quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O escândalo do swap reverso - por Luis Nassif

Coluna Econômica - 03/06/2008
O Ministério da Saúde está em uma luta insana para obter R$ 20 bilhões adicionais, que garantiriam a universalização do acesso a medicamentos no pais.
Do ano passado a maio deste ano, a mesa de operações do Banco Central, com apenas uma operação – o “swap reverso”, operação no mercado de derivativos -- deu um prejuízo de R$ 10 bilhões ao Tesouro, e um lucro correspondente ao sistema bancário.
Não há caso de Banco Central no mundo que opere no mercado de derivativos – mercado altamente volátil onde é ampla a possibilidade de atos discricionários por parte das autoridades monetárias.
(...) Quando os juros aumentam, o BC perde nas duas pontas: nos contratos de câmbio que compra e nos contratos de juros que vende. Por isso mesmo, vender “swap reverso” em um período de elevação de juros é crime contra o patrimônio público.
Em 2002, o então presidente do Banco Central Armínio Fraga instituiu o swap simples. Nele, o BC vendia contratos futuros de câmbio. A explicação é que, através dos “swaps” o BC poderia atender à demanda de dólares por parte das instituições sem colocar a mão nas reservas cambiais. Na prática, induziu todo o mercado a apostar na desvalorização cambial – quanto maior a desvalorização, maior o ganho de quem comprou os “swaps” do BC.
Quando o câmbio se equilibrou e voltou a se apreciar, o BC acabou com a operação de “swap” e passou a estimular o “swap reverso”. (...)
Tudo bem que papel da política monetária não é dar lucro ao Banco Central, mas alcançar objetivos maiores – como os de deter a queda do dólar. Concretamente, o efeito tem sido nulo. O pais perdeu R$ 10 bilhões, jogados pela janela, e o dólar não deixou de cair.
Suponha-se a situação inversa: uma crise cambial que provocasse uma enorme desvalorização do real. Pelas quantias envolvidas no “swap cambial” haveria o risco concreto de uma crise sistêmica, obrigando o BC a intervir no mercado para salvar as instituições. O BC está agente de criação de futuros riscos sistêmicos.
É bom que os operadores do BC se dêem conta. Estão atuando contra o Estado brasileiro, queimando dinheiro público. Essa operação tem contornos que permitem desde a abertura de uma CPI até de um inquérito por parte do Ministério Público.Quando o tiroteio começar, dança quem deu as ordens; dança quem cumpriu,

Os cabeças e os planilhas - por Luis Nassif

Seria divertido, não fosse trágico, a perda momentânea do discurso das chamadas fontes econômicas em permanente disponibilidade e a perda de foco da cobertura econômica. Daqui a pouco serão criados novos chavões que passarão a ser repetidos como mantra.
Hoje, tem-se uma situação totalmente distinta daquela de duas semanas atrás. Problemas escondidos que apareceram, incêndios lavrando. Mas não houve tempo ainda para a uniformização do discurso. Aí as fontes em permanente disponibilidade repetem o bordão anterior, sem tempo para renovar, os papagaios ecoam, criando uma balbúrdia infernal.
Por exemplo:
Raul Velloso continua com o mantra de reduzir despesas para enfrentar a crise. Até tem sua dose de razão porque a atividade econômica vai cair e, com ela, a arrecadação. Mas não analisa o impacto da provável queda de juros sobre o superávit porque ele não é especialista em juros. E como o Jornal Nacional não é especialista em economia, coloca o discurso do Raul como se fosse o tema relevante do momento.
Maílson repete Raul. Depois, repete Pastore. Depois, repete o grande macro-economista Natan Blanche.
Giambiagi e Schwartsman insistem que o problema é a inflação e o governo tem que aumentar os juros.
Pastore insiste que o câmbio tem que cair e o equilíbrio externo deve ser alcançado com recessão.
Essa é a diferença dos seres estatísticos (como Pastore, figura maior, Schwartsman, em outro nível), especialistas que enxergam o mundo apenas através da sua área de especialidade (Velloso e Giambiagi) e opinadores (Maílson).
Compare com a visão de conjunto de Delfim, Nakano, com a visão histórica de Belluzzo, com a visão sólida de operador de Eris e se entenderá que a planilha é relevante, desde que o dono da planilha tenha a visão de conjunto para definir as correlações relevantes.
Ou seja, um bom planilheiro medindo os impactos dos modelos pensados por Nakano e Delfim vale mais do que um planilheiro querendo entender o mundo a partir da sua planilha.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

McCain não sabe como livrar-se de Sarah Palin - por Argemiro Ferreira


Ao invés de diminuir, o esforço da campanha republicana para “proteger” Sarah Palin da mídia torna-se mais rigoroso e sofisticado. A esta altura, as dúvidas já parecem a ponto de forçar a revisão da chapa. Se ficar claro que o desempenho de Palin até agora reflete as qualificações dela, escreveu ontem Bob Herbert no New York Times, McCain e seu partido têm de pensar no país e substituí-la (leia AQUI).
A oposição à permanência na chapa da governadora do Alasca passou a vir também de colunistas conservadores - como Kathleen Parker, que antes refutava as críticas à escolha de Palin mas agora, escrevendo no website da também conservadora National Review, foi contundente ao explicar que as circunstâncias mudaram, com a crise financeira e o surgimento “de um quadro mais complicado”.
“Do que vimos e ouvimos depois da companheira de chapa de John McCain, está cada vez mais claro que Palin é um problema. Tenha ela feito seus estudos de forma apressada ou não (leia AQUI sobre a rapidez dos cursos dela), o fato é que não sabe o suficiente sobre economia e política externa para deixar os americanos despreocupados com uma Presidente Palin, caso venha a ocorrer a eventualidade da promoção dela”, escreveu Parker (leia AQUI).



A saída? Só mesmo a renúncia



A colunista Parker lembrou que antes tinha ficado encantada com a escolha de Palin, elogiado seu bom senso, a graciosidade, o charme e até algumas ações no curto período em que foi prefeita e governadora. “Ela era a antítese e a nêmesis da presunção e da grosseria (…), uma feminista diferente, que personalizava a mãe trabalhadora moderna e bem sucedida”.
Foi engraçado enquanto durou, disse Parker, mas as entrevistas recentes de Palin a Charles Gibson, Sean Hannity e Katie Couric revelaram uma candidata sóbria, atraente, confiante - mas simplesmente não é do ramo, está fora de sintonia. “Ninguém odeia mais do que eu dizer essas coisas. Como tantas mulheres, eu estava torcendo por ela, queria o melhor para ela, ansiando por um desempenho brilhante”, destacou.
Parker chegou à conclusão de que “se BS fosse moeda”, Palin teria o suficiente para cobrir as perdas da Wall Street - sendo BS (bullshit) o equivalente, em português, de “bobagem”, se quisermos evitar o chulo. “Como ela é mulher - e a primeira a entrar para uma chapa presidencial republicana - ficamos relutantes em dizer o que sabemos, penosamente, ser a verdade”, assinalou.
Para Parker, McCain a esta altura não pode voltar atrás na escolha. Correria o risco de atrair a indignação fatal da base republicana - e ficaria parecendo ser incapaz de tomar decisões como presidente. Mas Palin pode salvá-lo - e renunciar, invocando razões pessoais, para dedicar mais tempo ao bebê recém-nascido. Quem criticará a mãe que põe a família em primeiro lugar? “Faça-o pelo país”, recomendou Parker a ela.



Que diabo ela anda falando?



No domingo a polêmica sobre Sarah Palin dividiu até o painel de jornalistas do programa Fox News Sunday, no qual o âncora Chris Wallace e Juan Williams divergiram dos demais. “Que diabo ela está falando (ao alegar que conhece política externa porque o Alasca é vizinho da Rússia)?” - perguntou Wallace a um senador republicano. Pouco depois, Williams encurralava Brit Hume e o neoconservador Bill Kristol.
Enquanto eles falavam na Fox, McCain na rede ABC via-se forçado a corrigir o que Palin tinha afirmado na véspera. Apesar de protegida contra a mídia, ela ouvira a pergunta de um estudante na Pensilvânia e respondera que os EUA deviam atravessar a fronteira do Afeganistão e atacar o Paquistão - o que McCain rejeita, como disse no debate com Obama e repetiu agora, jurando ser também a posição de sua vice (leia o desmentido AQUI, na CNN).
Será que tais desmentidos bastarão? Há um que a campanha de McCain ainda não sabe como fazer: o vídeo gravado em 2005 de um exorcismo de Sarah Palin. Foi na igreja pentecostal Assembléia de Deus de sua cidade. Um pastor queniano a purifica, declarando-a protegida por Jesus contra Satã e todas as formas de feitiçaria. As imagens continuam a circular, a mil por hora, no YouTube (clique na imagem abaixo para ver e ouvir; e leia mais AQUI sobre a proteção a Pali contra a feitiçaria.)
Judith Warner, autora de um best-seller recente, Perfect Madness: Motherhood in the Age of Anxiety, faz um blog no site do New York Times e analisou ali a foto (da agência AFP) na qual Palin aparece com Henry Kissinger - um encontro promovido pela campanha de McCain (veja a foto no inicio deste post). O ex-secretário de Estado tinha uma cara indulgente. Warner vê Pali na foto como uma versão Elle Woods, a heroína meio debilóide do filme Legally Blonde (veja abaixo a capa do DVD).



Um insulto e uma crueldade



No filme, o charme da caloura abre caminho para ela na escola de Direito da Universidade de Harvard. A tese, pouco convincente, é esta: apenas com a inteligência nativa qualquer moça decente supera colegas elitistas e arrogantes de Harvard. Assim, Elle Woods tornou-se, para muitas jovens, modelo a ser copiado. Para se impor, basta ser bonitinha, sabidinha - e bobinha. A escritora discorda. “O que é preciso é trabalho, estudo. Muito trabalho, muito estudo.”
Warner analisou a foto de Palin/Woods sentada no sofá azul, Kissinger ao lado. A vice de McCain - disse - implora clemência à câmera. Todos percebem algo de errado ali. No filme a heroína pode tudo porque acredita em si mesma. Mas a vida real é bem diferente da fantasia de Hollywood. “A incompetência tem suas consequências políticas e pessoais”, advertiu Warner (leia AQUI a íntegra do texto, sob o título Poor Sarah - Pobre Sarah).
A partir daí, Judith Warner tirou uma conclusão inevitável: “Francamente, passei a pensar, neste momento pos-Kissinger, pos-Katie-Couric, que a indicação de Palin (para candidata republicana à vice-presidência) não é apenas um insulto às mulheres (e aos homens) dos Estados Unidos da América. É também um ato de crueldade para com ela própria”.
(E divirta-se com o quadro de Palin e Hillary Clinton no Saturday Nigh Live. Basta clicar na imagem abaixo)

Comentário: só mesmo num país como os EUA um ser humano tão desprezível, dissimulado e afrontoso a história de toda a humanidade como Henry Kissinger, consegue não viver tão incólume, sendo um “exemplo”, e ainda um puxador de votos.
Que país.

O terrorismo de Jobim - por Wálter Fanganiello Maierovitch

Até agora, os Estados membros da Organização das Nações Unidas não chegaram a uma definição sobre terrorismo. Pela indefinição, cada indivíduo, cada chefe de Estado ou de governo, tem a sua própria definição.

Para o presidente Lula, por exemplo, o PCC é uma organização terrorista. É fácil observar, na conceituação do nosso presidente, que o grau de violência e de insensibilidade conta muito. Assim, bastará uma reflexão, talvez com uma noite de permeio, para Lula, pelo conceito que esposa, perceber que o ministro Nelson Jobim, no momento agente da sua autoridade no Ministério da Defesa, sempre promoveu, no curso da sua vida pública, ações violentas, injustas, oportunistas, sem compromisso social e contrárias à ética.

Quando passou pelo Supremo Tribunal Federal, o ministro Jobim concebeu, e muitos devem ter vibrado, uma canhestra tese jurídica. A de o Ministério Público, apesar de representar a sociedade, não contar com legitimidade constitucional para investigar e desvendar crimes.

Desde a vigência do Código de Processo Penal, que remonta à década de 1940, e da Constituição de 1988, nenhum jurista cometera tal disparate. Pela legislação processual-constitucional, a polícia, para usar a expressão do saudoso Canuto Mendes de Almeida, sempre teve função auxiliar. Isto é, de preparação, não exclusiva, de elementos para o Ministério Público formar a sua opinião acerca da autoria e da materialidade de eventual crime.

Nas ações penais públicas, o Ministério Público foi colocado como o titular da sua promoção e consagrou-se o princípio da obrigatoriedade e não o da disponibilidade. Com a Constituição de 1988, o papel institucional do Ministério Público, como representante da sociedade e fiscal do cumprimento da lei, ganhou especial e desejada relevância.

Por seu turno, à polícia judiciária, estadual ou federal, atribuiu-se a presidência do inquérito policial, que tem como destinatário o Ministério Público. Este uno é indivisível, também cabe promover, basta ler o código de processo e querer entender sem distorcer o sistema acusatório constitucional, a ação penal sem inquérito policial. Isto com base em documentos e em testemunhos apresentados, ou que são recolhidos por seus promotores e procuradores de Justiça.

No inquérito policial, o Ministério Público delibera, com exclusividade, se deve postular ao juiz novas diligências, perícias etc. Pode, ainda, ao receber o inquérito parlamentar, elaborado por uma CPI, propor ações penais, ou transformá-lo em inquérito policial, ou, ainda, requerer ao magistrado o seu arquivamento.

Com efeito, o sistema é muito claro a mostrar, na fase pré-processual, o poder investigatório do Ministério Público, que encontra nas polícias um órgão auxiliar e a quem lhe é incumbido poder correcional, fiscalizador, pela Constituição.

Só por leguleios ou artes de Procusto, aquele que tinha a cama ideal para as suas vítimas, ainda que tivesse de cortá-las em pedaços ou esticá-las até as destroçar, pode-se cogitar da impossibilidade de o Ministério Público investigar. Até no campo civil compete à instituição promover investigações para suporte de ações por improbidade administrativa. E um inquérito civil ensejará, também e em face do apurado, propositura de ação penal pública.

A tese de Jobim, que deseja o Ministério Público inerte, aguarda manifestação do Supremo Tribunal Federal. Por essa esdrúxula tese e sem olvidar a confissão escrita de Jobim de ter, como deputado, elaborado textos da presente Constituição sem conhecimento e aprovação dos seus pares constituintes, pode-se, pelo critério da violência preconizado pelo presidente Lula, concluir que o atual ministro da Defesa promove o terror, e não só jurídico-judiciário.

Na chamada CPI dos Grampos, em andamento na Câmara dos Deputados, o ministro Jobim voltou ao terror, ao propor censura à imprensa. Segundo ele, nada de se publicar na mídia escutas clandestinas ou legais, quando ocorre a chamada “fuga de notícia”, para usar expressão consagrada pelos juristas europeus.

A propósito, pode-se ter certeza de que a sugestão de lege ferenda (por lei futura) de Jobim é avalizada por Carlos Rodenburg, sócio de Daniel Dantas no Opportunity e seu ex-cunhado. Rodenburg é amigo de Jobim.

Outra forma de violência, que à luz das condutas do ministro tem relevância, foi a mentira sustentada por ele de o equipamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) prestar-se a realizar grampos telefônicos, fato determinante do afastamento do seu diretor. A empresa vendedora do equipamento publicou informe a desmentir Jobim e a confirmar a perícia realizada.

Pano Rápido. Como para Lula o terror é violência exacerbada, uma pergunta não quer calar: por que Jobim ainda não foi defenestrado?

McCain, o fim da farra e o legado de Reagan - por Argemiro Ferreira

O aparente desespero do presidente Bush ao se dirigir ontem ao país devia servir ao menos para refrescar a memória dos EUA para a fúria dos governos republicanos, desde Ronald Reagan (1981 a 1989), contra as regulamentações. Mas não convém alimentar ilusões, já que John McCain é o candidato do partido e só neste ano de 2008 já repetiu 18 vezes sua frase predileta: “Os fundamentos de nossa economia são sólidos”.
Quem tomou a iniciativa de lembrar o papel de Reagan foi a colunista Arianna Huffington. Disse ela: “Já no discurso de posse ele fez a declaração célebre de que ‘o governo não é a solução do nosso problema; o governo é o problema’. Vinte e sete anos depois, no meio da pior crise econômica desde a Grande Depressão, (…) aquele grito de guerra anti-governo devia estar sendo julgado. Mas, por incrível que pareça, não está”. (Leia AQUI o artigo no original)
Felizmente a ênfase e a eloquência da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, deu o recado no dia 29: “A farra acabou. Acabou o tempo dos ‘pára-quedas dourados’ e gordas compensações para executivos de Wall Street, da disparidade dos salários obscenos de CEOs, das instituições financeiras privatizando e ampliando ganhos, depois nacionalizando os riscos e mandando a conta para os contribuintes.”

O fracasso da política de Bush

A democrata Pelosi, da Califórnia, é a primeira mulher na história a ocupar a presidência da Câmara - segunda na linha de sucessão, em seguida ao vice-presidente. Ela teve o mérito de marcar posição e, no mesmo pronunciamento, declarar fracassada a política econômica de Bush. “Não é mais necessária qualquer outra prova”, afirmou.
Mas ontem alguns republicanos da Câmara, onde mais da metade da bancada do partido negou os votos ao pacote de Bush e contribuiu para a derrota de seu próprio governo, alegaram ter sido essa decisão uma reação ao discurso de Pelosi e sua ênfase na condenação da atual política. Pelo menos um dos republicanos que votaram “sim” rejeitou a alegação. “É uma desculpa idiota”, afirmou. (Clique na imagem abaixo para ver e ouvir Pelosi)
Pelosi, na verdade, conseguiu reunir mais votos para aprovar o pacote de Bush do que a liderança da bancada governista na Câmara. Naturalmente os adversários republicanos dela não esperavam que, além de dar o apoio solicitado pelo governo adversário em meio à crise, Pelosi ainda fizesse uma declaração e amor aos desmandos econômicos do bushismo durante os últimos sete anos e meio.

O guru da desregulamentação

Já o candidato John McCain orgulhava-se, até agora, de sua dedicação em toda a carreira política à causa da desregulamentação. Daí ter escolhido para seu guru em economia o ex-senador Phil Gramm, que era co-presidente da campanha até julho, quando teve de ser defenestrado por ter desmentido a ameaça de recessão (subestimada por ele como mera “recessão mental”) e ter dito “esta é uma nação de choramingões” (a nation of whiners).
Ainda apontado como o preferido de McCain para secretário do Tesouro, no caso de vitória republicana, Gramm é encarado agora como o gênio do mal que mais trabalhou para a economia do país ter chegado à atual situação desastrosa. Curiosamente, o papel de Gramm, citado com frequência nesta coluna, acaba de ser descoberto em Nova York pelo colunista Merval Pereira, de O Globo.
Mas ele misturou as bolas: referiu-se ao penduricalho enfiado na lei orçamentária (como “Commodity Futures Modernization Act”) por Gramm em 2000, dizendo ter sido já no governo Bush. Na verdade, a posse de Bush foi a 20 de janeiro de 2001 e Gramm botou seu “contrabando” de 262 páginas, como escrevi antes, alguns dias depois da decisão da Suprema Corte que “elegeu” o presidente.
A pretexto de “modernização”, o pacote revogou leis do governo Roosevelt baixadas para prevenir crises iguais à de 1929 - como a que proibia promiscuidade de bancos comerciais e de investimentos. A lambança de Gramm passou ainda a impedir agências reguladoras de fiscalizar novos instrumentos financeiros (instituições como fundos hedge, derivativos) para garantir que seus ativos eram suficientes para cobrir perdas eventuais do que estavam garantindo.

Fidelidade ao santo padroeiro


O mercado para aqueles instrumentos financeiros sofisticados a que se referia o “pacote Gramm” é estimado em US$ 60 trilhões por ano, quase quatro vezes todo o mercado de ações dos EUA. Ele queria tudo desregulamentado. E não criou tal mundo de conto de fadas só para a Wall Street. Um dispositivo impedia ainda a regulamentação dos mercados de venda de energia, abrindo caminho às fraudes da Enron - onde sua mulher ganhava US$2 milhões por ano.
Concluir, como Merval, que McCain teve uma epifania, “está menos convicto da necessidade de aplicar na prática a teoria do livre mercado”, é só para quem acredita em Papai Noel. Já passou da idade e seu santo padroeiro é Reagan. Além disso, não podemos esquecer que sua carreira política quase terminou ao tentar influir junto aos reguladores, a favor do banqueiro corrupto e corruptor Charles Keating, da Lincoln Banking, no escândalo S&Ls.
Com o teatro da “suspensão da campanha”, McCain buscou criar factóide capaz de mudar o quadro eleitoral desfavorável. Ao tropeçar em Washington nos deputados republicanos em desespero para salvar as próprias cadeiras, percebeu que nada tinha a negociar - e se omitiu na reunião convocada por Bush. Como disse Paul Krugman, vai de um extremo a outro, sem rumo certo - e já admitiu não ter apetite por economia. Ainda deve achar que os fundamentos continuam sólidos.

Sobre Serra e Dilma - por Luis Nassif

Dizia o velho Magalhães Pinto que a política é como as nuvens do céu. A cada olhada, ela se move.
Digo isso a respeito das análises do Carlos Augusto Montenegro sobre as eleições de 2010. Elas foram feitas em um almoço no iG, muito interessante, com avaliações do maior especialista em pesquisas sobre as eleições de hoje.
Mas daqui a 2010, mesmo para um especialista é quase impossível prever com exatidão o que irá ocorrer.
Ponto central é a questão do currículo, da competência administrativa. Ele parte do pressuposto que Serra tem e Dilma não tem. Serra fez seu nome em poucos anos como Ministro da Saúde. Antes, montou nome em cima de atuação eminentemente legislativa. Dilma está à frente do maior programa de obras das últimas décadas.
Há as seguintes incógnitas pelo caminho:
1. Dilma tem uma vitrine ampla para demonstrar o pique gerencial: o PAC e o ritmo que ajudou a dar ao governo Lula. Não é pouca coisa. Se o PAC for bem sucedido e a crise não pegar o Brasil tão intensamente, faz o nome.
2. Serra ainda não demonstrou, na prefeitura e no estado, o mesmo pique gerencial que na Saúde. Aí se entra em uma particularidade da sua formação: ele não acredita nos modernos modelos de gestão. Acha que, pelo fato de conseguir fazer, não necessita das ferramentas gerenciais. Esse estilo funciona em realidades mais simples, como o próprio Ministério da Saúde. Lá, as estruturas estavam ao alcance dos seus olhos. Bastava colocar uma pessoa de confiança em cada perna do Ministério e cobrar resultados.
Quando passou para realidades mais complexas (como a prefeitura de São Palulo e, mais ainda, com o governo do Estado) esse estilo revelou-se obviamente insuficiente. Serra colocou quadros melhores que Alckmin mas não conseguiu ainda dizer a que veio. Não conseguiu articular as forças de São Paulo em torno de um projeto de desenvolvimento, não conseguiu montar ações inter-setoriais.
Tem dois pilares – os Secretários da Fazenda e do Planejamento – que respondem pela coordenação entre as áreas, mas é muito pouco. Em termos gerenciais, é uma gestão mais competente que a de Alckmin, mas ainda à moda antiga.
3.Outras incógnitas residem no plano das grandes alianças. Ambos – Serra e Dilma – são considerados intransigentes na defesa de alguns princípios administrativos. Isso é virtude, mas também provoca resistências. Mas Dilma está comandando o processo de recuperação do investimento nacional, articulando atores que, até pouco tempo atrás, estavam em segundo plano – como a ABDIB, as grandes empresas industriais, os novos atores, como estaleiros e tudo o mais. Dependendo da crise, poderá abraçar a bandeira desenvolvimentista com uma folha de serviços maior que a de Serra – em parte devido à conjuntura mais favorável que herdou, em parte devido ao modelo de gerenciamento do PAC.
Há outra diferença importante entre ambos. Serra sempre foi o contraponto ao neoliberalismo exacerbado de FHC; mas nunca conseguiu impor suas idéias. Já Dilma é a pessoa que conseguiu livrar o governo Lula da inércia produzida pelo estilo Palocci.
4.No campo das alianças políticas, o caminho é para a centro-esquerda. Serra tardiamente esqueceu suas raízes e passou a cultivar um público classe média conservador. Seu aliado preferencial, hoje em dia, é Roberto Civita. Tenho a impressão de que, em algum momento do futuro, o discurso de Serra se tornará mais ambíguo. Hoje em dia se percebe nitidamente um político com o discurso manietado por essa ambiguidade.
5.Seja qual for o vitorioso, entra em um momento em que o ciclo de financeirização de esgota. A partir de agora, ambos terão que explicitar melhor seus projetos para o país, cercar-se de think tanks, recuperar a capacidade de pensar o futuro. De qualquer modo, entre os dois o país estará bem servido.

Comentário: discordo frontalmente do tópico 5. Ademais, para mim, Serra se destacou como ministro do planejamento assinando o Proer. E, sobre a capacidade gerencial, muito mais me parece uma jogada de marketing das aves de rapina. Como prefeito e governador é uma simples nulidade porque sempre o fora. Só que antes, havia uma pesada propaganda sobre ele. Ninguém se lembra, por exemplo, do período em que ele foi ministro do planejamento (incríveis 4 anos esquecidos). Também ninguém se lembra do malfadado pacote de medidas que ele apresentou como ministro da saúde, que, dentre outros, impedia as pessoas de consultar um especialista médico antes de se consultar com um clínico geral. Exemplo: estou com um problema de pele. Não posso ir ao dermatologista. Tenho que ir a um clínico geral antes. Mas por que? Porque o senhor Serra quer assim.

Desqualificar os investigadores para desviar o foco - por Celso Marcondes (Cartacapital)

“O juiz Fausto De Sanctis vem sofrendo uma pressão enorme, desumana”, segundo o juiz Nilo Toldo, da AJUFE, Associação do Juízes Federais, no debate promovido pelo Grupo Democracia e Cidadania, no último dia 24, em Campinas. Cerca de 70 pessoas – professores da Unicamp, da Pucamp e da Facamp, juízes, procuradores, advogados, estudantes - estiveram presentes no auditório da Livraria Cultura, participando do seminário “A velocidade seletiva da Justiça, o caso Daniel Dantas”.

Nilo Toldo, foi contundente na defesa do juiz De Sanctis: “Estão desqualificando os investigadores para desviar o foco. É uma manobra conhecida. Vamos defender De Sanctis, ele está sendo pressionado porque pôs o dedo na ferida!”.

Sábias palavras. No dia seguinte, De Sanctis foi obrigado a depor no Tribunal Regional Federal (TRE), em São Paulo, intimado pela Corregedoria. Ficou mais de três horas dando explicações para a Polícia Federal a respeito do propalado grampo que teria flagrado a conversa entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres. O próprio Gilmar, presidente do STF, fez a representação contra De Sanctis, exigindo explicações sobre a Operação Satiagraha.

“É constrangedor”, disse De Sanctis à imprensa, ao chegar para prestar seu depoimento. Não sem razão. Depois das quedas do delegado Protógenes Queiróz e do diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, o juiz é a bola da vez. Está pagando o preço pela ousadia de mandar prender Daniel Dantas, liberado duas vezes pelo presidente do STF. “Gilmar Mendes usou o que chamamos de “habeas-corpus canguru”, aquele que pula rapidamente todas as instâncias”, disse a procuradora Janice Ascari, outra das debatedoras do fórum.“Quando alguém no Brasil é flagrado negociando propina de um milhão de dólares é “armação”. Só aqui. Lá fora, é investigação”, acrescentou a procuradora, lembrando o episódio que colocava Humberto Braz, braço-direito de Dantas, na cena do crime.

“Quando De Sanctis ia atrás de traficante famoso ou de banqueiro falido, era incensado pela mídia. Agora, quando mexe com os chamados “intestinos do poder”, a coisa pega”, falou Sérgio Lírio, redator-chefe da CartaCapital, o terceiro debatedor.

Para ele, “o problema não é a morosidade da justiça. É muito mais que isso”. Falando do caso Dantas, Sérgio lembrou que nenhuma ação judicial – e já foram muitas - envolvendo o Opportunity teve final. Todos pararam em algum lugar. Fazendo uma retrospectiva do caso, destacou que “nunca um empresário teve tanta capilaridade nas suas relações com o poder, passando já por diferentes governos”.

Wálter Maeirovitch, ex-secretário nacional anti-drogas e colunista da CartaCapital, também presente à mesa, situando o caso, discorreu sobre o que chama de “a criminalidade dos potentes”, que seria uma associação internacional em rede, sem obedecer fronteiras, que usa métodos mafiosos, tem uma atuação parasitária no aparelho de Estado e tem a corrupção como sistema permanente. Tudo a ver com o caso Dantas.

Respondendo ao tema do debate – “a velocidade seletiva da Justiça” – Maierovitch disse, para divertir a platéia, que no Brasil “enquanto a criminalidade organizada tem a velocidade da luz, a da punição tem a velocidade de uma lesma”. E acrescentou depois: “E reumática”.

Certo que a ciência ainda não descobriu se o molusco gastrópode pode contrair reumatismo, mas que a imagem é boa, não resta dúvidas.

O debate vai gerar um documento que será tornado público pelos organizadores e que disponibilizaremos pelo site da CartaCapital. Outra boa notícia, é que o próximo debate, em outubro, já tem tema definido. Discutirá a situação do ensino público, com este sugestivo título:
“Fala sério: o encino brazileiro ainda tem geito?”.

Aperfeiçoar as instituições - por Delfim Netto (Valor econômico)

Uma das conseqüências da crise financeira que se revelou inicialmente no mercado imobiliário dos Estados Unidos e espalhou-se para todas as economias será um reencontro entre o pensamento econômico e a realidade do mundo. A teoria econômica e a realidade que ela tenta compreender são dois pólos que se estimulam mutuamente: a teoria sugere instituições para melhorar o funcionamento da realidade e esta, melhorada numa estimulante dialética, cria novos problemas. A marcha dessa iteração é no sentido de proporcionar à sociedade instituições eficientes que garantam a sua sobrevivência material.
O sistema econômico está imerso num universo social cujos valores transcendem a eficiência produtiva. Esta é, entretanto, fundamental para um viver mais confortável, onde cada cidadão pode usar com plena liberdade a sua capacidade de iniciativa e realizar suas potencialidades. O desenrolar da história mostra que a eficácia produtiva pode ser construída com sucesso maior ou menor em vários regimes políticos. Mostra, também, que o conjunto mais amplo de valores (liberdade individual, relativa igualdade de oportunidade e eficácia produtiva) só pode ser atingido num Estado democrático juridicamente regulado, com eleições livres e organizadas, de periodicidade bem definida. Nelas os cidadãos escolhem o poder incumbente que representará transitoriamente o Estado. À cada eleição, a sociedade "revela" suas preferências, depositando seus votos (as suas esperanças) naquele cujas promessas parecem mais próxima a ela.
Não importa que essa visão idílica (ou ingênua!) seja freqüentemente traída pelo eleito, ou que as instituições já estabelecidas (com seus interesses consolidados) sejam tão fortes que ele sucumba diante delas, ou - o caso mais freqüente - que ele tenha prometido o que não tinha condições de realizar. É a repetição dessas escolhas, condicionadas ao aperfeiçoamento da organização política e do sistema eleitoral e ao desenvolvimento das instituições econômicas, que lentamente faz convergir a administração do Estado na direção das "preferências reveladas" nas urnas.
Nesse processo continuado de "experimentos" políticos, a história revela outro fato da maior importância.
Freqüentemente o poder incumbente eleito tem objetivos próprios. É mistificador. Tende a manipular a opinião pública servindo aos interesses dos grupos de maior poder vocal e de organização. E tem, como finalidade, sua própria sobrevivência, no que é facilitado no curto prazo por medidas sociais e econômicas oportunísticas.
Com todos esses problemas, a organização política que o elege é indispensável para a construção da sociedade em que cada um manifesta livremente a sua "preferência" nas urnas. Deve, portanto, ser preservada. Mas como conciliar, então, essa possibilidade de eleição de um poder incumbente oportunista com a correta administração política que leva ao processo civilizatório desejado? A solução, que emergiu lentamente desde o primeiro quartel do século passado, foi a de retirar do poder eleito a possibilidade de praticar algumas ações oportuno-populistas. O exemplo mais evidente desse processo foi a criação (pelo Legislativo) de bancos centrais operacionalmente autônomos, que retirou, na área monetária, poder do Executivo eleito.
E por que bancos centrais autônomos? Porque um dos bens públicos essenciais, que só o Estado pode produzir, é a estabilidade do poder de compra da moeda. Trata-se de um dos alicerces do bem-estar social. Sobre ele se constroem os "mercados", cujo bom funcionamento é a base da eficácia produtiva, condição necessária, mas não suficiente, para atender às "preferências reveladas" nas urnas.
Os bancos centrais apresentam um enorme déficit democrático. O poder incumbente eleito com milhões de votos entrega (por ordem legislativa) a administração da moeda a profissionais (que nada têm a ver com as "urnas") que, por hipótese, dominam a "ciência monetária" e, o que é mais importante, têm, por definição, repugnância às políticas oportuno-populistas, às quais costuma sucumbir o poder eleito.
O pequeno problema é que a história tem revelado algumas dificuldades. Por exemplo, nos últimos 15 anos de bancos centrais autônomos na América Latina registraram-se pelo menos 26 crises monetárias, que sempre terminaram em substanciais prejuízos para os Tesouros. O "tsunami" monetário que agora ameaça o mundo com uma crise sistêmica, tem claras origens nas políticas monetárias equivocadas dos bancos centrais dos países desenvolvidos e no laxismo e indiferença que demonstraram na regulação dos "avanços" tecnológicos produzidos pela imaginação financeira. A "filosofia" dominante afirma que o sistema financeiro, deixado a si mesmo, teria uma moralidade ínsita, que ratificaria o acerto de eliminar os "constrangimentos regulatórios". Afirmação que agora se verificou patentemente falsa.
Paulson, Rubin, Greenspan, Bernanke e "tutti quanti" estiveram na origem do quase-desastre e agora tentam evitá-lo, apelando para que o poder incumbente eleito corrija seus erros à custa dos cidadãos. Há, portanto, muito trabalho para a economia política. Ela deve sugerir o aperfeiçoamento das instituições para que, no futuro, estas protejam a sociedade do oportunismo-populista dos eleitos e, os Tesouros, da falsa competência dos não-eleitos.
Não deve, entretanto, ignorar a importante contribuição de um sistema financeiro ágil, imaginoso e flexível para o processo de desenvolvimento econômico e social.

Porque a retórica financeira falhou - por Luis Nassif

Para entender a rejeição ao Pacote Paulson/Bernanke é preciso juntar algumas peças.
Historicamente, o mercado se impunha sobre as políticas econômicas nacionais brandindo o chamado terrorismo financeiro-midiático.
Criava-se uma marola, a imprensa repercutia, havia uma agitação no câmbio, medo dos gestores da política econômica e conseguia-se impor as medidas desejadas pelo mercado.
Dos planos econômicos dos anos 80 até o terrorismo em torno da eleição de Lula, essa retórica funcionou eficazmente no Brasil. E continua funcionando, aliás. É o único país do mundo em que, no meio da maior crise financeiro-econômica dos últimos 70 anos, o Banco Central continua analisando o comportamento futuro da demanda, baseado nas séries históricas. O último baile do Titanic é pinto perto desse autismo.
No mundo o jogo não foi diferente. Em toda grande crise de balanço de pagamentos de países, o FMI era acionado para salvar os investimentos especulativos – não os países em si.
Um dos episódios mais vergonhosos da moderna história econômica do país foi o acordo com o FMI fechado por Gustavo Franco e Pedro Malan em fins de 1998. Os dólares que entraram serviram exclusivamente para que os investidores (grande parte, recursos brasileiros no exterior que alimentavam o circuito dos gestores que influenciavam o BC) saíssem sem prejuízos maiores. O país ficou com a dívida, para reduzir os prejuízos dos especuladores e dos gestores de recursos.
Esse modelo começou a ser colocado em xeque nos últimos anos.
O epicentro da crise ocorre com a conjugação dos seguintes fatores:
1. Fim do ciclo de financeirização, enfraquecendo o álibi da crise sistêmica – justamente no momento em que a crise, de fato, tornou-se sistêmica.
2. O mais impopular presidente da República da história moderna dos Estados Unidos.
3. Mudança radical no modelo de disseminação da informação. No meu livro “Os Cabeças de Planilha” há um capítulo especial analisando esse processo de disseminação das análises de bancos: surgem nos departamentos econômicos dos bancos novaiorquinos, depois na grande imprensa internacional. São reproduzidos pelas filiais nos demais países, depois pelos departamentos econômicos dos bancos locais, batem na imprensa nacional e tornam-se verdade acabada. A disseminação dos blogs e de outras formas de comunicação pela Internética rompeu com esse monolitismo a partir do centro difusor: os Estados Unidos.
Dentro desse cenário, o pacote de ajuda aos bancos deveria conter uma dose de legitimidade política muito maior do que em outras épocas. Teria que ficar claro a salvação dos bancos, mas a punição dos especuladores; o fim da esbórnia dos ganhos dos executivos e medidas que amenizassem os problemas dos mutuários.
A primeira versão do pacote era escandalosamente favorável aos bancos. Provavelmente foi de modo intencional, para permitir às lideranças partidárias sugerir as mudanças e se tornarem co-patrocinadoras do pacote. Com as alterações, parecia que o pacote tinha ganhado a legitimidade necessária para ser aprovado.
Onde falhou a estratégia? Não houve tempo hábil para informar a uma opinião pública cada vez mas críticas. Ou o pacote não passou a confiança necessária de que os bancos seriam enquadrados de vez.
Nada impede que até quinta não possa ser negociado um outro pacote ou possa haver mais clareza sobre as intenções e a operacionalização deste pacote.
Só que, quanto mais tempo leva para domar o incêndio financeiro, mais efeitos haverá sobre a economia real.

As meras coincidências - por Stanley Burburinho (blog do Nassif)

Em julho passado, logo após a segunda prisão do Daniel Dantas, o Gilmar Mendes entrou no CNJ com uma representação contra o juiz De Sanctis. Um manifesto assinado por juízes federais havia criticado o envio ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo presidente do STF, de cópia da decisão do juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6.ª Vara Criminal Federal de São Paulo.
O Gilmar amarelou e disse que: "Não fiz representação formal, só o registro mesmo". Em outro momento, ele disse que o objetivo era "o acompanhamento estatístico". Clique aqui.
No dia 08/08/2008, o Jungmann entrou com uma representação contra o Juiz De Sanctis:
"12/09/2008 - 16h24
Jungmann entra com representação disciplinar contra juiz Fausto De SanctisGABRIELA GUERREIROda Folha Online, em Brasília
O deputado Raul Jungmann (PPS-PE) ingressou esta semana no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) com representação disciplinar contra o juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo. (...)" Clique aqui
Três dias úteis antes do Jungmann representar contra De Sanctis, ele foi recebido no STF pelo Gilmar Mendes:
Supremo Tribunal Federal - 03 de Setembro de 2008
10h - Recebe o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE). Local: Gabinete da Presidência
Clique aqui.

Alckmin no tudo ou nada - por Gilberto Nascimento (Cartacapital)

A eleição para a prefeitura na maior cidade do País está indefinida, mas quem imagina chegar ao segundo turno já corre atrás de apoios. Desenha-se no momento uma aproximação entre petistas e tucanos pró-Alckmin na segunda etapa da disputa eleitoral, caso o ex-governador realmente fique fora.

Uma sinalização de possível acordo já foi dada: o advogado Mário Covas Neto, o Zuzinha, filho de Mário Covas (morto em 2001), e o ex-secretário de Segurança Pública no governo Covas Marco Vinício Petrelluzzi participaram de um jantar em homenagem à candidata do PT à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, no dia 12, na casa de Marcio Toledo, presidente do Jockey Club de São Paulo.

Amigo do vice na chapa petista, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB), Toledo apostou em duas frentes. Como pessoa jurídica, organizou jantar na sede do Jockey, no dia 10, para Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB à prefeitura. Como pessoa física, fez o evento para Marta, dois dias depois, em sua casa. Estavam lá também integrantes do PMDB e do PV descontentes com o apoio de seus partidos à candidatura do atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM). Outro sinal revelador das avançadas negociações de bastidores foi um jantar, há duas semanas, entre um parlamentar tucano aliado de primeira hora de Alckmin e o petista Valdemir Garreta, um dos coordenadores da campanha de Marta.

Em curva ascendente nas pesquisas, Kassab tende a ser o adversário de Marta no segundo turno. Pelos números do Datafolha, a petista lidera com 37% e Kassab e Alckmin seguem empatados em segundo lugar, com 22%. Considerado a “jóia da coroa” do DEM nas eleições municipais deste ano, Kassab melhorou sua imagem após o início do horário eleitoral gratuito na tevê. Aliados do democrata dizem que pesquisas internas – o chamado tracking, consultas feitas ao telefone –, indicariam para ele 7 pontos de vantagem sobre o candidato do PSDB.

No auge da campanha, a cena constrangedora de Alckmin em almoço solitário em um restaurante popular, no domingo 21, não é um mero acaso. Em uma carreata na semana passada, o tucano teve de empurrar o próprio carro. Hoje, boa parte do PSDB apóia Kassab, ex-vice de José Serra eleito numa coligação. Secretários tucanos continuaram na administração após a saída de Serra para disputar o governo do Estado e assumiram depois a campanha à reeleição do democrata, enquanto Alckmin insistiu em sua própria candidatura. O partido se dividiu.

No jantar para Alckmin no Jockey Club, Serra foi convidado para anunciar o apoio. Em longo discurso, citou apenas duas vezes o nome de Alckmin. E nem pediu voto. Serra não confia em Alckmin e o oposto também é verdadeiro, admitem tucanos. O governador não perdoa o colega de partido por ele não ter desistido da disputa interna para definir o candidato do PSDB à Presidência da República, em 2006. Sem a garantia de que seria o escolhido, Serra desistiu momentaneamente do velho sonho de alcançar o Palácio do Planalto e Alckmin concorreu com Lula.

Em meio ao tiroteio entre tucanos kassabistas e tucanos alckmistas, Serra divulgou nota, no sábado 20, em defesa do prefeito. Disse que ele é “leal e solidário” e “seguiu à risca” o plano de governo municipal. O debate entre Alckmin e Kassab havia esquentado dias antes. O candidato do PSDB chamou o democrata de “dissimulado” e disse que sua escolha como vice de Serra, na eleição para a prefeitura paulistana em 2002, foi resultado de “um golpe”.

A dura reação veio de outro tucano: Clóvis Carvalho, ex-ministro da Casa Civil e de Desenvolvimento do governo FHC e agora secretário de Governo do democrata. Carvalho disse que Alckmin “tem de ser cobrado pelo oportunismo e pela falta de compostura”. Trazido do Vale do Paraíba pelo candidato tucano para ajudá-lo no início de seu governo, o presidente do diretório municipal do PSDB de São Paulo, José Henrique Lobo, anunciou, na terça-feira 23, que entrará com pedido de expulsão de tucanos kassabistas, entre eles Carvalho e o secretário municipal de Esportes, Walter Feldman.

Muito irritado, Alckmin havia cobrado do partido punições aos “traíras”, rótulo dado aos opositores internos. “O Dr. Clóvis Carvalho não tem condições de ditar regras ao PSDB, partido do qual se diz fundador, mas no qual nunca militou”, atacou Lobo. Em sabatina no jornal Folha de S.Paulo, na mesma terça 23, Alckmin tentou amenizar a ausência do governador em sua campanha. “A quem cabe fazer campanha é o candidato. O Serra foi à convenção do partido, declarou apoio, gravou para a televisão e foi ao nosso jantar. Não tenho nenhuma reclamação”, afirmou.

A realidade não é bem assim. Enquanto se descola de Alckmin, Serra ajuda candidatos do PSDB e do DEM em capitais e outras cidades paulistas. Em Florianópolis, o governador deu apoio ao candidato democrata à prefeitura, César Souza Júnior, e colocou o adesivo do DEM no peito. Perguntado se esse símbolo não o incomodava, respondeu: “O 25 (número do DEM) não é problema. É a solução”.

Na Grande São Paulo, Serra ajuda candidatos do PSDB e do DEM em disputas acirradas contra petistas. O governador discursou para 5 mil pessoas em Suzano, em comício a favor do democrata Estevão Galvão. Em Osasco, andou num calçadão ao lado do candidato a prefeito, o tucano Celso Giglio. Nas cidades de Diadema e São Bernardo do Campo, no ABC, fez caminhadas com os candidatos a prefeito José Augusto Ramos e Orlando Morando, ambos do PSDB, que disputam com os petistas Mário Reali e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, respectivamente. Em São José dos Campos, levou apoio a Eduardo Cury (PSDB).

A decisão de Alckmin de associar Kassab com os ex-prefeitos Paulo Maluf e Celso Pitta parece ter amenizado a derrocada do tucano. O ex-governador parou de cair nas pesquisas, ao menos até a quinta-feira 25. Mas há desânimo entre os alckmistas. Reservadamente, um influente parlamentar tucano considera quase impossível Alckmin superar Kassab na reta final.

Se ficar fora, o ex-governador pode cair no limbo. A avaliação nas hostes do PSDB é de que restará a Alckmin concorrer a uma vaga à Câmara dos Deputados. Segundo o parlamentar, o futuro dele depende de Serra. Se o governador achar que precisa de um PSDB forte em São Paulo para ajudá-lo a chegar a Brasília, poderia cogitar a hipótese de Alckmin disputar de novo o Palácio dos Bandeirantes. Mas poderia também optar por Alberto Goldman (vice-governador) ou Aloysio Nunes Ferreira (chefe da Casa Civil), nomes de sua inteira confiança.

Existe o pedido de punição aos kassabistas, mas a história costuma ser escrita pelos vencedores, lembra o mesmo observador. Em caso de derrota, então, fala-se até num possível desligamento de Alckmin do PSDB. Hoje, ele é sustentado pelos chamados políticos “históricos” não alinhados com Serra e, principalmente, pelo espólio do governador Mário Covas. Os covistas sempre defenderam Alckmin e bateram o pé em favor da candidatura própria em São Paulo. Mas também entre eles há insatisfação.

Ao assumir o governo do Estado, Alckmin foi orientado por marqueteiros a impor um estilo próprio e procurou se desvincular dos covistas. Afastou vários deles de postos importantes no governo. Recentemente, enquanto o mesmo grupo brigava pelo direito de ele ser candidato e montava uma chapa “puro-sangue” para o diretório municipal do PSDB, Alckmin fez um acordo com serristas, que até agora se mostra inútil, e os seguidores de Covas foram alijados. São manobras políticas que só complicam as chances do tucano.


Comentário: Ah, tenho de me declarar. Se eu votasse em São Paulo, iria de Soninha. Depois do debate promovido pela Record domingo último, em que ela sobrou, com mais convicção. Quanto ao segundo turno, é a Marta, mesmo.

A remontagem do Estado - por Luis Nassif

Dia desses recebi a visita de um funcionário aposentado do Banco Central, que cumpriu cargo de relevo nos anos 80 e início dos anos 90. Ele assistiu a todas as estripulias do governo Sarney, a maneira como viabilizou o Banco Santos, os esquemas com taxas de juros, as lambanças de diretores do BC no período, a quebra do Banespa.
Vestia um terno modesto e narrou as diversas oportunidades que teve, ao longo da carreira, para enriquecer dando golpes. E como resistiu a todas. Falou do caráter da corporação BC, da retidão do corpo de funcionários, mas como eles funcionários assistiam impotentes às trambicagens, legalmente autorizadas por sucessivas diretorias em Brasília. E também sobre a incapacidade de outros órgãos do Estado em entender, fiscalizar e punir essas jogadas.
Agora o jogo mudou, diz ele. Em grande parte devido à recuperação do salário do funcionalismo público, especialmente nesses órgãos, Ministério Público e Polícia federal, reduzindo a exposição às tentações da corrupção. Diz que o país, hoje em dia, pode sentir orgulho dessas instituições.
Lembro-me de como o mundo quase caiu quando o então presidente do BC, Gustavo Loyolla, patrocinou um novo plano de cargos e salários para o banco. O eco emburrecedor do mercado sobre gastos públicos – sem se preocupar em analisá-los de forma desagregada – foi repercutido acriticamente pela mídia e o plano acabou sendo arquivado.
Em sua proposta de reforma do Estado, o ex-Ministro Luiz Carlos Bresser Periera contemplava a valorização das carreiras típicas de Estado. Como em quase todas as boas iniciativas de seu governo, FHC não deu o menor apoio às propostas.
Apenas nos últimos anos começou a remontagem do Estado.
Outro ponto relevante é o trabalho de melhoria de gestão da PF – mencionado pelo diretor geral do órgão, Luiz Fernando Correa na entrevista à Folha.
Recentemente estive com o professor Vicente Falconi. Perguntei das suas experiências na área pública. Me disse que nada o impressionara tanto quanto a disposição da PF em se tornar um centro de excelência. Ao final de sua exposição na sede da PF, Falconi foi procurado por um diretor da entidade que colocou no seu paletó o símbolo da corporação e lhe disse emocionado: “Queremos fazer da PF uma instituição melhor do que o FBI”.
Foi esse o pepino que Gilmar e toda essa manipulação midiática encontraram pela frente: funcionários públicos que vestiram a camisa e passaram a ter orgulho de suas respectivas corporações.

domingo, 28 de setembro de 2008

A grande mentira - por Mauro Santayana (JB)

As manifestações populares contra a ajuda do Tesouro aos ladrões de Wall Street (o qualificativo é de Timothy Egan, em artigo publicado na última quarta-feira pelo New York Times) revelam que os Estados Unidos se encontram divididos, mais do que nunca, entre ricos e pobres. Os sacrifícios recairão, como sempre, sobre os que trabalham e produzem bens tangíveis, não sobre os que tiram lucros das nuvens.
A grande bolha, inflada pela mentira, não é a dos empréstimos hipotecários; é o próprio mercado financeiro. Relembremos a maior lavagem cerebral da história, mediante o alinhamento dos formadores de opinião (menos alguns) na refundação, nos anos 90, do velho liberalismo, alicerçada na ficção de que o Estado deveria retirar as rédeas sobre a economia e deixá-la entregue às "leis" do mercado. Com essa desregulamentação, de acordo com Egan, "Wall Street recebeu luz verde para atuar como um cassino".
Em meados da década de 70, diante da crise do petróleo, as teses de Friedrich Hayek, de 1944, contra a intervenção do Estado no mercado e o planejamento keynesiano da economia, passaram a ser rediscutidas. Enfim, o que se contestava era o welfare state, que taxava os lucros do capital em favor da sociedade. Essa política distributiva fora conquista dos trabalhadores do Ocidente, amparada na Revolução Soviética. Os países capitalistas se viam obrigados a ceder um pouco, a fim de conjurar a revolução mundial.
A crise da malograda globalização dos anos 20 eclodiu na queda da Bolsa de Nova York em 1929. A bancarrota, associada à grande desigualdade social daqueles anos, levaria Roosevelt, ao assumir o governo em 1933, à intervenção vigorosa - e planejada - no mercado, com a regulation até mesmo do funcionamento de lavanderias. Com isso, ele reergueu a economia e preparou a nação para a II Guerra Mundial.
Embora cercado de intelectuais destacados, o então governador de Nova York e futuro presidente tinha ouvidos mais atentos para um homem aparentemente inexpressivo, modesto assistente social, Harry Hopkins. Hopkins levara para o governo a solidariedade para com o povo trabalhador e miserável da América. Do diálogo entre os dois nasceria – antes mesmo que Keynes publicasse sua teoria sobre o emprego, os juros e o dinheiro – a arquitetura do New Deal, primeiro no Estado de Nova York, com o programa de ajuda aos desempregados, e, mais tarde, na Casa Branca, com a "Lei de Reconversão Industrial". Os economistas, que participaram do planejamento da revolução rooseveltiana, colocaram sua inteligência acadêmica a serviço de uma férrea vontade política.
Collor iniciou a entrega da economia à nova ordem, mas o impeachment e o breve governo de Itamar interromperam o processo. Coube a Fernando Henrique, desmontar o Estado em favor do "mercado" internacional. A globalização da economia, com suas exigências, entre elas as da desnacionalização das grandes empresas privadas brasileiras (como a da Metal Leve), da abertura do mercado financeiro aos bucaneiros (como na entrega do Bamerindus ao HSBC) e da privatização das estatais, foi saudada pelo intelectual como um novo Renascimento – sob as luzes do Consenso de Washington. A nova ordem exigia a internacionalização do sistema financeiro. Uma de suas providências emblemáticas foi a salvação de banqueiros temerários e fraudadores, mediante o Proer – o que lhe permitiu transferir ativos de alguns bancos nacionais aos estrangeiros, abrindo-lhes o mercado sem reciprocidade. Com o exemplo dessa rede protetora, outros aventureiros se estabeleceram, como os controladores do Opportunity, entre eles alguns de seus auxiliares mais diletos, como Pérsio Arida e Elena Landau. Espera-se ato de contrição do ex-presidente.
Timothy Egan registra que só 10% dos mutuários de empréstimos hipotecários se encontram inadimplentes: os outros 90% estão em dia com seus compromissos. "Como pode esta minoria de maus empréstimos arruinar o capitalismo ocidental?"– pergunta. De acordo com o projeto enviado ao Congresso, o Secretário do Tesouro (hoje Henry Paulson) estará acima de qualquer outro poder do Estado. Suas decisões "may not be reviewed by any court of law or any administrative agency", ou seja, estarão acima até mesmo da Suprema Corte.
As manifestações de quinta-feira diante de Wall Street trazem a esperança de que tudo isso possa mudar.

sábado, 27 de setembro de 2008

Economia e a atual crise dos mercados - por Luís Carlos Lopes (Agência cartamaior)

Eric Hobsbawm, há alguns anos, já havia diagnosticado que a moderna teoria econômica, ensinada nas universidades e fortemente midiatizada, não passava de uma nova teologia. Os economistas, a serviço do ‘mercado’, são como profetas do caos. Curiosamente, insistem em prever o que não sabem.

Os últimos acontecimentos provocam ou deveriam provocar uma crise das consciências burguesas. Estas formas de ver o mundo são veiculadas pelas grandes mídias e, infelizmente, acreditadas por muitos que sequer detêm capitais que justifiquem suas posturas. São burgueses de mentira, que, simplesmente, mimetizam o poder de seus patrões e/ou líderes intelectuais.

A economia ‘científica’ que postulam é derivada do economics criado para se contrapor à economia política do século XIX, sobretudo a fundada pelo velho Marx. Eles separam a política da economia real, e acreditam que os fenômenos desta área existem sem sujeitos e interesses, por vezes cegos, arrogantes e anárquicos.

O que eles chamam de ‘economia real’ é algo que sustenta o mundo desde sempre. Crêem que vivem acima do mundo do trabalho e, paradoxalmente, o invocam sempre que as crises os surpreendem. Simplesmente não o chamam pelo seu verdadeiro nome. Na verdade, o mundo das finanças é tão real, quanto os que o sustentam, em tela, o da indústria e o das atividades agrárias e de extração, sobretudo mineral.

O segmento financeiro sequer existiria, sem que as pessoas continuassem a trabalhar e a produzir mercadorias e outros bens. O que vendem, os tais ativos financeiros, só podem existir porque são lastreados por riquezas efetivas produzidas pela mão humana. Suas peculiaridades consistem no fato de que seus agentes podem ir além dos bens materialmente existentes, dando a impressão de que a riqueza não tem limites.

Nestas situações, como a que se está vivendo, produzem-se as tais ‘bolhas financeiras’ que acabam por estourar como verdadeiras bolhas de sabão. Neste segmento econômico, o frenesi do enriquecimento fácil, a mentira da especulação e a retórica do desenvolvimento dos negócios presentes e futuros são elementos fortes que distinguem as atividades financeiras das produtivas. Por outro lado, para funcionar eles também precisam explorar o trabalho dos profissionais deste ramo.

No fundo, eles sabem disto tudo, quando dizem que o medo é que a crise vá alcançar a ‘economia real’, isto é, a verdadeira origem do poder que ostentam através dos bancos e do mercado de valores. A posição que ocupam, na materialidade da vida, faz com que ajudem a operar o jogo de luzes sobre a verdadeira razão da crise: a irracionalidade exuberante do capitalismo. Não há como fazer este modo de produção funcionar sem a ocorrência de crises e dos problemas sociopolíticos decorrentes. A crise é parte integrante desta forma de organizar a economia e a sociedade. Por isso, que em todos os países capitalistas, há inúmeros espaços que se protegem da voracidade dos mercados. Quase ninguém é louco o suficiente para acreditar na lisura dos negócios.

A velha crítica à natureza do sistema capitalista e às suas impossibilidades está mais viva do que nunca. A cientificidade atual do capitalismo é incapaz de curar suas doenças crônicas. Consegue, apenas, fazer com que sintamos o odor de podre de seus membros amputados e que imaginemos que a crise vai passar. É verdade que ele consegue permanecer vivo, remanejando forças e cortando na própria carne. Entretanto, isto é provisório, até a próxima débâcle que se vislumbra no horizonte.

Do ponto de vista teórico, é necessário avançar em uma compreensão atualizada destes fenômenos. As interpretações produzidas no passado permanecem, em parte, válidas. Contudo, novos problemas surgiram. A história de hoje tem um grau distinto de complexidade. Vê-la, apenas, sob o prisma das velhas teorias é fazer algo diferente do que fariam os teóricos do passado. Significa ossificar o pensamento crítico e impedir que se compreenda em profundidade o que se vive na atual fase da modernidade.

Eric Hobsbawm, há alguns anos, já havia diagnosticado que a moderna teoria econômica, ensinada nas universidades e fortemente midiatizada, não passava de uma nova teologia. Os economistas, a serviço do ‘mercado’, são como profetas do caos. Curiosamente, insistem em prever o que não sabem. Dizem até qual será a cotação tal e tal, em época determinada. Fazem ‘análises’ de conjuntura, que, em horas, viram poeira midiática. Todavia, esta postura agrada aos verdadeiros donos do poder econômico. Estes detestam qualquer interpretação fora do que acreditam, desejando ficar na obscuridade fantasiosa de seus negócios, muitas vezes, escusos.

É engraçado ver como eles estão confusos e têm pouco a dizer sobre o que está acontecendo. O edifício de suas crenças desabou. Suas referências não mais servem, frente à força dos fatos. Alguns, mais espertos, estão calados esperando o furacão deixar de soprar. Outros, menos inteligentes, enchem os ouvidos das audiências que dispõem, com um monte de bobagens.

O dia em que Hayek chorou - por Gilson Caroni Filho (Agência Cartamaior)

Aos que vislumbravam um descompasso entre “o empreendorismo” que crescia por seus méritos e um Estado falido, ainda iludido com seu gigantismo, cabe uma pergunta. Quem terminou falindo e a qual instância pediu socorro?


Quando o presidente George Bush, em seu "discurso à Nação", afirmou que uma crise financeira ameaçava a economia dos Estados Unidos, um espectro rondou o mundo de certezas da banca. No momento em que saíram notícias, ainda não confirmadas até a hora em que concluímos esse artigo, de que democratas e republicanos aprovaram um pacote que garante US$ 700 bilhões em ajuda ao mercado financeiro, sua forma ficou mais nítida, definida: vagando perdido estava o fundamentalismo neoliberal que tanto se empenhou em desacreditar qualquer forma de regulação da economia.

Um pensamento político e econômico que, como fundamento ideológico da fantasia do livre mercado, fingiu acreditar que apresentava o produto final de uma engenharia irretocável, quando nunca passou de uma utopia autoritária.

Convém reler John Gray em seu magnífico livro “Falso amanhecer: os equívocos do capitalismo global": "mercados controlados são norma em qualquer sociedade, ao passo que os mercados livres são produtos de estratagemas, planos e coerção política (...), se” capitalismo" que dizer ” livre mercado", então nenhuma visão é mais ilusória do que a crença de que o futuro reside no " capitalismo democrático.

Estamos assistindo ao ocaso de velhos credos. Uma racionalidade crescente que traria com ela a desregulamentação da economia, a supressão de subsídios, a redução das despesas de segurança social e o desmantelamento do poder sindical. Tudo isso, acompanhado de um Estado incapaz de operar mecanismos de redistribuição, posto que tornado mero apêndice jurídico de normas elementares de troca. Eis o paraíso perdido na data em que as Bolsas voltaram a apresentar otimismo. Em síntese, 25 de setembro de 2008, entra para a história como “o dia em que Hayek chorou”. A "mão invisível" mostrou a plenitude de sua deformação no capitalismo desordenado.

E agora? Como ficam aqueles que afirmavam não haver dúvidas sobre o fato de que seriam os agentes de mercado os demiurgos do ciclo de crescimento sem sobressaltos? Que não haveria lugar para a política em um mundo de empreendedores que, obedecendo a expectativas racionais, e se deixando guiar pela satisfação de seus instintos levariam a humanidade à terra prometida.

Aos que vislumbravam um descompasso entre “o empreendorismo” que crescia por seus méritos e um Estado falido, ainda iludido com seu gigantismo, cabe uma pergunta. Quem terminou falindo e a qual instância pediu socorro?

Não procurem pelas cabeças coroadas do governo tucano, nem muito menos pelos seus porta-vozes na imprensa. Com os rostos lívidos de terror, choram com Hayek. Não só a perda do Éden, mas a assustadora constatação de que, sem a roupagem ideológica, ele nada mais é que o “Estado de Natureza" de Hobbes. Um espaço encantado onde a margem de lucro é assegurada pela aniquilação do outro. Um pesadelo do qual só se sai pelas seguras mãos do Estado.

Espera-se que a direita periférica tenha ao menos o cuidado de burilar o discurso do recuo inevitável. Sem os factóides da imprensa que lhe ampara e, muito menos, sem o pretorianismo togado a que aderiu sem pudor. É hora de aprender com o luto. Ao menos uma vez.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

Manuseando escutas - por Luis Nassif

Ultimo furo da Veja em relação à Satiagraha: clique aqui.
Trechos da matéria:

“(...) Agora, descobriu-se – oficialmente – que as atividades dos agentes nem sequer passaram perto da inocente versão segundo a qual eles faziam apenas consultas a bancos de dados. Além de seguirem, vigiarem, fotografarem e filmarem pessoas supostamente envolvidas com criminosos, os espiões do governo produziram relatórios secretos com base na audição de escutas telefônicas.
(...) A prova do crime era um diálogo captado entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, repassado à revista por um servidor ligado à agência. A Abin nunca admitiu o envolvimento de seus agentes com grampos, mas as provas começam a aparecer.
A Polícia Federal tem em mãos uma lista de todos os agentes da Abin que participaram da operação. Parte deles já foi ouvida no inquérito aberto para apurar o caso. Os espiões contaram detalhes do seu trabalho, que envolveu setores da agência em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Os depoimentos são mantidos em segredo, mas dois espiões envolvidos já confirmaram ter manuseado grampos telefônicos e mensagens eletrônicas dentro das dependências da Abin. Um deles, encarregado de analisar o material, contou a VEJA que os grampos chegavam em CDs, eram transcritos e transformados em relatórios de inteligência.
(...) Em entrevista a VEJA, o presidente da Associação dos Servidores da Agência, Nery Kluwe, confirmou que, de fato, os agentes do órgão manipularam escutas telefônicas, mas que não cabia a eles questionar se elas eram legais ou não. Como a missão era oficial, subentendia-se que os grampos tinham origem em autorizações judiciais.
(...) No extremo mais promissor da investigação, a Polícia Federal ouviu, na semana passada, o depoimento do juiz Fausto de Sanctis. Ele voltou a dizer que não autorizou a realização de nenhum tipo de interceptação contra o ministro Gilmar Mendes.


Comentário
Escutas se gravam, se digitalizam. Manusear escutas? A matéria bombástica da dupla Policarpo Jr e Expedito Filho, na Veja desta semana, "denuncia" que funcionários da ABIN preparavam as transcrições dos grampos efetuados pela Polícia Federal. Batizaram a transcrição de "manusear grampos", para dar mais impacto, e anunciaram que ali estavam as provas de que a ABIN participou dos grampos.
Nenhuma informação, prova documental, indícios que confirmem o suposto grampo em Gilmar Mendes e Demóstenes Torres. A reportagem trata como se fosse verdade acabada. E não se discute mais isso.
O imenso factóide ficou reduzido a isso: agora, o extremo mais promissor da investigação é o depoimento de De Sanctis.

Mais um laudo negativo - por Luis Nassif

Por Stanley Burburinho
De O Globo
Laudo técnico

Exército atesta que Abin não pode grampear celular

Publicada em 26/09/2008 às 23h38m

BRASÍLIA - O laudo técnico do Exército encaminhado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, à CPI do Grampo, revela que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) possui cinco equipamentos que podem fazer grampos telefônicos, mas apenas em aparelhos de linha analógica. Os aparelhos, segundo o laudo, apresentam limitações de acordo com a freqüência e o tipo de transmissor. O laudo é categórico ao afirmar que a parafernália da Abin, analisada por três oficiais do Exército, não pode grampear celulares.

Essa constatação acaba fragilizando ainda mais a posição do ministro da Defesa, que vinha defendendo, dentro do governo, a tese de que os equipamentos da Abin foram usados para escutas ilegais no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes. A conversa de Gilmar com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ocorreu por telefone celular, que não pode ser grampeado por esses equipamentos. (...)
A conclusão dos militares do Exército é semelhante à de outro laudo, elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), da Polícia Federal, e divulgado semana passada . A PF também atestou que a Abin não poderia ter usado aqueles aparelhos para grampear Gilmar Mendes, que teve seu diálogo divulgado na imprensa.
"Os equipamentos disponibilizados para análise pela Abin não possuem meios de monitoração e gravação eletrônica de celulares GSM e CDMA", diz a parte de conclusão do laudo. O texto lista, no entanto, os equipamentos da Abin que podem fazer escutas em linhas convencionais analógicas. A relação inclui até um gravador de fita cassete.
"A Abin detém um equipamento de gravação de telefone fixo (o gravador), dois de telefone fixo com limitações e cinco de gravação de emissões eletromagnéticas analógicas com limitações", diz o laudo.

Relembrando o factóide da IstoÉ

A sombra ameaçadora da ABIN

As revelações de ISTOÉ expõem as armações da cúpula da agência, e o general Jorge Felix sofre críticas no Planalto

por Mino Pedrosa e Hugo Marques

ELES SABEM luiz Corrêa e Paulo lacerda (esquerda), o delegado Protógenes Queiroz (centro) e o juiz Fausto De Sanctis (direita): na Satiagraha, a Abin tinha mais que o dobro de agentes da Polícia Federal

(...) A última semana foi decisiva para desmascarar a forma como vem funcionando o serviço de inteligência do governo, que repete práticas adotadas na ditadura, inaceitáveis em um Estado democrático. Sentados na Comissão de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, o general Felix, o diretor afastado da Abin, Paulo Lacerda, e o diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, não conseguiram apresentar um parecer sobre as maletas de escutas do governo.

Uma fonte qualificada da Abin, no entanto, disse à ISTOÉ que a maleta da agência faz, sim, grampos. Basta colocar um pequeno gravador no equipamento que deveria apenas fazer varreduras. As maletas da Abin foram compradas num mesmo pacote de equipamentos do Exército. A Aeronáutica e a Marinha também possuem malas assim. Eis a grampolândia da área militar, exposta na briga de Felix e Nelson Jobim, da Defesa. Agora, o deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), presidente da CPI dos Grampos, quer saber por que as Forças Armadas precisam de equipamentos para grampear telefones.

A última carta do castelo de mentiras da Abin caiu com a entrevista do espião Ambrósio nesta edição.


Comentário
Confira-se essa barafunda manipulatória com o editorial da Folha de hoje, usando o caso do falso grampo de Veja como exemplo do bem que faz manter o instituto do off a qualquer preço.

Comentário meu: Afinal de contas, de quem é a "última carta do castelos de mentiras"?

Os perigos da demonização da PF - por Maria Inês Nassif (Valor Econômico)

O corpo burocrático do Estado tende a reivindicar a representação da racionalidade, mas sequer a racionalidade é neutra. A Constituinte de 1988 deu autonomia ao Judiciário e ao Ministério Público e aumentou os controles sobre um aparelho policial hipertrofiado pela ditadura, obrigando a sua profissionalização. Ao longo dos 20 anos de amadurecimento democrático das instituições, ora uma, ora outra, avança sobre o espaço das demais, reivindicando para si a capacidade de agir racionalmente em nome do Estado.
É possível em cada uma das unidades da Federação mapear conflitos entre instituições - ou alianças eventuais - e, ao longo de suas cadeias hierárquicas, apontar acúmulo ou esvaziamento de poder em instâncias estaduais e federais. O episódio da prisão e soltura dupla do empresário Daniel Dantas - prisão dupla pelo juiz de primeira instância, Fausto de Sanctis; soltura dupla pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes - é a personificação do conflito. E a mostra efetiva de que, se em algum momento as instâncias inferiores da Justiça, o MP e a Polícia Federal (PF) tiveram protagonismo em questões nacionais importantes, ele vem sendo gradativamente esvaziado em favor de uma concentração de poderes nas mãos da mais alta corte judiciária do país.
O ativismo judicial, defendido por parcela da opinião pública como uma garantia de que a "racionalidade" do STF conteria a "irracionalidade" da ação política do Legislativo, produziu outras crias. O Supremo ocupou cada vez mais espaços - hoje não apenas tem o instrumento constitucional da súmula vinculante, mas desfrutou (pelo menos até agora) de uma legitimidade autoconferida por um entendimento do que é o "clamor público", e com esse mandato promoveu a adequação das leis à sua própria racionalidade. A reação dos juízes contra a decisão do presidente do STF, acompanhada por outra igual dos procuradores - e de uma contra-reação dos advogados e defensores públicos - mostra que também a racionalidade do aparelho burocrático do Estado é política. Pode não ser partidária, mas é política.
A demonização da política foi o primeiro passo para a legitimação do ativismo judiciário. A apropriação do senso comum de que o político eleito é corrupto, até que se prove o contrário; de que os partidos são por princípio venais; e de que a política sempre encerra interesses inconfessáveis, tem legitimado a atuação legislativa do STF. Também foi ela que moveu as espetaculares ações da PF - investigações agressivas, quase "sentenciatórias", que nem sempre foram referendadas pelas várias instâncias do Judiciário. A Operação Satiagraha, que levou à prisão o empresário Daniel Dantas, deve marcar um refluxo na ofensiva da PF de ocupar o espaço de outras instituições, mas pode perigosamente concentrar mais poderes no STF. A demonização da PF, tal como antes aconteceu com os políticos em geral, já começou - à polícia passou a ser atribuída incompetência investigativa, leviandade e sensacionalismo. Isso é generalizar o que não é generalizável: as ações da PF não são em geral rasas, levianas ou sensacionais; assim como os políticos não são genericamente corruptos.
A demonização da PF tende a concentrar mais poderes na instância maior da Justiça. É um caminho perigoso, uma vez que o Supremo não dispõe de estrutura ou de capacidade investigatória. Todo o ativismo justificado até agora como um instrumento para tornar a justiça mais eficaz e célere pode resultar num afunilamento de decisões nas mãos do STF, com prejuízo da celeridade e serenidade nos julgamentos.
O ministro Gilmar Mendes, pelo seu currículo, seria a pessoa indicada para colocar essa disputa de poder entre instituições no limite do tolerável. Afinal, ele é originário do Ministério Público, foi advogado-geral da União e agora preside o STF. Em três instituições, ele conviveu e assimilou "racionalidades" diferentes - como advogado-geral, assumiu a lógica do Executivo com fervor, inclusive contra o que achou ser irracionalidade do MP (de onde veio) ou do STF (para onde foi). Como ministro do STF, tem declarado oposição pública à Polícia Federal, ao ministro da Justiça e à MP. Como presidente do STF, agiu duro contra o que considerou rebeldia do juiz Fausto de Sanctis, que emitiu duas ordens de prisão contra o banqueiro. Por entendimento ou conflito, portanto, Mendes transitou pela lógica de diferentes corpos burocráticos e diversas instâncias judiciárias, jogando duro o suficiente para ampliar o poder da instituição da qual fazia parte no momento. Usou a sua capacidade ofensiva para o conflito. Talvez seja a hora de usá-la para colocar o poder de cada instituição - inclusive e principalmente do STF - nos seus devidos lugares.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O Imperador do Brasil - por Luis Nassif

Da Folha
Juiz De Sanctis é intimado a pedido do STF

DA REPORTAGEM LOCAL
A pedido de Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, o juiz Fausto De Sanctis foi intimado anteontem pela Corregedoria, que apura erros e abusos de magistrados, a se explicar sobre o motivo que o levou a decretar a prisão do banqueiro Daniel Dantas, que é investigado por supostos crimes financeiros.
A intimação abre um novo capítulo da situação de mal-estar entre De Sanctis, que atua na primeira instância, e Mendes, que representa o grau máximo do Judiciário.
Foi o juiz federal que decretou a primeira prisão do banqueiro, em 8 de julho. No dia seguinte, Mendes mandou soltar Dantas. Em menos de 24 horas, De Sanctis ordenou uma segunda prisão, desta vez por suposta tentativa de suborno de um policial com US$ 1 milhão.
Mendes, que viu a medida como uma afronta, pediu ao Conselho Nacional de Justiça, presidido por ele, e à Corregedoria que inquirissem o juiz. Após reação indignada da classe, Mendes disse que o envio era só para estatística.
De Sanctis terá cinco dias para responder. Ontem, ele foi ouvido pela PF, que apura grampo ilegal contra Mendes.
O juiz rebateu a afirmação da desembargadora Suzana Camargo, que o acusou de ter mandado grampear o presidente do STF. À polícia, ele negou e disse que foi a juíza que o procurou, em nome de Mendes, pedindo informações sobre um caso sigiloso. (LILIAN CHRISTOFOLETTI)

Comentário
O presidente do STF tornou-se suspeito de envolvimento emocional com o caso Daniel Dantas, a partir dos seguintes atos:
1. O segundo habeas corpus concedido a Dantas.
2. Segundo o juiz De Sanctis, por ter solicitado a uma desembargadora que buscasse informações com De Sanctis sobre inquérito sigiloso. Quem está com a verdade: De Sanctis ou a desembargadora. Enquanto esse inquérito corre, Gilmar deveria se declarar impedido de tomar qualquer atitude contra o juiz. Mas seu sentimento de onipotência é irrefreável.
3. Desqualificou todas as instituições envolvidas no inquérito de Dantas.
4. Permitiu que seu nome fosse usado em uma reportagem - a do grampo - sobre a qual pairam suspeitas de manipulação. E afrontou o chefe de outro poder com base na reportagem.
5. No momento está se valendo do cargo para algo que é visto como acerto de contas pessoal.
Pergunto: até quando prosseguirá nessa escalada suicida? Mendes perdeu a noção de proporção. Virou o fio há tempos.
Digo com a experiência de décadas de jornalismo: é impossível que tamanha demonstração de poder e arrogância seja bem sucedida, no atual estágio de desenvolvimento do país e da opinião pública.

O resgate de todos os resgates: golpe de Estado cleptocrata nos EUA - por Michael Hudson (Sin Permiso)

CAPITALISMO EM CRISE (II)

O resgate de todos os resgates: golpe de Estado cleptocrata nos EUA


O governo dos EUA mudou radicalmente o caráter do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas últimas semanas pode alterar o curso do século que começa de maneira irreversível. Estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil. A análise é de Michael Hudson.


Ninguém esperava que o capitalismo industrial terminasse deste modo. Mais do que isso, ninguém sequer imaginou que ele evoluiria nesta direção. Suspeito que essa cegueira seja freqüente entre os futurólogos: a tendência natural é pensar sobre a forma ótima de crescimento e desenvolvimento das economias. Mas sempre parece surgir um caminho imprevisto e então a sociedade se vai por uma tangente.

Que duas semanas! No domingo, 7 de setembro, o Tesouro assumiu o controle dos 5,3 bilhões de dólares expostos ao risco hipotecário das empresas Fannie Mae e Freddie Mac, cujos chefes já tinham sido destituídos por fraude contábil. No dia 15 de setembro, Lehman Brothers declarou-se em bancarrota quando possíveis compradores de Wall Street não conseguiram encontrar rastro algum de realidade em sua contabilidade financeira. Dois dias depois, o Federal Reserve concordou em aprovar, a um custo de pelo menos 85 bilhões de dólares, os lucros “assegurados” que a AIG devia a instituições financeiras que, por meio do comércio de valores nas bolsas, apostaram em hipotecas podres e contrataram seguros de cobertura com essa empresa seguradora, o American International Group (cujo chefe, Maurice Greenberg, havia sido destituído poucos anos antes por fraude contábil).

19 de setembro: o momento de inflexão
Mas é o dia 19 de setembro que figurará na história dos EUA como o momento de inflexão. A Casa Branca comprometeu ao menos 500 bilhões de dólares no esforço de aumentar os preços imobiliários a fim de sustentar o valor de mercado das hipotecas podres (hipotecas contratadas sem levar em conta a capacidade dos devedores para pagar e que, além disso, superestimam o preço corrente de mercado que se oferece como garantia da dívida).

Esses bilhões de dólares foram sacrificados para manter vivo um sonho: as ficções contábeis postas sobre o papel por empresas que ingressaram em um mundo irreal fundado em uma contabilidade falsa que praticamente todo o mundo financeiro sabia ser enganosa. Mas todos jogavam com as hipotecas podres porque ali é onde se ganhava dinheiro. Inclusive, no momento do colapso dos mercados, vários gestores executivos de fundos de investimentos que mantinham a lucidez foram duramente criticados por não embarcar neste jogo enquanto ele funcionava.

Tenho amigos em Wall Street que foram demitidos por não conseguir igualar os lucros que colegas seus estavam conseguindo. E os maiores retornos eram conseguidos através da comercialização dos maiores ativos financeiros da economia: a dívida hipotecária. Somente as hipotecas pertencentes ou garantidas por Fannie e Freddie já excediam o volume de toda a dívida nacional dos EUA, que é o déficit acumulado pelo Estado norte-americano desde os dias em que a nação ganhou a guerra revolucionária da independência!

Isso dá uma idéia das enormes dimensões do resgate, assim como das prioridades do Estado (ou, ao menos, dos republicanos no governo). Em vez de despertar a economia para a realidade, o governo empenhou todos os seus recursos na promoção de um sonho irreal, segundo o qual as dívidas podem ser pagas: se não pelos próprios devedores, pelo governo (ou os “contribuintes”, como se diz eufemisticamente). Diante das trevas, o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve mudaram radicalmente a face do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas duas últimas semanas ameaça alterar o curso do século que começa, de maneira irreversível. Pois estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil.

Socorrendo os doadores da campanha eleitoral
Ainda assim, há poucos indícios de que isso chegue sequer a pôr fim ao som dos tambores e trompetes em defesa do livre mercado executado pelos insiders financeiros que conseguiram destruir o controle público pela via de colocar reconhecidos anti-reguladores nas principais agências reguladoras, gerando assim o caos que, segundo diz agora o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ameaça os depósitos bancários e os postos de trabalho de todos os norte-americanos. Mas quem está realmente ameaçado são os maiores contribuidores financeiros da campanha eleitoral dos republicanos (e para ser justo, também os maiores contribuidores das campanhas de candidatos democratas a postos-chave nos comitês de finanças do Congresso.

Uma classe cleptocrática tomou o controle da economia, a fim de substituir o capitalismo industrial. O termo cunhado um dia por Roosevelt – “bancgsters” – diz tudo em uma palavra. A economia foi assaltada e capturada por uma potência exterior. Não pelos suspeitos habituais: não foi pelo socialismo, não pelos trabalhadores, não pelo “Estado gigante”, não pelos industriais monopolistas, nem sequer pelas grandes famílias de banqueiros. Também não o foi pela franco-maçonaria ou pelos illuminati (seria maravilhoso que existisse de verdade algum grupo que atuasse nas sombras, com séculos de sabedoria acumulada; assim, ao menos, alguém teria um plano).

Os Exterminadores do Futuro
O que ocorreu é que os “bancgsters” aliaram-se com uma potência externa: não com os comunistas, não com os russos, asiáticos ou árabes: aliaram-se com algo que sequer é humano. O grupo em questão é um feixe de máquinas. Isso pode soar ao tema do filme “Exterminador do Futuro”, mas o certo é que os computadores conseguiram assumir o controle do mundo, ao menos o mundo da Casa Branca.

Eis aqui como conseguiram. A AIG subscreveu apólices de seguros de todo tipo solicitados por gente e pelo mundo dos negócios: seguros de habitação e de propriedade, seguros agropecuários e inclusive seguros para cobrir o arrendamento aeronáutico. Esse rentabilíssimo negócio não foi o problema (por isso mesmo, provavelmente, será todo coberto para poder pagar as apostas fracassadas da companhia). A queda da AIG veio dos 450 bilhões de dólares que ficaram pendurados ao assegurar garantias a fundos hedge de investimento.

Em outras palavras: se duas partes jogavam um jogo de soma zero, apostando uma contra a outra pela alta ou queda do dólar frente à libra esterlina ou ao euro, ou se asseguravam uma carteira hipotecária ou hipotecas podres para ter garantias de que seriam cobertas, pagavam uma minúscula comissão a AIG por uma apólice que prometia pagar, se o mercado hipotecário norte-americanos de 11 trilhões de dólares chegasse a “tropeçar”, ou se os perdedores que tinham colocado bilhões de dólares em apostas em derivados do mercado internacional de divisas ou em derivados financeiros de ações ou obrigações, terminassem em uma situação parecida com a que se encontram muitos jogadores de Las Vegas, isto é, incapazes de cobrir suas dívidas em dinheiro.

A AIG colheu bilhões de dólares com essas apólices. E graças ao fato de que essas companhias seguradoras são um paraíso “friedmaniano” – não regulado pelo Federal Reserve, nem por nenhuma outra agência de alcance nacional – a subscrição dessas apólices era feita por meio de processos informáticos. A empresa recebia enormes quantidades de honorários e comissões sem sequer aportar capital. Isso é o que se chama de “auto-regulação”. E é assim que, supostamente, funciona a mão invisível do mercado.

O fato é que, inevitavelmente, algumas instituições financeiras que tinham apostado bilhões de dólares – normalmente, e para ser preciso, apostando 1 bilhão de dólares no curso de uns poucos minutos – não estavam em condições de pagar. Esses jogos se desenvolviam em micro-segundos, praticamente sem interferência humana. Neste sentido, não é tão distinto dos alienígenas tomando o controle. Mas neste caso trata-se de máquinas tipo robô: daí a analogia que tracei com os Exterminadores.

Seu repentino acesso ao poder é tão imprevisível como uma invasão procedente de Marte. A analogia que mais se aproxima é a invasão dos Chicago Boy’s, do Banco Mundial e da USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) a Rússia e a outras economias pós-soviéticas logo após a dissolução da URSS, promovendo privatizações de livre mercado a fim de criar cleptocracias nacionais. Para os estadounidenses deveria constituir um sinal de alerta que esses cleptocratas tenham se convertido nas fortunas fundadoras de seus respectivos países. Deveríamos ter presente a observação de Aristóteles, segundo a qual a democracia é o estado imediatamente anterior à oligarquia.

Comércio à velocidade da luz
As máquinas financeiras que desenvolveram o comércio que resultou na quebra da AIG estavam programadas por executivos financeiros para atuar com a velocidade da luz em operações de comércio eletrônico que costumam durar alguns segundos, e isso, milhões de vezes ao dia. Só uma máquina poderia calcular a distribuição de probabilidades matemáticas a partir da observação de ínfimas variações, para cima e para baixo, de taxas de juros, taxas de câmbio, preços de ações e obrigações, preços de hipotecas empacotadas. E esses últimos pacotes, cada vez mais, assumiram a forma de hipotecas podres, supostamente dívidas pagáveis mas, na realidade, casca vazia.

Em particular, as máquinas empregadas pelos fundos hedge deram um novo significado ao capitalismo de cassino. Há muito que se aplicava esse significado aos especuladores que jogavam no mercado de valores. Consistia em fazer apostas cruzadas, perder algo e ganhar algo, e deixar que o Estado resgatasse os não-pagadores. O giro observável na turbulência das duas últimas semanas é que os ganhadores não podem recolher os lucros de suas apostas, a menos que o governo pague as dívidas contraídas pelos perdedores, incapazes de satisfazê-las com seu próprio dinheiro.

Alguém poderia pensar que tudo isso exige algum grau de controle por parte do Estado, que provavelmente esse tipo de atividade não deveria jamais ter sido autorizada. De fato, nunca foi autorizada, tampouco regulada. Mas parecia haver uma boa razão para isso: os investidores dos fundos hedge assinaram um papel dizendo que eram suficientemente ricos para permitirem-se perder seu dinheiro neste jogo financeiro. Um jogo que não era acessível aos pobres mortais. Apesar do alto rendimento gerado por milhões de minúsculas operações comerciais, tais operações eram consideradas demasiado arriscadas para principiantes carentes de fundos confiáveis para entrar no jogo.

Um fundo hedge, ou fundo de cobertura ou de investimento livre, não ganha dinheiro produzindo bens e serviços. Não avança fundos para comprar ativos reais, nem sequer empresta dinheiro. O que faz é tomar emprestadas enormes somas para alavancar suas apostas com crédito praticamente ilimitado. Seus executivos não são engenheiros industriais, mas sim matemáticos que programam computadores para fazer apostas cruzadas ou straddles sobre como se comportarão as taxas de juros, as taxas de câmbio de moedas, os preços das ações e obrigações ou os preços das hipotecas empacotadas pelos bancos. Os empréstimos empacotados podem ter lastro ou ser puro lixo. Não importa. A única coisa que importa é ganhar dinheiro em um mercado no qual o grosso das operações comerciais dura apenas alguns segundos. O que gera lucros é a fibrilação dos preços, a volatilidade.

Jogo financeiro sem criação de riqueza
Este tipo de transações pode fazer fortunas, mas não é a “criação de riqueza” que muita gente imagina. Antes da fórmula matemática de Black-Scholes para calcular o valor das apostas destes fundos de investimento livre, esse tipo de jogo com opções de compra e venda resultava demasiado custoso, salvo para as empresas de intermediação financeira. Mas a combinação de potentes computadores com a “inovação” representada por um crédito praticamente ilimitado e o livre acesso às tabelas do jogo financeiro tornaram possível uma frenética manobra de ir e vir.

Pois bem, por que o Tesouro considerou inevitável esse esquema? Por que seria preciso salvar esses cassinos e seus apostadores, se eles tinham dinheiro bastante para perder sem que se convertessem em salas hospitalares necessitadas de assistência pública? O comércio de fundos hedge estava limitado aos muito ricos, aos bancos de investimentos e a outros investidores institucionais. Mas uma das maneiras mais fáceis de ganhar dinheiro chegou a ser emprestar fundos com juros que as pessoas tinham que devolver com o que retiravam de suas operações comerciais computadorizadas.

E, quase simultaneamente com a operação, esse dinheiro era pago em forma de comissões, remunerações e bônus anuais que traíam a memória dos EUA da Era da Ganância, nos anos que precederam a I Guerra Mundial, antes que se introduzisse o imposto sobre a renda em 1913. O notável em todo este dinheiro era que seus destinatários nem sequer tinha que pagar por ele um imposto de renda normal. O governo o chamou de “ganhos de capital”, o que significava que esse dinheiro era registrado fiscalmente somente como uma fração da taxa com a qual se taxavam os rendimentos.

Tudo isso com a pretensão, é importante dizer, de que todo esse frenético comércio estivesse criando “capital” real. Desde logo, cabe dizer que isso não ocorre, ao menos no sentido do conceito de capital dado pela economia clássica do século XIX. Esse conceito tem sido divorciado das noções de produção de bens e serviços, contratação de trabalho assalariado ou inovação financeira. Nesta novíssima acepção, “capital” passa a ser o direito de organizar uma loteria e recolher os lucros resultantes das esperanças dos perdedores. Mas, então, os cassinos de Las Vegas converteram-se em uma pujante “indústria do crescimento”, manchando a linguagem do capital, do crescimento e da própria riqueza.

Para encerrar as mesas de jogo e saldar dívidas, os perdedores têm que ser resgatados: Fannie Mae, Freddie Mac, AIG. Quem sabe quem será o seguinte? É a única maneira de resolver o seguinte problema que se apresenta às empresas que já pagaram seus executivos e acionistas, em vez de ter colocado essas somas em uma reserva: como recolher seus lucros diante de devedores insolventes e seguradoras quebradas? Estes, os perdedores, também pagaram seus executivos financeiros e seus colaboradores internos (junto com as oportunas contribuições patrióticas aos candidatos políticos em postos-chave das comissões do Congresso, encarregadas de decidir a estruturação financeira da nação).

O planejamento do caos
Sim, porque para que isso funcione, é preciso que seja orquestrado previamente. É necessário comprar políticos e oferecer-lhes um argumento plausível (ou, ao menos, um conjunto bem armado de eufemismos à prova de questionamento da opinião pública) para poder explicar aos eleitores por que era do interesse público resgatar os apostadores do cassino. É preciso ter uma boa retórica para explicar por que o governo tinha que permitir que eles entrassem em um cassino, deixar que ficassem com os lucros de suas apostas e, finalmente, usar fundos públicos para resgatar as perdas dos perdedores.

O que ocorreu nos dias 18 e 19 de setembro levou anos de preparação, escondidos por uma falsificação ideológica patrocinada por think thanks de relações públicas e emitida agora, em condições de emergência, a um Congresso e a eleitores reféns do pânico, justo antes da eleição presidencial. Poder-se-ia dizer que esta é a surpresa eleitoral que setembro reservava. Em condições de crise bem encenadas, o presidente Bush e o secretário do Tesouro Paulson convocam agora o país a uma guerra contra os proprietários de habitações, em situação de quebra técnica. Dizem que essa é a única esperança para “salvar ao sistema”. (Que sistema? Não o capitalismo industrial, nem sequer o sistema bancário tal como o conhecemos).

A maior transformação do sistema financeiro norte-americano desde a Grande Depressão aconteceu, comprimida, em duas semanas: começando com a duplicação da dívida nacional norte-americana quando, no dia 7 de setembro, ocorreu a nacionalização de Fannie Mae e Fredie Mac. (O corretor ortográfico de meu computador não concorda com a utilização do eufemismo “conservadorização” aplicado pelo senhor Paulson para referir-se ao resgate dos “fraudgsters” de Fannie Mae e Freddie Mac).

A teoria econômica poderia explicar que os lucros e o juro eram a remuneração do risco calculado. Mas em nossos dias o nome do jogo é ganhos de capital e apostas computadorizadas sobre o comportamento das taxas de juros, das moedas estrangeiras, dos preços das ações. E quando as apostas dão errado, os resgates são a remuneração econômica calculada de quem contribuiu financeiramente para a campanha eleitoral. Mas agora, supostamente, não é o momento de falar sobre tais coisas. “Temos que atuar agora para proteger a saúde econômica de nossa nação, ameaçada por graves riscos”, disse o presidente Bush no dia 19 de setembro.

O que ele queria dizer é que a Casa Branca deve responder com uma promessa de garantia ao maior grupo de doadores da campanha eleitoral do Partido Republicano – ou seja, Wall Street – resgatando suas más apostas. “Haverá muitas oportunidades para discutir as origens deste problema. A tarefa do momento é resolvê-lo”. Em outras palavras, não convertam isso em um assunto eleitoral. “Na história da nossa nação, ocorreram momentos que exigiram que andássemos unidos, deixando as divisões partidárias de lado a fim de enfrentar desafios de grande envergadura”. Justo antes das eleições! Idêntico disparate pode ser ouvido dos lábios do secretário Paulson: “Nossa saúde econômica exige que sejamos capazes de trabalhar juntos e empreender uma ação imediata bipartidária”. Os locutores disseram que nas manobras do dia estava em jogo uma cifra de meio bilhão de dólares.

Boa parte das culpas deveria recair sobre a Administração Clinton, responsável direta, em 1999, pela supressão da Lei Glass-Steagal, que permitiu aos bancos funcionarem como cassinos. Ou melhor dito, aos cassinos absorverem bancos. Isso é o que pôs em risco a economia dos norte-americanos.

Mas isso significa realmente que a única solução passa por “reinflar” o mercado imobiliário? O plano de Paulson-Bernanke é capacitar os bancos para que possam vender as casas de 5 milhões de devedores hipotecários que este ano terão que enfrentar ou a quebra ou o embargo. Os proprietários de habitações submetidos a juros hipotecários variáveis disparados perderão suas casas, mas o Federal Reserve garantirá às empresas de empréstimo hipotecário crédito suficiente para permitir que novos compradores se endividem o suficiente para conseguir resgatar as hipotecas lixo das mãos dos apostadores dos cassinos que são seus atuais possuidores. Com o que se ganha tempo para que uma nova bolha financeira acuda em resgate das instituições de empréstimo e dos empacotadores de hipotecas podres.

Nova guerra, novas ficções
Os EUA entraram em outra guerra, uma guerra para salvar os comerciantes de derivados computadorizados. Assim como a guerra do Iraque, esta nova guerra baseia-se muito em ficções e, como na guerra do Iraque, o país entra nela sob a pressão de condições de aparente emergência. Também como na guerra do Iraque, a solução proposta guarda pouca relação com a causa que provocou o problema. Esgrimindo razões de segurança financeira, o governo considerará como boas as Obrigações de Dívida Colateralizada (ODCs) que Warren Buffett chamou de “armas de destruição financeira massiva”.

Não é por acaso que esse esbanjamento de dinheiro público está sendo manejado pelo mesmo grupo que tão piamente alertou o país sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. O presidente Bush e o secretário do tesouro declararam tão ricamente que este não é o momento para desacordos partidários a respeito da deriva da política pública em favor dos credores e não dos devedores; que este não é o momento de converter em assunto eleitoral o maior resgate já registrado nos anais da história eleitoral; que não é o momento adequado para debater se é bom “reinflar” o preço dos imóveis a níveis que seguirão obrigando os novos compradores de casa a endividarem-se até o ponto de ter que gastar em habitação cerca de 40% de seus rendimentos.

Recordem a época em que o presidente Bush e Alan Greenspan informaram aos norte-americanos que não havia dinheiro para financiar a Seguridade Social, porque em algum momento futuro (dentro de 10? 20? 40 anos?) o sistema teria um déficit de 1 bilhão de dólares, distribuído ao longo de muitos anos, soma irrisória diante do resgate que está sendo promovido agora. A moral da história era que se não podemos imaginar uma forma de pagar esse sistema no longo prazo é melhor deixar cair agora mesmo o programa assistencial. O senhor Bush e o senhor Greenspan garantiram na época que tinham uma oportuna solução. O Tesouro poderia canalizar o dinheiro da Seguridade Social e dos seguros médicos para os bancos Bear Stearns, Lehman Brothers ou seus pares, para que eles o investissem a um “mágico juro composto”.

O que teria ocorrido se a Seguridade Social tivesse feito tal coisa? Talvez tivéssemos assistido nestas duas semanas à entrega aos apostadores de Wall Street de todo o dinheiro acumulado desde que a Comissão Greenspan resolveu, em 1983, deslocar a carga fiscal sobre as retenções salariais reguladas pela FICA (Lei Federal de Contribuição à Seguridade Social). Não são os aposentados que se pretende resgatar, mas sim os investidores de Wall Street que assinaram papéis dizendo que estavam em condições de enfrentar a perda do dinheiro jogado. A consigna eleitoral dos republicanos este ano deveria ser: “Seguro de jogo, não seguro de saúde”.

Em seu célebre livro “Caminho da Servidão”, Friedrich von Hayek e seus meninos de Chicago insistiam que a servidão viria da planificação e da regulação estatais. Essa visão caminhava na direção contrária a dos reformadores clássicos da Era Progressista, que concebiam a ação do Estado como a do cérebro da sociedade, como a linha diretriz para modelar os mercados e liberá-los dos especuladores rentistas, ou seja, da renda que não fosse contrapartida do desempenho de um papel necessário na produção.

A teoria da democracia fundava-se no pressuposto de que os eleitores atuariam movidos pelo próprio interesse. Os reformadores do mercado partiram de uma feliz suposição paralela, segundo a qual os consumidores, os poupadores e os investidores promoveriam o crescimento econômico atuando com pleno conhecimento e cabal compreensão das dinâmicas em ação. Mas a mão invisível terminou resultando em fraude contábil, empréstimo hipotecário podre, informação privilegiada e fracasso em controlar os crescentes gastos da dívida conforme a capacidade dos devedores para pagar. É todo este caos, aparentemente legitimado por alguns modelos de comércio eletrônico, que acaba de ser socorrido pelo Tesouro dos EUA.

Michael Hudson é ex-economista de Wall Street especializado em balanço de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles "Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire".

Tradução do inglês para o espanhol: Ricardo Timón
Tradução do espanhol para o português: Marco Aurélio Weissheimer

Texto traduzido a partir da versão em espanhol publicada no site Sin Permiso.