terça-feira, 8 de junho de 2010

Jornalista envolvido com crise do dossiê diz que aceita acareação com ex-delegado - por Rubens Valente (Folha)

O jornalista Amaury Ribeiro Júnior disse que aceita ser acareado com o delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo das Graças Sousa.

Em entrevista à revista "Veja", o delegado disse que recebeu pedido da campanha eleitoral de Dilma, durante uma reunião ocorrida em Brasília, em abril, para que investigasse "coisas pessoais" do pré-candidato tucano à Presidência, José Serra (PSDB). Amaury, que participou do encontro, negou que o pedido tenha ocorrido.

Segundo o jornalista, na reunião o delegado relatou que pessoas ligadas ao deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) estão levantando dossiês contra pessoas do PMDB, que vai indicar o vice na chapa de Dilma.

No sábado, o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) disse que pedirá uma investigação sobre a possível produção de dossiês pela campanha de Dilma Rousseff (PT).

A seguir, trechos da entrevista.

Folha - Foi pedido ao delegado Onézimo que investigasse José Serra ou foi sugerido grampo telefônico?
AMAURY RIBEIRO JUNIOR - Não tem nada a ver com José Serra. A questão [da reunião] era para saber quem estava vazando informações. E saber quem roubou [as informações]. Na verdade se fala muito em espionagem, mas o que aconteceu é que roubaram coisas. Roubaram o cartão do próprio delegado. Eu fui chamado exatamente para tentar ver o que estava acontecendo na casa, o que estava vazando na casa.

Não foi sugerido ao delegado algum tipo de investigação sobre a família de Serra?
O que está parecendo agora é uma retaliação. Ele está falando isso agora como uma retaliação porque ele não foi contratado. [...] Agora, sendo um cara araponga, ele tem que provar. Eu tenho como provar que não rolou esse papo na conversa. Ele vai se dar mal, porque vou processá-lo. Porque tenho como provar tudo que se passou naquela conversa.

Como você pode provar?
Detalhes, diálogo por diálogo. Eu tenho como provar tudo o que foi falado. Agora, eu fui [à reunião] porque conheço outra pessoa, um amigo dele. Ele [Sousa] trabalhou na inteligência do Itagiba, no Ministério da Saúde, que o Serra montou.

Por que ocorreu a reunião?
Não era só vazamento, começaram a roubar coisas lá dentro. Sabotagem. [...] O Onézimo chegou nessa reunião dizendo que ele tinha condições de destruir isso porque ele havia trabalhado antigamente, e que tinha brigado com o pessoal, da inteligência do Itagiba. [...] Quando o Serra assumiu o Ministério da Saúde, ele montou --com o pretexto de investigar laboratórios-- uma central de espionagem, que era formado por quem? É só você ver quem estava cadastrado. Era um agente do SNI, o "agente Jardim", que até pouco tempo estava no gabinete [de Itagiba na Câmara], um ex-delegado... Isso quem falou foi o próprio Onézimo.

Ele chegou nessa reunião [e disse]: "Pô, vocês estão atrasados, porque essa equipe está trabalhando há dois anos". "Fazendo o quê?" "Ah, eles estão levantando dossiê contra o pessoal, esse povo do Itagiba está levantando 300 dossiês contra pessoas do PMDB, e quem do PMDB não votasse com o PSDB, estão fazendo chantagem, estão chantageando". [...] E disse o seguinte: que tinha sido convidado, inclusive, para integrar esse grupo. "Então pra gente descobrir quem está com vocês, aí, é muito fácil, porque eu já trabalhei lá". Ele contou também que trabalhou --o que facilitaria [seu trabalho]-- que já tinha trabalhado no grupo de inteligência da campanha de Fernando Henrique em 1994.

Ele disse que esse grupo do Itagiba, depois de vasculhar a vida do Aécio Neves e da Dilma e não ter encontrado nada contra, eles estavam desesperados. E disse que tem uns 500 dossiês contra o pessoal do PMDB. Essa é a verdade. Então qual era a intenção --ele falou-- "se esse pessoal [está atuando contra], nós temos que nos proteger". Mas acontece que havia problemas, e isso eu concordo com ele, sobre o direcionamento da campanha. Porque eu achei confuso. Primeiro, que daí o pessoal da reunião começou a falar que estava desconfiando de fogo amigo. Aí ele falou, "vamos investigar o [grupo do] Serra ou vamos investigar o fogo amigo?". E aí realmente não chegamos a um acordo. Eu abortei. Porque o pessoal que podia estar na casa, não podia fazer esse trabalho externo. Eram dois serviços: um era proteger a casa e outro era saber quem eram esses caras do Itagiba. Eu vou poupar o nome, mas ele chegou até a mandar um cara para conversar com o "Jardim", saber o que ele estava fazendo, deu um relatório sobre o "Jardim", tudo. [...] Então o que era o plano? Era desmontar essa base.

O empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto seria o responsável por pagar os serviços?
Eu acho que ele é um cara que coordena a casa e estaria ali para saber como que seria o pagamento, se fechasse. Tanto que ele foi para a reunião acho que para... ele foi como representante do esquema da QI [a casa no Lago Sul onde funcionava a área de imprensa da campanha de Dilma].

Qual o interesse direto dele em pagar esse custo?
Ele ia ver as planilhas de custos, avaliar os gastos, se valia a pena, como qualquer contrato empresarial. Ele é amigo de Lanzetta e era tipo um contador da casa. Ele tinha uma equipe. A maior parte do staff da casa é ligada a ele. Lanzetta pegou uma pessoa para organizar. [...] Eles são sócios. Foi lá para dar um apoio. Pepper, americanos e Lanzetta fizeram um pool para tocar a casa. Parece que ele largou um monte de contratos [no governo] para participar da campanha.
Na área empresarial, ele pegou as empresas do pai e transformou a gráfica numa das maiores do Brasil, tem um faturamento de milhões. Ele transita em vários meios e é amigo de várias pessoas. Ele e Lanzetta são amigos inseparáveis, um não faz uma coisa sem o outro. Lanzetta chamou Benedito para organizar as finanças da casa, desde o aluguel, contratação de pessoas. Mas eu estou dizendo o que eu acho, aquilo que entendi.

Haveria pagamento em dinheiro?
Não, só em contratos. Isso ficou bem claro [na reunião]. O Benedito falou bem claro que não era esse tipo de pessoa, que emitiria comprovantes de pagamento e serviços. Seria tudo declarado.

E a presença de Idalberto na reunião?
Foi ele que levou o Onézimo. Eu conheço o Idalberto há muitos anos e ele nunca pegou, nunca...

Ele foi contratado pela campanha?
Não foi contratado, não. Ia se formar esse grupo que não se formou, entendeu? [...] Eu nem cheguei a fechar contrato, foi abortado, eu não entrei na campanha. Eu fui lá para tentar desmontar um sistema de espionagem. [...] Havia espiões lá dentro [da casa]. A "Veja" mostrou fotos de todo mundo, o cartão roubado do delegado. Eu falei [para um repórter da revista] que "sua matéria é produto de roubo, de sabotagem".

Vocês chegaram a fazer uma denúncia sobre esse suposto roubo?
Eu procurei o Ministério Público Federal, um procurador da República amigo, mas fui demovido da ideia por Lanzetta, que pediu, encarecidamente, que eu não formalizasse a denúncia. Havia suspeitas sobre os próprios integrantes da casa, então como poderia ser uma denúncia contra? Eu não fiz na hora, mas agora vou entregar todos os documentos, junto com os resultados das minhas investigações, para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.

Foi o Lanzetta quem lhe convidou para a reunião?
O Lanzetta, porque ele não é da área, tem um perfil de empresário. Eu sou jornalista. Eu converso com esse povo há dez anos, como todo jornalista conversa.

Os achados que você fez para seu livro, sobre as privatizações, foram relatados a Fernando Pimentel, chegaram a conhecimento...
Não. Isso é um material que nunca passei para ele porque eu tinha feito em outra circunstância. (..) Na verdade, eles [PSDB] estão preocupados com o que eu tenho. Não é feito de espionagem, nada de grampo, nada de ilegalidade. O que importa é se o que eu tenho aqui é legal, se tem fé pública, se não tem. É isso que importa. Agora, ninguém quer saber disso, né? Ganhei mais de 30 prêmios de jornalismo e nunca fiz matéria com base em grampo telefônico. Nunca trabalhei assim.

Quando sairá o livro?
No livro eu vou contar a história desde o início. Toda essa rede de intrigas. Eu, como não tenho contrato com ninguém, posso falar de todos os lados. Tem fogo amigo dos dois lados. Vou publicar os documentos. Já estou procurando um laudo de um especialista, um tributarista com especialização em lavagem de dinheiro, para dar um parecer sobre todos os documentos. Vou entregar tudo para a Polícia Federal. Vou até o fim.

Figurinhas do álbum. Os amiguinhos do Zezinho – pacotinho n. 5 – por Tia Carmela e o Zezinho

http://byebyeserra.wordpress.com/2010/06/03/figurinhas-pacotinho-n-5/

A vez do café - por Andréia Lopes (A Gazeta)

Já vimos por aqui um presidente da Assembleia Legislativa preso e um governador do Estado que quase acabou cassado. O Poder Judiciário também foi parar no banco dos réus com a Operação Naufrágio, e os atos do Tribunal de Contas já foram colocados em xeque num passado recente, no esquema que ficou conhecido como Beija-Flor. Agora parte da nata da sociedade capixaba, empresários que construíram fortunas trabalhando com o produto que é o principal da nossa economia – o café –, se vê envolvida num esquema de corrupção. Sim, porque sonegar impostos também é uma forma de corrupção.

Em outras palavras, a mesma (alta) sociedade que muitas vezes reclama da política e de suas mazelas se vê ligada a empresas laranjas fictícias que atuam como intermediárias entre o comprador de café e o exportador. Um modelo com o disfarce legal, mas que, segundo as investigações, foi construído para ganhar créditos tributários – em outras palavras, uma forma de ganhar mais dinheiro.

Segundo o que foi apurado pela Receita, Polícia e Ministério Público Federal, essas empresas laranjas existiam exclusivamente para vender notas fiscais para a geração de crédito de PIS e Cofins, que proporcionavam um total de 9,25% para os verdadeiros beneficiários do esquema – que seriam os grandes grupos econômicos de café.

Foram centenas de depoimentos tomados e meia dúzia de caixas de um inquérito que, agora que a Operação Broca foi deflagrada, vai ganhar um volume muito maior. Fora o manual da fraude ensinando a fugir da ação da Receita Federal, há, segundo autoridades envolvidas nas investigações, gravações e documentos que sugerem que os empresários ou apostavam num risco calculado ou na certeza da impunidade.

A prática parecia ser encarada de forma tão comum que provavelmente ninguém imaginava que o setor de café quase inteiro seria preso, que os maiores contribuintes de ICMS do Estado seriam apontados como laranjas e que as maiores e mais importantes empresas de torrefação local seriam enquadradas. É claro que todos terão a oportunidade de se defender – e o principal argumento dos grandes grupos é o de que toda a documentação das empresas laranjas, inclusive o CNPJ, estava em dia, o que dificultava a identificação de irregularidades –, mas a Operação Broca aparece como mais um exemplo de que não existem intocáveis, de que poder ou dinheiro não blindam ou livram ninguém da possibilidade de ir para a prisão – ainda que temporariamente. Permite refletir também que a política é um reflexo do que temos na sociedade – ou em parte dela.

Segundo fontes que têm ligação direta com a investigação, em alguns casos chegava-se a ganhar mais com o crédito fictício do que com a venda do café. Curioso é que, ao longo de dois anos e meio de apuração, as empresas laranjas que vendiam notas fiscais aparentemente não se intimidaram. Teria havido até uma tentativa de sofisticar o esquema para burlar ainda mais a Receita: se antes era um intermediário, criou-se mais um, dificultando a fiscalização.

De acordo com o que foi apurado, em alguns casos há indícios de que grandes empresas estimulavam a formação das empresas laranjas. Algumas, inclusive, eram comandadas por ex-funcionários desses grupos, segundo fontes ligadas às investigações. Consta ainda que os corretores se utilizavam abertamente do termo laranja (e similares) para se referir a um negócio irregular, mas que era tratado com naturalidade. A responsabilidade direta dos grandes empresários sobre os intermediários é uma tese que o MPF vai se dedicar a provar.

Ainda que a legislação em vigor tenha brechas e que mereça um debate sobre a necessidade de mudança, isso não isenta ninguém de responsabilidades. É verdade também que a carga tributária é pesadíssima e que há estudos que apontam que, quanto maior o tributo, maior a sonegação. No caso do café, a legislação que passou a valer a partir de 2003 deveria corrigir distorções. Mas, como disse o cientista político Bolívar Lamounier em recente entrevista ao Estadão , “o Brasil é essencialmente corrupto”: “Se fôssemos punir, segundo o que manda a lei, toda a corrupção que há no país teríamos que pôr na cadeia metade da população”. Operações como a que foi realizada terça-feira ajudam na profilaxia.

Sem mistério – por Delfim Netto (CartaCapital)

Os brasileiros trabalharam e voltaram a acreditar que é possível estimular o crescimento sem perder de vista os objetivos de justiça social


Em seu segundo mandato, com o andamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – o presidente Lula começou a devolver ao País a ideia do desenvolvimento. O Brasil vinha manquitolando há 20 anos, a economia patinava e os brasileiros pareciam ter perdido a crença na possibilidade de voltar a crescer de forma robusta e mais rapidamente.

Depois de enfrentar o sufoco de inesperados problemas políticos em seu primeiro período de governo e afastar o risco de uma recidiva inflacionária herdada do antecessor, ele interpretou corretamente o recado das urnas ao ser reeleito: a sociedade queria o desenvolvimento com mais justiça social.

Ao lançar o PAC, Lula reacendeu o ânimo do crescimento, mobilizou os empresários, estimulou os bancos oficiais a darem suporte aos investimentos privados, conseguiu reanimar o espírito animal do empresariado, que logo voltou a tocar os projetos, a aumentar a produção e criar empregos.
Muitas pessoas parecem bastante surpresas com o fato de estarmos hoje crescendo à taxa anual próxima de 6%, como se fosse um novo milagre, lembrando o crescimento dos anos 70 do século XX, quando na verdade o PIB cresceu 10% durante vários anos por conta de fatores bem reais que nada tinham a ver com o sobrenatural.

Da mesma forma que naquele período, o crescimento atual é fruto do trabalho dos brasileiros, que voltaram a acreditar que é possível acelerar o desenvolvimento sem perder de vista os objetivos de justiça social. O grande mérito do presidente Lula foi convencer a sociedade de que o Brasil tinha readquirido as condições para crescer vigorosamente, com inflação sob controle e melhorando a distribuição de renda. Três anos e meio depois, os dados sobre o consumo, a expansão da oferta de empregos e o aumento do salário real indicam um nível de crescimento anual do PIB provavelmente acima de 6% e não será nenhuma surpresa se esse ritmo se sustentar nos próximos anos.

Há fortes motivos para acreditar que, nessa nova fase de desenvolvimento, a economia brasileira estará bem menos ameaçada por crises internas ou externas, como aquelas que interromperam o robusto crescimento nas últimas três décadas do século XX. Nossa economia mostrou-se suficientemente sólida durante os momentos mais dramáticos da crise que abalou as finanças mundiais a partir de 2008. Mais importante é o fato de que reduzimos efetivamente os riscos de crises de energia ou de restrições de financiamento externo, graças à retomada dos projetos de geração hidrelétrica e ao bônus da natureza representado pelo petróleo do pré-sal.

Esses dois problemas interromperam o desenvolvimento brasileiro em diferentes ocasiões ao longo do século passado: as mais graves foram a crise produzida pela brutal elevação dos preços do petróleo nas décadas de 70 e 80 (o que obrigou o País a endividar-se para pagar as importações de petróleo, que correspondiam a 80% do consumo de combustível) e o inesperado apagão energético de 2001, que resultou numa queda de 2% do PIB brasileiro. Com o reinício da construção das grandes usinas hidrelétricas nas Regiões Centro-Oeste e Norte, vai se recompondo a matriz original brasileira de energia limpa, não poluente. Numa outra vertente, a extração de óleo e gás de petróleo do pré-sal consolida a autossuficiência em combustível e abre um vasto campo para investimentos na indústria petroquímica.

Devemos nos acostumar, então, com os problemas que habitualmente acompanham a aceleração do crescimento, a começar pelo fato de que desenvolvimento não significa equilíbrio. Já temos vários setores reclamando da falta de mão de obra e outros em que se generalizam as queixas quanto à situação precária da infraestrutura, especialmente o estado das rodovias e o estrangulamento dos acessos aos portos. O desenvolvimento é isso mesmo: cada problema resolvido cria mais dois para serem enfrentados mais adiante. Trata-se, portanto, de lidar com situações de desequilíbrio próprias de um processo de crescimento acelerado.

A difícil escolha do vice do pres. Zezinho – por Tia Carmela e o Zezinho

http://byebyeserra.wordpress.com/2010/06/05/a-dificil-escolha-do-vice-do-pres-zezinho/

Dilma enfrenta Serra. Dilma não é só Lula – por Paulo Henrique Amorim

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/06/07/dilma-enfrenta-serra-dilma-nao-e-so-lula/

A supremacia da ignorância – por Luiz Gonzaga Belluzzo (CartaCapital)

Os Estados Unidos invadiram o Iraque a pretexto de extinguir um arsenal de “armas de destruição em massa”. Nada assemelhado foi encontrado nos alegados esconderijos de Saddam Hussein. Agora, Tio Sam ameaça torpedear o acordo com o Irã patrocinado por Brasil e Turquia. Seja qual for o alcance do combinado, o Poder Americano insistirá na imposição de sanções.

Nada de novo sob o sol. Os ideólogos conservadores que inspiravam o governo republicano eram claros quanto aos propósitos da intervenção no Iraque. Eles falavam do que interessa: superioridade militar e controle de áreas sensíveis para a preservação do poder que se pretende absoluto.

Há tempos, o jornalista americano William Pfaff, do International Herald Tribune, afirmou que “o dinheiro desregrado não apenas dirige o resultado das eleições americanas, mas influencia as decisões do Congresso e as atitudes da Casa Branca, em matérias tão improváveis como a luta contra o tráfico de drogas na América Latina”. Pfaff, um ícone do jornalismo mundial e crítico duro das ações de seu país, antecipou com grande precisão como seria o desempenho dos republicanos no governo. Resta saber o que pensa o insigne jornalista dos democratas sob a presidência de Obama.

As transgressões aos direitos dos povos continuam a ser executadas com persistência, mas hoje edulcoradas com a preocupação de invocar – apenas invocar – a chamada comunidade internacional para justificar as tropelias. Agora, sob o acicate da crise, a razão imperial precisa, mais do que nunca, manter o demônio (qualquer demônio) vivo para impor as razões de sua divindade.

Para tanto, os processos de informação e de formação da consciência política e coletiva, ou seja, os espaços da autonomia individual estão permanentemente subjugados à lógica econômica e política de uma ordem imperial que deslocou a hegemonia do imediato pós-guerra para adotar o exercício puro e duro de seu poder. Na ordem americana, o nomos da terra significa a exigência de respeito à vontade imperial, à sua moral particularista, idiossincrática e assimétrica. O direito, dizia Hegel, enquanto existência da liberdade é uma determinação essencial na refrega contra a “boa intenção” moral. “Os protestos contra este desenvolvimento são... reminiscências do ‘estado bruto de natureza’ que revelam um apego doentio à própria particularidade, narcisisticamente desfrutada como moral”.

O narcisismo moral americano não precisa de adjetivos em sua espantosa objetividade. Está sempre preparado para qualificar os recalcitrantes e dessemelhantes como rogue States, o que significa deformar em proveito próprio o papel das instâncias integradoras no âmbito internacional. O avanço do narcisismo intervencionista americano é constitutivo de sua natureza e demonstra porque, a despeito de Woody Allen, os americanos tomam o seu país como a “utopia realizada”.

A supremacia apoiada na superioridade das armas e no despotismo da economia desregulada dispensa mediações da ordem jurídica e não quer ou não precisa compreender nada. O mundo em que tentamos sobreviver é uma prova diária da degeneração da razão ocidental, transformada e objetivada na execução desabrida dos métodos de domínio.

Os Estados Unidos, diz um dos gurus da nova direita, estão tornando o país mais parecido com ele mesmo. Uma reconciliação do fenômeno com o conceito, provavelmente a apoteose do fim da história. No fundo da alma, a nova direita tem certeza de que os processos e as instituições de negociação democrática, fora dos Estados Unidos, como a ONU, por exemplo, são geringonças inúteis. São estorvos para a consecução das políticas “corretas” isto é, aquelas que se submetem aos seus interesses e de suas empresas. Por isso é preciso coartar e controlar as instâncias de discussão pública da informação. A liberdade de opinião não é boa coisa, sobretudo quando começam a naufragar os programas econômicos e sociais recomendados pelos Senhores do Mundo como roteiros infalíveis para o sucesso.

Na família dos vulgarizadores da opinião subalterna não faltará quem pretenda acusar de "antiamericanismo” os que hoje dão nome e apelido aos episódios de reafirmação do poder imperial americano. Tratar assim uma questão tão grave e decisiva para o futuro da vida decente neste planeta é uma forma tosca de “misturar estação” com o propósito de interditar o exame crítico de qualquer processo político. Isso desfigura o debate racional sobre os conflitos contemporâneos, transfigurado numa guerra de preconceitos travada nos esgotos da alma humana.

domingo, 6 de junho de 2010

UDN publica anúncio para contratar vice para o Pres. Zezinho – por Tia Carmela e o Zezinho

http://byebyeserra.wordpress.com/2010/06/03/udn-publica-anuncio-para-contratar-vice-para-o-pres-zezinho/

Por que nós sempre escamoteamos? – por Lucas Azevedo (CartaCapital)

João Carlos Bona Garcia, um ex-militante da esquerda armada que virou juiz do tribunal militar, afirma que, a exemplo do Chile e da Argentina, as Forças Armadas devem prestar contas do passado



“Claro que valeu a pena”. Assim João Carlos Bona Garcia responde à última pergunta feita no filme que narra sua vida e que, na tela do cinema, ficou sem resposta. Universitário de classe média que pegou em armas por um Brasil socialista, assaltante de carros forte que virou diretor de banco e ex-guerrilheiro que se tornou juiz de um Tribunal Militar são alguns antagonismos que parecem ficção, mas representam o puro retrato da vida de Bona, cuja trajetória política é contada “Em Teu Nome”, de Paulo Nascimento, em cartaz em todo País desde a sexta-feira 28.

Nascido no interior do Rio Grande do Sul, Bona militou na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) após o golpe de 1964. Depois de participar de ações armadas, ser preso pelo Departamento de Ordem Política e Social e testemunhar as crueldades nos porões, foi banido para o Chile, em 1971, e trocado com outros 69 presos políticos pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Do Chile, rodou por Argentina, Argélia e França. Nessa entrevista, Bona fala do que reviveu com o filme, confirma uma traição que custou a vida quadros da VPR, entre eles o líder Onofre Pinto, e comenta o parecer do Supremo Tribunal Federal sobre o alcance da Lei da Anistia: “Não vai condenar ninguém. O pessoal daquela época já está de pijama”.

CartaCapital: O filme termina com uma pergunta que o personagem Boni, que representa o senhor, não responde. Valeu a pena toda essa trajetória de luta contra a ditadura?
Bona Garcia: É claro que valeu a pena. Se eu pudesse voltar no tempo, com a cabeça que eu tinha na época, com a vontade de transformar a sociedade, buscado a liberdade e um mundo mais socialista, é claro que eu faria tudo de novo. Era o meio que tínhamos para fazer isso. Não optamos pela luta armada, nos empurraram para ela. Não tínhamos outro caminho a seguir.

CC: Ao ver a atuação do ator Marcos Paulo no filme, que interpretou o chefe do Dops gaúcho, delegado Pedro Seelig, conhecido como “Fleury dos Pampas”, não brota no senhor um sentimento de falta de Justiça?
BG: Claro que sim. Mas, como disse no final do filme, se me perguntarem se eu mudaria de calçada ao ver um torturador hoje em dia, eu digo que não. Apesar de achar que os torturadores são pessoas com patologias sérias, acredito que chega um determinado momento em que eles devem fazer uma revisão de seus atos e se sentirem envergonhados. Acho que eles estão purgando todo esse período.

CC: Não é uma ironia um “ex-expropriador” virar diretor de um banco estatal?
BG: Claro que sim. Na época em que assumi a diretoria do Banrisul (1996) isso foi muito questionado. Mas prova que houve Anistia, nós voltamos e somos cidadãos de plenos direitos. Eu tenho um lado técnico. Estudei Economia (na Universidade de Sorbonne, durante o exílio na França) e aprendi o funcionamento de um banco. Assumi o cargo e também acabei sendo eleito presidente do sindicato dos bancos do Rio Grande do Sul. Mas sempre levei as coisas de uma maneira muito clara. Nunca escondi nem abri mão do meu passado e sempre tive orgulho dele. Quando ingressei no Tribunal Militar, por exemplo, tive que derrubar mandado de segurança, porque não queriam que eu assumisse. Mas depois, com o tempo, tudo acabou bem.

CC: Como um ex-guerrilheiro acabou se tornando um juiz do Tribunal Militar?
BG: É o primeiro e único caso no Brasil, e acho que permanecerá sendo o único. Em 1998, fui convidado pelo então governador Antonio Britto e acabei nomeado como juiz do Tribunal Militar. Para mim foi uma surpresa, mas pensei: “é uma instituição pública e estamos em uma democracia. Por que não assumir?”. Foi uma experiência maravilhosa, em que aprendi e ensinei muito.

CC: O senhor é uma testemunha histórica de um fato marcante nos anos de chumbo, a suposta entrega de guerrilheiros aos militares pelo sargento Alberi Vieira dos Santos, um dos homens de Leonel Brizola em 1961. O sargento Alberi realmente mudou de lado?
BG: Acho que sim. Ele me procurou na Argentina, em 1974, tentando fazer de tudo para me dar documentos para eu voltar ao Brasil. Não gostei. Senti que tinha algo errado. Marcamos um encontro no centro de Buenos Aires e vi que era uma armadilha. Nesse momento surgiu a idéia de eu sair de lá. Com o auxílio do (ex-governador de Pernambuco e dirigente do Partido Socialista Brasileiro) Miguel Arraes, cheguei até a Argélia. As pessoas que saíram da Argentina com o Alberi foram todas mortas. Eram do grupo do Onofre Pinto, da VPR, que também acabou morto. Não tenho dúvida de que o Alberi era um agente. E acabou morto. O que, para mim, foi queima de arquivo.

CC: Qual sua opinião sobre a revisão do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos?
BG: Acho que não há problema nenhum em abrir e efetivar a Comissão da Verdade. Inclusive citar os nomes de quem participou dessas atrocidades. O presidente Lula faz um pouco como fez Getúlio Vargas, que contrabalançava as pressões. Às vezes a balança pendia para um lado, e pela forte reação do outro, que estava em cima, a balança voltava a pender. Acredito que as instituições possuem a obrigação de abrir os arquivos. O povo tem direito à sua memória, a conhecer toda a sua história e o seu passado. Isso foi tolhido.

CC: Como um dos responsáveis pelo comitê da Anistia na França, em 1977, o que o senhor achou da recente decisão do Supremo que manteve a lei intacta?
BG: Fui muito grato à Lei da Anistia porque, por causa dela, voltei ao Brasil. Mas essa discussão que chegou ao Supremo Tribunal Federal, do ponto de vista jurídico, não podemos contestar o seu parecer, o qual diz que a Anistia foi ampla, geral e irrestrita, pegando todo mundo. Mas acho que, para o País virar essa página tão triste e sofrida, a lei teria que ser revista.

CC: A revisão da lei botaria alguém na cadeia?
BG: Isso não vai condenar ninguém. O pessoal daquela época já está de pijama, são pessoas de mais idade. Mas seria importante para as próprias Forças Armadas e para as polícias civis e militares rever suas participações e assumirem suas parcelas de erros para que o Brasil possa seguir adiante. As Forças Armadas, que eu sempre defendi, são uma instituição que prestou serviços relevantes ao País desde o seu início, mas que tropeçou em determinados momentos, cometendo crimes em nome do Estado. Seria mais tranqüilo assumirem seus erros, assim como a Argentina e o Chile fizeram e o Uruguai está fazendo. Por que nós aqui sempre escamoteamos?

sábado, 5 de junho de 2010

Reviravolta: Onézimo de Souza, da revista Veja, é da turma de arapongagem de Serra e Itagiba desde o Ministério da Saúde - por Os Amigos do presidente

Reviravolta: Onézimo de Souza, da revista Veja, é da turma de arapongagem de Serra e Itagiba desde o Ministério da Saúde - por Os Amigos do presidente Lula

http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com/2010/06/reviravolta-onezimo-de-souza-da-revista.html

Comentário meu:

A farsa está desmascarada.

Numa reunião realizada no hotel Fritz em que estavam presentes o jornalista e consultor da campanha de Dilma Luiz Lanzeta, o empresário Benedito de Oliveira (levado por Lanzeta para servir como testemunha), o jornalista Amaury Ribeiro Jr., renomado jornalista ganhador de diversos prêmios, autor de um ainda inacabado livro sobre o tenebroso processo de privatizações e suas ligações com o submundo tucano. Além destes, na reunião foram dois membros tucanos para a reunião, o delegado da polícia federal Onézimo e o sargento da reserva e ex-agente do serviço secreto militar Idalberto Araújo, o Dada. Estes dois últimos foram oferecer a espionagem de Itagiba, que supostamente estaria investigando ilegalmente diversos candidatos da base aliada.

Na verdade, eles eram agentes a mando do notório Marcelo "Lunus" Itagiba, doidos que os petistas aceitassem, para acusá-los, mais a frente, de espionagem, crime eleitoral, etc.

Só que os petistas não aceitaram a ilegal oferta. Agora, Onézimo, notoriamente ligado a Itagiba acusa a verdade, ao detratar os petistas. Era na verdade um contraespião.

Ficou cristalino os interesses da jogada: a estratégia de arrebentar com a campanha petista já que, pelos feitos, pela moral, pelo legado, pela eficiência no trato público, é certa a eleição de Dilma.

A única coisa com a qual a campanha da direita pode contar é algum escândalo.

Na verdade, neste caso, o feitiço voltou contra o feiticeiro. O escândalo foi a tentativa de comprometimento de uma campanha e uma candidata honestas.

Mais uma de Marcelo "Lunus" Itagiba.

¿Até quando este bandido permanecerá incólume?

O dossiê do dossiê do dossiê... – por Leandro Fortes (CartaCapital)

No modorrento feriado de Corpus Christi, os leitores dos jornais foram inundados com informações sobre uma trama que envolveria a fabricação de dossiês contra o candidato tucano à Presidência, José Serra, produzidos por gente ligada ao comitê da adversária Dilma Rousseff. O time de espiões teria sido montado pelo jornalista Luiz Lanzetta, dono da agência Lanza, responsável pela contratação de funcionários para a área de comunicação da campanha petista. O primeiro desses documentos seria um relatório sobre as ligações de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB, com Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. Uma história tão antiga quanto os dinossauros e já relatada inúmeras vezes na última década, inclusive por CartaCapital.

A notícia sobre o suposto dossiê, que ninguém sabe dizer se existe de fato, veio a público em uma reportagem confusa da revista Veja e ganhou lentamente as páginas dos jornais durante a semana até ser brindada com uma forte reação do PSDB e de Serra. Na quarta-feira 2, o pré-candidato tucano acusou Dilma Rousseff de estar por trás da “baixaria” e cobrou explicações. A petista disse que a acusação era uma “falsidade” e o presidente do partido, José Eduardo Dutra, informou que a cúpula da legenda havia decidido interpelar Serra na Justiça por conta das declarações.

Os boatos sobre a fábrica de dossiês parecem ser fruto de uma disputa interna entre dois grupos petistas interessados em comandar a estrutura de comunicação da campanha de Dilma Rousseff, um ligado a Lanzetta, outro ao deputado estadual Rui Falcão. A origem dessa confusão era, porém, desconhecida do público, até agora. CartaCapital teve acesso a parte do tal “dossiê” que gerou toda essa especulação. Trata-se, na verdade, de um livro ainda não publicado com 14 capítulos intitulado Os Porões da Privataria, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

O livro descreve com minúcias o que seria a participação de Serra e aliados tucanos nos bastidores das privatizações durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. É um arrazoado cujo conteúdo seria particularmente constrangedor para o pré-candidato e outros tantos tucanos poderosos dos anos FHC. Entre os investigados por Ribeiro Jr. estão também três parentes de Serra: a filha Verônica, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Está sendo produzido há cerca de dois anos e nada tem a ver com a suposta intenção petista de fabricar acusações contra o adversário.

É essa a origem das informações sobre a existência do tal “dossiê” contra a filha de Serra. E a razão de os tucanos terem lançado um ataque preventivo às informações que constam do livro. De fato, Ribeiro Jr. dedicou-se a apurar os negócios de Verônica. Repórter experiente com passagens em várias redações da imprensa brasileira, Ribeiro Jr. iniciou as apurações a pedido do seu último empregador, o Grupo Diários Associados, que congrega, entre outros, os jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. O livro narra, por exemplo, supostos benefícios obtidos por Marin Preciado em instituições financeiras públicas, entre elas o Banco do Brasil, na época em que outro ex-tesoureiro de Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira, trabalhava lá. Para quem não se lembra, Oliveira ficou famoso após a divulgação de sua famosa frase “no limite da irresponsabilidade” no conjunto dos grampos do BNDES.

Em uma entrevista que será usada como peça de divulgação do livro e à qual CartaCapital teve acesso, Ribeiro Jr. afirma que a investigação que desaguou no livro começou há dois anos. À época, explica, havia uma movimentação, atribuída ao deputado Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), visceralmente ligado a Serra, para usar arapongas e investigar a vida do governador tucano Aécio Neves, de Minas Gerais. Justamente quando Aécio disputava a indicação como candidato à Presidência pelos tucanos. “O interesse suposto seria o de flagrar o adversário de Serra em situações escabrosas ou escândalos para tirá-lo do páreo”, diz o jornalista. “Entrei em campo, pelo outro lado, para averiguar o lado mais sombrio das privatizações, propinas, lavagem de dinheiro e sumiço de dinheiro público.”

A ligação feita entre o nome de Ribeiro Jr. e o anunciado esquema de espionagem do comitê de Dilma deveu-se a um encontro entre ele e Lanzetta, em Brasília, no qual se especulou sobre sua contratação para a equipe de comunicação da campanha petista. Vencedor de três prêmios Esso e quatro prêmios Vladimir Herzog, entre muitos outros, Ribeiro Jr., 47 anos, é conhecido por desencavar boas histórias. Herdeiro de uma pizzaria e uma fazenda em Campo Grande (MS) e ocupado com a finalização do livro, o jornalista recusou o convite.

Na entrevista de divulgação do livro, Ribeiro Jr. afirma que a obra estabelece a ligação de diversos tucanos com as privatizações e desnuda inúmeras ações com empresas offshore para fazer entrar no Brasil dinheiro oriundo de paraísos fiscais. “São operações complicadas e necessitam ser explicadas com cuidado para os brasileiros perceberem o quanto foram lesados e em quanto mais poderão ser.”

A aproximação entre Ribeiro Jr. e Lanzetta, contudo, teria sido suficiente para que grupos interessados em ganhar espaço na campanha petista desencadeassem uma onda de boatos sobre a formação de um time de contraespionagem para produzir dossiês contra os tucanos. Diante do precedente dos “aloprados” do PT, a mídia embarcou com entusiasmo na versão depois assumida com tanto vigor pelos próceres tucanos. É mais um não fato da campanha.

O mesmo fenômeno envolveu o ex--delegado federal Onésimo de Souza, especialista em contraespionagem que chegou a oferecer serviços ao PT de vigilância e rastreamento de escutas telefônicas. Como cobrou caro demais, acabou descartado, mas foi apontado como futuro integrante da tal equipe de arapongas de Dilma Rousseff.

Por ordem da pré-candidata, qualquer assunto relativo a dossiê e afins está proibido no comitê de campanha instalado numa casa do Lago Sul de Brasília. Dilma se diz “estarrecida” com as acusações veiculadas, primeiro, na revista Veja e, em seguida, por diversos outros veículos - sempre com foco na suposta espionagem, nunca no conteúdo do suposto dossiê. Aos auxiliares, a petista mandou avisar que não aceitará, “em hipótese alguma”, a confecção de dossiês durante a campanha e demitirá sumariamente quem se envolver com tal expediente.

O jogo de manipulações em torno do suposto dossiê – por Luis Nassif

Da Folha
Papéis mencionam auxiliares e familiares de tucano



Os papéis que circularam pelo comando da campanha de Dilma Rousseff (PT), tratados oficialmente por sua equipe como algo alheio à candidata e pelos tucanos como obra dela, tratam de transações financeiras que envolvem antigos colaboradores e familiares de José Serra (PSDB).
A Folha teve acesso a dois conjuntos de papéis. Um cita dados da CPI do Banestado (2003-2004), e o outro é sobre negócios atribuídos à filha de Serra, Verônica.

Os papéis da CPI relatam operações financeiras registradas entre 1997 e 2001 em nome de empresas que pertenciam ou pertenceram a Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-arrecadador informal da campanha de Serra ao Senado, em 1994, e ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil no governo FHC.

Oliveira deixou o cargo no BB em 1998, após o escândalo dos grampos no BNDES.
Os papéis também relatam movimentações financeiras do empresário Gregorio Marin Preciado, casado com uma prima do presidenciável e sócio de Serra até 1995 em um imóvel.

O principal papel do conjunto é um relatório datado de 2004, assinado pelo relator da CPI, o deputado federal José Mentor (PT-SP).

O relatório foi enviado pela CPI à Justiça de São Paulo num processo movido em 2002 por Ricardo Sérgio contra a "IstoÉ", que havia citado os dados. A revista pediu ao juiz do caso que fosse possível buscar os documentos guardados pela CPI.

No relatório, Mentor descreveu que a CPI detectou operações de até US$ 2,7 milhões entre uma empresa então ligada a Ricardo Sérgio, a Consultatum, e uma "offshore", por meio de operações de remessas de dinheiro que fugiam às regras do BC.

O relatório de Mentor também transcreve remessas totais de US$ 410 mil de uma empresa com interesses no setor telefônico brasileiro.

Sobre os negócios de Verônica, a Folha manuseou, mas não obteve cópia dos papéis nem conseguiu verificar sua autenticidade. Eles tratam de operações contábeis feitas por empresa ligada a Verônica e seu marido.


Comentário
Nem vou discutir a veracidade ou não do chamado dossiê. Mas esse conteúdo que a Folha menciona faz parte do livro do repórter Amaury Ribeiro Jr. Ontem, depois de colocar a nota recebi email com o prefácio e mais um capítulo do livro. Está tudo lá. Decidi não publicar inclusive devido à complexidade do tema, que exige muito cuidado na análise dos dados e nas conclusões. Mas é evidente que o conteúdo mencionado pelo jornal faz parte do livro do Amaury, cujas investigações - incluindo viagens ao exterior - foram bancadas pelo jornal O Estado de Minas.
Assim como no episódio da "ditabranda" e das "fichas de Dilma" a Folha vai ficar enrolando, acumulando desgaste à toa, para ter que dar o braço a torcer mais à frente.

Hoje em dia qualquer grande empresa tem uma estratégia de administração de crise de imagem, devido à própria falta de discernimento dos jornais, de não ter critério para separar denúncias efetivas de factóides. As únicas empresas totalmente desaparelhadas para suas crises de imagem são os próprios jornais.

Os riscos da governança global - por Assis Moreira (Valor econômico)

Há dois anos, o National Intelligence Council (NIC) dos EUA publicou o relatório "Tendências Globais 2025", incluindo cenário no qual o Brasil atua como mediador em situações de crise no Oriente Médio e na Ásia para "ajudar a reconstituir o tecido internacional", num desempenho diplomático "que os EUA não podiam igualar naquelas circunstâncias". A realidade chegou antes do que imaginava o centro de estudos dos serviços de inteligência americano. O Brasil e a Turquia, ao negociarem no Irã acordo sobre a questão nuclear, irromperam no clube dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, espécie de diretório político do planeta, e escancararam as insuficiências da velha governança mundial, nascida após a Segunda Guerra.

O Brasil é um ator incontornável nas negociações comerciais e de combate à mudança climática, por exemplo. O país não é suficiente para fechar um acordo, mas sem ele tampouco há decisão. Na parte política, sua influência é mais limitada. É o único dos Bric que não tem poder nuclear, por exemplo, e é obrigado a jogar com o "soft power", o poder que nasce do exemplo, da liderança moral e cultural.

O acordo com Teerã despertou a atenção internacional por ser a primeira vez que atores médios têm ação em tema estratégico, de proliferação nuclear. Não produziu todo o efeito, como ficou claro na reação dos EUA. Mas foi recebido na Europa, pelo menos, como o primeiro ensaio da nova época que será este século, na avaliação de Thierry de Montbrial, diretor do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri). Ou como a "prefiguração do fim do monopólio político das grandes potências", conforme outro analista, Bernard Guetta.
Reuters

"A crise econômica foi um divisor de águas da história e vemos com clareza que o mundo está se configurando de maneira diferente", observa Felipe González, ex-presidente espanhol

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu uma visibilidade maior à política externa por seu carisma e sua história pessoal. A descoberta do pré-sal aumentou a importância econômica e estratégica do país, assim como a aceleração do crescimento econômico, o impacto limitado da crise financeira, a redução da pobreza e da desigualdade. O Brasil é um dos celeiros alimentares do mundo, tem uma das últimas fronteiras agrícolas inexploradas e boa parte das reservas de água doce do planeta.

Apoiado em tudo isso, Lula recusa que novos atores na cena global sejam considerados "intrusos" pelo "clube" baseado na geopolítica de 1945, quando Roosevelt, Stalin e Churchill decidiam o destino do mundo em torno de "uma garrafa de uísque".

"Brasil, China, Índia vão ter um papel diplomático mais e mais importante e se envolver em questões extremamente sensíveis nas quais as grandes potências fracassaram, e as consequências disso serão consideráveis em 10 ou 15 anos", diz Montbrial.


"O longo período de dominação ocidental, encorajada e acelerada pelos próprios erros e comportamento irresponsável, está acabando", diz Dominique Moisi, de Harvard

Ele vê o risco de antigas fraturas Leste-Oeste e Norte-Sul serem substituídas progressivamente por uma nova fratura, apenas perceptível, entre um Oeste mais e mais defensivo e países emergentes como o Brasil e a China reivindicando seu espaço na governança global. "Estamos engajados numa corrida contra o relógio", afirma. "Na falta de uma governança adequada, a mundialização irá diretamente contra o muro."

A governança global emergiu progressivamente a partir dos entendimentos restritos no Congresso de Viena (em 1815, que redesenhou o mapa político da Europa depois da derrota da França napoleônica); em Paris (em 1856, com os princípios do direito marítimo); Berlim (em 1884, com a partilha imperial da África e outras disposições colonialistas); Versalhes (em 1919, imposição de reparações à Alemanha e criação de novos Estados na Europa); e a conferência de San Francisco (em 1945, que criou a ONU).

A "boa notícia", afirma Lamy, diretor-geral da OMC, é que a pior crise econômica e financeira dos últimos tempos acelera a nova arquitetura da governança global

Como diz o diplomata e sociólogo Paulo Roberto de Almeida, o conceito de governança (e não governo) global tem a ver com a gestão partilhada de problemas comuns, como segurança e estabilidade (o controle de Estados belicosos e de movimentos terroristas), com o crescimento sustentado de países pobres (Estados falidos podem exportar a sua miséria) e com a preservação ambiental (desequilíbrios provocados pelo homem têm impacto profundo no futuro das sociedades). As crises resultantes da má gestão financeira também podem ter efeitos globais desastrosos, como a iniciada nos EUA em 2008, que afetou o mundo todo.

Na prática, porém, as autoridades nacionais cuidam dos próprios problemas e adotam políticas que empurram as crises para os demais. "É o que ocorre com práticas como o protecionismo dos ricos, a recusa de ceder espaço a novos competidores, a incapacidade ou a falta de vontade de empreender ações corretivas nos planos ambiental, criminal (tráfico de drogas ou de pessoas, por exemplo) e em outras áreas com possível impacto extrafronteiras", diz Almeida.

Analistas concordam que grandes reformas da governança mundial só ocorrem mesmo como resultado de guerras globais ou outras grandes turbulências culturais ou desastres humanos. A agenda internacional está pesada, pelos fracassos da negociação comercial conhecida como Rodada Doha, pelo impasse no acordo do clima, pela ausência de progressos práticos no G-20 financeiro. Tudo isso reflete a mediocridade das lideranças políticas com intensos lobbies internos que impedem reformas. E não apenas na Europa. Quanto ao Brasil, dizem que seus problemas não têm a ver essencialmente com o sistema internacional, todos são "made in Brazil".

A "boa notícia", afirma Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), é que a pior crise econômica e financeira dos últimos tempos acelera a nova arquitetura da governança global, na qual ele vê um "triângulo de coerência". De um lado, o G-20, grupo das 20 maiores nações representando mais de 80% da produção mundial, dá a liderança política. De outro, as organizações internacionais fornecem a especialização, negociam as regras, políticas ou programas. E o terceiro lado do triângulo é a ONU, como foro para "accountability" - prestar contas pelo que cada um faz.

No longo prazo, tanto o G-20, que se torna uma espécie de diretório econômico do planeta, como as agências internacionais, vão reportar-se ao "parlamento" das Nações Unidas. Já a reforma do Conselho de Segurança da ONU continua no impasse. A França, sem peso decisivo, acena com nova proposta, prevendo a criação de um status intermediário entre membros permanentes e não permanentes, com os novos membros sendo designados por dez anos sem direito de veto.

"A crise econômica foi um divisor de águas da história e vemos com clareza que o mundo está se configurando de maneira diferente", observa Felipe González, ex-presidente espanhol. Dominique Moisi, professor visitante da Universidade de Harvard, completa: "O longo período de dominação ocidental, encorajada e acelerada pelos próprios erros e comportamento irresponsável, está acabando".

Para Alfredo Valladão, professor do Instituto de Ciência Política de Paris, a força dos emergentes vem da globalização, da fragmentação das cadeias produtivas, de um sistema financeiro que deu crédito barato e abundante para investir em todo lugar. Nota que os EUA e a União Europeia (UE) representam dois terços do consumo final mundial e sem esse consumo e sem crédito "não tem desenvolvimento na China nem em lugar nenhum".

O Deutsche Bank estima que as economias emergentes poderão ter um crescimento acumulado de 30% até 2012, comparado a apenas 5% nos países desenvolvidos - o que vai se refletir na relação de forças.

Na média, as economias emergentes poderão crescer 4% a mais por ano do que as economias industrializadas nos próximos três a cinco anos, conforme o estudo intitulado "O Novo Mundo", assinado pela economista Maria Laura Lanzeni.

Os emergentes representarão 40% da produção mundial dentro de três anos, num salto enorme em comparação aos 25% de 2005. Segundo o Fórum Mundial de Economia, a desintegração da União Soviética, o despertar da China como usina do mundo e financiadora dos déficits americanos e as reformas econômicas na Índia representaram a inclusão de 1 bilhão de pessoas na força global de trabalho. O comércio mundial triplicou e cresce duas vezes mais que a produção, com os países em desenvolvimento representando 38% em comparação aos 23% de há 20 anos.

Como resultado do rápido crescimento e integração, as economias emergentes incluíram 400 milhões de consumidores de classe média na economia mundial. O aumento é de 70 milhões por ano, dos quais 20 milhões fora da China e Índia.

O mercado de capitais se globalizou. A média diária de transações cambiais supera US$ 4 trilhões por dia. As sociedades estão mais interconectadas pelo avanço tecnológico. O custo de três minutos de ligação telefônica dos EUA para a França caiu de US$ 4,14 em 1988 para US$ 0,06. A internet é utilizada por um quarto da população mundial de 6,7 bilhões de pessoas. Brasil, Rússia, Índia e China sozinhos têm mais de 1,3 bilhão de utilizadores de telefones celulares.

Para Valladão, Brasil, China e Índia querem ter o status de potência, mas sem aceitar a responsabilidade. "Como dependem da globalização, têm que defender a globalização. A maioria acha que está ótimo. Quem está com medo da globalização são os europeus. Mas têm que assumir responsabilidade para continuar. É aí que ficam com medo, porque se assumem responsabilidade perdem soberania."

"É fundamental fazer a diferença sobre o que era potência emergente no fim do século XIX e XX, quando na Alemanha e nos próprios EUA o poder econômico era nacional e controlado pelos governos nacionais", afirma. "Os países emergiam contra os outros ou paralelamente aos outros. Hoje, os que estão emergindo estão dentro de um sistema globalizado, dependem dos outros, não vão contra os outros. Podem até pensar que querem ir. Como estão emergindo agora, querem ser vistos como multipolares. Só que, para ser considerados assim, têm que defender esse sistema."

Já os EUA, que fazem metade das despesas militares do mundo, querem continuar a ser "o sistema". Mas seu papel de estabilizador final é posto em dúvida: o xerife é relutante e o mundo tem suspeitas. Barack Obama procura exercer nova liderança, mas quem decide mesmo é o Congresso. E este reflete o grande temor americano com perda de competitividade, queda de produtividade, transformação de economia industrial em economia de serviços. O lento declínio é doloroso. As figuras centristas do Congresso estão desaparecendo, dando lugar a parlamentares radicais e histriônicos que defendem posições particulares e ignoram soluções globais.

Ou seja, quando mais se precisa da potência para posições globais, os EUA estão cada vez mais locais. Os EUA e a UE sabem que têm que deixar espaço para os emergentes. Mas isso é menos doloroso para os europeus, que, a cada vez que se reúnem, têm de buscar compromissos. Já a administração Obama fala em multilateralismo, mas "desde que Washington convoque, distribua os papéis, decida", como nota o embaixador Rubens Ricupero. "Quando chega o momento em que o Brasil acha que pode evoluir nesse processo, os EUA não aceitam. Mas eles [EUA] estão num beco sem saída."

A China já tem comportamento de potência, considerando os grupos e foros internacionais apenas instrumento. Quer se aproveitar de uma soberania substancial. A Índia está mais focada no regional, com seu status nuclear consolidado pelo pacto com os EUA.

Para outros analistas, Brasil, China e Índia se movem pelos mesmos critérios que se moviam os EUA e a UE, e não se pode esperar que sejam mais generosos do que foram as potências. Negociadores europeus dizem que, no G-20 financeiro, o Brasil sempre busca um maneira de encontrar solução. O país também assumiu responsabilidades no Haiti, comandando as operações de paz da ONU. E, quando assume responsabilidade, assume riscos. O que não pode é achar que não vai ser cobrado e dar trombadas, diz um experiente diplomata. Referindo-se à fricção com os EUA sobre o Irã, alerta que, quando se dá uma trombada, é preciso preparar-se para receber outra de volta no jogo duro das relações internacionais.

Além disso, nota Valladão, quando se sai pelo mundo, "é ingenuidade" achar que só vale a realpolitik e os valores não devem entrar nas relações internacionais. Ou seja, valores são também influentes em definir os interesses políticos. Estes não são definidos no vazio, estejamos ou não cientes disso.

Outro ponto é consolidar sua potência regional. Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil do King's College, da Universidade de Londres, fez uma palestra no Instituto Real de Defesa, da Inglaterra, em meio a certo ceticismo sobre o acordo do Brasil e Irã e indagações sobre a falta de mediação brasileira em algumas tensões sul-americanas, como entre Venezuela e Colômbia ou Argentina e Uruguai. O incontestável, em todo caso, é que na conjuntura atual o Brasil só tem a avançar seu papel na cena internacional "com as cobranças para assumir mais responsabilidades".

Os ataques da Folha – por Luis Nassif

A iniciativa de colocar na Folha um debate pelo Twitter entre Sérgio Guerra e José Eduardo Dutra visou exclusivamente dar visibilidade a uma tentativa de Guerra de me desqualificar. Ataque gratuito da Folha, na mesma matéria que endossa as revelações que fiz aqui no Blog.
A decisão foi da editora de Política Vera Magalhães, depois de críticas que fiz ao fato de sua editoria esconder o nome do repórter e do livro que serviu de base para o factóide do dossiê. Vera foi obrigada a aceitar a reportagem que veio de Brasília, mas resolveu dar o troco com esse ataque.
Não apenas isso. No episódio da matéria do meu contrato com a TV Brasil, deixou de lado apurações de repórteres mostrando que o processo de contratação era idêntico ao da TV Cultura.
Teve participação em outro episódio que expôs inutilmente a Folha: as supostas declarações de Dilma contra os que se exilaram, no comício de São Bernardo do Campo. A candidata não disse aquilo e a reportagem enviada não mencionava nada. A modificação do texto - com a inclusão da declaração falsa - foi feita na redação.
Nesse tempo todo, tenho sido bastante crítico do jornalismo da Folha - como fui, aliás, no tempo em que era colunista do jornal. Sempre mereci um tratamento respeitoso de todos os colegas - inclusive de muitos criticados - porque sabem que as críticas se restringem ao campo jornalístico.
A editora Vera Magalhães, no entanto, decidiu ser mais realista que o rei.
Se a Folha tivesse o bom hábito de ouvir os repórteres sobre o papel de determinados editores, evitaria uma grande quantidade de episódios desabonadores. O desgaste dessas iniciativas quase nunca é do editor, que se esconde atrás do jornal. É do próprio jornal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Livro desnuda a relação de Serra com Dantas. É por isso que Serra se aloprou – por Paulo Henrique Amorim

http://www.conversaafiada.com.br/pig/2010/06/04/livro-desnuda-a-relacao-de-serra-com-dantas-e-por-isso-que-serra-se-aloprou/

Serra, Dantas e a fábula do Ali Babá – por Paulo Henrique Amorim

http://www.conversaafiada.com.br/politica/2010/06/04/serra-dantas-e-a-fabula-do-ali-baba/

Jornalista de Serra, ‘o retórico’, ataca Folha, ‘a anêmica’ - Por Bernardo Joffily (Vermelho)

O editorial da Folha (de sábado, 29) de fato deve ter ficado entalado na já castigada garganta do ex-governador paulista. Faz que fala dos "três principais candidatos à Presidência", mas não oculta que o seu problema é com Serra.

O texto lastima de que, passado um mês, nem o tucano, nem Dilma e nem mesmo Marina responderam a um questionário da Folha sobre temas programáticos na área "de costumes". Acusa a campanha de não travar "um debate sério" sobre questões de programa. E aí vai para cima de Serra:
"O que tem surgido [...] pertence à ordem do deslize retórico, do subentendido infeliz e do ataque velado - de que são mostra os pronunciamentos de José Serra sobre a autonomia do Banco Central ou sobre a produção de cocaína na Bolívia" (!).

Nem a saudosa Velhinha de Taubaté duvidaria do compromisso tucanófilo do principal órgão dos Frias. O que chama atenção, portanto, é a estridência do editorial, essencialmente contra, logo quem, José Serra...

A primeira explicação que vem à mente é que o bloco demo-tucano-midiático está à beira de um ataque de nervos com a queda de seu candidato nas pesquisas. E por isso passa a lavar sua roupa suja em público. Faz sentido.

Mas, sem prejuizo desta hipótese, há outra que também se sustenta: a mídia dominante não se contenta em funcionar como partido político, conforme ficou solidamente demonstrado no debate do último dia 14 que lançou Centro de Estudos da Mídia Alternativa “Barão de Itararé” (veja mais em Um começo promissor para o Centro de Estudos "Barão de Itararé"). Ela se enxerga como o "Partido Mãe", em especial em questões de ideologia e programa.

Embora ande mal das pernas (que o diga a Folha, ex-campeã de vendas, no século passado), essa mídia tem uma opinião sumamente favorável de si própria. E acidamente crítica dos seus aliados, os partidos tradicionais da oposição conservadora, PSDB e DEM, que considera uns trapalhões, interesseiros e vacilantes.

Portanto, ela não hesita em puxar a orelha do seu presidenciável, quando acha que ele saiu da linha. Serra, coitado, já deve estar com as orelhas em pior estado que a garganta. O editorial da Folha não é o primeiro exemplo, nem o 11º, nem por certo será o último.

Aith e o jornalismo do "bateu, levou"

Não é menos reveladora a carta-resposta de Aith – que aliás chegou no QG de Serra este mês, vindo diretamente da redação dos Frias na Rua Barão de Limeira, onde era repórter especial há quatro anos, depois de três como editor-executivo da Veja: uma trajetória que diz tudo.

Aith parece ter aprendido, talvez com os Frias e os Civita, o jornalismo do "bateu, levou". Sua réplica, em síntese, é:
"O editorial Tabus de campanha refletiu apenas o noticiário anêmico do próprio jornal ao não registrar temas programáticos fundamentais abordados pelo ex-governador José Serra" (!).

Exemplos... de indigência de ideias

Mas, ao escolher dois exemplos desses "temas programáticos fundamentais", lançados na sexta-feira no Recife, quanto ao Bolsa Família e à Sudene, o jornalista de Serra expõe a indigência de ideias que acomete seu atual patrão. Se não, vejamos:

Sudene. Na capital de Pernambuco (onde o governo Lula tem 89% de 'bom' e 'ótimo' e Dilma Rousseff bate Serra por 53% a 24%, segundo a última pesquisa, do Vox Populi), Serra disse que ela é "um organismo fundamental para o desenvolvimento". Até prometeu que, "presidente da República, vou presidir, ao mesmo tempo, durante seis meses, a Sudene".

Ocorre que, os pernambucanos e brasileiros sabem, a "fundamental Sudene" foi extinta (!) pelo governo em que Serra participou. Em 4 maio de 2001, a medida provisória 2.146-1 "extingue a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – Sudene, e dá outras providências" (veja aqui a íntegra). Quem assinou a MP foi FHC. De seu ministro da Saúde, José Serra, não se ouviu um ai, a não ser agora, que ele precisa ciscar votos nordestinos. Foi o governo Lula que reimplantou a Sudene, em janeiro de 2007.

Bolsa Família. Serra fez o que pôde para desmentir os boatos de que os tucanos querem acabar com o programa. Anunciou uma proposta que, segundo suas palavras, era "inédita": "O garoto, o jovem, a adolescente cuja família vive do Bolsa Família vai ter uma bolsa de estudos para se manter no ensino profissional", garantiu Serra, no palanque, frio e desenxabido, que lançou seu aliado, Jarbas Vasconcelos, para o governo pernambucano

Desta vez coube a Lula responder, com agilidade, elegância e humor. Nesta terça-feira (1º), quatro dias depois da proposta "inédita" do tucano, compareceu ao Parque da Moóca, em São Paulo (!), para cerimônia de entrega de 1.592 (!!) beneficiários do Bolsa Família que fizeram cursos de qualificação profissional em construção civil, com 200 horas-aula (!!!), dentro do programa Próximo Passo, que oferece no total 172 mil vagas (!!!!) e foi criado em 2008 (!!!!!).

Folha perde oportunidade histórica

Bem vistas as coisas, a Folha e Aith, como disse o poeta, se merecem. O que não impede que seja bemvinda a ideia de ativar o debate programático nesta campanha presidencial.

A edição da Folha desta quarta, aliás, perdeu uma oportunidade histórica – na plena acepção da palavra – de fazer "um debate sério" sobre programa. Cinco das seis centrais sindicais do país reuniram-se pela primeira vez em uma 2ª Conclat (Conferência Nacional da Classe Trabalhadora). A primeira foi há 29 anos! E se reuniram, justamente para discutir um programa de desenvolvimento nacional com valorização do trabalho. O título da Folha: Centrais gastam R$ 800 mil em ato para criticar o PSDB.

Pior, mais despolitizada e "desprogramizada", só mesmo a matéria do pé da página. A reportagem deu-se ao trabalho de garimpar, entre os 30 mil líderes sindicais de todo o país presentes no estádio do Pacaembu, São Paulo, uma certa senhora Terezinha Melo, 72 anos, que disse ter vindo do Rio de Janeiro pensando que era "um passeio grátis". Belo senso de debate programático!

Ao debate, senhores!

Porém com ou sem Folha espera-se que a discussão das questões de fundo venha à tona. Na campanha presidencial passada ela demorou, mas por fim entrou em pauta, já no segundo turno; foi por conta dela que Geraldo Alckmin perdeu 2,4 milhões de votos entre os dias 1º e 29 de outubro de 2006. Desta vez, espera-se que comece o quanto antes, com os candidatos apresentando e discutindo suas plataformas.

Aí, será difícil José Serra continuar a se dizer "de esquerda" enquanto encabeça a coligação da direita moderna com a direita arcaica, representada pelo PSDB e o DEM. Aí, será fácil para o eleitor entender por que esta eleição está mais polarizada que todas as outras desde a de 1º de março de 1930. E será mais fácil ainda escolher o seu lado, entre o programa da continuidade do governo Lula e o da volta aos tempos de FHC.

Para o leitor mais curioso, reproduzo abaixo o editorial da Folha e a seguir a carta de Márcio Aith:

Tabus de campanha

Discurso dos três principais candidatos à Presidência evita tratar de diversas questões polêmicas, por pura conveniência eleitoral

Vagas para afrodescendentes nas universidades. Adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Distribuição de camisinhas nas escolas. Descriminalização das drogas. Aborto. Ampliação da licença-paternidade.

Eis uma série de temas que, longe das costumeiras discussões sobre a taxa de juros ou o papel do Mercosul, não deixam igualmente de afetar parcelas significativas da população. Exprimem, sobretudo, visões a respeito de que tipo de país se quer para o futuro. Mais liberal em termos de costumes? Ainda fiel a determinadas tradições religiosas? Particularista ou universalizante no que tange aos direitos sociais?

É certo que não compete exclusivamente ao chefe do Executivo decidir sobre temas tão diversos, nos quais se misturam convicções pessoais, políticas de Estado e polêmicas de natureza cultural.

Entende-se, ademais, que candidatos a cargos majoritários procurem antes ampliar do que restringir o universo de seus possíveis eleitores. Mas o que é inteligível, do ponto de vista de uma lógica política imediata, não deixa de ser consternador.

Há mais de um mês, a Folha dirigiu aos três principais candidatos à Presidência um questionário com dez perguntas, abordando temas como os mencionados acima. José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva, por meio de suas assessorias, alegaram falta de tempo para responder.

Não se espera, por certo, que candidatos tenham resposta pronta para toda e qualquer questão. Mas tudo faz crer que o silêncio dos candidatos se deve menos a algum tipo de indecisão de ordem pessoal, e mais a uma arraigada cultura da intransparência e do subterfúgio, especialmente notável na política brasileira.

Pode-se argumentar que, no estágio atual de desenvolvimento do país, questões mais urgentes estão na pauta. A tese não se sustenta, por vários motivos.
As mortes de mulheres em casos de aborto desassistido, por exemplo, configuram uma tragédia de grandes proporções - e não há eufemismo que exima os candidatos de considerá-la em suas implicações substantivas.

Tudo faria sentido se a campanha eleitoral tivesse a empolgá-la discussões enfáticas sobre a condução da política econômica ou as relações externas do Brasil. Nessas áreas, entretanto, o que tem surgido não assume características de um debate sério. Pertence antes à ordem do deslize retórico, do subentendido infeliz e do ataque velado - de que são mostra os pronunciamentos de José Serra sobre a autonomia do Banco Central ou sobre a produção de cocaína na Bolívia.

É que, em última análise, os candidatos parecem até agora seguir mais a estratégia dos marqueteiros, e as milimétricas variações de sua popularidade nas pesquisas, do que apresentar-se como líderes reais - isto é, capazes de assumir, para o bem ou para o mal, os riscos da clareza e do compromisso público com uma visão própria quanto ao futuro do país.

E a carta-resposta:

Serra

O editorial Tabus de campanha (Opinião, 29/5) refletiu apenas o noticiário anêmico do próprio jornal ao não registrar temas programáticos fundamentais abordados pelo ex-governador José Serra desde que lançou sua pré-candidatura à Presidência, no dia 10 de abril.

Um exemplo dessa anemia foi a não cobertura da Folha às propostas apresentadas na sexta-feira em Recife, a respeito do Bolsa Família e da Sudene. A Folha não noticia as propostas e seus editoriais criticam a falta de propostas. Publicado um dia depois de a Polícia Federal ter apreendido meia tonelada de cocaína vinda da Bolívia, o editorial ainda foi infeliz ao classificar como um "deslize retórico" a crítica de Serra à omissão do governo daquele país em controlar o tráfico da droga. Crítica essa compartilhada por nossa Polícia Federal.

Márcio Aith, assessor de comunicação da pré-campanha de José Serra (São Paulo, SP).


Comentário

Quem conhece a história de Márcio Aith sabe que não haveria "melhor" escolha do que ele para ser o assessor de Serra.
Em muitos e muitos sentidos.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O caso do suposto dossiê - por Luis Nassif

À primeira vista, não fazia lógica a história da divulgação do suposto dossiê contra a filha de José Serra, que estaria sendo armado pelo PT.

Primeiro, por ser inverossímil. Com a campanha de Dilma Rousseff em céu de brigadeiro, à troca de quê se apelaria para gestos desesperados e de alto risco, como a divulgação de dossiês contra adversários? Se a campanha estivesse em queda, talvez.

Além disso, os dados apresentados pela Veja, repercutidos pelo O Globo, eram inconsistentes. Centravam fogo em Luiz Lanzetta, que tem uma assessoria em Brasília que serve apenas para a contratação de funcionários para a campanha de Dilma – assim como Serra se vale da Insight e da FSB para suas contratações.

Serra atacou Lanzetta, inicialmente, através de parajornalistas usualmente utilizados para a divulgação de dossiês e assassinatos de reputação. Só que há tempos caíram no descrédito e os ataques caíram no vazio. Serviram apenas como aviso.

Aí, se valeu da Veja que publicou uma curiosa matéria em que dava supostos detalhes de supostas conversas sobre supostos dossiês, mas nada falava sobre o suposto conteúdo do suposto dossiê.

Até aí, é Veja. Mas os fatos continuaram estranhos.

Há tempos a revista também caiu em descrédito tal que sequer suas capas são repercutidas pelos irmãos da velha mídia. Desta vez, no entanto, entrou O Globo, inclusive expondo a filha de Serra – como suposto alvo do suposto dossiê. Depois, o próprio Serra endossando as suposições, em um gesto que, no início, poucos entenderam. A troco de quê deixaria de lado o «Serra paz e amor» para endossar algo de baixa credibilidade, em uma demonstração de desespero que tiraria totalmente o foco da campanha?

Havia peças faltando nesse quebra-cabeças. Mas os bares de Brasília já conheciam os detalhes, que acabaram suprimidos nesse festival de matérias e editoriais indignados sobre o suposto dossiê.

A história é outra.

Quando começou a disputa dentro do PSDB, pela indicação do candidato às eleições presidenciais, correram rumores de que Serra havia preparado um dossiê sobre a vida pessoal de seu adversário (no partido) Aécio Neves.

A banda mineira do PSDB resolveu se precaver. E recorreu ao Estado de Minas para que juntasse munição dissuasória contra Serra. O jornal incumbiu, então, seu jornalista Amaury Ribeiro Jr de levantar dados sobre Serra. Durante quase um ano Amaury se dedicou ao trabalho, inclusive com viagens à Europa, atrás de pistas.

Amaury é repórter experiente, farejador, que já passou pelos principais órgãos de imprensa do país. Passou pelo O Globo, pela IstoÉ, tem acesso ao mundo da polícia e é bem visto pelos colegas em Brasília.

Nesse ínterim, cessou a guerra interna no PSDB e Amaury saiu do Estado de Minas e ficou com um vasto material na mão. Passou a trabalhar, então, em um livro, que já tem 14 capítulos, segundo informações que passou a amigos em Brasília.

Quando a notícia começou a correr em Brasília, acendeu a luz amarela na campanha de Serra. Principalmente depois que correu também a informação de um encontro entre Lanzetta e Amaury. Lanzetta jura que foi apenas um encontro entre amigos, na noite de Brasília. Vá se saber. A campanha do PT sustenta que Lanzetta não tem nenhuma participação na campanha.

Seja como for, montou-se de imediato uma estratégia desesperada para esvaziar o material. Primeiro, com os ataques iniciais a Lanzetta, que poucos entenderam o motivo: era uma ameaça. Depois, com a matéria da Veja.

A revista foi atrás da história e tem, consigo, todo o conteúdo levantado por Amaury. Curiosamente, na matéria não foi mencionado nem o nome da filha de Serra, nem o do repórter Amaury Ribeiro Jr. nem o conteúdo do suposto dossiê.

O Globo repercutiu a história, dando o nome da filha de Serra, mas sem adiantar nada sobre o conteúdo das denúncias – medida jornalisticamente correta, se fosse utilizada contra todas as vítimas de dossiês; mas só agora lembraram-se disso.

Provavelmente Veja sairá neste final de semana com mais material seletivo do suposto dossiê. Mas sobre o conteúdo do livro, ninguém ousa adiantar.

Caso Lunus não morreu – Por Fernando (blog do Nassif)

Eu estou pasmo em ver onde foi parar o jornalismo imparcial e investigativo no Brasil. A Folha não aguentou nem uma semana da imparcialidade que veio junto com a nova proposta gráfica. Está de volta ao passado: um jornal a serviço do tucanato paulista. Como numa jogada planejada com o Estadão, hoje, a edição da Folha traz o mesmo editorial da família Mesquita, e ataca o sindicalimo "pelego" a serviço do presidente Lula. Nenhuma linha sobre o sindicalismo patronal pelego dos Demotucanos que faz evento em frente ao impostômetro criado pelo ex-malufista Guilherme Afif Domingos. Nenhuma linha sobre a presença do "ilustre" e "honrado" ex-governador Orestes Quercia no evento, todo sorridente ao lado de Serra.

Na cobertura "imparcial" da nossa grande imprensa nenhuma cobrança de coerência dos Demotucanos. Se são contra os impostos, porque aumentaram de maneira absurda o IPTU em São Paulo? Porque o IPVA no estado é o maior do país? Como num jogo de cartas combinado, a grande imprensa brasileira trabalha nos porões da campanha Serrista. A Veja cria o factoide, diz numa nota despretenciosa que aloprados petistas criaram um dossiê contra a filha do Serra, baseado em informações em off. Serra não perde tempo: acusa sua adversaria politica pelo suposto dossiê. Para completar o script o assunto vira manchete de primeira página, editoriais e análises dos articulistas de 'O Globo'; Estadão e Folha. E, noticia de destaque nas rádios Jovem Pan, Eldorado e CBN.

Se tudo está no condicional: um suposto dossiê, criado por supostos aloprados, caberia aos jornalões para tranformar a intriga em máteria explicar aos leitores ques tões básicas: 1 - O que a filha do Serra teria feito de tão grave para merecer um dossiê? 2 - Qual o interesse da candidatura Dilma em atacar o combalido José Serra que está em queda nas pesquisas? 3 - Quais são as evidências da existência de tal dossiê? 4 - Existe lei proibindo a feitura de dossiês, ou esse é um expediente permitido apenas aos jornalões?

O próximo capítulo deste novelão a gente já conhece. A revista Veja vai dar capa sobre o assunto, os deputados do PSDB, Democratas e PPS vão pedir uma CPI, e pronto: está criada a crise na campanha da adversária.

Se mesmo assim Dilma teimar em continuar subindo nas pesquisas existe uma carta na manga. A justiça eleitoral está pronta para ir ao extremo e cassar a candidatura petista sob alegação de campanha antecipada. A sinalização já foi dada pelo ministro Marco Aurélio Mello, quando disse que as multas dadas ao presidente Lula não são a única punição. Pode ter coisa maior. Aí a grande imprensa vai dizer que decisão judicial é pra ser cumprida. Alguém tem alguma dúvida que isso pode acontecer? A única coisa que eles não podem controlar é a reação da sociedade organizada, que não é a mesma de 64.

Bento XVI é a nova vítima dos dossiês dos aloprados - por Tia Carmela e o Zezinho

http://byebyeserra.wordpress.com/2010/06/02/bento-xvi-e-nova-vitima-dos-dossies-dos-aloprados/

Que Brasil é este dos 5% do contra? – por Ricardo Kotscho (Balaio do Kotscho)

O tema do Balaio deste domingo vale uma pesquisa em profundidade, uma tese acadêmica ou mesmo uma capa de revista: que Brasil é este dos 5%?
Entra pesquisa, sai pesquisa, eles estão sempre lá do mesmo tamanho. São os que consideram o governo Lula ruim ou péssimo. A aprovação do presidente e do governo pode variar entre 70 e 80%, conforme o instituto, os restantes ficam na categoria regular e, invariavelmente, temos os 5% de insatisfeitos com os rumos do país, tanto faz o que esteja acontecendo naquele momento de bom ou ruim.
Quem são eles, onde vivem, o que fazem, o que pensam? Já que ninguém se atreve a investigá-los, disponho-me aqui a encontrar algumas respostas sobre o perfil deste minoritário, mas sólido contingente de brasileiros que não mudam de opinião, mesmo remando contra a maré.
Mais do que um posicionamento político-partidário ou mesmo ideológico, como à primeira vista indicam as pesquisas, creio que se trata de um fenômeno psíquico, algo mais ligado aos sentimentos do que à razão, ao comportamento humano de um núcleo duro que é do contra porque é do contra, quaisquer que sejam suas motivações.
Em termos absolutos, estes 5% representam mais ou menos 9 milhões de brasileiros, o mesmo universo dos que lêem habitualmente jornais e revistas da grande mídia, o que pode representar uma primeira pista para entendermos seu pensamento.
Noto isto pelos comentários dos leitores publicados aqui no Balaio. Qualquer que seja o assunto, política, futebol, literatura, música, cinema, observações de viagem, mulheres bonitas, praias, botecos ou buracos de rua, sempre aparecem os mesmos comentaristas, escrevendo as mesmas coisas, com os mesmos argumentos: nada funciona, ninguém presta, tudo está ruim, a vida não vale a pena.
Confundem o país com o governo, a vida real com o noticiário do poder, ao reproduzir o que lêem nas manchetes e nos editoriais dos grandes veículos, nos blogs da Veja.com, nas colunas de O Globo ou ouvem dos comentaristas da CBN e da Jovem Pan. Se você fala bem de alguma coisa acontecendo no país, logo te chamam de vendido, chapa-branca, idiota.
Não importa o assunto. Nas viagens pelo Brasil que fiz nas últimas semanas, falei da minha alegria em revisitar as cidades de Teresina e Rio de Janeiro, que me encantaram por algumas características que tornam a vida dos seus moradores mais agradável, mesmo com todos os problemas de qualquer capital, grande ou pequena.
A grande maioria dos leitores destes dois lugares gostou do que escrevi, até me agradeceu por falar bem destas cidades que normalmente só aparecem no noticiário pelo lado negativo, dando-se mais destaque às suas mazelas do que aos seus encantos.
Mas lá estavam também os 5% de sempre, que me esculhambaram por elogiar a cidade onde vivem, dizendo que eu não vi nada, que a vida ali é um inferno, que não existe nada de bom, que só pensam em ir embora de lá.
Teresina é administrada pelo PSDB e, o Rio, pelo PMDB, em aliança com o PT, o que me prova não se tratar de implicância partidária, mas de um estado de espírito.
Como não posso pedir ajuda aos universitários, apelo aos leitores para que juntos encontremos outras respostas capazes de explicar que Brasil é este dos 5%. Ou será que vivemos em países diferentes?

Dez mandamentos da política externa de Israel – por André Araújo (Blog do Nassif)

1. Todo grupo, entidade, movimento, organização que tentar ajudar o povo palestino deve ser classificado como terrorista.

2. Israel não faz acordos, não cede, não transige, não negocia com qualquer proposta que considere algum direito ao povo palestino.

3. Israel não toma conhecimento de qualquer resolução condenatória da ONU, da OECD, da OTAN ou de qualquer outro organismo que se manifeste contra Israel.

4. Israel desconsidera a validade de qualquer pressão internacional sobre atos praticados pelo seu Governo e pelas Forças de Defesa de Israel.

5. Qualquer ação militar de Israel, não importa com que força ou conseqüências, deve ser considerada dentro do direito de Israel a se defender.

6. Israel não pode ser criticado pelo uso de força não importa em que proporção em relação a qualquer outro adversário.

7. O único País cuja diplomacia deve ser considerada por Israel são os EUA.

8. Israel deve declarar continuamente que é a única democracia do Oriente Médio, desconsiderando que seus sucessivos governos são resultantes de composições cada vez mais à direita e cada vez mais fundamentalistas.

9. Os interesses de Israel estão acima do Direito Internacional.

10. Os interesses de Israel estão acima dos conceitos de direitos humanos assim considerados.

O aprimoramento dos gastos públicos - por Luis Nassif

Uma das grandes discussões, no campo da gestão pública, é acerca dos modelos de avaliação de resultados dos diversos programas de governo.
Ontem, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), gravei um conjunto de programas sobre temas de políticas públicas para o portal Brasilianas.org.
Em um dos programas, sobre gastos públicos, foi possível confrontar o modelo de gestão do governo federal com o modelo de gestão aplicado em Minas Gerais.
Ambos são legítimos, têm virtudes e vulnerabilidades e não são necessariamente visões opostas sobre a questão. Mas há nuances que mostram que não existe receita do bolo, fórmulas que possam ser aplicadas genericamente a cada situação.
***
Minas Gerais focou seu projeto na avaliação de resultados. Define os vários programas para todas as secretarias, cria indicadores e sistemas de avaliação que permitem apurar resultados e determinar mudanças de rumo, caso necessário.
O modelo é facilitado pela estrutura do Estado. A maior parte dos programas são implementados diretamente pela máquina estadual nos diversos municípios e regiões.
***
Já a União trabalha com realidades muito mais complexas. Apenas o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) abarca quase 40 mil projetos distribuídos por todo o país. Além disso, em grande parte dos casos, a União define prioridades – em conversa com as demais instâncias administrativas – mas quem implementa são estados e municípios.
E aí se entra em um campo mais complexo de relações federativas.
Nos últimos anos, houve a necessidade de remontar a capacidade de preparar projetos da União, Estados e municípios. A presença do Estado é mais relevante nas áreas mais necessitadas. Por definição essas áreas são as que dispõem de menor capacidade local de responder aos estímulos federais. Se se fosse basear exclusivamente em sistemas de avaliação, os recursos acabariam concentrados nas área de melhor estrutura – justamente as menos necessitadas. O recurso aplicado em um município carente gerará menos resultados do que em um município maior. Mas sem esse recurso, jamais se conseguirá elevar o nível de municípios menores.
***
Assim, a maneira que a União atua para avaliar programas é em cima dos grandes indicadores sociais. Definem-se metas sociais (Índices de Desenvolvimento Humano) e econômicas para cada região. Monta-se uma carteira de projetos nas diversas áreas, capazes de estimular o desenvolvimento dessas áreas. Depois, monitora-se através dos grandes indicadores de saúde, educação, bem estar e de atividade econômica.
***
Em ambos os casos – Minas e União – fica a lição de que indicadores de avaliação são ferramentas que devem ser utilizados de maneira pragmática mas que não podem se sobrepor a uma visão estratégica estruturada.
Em qualquer caso, a melhor maneira de aplicar bem os recursos é garantir projetos iniciais bem estruturados e recursos orçamentários garantidos, sem a maluquice dos contingenciamentos (cortes periódicos na liberação de recursos já orçados) que marcaram a vida nacional por tantos anos.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os interesses do Império e os nossos – por Mino Carta (CartaCapital)

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Não há entidade, instituição, setor, capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do que a nossa mídia. Desta nata, creme do creme, ela é, de resto, o rosto explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa, ou melhor, galopa. Tudo muda, ainda que nem sempre a galope. No entanto, o partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho, e se arma, compacto, diante daquilo que considera risco comum. Agora, contra a continuidade de Lula por meio de Dilma.

Imaginemos o que teriam estampado os jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiáticas à fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira” Dilma, e não dele, o sequestrador?

A pergunta é cabível, conquanto Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a aderir a uma luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo. Nada disso impede que a chamem de guerrilheira, quando não terrorista. Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de fato desempenhou, mas no sequestro esteve tão envolvido a ponto de alugar o apartamento onde o sequestrado ficaria aprisionado. E com os demais implicados foi desterrado pela ditadura.

Por que não catalogá-lo, como se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo chamam os patrões de colegas.

Até que ponto o fenômeno atual repete outros tantos do passado, ou, quem sabe, acrescenta uma pedra à construção do monumento? A verificar, no decorrer do período. Vale, contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação às pesquisas eleitorais. Os números do Vox Populi e da Sensus, a exibirem, na melhor das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos, somem das manchetes para ganhar algum modesto recanto das páginas internas.

Recôndito espaço. Ao mesmo tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma política exterior independente em relação aos interesses do Império. Recomenda-se cuidado: a apelação vitoriosa ameaça vir das urnas.

A Lei Eleitoral é hipócrita. E serve ao Serra - por Paulo Henrique Amorim

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/06/01/a-lei-eleitoral-e-hipocrita-e-serve-ao-serra/

O perigo da volta do Serra que “já foi” – por Brizola Neto (Tijolaço)

O projeto que a direita brasileira traçara, cuidadosamente, para tentar retomar o poder total – porque totalmente do poder ela jamais saiu – está arruinado.

A essência deste projeto era a desinformação e o esfriamento do debate político. O desconhecimento de Dilma, o seu quase anonimato, era o seu trunfo. E, convenhamos, isso correspondia a uma realidade.

Uma realidade que prevaleceria, se dependesse apenas do processo político convencional, inclusive das estruturas partidárias que apóiam Dilma, perdidas em composições eleitorais, disputas por “cabeças de chapa” e disputas de “espaço interno”. As estruturas políticas convencionais da nossa “esquerda” estão acomodadas, sofrendo da “modorra” criada por anos de governo, de cargos, de praticar uma política que, embora diferente do ponto de vista dos seus objetivos, ia se tornando semelhante, em matéria eleitoral, à dos políticos conservadores.

Alguns fatores, porém, mudaram esta situação.

O primeiro, e mais importante deles, é que Lula nem de longe trabalhou com a tese de que seu retorno ao poder em 2014 fosse o objetivo central e, portanto, nunca adotou a posição de d’après moi le deluge (depois de mim, o dilúvio, que teria sido uma frase dita por Luís XV, rei da França). E olhem que isso não é raro com governantes populares e bem avaliados, e os mais velhos podem traçar paralelos com o que ocorreu com JK.

Ao contrário. Lula, desde o momento em que escolheu Dilma sinalizou que quem enfrentaria o processo eleitoral não seria o PT ou os partidos da base do Governo, mas ele, pessoalmente. Ele, que pela sua origem e estatura, sabe que o sucesso de seu governo deveu-se não à máquina, mas a si mesmo, quis alguém externo à máquina partidária, que não tinha como desafiá-lo e a quem não restava alternativa de, mesmo sem grande ânimo, senão aderir – para alguns com certo contragosto – à candidatura Dilma.

Tenho certeza que foi enorme o sofrimento pessoal do presidente ao sacrificar Ciro Gomes- que não apenas foi um aliado fiel como é uma figura humana cativante – em nome desta identificação única: Lula é Dilma e Dilma é Lula.

E Lula enfrentou, pra valer, o processo eleitoral. Expôs-se até ao um risco de quebra de sua “unanimidade”, jamais recolheu-se a uma falsa posição de árbitro ou de alheio ao processo, não seguiu o modelo “Bachelet” de manter-se um tanto quanto afastado da dinâmica eleitoral para que um eventual insucesso eleitoral não maculasse sua “canonização” política, o que era algo tão forte que até mesmo Serra – o prévio Serra – não hesitava em exaltar.

Ficou claro o que Lula queria deixar claro: Lula é Dilma e Dilma é Lula.

O segundo fator foi, por conta disso, a lucidez do povo brasileiro. Na sua simplicidade, soube – e está sabendo cada vez mais – ler o que dizia o presidente e corresponder a este entendimento. A adesão à candidatura Dilma espalhou-se como uma imensa hera, incontrolável, por vezes – para escândalo dos sabichões elitistas – de forma aparentemente irracional (mas, no fundo, totalmente lógica e razoável, por identificação a um momento novo na vida do país). Era “a muié do Lula”, termo que nossos “punhos de renda” desprezavam, mas que para o nosso povão, na sua sincera e genial compreensão, resumia perfeitamente o significado da candidatura que ele propunha às massas. Ah, como este nosso povo é lúcido quando os líderes se oferecem a ele como referência!

Ficou-lhe claro que Lula é Dilma e que Dilma é Lula.

O terceiro fator, menos importante do ponto de vista de massas, mas importantíssimo para que o debate formal e midiático não ficasse totalmente sob as rédeas da direita – como sempre aconteceu – foi esta nossa incipiente comunicação via web. As manobras, a parcialidade da mídia, as manipulações das pesquisas, tudo isso que sempre se fez impunemente nos processos eleitorais, de repente, viu-se sob o crivo de dezenas de milhares de olhos e suas contradições foram expostas, escritas num lugar em que centenas de milhares ou até milhões de pessoas poderiam ver.

Se a crise do capitalismo mundial abalou o mundo do pensamento único, foi aqui – e não na mídia convencional – que os outros pensamentos, as outras análises, os outros enfoques, as outras verdades encontraram o seu canal de expressão aberta, já não mais restritas aos círculos acadêmicos, partidários, corporativos.

Uma leitora, num depoimento que me comoveu profundamente, disse outro dia aqui que tinha largado as panelas do jantar de sua família para ler uma determinada análise política. Será que os nossos analistas políticos se dão conta do que vem a ser isso? Será que se dão conta do sentido sublime e genial desta participação de alguém que, para eles, é uma pessoa amorfa, conduzida de forma insciente pelo marketing?

A mudança de posição de Serra, abandonando o “lulismo”, tem dois significados.

O primeiro é que desabou a pretensão da direita de, sob mil artifícios de mídia e de pesquisas (e ambas se confundem, não é?), inaugurar a campanha eleitoral, com o “favoritismo” de Serra.
Este favoritismo seria sua legitimação. Seria sua “ligação com o povo”, que o absolveria de ser, como é, o candidato anti-povo.

Ele a perdeu. Ele está fadado a começar a campanha como o candidato das elites, do “grand-monde”, ordem interna e da obediência externa.

E isso quer dizer que seu “teto” baixou para algo como os 30% dos votos que a direita, em geral, consegue reunir em qualquer pleito eleitoral. São estes que Serra busca consolidar. Ninguém ache que o sentimento anti-Lula se resuma aos 5 ou 6% que aparecem como avaliação de “ruim e péssimo” nas pesquisas sobre seu Governo. Ele é correspondente, isso sim, aos 24 ou 26% que não são classificados como “aprovação”.

Você mesmo pode verificar entre o seu círculo de relacionamentos que os que classificam o Governo como “razoável” são, em geral, eleitores do candidato anti-Lula.

Mas não se ganha eleição com 25 a 30%.

É preciso criar uma crise que desestabilize esta tendência natural.

Econômica, seria o ideal. Mas o caminho para isso parece estar fechado pela pujança que a economia brasileira tem, neste momento e, ao que tudo indica, terá nos próximos meses.

Resta a crise institucional. E ai, já vimos que estamos diante de alguém desligado de qualquer princípio ético e moral, que é capaz de mentir, de camuflar, de esconder ou de intrigar de todas as formas.

Nosso dever, aqui nesta nossa pequena janela que lança luz sobre os fatos, é não descuidar e nunca achar que o inimigo está derrotado. Porque ele não segue as regras do jogo democrático e eleitoral.

Vamos vencer, sim. Mas o preço desta vitória ainda nos será muito caro. Virão ainda mil e uma armações, além das que já estão em curso.

Talvez nos sirva o preceito bíblico: vigiai e orai. Mas com um acréscimo: vigiai, orai e lutai.

Comecemos mais uma semana de combate, meus amigos.

Com a serenidade dos que têm a razão a seu lado.

Mas com a dedicação e coragem dos que sabem que estão lutando uma grande batalha histórica.

Israel: Um governo de piromaníacos põe fogo no Oriente Médio – por Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz] Telavive (Press-release)

“Só um governo que já tenha perdido toda a capacidade de se autoconter e toda a conexão com a realidade comete tal crime. Atirar contra ativistas pacifistas, agentes de obra de auxílio humanitário, de várias nacionalidades, tomá-los como inimigos e enviar força militar massiva, em águas internacionais, atirar para matar e matar, é inconcebível!”

“Ninguém no mundo acreditará nas desculpas e mentiras do governo de Israel e dos porta-vozes do Exército” – disse o ex-deputado Uri Avnery, do movimento “Bloco da Paz”. Os ativistas do “Bloco da Paz”, com vários outros grupos, reuniram-se hoje em Ashdod, Tel-Aviv, Haifa e Jerusalem.

Hoje é dia de desgraça para o Estado de Israel. Dia de ansiedade, em que os israelenses descobrimos que nosso futuro está entregue a um bando de alucinados, todos de armas engatilhadas, atirando sem qualquer senso de responsabilidade. Hoje é dia de desgraça e loucura e estupidez sem limites. Dia em que o governo de Israel enlameou o nome do país ante todo o mundo, juntou mais provas, a comprovar que a imagem de uma Israel brutal, agressiva, não é invenção de propaganda. Hoje Israel dá um passo gigantesco afastando-se dos poucos amigos que nos restam no mundo.

Sim, houve ato de provocação no litoral de Gaza. Mas os provocadores não foram os ativistas pacifistas convidados a vir à Palestina e que tentavam chegar. Provocação houve, isso sim, praticada pelos comandos armados e encapuzados dos barcos de guerra, a mando do governo de Israel, que, para bloquear o avanço dos barcos dos pacifistas, não vacilou em atirar para matar, e matar!

É hora de levantar o sítio que sufoca a Faixa de Gaza e que tanto sofrimento causa aos palestinos. Hoje, o governo de Israel arrancou a máscara da face – com as próprias mãos – e mostrou a verdade: Israel jamais “desengajou-se” de Gaza. Nenhum desengajamento há, se Israel bloqueia o acesso à área ou manda soldados com ordem para matar e ferir quem tente chegar a Gaza.

Pelos Acordos de Oslo, há 17 anos, o Estado de Israel comprometeu-se a permitir e estimular a construção de um porto de águas profundas em Gaza, pelo qual os palestinos pudessem importar e exportar livremente seus produtos e o que necessitassem comprar, para desenvolver livremente sua economia. É hora de cumprir o acordado e abrir o Porto de Gaza. Só depois que o porto de Gaza estiver aberto, para livre movimentação, como acontece nos portos de Ashdod e Haifa, então sim, Israel ter-se-á “desengajado” da Faixa de Gaza. Até lá, o mundo continuará – com razão – a considerar a Faixa de Gaza como território ocupado por Israel; e Israel, responsável pelo destino dos seres humanos que vivem lá.

(reprodução do site Vi o Mundo – de Luiz Carlos Azenha)

Eleições: o dom de iludir – por Fernanda Torres (Folha de São Paulo)

O candidato é um ator em eterno teste; uma condição vexatória e desconfortável

O QUE LEVA alguém a se candidatar à Presidência? A ser tão bisbilhotado, ofendido, pesquisado e aviltado? Que papel grandioso é esse cujo ensaio, estreia e temporada custam o fígado do próprio intérprete?

A política é um palco letal, o Coliseu romano da atualidade. Um lugar de ódios milenares, mágoas irreparáveis, conciliações imperdoáveis e, também, do temível ridículo. Eu seria incapaz de atuar sob tamanha pressão.

Não se trata apenas de dar conta de Rei Lear: tem que voar no jatinho, fazer a carreata, comer dobradinha, andar de mula e enfrentar a tempestade do Crato ao Pampa gritando “Uiva vento!” pelos palanques.

Tem que ter sangue de barata, paciência de Jó, cara de pau e vontade de elefante.

Outro dia me mandaram um link na internet onde a Dilma Rousseff se embananava toda para responder a uma simples questão: “Que livro a senhora está lendo?”

Qualquer um que cultive o prazer de ler sabe que um ser humano que está em plena campanha presidencial não tem cabeça nem tempo para se dedicar à leitura.

Talvez a “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, entre um programa do Ratinho e outro, seja o único exemplar que resista ao tranco, por seu conteúdo bélico de autoajuda milenar.

Mas admitir que não está lendo porcaria nenhuma é encarar as manchetes do dia seguinte afirmando que fulano, ou fulana de tal, é um energúmeno, um(a) ignorante não afeito às letras.

Por isso Dilma se contorce, tentando se lembrar do último livro que leu, o que só consegue com a ajuda dos assessores. A duras penas acerta o título e a mais duras ainda arrisca um resumo dele. A pergunta corriqueira, quem diria, a colocou em um mato sem cachorro.

Se a tivessem arguido a respeito da política de juros, da dívida pública ou até mesmo de um espinhoso tema como o aborto, ela estaria apta a responder.

Bastou uma perguntinha pessoal para que Dilma se afastasse brechtianamente da ciranda da candidata e caísse em si mesma, perdendo o fio do personagem.

O candidato é um ator em eterno teste. Uma condição vexatória e terrivelmente desconfortável.
José Serra escolheu o perfil do conciliador boa-praça, se manteve bem no personagem até que perdeu a paciência na rádio CBN diante da prensa de Míriam Leitão. Míriam, aliás, tem sido dos ossos mais duros de roer para os que estão na corrida presidencial.

Serra soltou um desabafo irritado a respeito do que pensava da relação entre a Presidência e o Banco Central. Depois, teve que remar forte para recuperar a imagem que passou semanas construindo, justificando de forma sincera que o horário matutino lhe havia puxado o tapete.

Qualquer razão idiota, como pular da cama cedo, pode colocar tudo a perder; da mesma forma que um celular que toca no meio de um espetáculo pode fazer Macbeth desencarnar de vez da alma de um ator.

A verdade e a franqueza são armas de destruição em massa na política, é necessário saber ocultá-las com desenvoltura e, muitíssimas vezes, mentir com convicção.

Marina Silva não titubeia, ela é a terceira via, pode dizer o que pensa. Apesar de ter sido ministra, ela não passa pelo comprometimento político dos dois outros adversários, pertencentes a partidos que já ocuparam o Planalto e fizeram alianças muitas vezes incompreensíveis para poder governar.

Marina está dentro e fora do jogo, uma posição importante e confortável.Glorinha Beautmüller, fonoaudióloga e preparadora vocal de inúmeros atores e políticos, é uma figura lendária, dona de intuição aguçada, métodos nada ortodoxos e técnica que visa ancorar a palavra ao corpo e aos sentidos do palestrante.

Profissional ímpar, ela já botou de quatro modelos com ambições a atriz, para que perdessem a pose enquanto recitavam um texto, e aconselhou com veemência que Cláudia Jimenez falasse pela vagina na sua estreia no teatro profissional como uma das prostitutas de “A Ópera do Malandro”. Ao que Claudia, com seu talento e humor de sempre, respondeu, aplicada: “Eu estou tentando, Glorinha, estou tentando!”

Uma vez, a maga foi chamada às pressas a Brasília para atender um político repentinamente afônico e necessitado de discursar. Segura, não pestanejou no diagnóstico: “Meu filho, você está rouco desse jeito porque você mente demais!”

Hoje, o político ideal deve reunir o carisma de Sílvio Santos, a classe de Paulo Autran, a astúcia de Alexandre, o Grande, a retórica de Ruy Barbosa, o empreendedorismo de Antônio Ermírio, a responsabilidade do doutor Paulo Niemeyer, o desapego de Buda, a razão de Confúcio, a bondade de Cristo e ainda sair vivo da arena quando soltarem os leões famintos atrás da sua carne.

Essa pessoa não existe. O político, portanto, tem que ter o dom de iludir.