possíveis.
Bem, é uma pena que o programa se utilize deste tipo de postura, absolutamente lamentável. Pode-se falar: “ah, é o povo expressando sua voz”, “é o que a população pensa”, e outras leviandades similares. A questão, é que antes da última partida, mais de 60% da população apoiava o técnico conforme pesquisa realizada. E, mesmo que este percentual tenha mudado, há os que – apesar de discordar dele em alguns pontos – ainda o apóiam. Além do mais, ao citarem só aqueles xingamentos todos, parece que é “a voz do povo” falando. Porém, ¿fizeram algum levantamento estatístico para verificar se realmente a população inteira o detrata desta forma? ¿Ou selecionaram justamente os mais escatológicos para aparecerem na TV?
Dunga errou em alguns pontos e acertou em vários outros. Normal, ele é falível, como qualquer pessoa.
Porém, demonizá-lo não é uma estratégia correta, e xingá-lo abjetamente é desrespeitoso, arbitrário e injusto.
Especialmente por aquele que, pelo menos dos capitães da seleção brasileira que eu vi, foi – de longe – o melhor, mais raçudo, que mais coordenava o time, que se impunha dentro de campo, colocava os árbitros no seu devido lugar, era, enfim, um capitão, na plena acepção da palavra.
Além disso, como técnico, foi o primeiro colocado nas eliminatórias, conquistou a copa América e a Copa das Confederações. Se por um lado podemos elogiar uma serie de posturas que ele tomou, sua seriedade e comprometimento, por outro lado, podemos criticar o fato dele não ter levado Ronaldinho Gaúcho, Ganso e Neymar. Porém, daí destratá-lo desta maneira é absolutamente injustificável.
Foi lamentável o programa ter apelado a este tipo de baixaria e deixo aqui meu singelo protesto.
domingo, 4 de julho de 2010
Serra e a derrota do Brasil - por José Ribamar Bessa Freire
O candidato a presidente da República, José Serra, pode ser culpado pela derrota da seleção brasileira? Há controvérsias. De qualquer forma, revelo aqui os bastidores do dia em que Serra deu uma de Dunga e levou o nosso futebol a um clamoroso fracasso. Mas não quero influenciar ninguém. Conto o caso como o caso foi. Que os leitores e leitoras tirem suas próprias conclusões dessa história edificante, comparando-a com o recente discurso feito por Serra na Confederação Nacional da Agricultura.
Comecemos pelo começo, desenhando o cenário e apresentando os personagens. Foi assim… Tudo começou há mais de quarenta anos, com o golpe militar que levou ao exílio milhares de brasileiros. O Chile acolheu um sem-número deles que, evitando a prisão e a tortura, fizeram o caminho de Santiago em duas ondas de exilados: uma em 1964, a outra em 1969.
Da primeira faziam parte ministros, deputados, jornalistas, professores como Fernando Henrique Cardoso, Almino Afonso, Plínio Arruda Sampaio, Paulo Freire, e tantos outros, entre os quais José Serra, ex-presidente da UNE, que se qualificou no exílio cursando mestrado em Economia na Escolatina da Universidade do Chile. Com boa formação acadêmica, ocuparam cargos bem remunerados no Governo chileno e em organismos internacionais, da OEA e da ONU, sediados naquele país.
A segunda onda era composta, em sua maioria, por peixe pequeno: militantes, estudantes, profissionais jovens em começo de carreira, gente que atravessou a fronteira do Uruguai, a pé, sem dinheiro, sem passaporte e de lá foi de ônibus ou avião para o Chile. Entre eles estava o ator Euclides Coelho de Souza, o repórter Tarcisio Lage e esse que digita essas mal traçadas linhas. Quando em outubro de 1969, com a diferença de alguns dias, chegamos à capital chilena, nenhum de nós três tinha onde cair morto. Quem matou nossa fome foi a Caixinha. Bendita Caixinha!
A Caixinha
Caixinha foi o nome que os exilados deram a uma instituição criada no Chile por brasileiros, destinada a ajudar os compatriotas enquanto não encontravam trabalho. Aqueles que tinham altos cargos em organismos internacionais, com salário em dólares, contribuíam mensalmente e pagavam, assim, a hospedagem dos desempregados. Desta forma, tínhamos casa e comida. Roupa lavada? Cada um cuidava pessoalmente da sua.
A primeira pensão que nos hospedou, de propriedade da dona Adriana, ficava na Calle Michimalongo, onde a comida servida pela Juanita era muito boa: sopa de aspargos, alcachofra, porotos granados, empanadas, caudillo de congrio. Mas a repressão no Brasil se acirrou e com ela cresceu a enxurrada de exilados que chegavam aos potes, desequilibrando as finanças da Caixinha. Fomos, então, transferidos para uma pensão muito mais barata na Calle Grajales. Lá, um dia sim e o outro também, nos serviam rim cortado em cubinhos com cheiro de carne mijada.
Foi lá, na pensão da Grajales, que a ‘seleção brasileira’, formada pelo pessoal da Caixinha, se concentrou antes da partida decisiva contra a ‘seleção chilena’, no campeonato de pelada que rolava todos os sábados num campinho de um colégio jesuíta. O nosso half direito Euclides, o Dadá, era uma peça ofensiva fundamental. Rápido e habilidoso, tinha forte arrancada, bom drible, realizava cruzamentos mortais e ainda por cima recuava para defender.
Acontece que Dadá não podia jogar por uma razão prosaica: não tinha calção, nem dinheiro para comprá-lo. Procuramos a Caixinha que, como todo banco, era controlado por um mineiro: o escritor Edmur Fonseca. Embora generoso, ele alegou inexistência de fundos para aquisição de supérfluos. Acionamos outros mineiros: o advogado Antônio Romanelli e os jornalistas Guy de Almeida e José Maria Rabelo. Tudo em vão.
Foi aí que Teodoro Buarque de Holanda, primo do Chico, doou à ‘seleção brasileira’ um jeans velho, mas de marca, comprado em boutique. A Adair Therezinha Chevonika, mulher do Dadá, pegou uma tesoura, cortou as pernas e transformou o jeans num bermudão. Quando o Dadá entrou em campo, vocês podem não acreditar, mas José Serra, que dava uma de técnico improvisado, gritou:
- Quem estraga uma calça cara só para jogar futebol é porque tem dinheiro, deve ser muito rico, não precisa da Caixinha. Você não deve mais receber ajuda.
Índios en la costa
Meninos, eu vi, e ouvi. Se fosse nos Estados Unidos, o Dadá processava o Serra por danos morais e ganhava uma grana preta. Mas naquelas condições, no Chile, ele ficou arrasado, sem condições psicológicas. A ‘seleção brasileira’, com seu half direito moralmente contundido, perdeu de 4 x0. Dadá fez até gol contra. Serra organizou essa derrota do Brasil? Só Deus sabe.
No dia seguinte - meninos, essa eu não vi, mas circulou entre os exilados - Tarcisio Lage chamou Serra de “reacionário” nos corredores da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), onde ambos trabalhavam. Serra reagiu:
- Você é um maoísta sectário e fanático, Tarcísio. Você faz parte da esquerda pueril!
- Vai-te pra pqp – respondeu Tarcisio, que é bom de rima. Os dois se engalfinharam, verbalmente, e quem desapartou a briga foi Fernando Henrique Cardoso, ajudado pelo professor Deodato Rivera, que sonhava em fazer o maior fichário de ciências sociais do mundo. Meu amigo Tarcísio, que hoje vive na Holanda e mantém um blog (www.anarco.net) pode confirmar a história, que talvez nos ajude a entender a contradição do Serra.
Um lado do Serra é generoso; o outro é pão-duro e sovina. Na quinta-feira, em debate na Confederação Nacional de Agricultura, o lado mesquinho emergiu. Para puxar o saco da senadora Kátia Motoserra Abreu, Serra se manifestou contra a distribuição de cesta básica para o MST: “Não quero que o governo gaste dinheiro com isso”. A cesta do MST é o bermudão do Dadá.
Serra, Dilma, Marina e Plínio – qualquer um deles tem competência e biografia para exercer a presidência da República. O diabo é que os dois mais cotados nas pesquisas não podem renunciar ou morrer no cargo. Imaginem o Brasil governado pelo mordomo de vampiro, o Michel Temer, o rei do fisiologismo, ou por essa caricatura, esse paspalhão sub-collorido – o Índio da Costa, envolvido com desvio da merenda escolar no Rio de Janeiro!
Dizem que nessa sexta-feira, depois do primeiro tempo Brasil x Holanda, comunicaram ao Felipe Mello que Índio da Costa foi escolhido para ser o vice de Serra. O jogador ficou tão baratinado como o Dadá. Deu no que deu. Essas alianças vergonhosas com o DEM e a parte podre do PMDB representam grande risco para o país. Como dizem os espanhóis para advertir uma situação de perigo: Atenção, Brasil, hay moros en la costa.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .
Comecemos pelo começo, desenhando o cenário e apresentando os personagens. Foi assim… Tudo começou há mais de quarenta anos, com o golpe militar que levou ao exílio milhares de brasileiros. O Chile acolheu um sem-número deles que, evitando a prisão e a tortura, fizeram o caminho de Santiago em duas ondas de exilados: uma em 1964, a outra em 1969.
Da primeira faziam parte ministros, deputados, jornalistas, professores como Fernando Henrique Cardoso, Almino Afonso, Plínio Arruda Sampaio, Paulo Freire, e tantos outros, entre os quais José Serra, ex-presidente da UNE, que se qualificou no exílio cursando mestrado em Economia na Escolatina da Universidade do Chile. Com boa formação acadêmica, ocuparam cargos bem remunerados no Governo chileno e em organismos internacionais, da OEA e da ONU, sediados naquele país.
A segunda onda era composta, em sua maioria, por peixe pequeno: militantes, estudantes, profissionais jovens em começo de carreira, gente que atravessou a fronteira do Uruguai, a pé, sem dinheiro, sem passaporte e de lá foi de ônibus ou avião para o Chile. Entre eles estava o ator Euclides Coelho de Souza, o repórter Tarcisio Lage e esse que digita essas mal traçadas linhas. Quando em outubro de 1969, com a diferença de alguns dias, chegamos à capital chilena, nenhum de nós três tinha onde cair morto. Quem matou nossa fome foi a Caixinha. Bendita Caixinha!
A Caixinha
Caixinha foi o nome que os exilados deram a uma instituição criada no Chile por brasileiros, destinada a ajudar os compatriotas enquanto não encontravam trabalho. Aqueles que tinham altos cargos em organismos internacionais, com salário em dólares, contribuíam mensalmente e pagavam, assim, a hospedagem dos desempregados. Desta forma, tínhamos casa e comida. Roupa lavada? Cada um cuidava pessoalmente da sua.
A primeira pensão que nos hospedou, de propriedade da dona Adriana, ficava na Calle Michimalongo, onde a comida servida pela Juanita era muito boa: sopa de aspargos, alcachofra, porotos granados, empanadas, caudillo de congrio. Mas a repressão no Brasil se acirrou e com ela cresceu a enxurrada de exilados que chegavam aos potes, desequilibrando as finanças da Caixinha. Fomos, então, transferidos para uma pensão muito mais barata na Calle Grajales. Lá, um dia sim e o outro também, nos serviam rim cortado em cubinhos com cheiro de carne mijada.
Foi lá, na pensão da Grajales, que a ‘seleção brasileira’, formada pelo pessoal da Caixinha, se concentrou antes da partida decisiva contra a ‘seleção chilena’, no campeonato de pelada que rolava todos os sábados num campinho de um colégio jesuíta. O nosso half direito Euclides, o Dadá, era uma peça ofensiva fundamental. Rápido e habilidoso, tinha forte arrancada, bom drible, realizava cruzamentos mortais e ainda por cima recuava para defender.
Acontece que Dadá não podia jogar por uma razão prosaica: não tinha calção, nem dinheiro para comprá-lo. Procuramos a Caixinha que, como todo banco, era controlado por um mineiro: o escritor Edmur Fonseca. Embora generoso, ele alegou inexistência de fundos para aquisição de supérfluos. Acionamos outros mineiros: o advogado Antônio Romanelli e os jornalistas Guy de Almeida e José Maria Rabelo. Tudo em vão.
Foi aí que Teodoro Buarque de Holanda, primo do Chico, doou à ‘seleção brasileira’ um jeans velho, mas de marca, comprado em boutique. A Adair Therezinha Chevonika, mulher do Dadá, pegou uma tesoura, cortou as pernas e transformou o jeans num bermudão. Quando o Dadá entrou em campo, vocês podem não acreditar, mas José Serra, que dava uma de técnico improvisado, gritou:
- Quem estraga uma calça cara só para jogar futebol é porque tem dinheiro, deve ser muito rico, não precisa da Caixinha. Você não deve mais receber ajuda.
Índios en la costa
Meninos, eu vi, e ouvi. Se fosse nos Estados Unidos, o Dadá processava o Serra por danos morais e ganhava uma grana preta. Mas naquelas condições, no Chile, ele ficou arrasado, sem condições psicológicas. A ‘seleção brasileira’, com seu half direito moralmente contundido, perdeu de 4 x0. Dadá fez até gol contra. Serra organizou essa derrota do Brasil? Só Deus sabe.
No dia seguinte - meninos, essa eu não vi, mas circulou entre os exilados - Tarcisio Lage chamou Serra de “reacionário” nos corredores da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), onde ambos trabalhavam. Serra reagiu:
- Você é um maoísta sectário e fanático, Tarcísio. Você faz parte da esquerda pueril!
- Vai-te pra pqp – respondeu Tarcisio, que é bom de rima. Os dois se engalfinharam, verbalmente, e quem desapartou a briga foi Fernando Henrique Cardoso, ajudado pelo professor Deodato Rivera, que sonhava em fazer o maior fichário de ciências sociais do mundo. Meu amigo Tarcísio, que hoje vive na Holanda e mantém um blog (www.anarco.net) pode confirmar a história, que talvez nos ajude a entender a contradição do Serra.
Um lado do Serra é generoso; o outro é pão-duro e sovina. Na quinta-feira, em debate na Confederação Nacional de Agricultura, o lado mesquinho emergiu. Para puxar o saco da senadora Kátia Motoserra Abreu, Serra se manifestou contra a distribuição de cesta básica para o MST: “Não quero que o governo gaste dinheiro com isso”. A cesta do MST é o bermudão do Dadá.
Serra, Dilma, Marina e Plínio – qualquer um deles tem competência e biografia para exercer a presidência da República. O diabo é que os dois mais cotados nas pesquisas não podem renunciar ou morrer no cargo. Imaginem o Brasil governado pelo mordomo de vampiro, o Michel Temer, o rei do fisiologismo, ou por essa caricatura, esse paspalhão sub-collorido – o Índio da Costa, envolvido com desvio da merenda escolar no Rio de Janeiro!
Dizem que nessa sexta-feira, depois do primeiro tempo Brasil x Holanda, comunicaram ao Felipe Mello que Índio da Costa foi escolhido para ser o vice de Serra. O jogador ficou tão baratinado como o Dadá. Deu no que deu. Essas alianças vergonhosas com o DEM e a parte podre do PMDB representam grande risco para o país. Como dizem os espanhóis para advertir uma situação de perigo: Atenção, Brasil, hay moros en la costa.
O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .
Brasil e Irã: os nossos motivos – por Tomás Rosa Bueno (blog do Nassif)
Apesar do que não se cansam de repetir os adeptos da diplomacia descalça, não há nada sequer remotamente parecido a antiamericanismo na posição brasileira sobre o Irã: os nossos motivos, ao contrário dos do trio de intrometidos (EUA, França, Reino Unido), são claros e transparentes, declarados abertamente diversas vezes.
Somos a favor do desenvolvimento pacífico da energia nuclear. Não acreditamos que haja provas de que o Irã tenha um programa nuclear militar secreto. Defendendo o Irã, estamos defendendo o nosso próprio direito a dominar o ciclo completo da fabricação de combustível nuclear, estamos defendendo o nosso direito a desenvolver a nossa própria tecnologia de enriquecimento, estamos defendendo o nosso direito a construirmos nós mesmos os reatores que vão mover os nossos submarinos nucleares que vão defender a nossa soberania. Nem mais, nem menos. Queremos para o Irã apenas o que queremos para nós mesmo.
Não há nenhuma prova de que o Irã esteja tentando fazer armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, único organismo internacional que tem autoridade para falar do assunto e é relativamente isento, porque dirigido por um conselho de 32 países, difícil de manipular e pressionar. Não é preciso acreditar no que eu digo, basta ler os relatórios da AIEA, aqui, na página da AIEA sobre o Irã; e o mais recente, aqui, em espanhol.
O que a AIEA faz para deixar felizes o trio de intrometidos e os sócios menores deles, a China e a Rússia, é afirmar, depois de dizer com todas as letras que o programa nuclear iraniano é inteiramente monitorado e vigiado e que não há nenhum indício de “desvio de propósitos”, que não é possível afirmar que não haja um programa secreto. Ora, a mesmíssima coisa pode ser dita sobre o Brasil, sobre a Coreia do Sul, sobre Taiwan, até sobre a Argentina. O Irã é signatário do TNP e, segundo afirmou a AIEA repetidas vezes, cumpre estritamente todas as salvaguardas estabelecidas por esse órgão da ONU.
A AIEA, porém, marotamente, queixa-se de que o Irã se nega a cumprir resoluções do Conselho de Segurança que são ilegais, posto que é um direito do Irã ter um programa de enriquecimento de urânio, e ninguém, nem o Conselho de Segurança, tem o poder legal de impedir que o Irã desenvolva tecnologia nuclear dentro dos limites estabelecidos pelo TNP sem haver provas cabais de que esses limites estejam sendo excedidos. Queixa-se de que o Irã não adere aos Protocolos Adicionais, que são de adesão voluntária – o Brasil, por exemplo, não aderiu e denuncia os PAs como atentatórios à soberania nacional (e o primeiro que se recusou a assiná-los foi o FHC, antes que os diplomatas descalços comecem a ladainha do antiamericansmo, pelos mesmos motivos que o Lula). E pretende que o Irã permita que os inspetores da ONU visitem os locais onde as centrífugas são projetadas e fabricadas, o que não só não é obrigação nem do Irã nem de nenhum outro signatário do TNP como é uma exigência absurda: um país sob ameaça de um ataque militar por duas potências nucleares (uma das quais acaba de reformar as suas posturas nucleares para incluir a possibilidade de um ataque nuclear contra um país não nuclear -- uma óbvia violação dos princípios do TNP) não pode revelar os locais onde é fabricado o equipamento que lhe permitirá reconstruir o que for bombardeado, ou esses locais serão os primeiros alvos.
O Irã garante aos inspetores da ONU mais acesso que o Brasil, por exemplo, que, alegando razões de segredo industrial, não permite que eles nem vejam o que acontece dentro das nossas centrífugas: podem ver o que entra por uma ponta elas e o que sai pela outra, mas não o que acontece entre uma ponta e outra; o Brasil, a Coreia do Sul e Taiwan tampouco revelam os locais de produção das centrífugas; e não sei sobre os outros, mas o Brasil, em plena conformidade com as salvaguardas negociadas com a AIEA pelo governo brasileiro por ocasião da nossa adesão ao TNP, em 1997, não permite nenhum acesso ao programa de desenvolvimento dos reatores que serão usados em submarinos, alegando segredo militar – nós temos um programa nuclear militar, o Irã, não.
O governo iraniano chegou inclusive a assinar voluntariamente os termos invasivos dos Protocolos Adicionais do TNP em 2003, permitindo acesso irrestrito e não anunciado de inspetores da ONU a qualquer lugar do país em que pudesse haver, na opinião deles, qualquer coisa relacionada ao desenvolvimento de armas atômicas; mas retirou-se deles quase dois anos depois, ao verificar que escancarar tudo e submeter-se a ter inspetores escarafunchando por toda parte não adiantava nada para diminuir as suspeitas do “Ocidente” – porque, é claro, essas “suspeitas” são e sempre foram infundadas, e por isto resistem a qualquer prova contrária.
Portanto, se apesar de todas as garantias e tentativas de negociação do Irã desde a morte do Khomeini, apesar de o Irã não ter capacidade tecnológica para enriquecer urânio aos níveis necessários para fazer armas atômicas, apesar de o Irã não dominar a tecnologia de reprocessamento e de produção de plutônio, apesar de o programa nuclear iraniano estar sujeito à estrita vigilância da AIEA na forma de inspeções in loco e em câmeras instaladas em todos os locais ligados à produção de UBE a 3,5% e a 20%, apesar de o Irã ter adiado o início do enriquecimento a 20% para que a AIEA pudesse inspecionar as centrífugas e instalar câmeras de vigilância, apesar de todo o material físsil iraniano estar plenamente contabilizado e rastreado, apesar de o Irã, para facilitar as negociações, ter em diversas ocasiões aceitado suspender as atividades de enriquecimento a que tem direito, apesar de o Irã ter acertado com o Brasil e a Turquia uma acordo de exportação da maior parte do seu UBE segundo os exatos termos propostos pelo Grupo de Viena e estar cumprindo a sua parte mesmo tendo sido sujeito a novas sanções, mesmo assim continua sendo oficialmente acusado de ser “pouco transparente” e de ter um programa militar secreto, e extra-oficialmente de estar à beira de fazer uma bomba atômica (ler aqui como se faz para mentir sobre o Irã sem parecer). E, aos poucos, o que era extrapolação da imprensa mais raivosa vai-se transformando na base da próxima rodada de mentiras oficiais.
Ou seja, é evidente que a possibilidade de o Irã estar tentando fazer armas nucleares não passa de uma desculpa, sustentada por mentiras, com motivos inconfessáveis.
Logo, se foi possível mentir descaradamente sobre as “armas de destruição em massa” do Saddam Hussein e depois devastar o Iraque, se é possível mentir despudoradamente sobre o programa nuclear militar do Irã e ameaçar os iranianos com um ataque militar, o que é que garante que a mesma coisa não vai acontecer conosco amanhã? Hoje somos amigos e aliados dos Estados Unidos, e até acabamos de assinar um acordo de cooperação militar com eles; mas quem pode dizer em que estado estarão as nossas relações dentro de dois, dez, vinte anos? Se os EUA, a França e o Reino Unido têm hoje motivos para quererem atacar o Irã, que não se sabe muito bem quais são, quem seria capaz de jurar que não vão encontrar uma penca de motivos semelhantes para querer atacar o Brasil, ou impedir que desenvolvamos esta ou aquela tecnologia, se isto lhes for conveniente?
Se permitirmos que o Irã seja ilegalmente impedido de desenvolver o programa nuclear pacífico a que tem direito, o TNP será letra morta, e poderemos ser submetidos ao mesmo tratamento no futuro. O ataque ilegal contra os direitos do Irã e a preparação de mais uma intervenção militar ilegal contra um país soberano sob pretextos evidentemente falsos precisa ser detido agora, enquanto ainda é possível. O Brasil tem o dever de defender os direitos dos iranianos hoje, sob pena de pôr em risco os nossos próprios direitos no futuro. A nossa condição de potência com influência global a que nos leva o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos e a própria continuidade desse desenvolvimento dependem do apoio irrestrito ao direito do povo iraniano de desenvolver um programa nuclear pacífico, sem interferências, ameaças e agressões.
A Rússia e a China têm lá os seus motivos, alguns até compreensíveis mas quase todos venais e nenhum relativo ao programa nuclear, para apoiarem a tentativa de empurrar o Irã contra a parede. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França têm uma longuíssima folha corrida de intromissão nos assuntos dos países do Oriente Médio, e não é surpresa nenhuma que queiram agora atacar mais um da lista de países da região que invadiram desde o século XVIII – todos, com exceção do Irã e da Turquia moderna, pós-império otomano. E os outros sete países, entre os quais dois – Bósnia-Herzegovina e Uganda, cujos PIBs equivalem ao orçamento do Bolsa-Família e um – o Togo - com um PIB menor que o orçamento de educação do estado da Bahia, cederam ao formidável poder de pressão e chantagem, dos Estados Unidos e das ex-potências coloniais que mais miséria causaram no Oriente Médio ao longo dos últimos dois séculos. O poder de pressão do trio intrometido foi ensaiado até contra nós e quase teve êxito contra a Turquia às vésperas do acordo BIT – que só saiu por insistência do presidente brasileiro.
Os países que não foram submetidos a essas pressões, a Indonésia, a Índia, os países da Ásia Central, o Paquistão, a Africa do Sul e a maioria dos países africanos que se manifestaram sobre o assunto, Portugal, Noruega (ambos parte da UE, oficialmente pró-sanções), toda a América do Sul com exceção da Colômbia e do Chile, toda a América Central com exceção do Panamá, os 57 países da Organização da Conferência Islâmica e os 116 países do Movimento Não Alinhado, Egito à frente, declararam-se contra a imposição de novas sanções. E todos os países do mundo, inclusive a França e com exceção dos poucos que ficaram quietos a respeito, dos EUA, do Canadá, da Austrália e do Reino Unido, aclamaram o acordo BIT.
O Brasil tem agora a obrigação de estar à altura da confiança e da solidariedade de que foi objeto por parte da comunidade internacional real e ser fiel aos princípios afirmados nas negociações que levaram ao acordo, defendendo por todos os meios o caminho da negociação e do diálogo na solução do impasse iraniano.
Comentário
O problema não são as armas nucleares do Ahmadinejad, que, aliás, nada leva a crer que ele esteja buscando. E, mesmo que buscasse, friso, seria do seu direito, afinal, se Israel as têm, ¿por que o Irã não pode tê-las?
O problema de Ahmadinejad é que ele é um ditador, sumariamente abusa de sua autoridade, foi eleito de forma no mínimo questionável, ataca os direitos privados dos cidadãos iranianos, arma uma polícia política e religiosa capaz de lembrar Fleury e seus apaniguados, comete toda sorte de atrocidades contra os que se opõem ao seu governo.
O fato do conceito democrático ocidental não ser aplicado aos países orientais, devido à raízes culturais e religiosas específicas, não justifica o comportamento autoritário de Ahmadinejad.
Por outro lado, é extremamente irritante ver os EUA cobrar determinadas posturas do Irã quando não o faz com outros países estritamente similares. E não os faz, tão e tão somente pelo fato de serem países aliados, como Israel, China, Rússia, Arábia Saudita, etc.
Ah, claro. O EUA, nunca é demais lembrar, país responsável pelos crimes de guerra de Abu Ghraib e Guantánamo.
Somos a favor do desenvolvimento pacífico da energia nuclear. Não acreditamos que haja provas de que o Irã tenha um programa nuclear militar secreto. Defendendo o Irã, estamos defendendo o nosso próprio direito a dominar o ciclo completo da fabricação de combustível nuclear, estamos defendendo o nosso direito a desenvolver a nossa própria tecnologia de enriquecimento, estamos defendendo o nosso direito a construirmos nós mesmos os reatores que vão mover os nossos submarinos nucleares que vão defender a nossa soberania. Nem mais, nem menos. Queremos para o Irã apenas o que queremos para nós mesmo.
Não há nenhuma prova de que o Irã esteja tentando fazer armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, único organismo internacional que tem autoridade para falar do assunto e é relativamente isento, porque dirigido por um conselho de 32 países, difícil de manipular e pressionar. Não é preciso acreditar no que eu digo, basta ler os relatórios da AIEA, aqui, na página da AIEA sobre o Irã; e o mais recente, aqui, em espanhol.
O que a AIEA faz para deixar felizes o trio de intrometidos e os sócios menores deles, a China e a Rússia, é afirmar, depois de dizer com todas as letras que o programa nuclear iraniano é inteiramente monitorado e vigiado e que não há nenhum indício de “desvio de propósitos”, que não é possível afirmar que não haja um programa secreto. Ora, a mesmíssima coisa pode ser dita sobre o Brasil, sobre a Coreia do Sul, sobre Taiwan, até sobre a Argentina. O Irã é signatário do TNP e, segundo afirmou a AIEA repetidas vezes, cumpre estritamente todas as salvaguardas estabelecidas por esse órgão da ONU.
A AIEA, porém, marotamente, queixa-se de que o Irã se nega a cumprir resoluções do Conselho de Segurança que são ilegais, posto que é um direito do Irã ter um programa de enriquecimento de urânio, e ninguém, nem o Conselho de Segurança, tem o poder legal de impedir que o Irã desenvolva tecnologia nuclear dentro dos limites estabelecidos pelo TNP sem haver provas cabais de que esses limites estejam sendo excedidos. Queixa-se de que o Irã não adere aos Protocolos Adicionais, que são de adesão voluntária – o Brasil, por exemplo, não aderiu e denuncia os PAs como atentatórios à soberania nacional (e o primeiro que se recusou a assiná-los foi o FHC, antes que os diplomatas descalços comecem a ladainha do antiamericansmo, pelos mesmos motivos que o Lula). E pretende que o Irã permita que os inspetores da ONU visitem os locais onde as centrífugas são projetadas e fabricadas, o que não só não é obrigação nem do Irã nem de nenhum outro signatário do TNP como é uma exigência absurda: um país sob ameaça de um ataque militar por duas potências nucleares (uma das quais acaba de reformar as suas posturas nucleares para incluir a possibilidade de um ataque nuclear contra um país não nuclear -- uma óbvia violação dos princípios do TNP) não pode revelar os locais onde é fabricado o equipamento que lhe permitirá reconstruir o que for bombardeado, ou esses locais serão os primeiros alvos.
O Irã garante aos inspetores da ONU mais acesso que o Brasil, por exemplo, que, alegando razões de segredo industrial, não permite que eles nem vejam o que acontece dentro das nossas centrífugas: podem ver o que entra por uma ponta elas e o que sai pela outra, mas não o que acontece entre uma ponta e outra; o Brasil, a Coreia do Sul e Taiwan tampouco revelam os locais de produção das centrífugas; e não sei sobre os outros, mas o Brasil, em plena conformidade com as salvaguardas negociadas com a AIEA pelo governo brasileiro por ocasião da nossa adesão ao TNP, em 1997, não permite nenhum acesso ao programa de desenvolvimento dos reatores que serão usados em submarinos, alegando segredo militar – nós temos um programa nuclear militar, o Irã, não.
O governo iraniano chegou inclusive a assinar voluntariamente os termos invasivos dos Protocolos Adicionais do TNP em 2003, permitindo acesso irrestrito e não anunciado de inspetores da ONU a qualquer lugar do país em que pudesse haver, na opinião deles, qualquer coisa relacionada ao desenvolvimento de armas atômicas; mas retirou-se deles quase dois anos depois, ao verificar que escancarar tudo e submeter-se a ter inspetores escarafunchando por toda parte não adiantava nada para diminuir as suspeitas do “Ocidente” – porque, é claro, essas “suspeitas” são e sempre foram infundadas, e por isto resistem a qualquer prova contrária.
Portanto, se apesar de todas as garantias e tentativas de negociação do Irã desde a morte do Khomeini, apesar de o Irã não ter capacidade tecnológica para enriquecer urânio aos níveis necessários para fazer armas atômicas, apesar de o Irã não dominar a tecnologia de reprocessamento e de produção de plutônio, apesar de o programa nuclear iraniano estar sujeito à estrita vigilância da AIEA na forma de inspeções in loco e em câmeras instaladas em todos os locais ligados à produção de UBE a 3,5% e a 20%, apesar de o Irã ter adiado o início do enriquecimento a 20% para que a AIEA pudesse inspecionar as centrífugas e instalar câmeras de vigilância, apesar de todo o material físsil iraniano estar plenamente contabilizado e rastreado, apesar de o Irã, para facilitar as negociações, ter em diversas ocasiões aceitado suspender as atividades de enriquecimento a que tem direito, apesar de o Irã ter acertado com o Brasil e a Turquia uma acordo de exportação da maior parte do seu UBE segundo os exatos termos propostos pelo Grupo de Viena e estar cumprindo a sua parte mesmo tendo sido sujeito a novas sanções, mesmo assim continua sendo oficialmente acusado de ser “pouco transparente” e de ter um programa militar secreto, e extra-oficialmente de estar à beira de fazer uma bomba atômica (ler aqui como se faz para mentir sobre o Irã sem parecer). E, aos poucos, o que era extrapolação da imprensa mais raivosa vai-se transformando na base da próxima rodada de mentiras oficiais.
Ou seja, é evidente que a possibilidade de o Irã estar tentando fazer armas nucleares não passa de uma desculpa, sustentada por mentiras, com motivos inconfessáveis.
Logo, se foi possível mentir descaradamente sobre as “armas de destruição em massa” do Saddam Hussein e depois devastar o Iraque, se é possível mentir despudoradamente sobre o programa nuclear militar do Irã e ameaçar os iranianos com um ataque militar, o que é que garante que a mesma coisa não vai acontecer conosco amanhã? Hoje somos amigos e aliados dos Estados Unidos, e até acabamos de assinar um acordo de cooperação militar com eles; mas quem pode dizer em que estado estarão as nossas relações dentro de dois, dez, vinte anos? Se os EUA, a França e o Reino Unido têm hoje motivos para quererem atacar o Irã, que não se sabe muito bem quais são, quem seria capaz de jurar que não vão encontrar uma penca de motivos semelhantes para querer atacar o Brasil, ou impedir que desenvolvamos esta ou aquela tecnologia, se isto lhes for conveniente?
Se permitirmos que o Irã seja ilegalmente impedido de desenvolver o programa nuclear pacífico a que tem direito, o TNP será letra morta, e poderemos ser submetidos ao mesmo tratamento no futuro. O ataque ilegal contra os direitos do Irã e a preparação de mais uma intervenção militar ilegal contra um país soberano sob pretextos evidentemente falsos precisa ser detido agora, enquanto ainda é possível. O Brasil tem o dever de defender os direitos dos iranianos hoje, sob pena de pôr em risco os nossos próprios direitos no futuro. A nossa condição de potência com influência global a que nos leva o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos e a própria continuidade desse desenvolvimento dependem do apoio irrestrito ao direito do povo iraniano de desenvolver um programa nuclear pacífico, sem interferências, ameaças e agressões.
A Rússia e a China têm lá os seus motivos, alguns até compreensíveis mas quase todos venais e nenhum relativo ao programa nuclear, para apoiarem a tentativa de empurrar o Irã contra a parede. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França têm uma longuíssima folha corrida de intromissão nos assuntos dos países do Oriente Médio, e não é surpresa nenhuma que queiram agora atacar mais um da lista de países da região que invadiram desde o século XVIII – todos, com exceção do Irã e da Turquia moderna, pós-império otomano. E os outros sete países, entre os quais dois – Bósnia-Herzegovina e Uganda, cujos PIBs equivalem ao orçamento do Bolsa-Família e um – o Togo - com um PIB menor que o orçamento de educação do estado da Bahia, cederam ao formidável poder de pressão e chantagem, dos Estados Unidos e das ex-potências coloniais que mais miséria causaram no Oriente Médio ao longo dos últimos dois séculos. O poder de pressão do trio intrometido foi ensaiado até contra nós e quase teve êxito contra a Turquia às vésperas do acordo BIT – que só saiu por insistência do presidente brasileiro.
Os países que não foram submetidos a essas pressões, a Indonésia, a Índia, os países da Ásia Central, o Paquistão, a Africa do Sul e a maioria dos países africanos que se manifestaram sobre o assunto, Portugal, Noruega (ambos parte da UE, oficialmente pró-sanções), toda a América do Sul com exceção da Colômbia e do Chile, toda a América Central com exceção do Panamá, os 57 países da Organização da Conferência Islâmica e os 116 países do Movimento Não Alinhado, Egito à frente, declararam-se contra a imposição de novas sanções. E todos os países do mundo, inclusive a França e com exceção dos poucos que ficaram quietos a respeito, dos EUA, do Canadá, da Austrália e do Reino Unido, aclamaram o acordo BIT.
O Brasil tem agora a obrigação de estar à altura da confiança e da solidariedade de que foi objeto por parte da comunidade internacional real e ser fiel aos princípios afirmados nas negociações que levaram ao acordo, defendendo por todos os meios o caminho da negociação e do diálogo na solução do impasse iraniano.
Comentário
O problema não são as armas nucleares do Ahmadinejad, que, aliás, nada leva a crer que ele esteja buscando. E, mesmo que buscasse, friso, seria do seu direito, afinal, se Israel as têm, ¿por que o Irã não pode tê-las?
O problema de Ahmadinejad é que ele é um ditador, sumariamente abusa de sua autoridade, foi eleito de forma no mínimo questionável, ataca os direitos privados dos cidadãos iranianos, arma uma polícia política e religiosa capaz de lembrar Fleury e seus apaniguados, comete toda sorte de atrocidades contra os que se opõem ao seu governo.
O fato do conceito democrático ocidental não ser aplicado aos países orientais, devido à raízes culturais e religiosas específicas, não justifica o comportamento autoritário de Ahmadinejad.
Por outro lado, é extremamente irritante ver os EUA cobrar determinadas posturas do Irã quando não o faz com outros países estritamente similares. E não os faz, tão e tão somente pelo fato de serem países aliados, como Israel, China, Rússia, Arábia Saudita, etc.
Ah, claro. O EUA, nunca é demais lembrar, país responsável pelos crimes de guerra de Abu Ghraib e Guantánamo.
O Fim da Pré-Campanha – por Marcos Coimbra (Correio Braziliense)
Quem tinha razão era Magalhães Pinto, velha raposa política e ex-governador de Minas Gerais.
A política é mesmo como nuvem. Uma hora, você olha e vê uma coisa. Olha de novo e ela já mudou.
Se estivesse vivo, seria o que ele diria sobre o período da campanha presidencial que agora se encerra. Do início de abril, quando se desincompatibilizaram os principais candidatos, ao fim de junho, quando começa a reta final da sucessão, tudo ficou diferente.
A entrada em campo de Serra era aguardada há meses. É verdade que ele teve que disputar, até dezembro, o posto de candidato com Aécio, ainda que não se preocupasse muito com as aspirações do mineiro. Estava convencido de que o PSDB terminaria por lhe entregar a vaga.
De qualquer maneira, o fato é que, desde quando Aécio saiu do páreo, nada mais restava em seu caminho. Com a candidatura assegurada, teve amplo tempo para se preparar, montar sua estratégia, organizar sua equipe. Ainda que continuasse, de janeiro a março, com suas obrigações de governo, pôde pensar com calma no que faria quando saísse do Palácio dos Bandeirantes.
Com algum retardo (que ajudou a manter o suspense sobre sua decisão até a véspera do prazo fatal), ele finalmente renunciou ao cargo de governador e virou candidato. Juntou-se a Dilma que, dias antes, havia deixado o ministério.
Entre o começo de abril e meados de maio, Serra viveu seus melhores 45 dias desde quando iniciou sua jornada em busca da Presidência. Quem tiver alguma memória se lembrará do que andaram dizendo seus correligionários e publicaram aqueles que por ele torcem na imprensa carioca e paulista.
Era como se estivesse ali começando para valer a sucessão, com um goleador nato, em momento inspirado, mostrando seu melhor futebol. Para eles, Serra fazia um gol atrás do outro, com postura serena, palavras sempre bem escolhidas, hábeis manobras.
Pelo que se lia nesses jornais, enquanto Serra conquistava novos apoios, Dilma perdia os dela. Era apenas questão de tempo até que as pesquisas assinalassem seu crescimento. Enquanto não vinham, as colunas estavam cheias de especulações sobre “pesquisas internas”, que já o mostrariam bem à frente da adversária.
Se era esse o tom da cobertura a respeito do candidato tucano, via-se o inverso no que era publicado sobre a petista. Parecia que uma desastrada havia entrado em campo, cometendo um erro depois do outro. Precipitação, amadorismo, inabilidade, incompetência, era isso que se falava dela e de sua campanha. Chegaram a dizer que Lula andava nervoso, agitado, irritadiço.
As nuvens, no entanto, mudaram. Se o sol parecia brilhar para Serra até o meio de maio, a chuva desabou de lá para cá. Viu-se que a falta de traquejo eleitoral não prejudicava Dilma. Ela cresceu nas pesquisas, suas alianças se confirmaram, outras surgiram. Gorou a esperança de que a propaganda partidária de PSDB, DEM, PPS e PTB, somadas, mudassem o panorama. Na maioria dos estados, alegrias para o governo, decepções para a oposição. Lula já não franzia mais a testa. Quando junho chegou ao fim, ele era só sorrisos.
Ficou, no entanto, para o apagar das luzes da “pré-campanha”, o pior momento. O episódio da escolha do companheiro de chapa de Serra tem tudo para entrar para a história.
Desde a quarta-feira, quando Índio da Costa foi confirmado, já se falou tanto que é até cruel insistir no assunto. Qualquer argumento em favor de seu nome chega a ser risível, desde o potencial de seus 40 anos atraírem a juventude e provocarem a reversão do voto no Sudeste, à densidade de sua biografia de “ficha limpa”.
Mas resta uma pergunta: por mais que as pessoas se julguem imortais, um candidato a presidente não tem a obrigação de raciocinar com a hipótese de vir a faltar, por qualquer motivo? Não foi, talvez, pensando assim que Collor escolheu Itamar, que Fernando Henrique convidou Marco Maciel, que Lula optou por José Alencar?
Goste-se ou não de Michel Temer, nem seus inimigos negam que tem experiência e qualificações para, se imperativo, substituir Dilma. E Índio da Costa?
Comentário
Quanto as “nuvens” que surgem numa campanha, eles são exatamente coerentes com o crescimento/decrescimento nas pesquisas.
Discordo especialmente do último parágrafo. Quanto a Michel Temer e Índio da Costa, é tarefa árdua, ou talvez mesmo impossível, detetar quem é pior que o outro.
A política é mesmo como nuvem. Uma hora, você olha e vê uma coisa. Olha de novo e ela já mudou.
Se estivesse vivo, seria o que ele diria sobre o período da campanha presidencial que agora se encerra. Do início de abril, quando se desincompatibilizaram os principais candidatos, ao fim de junho, quando começa a reta final da sucessão, tudo ficou diferente.
A entrada em campo de Serra era aguardada há meses. É verdade que ele teve que disputar, até dezembro, o posto de candidato com Aécio, ainda que não se preocupasse muito com as aspirações do mineiro. Estava convencido de que o PSDB terminaria por lhe entregar a vaga.
De qualquer maneira, o fato é que, desde quando Aécio saiu do páreo, nada mais restava em seu caminho. Com a candidatura assegurada, teve amplo tempo para se preparar, montar sua estratégia, organizar sua equipe. Ainda que continuasse, de janeiro a março, com suas obrigações de governo, pôde pensar com calma no que faria quando saísse do Palácio dos Bandeirantes.
Com algum retardo (que ajudou a manter o suspense sobre sua decisão até a véspera do prazo fatal), ele finalmente renunciou ao cargo de governador e virou candidato. Juntou-se a Dilma que, dias antes, havia deixado o ministério.
Entre o começo de abril e meados de maio, Serra viveu seus melhores 45 dias desde quando iniciou sua jornada em busca da Presidência. Quem tiver alguma memória se lembrará do que andaram dizendo seus correligionários e publicaram aqueles que por ele torcem na imprensa carioca e paulista.
Era como se estivesse ali começando para valer a sucessão, com um goleador nato, em momento inspirado, mostrando seu melhor futebol. Para eles, Serra fazia um gol atrás do outro, com postura serena, palavras sempre bem escolhidas, hábeis manobras.
Pelo que se lia nesses jornais, enquanto Serra conquistava novos apoios, Dilma perdia os dela. Era apenas questão de tempo até que as pesquisas assinalassem seu crescimento. Enquanto não vinham, as colunas estavam cheias de especulações sobre “pesquisas internas”, que já o mostrariam bem à frente da adversária.
Se era esse o tom da cobertura a respeito do candidato tucano, via-se o inverso no que era publicado sobre a petista. Parecia que uma desastrada havia entrado em campo, cometendo um erro depois do outro. Precipitação, amadorismo, inabilidade, incompetência, era isso que se falava dela e de sua campanha. Chegaram a dizer que Lula andava nervoso, agitado, irritadiço.
As nuvens, no entanto, mudaram. Se o sol parecia brilhar para Serra até o meio de maio, a chuva desabou de lá para cá. Viu-se que a falta de traquejo eleitoral não prejudicava Dilma. Ela cresceu nas pesquisas, suas alianças se confirmaram, outras surgiram. Gorou a esperança de que a propaganda partidária de PSDB, DEM, PPS e PTB, somadas, mudassem o panorama. Na maioria dos estados, alegrias para o governo, decepções para a oposição. Lula já não franzia mais a testa. Quando junho chegou ao fim, ele era só sorrisos.
Ficou, no entanto, para o apagar das luzes da “pré-campanha”, o pior momento. O episódio da escolha do companheiro de chapa de Serra tem tudo para entrar para a história.
Desde a quarta-feira, quando Índio da Costa foi confirmado, já se falou tanto que é até cruel insistir no assunto. Qualquer argumento em favor de seu nome chega a ser risível, desde o potencial de seus 40 anos atraírem a juventude e provocarem a reversão do voto no Sudeste, à densidade de sua biografia de “ficha limpa”.
Mas resta uma pergunta: por mais que as pessoas se julguem imortais, um candidato a presidente não tem a obrigação de raciocinar com a hipótese de vir a faltar, por qualquer motivo? Não foi, talvez, pensando assim que Collor escolheu Itamar, que Fernando Henrique convidou Marco Maciel, que Lula optou por José Alencar?
Goste-se ou não de Michel Temer, nem seus inimigos negam que tem experiência e qualificações para, se imperativo, substituir Dilma. E Índio da Costa?
Comentário
Quanto as “nuvens” que surgem numa campanha, eles são exatamente coerentes com o crescimento/decrescimento nas pesquisas.
Discordo especialmente do último parágrafo. Quanto a Michel Temer e Índio da Costa, é tarefa árdua, ou talvez mesmo impossível, detetar quem é pior que o outro.
Serra tenta levar a eleição para o segundo turno - por Luiz Carlos Azenha (Vi o mundo)
Muito se escreveu nas últimas horas a respeito de um suposto fracasso dos tucanos na escolha do candidato a vice-presidente na chapa de José Serra. Bons textos foram escritos, sacadas interessantes foram expostas. A nossa mídia ama esse tipo de futrica que o twitter ajuda a disseminar: as fofocas políticas de bastidores rendem muitas manchetes, ainda que não iluminem o verdadeiro jogo.
Acho que Serra tomou a decisão certa ao tentar emplacar Álvaro Dias de vice, dada a conjuntura eleitoral. Como se sabe, candidato a vice raramente rende algum voto. Ou pelo menos não rende votos em número suficiente para decidir a eleição. A decisão de Serra era a mais adequada não pelos votos que o vice traria, mas por neutralizar um perigo para a candidatura dele no Sudeste/Sul, o palanque unificado de PT-PMDB-PDT no Paraná.
A aritmética é razoavelmente simples. Serra precisa de vitória por ampla margem no Sudeste e no Sul para levar a eleição de outubro para o segundo turno. Não é certo que conseguirá vencer pela margem necessária nem mesmo em São Paulo (por baixo, mais de 60% dos votos). No Rio de Janeiro a situação é desfavorável para a oposição. Em Minas, igualmente.
No Paraná, no entanto, dadas as circunstâncias especiais da relação de Osmar (agora candidato a governador, com Lula e Dilma) e o irmão dele, Álvaro Dias, Serra tinha a oportunidade de usar a indicação do vice para golpear um forte palanque governista.
Não deu certo, por causa da reação do DEM. Os Democratas aparentemente concluiram que a presença de um vice na chapa de Serra é a melhor oportunidade para dar ao partido a exposição necessária, em nível nacional, para evitar uma derrota catastrófica que esmague a representação no Congresso.
É disso que se trata: Serra, para sobreviver, pretendia jogar o DEM aos leões.
As fofocas, intrigas e futricas dos últimos dias, no entanto, duvido que resultem em um só voto ganho (ou perdido) para José Serra em função do nome escolhido (tanto faz Álvaro Dias, Índio da Costa ou um poste).
Dados:
1. A alta aprovação popular do governo Lula;
2. A excelente conjuntura econômica;
3. A capacidade política exibida pela ex-ministra Dilma Rousseff para aglutinar apoios;
José Serra tem sido forçado a se defender no que acreditava ser seu terreno mais favorável, o Sul e o Sudeste. No Paraná, fracassou.
O PT e partidos aliados do governo já engoliram todos os sapos necessários à formação da aliança em torno da ex-ministra Dilma. Olhando os palanques estaduais, fica claro não apenas o poder extraordinário do presidente Lula de delicadamente torcer os braços dos que se colocam no caminho. Ele tem a força e já deixou claro que pretende usá-la para fazer a sucessora. Para o bem e para o mal, esta é a nova realidade política do Brasil. Somos todos, para usar a frase de um colunista, “lulodependentes”.
Comentário
De fato, fazer o PT apoiar Hélio Costa em Minas Gerais e Roseana Sarney no Maranhão são atitudes explicáveis, porém, absolutamente condenáveis.
Como bem disse certa vez Che Guevara: “as concessões são a ante-sala da traição”. Porém, a pureza ideológica do revolucionário não é coerente com a tal da “realpolitik”.
Uma lástima.
Acho que Serra tomou a decisão certa ao tentar emplacar Álvaro Dias de vice, dada a conjuntura eleitoral. Como se sabe, candidato a vice raramente rende algum voto. Ou pelo menos não rende votos em número suficiente para decidir a eleição. A decisão de Serra era a mais adequada não pelos votos que o vice traria, mas por neutralizar um perigo para a candidatura dele no Sudeste/Sul, o palanque unificado de PT-PMDB-PDT no Paraná.
A aritmética é razoavelmente simples. Serra precisa de vitória por ampla margem no Sudeste e no Sul para levar a eleição de outubro para o segundo turno. Não é certo que conseguirá vencer pela margem necessária nem mesmo em São Paulo (por baixo, mais de 60% dos votos). No Rio de Janeiro a situação é desfavorável para a oposição. Em Minas, igualmente.
No Paraná, no entanto, dadas as circunstâncias especiais da relação de Osmar (agora candidato a governador, com Lula e Dilma) e o irmão dele, Álvaro Dias, Serra tinha a oportunidade de usar a indicação do vice para golpear um forte palanque governista.
Não deu certo, por causa da reação do DEM. Os Democratas aparentemente concluiram que a presença de um vice na chapa de Serra é a melhor oportunidade para dar ao partido a exposição necessária, em nível nacional, para evitar uma derrota catastrófica que esmague a representação no Congresso.
É disso que se trata: Serra, para sobreviver, pretendia jogar o DEM aos leões.
As fofocas, intrigas e futricas dos últimos dias, no entanto, duvido que resultem em um só voto ganho (ou perdido) para José Serra em função do nome escolhido (tanto faz Álvaro Dias, Índio da Costa ou um poste).
Dados:
1. A alta aprovação popular do governo Lula;
2. A excelente conjuntura econômica;
3. A capacidade política exibida pela ex-ministra Dilma Rousseff para aglutinar apoios;
José Serra tem sido forçado a se defender no que acreditava ser seu terreno mais favorável, o Sul e o Sudeste. No Paraná, fracassou.
O PT e partidos aliados do governo já engoliram todos os sapos necessários à formação da aliança em torno da ex-ministra Dilma. Olhando os palanques estaduais, fica claro não apenas o poder extraordinário do presidente Lula de delicadamente torcer os braços dos que se colocam no caminho. Ele tem a força e já deixou claro que pretende usá-la para fazer a sucessora. Para o bem e para o mal, esta é a nova realidade política do Brasil. Somos todos, para usar a frase de um colunista, “lulodependentes”.
Comentário
De fato, fazer o PT apoiar Hélio Costa em Minas Gerais e Roseana Sarney no Maranhão são atitudes explicáveis, porém, absolutamente condenáveis.
Como bem disse certa vez Che Guevara: “as concessões são a ante-sala da traição”. Porém, a pureza ideológica do revolucionário não é coerente com a tal da “realpolitik”.
Uma lástima.
Condenados controladores do caos aéreo – por Rodrigo Couto (Correio Braziliense)
Sete profissionais do Cindacta IV receberam penas de até dois anos e meio de cadeia por liderarem greve em 2007
Acusados de liderarem uma greve e atentarem contra os princípios da hierarquia e da disciplina militar em 30 de março de 2007, sete controladores de voo do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta IV), em Manaus, foram condenados ontem pelo Superior Tribunal Militar (STM) a penas que variam de quatro meses a dois anos e seis meses de prisão. Eles foram acusados pelos crimes de incitamento à desobediência ou à prática de crime militar, desrespeito a superior, e publicação de crítica indevida a superior, infrações previstas no Código Penal Militar. Os operadores de Brasília e de Curitiba, que também participaram dos protestos, ainda não foram sentenciados.
Condenado a exatos dois anos, seis meses e 9 dias de prisão, o controlador licenciado Wilson de Alencar Aragão disse ao Correio que o julgamento no STM não é imparcial. "Não tivemos a intenção de provocar revolta. Estávamos apenas buscando o exercício pleno de liberdade de expressão", afirma. De acordo com Alencar, "o tribunal não se ateve às provas e nem aos autos. Foi uma decisão afastada dos critérios jurídicos". Aprovado em concurso público fora da esfera militar, o operador de voo pretende recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). "Acompanhei o julgamento pela internet e vi que houve divergências em relação ao período da minha pena. Vou aguardar a publicação do acórdão do STM e espero por um julgamento imparcial no STF", acrescenta.
Dos 40 militares indicados do Cindacta IV, sete foram condenados, 32 sofreram punições disciplinares, e um foi absolvido. Durante a leitura de seu parecer, o ministro-relator Marcos Leal de Azevedo destacou que "a liberdade de expressão é um direito constitucional que resguarda tanto o direito do cidadão quanto o da democracia, mas nenhum princípio é absoluto, podendo ser válido em algumas situações e não válido em outras". O STM julgou recurso contra a condenação, em primeira instância, de oito controladores de Manaus.
Depois da queda do Boeing 737-800 da Gol, em 29 de setembro de 2006, com 154 pessoas a bordo, após se chocar com jato Legacy, os controladores de voo decidiram realizar manifestações que reivindicavam a desmilitarização do controle do tráfego aéreo e a melhoria dos salários. Em 30 de março de 2007, a paralisação dos operadores praticamente paralisou os embarques e desembarques nos aeroportos de todo o país.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/07/02/brasil,i=...
Comentário
Os militares sendo militares. É por essas e outras que nutro absoluto desprezo pelos milicos.
Acusados de liderarem uma greve e atentarem contra os princípios da hierarquia e da disciplina militar em 30 de março de 2007, sete controladores de voo do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta IV), em Manaus, foram condenados ontem pelo Superior Tribunal Militar (STM) a penas que variam de quatro meses a dois anos e seis meses de prisão. Eles foram acusados pelos crimes de incitamento à desobediência ou à prática de crime militar, desrespeito a superior, e publicação de crítica indevida a superior, infrações previstas no Código Penal Militar. Os operadores de Brasília e de Curitiba, que também participaram dos protestos, ainda não foram sentenciados.
Condenado a exatos dois anos, seis meses e 9 dias de prisão, o controlador licenciado Wilson de Alencar Aragão disse ao Correio que o julgamento no STM não é imparcial. "Não tivemos a intenção de provocar revolta. Estávamos apenas buscando o exercício pleno de liberdade de expressão", afirma. De acordo com Alencar, "o tribunal não se ateve às provas e nem aos autos. Foi uma decisão afastada dos critérios jurídicos". Aprovado em concurso público fora da esfera militar, o operador de voo pretende recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). "Acompanhei o julgamento pela internet e vi que houve divergências em relação ao período da minha pena. Vou aguardar a publicação do acórdão do STM e espero por um julgamento imparcial no STF", acrescenta.
Dos 40 militares indicados do Cindacta IV, sete foram condenados, 32 sofreram punições disciplinares, e um foi absolvido. Durante a leitura de seu parecer, o ministro-relator Marcos Leal de Azevedo destacou que "a liberdade de expressão é um direito constitucional que resguarda tanto o direito do cidadão quanto o da democracia, mas nenhum princípio é absoluto, podendo ser válido em algumas situações e não válido em outras". O STM julgou recurso contra a condenação, em primeira instância, de oito controladores de Manaus.
Depois da queda do Boeing 737-800 da Gol, em 29 de setembro de 2006, com 154 pessoas a bordo, após se chocar com jato Legacy, os controladores de voo decidiram realizar manifestações que reivindicavam a desmilitarização do controle do tráfego aéreo e a melhoria dos salários. Em 30 de março de 2007, a paralisação dos operadores praticamente paralisou os embarques e desembarques nos aeroportos de todo o país.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/07/02/brasil,i=...
Comentário
Os militares sendo militares. É por essas e outras que nutro absoluto desprezo pelos milicos.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Quem acredita ainda na FSP (Força Serra Presidente)? – por Emir Sader (Agência Carta Maior)
O jornal que emprestou seus carros para a Operação Bandeirantes, disfarçada de jornalistas, levar a cabo prisões arbitrárias, fuzilamentos sumários de detidos, conduzir os sobreviventes para tortura, para a desaparição, para a morte.
O jornal que considerou a ditadura militar – o mais ditatorial dos regimes, de imposição do terror, o mais antidemocrático – como a salvação do país, pregou sua realização, saudou a ruptura da democracia e a deposição de um presidente legitimamente eleito pelos cidadãos, apoio a ditadura, ajudou a escondeu seus crimes e, mais recentemente, chamou-o de “ditabranda”.
O jornal que publicou uma ficha falsa da Dilma em manchete de primeira página de um domingo. Pego em flagrante, nunca corrigiu sua brutal manipulação.
Uma executiva do jornal declarou que, dada a fraqueza dos partidos da oposição, a imprensa assume o papel de partido da oposição. Isto é, o jornaleco virou boletim de um partido opositor, os jornalistas não são mais jornalistas, todos eles militantes desse partido opositor. A direção, que nunca foi eleita por ninguém, mas designada pela família, o Comitê Central desse partido. O seu diretor, escolhido por seu pai para sucedê-lo na direção da empresa familiar, presidente do partido.
Suas pesquisas são pesquisas internas dos tucanos, feitas por encomenda e atendendo às penúrias do candidato-colunista do jornal, que passeia pela redação do jornal como pela sua casa, dá broncas no que não gosta, nomeia empregados, como a chefe da sucursal de Brasília, nomeada por ele, porque tucana e porque casada com publicitário – ex funcionário da Globo – que codirige a campanha derrotada em 2002 e agora em 2010.
Quem acredita nas pesquisas do Databranda?
Quem compraria um jornal usado da família Frias?
Que lê o Diario Oficial dos Tucanos, com todos os editorais cheios de pluma tucana da página 2?
O povo não é tonto. Com tudo o que eles dizem, apenas 3% aceitam seus argumentos e rejeitam Lula.
Ou será 0%, na margem de erro?
A derrota de Serra e seu vice de ocasião é também a derrota da imprensa das oligarquias familiares, da imprensa mercantil, da imprensa mentirosa e manipuladora, a derrota dos Frias, dos Marinhos, dos Mesquitas, dos Civitas e dos seus associados regionais e internacionais.
Daí seu desespero, daí sua depressão, daí mentiras como essa pesquisa encomendada pelos tucanos e em que nem eles mesmos acreditam.
Otávio Frias Filho (que ocupa o cargo por ser filho de Otávio Frias pai), seus parentes e militantes do seu partido, não conseguem mais ditabrandar em nome do país.
Prêmio Corvo do semestre para Otávio Frias Filho e sua trupe!
Comentário
O Data Folha nunca foi confiável, além do mais com relação ao seu editor-chefe, José Serra. Porém, agora, perdeu completamente o pudor em mentir. Suas pesquisas contrariam as tendências de todos os outros institutos de pesquisa, até, pasmem, do Ibope (altamente vinculado ao PSDB).
Se se repetir o que ocorreu no início do ano, quando todos os institutos apontavam crescimento da Dilma e o Datafolha o contrário, pode-se fechar este instituto de pesquisa, pois ele deixará de poder ser alcunhado desta maneira, e poderá ser chamado como de fato é: um braço eleitoral de José Serra.
O jornal que considerou a ditadura militar – o mais ditatorial dos regimes, de imposição do terror, o mais antidemocrático – como a salvação do país, pregou sua realização, saudou a ruptura da democracia e a deposição de um presidente legitimamente eleito pelos cidadãos, apoio a ditadura, ajudou a escondeu seus crimes e, mais recentemente, chamou-o de “ditabranda”.
O jornal que publicou uma ficha falsa da Dilma em manchete de primeira página de um domingo. Pego em flagrante, nunca corrigiu sua brutal manipulação.
Uma executiva do jornal declarou que, dada a fraqueza dos partidos da oposição, a imprensa assume o papel de partido da oposição. Isto é, o jornaleco virou boletim de um partido opositor, os jornalistas não são mais jornalistas, todos eles militantes desse partido opositor. A direção, que nunca foi eleita por ninguém, mas designada pela família, o Comitê Central desse partido. O seu diretor, escolhido por seu pai para sucedê-lo na direção da empresa familiar, presidente do partido.
Suas pesquisas são pesquisas internas dos tucanos, feitas por encomenda e atendendo às penúrias do candidato-colunista do jornal, que passeia pela redação do jornal como pela sua casa, dá broncas no que não gosta, nomeia empregados, como a chefe da sucursal de Brasília, nomeada por ele, porque tucana e porque casada com publicitário – ex funcionário da Globo – que codirige a campanha derrotada em 2002 e agora em 2010.
Quem acredita nas pesquisas do Databranda?
Quem compraria um jornal usado da família Frias?
Que lê o Diario Oficial dos Tucanos, com todos os editorais cheios de pluma tucana da página 2?
O povo não é tonto. Com tudo o que eles dizem, apenas 3% aceitam seus argumentos e rejeitam Lula.
Ou será 0%, na margem de erro?
A derrota de Serra e seu vice de ocasião é também a derrota da imprensa das oligarquias familiares, da imprensa mercantil, da imprensa mentirosa e manipuladora, a derrota dos Frias, dos Marinhos, dos Mesquitas, dos Civitas e dos seus associados regionais e internacionais.
Daí seu desespero, daí sua depressão, daí mentiras como essa pesquisa encomendada pelos tucanos e em que nem eles mesmos acreditam.
Otávio Frias Filho (que ocupa o cargo por ser filho de Otávio Frias pai), seus parentes e militantes do seu partido, não conseguem mais ditabrandar em nome do país.
Prêmio Corvo do semestre para Otávio Frias Filho e sua trupe!
Comentário
O Data Folha nunca foi confiável, além do mais com relação ao seu editor-chefe, José Serra. Porém, agora, perdeu completamente o pudor em mentir. Suas pesquisas contrariam as tendências de todos os outros institutos de pesquisa, até, pasmem, do Ibope (altamente vinculado ao PSDB).
Se se repetir o que ocorreu no início do ano, quando todos os institutos apontavam crescimento da Dilma e o Datafolha o contrário, pode-se fechar este instituto de pesquisa, pois ele deixará de poder ser alcunhado desta maneira, e poderá ser chamado como de fato é: um braço eleitoral de José Serra.
A Selic e o jogo das previsões – por Luis Nassif
Batata! Vocês acompanharam aqui as análises sobre o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2010. Um conjunto de argumentos fortes mostrando que o crescimento foi atípico e não se repetiria nos trimestres seguintes. Portanto, não haveria necessidade de aumento na taxa Selic para conter a demanda.
O Banco Central e o mercado ignoraram espertamente as evidências. Agora, com o aumento da Selic sacramentado, aparece a confirmação do que dizíamos, a produção industrial não se mantém. E as consultorias mais manjadas - integrantes da orquestração dos juros - passam a repetir, a posteriori, as explicações sobre a razão da produção industrial ter arrefecido. Mas, agora, sem risco de segurar a alta da Selic - que já ocorreu.
Estadão
Produção industrial surpreende e desacelera
Com crescimento zero em maio em relação a abril, estabilidade é interpretada como 'acomodação'; aumento acumulado de 17,3% de janeiro a maio é recorde
Jacqueline Farid / RIO - O Estado de S.Paulo
A produção industrial surpreendeu economistas com crescimento zero em maio. A estabilidade foi interpretada como "acomodação", provocada por "fatores pontuais", pelo técnico do IBGE André Macedo. Mas analistas apontam desaceleração no ritmo de expansão do setor, cuja velocidade vinha gerando preocupação por causa de possíveis reflexos na inflação. Em relação a maio do ano passado, houve alta de 14,8%.
As projeções de analistas ouvidos pela Agência Estado apontavam, em média, crescimento de 1,5% na produção em maio ante abril. Apesar do resultado fraco no mês nessa comparação, o aumento acumulado de 17,3% na produção de janeiro a maio é o maior para o período apurado na série histórica iniciada em 1991.
Macedo argumentou que é difícil mensurar em indicadores antecedentes o desempenho dos bens de consumo semi e não duráveis (alimentos, carburantes, remédios). "A indústria se encontra muito próxima do seu patamar mais elevado, de março de 2010, e agora atinge uma acomodação", disse Macedo. "É preciso esperar os resultados seguintes para ter uma visão mais exata de como está se comportando o setor industrial."
Macedo cita, como exemplo de impacto negativo pontual, a parada técnica programada que atingiu em maio o setor de refino de petróleo e álcool (a gasolina está na categoria de semi e não duráveis), causando queda mensal de 4,6% nessa atividade. Outro exemplo foi o recuo, também de 4,6%, na indústria farmacêutica, após meses de crescimento.
Ainda do lado do consumo, os bens duráveis (automóveis, eletrodomésticos) também mostraram acomodação ante abril, com expansão de apenas 0,1%. Na avaliação de Macedo, a retirada de benefícios fiscais, como a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), está levando a uma perda de ritmo no crescimento dessa categoria.
A economista do Santander Luiza Rodrigues concorda que os dados não permitem avaliar que o forte aquecimento industrial ficou no passado. "Mantemos nossa previsão de alta de 13,6% para o crescimento da produção industrial em 2010." Para ela, o saldo abaixo do esperado "não é sinal de desaceleração generalizada, mas adaptação".
Para o analista da Tendências Consultoria Bernardo Wjuniski, o resultado aponta desaceleração do ritmo de expansão no segundo trimestre, em parte pela retirada dos estímulos fiscais e monetários e pelo fim do processo de recomposição de estoques.
O estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, vê um processo de desaceleração no crescimento não apenas da indústria, mas de toda a economia. "A impressão que tenho é que assistimos, no segundo trimestre, a um processo de mudança de ritmo de crescimento."
Investimentos. A produção de bens de capital, que sinaliza o desempenho dos investimentos, apontou, em maio, o 14.º crescimento seguido ante o mês anterior, destacou Macedo. "Talvez esse seja o grande resultado positivo de maio, em razão da qualidade que os bens de capital trazem para a indústria, significando aumento de capacidade e ampliação do parque industrial." No acumulado de 12 meses (0,8%) essa categoria mostrou, em maio, o primeiro resultado positivo desde abril de 2009.
Segundo Macedo, os bens de capital vêm apresentando, nos últimos meses, desempenhos acima da média industrial, com aceleração no crescimento. A produção dessa categoria aumentou 1,2% em maio ante abril e subiu 38,5% ante maio do ano passado. Em relação a maio de 2009, a alta foi puxada por bens de capital para transporte (34,2%, com destaque para caminhões) e para uso misto (46,7%, com destaque para equipamentos para telefonia e de informática), além de bens de capital para construção (154,7%), uso industrial (33,6%) e agrícola (51,2%). /
COLABOROU FLAVIO LEONEL
O Banco Central e o mercado ignoraram espertamente as evidências. Agora, com o aumento da Selic sacramentado, aparece a confirmação do que dizíamos, a produção industrial não se mantém. E as consultorias mais manjadas - integrantes da orquestração dos juros - passam a repetir, a posteriori, as explicações sobre a razão da produção industrial ter arrefecido. Mas, agora, sem risco de segurar a alta da Selic - que já ocorreu.
Estadão
Produção industrial surpreende e desacelera
Com crescimento zero em maio em relação a abril, estabilidade é interpretada como 'acomodação'; aumento acumulado de 17,3% de janeiro a maio é recorde
Jacqueline Farid / RIO - O Estado de S.Paulo
A produção industrial surpreendeu economistas com crescimento zero em maio. A estabilidade foi interpretada como "acomodação", provocada por "fatores pontuais", pelo técnico do IBGE André Macedo. Mas analistas apontam desaceleração no ritmo de expansão do setor, cuja velocidade vinha gerando preocupação por causa de possíveis reflexos na inflação. Em relação a maio do ano passado, houve alta de 14,8%.
As projeções de analistas ouvidos pela Agência Estado apontavam, em média, crescimento de 1,5% na produção em maio ante abril. Apesar do resultado fraco no mês nessa comparação, o aumento acumulado de 17,3% na produção de janeiro a maio é o maior para o período apurado na série histórica iniciada em 1991.
Macedo argumentou que é difícil mensurar em indicadores antecedentes o desempenho dos bens de consumo semi e não duráveis (alimentos, carburantes, remédios). "A indústria se encontra muito próxima do seu patamar mais elevado, de março de 2010, e agora atinge uma acomodação", disse Macedo. "É preciso esperar os resultados seguintes para ter uma visão mais exata de como está se comportando o setor industrial."
Macedo cita, como exemplo de impacto negativo pontual, a parada técnica programada que atingiu em maio o setor de refino de petróleo e álcool (a gasolina está na categoria de semi e não duráveis), causando queda mensal de 4,6% nessa atividade. Outro exemplo foi o recuo, também de 4,6%, na indústria farmacêutica, após meses de crescimento.
Ainda do lado do consumo, os bens duráveis (automóveis, eletrodomésticos) também mostraram acomodação ante abril, com expansão de apenas 0,1%. Na avaliação de Macedo, a retirada de benefícios fiscais, como a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), está levando a uma perda de ritmo no crescimento dessa categoria.
A economista do Santander Luiza Rodrigues concorda que os dados não permitem avaliar que o forte aquecimento industrial ficou no passado. "Mantemos nossa previsão de alta de 13,6% para o crescimento da produção industrial em 2010." Para ela, o saldo abaixo do esperado "não é sinal de desaceleração generalizada, mas adaptação".
Para o analista da Tendências Consultoria Bernardo Wjuniski, o resultado aponta desaceleração do ritmo de expansão no segundo trimestre, em parte pela retirada dos estímulos fiscais e monetários e pelo fim do processo de recomposição de estoques.
O estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, vê um processo de desaceleração no crescimento não apenas da indústria, mas de toda a economia. "A impressão que tenho é que assistimos, no segundo trimestre, a um processo de mudança de ritmo de crescimento."
Investimentos. A produção de bens de capital, que sinaliza o desempenho dos investimentos, apontou, em maio, o 14.º crescimento seguido ante o mês anterior, destacou Macedo. "Talvez esse seja o grande resultado positivo de maio, em razão da qualidade que os bens de capital trazem para a indústria, significando aumento de capacidade e ampliação do parque industrial." No acumulado de 12 meses (0,8%) essa categoria mostrou, em maio, o primeiro resultado positivo desde abril de 2009.
Segundo Macedo, os bens de capital vêm apresentando, nos últimos meses, desempenhos acima da média industrial, com aceleração no crescimento. A produção dessa categoria aumentou 1,2% em maio ante abril e subiu 38,5% ante maio do ano passado. Em relação a maio de 2009, a alta foi puxada por bens de capital para transporte (34,2%, com destaque para caminhões) e para uso misto (46,7%, com destaque para equipamentos para telefonia e de informática), além de bens de capital para construção (154,7%), uso industrial (33,6%) e agrícola (51,2%). /
COLABOROU FLAVIO LEONEL
Investimento vai chegar a 19,4% do PIB, diz CNI – por Fabio Graner (O Estado de S.Paulo)
Participação do investimento no PIB seria a maior em aproximadamente 40 anos
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê um ritmo ainda mais acelerado de expansão dos investimentos na economia brasileira este ano. De acordo com o Informe Conjuntural da organização, a Formação Bruta de Capital Fixo (que é o nome técnico para o conjunto de investimentos privados e públicos da economia) deve ter expansão de 24,5% em 2010.
Com esse resultado, o nível de investimentos passa dos atuais 18% do Produto Interno Bruto (PIB) para 19,4%, o mais elevado da história recente, mas ainda perdendo para os anos 70.
O gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, afirmou que os investimentos vão liderar o processo de expansão da economia neste ano.
A CNI acaba de rever sua previsão para o crescimento de 2010, elevando a previsão para 7,2%. Antes, a estimativa era de uma alta de 6% para o PIB, mas o dado do primeiro trimestre veio forte e forçou a uma revisão para cima na previsão, que ficou bem próxima do PIB projetado pelo Banco Central, de 7,3%.
Na avaliação de Castelo Branco, o aumento nos investimentos é fundamental para a sustentabilidade do crescimento econômico brasileiro e vai promover uma acomodação no nível de utilização da capacidade instalada no segundo semestre, na casa de 83% a 84%.
Esse indicador é um dos mais atentamente monitorados pelo BC para a tomada de decisões de política monetária, pois evidencia a capacidade de a oferta de bens atender à demanda.
O economista lembrou que o ritmo dos investimentos neste ano ultrapassa 2008, período de forte crescimento da economia brasileira.
A CNI também elevou a estimativa de expansão para o PIB industrial, de 8% para 12,3%, e do consumo das famílias de 6,2% para 7,3%. A organização também enxerga um menor nível médio de desemprego este ano, de 7% (ante 7,2% na projeção anterior), mas manteve em 5,4% a projeção de alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o indicador oficial de inflação.
Outra mudança promovida pelo departamento econômico da CNI foi a elevação da estimativa para taxa básica de juros (Selic) no fim do ano, que passou de 11% para 11,50%. Mesmo assim, o cenário da indústria é de que o ciclo de aperto na política monetária será um pouco menor do que o esperado pelo mercado financeiro, que trabalha com pelo menos 12% ao final de 2010.
Desaceleração. Segundo Castelo Branco, a atividade econômica já começou a dar sinais de desaceleração no segundo trimestre e deve reduzir seu ritmo na segunda metade do ano. Além disso, a inflação vai desacelerar e o nível de uso da capacidade produtiva se estabilizar.
Some-se a isso uma contribuição menor da política fiscal para o aquecimento econômico, a crise na Europa e o próprio efeito da política monetária que tem subido os juros desde abril.
Diante desse cenário, na visão da CNI, o BC deve promover mais uma elevação de 0,75 ponto porcentual na Selic e fechar o ciclo em setembro, com mais 0,5 ponto porcentual.
A entidade dos empresários industriais elevou de US$ 50 bilhões para US$ 54 bilhões a estimativa de déficit na conta corrente? que registra as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior ?, mas manteve em U$S 10 bilhões a projeção de superávit comercial. Para a CNI, as exportações somarão US$ 190 bilhões (ante US$ 185 bilhões previstos em maio) e as importações, US$ 180 bilhões (US$ 175 bilhões antes).
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) prevê um ritmo ainda mais acelerado de expansão dos investimentos na economia brasileira este ano. De acordo com o Informe Conjuntural da organização, a Formação Bruta de Capital Fixo (que é o nome técnico para o conjunto de investimentos privados e públicos da economia) deve ter expansão de 24,5% em 2010.
Com esse resultado, o nível de investimentos passa dos atuais 18% do Produto Interno Bruto (PIB) para 19,4%, o mais elevado da história recente, mas ainda perdendo para os anos 70.
O gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, afirmou que os investimentos vão liderar o processo de expansão da economia neste ano.
A CNI acaba de rever sua previsão para o crescimento de 2010, elevando a previsão para 7,2%. Antes, a estimativa era de uma alta de 6% para o PIB, mas o dado do primeiro trimestre veio forte e forçou a uma revisão para cima na previsão, que ficou bem próxima do PIB projetado pelo Banco Central, de 7,3%.
Na avaliação de Castelo Branco, o aumento nos investimentos é fundamental para a sustentabilidade do crescimento econômico brasileiro e vai promover uma acomodação no nível de utilização da capacidade instalada no segundo semestre, na casa de 83% a 84%.
Esse indicador é um dos mais atentamente monitorados pelo BC para a tomada de decisões de política monetária, pois evidencia a capacidade de a oferta de bens atender à demanda.
O economista lembrou que o ritmo dos investimentos neste ano ultrapassa 2008, período de forte crescimento da economia brasileira.
A CNI também elevou a estimativa de expansão para o PIB industrial, de 8% para 12,3%, e do consumo das famílias de 6,2% para 7,3%. A organização também enxerga um menor nível médio de desemprego este ano, de 7% (ante 7,2% na projeção anterior), mas manteve em 5,4% a projeção de alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o indicador oficial de inflação.
Outra mudança promovida pelo departamento econômico da CNI foi a elevação da estimativa para taxa básica de juros (Selic) no fim do ano, que passou de 11% para 11,50%. Mesmo assim, o cenário da indústria é de que o ciclo de aperto na política monetária será um pouco menor do que o esperado pelo mercado financeiro, que trabalha com pelo menos 12% ao final de 2010.
Desaceleração. Segundo Castelo Branco, a atividade econômica já começou a dar sinais de desaceleração no segundo trimestre e deve reduzir seu ritmo na segunda metade do ano. Além disso, a inflação vai desacelerar e o nível de uso da capacidade produtiva se estabilizar.
Some-se a isso uma contribuição menor da política fiscal para o aquecimento econômico, a crise na Europa e o próprio efeito da política monetária que tem subido os juros desde abril.
Diante desse cenário, na visão da CNI, o BC deve promover mais uma elevação de 0,75 ponto porcentual na Selic e fechar o ciclo em setembro, com mais 0,5 ponto porcentual.
A entidade dos empresários industriais elevou de US$ 50 bilhões para US$ 54 bilhões a estimativa de déficit na conta corrente? que registra as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior ?, mas manteve em U$S 10 bilhões a projeção de superávit comercial. Para a CNI, as exportações somarão US$ 190 bilhões (ante US$ 185 bilhões previstos em maio) e as importações, US$ 180 bilhões (US$ 175 bilhões antes).
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Para a elite de São Paulo, Lula é um jumento e um caloteiro - por Paulo Henrique Amorim
http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/06/30/para-a-elite-de-sao-paulo-lula-e-um-jumento-e-um-caloteiro/
Comentário
É impressionante tamanha afronta, ainda mais quando se comparada aos resultados alcançados pelo governo deste presidente (expresso em algumas reportagens do próprio jornal, como as de economia publicadas mais abaixo).
É uma lástima.
Comentário
É impressionante tamanha afronta, ainda mais quando se comparada aos resultados alcançados pelo governo deste presidente (expresso em algumas reportagens do próprio jornal, como as de economia publicadas mais abaixo).
É uma lástima.
Sem sorte, sem arte e sem bater um bolão – por Maria Inês Nassif (Valor Econômico)
Um velho amigo jornalista, o José Roberto de Alencar e Silva, resolveu ser setorista de paraíso há uns anos e de forma pouco leal: um cara que nunca teve saúde, convenhamos que não podia simplesmente ter se livrado da pouca que tinha sem preparar muito bem seu séquito de irmãos, irmãos tortos, amigos, ex-mulheres, namoradas, ex-namoradas, que continuam irredutivelmente órfãos dele. Pois bem, Alencar tinha um humor invejável e um texto maravilhoso, usados especialmente quando as situações eram muito ruins. Para contar histórias de "furos" - fantásticos, inacreditáveis, cujo script era sempre um "causo" comprido de narrador mineiro -, o Zezão escreveu o "Sorte e Arte". Botava a sorte na frente da arte, para não parecer que se achava com mais arte do que sorte - coisa antipática esta, de achar que você é tão Deus do "furo" que ele chega à sua mão trazido pela sua genialidade, sem que nada se tenha interposto entre ela e o pedaço de papel que vai estar na banca amanhã, e depois de amanhã sabe-se lá que volta vai dar para cumprir uma outra função muito distante daquela de informar distintos leitores que os tempos são bicudos mas que as coisas podem melhorar - ou piorar, vai saber.
Nesses três últimos dias que o DEM e o PSDB se separaram mais uma vez (eles racharam em 2002, lembram-se?) fiquei pensando no Zezão. Será que ele atribuiria o fracasso da aliança do DEM com José Serra à falta de sorte, ou à falta de arte, do próprio Serra, na impossibilidade de atribuir a um jornalista a sorte ou a arte de dar um furo sobre o azar da aliança oposicionista? Acho que, na cabeça do Zé (o meu amigo), a avaliação seria a de que faltou inteligência, tato; sobrou uma certa arrogância; passou pela frente também um espelho daqueles de parque de diversões, que mostra pessoas e coisas muito maiores do que elas são. Se o Zé (o Alencar) não tivesse tido a infeliz ideia de ver se tem alguma notícia relevante no céu, acho que ele iria ficar pasmo com a falta de sorte e a falta de arte dos personagens das notícias aqui do nosso pedaço.
Aqui conversando com o Zé (Alencar, bem entendido), o que mais me intriga é o espelho de aumento. Quando puxaram o tapete do DEM, lançando pelo twitter do Roberto Jefferson (PTB-RJ) - vejam só, do Roberto Jefferson - o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice de Serra, o PSDB agiu como se o DEM não tivesse qualquer opção a não ser estar com ele, em qualquer circunstância. Isto é, que o ex-PFL era tão destituído de sorte e de arte que tinha mesmo era de comer o prato feito, e de sobremesa a observação do miniblog de Jefferson, de que "o DEM é um partido de m..."
Daí, a realidade, que não depende nem de sorte, nem de arte, em algum momento aparece. O DEM elegeu 65 deputados em 2006. O PSDB elegeu 66. Os dois têm direito rigorosamente ao mesmo tempo de propaganda eleitoral gratuita que o outro. O PTB, que agiu com toda a desenvoltura a que está acostumado Jefferson, carrega para a coligação 22 deputados. O tempo de televisão e rádio é proporcional à bancada eleita em 2006. Seria uma arte conseguir, por meio dessa aritmética esquisita onde os 66 do PSDB passaram a valer muito mais do que os 65 do DEM, uma aliança em torno de uma chapa puro sangue com Álvaro Dias, o senador do Paraná cujo irmão, Osmar, é do PDT e vai se coligar com a candidata do PT, Dilma Rousseff. Seria também uma baita sorte. Não foi nem uma coisa, nem outra. Nem azar foi. O espelhão do circo deu ao PSDB uma ideia muito maior do que a que tinha sobre si mesmo. O Serra agiu por impulso. E a candidatura de Dias durou alguma coisa próxima a três dias.
Pois bem, o Zé que infelizmente não está aqui veria também o lado do DEM. Como o espelho deles não os diminuiu; como o partido tem consciência de que ele e o PSDB estão em situações muito ruim (ninguém pode se gabar nem um pouquinho do outro); como não lhes sobrou muita alternativa senão brigar pela vice - e olha, tem gente que nem queria brigar nada, bastava continuar do lado do Serra -, o DEM deu a volta por cima e conseguiu um vice. Sem qualquer uso de sorte ou arte. No grito, simplesmente. Se tivesse feito arte, o resultado teria que ser melhor do que um Índio da Costa (DEM-RJ). Mas daí é pedir muito: é torcer para o dono da bola, José Serra, ser um artista, e para a bola, por pura sorte, ser depositada nos pés do time. É pedir demais.
Ainda mais sabendo que o candidato Serra agiu sem sorte, e sem arte, em 2002, com situações, aliás, tão favoráveis a ele, que um pouquinho de arte teria ajudado muito. No mês de junho de 2002, quando os partidos se preparavam para fazer as convenções que oficializariam os candidatos a presidente, Serra foi o alvo de uma campanha de correligionários, destinada a tirá-lo da disputa. Os fiéis aliados do mercado financeiro e do mundo da economia, que vinham de uma lua de mel com Fernando Henrique Cardoso, armaram um "balão de ensaio" para tirá-lo do páreo. O balão é um boato que você espalha na mídia para ver se cola junto ao eleitor e junto ao partido. Se colar, vira fato. Serra, que já havia passado por cima de uma candidatura do então PFL, a de Roseana Sarney (MA), e comprado uma briga feia com Tasso Jereissati para ser o candidato de seu partido à Presidência, bancou sua pretensão. O balão furou. Sem nenhuma sorte, e sem nenhuma arte.
Nesses três últimos dias que o DEM e o PSDB se separaram mais uma vez (eles racharam em 2002, lembram-se?) fiquei pensando no Zezão. Será que ele atribuiria o fracasso da aliança do DEM com José Serra à falta de sorte, ou à falta de arte, do próprio Serra, na impossibilidade de atribuir a um jornalista a sorte ou a arte de dar um furo sobre o azar da aliança oposicionista? Acho que, na cabeça do Zé (o meu amigo), a avaliação seria a de que faltou inteligência, tato; sobrou uma certa arrogância; passou pela frente também um espelho daqueles de parque de diversões, que mostra pessoas e coisas muito maiores do que elas são. Se o Zé (o Alencar) não tivesse tido a infeliz ideia de ver se tem alguma notícia relevante no céu, acho que ele iria ficar pasmo com a falta de sorte e a falta de arte dos personagens das notícias aqui do nosso pedaço.
Aqui conversando com o Zé (Alencar, bem entendido), o que mais me intriga é o espelho de aumento. Quando puxaram o tapete do DEM, lançando pelo twitter do Roberto Jefferson (PTB-RJ) - vejam só, do Roberto Jefferson - o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice de Serra, o PSDB agiu como se o DEM não tivesse qualquer opção a não ser estar com ele, em qualquer circunstância. Isto é, que o ex-PFL era tão destituído de sorte e de arte que tinha mesmo era de comer o prato feito, e de sobremesa a observação do miniblog de Jefferson, de que "o DEM é um partido de m..."
Daí, a realidade, que não depende nem de sorte, nem de arte, em algum momento aparece. O DEM elegeu 65 deputados em 2006. O PSDB elegeu 66. Os dois têm direito rigorosamente ao mesmo tempo de propaganda eleitoral gratuita que o outro. O PTB, que agiu com toda a desenvoltura a que está acostumado Jefferson, carrega para a coligação 22 deputados. O tempo de televisão e rádio é proporcional à bancada eleita em 2006. Seria uma arte conseguir, por meio dessa aritmética esquisita onde os 66 do PSDB passaram a valer muito mais do que os 65 do DEM, uma aliança em torno de uma chapa puro sangue com Álvaro Dias, o senador do Paraná cujo irmão, Osmar, é do PDT e vai se coligar com a candidata do PT, Dilma Rousseff. Seria também uma baita sorte. Não foi nem uma coisa, nem outra. Nem azar foi. O espelhão do circo deu ao PSDB uma ideia muito maior do que a que tinha sobre si mesmo. O Serra agiu por impulso. E a candidatura de Dias durou alguma coisa próxima a três dias.
Pois bem, o Zé que infelizmente não está aqui veria também o lado do DEM. Como o espelho deles não os diminuiu; como o partido tem consciência de que ele e o PSDB estão em situações muito ruim (ninguém pode se gabar nem um pouquinho do outro); como não lhes sobrou muita alternativa senão brigar pela vice - e olha, tem gente que nem queria brigar nada, bastava continuar do lado do Serra -, o DEM deu a volta por cima e conseguiu um vice. Sem qualquer uso de sorte ou arte. No grito, simplesmente. Se tivesse feito arte, o resultado teria que ser melhor do que um Índio da Costa (DEM-RJ). Mas daí é pedir muito: é torcer para o dono da bola, José Serra, ser um artista, e para a bola, por pura sorte, ser depositada nos pés do time. É pedir demais.
Ainda mais sabendo que o candidato Serra agiu sem sorte, e sem arte, em 2002, com situações, aliás, tão favoráveis a ele, que um pouquinho de arte teria ajudado muito. No mês de junho de 2002, quando os partidos se preparavam para fazer as convenções que oficializariam os candidatos a presidente, Serra foi o alvo de uma campanha de correligionários, destinada a tirá-lo da disputa. Os fiéis aliados do mercado financeiro e do mundo da economia, que vinham de uma lua de mel com Fernando Henrique Cardoso, armaram um "balão de ensaio" para tirá-lo do páreo. O balão é um boato que você espalha na mídia para ver se cola junto ao eleitor e junto ao partido. Se colar, vira fato. Serra, que já havia passado por cima de uma candidatura do então PFL, a de Roseana Sarney (MA), e comprado uma briga feia com Tasso Jereissati para ser o candidato de seu partido à Presidência, bancou sua pretensão. O balão furou. Sem nenhuma sorte, e sem nenhuma arte.
Investimento de empresas bate recorde – por Marcelo Rehder (O Estado de S. Paulo)
Levantamento mostra que, no primeiro trimestre, o investimento representou 8,3% do faturamento líquido de um grupo de 500 empresas
SÃO PAULO - Puxado pelo setor de infraestrutura, o investimento das empresas brasileiras não só superou o ritmo do período anterior à crise como bateu o recorde de dez anos, quando se leva em conta o primeiro trimestre do ano.
Levantamento da empresa de dados financeiros Serasa Experian mostra que, no primeiro trimestre de 2010, o investimento representou 8,3% do faturamento líquido de um grupo de 500 empresas cujas demonstrações contábeis foram analisadas. Nos três primeiros meses de 2008, o número era menor, de 7,7%.
O aumento do investimento reflete o bom desempenho da economia, com crescimento de 9% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009, e a confiança dos empresários na expansão do consumo.
"O que chamou nossa atenção foi que o indicador de 8,3% é quase o mesmo do ano passado como um todo (8,6%), e num período em que historicamente o investimento não é forte", diz o gerente de análise de Crédito da Serasa Experian, Marcio Torres. "A gente nunca teve um primeiro trimestre tão forte."
Pelo vigor dos números do trimestre, Torres já estima que o indicador de investimento de 2010 deve bater o recorde de 2008, na série histórica do estudo, iniciada em 2000. Apesar do agravamento da crise financeira mundial no último trimestre, o indicador atingiu 10,2% em 2008. O executivo pondera, no entanto, que o ciclo de alta dos juros iniciado pelo Banco Central pode reduzir um pouco as taxas de crescimento nos próximos meses.
No primeiro trimestre do ano, o destaque foi o setor de serviços, que inclui infraestrutura, e cujo indicador de investimento chegou a 12,6% do faturamento líquido. Em igual período de 2008, o indicador era de 10,8% e subira para 11,7% no ano passado. "A gente está falando de investimentos para resolver os grandes gargalos do País, que estão na infraestrutura, como saneamento, transportes e concessão de rodovias", cita o gerente da Serasa.
Queda na indústria
As empresas do comércio apresentaram recuperação nos níveis de investimento, de 1,9% em 2009 para 2,5% do faturamento agora. Somente a indústria mostrou ligeira queda, 6,3% para 6,2%. O setor foi o mais afetado pela crise financeira, que freou a demanda mundial e derrubou as exportações. No primeiro trimestre de 2008, o indicador de investimento da indústria era de 7,6%.
Os dados da Serasa são reforçados pelos números de desembolsos do BNDES. De janeiro a abril, o banco desembolsou R$ 35,606 bilhões para financiar investimentos, valor 39,4% superior ao de igual período de 2009.
As empresas de infraestrutura levaram R$ 14,1 bilhões, um aumento de 41,3% em relação ao primeiro trimestre de 2009. Na indústria, houve queda de 2,1%, para R$ 10,5 bilhões, enquanto o comercio e outros serviços cresceu 144%, para R$ 7,5 bilhões.
Entre as empresas de infraestrutura, o crescimento do desembolso foi maior para transporte rodoviário (115%), construção (53% ) e serviços de utilidade pública (160%).
SÃO PAULO - Puxado pelo setor de infraestrutura, o investimento das empresas brasileiras não só superou o ritmo do período anterior à crise como bateu o recorde de dez anos, quando se leva em conta o primeiro trimestre do ano.
Levantamento da empresa de dados financeiros Serasa Experian mostra que, no primeiro trimestre de 2010, o investimento representou 8,3% do faturamento líquido de um grupo de 500 empresas cujas demonstrações contábeis foram analisadas. Nos três primeiros meses de 2008, o número era menor, de 7,7%.
O aumento do investimento reflete o bom desempenho da economia, com crescimento de 9% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009, e a confiança dos empresários na expansão do consumo.
"O que chamou nossa atenção foi que o indicador de 8,3% é quase o mesmo do ano passado como um todo (8,6%), e num período em que historicamente o investimento não é forte", diz o gerente de análise de Crédito da Serasa Experian, Marcio Torres. "A gente nunca teve um primeiro trimestre tão forte."
Pelo vigor dos números do trimestre, Torres já estima que o indicador de investimento de 2010 deve bater o recorde de 2008, na série histórica do estudo, iniciada em 2000. Apesar do agravamento da crise financeira mundial no último trimestre, o indicador atingiu 10,2% em 2008. O executivo pondera, no entanto, que o ciclo de alta dos juros iniciado pelo Banco Central pode reduzir um pouco as taxas de crescimento nos próximos meses.
No primeiro trimestre do ano, o destaque foi o setor de serviços, que inclui infraestrutura, e cujo indicador de investimento chegou a 12,6% do faturamento líquido. Em igual período de 2008, o indicador era de 10,8% e subira para 11,7% no ano passado. "A gente está falando de investimentos para resolver os grandes gargalos do País, que estão na infraestrutura, como saneamento, transportes e concessão de rodovias", cita o gerente da Serasa.
Queda na indústria
As empresas do comércio apresentaram recuperação nos níveis de investimento, de 1,9% em 2009 para 2,5% do faturamento agora. Somente a indústria mostrou ligeira queda, 6,3% para 6,2%. O setor foi o mais afetado pela crise financeira, que freou a demanda mundial e derrubou as exportações. No primeiro trimestre de 2008, o indicador de investimento da indústria era de 7,6%.
Os dados da Serasa são reforçados pelos números de desembolsos do BNDES. De janeiro a abril, o banco desembolsou R$ 35,606 bilhões para financiar investimentos, valor 39,4% superior ao de igual período de 2009.
As empresas de infraestrutura levaram R$ 14,1 bilhões, um aumento de 41,3% em relação ao primeiro trimestre de 2009. Na indústria, houve queda de 2,1%, para R$ 10,5 bilhões, enquanto o comercio e outros serviços cresceu 144%, para R$ 7,5 bilhões.
Entre as empresas de infraestrutura, o crescimento do desembolso foi maior para transporte rodoviário (115%), construção (53% ) e serviços de utilidade pública (160%).
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